28.2.07

Possivelmente, o actual governo português teve óptimas razões para (pelo menos aparentemente) ter deitado para o lixo todo o trabalho - e foi muito! - que a UMIC desenvolveu sobre este assunto do Voto Electrónico.
Mas será impertinência perguntar quais foram?

Outra vez?!

DE VEZ EM QUANDO, como agora, lá reaparece a discussão acerca dos horários do comércio.
Nessas alturas, ouvem-se as opiniões dos representantes dos pequenos e dos grandes comerciantes, o Governo também diz de sua justiça, mas, quanto a perguntar (e, acima de tudo, a ter em conta) o que pensam os consumidores... não parece estar nos planos de ninguém.
No entanto, a médio ou longo prazo, o que vai suceder é muito simples: se houver quem queira comprar e quem queira vender, o comércio far-se-á. Caso contrário, não.
Tem sido sempre assim em todos os tempos e lugares, pelo que contrariar essa tendência é como estar a atirar areia para os esporões da Costa de Caparica - o que talvez explique porque é que, neste assunto (como em tantos outros), nunca falta gente a atirar-nos areia para os olhos.

Professores

SEI DE PROFESSORES que sentiram inveja ao conhecerem a frase com que Nicolas Sarkozy sintetizou a noção de respeito e hierarquia moral que gostaria de implantar durante a sua muito provável presidência da França: “Quero uma França em que os alunos se levantem quando o professor entre na sala de aulas”, disse ele.
Julgo que a inveja destes professores, de diversas nacionalidades, reside na admiração da coragem dum discurso destes, por um candidato para quem as palavras têm valor e que não se permite fazer discursos balofos e mentirosos de falsas paixões.
Também em Espanha, Esperanza Aguirre anunciou que vai proibir o uso do telemóvel na Escola e banir as consolas de vídeo-games. Duvido que alguém se interesse por isto em Portugal, com a ânsia de manter a popularidade entre os jovens e com o receio de que lhe chamem fascista.
Na nossa escola, tal como a puseram e assim como está, não há o risco do professor ter de se esforçar, nem se desfaz a comodidade da ausência de conhecimento, que corre paralelamente à indisciplina, tudo generosamente proporcionado por planos educativos baseados na pedagogia da banalidade e da vulgaridade.
«25ª HORA» - «24 horas» de 27 Fev 07

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27.2.07

«ACONTECE...» - Pergunta sem prémio

Fotografias de dois velhíssimos arcos, tão similares e no entanto pertencentes a culturas europeias diversas.

PERGUNTA: a que Europa pertence cada um deles?

(A resposta está em «Comentário-1»)

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O TROVÃO E O RAIO

NUMA TROVOADA, vêem-se primeiro os relâmpagos e só depois se ouve o trovão. A velocidade da luz é cerca de 300 000 quilómetros por segundo, pelo que, na prática, podemos considerar que não há atraso entre o momento da descarga eléctrica e o momento em que vemos o relâmpago. Mas o som propaga-se no ar a cerca de 340 metros por segundo, pelo que o trovão nos chega depois do relâmpago, apesar de ter sido gerado praticamente em simultâneo. O número de segundos entre o momento em que vemos o relâmpago e o momento em que ouvimos o trovão permite-nos pois calcular a distância da tempestade: multiplica-se esse número por 340 e encontra-se, em metros, a distância a que se registou a descarga.
Tudo isto é simples, prático e instrutivo. No entanto, não é completamente verdade, apesar de fornecer uma boa aproximação. Em primeiro lugar, a velocidade do som no ar não é exactamente 340 m/s — aumenta quase linearmente com a temperatura e depende de outros factores. Mas o mais curioso é que o som nos chega muito mais rapidamente, porque começa por viajar como onda de choque ou de explosão, que atravessa o ar a uma velocidade cerca de 40 vezes superior à do som. Essa onda percebe-se por vezes com uma espécie de crepitar que precede o trovão. O trovão só se forma depois de essa onda ter viajado alguns instantes pelo ar. Assim, quando fazemos as contas habituais estamos apenas a calcular uma distância mínima para a tempestade. Na realidade, ela pode estar bastante mais longe. Por isso, leitor, se fizer as contas durante uma trovoada e concluir que o raio lhe caiu em cima, não conclua que acabou de morrer chamuscado.
Adaptado do «Expresso»

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A revolta da Madeira

ALBERTO JOÃO JARDIM colocou-se no centro da vida política portuguesa pelo menos por um semestre. É o semestre da sua acção como presidente demissionário de um Governo Regional que não pode ser demitido por ninguém, após a dissolução do Parlamento e até à realização das próximas eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. Assim o dita o articulado da mais recente revisão constitucional, datada de 2004. O artigo 234.º da CRP sobre a dissolução e demissão dos órgãos de governo próprio das regiões autónomas parece ter sido feito de propósito para esta emergência. Ou seja, Alberto João Jardim vai presidir às eleições que provocou! Não o acusem de imprevidência...
Porque provocou ele novas eleições no prazo de 55 dias a contar da inevitável dissolução da AL pelo PR? Contra todas as aparências, ainda não se sabe bem porquê.
João Jardim é um dos últimos animais políticos de um regime que detesta e que o detesta, mas para o qual tem uma vocação inata. Num regime autoritário e burocrático, possivelmente não teria ido além da Câmara do Funchal. A liberdade, de certa maneira malgré lui, deu-lhe asas e despertou-lhe qualidades de estratego político que o guindaram a personalidade nacional num estilo inimitável. E o que é inimitável tem, pelo menos, carácter. Alberto João Jardim não é um político banal.
De entre os seus predicados políticos sobressaem a audácia e o realismo. O golpe que acaba de desferir tem a ver com o seu lado audacioso. O que fará com a provável vitória eleitoral trará de volta o pendor realista? O discurso de 19 de Fevereiro apresenta os seus objectivos imediatos: captura de um novo e vigoroso mandato de quatro anos, reordenamento da estratégia de desenvolvimento da Madeira assente na procura de maior investimento privado e de uma maior abertura à internacionalização da economia, o que implicará alguma concorrência com Manuel Pinho e Basílio Horta. Isso, ele fará e terá alguns clientes à espreita.
Quanto à evolução institucional da autonomia, ainda é cedo para prever o tempo e o modo. No essencial, Vasco Pulido Valente tem razão: Jardim irá renegociar os termos da autonomia da Madeira. Mas não é certo que prepare um terramoto, ou que adquira força para o provocar.
A última revisão constitucional em 2004 centrou-se quase exclusivamente no título das regiões autónomas. De entre as características dessa revisão, e para além do articulado da dissolução das assembleia legislativas pelo PR, conta-se, em primeiríssimo lugar, a decisiva importância dada aos estatutos político-administrativos, de iniciativa regional, na determinação da autonomia política e legislativa dos arquipélagos. Essa revolução copernicana encontra-se suspensa mas pode ser retomada pela Assembleia Regional a eleger. Duvido porém que esse venha a ser o tema forte da campanha eleitoral na Madeira, tendo em conta o pretexto da demissão de Jardim.
Ora, tenho por pretextuais as razões apresentadas pelo presidente do Governo Regional, que ergueu a nova Lei das Finanças das Regiões Autónomas a besta do apocalipse. É verdade que essa lei é menos favorável à Madeira do que aquela de 1998 também da responsabilidade de um governo socialista. É verdade que, aqui e ali, esta última tem várias normas discutíveis como as que inflexibilizam a possibilidade de o Estado garantir empréstimos às regiões autónomas, ou a que remete para decreto-lei do Governo da República a definição das atribuições e competências necessárias ao exercício do poder tributário já conferido às regiões autónomas pela CRP e pela anterior lei. Mas Alberto João Jardim deve estar a visar mais alto. Ciente de que estas disposições revelam um especial cuidado do Governo da República para com os critérios do Pacto de Estabilidade, tal como avaliados pela Comissão Europeia, ergue-se ele próprio como um possível interlocutor de Bruxelas. É isso aliás que deixa transparecer nas entrevistas que concedeu ao Diário de Notícias do Funchal e ao Expresso.
Por isso é de prever que a maior consequência das novas eleições regionais na Madeira venha ser a elaboração pela Assembleia Legislativa de um novo projecto de estatutos político-administrativos da RAM que estenda as competências de governo próprio até ao céu que a Constituição permitir.
A Madeira prepara-se para ser uma Catalunha estatutária. À portuguesa? Ou seja, pronta a negociar com o projecto de estatutos na mão? Ninguém sabe. Alguém destapou a caixa de Pandora entre Lisboa e o Funchal.
José Medeiros Ferreira - «DN» de 27 Fev 07 - [PH]
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“Rock in Rio” em Madrid

