31.10.07

«ACONTECE...» - "Prémio do leitor"

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Esta votação (a decorrer até às 22h do próximo domingo) complementa a que se referiu [aqui]; desta feita, em vez de ser o júri a decidir qual o melhor comentário, são os leitores convidados a fazê-lo, sendo atribuído ao vencedor um prémio semelhante aos outros. Só em caso de empate é que se recorrerá, novamente, ao parecer do júri.

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Tendo em conta o resultado à hora limite, a votação foi ganha por César David Sousa, autor do 7.º comentário.

Espanha – O julgamento dos atentados de Atocha

Por C. Barroco Esperança

A SENTENÇA JUDICIAL, hoje conhecida, sobre os atentados de 11 de Março, em Madrid, põe fim à teoria da conspiração que Aznar elaborou como bom mitómano e excelente farsante. Rajoy, fiel ao seu antecessor, não se demarcou a tempo da encenação grotesca com que o PP quis caucionar o crime da invasão do Iraque.
O PP conseguiu fazer o pleno do apoio do episcopado espanhol à sua política e até às manifestações públicas onde não faltaram o garrido das mitras e o brilho dos báculos com centenas de sotainas a abrir pias manifestações contra o Governo de Zapatero.
Conseguiu mais, conseguiu que o Vaticano se intrometesse na luta partidária espanhola com a beatificação de 498 mártires da guerra civil espanhola, a juntar aos 479 elevados por João Paulo II em gestos de gratidão para com o Opus Dei e de solidariedade para com a Conferência Episcopal Espanhola.
A Igreja espanhola, comprometida ainda com o franquismo, é o principal pilar do PP e a tropa de choque da direita sem se dar conta de que muitos católicos são filhos e netos de vítimas de Franco e que a Espanha é hoje um país civilizado, culto e rico onde a ruralidade já desapareceu.
É por isso que o apuramento da verdade sobre o 11 de Março é tão demolidor para o prestígio dos que preferiram manter a mentira a fazer um acto de contrição.
Esta sentença judicial, independentemente de quem ganhar as próximas eleições, é um labéu contra a mentira e a dissimulação de velhos franquistas e actuais conservadores. Factos são factos e é nessa sólida barreira que o PP esmagou a honra e a credibilidade. A mentira ficará a pesar-lhe tanto quanto o crime de Aznar na invasão do Iraque.

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30.10.07

«ACONTECE...» - Passatempo com dois prémios

Por Carlos Pinto Coelho

Para esta fotografia de Carlos Pinto Coelho, o escritor Carlos Vale Ferraz escreveu um texto de que retiramos o seguinte excerto:
"Se só existirem os deuses de quem gostamos, eu gosto deste, do seu sentido de humor e de justiça, da sua arte de construir ruínas amparadas por arcos elegantes, com calcários aristocráticos sobre um fundo de azuis infinitos, onde ele deixa pousar as silhuetas dos pombos suspensos num fio ou numa aresta em contra-luz.
Gosto deste deus artista, deste deus rebelde e avesso à tirania dos limites e da obscuridade."
(In "A Meu Ver", de Carlos Pinto Coelho - Edições ASA, 2006).

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O passatempo de hoje tem duas partes, a que correspondem outros tantos prémios.

1.ª - Onde foi feita esta fotografia?

O prémio será para o primeiro leitor que, em comentário, der a resposta certa mas - atenção! - só a partir das 10h de amanhã, dia 31 de Outubro.

2.ª - Simultaneamente será premiado o melhor texto que, até às 20h (também de amanhã), for afixado em "comentário", inspirado nesta imagem.

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A 1.ª parte do passatempo já terminou; o prémio foi ganho por Anita, a quem já foi enviado o livro que escolheu .

A 2.ª parte teve 3 vencedores (*) ex-aequo: Raposa Velha (10:18 PM), César David Sousa (12:48 PM) e Anónimo (2:30 PM de hoje). Pede-se-lhes, pois, que escrevam para sorumbatico@iol.pt (até às 24h de domingo) indicando qual o livro pretendido e morada para envio. Esperemos que as escolhas não recaiam sobre os mesmos livros, pois só há um exemplar de cada. O melhor será, até, que cada vencedor indique um outro, alternativo.

(*) Este foi o "prémio do júri". Está a decorrer, em post mais recente, uma votação dos leitores para atribuição do "prémio do leitor".

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A Carris, o Metro e a gamela do porco

Por J.L. Saldanha Sanches
NA DISCUSSÃO SOBRE O FINANCIAMENTO DA CARRIS há duas coisas que aparecem confundidas:
A primeira é a necessidade do financiamento público dos transportes colectivos (chamemos-lhe subsídio ou indemnização compensatória que é o mesmo), a outra é a questão de saber quem deverá pagar.
Quanto à necessidade de financiamento público não tenho dúvidas: nas cidades de hoje são tantas as externalidades positivas do uso do transporte público em relação ao privado que os transportes públicos poderiam ser gratuitos. E se uma portagem reduzir a congestão das vias de Lisboa acho que todos ganhamos - mesmo os que vão pagar.
Outra é a questão de saber quem suporta o financiamento: sem que haja uma ligação imediata e directa entre despesa municipal e imposto municipal haverá sempre excesso de despesas, corrupção e desperdício.
Por isso os transportes colectivos de Lisboa devem ser pagos por Lisboa e os transportes colectivos do Porto devem ser pagos pelo Porto.
Serão sempre pagos pelos contribuintes: mas se forem pagos de forma indirecta vamos ter sempre a pork barrel. A despesa inteiramente inútil, obtida pelo eleito local no pressuposto que a sua circunscrição ganha alguma coisa (ainda que pouco) e que ainda que seja pouco produtiva não faz mal porque quem vai suportar os custos são os outros contribuintes.

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Como é gasto o nosso dinheiro (Cont.)

Continuando a tentar responder ao desafio aqui lançado já por diversas vezes («Alguém conhece um quiosque Infocid que funcione?»), o incansável Pedro Tomás, depois de muito pesquisar um pouco por todo o país, encontrou este, na Marinha Grande, que satisfaz o exigido:
Pelas fotos que enviou, vê-se que está imundo, tem uma folha A4 no lugar do monitor, mas, apesar disso, funciona às mil maravilhas... como urinol público, como se pode constatar pelas ervinhas que dão o indispensável ar ecológico a este elemento de arte-urbana high-tech.

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PASSEIO ALEATÓRIO

Simples bom senso…
Por Nuno Crato
HÁ MUITOS ANOS, assisti a uma discussão acalorada entre dois engenheiros. Um deles dedicava-se à informática, área em que tinha várias pós-graduações. O outro não.
Estava-se na altura do Sinclair ZX Spectrum (1982) e do Apple II (1977-1984). O engenheiro informático ria-se destas engenhocas rudimentares, enquanto o outro estava entusiasmado por poder trabalhar em casa com o seu próprio aparelho. O informático explicou, finalmente, que os contactos do Spectrum eram de alumínio, e portanto facilmente deterioráveis, enquanto os dos computadores profissionais eram de ouro, podendo durar eternidades sem precisarem de reparação. O argumento parecia decisivo. Só que muito antes de os contactos de alumínio do Spectrum se oxidarem, apareceram os PC da IBM. E antes de o ouro ter tempo para reluzir, já o supercomputador profissional do grande informático tinha ido à vida, libertando muito espaço na empresa. Começaram a aparecer os chamados minicomputadores, depois os portáteis. Nunca mais ouvi gabar os contactos de ouro.
Até que, há poucos dias, me lembrei da história, quando assisti a um debate sobre educação. Um especialista norte-americano acabara a sua palestra e respondia a perguntas. Questionado sobre o desenvolvimento das competências nas novas tecnologias do século XXI e a forma como elas deveriam ser consideradas no currículo, surpreendeu-se. Competências nas novas tecnologias para o século XXI?! Educadamente, explicou que não conseguia fazer previsões tecnológicas sequer a cinco anos e que os currículos demoram quase outros tantos a serem formulados. Evitava conversas vazias. Simples bom senso.
«Expresso» de 27 de Outubro de 2007 (adapt.)

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29.10.07

Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933
O passatempo Visitante n.º 333.333 foi ganho por Marco Martins, com o print-screen que aqui se vê, e a quem já foi enviado o prémio respectivo.
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Quanto ao outro, relacionado com o romance «O Homem sem Nome»: depois de consultadas três pessoas (entre elas o próprio João Aguiar), foi decidido atribuir o prémio ao seguinte comentário:
«Cavalguei, de forma errante,no deserto da vida em busca do oásis que desse alma ao meu ser. Entre a busca e o encontro, existi eu, O homem sem nome».
Anónimo / Outubro 28, 2007 6:42 PM
O prémio (um exemplar do livro, com dedicatória e autógrafo do autor) já vai a caminho, enviado pelo próprio João Aguiar, num gentileza que muito se lhe agradece.

