30.11.07

A sina dos 80/20...

É frequente ouvir-se frases tais como «80% dos acidentes são provocados por 20% das pessoas», «80% da riqueza é produzida por 20% da população», etc. - uma curiosidade estatística que é conhecida como «Lei de Pareto»:

Uma outra versão dessa lei dos 80/20 aparece hoje na inevitável anedota numérica em dias de greve:

Desafio aos leitores

O SORUMBÁTICO oferece um exemplar da obra cuja capa aqui se vê ao autor do melhor comentário à crónica de Clara Ferreira Alves acabada de afixar.
O prazo terminará às 20h da próxima segunda-feira, dia 3 de Dezembro, e cada leitor, devidamente identificado, poderá afixar até 2 comentários.
-oOo-
Depois de consultadas duas pessoas, que se prontificaram a fazer de júri, o prémio vai para "nanda", a quem se pede que contacte sorumbatico@iol.pt, para envio do prémio.

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A Justiça criminosa

Por Clara Ferreira Alves
POR UMA VEZ gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso.
Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.
Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.
Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.
E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.
Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?
Vale e Azevedo pagou por todos.
Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção.
Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.
Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?
Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia.
E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu?
E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?
E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente"importante" estava envolvida, o que aconteceu?
Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.
E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?
O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?
E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.
Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.
Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.
Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça.
«Pluma Caprichosa» - «Expresso» de 20 de Outubro de 2007 - c.a.a.

Banda Desenhada

FOI GANHANDO SUCESSIVOS COMBATES. Para cada um deles entregava-se a uma longa preparação, suava dentro de plásticos, saltava a corda, corria, dava murros no ar. Depois, descansava, lia ou cortava lenha como um doido, agarrando com as duas mãos cavacas, do tamanho que a cozinheira gostava para o fogão.
Travava quase diariamente longos combates de catorze assaltos, contra os mais díspares adversários, brancos ou pretos, que invariavelmente não chegavam ao fim. KO, KO técnico, abandono - era o registo quase constante da sua carreira, feita a murro, quase sempre na América.
Um alemão, uma vez, resistira-lhe até ao fim, mas a diferença de pontos deu-lhe, na mesma, uma vitória confortável.
A avó, normalmente, dizia que ele havia enlouquecido.
«Não sei onde este rapaz vai buscar estas coisas Ele lá sabe, é assim que se entretém.»
E ele, saltitando da ponta de um pé para a do outro, com um enigmático sorriso, pensava. «Hei-de chegar ao Madison Square Garden. Hei-de ser campeão. E a minha namorada e a minha avó hão-de estar na plateia, e a vizinha que é muito gira estará sentada, sozinha, sofrendo com os golpes que eu apanho, muito bem vestida, com um casaco de peles que eu lhe comprei.»
Imaginava essa vizinha igual à namorada do Mandrake, enquanto a sua própria namorada era a mesma do Luís Euripo. O treinador é que já não pertencia aos quadradinhos - era o senhor Adolfo, do Café Pérola, que sabia de boxe, fora campeão quando era novo e que ele decidira que passava a ser polaco.
Tinha, depois, longos monólogos a duas vozes. Normalmente eram longos diálogos com o seu manager, desabafos com o seu «segundo», confidências de homenzinho à namorada, propostas desonestas à vizinha. No fundo, era a representação do mundo adulto tal qual os quadradinhos lho mostravam, sob a forma de monólogo, com trabalho, ambição, amor, lealdade, pecado e infidelidades.
De uma semana para a outra, fizera quase uma temporada. Viajara nos comboios de costa a costa, combatera uma vez em Paris, descansara, vestido de branco, uns dias de Inverno em Miami, partira lenha como um doido cada vez mais impaciente pelas quintas-feiras, dia de semana em que se publicava a revista dos quadradinhos, onde lia histórias, via bonecos, mas, sobretudo, de onde copiava estilos, apanhava tiques e decorava frases inteiras.
Foi na pesagem para um dos seus combates, pesagem e apresentação à imprensa, que a grande oportunidade lhe surgiu: «Queres combater para o título mundial, com uma bolsa de um milhão de dólares?»
Dissera que sim, sem hesitar, sem consultar ninguém, sem esperar por coisa nenhuma. Afinal, era a primeira e a única grande oportunidade: os avós iam ao cinema, ficava apenas a velha empregada na cozinha, a passar a ferro e a ouvir rádio.
Despachou rapidamente o adversário que tinha que despachar, porque há coisas que têm que ser feitas, partiu para a quinta onde fazia a sua preparação física, deu duas entrevistas, tudo isto das sete às nove da noite, fechado no quarto, onde esperou que os avós saíssem para jantar fora e irem ao cinema, para, depois, ele poder enfrentar o combate que era o desafio da sua vida.
Deu a volta à chave da vetusta sala de jantar, que permanecia encerrada na penumbra ou nas trevas, apenas se animando nas grandes datas, com o seu lustre de mil e uma lâmpadas, os seus cristais, os seus espelhos, as suas pratas - um templo. O único local que poderia para ele representar o Madison Square Garden.
Acendeu apenas uma parte do pesado lustre, tocou devagarinho o gongo de chamar a criada, apenas para verificar se o seu som servia, de facto, para separar cada assalto e foi equipar-se. Voltou com uma cadeirinha algarvia minúscula, de assento de palha e flores amarelas pintadas em fundo vermelho, a qual colocou sobre um dos cantos da mesa de carvalho. Foi para a casa de banho, onde vestiu os calções de ginástica do liceu, pôs as velhas luvas do avô forradas a pele de coelho, calçou um par de meias e pôs pelas costas um roupão turco.
Foi nessa altura que um gangster lhe fez uma oferta para ele perder.
Furtivamente, partiu para a sala de jantar, onde, ao acender todas as luzes do lustre, uma multidão gritou o seu nome. Viu a namorada e sorriu à vizinha, as duas em sítios diferentes na plateia, olhou de esguelha o adversário antes de subir ao ringue e, quando subiu, a grande mesa de carvalho empinou-se lentamente do outro lado, muito lentamente para acelerar de súbito, e ele, numa náusea de quem leva um directo no fígado, já em desequilíbrio, a agarrar-se ao lustre e o lustre a despenhar-se em milhares de vidrinhos, e a mesa a estrondear ao voltar à sua posição, e a instalação eléctrica a estoirar, e a casa nas trevas, e a criada a gritar, na cozinha: «Ai valha-nos Deus!»
Quando o avô voltou do cinema, apanhou uma tareia monumental. Foi a sua primeira derrota: perdeu a bolsa e nunca seria campeão. Fora derrotado por KO, ao primeiro assalto.
Lisboa, 1987