ROBERTO MEDINA publica anúncios de página dupla nos principais jornais espanhóis, entusiasmando jovens, marcas e instituições com a novidade do “Rock in Rio” de 2008 em Madrid.
Arganda del Rey, a 40 quilómetros da capital espanhola, viverá em 27 e 28 de Junho e 4, 5 e 6 de Julho de 2008 a sexta edição do festival celebrado três vezes no Rio de Janeiro e duas em Lisboa.
Nos anúncios, Medina conta aos espanhóis como contratou Frank Sinatra para anunciar um uísque e o levou ao Maracanã a actuar para 144 mil espectadores pagantes e explica ter escolhido Arganda del Rey pela proximidade de Madrid com boas comunicações. O município local já ofereceu 200 mil metros quadrados para ali se erguer uma verdadeira “cidade do Rock”. O promotor diz que até agora, o “Rock in Rio” proporcionou a educação de 3200 jovens brasileiros e contribuiu com milhões de euros para programas de ajuda infantil portugueses. Os espanhóis estão delirantes. Compreende-se. E quando o “Rock in Rio” regressa a Lisboa!? Uma interrogação preocupada dos portugueses. O receio é que lhes digam que Madrid é ali, ao virar da esquina. Pois é…
«25ªHORA» - «24 horas» 26 Fev 07

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26.2.07

Como a tecnologia pode ajudar a combater a crise de vocações na Igreja

A saúde está primeiro...- II

UM DIA DESTES, um responsável hospitalar defendia que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, não é vantajoso ter muitos cirurgiões ao serviço, pois operar é uma actividade em que a prática é fundamental e, havendo demasiados médicos disponíveis, cada um deles acaba por operar pouco.
Ora, são explicações como essa (que qualquer pessoa entende) que têm de ser dadas às populações; e, se há que economizar em alguma coisa, então que seja na arrogância e na verborreia oficiais - de que já estamos abundantemente servidos.

A saúde está primeiro...- I

COMO SE SABE, desde o dia da sua tomada de posse que o Governo tem apontando como «privilegiados» aqueles a quem se propõe retirar direitos - o que faz espaçadamente, lançando a restante população contra eles.
Procedeu assim com funcionários públicos, médicos, farmacêuticos, militares, enfermeiros, professores, juízes, notários...
Mais recentemente, tendo-se dado bem com esse processo em termos de opinião pública, passou a afrontar populações inteiras, como no caso das maternidades. Foi, agora, a vez das urgências.
Quanto a estas, há quem pretenda ridicularizar a contestação popular comparando-a com a revolta da Maria da Fonte, que surgiu porque as pessoas queriam continuar a enterrar os mortos nos adros das igrejas. No entanto, o apoio de que esta revolta beneficiou deveu-se ao facto de, tal como agora, estar em causa um assunto que a todos toca.
Tem sido, também, brandido o argumento de que «não pode haver um serviço desses em cada esquina» - que estaria certo se não fosse uma inversão da questão, pois não está em causa «dar esses serviços a quem os não tem», mas sim «retirá-los a quem já os tem». Como é evidente (e a par da existência de um ministro desastrado em demasia), é esse o verdadeiro motivo da contestação - ou a sua "fonte", já que falámos da Maria da mesma...
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«DESTAK» de 16 Mar 07
Actualizado o arquivo «Humor Antigo»
até Ano 1930-20ª - [ver aqui]

Recordações de Viagens

Por Carlos Barroco Esperança
DAS ANDANÇAS PELO MUNDO, por gosto umas vezes e dever profissional outras, perduram memórias que assomam e trazem sorrisos embaraçosos quando, em espaços públicos, me encontro só.
Um jornal ou livro são adereços com que disfarço a insólita boa disposição que, de supetão, me assalta. Mas como ficar sisudo quando recordo o taxista de Montreal, no Canadá, que, após longa conversa, em francês, tomou conhecimento da minha origem, mudou de idioma e não mais o compreendi? Só percebi que era açoriano, de S. Miguel, e que ficou feliz e loquaz por transportar um compatriota.
E a estupefacção, em Budapeste, quando o guia contava a portugueses o milagre das rosas, obrado pela rainha santa Isabel, tia-avó de outra Isabel, que nasceria em Aragão e repetiu em Coimbra, também já rainha, o milagre que igualmente lhe valeu a santidade na reedição taumaturga do truque de família?!
A Elisa, uma guia com chapéu exótico e sombrinha garrida para que o grupo a localizasse, era convicta na descrição dos milagres com que estupefazia turistas e no apelo para se genuflectirem em frente do altar-mor das igrejas visitadas. Da Elisa lembro o ar empolgado com que mostrava os tétricos esqueletos que o clero italiano guarda nas igrejas para estimular a fé e a generosidade dos crentes.
No museu de um templo, parecido com uma sala de anatomia, a Elisa debitava, perante um esplêndido esqueleto, os milagres que obrara o bem-aventurado proprietário, não restando dúvidas sobre o mérito do santo e o crédito celestial de que gozava. Foi um esqueleto pequenote, vários ossos avulsos após, que perturbou a visita. A Elisa desfiava ainda milagres do santo e, interpelada sobre aquele último esqueleto, respondeu que pertencera ao mesmo, quando era mais novo, enquanto, por entre risos que não lhe abalaram a convicção, esgotou os prodígios do canonizado que era o patrono e estrela daquela catedral.
Das dezenas de profissionais que me guiaram em visitas, a Elisa é a que mais recordo. Não era o entusiasmo que lhe apreciava – pagavam-lhe para isso –, era a convicção. Nem sequer o padre que garantia, perante o pasmo dos paroquianos, que S. João Baptista, depois de decapitado, ainda agarrou a cabeça e a beijou, nem esse, punha tamanho convencimento nos prodígios com que preservava a fé e a côngrua.
Em Marraquexe, alertado por algo estranho, levei a mão ao bolso e encontrei outra, que logo agarrei, presa a um marroquino. Gritei pela polícia, e o miúdo, resignado, não tentou fugir. Com olhos de fome e tristeza, sem contar com a minha mão nem com a eventual vigilância de Alá, que mandou o profeta Maomé, bruto e primário, decepar as mãos que roubam, levou o óbolo que pretendia. Quando se afastou, foi meu o alívio e dele a gratidão pelas moedas com que recompensei a fome e o atrevimento.
Num congresso sobre doenças benignas da mama, em Rodes, após os discursos dos presidentes das Sociedades Grega e Europeia de Endocrinologia e do ministro da Saúde da Grécia, todos em inglês, levantou-se o patriarca, com garridas vestes talares, e fez, em grego, uma curta prédica que, após a estupefacção geral, terminou em apoteose. Foram frenéticas as palmas e ergueu-se o congresso. Não sei se foi o tema que o atraiu para o imprevisto discurso ou a tentação de fazer ouvir a voz da Igreja ortodoxa a quatro mil congressistas que ignoravam o idioma.
Num jantar de gala, em Monte Carlo, um criado foi inadvertidamente empurrado e vazou o conteúdo da travessa sobre uma elegante mulher, com o molho a penetrar o decote, a inutilizar o vestido e a queimar o corpo que merecia outros ardores e não carecia do acidente para atrair olhares. Levantou-se e deixou o salão cheia de dignidade e nódoas, enquanto o criado era substituído, perante o silêncio sepulcral de oitocentas pessoas.
Em Lubliana, um ratinho decerto melómano passeou pelo palco durante a execução de um trecho de Beethoven, sem desconcentrar os músicos. Agitou a audiência e só saiu de cena depois de partilhar os aplausos com o maestro e os menestréis.
Em Nice, um congressista isolou-se numa área vazia do auditório e adormeceu. Era propício o ambiente: a luz ténue, a temperatura morna e monótona a voz do orador. Teria sido pesado o almoço e a digestão revelou um roncopata furioso cujos decibéis interromperam por instantes a comunicação e expuseram o imprudente participante à execração geral. Acordou, como o moleiro a quem pára a mó, com o silêncio. E a conferência lá prosseguiu, a bem da ciência e da decência.
«Jornal do Fundão» – 22 Fev 07