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Da mentira como virtude política

Por António Barreto
HÁ OS QUE SABEM TUDO e hoje dirão: “Os políticos sempre mentiram”. Pode por isso parecer ingénuo ficar surpreendido com o modo como a mentira se instalou na vida política. Mas a verdade é que o hábito vem ganhando contornos inéditos. Quase todos a usam. Quase todos a perdoam. A mentira é corrente. Ganhou novas feições. É por vezes obrigatória. Recomendável, de qualquer maneira. Até sinal de esperteza. Nas relações humanas e familiares, a mentira é castigada. Nos empregos, condenada. Na justiça, apesar de o perjúrio ser olhado com complacência, é mal vista. Mas na política... Na política... É apreciada. Se um político mente para dar emprego aos seguidores, derrotar os adversários ou enganar parceiros, o seu gesto tem todas as probabilidades de ser festejado.
A mentira, a fria mentira transformou-se em instrumento de governo. Há muito que os políticos mentem, aqui e ali. Mas sempre com alguma má consciência. Ou desculpa. Ou sentimento de culpa. Agora as coisas mudaram: mentir é possível, simples e necessário. Sem remorsos nem correcção. Se a intenção é boa, qualquer meio serve e a mentira é necessária. Com a guerra do Iraque, ficou consagrado o direito dos governantes à mentira.
Há quem pense que a mentira é reservada às ditaduras. Sem imprensa livre, escrutínio parlamentar ou oposição legal, qualquer ditador mente quanto e quando lhe apetece. Isso é verdade. Com a democracia, tudo seria diferente. A liberdade de expressão e a imprensa seriam suficientes para conter a mentira. O parlamento, os partidos e as associações de interesses obrigariam os governos a dizer a verdade. As eleições seriam um correctivo para os políticos mentirosos: exigentes, os eleitores castigá-los-iam. Infelizmente, nada disto é verdade. A democracia vive hoje da mentira. Sob todas as suas formas: ocultação, contradição, correcção, circunstância superveniente ou melhor ponderação. A política tem regras parecidas com as que vigoram no futebol, nalguns negócios e na guerra: o único critério importante é ganhar. Só são condenados os que mentem e perdem. Os que mentem e ganham são respeitados.
Não aumentar os impostos é uma mentira clássica. Criar emprego é outra. Tal como aumentar as pensões e os abonos de família. Durão Barroso e José Sócrates, por exemplo, oferecem-nos ilustrações inesquecíveis deste género de mentiras. Apesar de totalmente irresponsáveis, as promessas de criação de empregos teriam uma desculpa: as dificuldades económicas tê-los-ão impedido de concretizar tão gloriosas promessas. É demagogia, mas chama-se-lhe mentira piedosa. Com os impostos, a experiência é mais radical. Os candidatos a Primeiro-ministro garantiram, um que baixava os impostos, outro que os não aumentava. Ambos decretaram sólidos aumentos dias ou semanas depois de tornarem posse. As desculpas não se fizeram esperar: não sabiam que a situação financeira do país era tão grave quanto a encontraram! É extraordinário como, para desculpar uma mentira, os Primeiros-ministros não se importaram de se confessar ignorantes, incompetentes e irresponsáveis!
Durão Barroso prometeu, antes das eleições, “um choque fiscal” e garantiu que diminuiria os impostos, sobretudo os que incidem sobre as empresas. Não fez nada disso, antes pelo contrário. Mentiu. Mas as suas mentiras passam por ser outra coisa, correcções motivadas pelo conhecimento dos números e dos factos. José Sócrates garantiu, antes das eleições, que diminuiria o número de funcionários públicos em dezenas de milhares, que criaria 150.000 empregos e que não aumentaria os impostos. Não fez nada disso, antes pelo contrário. Mentiu. Mas as suas mentiras passaram por inocentes necessidades.
O PSD e o PS têm, a propósito dos referendos em geral e do referendo europeu em particular, uma longa folha de serviços de mentiras e negações. Já foram a favor e contra várias vezes. O critério é o das conveniências, não o do programa ou da convicção. Se o referendo incomoda o adversário, são a favor. Se correm riscos, são contra. Se a matéria causa mal-estar dentro do partido, são a favor. Se têm de submeter os seus projectos à vontade popular, são contra. Actualmente, está nos programas do PS e do PSD, consta das promessas eleitorais de um e de outro, faz parte do programa do governo de José Sócrates. Nada disso tem qualquer importância. O PSD é agora contra. E os dirigentes do PS, incluindo alguns ministros, já são contra. Quanto ao Primeiro-ministro, só se pode pronunciar em Janeiro, o que é uma desculpa infantil. A verdade é que esta é a mais frequente das variedades da mentira, mas que parece também ter o perdão da opinião pública e a desatenção da imprensa. Não fazer o prometido, deixar de o fazer ou fazer outra coisa, é uma forma de sublinhar a mentira original. Mas também passa, na política, por benigno constrangimento.
Será esta mais uma triste sina portuguesa? Nem sequer. A mentira tem-se transformado, nestas décadas, na moeda comum das democracias ocidentais. A guerra do Iraque é, a este propósito, um caso para estudo. As mentiras de George Bush e Tony Blair, dos seus governos e serviços de informação, ultrapassaram tudo o que se conhecia. Sobretudo pelas consequências mortais para tanta gente. Ao lado, as mentiras de George Bush pai, sobre os impostos, de Nixon, sobre tudo, ou de Clinton, sobre o sexo, foram quase inocentes.
Quanto à União Europeia, nem precisa de mentir: os seus ministros usam e abusam deste novo hábito. O ministro Manuel Pinho confirmou que a mentira tem vigorado com rigor na União Europeia. Diz ele, em artigo do Diário de Notícias (de que é co-signatário com dois comissários da UE): “A partir de agora, o que a Europa faz e o que a Europa diz são uma e a mesma coisa”! Ficámos a saber, por vozes autorizadas, que a União mentia. Só não sabemos é se esta declaração não passa de mais uma mentira.
Será possível contrariar esta nefasta tendência para a mentira? É difícil. Não há esperança nos deputados. Como estes se tratam sempre, uns aos outros, de mentirosos, já ninguém acredita. Se a nossa imprensa, escrita, falada ou televisiva, estivesse à altura, talvez a sucessão de mentiras não fosse tão rica. Mas também parece que, com frequência crescente, a imprensa gosta deste novo hábito. Que usa com volúpia. Ou perdoa com malícia.
«Público» de 28 de Outubro de 2007

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28.10.07

OS DEUSES DA ACRÓPOLE

Por Alice Vieira


EM 1979 eu tinha acabado de publicar o meu primeiro livro. Os meus dois filhos eram pequenos, tinham-me ajudado muito a escrevê-lo, e eu tinha prometido que, em paga, os levaria à Grécia, país com que ambos sonhavam, embalados pelas histórias da mitologia que o pai lhes contava antes de adormecerem. Deuses e heróis misturavam-se nas suas cabeças, e todos viviam felizes entre as pedras da Acrópole.
Aterrámos em Atenas no meio de um mês de Dezembro claríssimo e de uma aragem quase morna, época baixa, a cidade sem turistas.
Todos os dias subíamos à Acrópole. Eu, um filho em cada mão - e os deuses pairando sobre as nossas cabeças. O pai ficara em casa, mas estava sempre presente nas histórias que íamos relembrando à medida que subíamos - e como aquilo custava a subir...
Lá em cima estava Teresa à nossa espera. Teresa, a guia mais extraordinária que alguma vez encontrei na minha vida. Chamava-os assim que nos via chegar (depois de, logo no primeiro dia, lhes ter explicado que tinham ambos nomes de origem grega), e lá ficávamos, passeando entre as colunas do Parténon, as pedras e o passado, com a voz de Teresa, no seu espanhol pausado para que eles a entendessem, inventando sempre novas aventuras, colocando naquele cenário os heróis que eles conheciam das histórias que ouviam contar. Sem mais turistas pela frente, Teresa dedicou-se-lhes em exclusividade durante toda a semana. Foi pela boca de Teresa que eles tiveram a primeira lição de história antiga: “sabem quem foi Péricles?” Sentados sobre aquelas pedras, ali ficaram a ouvir coisas que nunca mais esqueceram.
Claro que isto foi na pré-história, quando ainda se podia passear livremente pela Acrópole…Pouco tempo depois veio a (compreensível) proibição e os turistas passaram a ter de ficar muito longe, contentando-se em lançar os olhos lá para o alto da colina.
Leio agora nos jornais que enormes guindastes de lá levaram, pelos ares, blocos de mármore de não sei quantas toneladas, esculturas dos frisos e muitos outros motivos decorativos, num total, dizem, de cerca de quatro mil peças. Não, não é um roubo, como quando Lord Elgin levou tudo para o Museu Britânico (com a voz rouca de Melina Mercouri a reclamar até ao fim da sua vida…) Desta vez é tudo legal (o destino é o Museu da Acrópole, a inaugurar em 2008), e por uma boa causa: a protecção das obras de arte, que assim ficarão a salvo dos rigores atmosféricos e das marcas dos turistas.
Tudo certo.Se calhar não poderia ser de outra maneira. Mas cá para mim ver um friso do Parténon numa vitrine de uma sala asséptica de um museu não tem o mesmo sentido. Aquelas estátuas, aquelas pedras nasceram num determinado lugar e aí foram testemunhas de séculos, guerras, loucuras, vidas, mortes. Tudo isso deixa sedimentos que o ar condicionado das salas pode proteger - mas torna completamente gelado.
Por aquelas salas irão agora passar os turistas.
Só os deuses ficarão cá fora, sem entenderem o que foi que fizeram das suas moradas.
«JN» de 28 de Outubro de 2007