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29.11.07

Se a NAER ainda tem dúvidas acerca da grafia de bem-vindo (um problema que resolve escrevendo de duas formas e começando logo pela errada...), parece não ter nenhumas no que toca à localização do Novo Aeroporto...

Às armas!

A actual Lei das Armas pode dar prisão aos militares que usem as suas espadas e espadins sem ser no exercício de funções, as transportem na via pública ou tenham em casa.
«DN» de 29 Nov 07
NO JÁ LONGÍNQUO ANO de 1970, entrei para a Marinha, no cumprimento do Serviço Militar Obrigatório.
E posso já me ter esquecido de muitas coisas menos da espada que na Escola Naval me atribuíram, a que me afeiçoei, e que tive à minha guarda durante toda a recruta. No entanto, sendo eu da Reserva Naval (o equivalente a miliciano do Exército), tive de a devolver depois da cerimónia do juramento de bandeira e recordo-me de que, durante algum tempo, ainda tive saudades dela.
E não voltaria a lembrar-me dessa simpática amiga se não se desse o caso de, hoje, o «DN» nos dar conta, numa notícia intitulada «Uso das espadas pelos militares foi ilegalizado», de que... - Bem, o melhor é ler!
NOTA: Na imagem, vê-se parte do arsenal de armas-brancas abrangidas pela referida lei (lâmina com comprimento superior a 10cm), que tenho na cozinha e que, pelos vistos, vou ter de entregar na esquadra do Arco-do-Cego.