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25.2.07

Se necessário, clicar na imagem, para a ampliar.
Actualizado «Humor Antigo» até 1930-15ª - [ver aqui]

Jornais: espécie em vias de extinção

O JORNALISMO DE REFERÊNCIA, segundo dizem, está cada vez mais parecido com o lince-da-malcata. É uma espécie em vias de extinção. Aguardo por um documentário da National Geographic na redacção do DN. Uma acção aparatosa da Greenpeace na Avenida da Liberdade. Cartazes escritos a letras gordas "parem a matança".
Nos últimos três anos, entre efectivos e interinos, o Diário de Notícias teve seis directores. O Público reestruturou-se de cima a baixo e cremou o velho logótipo. O Expresso reestruturou-se de baixo a cima e expulsou o velho guru. Os leitores, esses, continuam a acenar com a mão: adeusinho.
A maneira fácil de encarar o problema é falar na iliteracia ou nos novos media - dois extremos, o mesmo argumento: não há espaço para os jornais. A maneira mais difícil é admitir que a qualidade do que se imprime é, no mínimo, duvidosa. Porquê? Porque jornais e jornalistas funcionam em circuito fechado. Escrevem para as fontes e para os colegas, como se os leitores não fossem aqueles para os quais trabalham, mas aqueles que têm o dever moral de os ler. Porque são superficiais. Confundem a construção das notícias com o relato do que dizem as partes em confronto, recusando a análise e comprometendo um jornalismo adulto e sofisticado. Porque têm demasiados preconceitos. Deixam de lado dezenas de boas histórias, etiquetadas como "popularuchas", esquecendo que a grande distinção entre um jornal de referência e um popular não está na escolha das notícias mas no seu tratamento. Porque lhes falta agressividade.
O jornalismo português não está a cumprir o seu dever de vigilância sobre os poderes - não irrita ninguém, não incomoda, é bem comportado, pouco curioso, insosso. Porque há um défice de criatividade. Existem canais de televisão com 24 horas de notícias, informação online, diários gratuitos, mas os jornais continuam a encher páginas com noticiário morto na véspera em vez de centrarem os seus recursos nas histórias que são só suas.
Os leitores não são estúpidos. Os jornais de referência é que se estão a transformar nos dodós do século XXI. Extintos por incapacidade de adaptação.
João Miguel Tavares - «DN» de 24 Fev 07 - [PH]
Actualizado «Humor Antigo» até 1930-10ª - [ver aqui]

A sondagem

A SONDAGEM DN/TSF/Marktest pôs números no que os cidadãos percepcionam. A direita tem razões para estar nervosa.
Os 27% de intenções de voto atribuídos ao PSD são, para os fiéis, decepcionantes. Claro que há que ter em conta que o ponto de partida para esta legislatura foi, para além do que disseram as urnas, um desencanto e um descrédito para os quais não se vislumbram precedentes. Numa fase inicial, até pareceu que a nova direcção estava consciente da necessidade de grandes e urgentes mudanças. E a política arriscada que adoptou para com algumas candidaturas nas autárquicas foi um grande investimento em valores a que a classe média é geralmente sensível. Mas o grupo parlamentar fora naturalmente feito pela direcção anterior e o aparelho partidário só se renova pelo cerco de uma grande mobilização dos quadros que não gostam de ser oposição. As "grandes manobras" da revisão do programa do partido começaram tarde e, não sendo optimista o ar que por lá se respira, ameaçam não vir a ser cavalgada que intimide o aparelho. Depois veio o apoio sem reservas a Jardim: um apoio que, no Continente, não é bem compreendido e que, por não retribuído nem explicado, foi tido por uma subordinação sem princípios. Depois ainda, foi o escusado estatuto de perdedores do referendo (agravado por haver, no partido, vencedores). E, enfim, o galope suicidário da Câmara de Lisboa: um problema de dimensão nacional em que Marques Mendes, ao proporcionar o espectáculo televisivo da convocação de Carmona Rodrigues à sede do PSD, fez suas as responsabilidades de uma crise para a qual ainda não teve soluções. É neste contexto que a fraqueza dos desafios à liderança, como as entrevistas de António Borges ou o site de Luís Filipe Menezes, revela apenas a anemia do partido, e não a inexpugnável fortaleza de quem nele manda.
Mas também o CDS tem os seus agoiros. Mais do que os 5% de intenções de voto, falam os 32% de saldo negativo nas apreciações de "simpatia". E maior do que esta sombra é a que projecta Paulo Portas e a sua promessa de uma "declaração política" para os próximos dias. Claro que é bem possível que seja cedo para avançar: nem o luto penou o bastante, nem a prudência recomenda uma exposição de dois anos. Mas, seja a declaração o que for, Ribeiro e Castro, ligado ao ventilador, passa a viver um tempo emprestado que só (e duvidosamente) um enésimo congresso poderia devolver-lhe.
«DN» de 25 Fev 07

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24.2.07

«Humor Antigo» - Nova série

Iniciada a série «Humor Antigo» - Ano de 1930 [ver aqui]

MÚSICA E PALAVRAS


QUANDO MENCIONAMOS UMA ÓPERA, a primeira referência que nos ocorre é o nome do compositor, isto é, do autor da partitura musical. A partir daqui, é habitual passarmos a discutir os intérpretes que preferimos - sejam os cantores, sejam os maestros. Também se tornou frequente comentar as encenações e, até, as cenografias. Bem mais raro é falar dos autores dos libretos, mesmo quando se trata de excelentes escritores, dramaturgos e poetas - ou, até, dos próprios compositores. «Prima la musica - dopo le parole»? «Prima le parole - dopo la musica»? Para uma larga maioria de amantes da Ópera, o predomínio da música sobre as palavras parece não oferecer, hoje, qualquer dúvida.
E, no entanto, é evidente que a Ópera nunca poderá dispensá-las: nem a música, nem as palavras. Não existe Ópera sem partitura ou sem libreto. Mesmo sendo verdade que uma óptima partitura consegue sobreviver a um libreto medíocre, ao passo que uma partitura medíocre nunca poderá salvar um óptimo libreto. Seja como for, são vários os libretistas de grande talento que conquistaram lugares de relevo na história da Ópera, ao longo dos 400 anos que ela já percorreu. Sendo o espaço exíguo para mencioná-los um por um, optei por referir apenas três, entre os melhores, dadas as magníficas parcerias que formaram com três dos maiores compositores da história da Música.
Na segunda metade do século XVIII, é incontornável a parceria constituída pelo divino Mozart e o libertino abade italiano Lorenzo da Ponte – autor de 36 libretos e das pitorescas Memórias de uma vida tumultuosa, digna de Casanova. Três óperas bastaram para o imortalizar, ao escrever para Mozart os libretos de três obras-primas: Le Nozze di Fígaro (1786), Don Giovanni (1787) e Cosi Fan Tutte (1790). Uma dupla infernal, em que o génio do compositor de modo algum diminui o talento do libretista.
Na segunda metade do século XIX, outra dupla notável reuniu Giuseppe Verdi e Arrigo Boito, excelente poeta italiano, além de compositor e libretista. Colaborou com Verdi na remodelação de Simon Boccanegra (1881), dando um contributo decisivo para a transformar numa ópera admirável. Mas foi, sobretudo, o autor dos libretos de outras duas obras-primas de Verdi: Otello (1887), a partir da peça homónima de Shakespeare; e Falstaff (1893), a partir de duas outras peças de Shakespeare: As Alegres Comadres de Windsor e Henrique IV. Boito mostra-se à altura de Shakespeare e de Verdi.
Já no princípio do século XX, a magnífica colaboração entre Richard Strauss e o excelente poeta e dramaturgo austríaco Hugo von Hofmannsthal deu origem a algumas óperas memoráveis, sobretudo: Elektra (1909), Der Rosenkavalier (1911), Ariadne auf Naxos (1913), Die Frau Ohne Shatten (1919) e Arabella (1933), esta última estreada já depois da morte de Hofmannsthal, em 1929. O inegável valor intrínseco dos libretos foi admiravelmente posto em relevo pelo génio de Richard Strauss. Desça o pano!
«DN-6ª» de 23 Fev 07
NOTA: Este texto encontra-se também afixado no blogue «TRAÇO GROSSO» [v. aqui], arquivo das crónicas publicadas pelo autor no «DN-6ª».