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NA ROTA DE PUTIN

Por Nuno Brederode Santos
"NÃO VÁ POR AÍ", diz-me o cívico, que produz Régio como o outro fazia prosa. "É só um conselho, porque além, no túnel, já não consegue passar." "Acidente?", perguntei, esquecido da efeméride. "Não, não", disse o guarda, "é que vem aí o russo". (Ocorreu-me logo o fabuloso Alan Arkin, no filme de Jewison, a fazer-se de aldeão americano, gritando "Egemercy, egemercy, the russians are coming", ainda por cima com sotaque de além-Urais). Era, pois, Putin (ou "putine", como escrevem os franceses, carinhosamente empenhados em não dizer "putain") o impedimento no trânsito. Putin, mais o seu blindadíssimo Mercedes "Lang" e um discreto exército de querubins, antropomorficamente ursídeos louros, de fato escuro a exalar o pistolão. Saudades de Rasputine. Comparado, até Sarkhozy (um dopado para a vida que se julga o topo de uma pirâmide humana formada por Vercingetórix, Carlos Magno, Luís XIV, Napoleão e De Gaulle) cirandou entre nós no cinzento anonimato de um burocrata de terceira linha.
Mas, a vir daí mal ao mundo, o mal já lá estava, nesse antiquíssimo Império que confina a Europa e posterga a Ásia. E não veio decerto mal a Portugal. Muitos imigrantes russos se concentraram em Mafra, onde afinal é mais fácil ver Putin do que nas alamedas de Moscovo. E os mafrenses e outros lusos também gostaram, porque levam isso à conta de um folclore que tem laivos de cerimónia dos Óscares.
E, bem vistas as coisas, este nosso improvável amigo até não nos deixou ficar mal. Evitou a emboscada que lhe montara Bruxelas sobre eleições e direitos humanos, depositando na OSCE e num misterioso instituto euro-russo o penhor da sua boa-fé democrática. Presenteou-nos com alguns negócios de primeira água (porque também os há que beneficiam ambas as partes). E ainda se desdobrou em loas ao longínquo Portugal, à nossa presidência e à distensão conseguida. Claro que tudo isto lhe permitiu manter depois, com a União, a dureza que lhe vai a carácter, sobretudo com Bush e com os gémeos polacos: nada que eu lhe leve a mal, portanto.
Assim, mais um capítulo da presidência portuguesa se encerrou em virtude. Forçámos com êxito o estatuto do Brasil, o que sempre seria visto como uma iniciativa portuguesa. Conseguimos o acordo a 27 para o Tratado de Lisboa, que era verdadeiramente a chave do sucesso (entendido este, por definição de eficácia, como conseguir fazer suceder aquilo que se pretendia que sucedesse, e não, por definição de angústia, como a dúvida retrospectiva sobre se aquilo que se desejou foi um bom desejo). Faltam a Índia e a China, que não são "nossos" de raiz. E a cimeira euro-africana, cujos escolhos dificilmente falarão mais alto do que a reafirmação de uma preocupação europeia que um dia possa subir além do esforço das ONGs no terreno. Enfim, em 13 de Dezembro, far-se-á a assinatura do Tratado: o Céu na Terra? Não é.
E não é, porque tudo isto tem custos, que aqui venho assinalando há ano e meio. Custos que fizeram tremer Cavaco em 92 e Guterres em 2000. Um e outro descobriram então que o dia tem 24 horas e que a coordenação de um tal esforço na política externa acarreta sempre sacrifícios na coordenação da política interna. O que, aliás, um e outro desmentiram, até a História lhes tirar razão. É claro que não há maldição que torne isso inexorável. Há remédios: não é ressaca que tenhamos inventado. Ponto é que, por detrás da encenação de banda desenhada, a sugerir que "isto faz-se com uma perna às costas", existam a lucidez e a humildade bastantes para arrancar das próprias tripas uma segunda oportunidade. E merecê-la. Já não com experimentalismos, nem palavras que levam tempo a descer à vida. Mas com as mãos, deitando fora o que não vingou e aprofundando o que afinal até floriu. Devolvendo coerência às políticas sectoriais e dando razões à esperança social. A democracia sempre geriu mal o desespero. Acaba a produzir bolhas de ar para tempos de excepção. E mais facilmente o povo perdoa o que possa não ter resultado até agora do que a sobranceria e a teimosia políticas de persistir em tudo - no bom, mas também no mau - até ao fim.
«DN» de 28 de Outubro de 2007

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27.10.07

Uma agradável surpresa

O escritor João Aguiar oferece, a um leitor do SORUMBÁTICO, um exemplar autografado desta sua obra. O problema é, apenas, decidir qual o critério de atribuição!
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Actualização: foi aceite a sugestão de Fátima André:
«(...) ao leitor que de forma mais original e criativa faça a interpretação da imagem da capa do respectivo livro, buscando nela o(s) seu(s) significado(s)».
As respostas poderão ser dadas a partir de agora, e até ao momento em que o site-meter afixar o número 333.333 - salvo nas condições referidas no comentário-9.
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Depois de consultadas três pessoas (entre elas o próprio João Aguiar), foi decidido atribuir o prémio ao seguinte comentário:
«Cavalguei, de forma errante,no deserto da vida em busca do oásis que desse alma ao meu ser. Entre a busca e o encontro, existi eu, O homem sem nome».
Anónimo / Outubro 28, 2007 6:42 PM

Pede-se, pois, ao seu autor que escreva para sorumbatico@iol.pt (até ao fim desta semana), indicando nome e morada, para que João Aguiar lhe possa enviar um exemplar autografado do livro.

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Como habitualmente sucede aos fins-de-semana, aqui fica um post-aberto para quem o quiser utilizar.



Que sabem eles?

Por Manuel João Ramos
Traveler rating: 1.0
Portugal: "Portugal sucks"
ntm30, Denver Oct 7, 2007

First of all never ever rent a car from Real Car ([--]). Those guys are crooks. I was unfortunate to rent Hyundai Getz in Real Car branch in Faaro, Portugal. The car is very small and has a small windshield. The wind shield got cracked on a highway. If something like this happens in the US, you call to two or three repair shops and get estimates. You choose where to get your car repaired. In Portugal they called to just one company which was CarGlass , and apparently was part of the gang. I was told that the cost of replacement would be 500 euros or 700 dollars. (My deductible was 1,000 euros). I knew that was a rip off, but what can you do in a foreign country with just one word in your vocabulary: Obrigada - Thank you.

Later on I was told by locals that the cost of replacement for that car in that area would be a little over 200 euros. Those locals told me many unusual things about everyday life in Portugal and Portuguese mentality. I can not provide info on everything I heard within hours of conversations. From his or her childhood a Portuguese person is persuaded that the most valuable thing in life is patience. Wait and something good will definitely happen to you. This was absolute true as we speak of my case and Real Car. They waited, I came over, and they made good money. Being hardworking is not a priority, aspirations to set up goals and achieve them are not priorities in Portugal. No wonder Portugal is one of the poorest countries in Europe.