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Estatuto andaluz

OS ANDALUZES foram às urnas para decidirem se queriam, ou não, a nova definição da Andaluzia como realidade nacional. Dado o entendimento verificado entre os grandes partidos e o facto do texto constitucional ser consensual, poucos foram os que corresponderam à convocatória deste referendo andaluz.
A distância crescente entre a classe política e os restantes cidadãos, que também em Espanha fortemente se faz sentir, fez crer numa deterioração para a legitimidade do sistema. A campanha andaluza teve muito pouca repercussão nacional. E deixou bem claro que não foi nenhuma exigência social ou, muito menos, uma necessidade histórica que levou os andaluzes às urnas deste referendo, o qual muito pouca gente levou a sério.
Os socialistas acusaram os populares do PP por este desinteresse. Desviar para os adversários a responsabilidade dos erros próprios é hoje uma prática frequente e generalizada. Mas o que se pode concluir é que este estatuto andaluz parece mais uma fuga para a frente dum governo castelhano que não tem projectos tão sólidos como isso.
«25ªHORA» - «24 horas» de 23 Fev 07

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23.2.07

Zeca sempre ao fim de 20 anos

FAZ HOJE 20 ANOS que o homem partiu deixando-nos o mundo.
Ficámos mais pobres, mais órfãos do saber e do viver.
Hoje, reflectindo o espanto de tantas mortes progressivamente convividas, pergunto-me se não haveria mais do que o cantor no nosso peito. Claro que havia. O Homem, o Filósofo, o Poeta, o Amigo.
Havia seguramente o seu ar desleixado e non chalant, o seu sorriso maroto por detrás dos óculos grossos, a sua atenção desatenta, as suas gaffes proverbiais, a sua indiferença perante o bem parecer, a sua permanente preocupação pedagógica, a sua reflexão inteligente, imediata.
Eram e foram também vinte anos a mais que acumulámos em raiva comedida e erros e saudade. Saudade que passa também por nós próprios, companheiros que cantámos com ele por esses palcos fora talvez algumas horas de sol e ré ao som da chula da Póvoa, que, pelo menos essa, todos nós sabíamos.
- Oh Pedro, tu que tens esse boieiro todo, ataca aí, que eu ando com pigarro...- dizia-me ele com humildade. Disparate! Alguém queria saber de mim? Era ele o desejado, a figura maior do nosso acreditar.
Zeca e outros, era assim que se anunciava.
Por vezes, mesmo sem ele próprio saber que tinha sido anunciada a sua presença naquele sítio e lugar.
E nós, companheiros de palco, éramos os outros. Pacificamente e sem inveja. Com um orgulho imenso de o sermos.
Pois seremos nós, hoje, os outros todos, que lembramos. O povo que deixaste.
Mas o exemplo universal do homem probo e bom, do homem que nada quis para ele e mudou a paisagem sonora de tudo o que crescemos, de tudo o que aprendemos, esse exemplo fica.
Vinte anos já, Zeca?
Foi ontem que morremos todos um pouco contigo.
Se não acreditas, vê só até onde isto já veio parar. Ouve e vê.
E morramos outra vez de susto, neste choupal imenso de agonia e cupidez.
Deixa-me sonhar.
A catedral está ainda toda por fazer.

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Serão as tão faladas portagens à entrada de Lisboa?

Esta foto foi enviada por Vítor Coelho que apenas adiantou que a estrada em causa tem 2 km de extensão e se paga €0,75 de portagem. Alguém sabe onde fica?

A ÚLTIMA CAUSA DA ESQUERDA

COM AS DÉCADAS HABITUAIS DE ATRASO, Portugal passou a ter um regime mais ou menos europeu de interrupção voluntária da gravidez. Uma mudança que, ainda que contasse com o apoio de algumas cabeças menos teológicas da direita, foi pelo que contém de desejo de inovação, de oposição ao conservadorismo como princípio e por estar preocupado com os interesses da maioria – em especial dos mais desfavorecidos - uma genuína causa da esquerda.
Só é pena que não haja mais.
Não há mais porque a ideia de um projecto de mudança sempre foi a marca distintiva da esquerda e o que marca hoje a esquerda portuguesa é o mais exacerbado dos conservadorismos: aquilo que resta da esquerda do Bloco de hoje ao PCP está inteiramente hipotecado aos sindicatos do sector público e o seu único projecto é conseguir manter ou aumentar as transferências do sector privado para o sector público. O défice do orçamento é um falso problema e o IVA podia estar a 25%.
As greves a que assistimos hoje são dos transportes públicos (atingindo aquela parte da população que os utiliza) para conseguir a subsidiação pública que garante que os salários e as condições gerais de trabalho se mantenham bem acima de trabalho igual no sector privado.
As manifestações são dos sindicatos de professores empenhados em que tudo continue como está e garanta a manutenção de um dos piores sistemas de ensino da Europa. Poderíamos continuar mas não vale a pena. A esquerda apoia mesmo os militares quando estes exigem que uma parte maior do PNB seja atribuída a despesas com a defesa.
O facto de ser hoje no sector privado que se verificam os mais baixos salários e as piores condições de trabalho não pesa nos seus projectos porque nesses sectores não há sindicatos.
Por isso, a questão central de um projecto unificador que correspondesse ao interesses legítimos do maior número desapareceu quando actividade e projecto da esquerda começa a querer dizer reivindicações dos sindicatos do sector público ou – o que é ainda pior – apoio a estruturas tão sinceramente dedicadas ao bem público (de uma forma muito peculiar) como a Associação Nacional dos Municípios.
O Bloco de Esquerda ou o PCP nada têm a dizer sobre as causas estruturais que levaram ao apodrecimento generalizado do poder local. Votaram mesmo contra a nova Lei das Finanças Locais com as suas tímidas tentativas de responsabilizar politicamente os autarcas pelas despesas que fazem. Continuam a defender o processo dos fundos de redistribuição Orçamento do Estado/Município que separa a decisão de gastar da decisão de cobrar e que legitima o desperdício e a corrupção.
Tudo isto torna a vitória do sim no referendo do aborto um período de viragem na sociedade portuguesa. A direita rural e conservadora deixou de reinar na zona dos costumes (que ainda dominava) mas ao mesmo tempo a esquerda mostra-se cada vez mais sem projecto e sem programa: como se a teimosia factual do imperativo financeiro de equilíbrio das contas públicas matasse às nascença qualquer outro projecto de mudança.
«Expresso» de 17 Fev 07

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Novo logótipo da Câmara Municipal de Lisboa?

Actualizado «Humor Antigo» até 1940-80ª - [ver aqui]

Royal trambolhão

EM POUCAS SEMANAS de campanha, Segolene Royal começa a mastigar em seco e o projecto político do Partido Socialista francês, que esta bela morena pretende personalizar, dá sinais de estar gasto e de não ir a lado nenhum.
Por detrás do barulho das luzes, há um visível vazio. O mais dramático, neste caso, é que o esvaziamento se verifica sem ajudas, sem sequer enfrentar algum adversário, designadamente Nicolas Sarkozy, o mais credível candidato do centro-direita francês.
A candidatura de Royal desfaz-se por si própria, acusando, por exemplo, a demissão do responsável pela Economia do PS em resposta à falta de apoio do partido.
Diversos líderes europeus avisaram para os perigos da vacuidade deste projecto sem rumo, baseado numa declaração de boas intenções referidas de acordo com o perfil de cada auditório.
Os socialistas franceses não escondem a sua preocupação. Para mais, vindo as legislativas a seguir às presidenciais e podendo os socialistas pagarem muito cara a frivolidade de optar por uma candidata bonitinha mas que, nem de perto nem de longe, está à altura das questões da França.
«25ª HORA» - «24 horas» de 22 Fev 07

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"Post-aberto" - EXCEPTO anedotas


Aqui fica, para quem o quiser utilizar.

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"Post-aberto" - SÓ anedotas


Aqui fica...

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22.2.07

A partir de hoje, o «SORUMBÁTICO» passa a contar, também, com a colaboração de Manuel João Ramos, da ACA-M (Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados)

A EMEL, a PSP e os políticos

A ASSOCIAÇÃO SINDICAL dos Profissionais da PSP protestou ontem contra a decisão da CML de pôr os funcionários da EMEL a autuar os condutores que estacionam constantemente em segunda fila, sobre os passeios, sobre as passadeiras.
A ACA-M pergunta-se: por que razão chegámos a uma situação em que a fiscalização do estacionamento selvagem em Lisboa é feita por uma empresa municipal e não pela Divisão de Trânsito da PSP?
A resposta parece-nos óbvia: É que durante anos, a DT-PSP, a autoridade policial que podia e devia combater os flagelos lisboetas do estacionamento indevido e do excesso de velocidade, demitiu-se quase completamente da sua função.
Claro que a ACA-M prefere que a DT-PSP faça o seu trabalho e que a CML não tenha esse encargo adicional. Claro que muitos condutores que abusam das falhas do sistema estarão agora irritados porque vão passar a pagar como os outros.
É a vida. Mas, para a ACA-M, a verdadeira questão de fundo é saber de quem foi a responsabilidade política de a DT-PSP se ter demitido da sua obrigação – dado que não consta que os comandos da PSP tomem decisões políticas.
Fazemos assim um apelo à Assembleia da República para que investigue este estranho caso de polícia.
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Comunicado da ACA-M de 21 Fev 2007

A dança e a "contra-dança"


EM VÁRIOS PONTOS do país, e perante situações absolutamente escandalosas de estacionamento selvagem (cheguei a ver-me impedindo de entrar em casa!), interpelei, por diversas vezes, graduados da PSP - que andavam por perto - perguntando-lhes porque é que não actuavam. Ora, e como muito bem sabe quem já fez o mesmo que eu, as respostas que nos dão são variadíssimas, sendo a mais espantosa a de que «têm ordens para só actuar a pedido». Por isso, quando oiço agora uma associação sindical da mesma corporação a reclamar contra o meritório trabalho da EMEL (em Lisboa), não posso deixar de me lembrar da anedota da senhora que estava a dançar com um cavalheiro que só a pisava:

- O senhor não gosta de dançar? - pergunta ela.
- Adoro! - responde ele.
- Então porque é que não dança?

«Público» de 24 Fev 07 e «DESTAK» de 26 Fev 07

Na foto (Jan 2007): estacionamento selvagem a dois passos de uma esquadra da PSP (ao fundo) e a poucas dezenas de metros de vários parques de estacionamento gratuitos... e às moscas, evidentemente.

O Grande Maquinista

CONTRARIAMENTE ao que muita gente pensa, o actual Ministro da Saúde não é formado em Medicina mas sim em Direito - o que ajuda a explicar o facto de "falar pelos cotovelos", dando razão ao ditado «Quem muito fala pouco acerta».
Vem isto a propósito do facto de, um dia destes (numa reunião com deputados do PS - no seguimento do referendo sobre o aborto), ele ter proclamado: «A nossa reforma é um comboio (...), mas o maquinista sou eu!».
Segundo nos dizem, essa metáfora de teor ferroviário caiu mal entre a assistência - porventura por ter sido proferida no mesmo dia do desastre da linha do Tua. Mas, quanto a mim, teve a vantagem de me fazer vencer a preguiça e me levar, finalmente, a ver o filme «Pamplinas, Maquinista» - que, além de ser um clássico incontornável, tem a vantagem de ser mudo.
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Publicado no «DESTAK» de 22 Fev 07
Actualizado «Humor Antigo» até 1940-75ª - [ver aqui]

Tempo ao tempo

A CRESCENTE INDISCIPLINA nas escolas portuguesas impõe que disposições sérias sejam adoptadas para que a triste educação dos Portugueses não vá de mal a pior.
A anormalidade não pode ser adoptada, nem aceite, como o estado vigente e correcto das liberdades e direitos dos alunos. Chegou-se a um ponto em que se impõe que se ponha termo ao excesso de permissividade existente no sistema educativo português.
Para que tal seja possível, impõe-se que o Ministério da Educação reforce a autoridade dos professores, de modo a que haja disciplina nas aulas e motivação nos alunos de molde a criar-se um novo ambiente que permita uma sã convivência entre todos.
Por muito distendidas que sejam as relações e compreensivos que hoje sejam os professores, os estudantes não podem permitir-se a preferirem um MP3 ou um ipod aos ensinamentos dos seus professores numa sala de aulas.
É importante que os alunos saibam, e possam verificar na prática, que distrair os colegas ou importunar o esforço educativo dos professores não pode ficar impune. Se assim se proceder, muita coisa poderá melhorar em Portugal. É só dar tempo ao tempo!
«25ªHORA» - «24 horas» de 21 Fev 07

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21.2.07

Embora um pouco por acaso, esta imagem acabou por ficar muito bem colocada:
Como se sabe, as anedotas devem, sempre que possível, vir a propósito de alguma coisa - esta ilustra bem o que é uma "desculpa tonta" (post anterior) e a "indisciplina escolar" (post seguinte).

Videntes e evidentes



A anedota completa que, por sinal, é de leitura mais do que evidente, está disponível em: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=12&id_news=263719
Actualizado «Humor Antigo» até 1940-70ª - [ver aqui]

O público da pedreira

QUE EU DESSE POR ISSO, já por duas vezes que o presidente do Sporting de Braga insulta os bracarenses por não irem ver a equipa jogar à bola. Ou o homem apanhou sol na moleirinha, quando era bebé, ou deu uma pancada na cabeça quando andava na escola e ficou a dizer coisas assim.
É verdade que o último jogo contra o Parma parecia um daqueles jogos à porta fechada que há em Itália, o que ajuda pouco aquele estádio milionário que, na Televisão, parece estar sempre por acabar, apesar de me garantir quem já lá esteve que é o mais bonito dos 10 estádios que o Guterres ofereceu à Pátria.
O problema é que aos bracarenses, como ao resto dos portugueses, não tocou nenhuma parte das comissões da construção patriótica dos estádios do Euro, pelo que não é fácil ir ver jogos na ventania da pedreira e àquele preço!
O cavalheiro que vá ao teatro, e fale depois de ver uma companhia inteira a representar para trinta espectadores. Perceberá melhor o que é viver em Portugal.
«25ªHORA» - «24 horas» de 20 Fev 07

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20.2.07

«Cartas de Iwo Jima» - um filme ABSOLUTAMENTE a não perder.