How do they make their money? They wait for people like me and you. They call them tourists. They would charge you 5 euros for a drink. The cash register would be in front of you. You would see that the actual cost of a drink was 1.5 euros. As you start talking to them about it they lose ability to speak and understand English.

If you want to see absolutely insane drivers on the roads, go to Portugal. You will see what you never saw in your entire life. You will see guys doing 160 miles per hour in 120 kilometers per hour (75 MPH) zone. After I saw it I got to statistics. Portugal has the biggest death toll on the roads in Europe.

Among the things the locals told me were the things absolutely bizarre for an American. In the US we say I need to go to a restroom. A Portuguese person will describe in details what he or she would do in a restroom. A lady can stand up in a middle of a meeting and say I need to go and shee-shee, or I need to go and co-co… No translation needed.

in: TripAdvisor

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26.10.07

Violência racista

Por C. Barroco Esperança

A VIOLENTA AGRESSÃO de uma jovem equatoriana, no metro de Barcelona, perpetrada por um skinhead a quem a demência racista exacerbou a fúria, é um acto que não diz apenas respeito a Espanha, é um crime que põe em causa a civilização e desmente a tolerância de que a Europa se reclama.
Não basta denunciar a violência, é preciso ser firme no combate às motivações racistas e xenófobas que alimentam os nacionalismos e povoam as mentes de jovens normalmente pouco alfabetizados, primários e selvagens.
Aquela jovem que seguia tranquilamente numa carruagem de metro é o paradigma das minorias que a fúria selvagem dos biltres põe em permanente risco. O pontapé que lhe atingiu a face era o escape das frustrações e ódios acumulados por quem tinha apenas como motivo de orgulho a pertença à maioria que o energúmeno identifica como raça.
Se os que nos consideramos civilizados não formos capazes de defender a diferença que faz a riqueza das nossas sociedades não merecemos a paz que nos bateu à porta nem o bem-estar que desde 1945, apesar das queixas de novos-ricos, não parou de aumentar.
Os patifes que se comportam como o biltre do metro de Barcelona – e nós temos dessa escória entre nós –, não merecem circular no espaço público, precisam de ser polidos na enxovia.

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A QUADRATURA DO CIRCO

O crime fiscal
Por Pedro Barroso
O ZECA ABOIM estava estremunhado. Ainda não acreditava.
Nunca tinha pensado que lhe acontecesse aquilo.
Os amigos, assim que souberam, deram-lhe os parabéns. Podia lá pensar-se nele como milionário! Aquilo era novidade da grossa!
Acontece, com efeito, que o Sr. Zeca, ou o Zequinhas, como mais desrespeitosamente alguns o tratavam, não sendo uma figura de topo na hierarquia do bairro, era decerto um comerciante respeitado.
Pessoa de boas contas, cidadão cumpridor, honesto, trabalhador, exemplar.
Até metia raiva a sua minúcia, o seu cuidado nos trocos, a sua atitude respeitadora, humilde, em nome do decoro, da moral e dos bons costumes.
Era de uma cortesia extrema para com todos os clientes, na sua maioria senhoras do bairro, mas também pessoas de fora.
A sua retrosaria destacava-se por uma limpeza e asseio invulgares. Uma arrumação acima de qualquer dúvida, uma atenção prestimosa, sempre com uma saudação educada e um sorriso de agradecimento pela preferência, tanto à chegada como à partida.
Acontece que o Zeca, homem já dos seus cinquenta anos, era um verdadeiro árbitro de elegâncias. Um modelo de bem servir mas também um modelo para os olhos de quem visse. Um bigode impecavelmente aparado, um corpo de bailarino, uma elegância no trato e nos gestos e unhas tratadas e polidas pela eterna e suspirante devoção da menina Kátia Irina - manicura que por ele mantinha um secreto e nunca correspondido amor há mais de uma dezena de anos. Acrescente-se ainda o fato irrepreensível, o porte direito, camisas irrepreensíveis, botões de punho, gravatas de seda, sapatos de verniz preto, tudo como um noivo eterno.
Toquei na ferida, sem querer. Era isso. Um noivo eterno.
Era, de facto, estranho que o Sr. Zeca nunca tivesse optado pelos caminhos do casamento, ou, pelo menos, de alguma conhecida conjugalidade visível.
Com a costumaz maldade dos depreciadores profissionais, alguns boatos circulavam sobre a sua excessiva educação e simpatia. Eram invariavelmente incluídos no pacote crítico a sua excitação permanente em relação a assuntos relacionados com a Floribela, a devoção religiosa pelo Tony Carreira, e até o seu avançado conhecimento em relação a matérias tão complexas como o ponto cruz ou a renda de bilros, cuja praticava, virtuoso, como lazer preferencial nos seus longos e solitários fins de semana.
O gel no cabelo repuxado, o permanente cuidado com a aparência e a sua amizade equívoca com o Hermínio da pastelaria, pareciam factores avulsos de alguma perturbação da masculinidade.
Invejas, está visto.
Há quem seja capaz de tudo para criar intrigas que de todo repudiamos.
Más-línguas, como é óbvio. Para mim o Sr. Zeca Aboim era muito homem.
As coisas não lhe teriam corrido bem nos primeiros amores, no seu devido tempo.
Mais tarde, uma breve relação sucumbira ao seu excessivo zelo com a forma de engomar peúgas e por outras intimidades ainda por esclarecer, ao que parece, relacionadas com o uso de roupa interior.
Desiludido e só, optara por uma abdicação voluntária de carácter social, um adeus às armas, digamos assim, mais ou menos alegre e conformado.
E a sua vida afectiva passara, sem dúvida, a ser a sua clientela.

Mas, se havia que comemorar-se a fortuna do Zequinhas, nada melhor que um grupo de espontâneos e numerosos amigos que decidiram, em segredo, fazer-lhe uma festa surpresa. O Zeca adorou a ideia e até chorou de alegria.
Chegado o dia ajustado, parecia um príncipe, todo encerado, um autêntico manequim.
Aquilo era um sonho. Só homens eram doze. O Zeca feliz.
Os marotos, no entanto, por sofismas longamente recalcados – e aposta secreta entre o Dantas e o Almada – haviam decidido, de algum modo, por à prova os dotes masculinos do novo milionário, preparando, à sua revelia, uma festa de jaez tipicamente machista, com ida a bar de meninas e tudo, assim tipo despedida de solteiro.
Já bastante bebido do pantagruélico jantar e interiormente perturbado por tal profusão de abraços fortes, repetidos a cada minuto, demonstrativos da mais profunda amizade, o Zequinhas lá ia no ar, perdendo a noção e o norte, seguindo para onde determinassem, disposto, por uma vez, a gozar a vida.
Foi quando o quiseram pôr a pagar uma dança privada com uma menina despida da cintura para cima que as coisas se complicaram. O homem não queria.
Só depois de muitas instâncias, e tendo os amigos feito ver que um dia não eram dias, “que diabo, uma vida de dever, havia que desfrutar das oportunidades!”, é que o Zeca, muito relutante, permitiu que tal menina se abanasse à sua frente.
Ficou visivelmente incomodado quando ela começou a despir o pouco que ainda trazia e ficou nuinha, em pelota, a dançar e ondular freneticamente a sua frente, num transe digno de cabaret rouge.
Ainda por cima, num frenesi, a escultural jovem beijou-o, e ele cobriu-se de rubores.
O Zeca estava hipnotizado, vermelho, cheio de suores. E fingia-se zangado a valer.
-“ Ele, um homem de respeito, imagine-se! No que aqueles malandros o tinham metido. Ai, se não fosse pela amizade que lhes tinha!...”
Os resultados foram um tanto ou quanto inconclusivos para as apostas efectuadas, pois infelizmente, um dos compinchas, mais indisposto, estatelou-se ao comprido num charco de cerveja no dito cujo Bar de alterne/Danceteria, e houve que o levar de urgência ao Hospital mais próximo com a cabeça partida.
Cosida a cabeça do descuidado amigo e após tantas emoções, foi com um enorme espanto de todos que o Zeca, educadamente, pediu que o levassem de volta ao Bar!
Estava, afinal, confirmado.
O cumpridor Zeca, o zeloso cidadão, o educado homem era mesmo macho.
Chegado ao local, porém, o Zeca disse:
- Não vale a pena saírem, que eu volto já.
Com efeito, não tinham decorrido dois minutos e ei-lo de volta sorridente, guardando qualquer coisa na carteira.
Era o recibozinho, que tinha esquecido. Dois euros o beijo e trinta da lap-dance.
Assim está bem. A coisa ficava legal.
Consigo, a contabilidade era também uma forma de higiene de vida.
E para crimes fiscais não contassem com ele.
Chiça.

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25.10.07

Atenção, visitante n.º 333.333!

Independentemente dos prémios correspondentes aos passatempos habituais (que se mantêm), o SORUMBÁTICO vai oferecer um outro, muito especial, por ocasião do page-view 333.333. Ver detalhes em "comentários".
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O passatempo foi ganho por Marco Martins

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PARA ACABAR DE VEZ COM O AZAR

Por Ferreira Fernandes
NÃO ME ILUDO com a minha influência nos pais ingleses, não é nenhuma. Assim, não perco tempo aconselhando-os a cuidar mais dos filhos: não os deixando sozinhos quando vão jantar (velha conversa), ou, em praias desconhecidas, não os deixando entrar em águas revoltas (assunto actual). Se me ouvissem, traduziria o "há mar e mar, há ir e voltar", mas não me ouvem. Agora, lido por uma ou outra autoridade portuguesa, devo ser. A elas, relembro: somos um país de turismo. Então, aconselho precauções básicas. As praias perdidas, mesmo em época baixa, continuam a ser a bandeira que vendemos em caras campanhas de promoção. Daí que seja prudente supor que os turistas fora de época, que os há, apareçam nessas praias. Por isso, o meu conselho, quando as praias são perigosas: façam letreiros claros, e em inglês, dizendo que elas são perigosas. Já nem falo das vidas que se poupam. O que quero é não ter o susto de, um dia, os turistas concluírem que somos um país azarento.
«DN» de 25 de Outubro de 2007-c.a.a.

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Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

O TRATADO DE LISBOA CONTADO ÀS CRIANÇAS E AO POVO

Por Pedro Lomba
ERA UMA VEZ uma associação de Estados chamada União Europeia a que Portugal tem presidido no segundo semestre de 2007. Segundo as regras da associação, não muito diferentes das de um condomínio residencial, a administração rodava de vez em quando entre os seus membros, de modo que qualquer Estado, mesmo destituído de tamanho ou peso, assumia ciclicamente essas funções. O primeiro-ministro de Portugal, um tal de José Sócrates, andava eufórico com a experiência. Pela primeira vez reunia-se com altas personagens da política europeia. Queria brilhar neste seu novo papel de líder da Europa e estava disposto a fazer tudo o que fosse necessário para cumprir o guião que lhe puseram à frente.
A associação União Europeia atravessava uma fase difícil. Nos últimos anos tinham entrado novos membros do Leste, alguns turbulentos como a Polónia, e o grupo estava agitado com as mudanças de funcionamento que eram necessárias para incorporar toda a gente. Depois, alguns povos da Europa tinham rejeitado há uns anos em referendo um texto jurídico pomposamente intitulado Constituição Europeia. O fracasso da Constituição nunca foi bem digerido. O sentimento oficial era de crise, de falta de rumo, de impasse.
Então, alguém teve uma ideia: fazer um tratado que incorporasse 90% da Constituição falhada, mantendo o que já existia e introduzindo algumas inovações: um presidente fixo em vez da regra das presidências rotativas, uma comissão mais pequena, um ministro dos Negócios Estrangeiros e um método de votação que preservava o poder dos Estados grandes, ao mesmo tempo que penalizava os estados médios (como Portugal). O tratado foi concluído sem particular demora ou divergência. De imediato instalou-se a euforia. Portugal oferecia, com generosidade, a uma Europa doente um novo tratado unificador e um líder messiânico: o nosso José Sócrates. A "Nova Europa" nascia em Lisboa.
No meio da festa, no circo de felicitações, no exercício de relações públicas em que a União Europeia se tem tornado, quase ninguém parou para reflectir sobre o tratado que se chamará, para nosso orgulho vazio, Tratado de Lisboa. Pois, era uma vez um tratado largamente dispensável, que pouco inova em relação aos tratados anteriores, que onde inova criará novos e sérios problemas (já se vê o conflito entre o futuro presidente permanente e o presidente da Comissão Europeia), que prejudica os interesses de Portugal e que não resolve nenhum dos problemas críticos da União Europeia: a estagnação social e económica, o afastamento das populações, o défice de legitimidade e de democracia. Mas o ambiente geral era de alegria. Como no interior do Titanic antes de bater no icebergue.
«DN» de 25 de Outubro de 2007-c.a.a.

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24.10.07

Para quem se interessa pelo tema dos "barulhinhos"...

Este livro, acerca de escutas (especialmente acerca das que não existem...), pode ser ganho, hoje mesmo, acedendo [aqui].
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O passatempo cujo prémio era o livro que aqui se mostra já terminou.

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Os meus barulhinhos

AINDA VÃO DAR muito que falar as declarações do senhor PGR, ao semanário Sol, onde dizia que desconfiava ter o seu telefone sob escuta «porque de vez em quando faz uns barulhinhos...».

Pois bem; anime-se, caro Dr. Pinto Monteiro, que o meu telefone também fazia uns barulhinhos e eu julgava estar a ser vítima de escutas ilegais!
Sucede que, ontem, quando Alberto Costa e Alípio Ribeiro nos garantiram que isso era coisa que não existia, fui investigar melhor.
E em boa hora o fiz, pois afinal o problema era da ficha que, estando em mísero estado, fazia mau contacto; e o problema ficou resolvido graças ao spray que aqui se vê - passe a publicidade e a sugestão subliminar...

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O NOSSO HOMEM É MESMO NOSSO

Por Ferreira Fernandes
DEFINIÇÃO DE DIPLOMATA: é alguém que pensa duas vezes antes de não dizer nada. E essa é uma definição geral. Calculem como é um diplomata de um país pequeno e pobre... Eu digo: qualquer coisa que não é Seixas da Costa, o nosso embaixador no Brasil.
O espólio de Jorge Amado estava sem dinheiro (o governo do estado da Baía deixara de pagar o subsídio que permitia a conservação) e o neto disse na televisão que a família pensava doá-lo a uma instituição americana. Assunto interno e sensível, era altura de os embaixadores estrangeiros se calarem. Felizmente, Seixas da Costa saltou a lembrar que não era tão estrangeiro assim: "Não há dinheiro? Portugal arranja!", disse (mais ou menos). O estado da Baía recuou e voltou a pagar o subsídio. Ainda bem, a casa de Jorge Amado é mesmo lá, na Baía. Mas eu, que fui tão feliz com Gabriela e Quincas Berro d'Água, fiquei grato ao meu embaixador (meu, sim) por ter lembrado que a segunda casa de Jorge Amado é aqui.
«DN» de 24 de Outubro de 2007-c.a.a.

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23.10.07

«ACONTECE...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho


Pergunta: em que museu está este perplexo visitante?

1-O vencedor do passatempo será o primeiro leitor que, em comentário, der a resposta certa.

2-Cada leitor, devidamente identificado, poderá dar até 3 respostas.

3-Às 9h30m de amanhã, dia 24, ver-se-á se alguém deu, entretanto, a resposta certa.

NOTA: esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.

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O passatempo foi ganho por "Enigma", o primeiro de vários leitores que deram a resposta certa (Museu de Atenas).

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A brigada do "então prove" e a falta de cultura democrática

Por João Miguel Tavares
CADA VEZ QUE ALGUÉM APARECE na comunicação social a fazer uma denúncia relevante há sempre um bando de picuinhas que exprime imediatamente a sua indignação com vozinha de contratenor: "Se assim é, então prove." Escondida atrás de um suposto rigor legalista e confundindo as regras do espaço público com as leis dos tribunais, a brigada do "então prove" é perigosamente conservadora e gosta do cheiro a pântano, crescendo à sombra da nossa falta de cultura democrática. Alguém resmunga sobre a corrupção nas câmaras? Então prove. Uma alminha aponta o dedo à incompetência na função pública? Então prove. Um desgraçado queixa-se das falhas no sistema judicial? Então prove. Como se cada vez que uma pessoa abrisse a boca para protestar tivesse obrigatoriamente de estar munido de dossiês e documentação em papel timbrado. Nove em dez vezes, o "então prove" é apenas uma forma mais ou menos elaborada de proteger o estado das coisas e tapar a boca a quem se queixa.
Certamente por causa deste exagerado calor de Outono, que sobreaquece as cabecinhas, quatro ou cinco pessoas importantes lembraram-se de ir para os jornais dizer o que lhes vai na alma. Não é normal. O normal é que as pessoas importantes dêem entrevistas mastigadas, soltando um recadito ali, uma frase cabalística acolá, num português remoído que depois é decifrado por meia dúzia de entendidos que peroram sobre o assunto durante dois ou três dias. Mas não foi isso que aconteceu com as últimas entrevistas de Catalina Pestana ou Pinto Monteiro, só para dar dois exemplos. Estes decidiram, por uma vez, dizer coisas relevantes e denunciar o que vai mal.
Resultado: uma carga violenta da brigada do "então prove". Catalina Pestana apontou o dedo à Casa Pia e apanhou traulitada dos antigos estudantes, que a mandaram ir-se queixar à polícia. Pinto Monteiro acusou o Ministério Público de feudalismo e imediatamente o sindicato dos magistrados pediu a sua cabeça; depois disse não saber se tinha o telefone sob escuta e a Ordem dos Advogados exigiu esclarecimentos "urgentes". É claro que convém a gente com responsabilidades não se passar da cabeça e vir para a praça pública ter conversas de café. Mas não é isso que tem acontecido. A ex-provedora da Casa Pia e o procurador-geral da República deram entrevistas valiosas e nomearam fragilidades inadmissíveis no nosso sistema. E, como de costume, o monstro do statu quo acordou para exigir que não o incomodem. Triste sociedade esta, que devota tanto amor à lei da rolha. E assim vamos andando aos caídos, muito caladinhos e compostinhos.
«DN» de 23 de Outubro de 2007-c.a.a.