Cristais de colesterol

AO DEDICAR-SE AO ESTUDO DO COLESTEROL, o botânico Friedrich Reinitzer (1858–1927) descobriu que um seu derivado, o benzoato de colesterilo, tem um comportamento estranho. Aquecendo-se a 145,5 ºC, torna-se num líquido turvo e pastoso. Prosseguindo o aquecimento até 178,5 ºC, torna-se transparente. Reinitzer não percebeu o que se passava, nem se esse facto viria a ter alguma utilidade, mas não desistiu de perceber o fenómeno.
O cristalógrafo Otto Lehmann (1855–1922), consultado pelo botânico, estudou o composto com o seu microscópio de luz polarizada e notou um facto extraordinário. Descobriu que no líquido fluíam pequenos cristais — por vezes chamados cristalitos. Revelou essa descoberta num artigo de 1889 em que dava conta da sua surpresa: «Cristais que fluem! Não estaremos perante uma contradição de termos?» E assim parecia.
Refeitos da surpresa, os cientistas, também sem imaginarem que isso poderia ter alguma utilidade imediata, começaram a estudar intensamente os cristais líquidos. A história dessa pesquisa encontra-se num livro de Tim Sluckin agora editado pela IST Press. Intitula-se «Fluidos Fora da Lei» e conta as peripécias destes mais de cem anos de investigação. O final feliz estamos a vivê-lo todos, com dispositivos simples, eficientes e baratos nos termómetros, nos computadores e nos mostradores das máquinas de calcular. Nestas usam-se cristais líquidos que se dispõem entre duas placas de vidro polarizado, deixando passar a luz. Quando se aplica uma corrente eléctrica, os minúsculos cristais alinham-se, tal como uma colecção de pequenos ímanes, e a luz não passa. Simples e eficiente. Afinal, valeu a pena estudar o colesterol ao microscópio.
Adaptado do «Expresso»

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Ah, grandes campeões!

IMAGINE-SE que o presidente de um clube desportivo, a quem a vida não anda a correr de feição, resolve convocar uma Assembleia Geral para que os sócios decidam... quem deve ser o campeão nacional - e depois, no seguimento do resultado que se imagina, vem a terreiro proclamar que passou a ter toda a legitimidade para reivindicar o título que lhe andava a fugir.
A ideia parece delirante mas, na realidade, o que o Presidente do Governo Regional da Madeira quer fazer é exactamente o mesmo:
Irritado com a nova Lei da Finanças Regionais, o Dr. Jardim acha que a solução é convocar eleições antecipadas no Arquipélago. Pretende ele, no seguimento de uma votação favorável de UMA PARTE da população nacional, tirar conclusões que obriguem a sua TOTALIDADE - nomeadamente a que lhe fornece o dinheiro que se habituou a gastar a seu bel-prazer.
Trata-se de um jogo primário, mas a que não faltam adeptos: veja-se como até autarcas a contas com a Justiça esgrimem as suas vitórias locais como legitimação de actos que têm consequências no país todo.
Mas sejamos realistas: tendo em conta que essa rapaziada não se tem dado nada mal com tão tosco artifício, há que reconhecer que, pelo menos no que toca a descaramento, estamos bem servidos de campeões da modalidade!
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«DESTAK» 13 Mar 07

Actualizado «Humor Antigo» até 1940-64ª - [ver aqui]

Holograma

EVA PERON teve a Argentina aos pés da sua imagem de alternadeira amiga dos pobres e não se safou nada mal. Muitos primeiros - ministros fizeram pior do que ela. Hoje, no entanto, conta muito menos o que se faz e é mais importante aquilo que parece. As modernas democracias são imagem pura.
Na primeira república, Manuel Teixeira Gomes foi um grande político sem nenhuma imagem, enquanto António José de Almeida foi um pequeno político com uma grande imagem. Já em Roma se cultivava a imagem, embora ali existindo gente prudente e sábia capaz de dizer “prefiro que me interroguem por que razão não tenho eu uma estátua em Roma, a que me perguntem porque tenho eu uma estátua em Roma”.
Sócrates continua a mandar em São Bento e tem imagem, apesar de, até agora, só o termos visto ganhar jogos amigáveis. No entanto, ele acredita, secretamente, que triunfará, quando todas as suas utopias e promessas se converterem, finalmente, em realidade. Vamos esperar para o aplaudir e lhe darmos razão ou para nos convencermos de que não passa dum holograma.
«25ªHORA» - «24 horas» de 19 Fev 07

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19.2.07

A propósito de náufragos...


«DN» de ontem
Em condições normais, este cartoon de Bandeira teria, também, uns quantos tubarões a nadar em círculo em torno da ilha - representariam, é claro, a Oposição a preparar-se para tratar da saúde ao "isolado".
Ao omiti-los (propositadamente ou não), o autor também nisso foi certeiro...

A propósito de touros...


Foto enviada por V. Coelho

Como se sabe, a ameaça referida por Carlos Barroco Esperança, em 2002 (na crónica acabada de afixar), veio a concretizar-se pois Jorge Sampaio, sensato, resolveu aplicar o princípio «Se não se consegue proibir, então legalize-se!».
Logo de seguida, a Câmara Municipal de Lisboa, reconhecendo as virtudes de tão sábia filosofia, resolveu que o estacionamento à minha porta (que sempre fora proibido, mas que ninguém respeitava) passasse a ser legal... e pago.

Os Touros de Morte

Por Carlos Barroco Esperança
PAIRA A AMEAÇA de um projecto de lei que cria uma excepção para “touros de morte” em Barrancos. O líder parlamentar centrista (Telmo Correia) anunciou que o diploma permitirá a morte dos touros nos casos em que a existência de uma tradição ininterrupta seja comprovada pelas autarquias.
Desde o regime monárquico até à ditadura a que o 25 de Abril pôs termo, passando pela pena de morte, a escravatura, a Inquisição e a censura, não há estultícia, crueldade ou patifaria que a existência de uma tradição ininterrupta não legitimasse.
Os “touros de morte” são o que são – uma barbaridade para gáudio de quem descarrega no bicho a violência que transporta, violência catalisada em regozijo dos que a praticam e dos que assistem. Quanto às pegas, eu próprio gosto, tomando o partido do touro, porque há muito me habituei a colocar-me contra a força.
Já quanto à justificação, seja do que for, com recurso à tradição, confesso que arranha a inteligência e fere a sensibilidade. Dispenso-me de enumerar um nunca mais acabar de hábitos sórdidos que o humanismo acabou por erradicar. Mas, ainda assim, não deixarei de lembrar que é tradição em meios rurais portugueses matar um irmão ou cunhado por motivo de marcos, águas ou serventias cuja posse se reivindica. Não sei se esta prática ancestral que cai sob a alçada do Código Penal poderá ser legalizada onde o Presidente da Câmara comprove, sem lugar a dúvidas, ser uma tradição local genuína, ainda que não praticada todos os dias. Como hábito ancestral eximir-se-á assim ao tribunal, sobretudo se a arma do crime for uma sachola brandida com convicção na cabeça da vítima, como é apanágio da mais lídima tradição lusitana.
Na Índia ainda subsiste em meios rurais o nobre hábito de a viúva acompanhar o marido à pira funerária, tradição que os familiares do defunto se esforçam por perpetuar. Mas isso tem custado alguns amargos em tribunal.
Há terras lusitanas onde permanece a louvável tradição de perseguir a mulher que abandone o marido e sujeitá-la a diversas humilhações para execrar o acto e desincentivar o exemplo. Será conferida autoridade ao presidente da Câmara autóctone para legitimar esta tradição indígena?
Junho de 2002

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18.2.07

Actualizado «Humor Antigo» até 1940-51ª - [ver aqui]

Humor actual

Manchete do «PÚBLICO» de hoje
Esta notícia vem completar uma outra (aqui referida, há algum tempo) que nos dava conta de que cerca de um milhão (!!) de registos de infracções tinham sido "desviados", na mesma DGV, para o cadastro de pessoas alheias às mesmas.
Se alguém souber quais foram as conclusões do consequente rigoroso-inquérito-até-às-últimas-consequências-doa-a-quem-doer, informe, p. f.

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No Dubai...




Numa outra imagem, que aqui não se mostra, percebe-se melhor que esta plataforma é uma varanda de um dos muito arranha-céus-loucos do Dubai. No entanto, certos pormenores dão a ideia de que pode tratar-se de uma composição digital.

Actualizado o «Humor Antigo» até Ano 1940-45ª - ver [aqui]

O destino em manobras

FOI PENOSO OBSERVAR como foi evoluindo, no terreno da campanha, a posição do PSD no referendo. Começou numa neutralidade táctica que libertou dezenas dos seus mais conhecidos quadros políticos para o campo adversário. Passou depois a um conúbio indisfarçado com o "não", a pretexto de ser essa a legítima posição pessoal do líder. Terminou com a adopção de uma acrobática teoria que Marcelo Rebelo de Sousa engendrara para sua própria preservação, mas que fazia perder mil votos para a abstenção por cada um que lograsse cativar.
Tudo isto correu tão mal que o PSD surgiu mais penalizado do que o CDS (que segurou com força a trela do "não" e correu, ofegante, atrás dele durante quinze dias).
Perfilavam-se entretanto novas e delicadas batalhas: as do rescaldo do referendo, com a transferência política da matéria votada para o domínio jurídico da lei ordinária. Era preciso juntar os cacos, cuidar dos feridos, reorganizar trincheiras. Era preciso, pois, fazer esquecer os juízos que a campanha e as urnas instalaram no eleitorado.
Para isso, os grandes tácticos sugerem sempre uma manobra de diversão. Mas uma manobra que, para ser credível, deve estar virada, não contra os adversários do PSD, mas sim contra ele mesmo. E aí o destino fez surgir o génio, aquele que por vezes lateja sob os escombros das grandes derrotas: soltar o ilimitado potencial de inépcia, confusão e tiro aos pés da equipa camarária do PSD em Lisboa. Assim foi: e à cratera financeira, às obras paradas, à sensação de uma autogestão omissiva, à ruptura da coligação com o CDS, à auto-suspensão da vereadora do urbanismo, iriam assim suceder delirantes jogadas (como a do seguro de saúde para todas as crianças da cidade) mais o não-suspende-mas-suspende que tirou de cena o vice-presidente e obriga a novas redistribuições de pelouros.
Esta manobra de diversão, porém, descontrolou-se. A ninguém se deseja o dia atormentado e caótico que foi o de sexta-feira, na S. Caetano e na câmara. É uma nova e formidável derrota da imagem do PSD na cidade capital. Agora, bem vistas as coisas, aquilo de que ele precisa é de uma manobra de diversão que afaste da câmara as atenções. Uma coisa que, para ser credível, tem de estar virada, não contra os adversários, mas contra o próprio PSD. Algo digno do génio que por vezes lateja sob os escombros das grandes derrotas.
Sugiro, pois, que o PSD volte ao aborto.
«DN» 18 Fev 07

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Actualizado «Humor Antigo» até Ano 1940-38ª - ver [aqui]

Para pior, já basta assim

W. BUSH parece a personificação da lei de Murphy. Se houver alguma possibilidade dele piorar as coisas, podemos estar descansados que ele torná-las-á piores.
Os indícios da actual movimentação bélica norte-americana, quer de material, quer de pessoal, apontam para a preparação de outra invasão, seja ela na Síria, seja no Irão. Querem estes indícios significar, neste caso, que podemos encontrar-nos à beira de mais um momento determinante para a segurança de todos e para a paz mundial.
Portanto, bom seria que, atempadamente, alguém pudesse travar W. Bush e respectiva pandilha, antes que arrastem o Mundo dum estado que, já de si, é suficientemente preocupante, para uma situação verdadeiramente catastrófica, enterrando ao mesmo tempo os Estados Unidos no pior desastre militar da sua História.
A Europa, que tanto necessita dum bom entendimento com uns Estados Unidos equilibrados e fortes, bem poderia dar o primeiro sinal, negando a utilização do seu território como saguão de serviço para a logística dum futuro conflito no sacrificado Médio Oriente. Para pior, já basta assim.
«25ªHORA» - «24horas» de 16 Fev 07

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17.2.07

Actualizado o «Humor Antigo» até Ano 1940-33ª - ver [aqui]

Tiago Monteiro, ó génio português

AO FIM DE DOIS ANOS de corridas, Tiago Monteiro abandonou a Fórmula 1. Mas até ao último momento manteve a postura altiva e confiante de um piloto fora de série, que só não chegou ao Olimpo do automobilismo por uma série de infortúnios, azares e malapatas. Tiago Monteiro é um case study sobre a construção do patriotismo bacoco que tanto nos alegra, apoiado numa comunicação social desportiva que, à boa imagem do país, tem uma irresistível tendência para confundir qualquer português talentoso com um génio planetário. Porque, de facto, a acreditar no que dele se disse e escreveu, Tiago Monteiro não era menos do que o Cristiano Ronaldo da pilotagem.
Tantos o garantiram que ele próprio passou a acreditar. No comunicado onde informa que esta época não vai correr na Fórmula 1, em altura alguma diz: "Meus caros, eu esforcei-me, mas não arranjei equipa." O que ele afirma é, e passo a citar (reparem nos verbos conjugados na terceira pessoa, como é próprio de génios e futebolistas): "Tiago Monteiro não vai aceitar nenhuma das propostas que lhe foram feitas por parte de equipas de Fórmula 1 para 2007", por não "reunirem as condições que merecia." Que é uma maneira de dizer: eu não me vou embora por não estar à altura de uma equipa; vou-me embora por não ter uma equipa à minha altura. Aliás, Tiago Monteiro garante que no próximo ano estará apenas a ganhar balanço para regressar em grande lá para 2008. É mentira, claro, mas convém não o desanimar.
Tantos o garantiram que ele próprio passou a acreditar. No comunicado onde informa que esta época não vai correr na Fórmula 1, em altura alguma diz: "Meus caros, eu esforcei-me, mas não arranjei equipa." O que ele afirma é, e passo a citar (reparem nos verbos conjugados na terceira pessoa, como é próprio de génios e futebolistas): "Tiago Monteiro não vai aceitar nenhuma das propostas que lhe foram feitas por parte de equipas de Fórmula 1 para 2007", por não "reunirem as condições que merecia." Que é uma maneira de dizer: eu não me vou embora por não estar à altura de uma equipa; vou-me embora por não ter uma equipa à minha altura. Aliás, Tiago Monteiro garante que no próximo ano estará apenas a ganhar balanço para regressar em grande lá para 2008. É mentira, claro, mas convém não o desanimar.
Tal como Pedro Matos Chaves e Pedro Lamy, dois ex-génios da Fórmula 1, Tiago Monteiro era de estalo - mas o destino pregou-lhe maldosas partidas. Durante os dois anos que por lá andou, a crer nas notícias, nada do que lhe aconteceu foi alguma vez responsabilidade sua: foi dos travões, da embraiagem, da caixa, dos pneus, da direcção, do motor, do piso, da chuva, do sol, do colega de equipa, da conjugação dos astros, da Lua na terceira casa, do diabo a quatro. Dentro de si, bem dentro de si, Tiago Monteiro tinha tudo para ser um Michael Schumacher. Mas o azar... Ai, o azar...
João Miguel Tavares - «DN» 17 Fev 07 [PH]

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Um plágio inofensivo...