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O RACISMO - Passatempo com prémio

NUMA ALTURA em que, a propósito das polémicas declarações de James Watson, tanto se fala de racismo, os blogues DE RERUM NATURA e SORUMBÁTICO resolveram oferecer um exemplar deste livro ao primeiro leitor que, naquele blogue, afixar um comentário pertinente sobre o assunto mas - atenção! - só a partir das 16h30m de hoje, 23 de Outubro.
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O passatempo já tem vencedor. No entanto, como o assunto suscitou outros comentários posteriores, interessantes, sugere-se aos leitores do SORUMBÁTICO que vão até lá.

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PASSEIO ALEATÓRIO

As cores do Arco-Íris
Por Nuno Crato
A DEUSA GREGA ÍRIS, portadora do trovão e mensageira dos deuses, tem um arco de sete cores. Nunca houve dúvida. As cores são sete. Os mistérios da física é que demoraram a ser delindados. Os sábios especularam muito, desde Aristóteles a Bacon, pois o fenómeno é misterioso.
O primeiro a estar muito perto de uma explicação aceitável foi o jesuíta Antonio de Dominis que, em 1591, fez experiências com um globo de vidro cheio de água e verificou que este podia projectar círculos de cores, desde que convenientemente iluminado. Extrapolou a ideia para muitos globos de água e muito pequenos — as gotículas das nuvens — e percebeu que um observador no solo apenas via cores diferentes porque via luz proveniente de refracções diferentes.
René Descartes foi mais longe. Mediu os ângulos de reflexão e refracção da luz nas gotículas de água e calculou que o arco-íris deveria ter um raio de 41,3 graus, o que verificou ser verdade. O que lhe faltava era saber de onde vinham as cores, e isso só Newton percebeu, após as experiências de decomposição da luz branca nas cores do arco-íris. As diferentes cores estavam misturadas na própria luz do Sol, conforme explicou na sua obra «Óptica», de 1704. E eram sete.
Quem quiser ler esta e muitas outras «Histórias da Luz e das Cores», pode lê-lo na magnífica obra do mesmo nome, do professor Luís Miguel Bernardo, editada pela Universidade do Porto. Vem tudo no primeiro volume. O segundo, acabado de sair, centra-se no século XIX.
Mas a história não acabou. Não vemos sete cores no arco-íris. Tente o leitor. Os seus olhos só distinguirão quatro ou cinco. Até nos maiores cientistas, como Newton, o peso do mito pode ser um fardo.
«Expresso» de 20 de Outubro de 2007

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22.10.07

Mapas de METRO do mundo todo [Ver aqui]

A Carris, Lisboa e os subsídios

Por J. L. Saldanha Sanches
A CARRIS TAL COMO O METRO são empresas que fornecem transportes na área de Lisboa e que têm os seus défices cobertos por transferências do Orçamento do Estado. Concretizando: são pagas pelos contribuintes de todo o país e não, como seria mais acertado, apenas pelos contribuintes que residem em Lisboa.
A situação, como se compreende, não é pacífica: Vital Moreira já escreveu por várias vezes que não faz sentido que seja o país inteiro a pagar os défices de exploração de empresas que prestam serviços em Lisboa.
Vital Moreira tem razão.
Mas vamos ver a questão no seu todo: em nome da regionalização, da desconcentração, descentralização e de outras coisas acabadas em ão criou-se um monstruoso mecanismo de redistribuição de fundos entre municípios e regiões que permite os mais variados jogos e esquemas na afectação de fundos públicos.
As regiões mais desfavorecidas ocuparam o lugar dos cidadãos mais desfavorecidos que quer morem em Mértola ou na Cova da Moura devem ser tratados da mesma forma; e que têm um direito constitucional a prestações públicas que funcionam como redistribuição de rendimentos.
Por isso o munícipes de Lisboa devem pagar o défice do Metro e da Carris e tal como os de Alguidares de Baixo devem pagar o pavilhão multi-usos que depois ninguém usa construído pelo seu dinâmico Presidente da Câmara. Simplificando, responsabilizando e passando da redistribuição entre regiões pela redistribuição entre cidadãos.

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Hoje, no «Público», José Manuel Fernandes resolveu rejuvenescer o nosso país, tirando-lhe uma centena de anos...

Porque ri a hiena?