Quem costuma visitar o «Abrupto» sabe que, nos últimos tempos, Pacheco Pereira tem publicado imagens a que dá o título genérico de «ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR». Faz ele muito bem mas, como contrapeso, aqui ficam dois outros espaços onde esse exercício respiratório está a ser difícil...

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Actualizado o «Humor Antigo» até Ano 1940-30ª - ver [aqui]

AGRURAS E ALEGRIAS DO ANÚNCIO CLASSIFICADO

É UMA VELHA mesmo velha. Vive sozinha no casarão que estreou ao se casar nas primeiras décadas do século, apesar de estar acompanhada por um casal sem filhos, com serventia de cozinha e direito a um banho por semana, bem como por um cavalheiro de posição a quem alugou o quarto independente.
Dizem dela, velha mesmo velha, que vive triste e sozinha, apesar de partilhar a casa grande e escura com o casal sem filhos e com o cavalheiro de posição.
A velha, o casal sem filhos e o cavalheiro de posição vivem todos sob o mesmo tecto, mas na verdade sozinhos, como deles dizem quem os conhece, porque é compreensível que embora coabitando se possa considerar que viva sozinha uma velha mesmo velha, que viu morrer toda a família e todos os amigos, um casal sem filhos com serventia de cozinha e direito a um banho por semana, e um cavalheiro de posição que ocupa um quarto independente, com lavatório de esmalte, a condizer com o bidé e com o balde para a água, por detrás da porta para a escada.
Dizem, portanto, de todos e de cada um deles, que vivem sozinhos – mas não é inteiramente verdade porque, de facto, estão a acompanhá-Ios os espíritos, os fantasmas, ou as almas penadas dos desaparecidos naquele casarão, e que assim podem ser chamados consoante a crença ou a credulidade de cada um.
Os espíritos, fantasmas ou almas penadas despertam sobretudo sons nocturnos, rangidelas e estalidos, toques de cristal no aparador e sarrabulhos inexplicáveis de que ninguém fala na manhã seguinte, nem nunca, naquela casa.
Quando estão todos em casa – a velha mesmo velha, o casal sem filhos e o cavalheiro de posição - não falam entre si, ou apenas se limitam, muito raramente e por motivos práticos, a trocar algumas palavras uns com os outros. Actualmente, nem sequer falam quando ouvem os risos risinhos e gargalhadas que, ao princípio, não entendiam donde vinham nem percebiam o que significavam. Uma tarde, a mulher do casal sem filhos perguntou à velha mesmo velha o que era aquilo, e o cavalheiro de posição veio num alvoroço à cozinha a saber do que se tratava, mas nem a um nem a outro a velha deu qualquer explicação, refugiando-se na posição definitiva de que ela não ouvia nada nem sabia a que se estavam a referir.
Mas a velha sabia do que se tratava. Fora ela quem descobrira o mistério dos risos, risinhos, gargalhadas, estertores, sussurros e gritos. Identificara subitamente a voz duma antiga porteira de Benfica que costumava passar algumas matinées com um construtor civil no quarto independente, muitos, muitos anos atrás.
A pouco e pouco, uns após outros, a velha mesmo velha fora reconhecendo os sons, identificando as vozes, recordando as situações que muitos anos antes tinha ouvido daquele quarto maldito com porta para a escada. Situações que, num caso ou noutro, a tinham deixado até perturbada.
A velha não contou nada a ninguém. Quando a mulher do casal sem filhos lhe perguntou, por uma última vez, esbaforida, o que era aquilo, e num sábado à tarde o cavalheiro de posição apareceu na sala de jantar em pijama a dizer que não aguentava aquela gritaria, a velha mesmo velha desfez um sorriso enigmático e com a frieza distante e intrujona que só os velhos sabem ter disse, duma vez por todas, que não sabia do que estavam a falar e que quem não estivesse bem que se mudasse. Ponto final.
Desde então deixaram todos de fazer perguntas e convenceram-se uns aos outros que aqueles sons saíam das paredes, que as casas conservam vida própria e que, umas mais do que outras, têm as suas próprias recordações. Aqueles sons, diziam uns para os outros, deviam ser isso – recordações da casa, vidas a escorrer das paredes como a humidade no Inverno, enfim, coisas tão antigas que nem a velha mesmo velha sabia.
Ao certo, ao certo, só a velha mesmo velha é que sabia, de facto. E até hoje não o revelou a ninguém. Mas na sua manha, que lhe dá para o que lhe convém, ela sabe que os gritos e gritinhos, os risos e risinhos, todas aquelas gargalhadas, eram de quem há muitos anos passou tardes e noites de amores rápidos ou fortuitos no quartinho com porta para a escada.
Ela não diz a ninguém, como também esconde que quem mexe no aparador é a alma do seu tio Ernesto que se enforcou na nespereira do quintal. Mas sabe que os murmúrios e gritinhos eram de quando aquele quarto se destinava a casais que vinham a Lisboa, antes de passar a ser alugado a cavalheiros de posição.
Lisboa, 1987

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16.2.07

CARTAS DE IWO JIMA

Alguém quer, aqui, discutir ou comentar este filme?

NOTA: o trailer aqui apresentado é falado em japonês e não tem quaisquer legendas. No entanto, é possível vê-las (em inglês) num vídeo que, infelizmente, não disponibiliza a opção colocação em blogue [v. aqui].

Actualizada a colectânea «Humor Antigo» até Ano 1940-20ª
Ver [
aqui]

O banquinho

Imagem cedida pelo seu autor, Artur Varanda
NO JÁ REMOTO ANO de 1964 fui aluno, no IST, do famoso professor Ilharco que se caracterizava, entre muitas outras bizarrias, por fazer perguntas rebarbativas supostamente dirigidas à inteligência.
Entre elas, havia uma que questionava «porque é que um tripé tem 3 pés» cuja resposta, por sinal, até era simples: «Se tivesse mais, haveria desperdício; e se tivesse menos, cairia».
Ora presumo que o Engº Carmona Rodrigues, sendo uma dezena de anos mais novo do que eu, já não deve ter sido aluno de tão famoso mestre que, no meu tempo, já estava à beira da reforma. De contrário, como é que se explica que ache que tem todas as condições para governar a CML mesmo que o número de apoios se restrinja a um único - por sinal ele próprio?
NOTA: Segundo ele, «Se todos os autarcas que são arguidos tivessem de suspender o seu mandato, o país parava» - e proferiu essa enormidade com um sorriso tão aberto...!

Como sucede de duas em duas semanas, amanhã, sábado, teremos aqui mais uma das «Histórias para ler e deitar fora», desta vez intitulada

«AGRURAS E ALEGRIAS DO ANÚNCIO CLASSIFICADO»

"FRUTA" DO NOSSO JARDIM

NO SEGUIMENTO do referendo ao aborto, assistimos a muitas declarações de mau-perder; no entanto, e como já seria de esperar, Alberto João Jardim leva a palma a todas, com duas pérolas que o «Público» transcreveu no passado dia 16:
«Parece que, em Portugal, não há testículos para se dizer que o referendo acabou por ser um fracasso do regime político» - foi a primeira; e «Eu, se entender que a Assembleia da República está a fazer uma lei que atenta contra as normas da Constituição que defendem o valor da vida, vou levantar a inconstitucionalidade» - foi a segunda.
Quanto a esta (e salvo erro na transcrição ou do dicionário que aqui tenho), sucede que «levantar a inconstitucionalidade» significa «abolir ou eliminar o problema de inconstitucionalidade que possa haver».
Mas, se o facto de o Dr. Jardim andar confuso pode ser apenas um problema dele, já o mesmo não se poderá dizer da crítica que faz à ausência de testículos dos cidadãos portugueses: é que 51% são mulheres...