A GLÓRIA E A EUFORIA são de rigor. O sorriso aberto e satisfeito. A sensação de vitória vê-se na linguagem do corpo. Sócrates venceu. Portugal venceu. A Europa venceu. Todos e cada país venceram. Como previsto, Barroso, Merkel e Sarkozy venceram. Prodi também. E os gémeos polacos igualmente. Percebo por que tanta gente ri de alegria e prazer. Percebo, mas não compreendo. O monstro acabado de criar não dá motivos para rir. Nem sequer sorrir. Mas o Dr. Frankenstein também sorria.
Depois de ter prometido a ultrapassagem da América nos domínios do crescimento, da ciência, da inovação e do emprego, a “Estratégia de Lisboa” foi um monumental fiasco. Segue-se-lhe o “Tratado de Lisboa”, adornado de ainda mais euforia e de ainda mais ilusões vencedoras. Este desastre de Lisboa não ficará conhecido por aqui se ter decretado uma Europa federal, comandada por franceses e alemães, distante dos povos, alheada dos problemas sociais e políticos do continente e contrária à diversidade secular dos seus povos. Não será isso, pela simples razão de que essa Europa federal nunca terá existência. O desastre de Lisboa ficará na história porque aqui se assinou um tratado que consagrou a não democracia como regime europeu e consolidou a burocracia e a Nomenclatura europeias. Ao fazê-lo, confirmou a caminhada futura para uma ilusão senil, irrealizável e não democrática. Ao tentar construir uma impossibilidade, prepararam a destruição do possível. Ao querer uma União federal, eliminam a hipótese de uma verdadeira Comunidade.
Os povos estão distantes da União e afastados da política. As instituições são fechadas e inacessíveis. A Constituição é ilegível e absurda. Os políticos são execrados pelos cidadãos. Os eleitores perderam a confiança nos seus representantes. Os europeus não conhecem, nem querem conhecer o Parlamento Europeu, uma das maiores inutilidades de que o engenho humano foi capaz. As instituições democráticas nacionais estão a definhar e alguns direitos fundamentais são postos em causa na Inglaterra, em França, na Polónia ou em Portugal. Ao mesmo tempo, as instituições europeias ganham poderes e competências, mas sem povo nem reconhecimento, sem tropas nem magistrados, sem aceitação pública nem experiência. A democracia europeia é uma ficção oca, sem substância, sem sociedade e sem vida. Este hiato, agora reforçado, entre a estratosfera europeia e as realidades nacionais e sociais é perigoso a todos os títulos. A Nomenclatura europeia criou um paraíso artificial e chamou-lhe União.
Sei que há muita gente que persiste em afirmar que tantos dirigentes, tanta inteligência, tanta capacidade diplomática não se podem enganar. Nem nos podem enganar a todos. Mas também sei que a melhor inteligência da Europa, as mais fantásticas capacidades científicas e tecnológicas e a mais ilimitada esperança na paz e no progresso fizeram, em 1914, uma das mais absurdas guerras que a humanidade conheceu. E sei que os alemães, vanguarda cultural, científica e industrial do mundo inteiro, tinham a certeza de que fundavam um império para mil anos e uma raça para a eternidade, e vejam o que fizeram. E também sei que os russos, com recursos ilimitados, com formidáveis elites políticas e intelectuais, quiseram, em tempos, criar uma sociedade sem classes, uma democracia total e um desenvolvimento económico e científico incomparável, e vejam o que fizeram.
Como sei que os americanos, que concentram nas suas mãos mais poder, mais capacidades e mais inteligência do que qualquer outra nação na história, quiseram fundar a democracia no Vietname, há quarenta anos, agora no Iraque, e vejam o que fizeram. No Iraque, muitos erraram. Muitos se enganaram. Muitos enganaram. E muitos mentiram. E eram os mais inteligentes, os mais poderosos, os mais sabedores e os que de mais informação dispunham. Os dispositivos militares e políticos americano e britânico concentram inteligência e capacidades sem rival nem precedentes. Mesmo assim, erraram.
A questão não é, obviamente, de inteligência ou de informação. É de política e de interesses. Não é muito diferente do que se passa com os dirigentes europeus. Eles não estão enganados. Enganam e mentem porque acreditam no que dizem. A Alemanha quer comprar. A França quer mandar. Juntas, pagam o que for preciso. Pagam para liquidar a agricultura e as pescas de outros. Pagam para investir nos outros países, para lhes comprar empresas e lhes fechar outras. Pagam para poder exportar. Pagam para submeter o continente às suas opções, sobretudo energéticas. Pagam para construir uma fortaleza diante das veleidades russas. Pagam para resistir ou domesticar as multinacionais. Pagam finalmente para evitar os referendos, para evitar que os povos se exprimam sobre a Europa que eles querem fazer. Pagam para construir, nas nuvens, uma ficção, a que já chamam a mais importante realização política do século XX. Tal como o Império britânico. Tal como o Terceiro Reich. Tal como o comunismo soviético.
Os europeus de hoje, isto é, os seus dirigentes políticos, com medo dos seus povos e dos seus eleitores, com receio dos americanos, ameaçados pelas multinacionais, apavorados com o terrorismo, aterrorizados pela imigração, impotentes perante o comércio asiático, têm também ao seu serviço uma capacidade intelectual, política e diplomática sem precedentes. Querem uma Europa unida ou os Estados Unidos da Europa. Vejam o que fizeram, uma Nomenclatura. Uma União que é a mais poderosa entidade na Europa actual e é também a menos democrática.
Tal como a euforia foi grande, também a crise agora vencida era enorme. Não havia crise na Europa, nem na maior parte dos seus países. Não havia crises sociais e económicas graves. Não havia democracia ou estabilidade em risco evidente. Não havia diferendos militares. A paz não estava ameaçada. Havia crise, isso sim, entre eles, entre os dirigentes políticos, entre os Estados, entre as Nomenclaturas. Fizeram a crise. Resolveram-na. Entre eles. Sem os europeus. Talvez mesmo contra os europeus.
«Público» de 21 de Outubro de 2007-c.a.a.

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21.10.07

1.º-Nem tudo o que se pensa se pode dizer
2.º-Nem tudo o que se diz se pode escrever
3.º-Nem tudo o que se escreve se pode publicar

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SENSIBILIDADE E BOM SENSO

Por Nuno Brederode Santos
O HOMEM QUE DESCEU AO CONGRESSO para tomar posse do partido dependia tão só da sua própria vontade. Diz-se que também da ambição. Mas ambicionar - por muito que os yuppies se indignem - é orgulhar-se do seu próprio futuro. Imaginário, presumido, é claro. É uma mística inoponível aos outros (ainda que o ambicioso intratável seja aquele que nos quer obrigar a termos orgulho no futuro dele). Admito, porém, que a ambição seja um esteróide da inteligência e que esta é primordial a iluminar a vontade.
Menezes hesitara na arrancada para a liderança. Mas, quando se decidiu, o tempo - dele e nosso - transfigurou-se. De pasto viscoso e ruminante, volveu vertigem, frenesim. Foram duas semanas com novos heróis e vilões, envolvidos na praça pública em processualidades sombrias e insídias burocráticas. Foram dias de canhão e noites de navalha. Mas, com a eleição, tudo acabou. A paixão do poder dava lugar à premeditação do seu exercício. Que é exactamente para onde vale a pena olhar.
Menezes podia rejuvenescer e inovar. Era a base de sustentação de uma ruptura, sem os ónus de a declarar. Mas os fantasmas de estar só entre notáveis e de o julgarem sem genealogia no partido, levaram-no às escolhas mais revivalistas. Podia ter-se cingido a Ângelo Correia e pouco mais. Ninguém ousaria contestá-lo. Mas preferiu uma política de exumação sistemática nas valas comuns do partido. Recebendo, com ela, as piores contradições e os mais esquecidos contenciosos. Convidada para a presidência do Congresso, Ferreira Leite apontou à ironia mas largou sarcasmo: não aceitava porque levara a sério a renovação.
Podia ter calado os agravos incómodos: Cavaco, Barroso e os barões de ambos. Mas preferiu afrontá-los nos agradecimentos, com o arreganho de um cavalheiro que se bateu à pistola por princípios.
Podia ter posto ordem nas indisciplinas pessoais do costume. Mas Santana Lopes queria um penhor de reconhecimento público, que era a unção na corrida à bancada parlamentar. Isto é, à voz mais audível de que um partido na oposição dispõe. E ele, a contragosto, deu-lha. Ficando a asseverar lealdades em murmúrios públicos que mais parecem rezas. Alberto João Jardim facturou-lhe a reviravolta. "A autonomia da Madeira será o que os madeirenses quiserem." E o Tribunal Constitucional deve ser um sótão escuro do Supremo Tribunal de Justiça. Para que melhor o entendam, não está em causa rever a Constituição: o PSD tornou-se o primeiro partido a reclamar uma nova. Perdidas as condições para a fazer pelas mãos de constituintes, Jardim acha que mais vale desvalorizar a actual pondo interposta bancada em guerrilha institucional permanente. Claro que aí Menezes sabe que tem de neutralizar um Presidente que jurou a Constituição (que inclui os próprios limites materiais da sua revisão). E acena pateticamente a Cavaco com uma estranha enxertia de novos poderes presidenciais, ao arrepio dos tempos em que se apelava por um parlamentarismo a cem por cento.
Podia ter moderado o discurso basista. Mas, depois da pública e dolorosa negociação com Santana, já saltou um cacique transmontano a ameaçar demissão, caso Duarte Lima ouse pensar ser cabeça de lista por Bragança.
Podia ter guardado tanta contenção para a recuperação dos laços que Marques Mendes cortou. Mas escolheu a luz do dia. Valentim Loureiro já respondeu, altaneiro: quem errou que se redima. Para evitar desculpas públicas, Ribau Esteves disse o possível: "tomo a devida nota."
Detenha-se a enumeração dos exemplos. Menezes cedeu a quem lhe disputa o poder e foi inflexível na subjectividade dos agravos. É uma receita legítima, mas que, sendo tão amoral quanto a contrária, revela uma doença antiga, que é a confusão entre "panache" e poder. Num apanhado de frases do dia, um articulista, que eu devia identificar mas não recordo, sentenciou: "falta-lhe o killer instinct." Não podia estar mais de acordo, mesmo que deteste tal instinto.
Menezes tem dois anos para convencer o eleitorado das magias que a sua vontade pode operar. Mas, concedo, aguardemos. Se há entradas de leão e saídas de sendeiro, então temos de admitir que talvez a vida permita o contrário.
«DN» de 21 de Outubro de 2007

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20.10.07

No Reino do Tanto-Faz

Pormenor de um cartoon, no «Expresso» de hoje

Saber que a bandeira portuguesa é hasteada com o verde do lado do mastro também é algo que se aprende (ou devia aprender...) em pequenino. Curiosamente, não é a primeira vez que cartoonistas do Expresso a representam assim.

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A relatividade...

Revista La Nature, 1880
Há certas coisas que, quando não se aprendem em pequenino... Uma delas é que não se deve atacar ninguém por factos de que o atingido não seja responsável: nome, naturalidade, actos dos progenitores, aspecto físico, etc.
E foi nisso que pensei quando ouvi Luís Filipe Menezes recorrer à expressão "pequeno tirano" para atacar Marques Mendes, procurando obter um efeito de humor - tão fácil quanto rasca - com a estatura da adversário.
Mas, já agora: o que é, verdadeiramente, ser-se pequeno?

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Um amigo meu, desempregado e com as finanças em mísero estado, resolveu aprender a profissão de ilusionista, tendo começado - e muito bem! - pelo truque de tirar moedas das orelhas - dele e da família, claro.
David Copperfield, sempre pensando e trabalhando em grande, faz isso com notas de dólar. Onde é que está o espanto?!

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19.10.07

Como habitualmente sucede aos fins-de-semana, aqui fica um post-aberto para quem o quiser utilizar.



O TEMPO POLÍTICO

Por Rui Tavares

1. JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS, o pivô-jornalista da RTP, foi suspenso das suas funções por causa de uma entrevista que deu a este jornal na Pública de passado domingo [7]. Dois polícias visitaram a sede de um sindicato para averiguar sobre os protestos a organizar numa próxima visita do primeiro-ministro.
Escrevo em cima da divulgação destas notícias, e nenhuma delas está inteiramente esclarecida. O que é claro é que há duas formas de lidar com notícias destas. A primeira é a estratégia da “autonomia do plano jurídico”: cada um destes casos tem a ver com o respeito por rotinas, por procedimentos e por uma disciplina interna, e qualquer discurso sobre eles pode ser considerado uma interferência.
Esta foi a estratégia que o governo seguiu quando, há uns meses, surgiram notícias semelhantes sobre o “autoritarismo” em estruturas do Ministério da Educação ou da Saúde. Foi uma estratégia errada então e será uma estratégia errada agora, se voltar a ser seguida.
Em primeiro lugar, estas notícias têm um carácter marcadamente público, e como tal têm um plano político. No plano político, revelam uma tendência de retaliação e vigilância excessiva. E é assim que serão lidas pelo público, e os valores políticos em causa justificam uma posição forte e clara do governo. Se o governo não tomar posição pública sobre elas, será entendido como conivente. Pode alegar que a sua intenção não é essa, mas a esfera pública não vive de intenções, vive de posições.
E há pelo menos um aspecto em que o governo, parecendo ser conivente, correrá mesmo o risco de ser conivente. Trata-se da pedagogia interna para os diversos elos da cadeia de decisão. O governo está no topo dessa cadeia e se não demonstrar que está contra actos de retaliação e vigilância excessiva, estará implicitamente passando a mensagem de que eles lhe agradam. E os escalões inferiores agirão nesse pressuposto, o que é grave e não pode ser aceitado.
A autonomia dos processos deve ser respeitada, mas a mensagem não pode ser apenas essa. Pelo contrário, terá de se acrescentar a ela um aspecto de responsabilização: terão de rolar cabeças se for confirmado que estamos perante um exercício abusivo da autoridade. E o momento para o dizer é agora. O tempo político não se compadece com o tempo jurídico.
*
2. REGRESSO AO ASSUNTO das capelanias. Escrevi que só havia duas leituras possíveis da disparidade entre o que está escrito no diploma sobre assistência religiosa nos hospitais e as declarações que sobre ele prestaram os responsáveis católicos: “ou os bispos não souberam ler o diploma, ou induziram o público em erro sobre o seu conteúdo”. Helena Matos levanta uma terceira hipótese, a de que “o diploma de que falavam não era este”. Mas essa hipótese já foi afastada pelo próprio coordenador das capelanias hospitalares, padre José Nuno Ferreira da Silva, em declarações ao Diário de Notícias no passado Sábado. O público foi efectivamente induzido em erro, pelos responsáveis católicos, sobre o conteúdo do diploma.
Quem poderá esclarecer este assunto é o próprio porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, padre Carlos Azevedo, que é um dos críticos mais severos do diploma e que em declarações à agência Ecclesia prometeu para breve um comunicado sobre o assunto. Será a ocasião para explicar as suas declarações de 11 de Setembro passado alegando que o diploma proibia a assistência religiosa fora da hora das visitas e insinuando que ela teria que ser feita pelo pároco da área da residência – duas informações equívocas, para dizer o mínimo.
«Público» de 11 de Outubro de 2007-c.a.a.

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E já que falámos de bancos...

Clicar na imagem para a ampliar
A resposta a este velho problema não deve ser dada neste blogue mas sim [aqui].
Actualização 23 Out 07: a resposta certa já foi dada

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BCP – Opus Dei – Nova Democracia

Por C. Barroco Esperança
QUANDO É GRANDE O ESCÂNDALO, perigosas as conexões e suspeitas as ligações políticas, passa a ter interesse público o que se passa num banco privado.
O perdão de 12 milhões de euros ao filho do presidente do Conselho de Administração do BCP é ainda mais estranho do que o empréstimo sem garantias. Que o filho e o pai sejam membros do Opus Dei, à semelhança do delfim Paulo Teixeira Pinto, caído em desgraça, é uma coincidência que faz soar as campainhas de alarme de quem se lembra dos escândalos espanhóis Rumasa e Matesa, protagonizados pelo Opus Dei.
Quem não esquece que o governo do ditador Franco ao tempo dos referidos escândalos era formado por vários membros do Opus Dei, instituição sempre ligada ao capital financeiro e à santidade, bem como à extrema-direita e aos dois últimos papas, recorda a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano onde o Vaticano perdeu muito dinheiro e credibilidade.
Deste último sabe-se que o dinheiro foi usado para o sindicato polaco Solidariedade e para ajudar alguns ditadores sul-americanos mas a falência custou a vida ou a liberdade a Robert Calvi, Lúcio Gelli, Michele Sindona e ao arcebispo Marcinkus que João Paulo II nunca deixou extraditar para ser julgado em Itália.
Claro que os casos referidos nada têm a ver com o banco de Jardim Gonçalves mas o facto de o filho, a quem foi perdoada tão grande dívida, ter sido fundador e financiador do Partido da Nova Democracia (PND) põe um homem a pensar.

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18.10.07

Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

A QUADRATURA DO CIRCO

Lágrimas de crocodilo
Por Pedro Barroso
VIVER ADRIANO é senti-lo nos momentos que em nós ficaram para sempre na prata da sua voz. Não é aproveitamento de ocasião, por lançamentos ajustados de CDs evocativos. Nestes últimos dias tem-se assistido a isso. Há versões de canções primeiro cantadas por ele que devem demasiado ao seu cristal de voz e ao seu sentido de harmonia e de canção. Sessões comemorativas para que só se convidam alguns, esquecendo outros.
Eu estive nos dois últimos concertos com ele e vi; talvez por isso possa falar e contar melhor. Foram a Festa da Alegria em Braga e o espectáculo no Coliseu de Lisboa, de solidariedade com a Anop, que estava na altura a ser extinta. Muito trabalhou o Paulo Vaz de Carvalho nessa fase... Mas o Adriano dava o mote e todos nós íamos com ele, num canto colectivo que se perdeu.
Foi um homem extremamente simples e bom. Na candura do seu olhar havia mágoa permanente e foi com incredulidade que se viu arredado, nos últimos momentos da sua carreira, da Cooperativa de sempre, a Cantar Abril, ligada ao seu PCP, por expulsão disfarçada de exclusão momentânea.
Os seus últimos concertos foi a antiga Cooperativa Era Nova que lhe arranjou. Amigos…
Morreu oficialmente de acidente esofágico grave. Mas nós, os íntimos sabemos mais, porque vivemos e vimos. Adriano morreu por não aguentar tanta dor e tanta esperança retrocedida. Não é grave soçobrar, quando se é grande e sincero. Beethoven morreu de cirrose e não deixará nunca de ter sido enorme.
Estive em Avintes, chorando por dentro no meu velho jeep Toyota azul. E tanto a natureza como eu molhámos a nossa face por uma perda sentida e prematura. Chovia tanto que fiquei no jeep com alguns amigos, ouvindo a reportagem na rádio e vendo a multidão na porta do pequeno Cemitério, sem tentar sequer entrar.
Houve quem empurrasse e desse tudo para ficar com uma argola do teu caixão, Adriano. Já na altura a farsa começara. Ao que parece, continua o aproveitamento, hoje de uma forma mais pragmática e potencialmente comercial.
Que se vendam muitos Adrianos, claro. Para que o tal cristal eterno da tua voz permaneça na nossa memória de luta e de lembrança. Alguns ainda irão ganhar muito dinheiro com isso. Daí tão badalada celebração.
Os que de nós formos fiéis à tua eternidade ouvimos-te em silêncio, em versões velhas e originais, com o eterno Rui Pato e outros. Em dias nunca pré-determinados, indisciplinadamente. E lembrar-te-emos sempre como parte de um colectivo que se perdeu. E uma furtiva lágrima espreitará.
Não isto.

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