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A Morte do Miguel

Por C. Barroco Esperança
DIA 27 DE JUNHO o Miguel teve o seu funeral. Caíra no Sábado anterior quando saía do casebre. Quebrou o fémur e ganhou um hematoma na cabeça. Transportado ao hospital faleceu no dia seguinte.
O funeral foi na terça-feira. O Miguel teve missa, flores que os amigos lhe levaram e os responsos canónicos antes de baixar à cova. Já não o acompanharam os pais e avós, que partiram antes, mas estavam lá os amigos que com ele jogaram à bola na Praceta, quando companheiros da escola primária onde começou e terminou os estudos.
Para os que acusam os jovens de egoísmo foi tocante ver os que vieram de longe, alguns bem instalados na vida, outros à procura de uma oportunidade. E eram muitos.
O Miguel é que não teve vaga. Não conheceu o pai, falecido quando ele ainda não tinha dois anos. A mãe esqueceu-o na amnésia da droga e não o recordou quando partiu sob o efeito de uma dose reforçada.
Os avós recolheram-no. Partiu primeiro a avó e não se demorou o avô. O Miguel ficou aos baldões da sorte, ao abandono, não lhe faltando os pontapés da vida nem a companhia de outros desgraçados.
Tinha 31 anos e mantinha os olhos de criança no rosto já cansado. Passou fugazmente por várias drogas mas foi no álcool que se fixou, em doses cada vez mais vastas. Se os amigos o saudavam, sorria com gratidão. E não deixou que lhe virassem as costas, foi-se afastando entre carros que arrumava e garrafas de cerveja que consumia.
Ainda teve tempo para fazer um filho. Foi amado. A mulher quis levá-lo para o cuidar, mas não quis ser fardo. Andou por aí, sem querer ser pesado, sem se queixar, a desfazer o fígado e a vida, a acelerar para o fim, com um sorriso que guardou para os amigos.
Na morte teve a mulher que o amou, vestida de preto, e muita gente: um arrumador no intervalo da ressaca, o director de um estabelecimento do ensino superior, o dono do café, jovens que após os cursos foram pela vida mas voltaram à Praceta para dizer adeus ao Miguel e lhe levar as primeiras flores que recebeu. E todos nos sentimos tristes com vergonha de sermos felizes.
Chamava-se Luís Miguel Neves Caldeira, de seu nome. Era tudo o que tinha com a roupa que trazia e um velho rádio de que fez testamento oral. Dele só resta o rádio e o raio da nossa incapacidade para criar um mundo mais justo.
Vi o edital que anunciava a missa do 7.º dia para as 18h30m, seis dias após a morte, pois o 7.º dia é quando um padre puder. Talvez a missa fosse pela remissão dos pecados de Deus. Para que outra coisa poderia servir?
«Jornal do Fundão» de 29 de Novembro de 2007

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Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

28.11.07

O dançarino

Por Joaquim Letria
HÁ POUCO TEMPO, em Viana do Castelo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, apareceu a dançar o vira. Agora, este dançarino já anda a afiambrar o merengue e umas mornas para entreter, devagarinho, quem o quer pôr a dançar a música que ele cantou quando quis Mugabe em Lisboa, em vez de chutar para a União Africana e para a União Europeia e elas que se desenrascassem.
Perante a recusa de Gordon Brown vir, se Mugabe cá estiver, Amado já diz para Londres que preferia que Mugabe não viesse, na esperança de que este o ouça em Harare. Tais atitudes deixam ingleses e zimbabueanos a sorrirem de alto. Quem não mostra vergonha não pode esperar respeito.
Estas coisas dizem-se cara a cara, olhos nos olhos, como estou cheio de curiosidade de ver Mário Soares fazer a Tony Blair quando, em breve, este cá vier proferir uma conferência. Há dias, no “El País”, o ex-presidente da República disse que a ideia de Tony Blair assumir o novo cargo de presidente da União Europeia era “insólita e insensata”. O que também me parece, mas Soares que o diga agora no “trombil” de Blair. Para que este saiba e a gente veja.
«24 Horas» de 28 de Novembro de 2007

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Passatempo «Porquê eu?!!»



A FOTO que em cima se vê (tirada ao início da tarde de 22 Abr 08 junto à Suprema, na Av. de Roma, em Lisboa), completada com as outras duas (e com muitas outras que poderiam aqui estar), contém a solução do passatempo afixado em 23 Abr 08 neste blogue e n' «O Carmo e a Trindade».
Pretende-se evidenciar o azar que teve o dono do carro bloqueado, numa zona em que o estacionamento selvagem ultrapassa tudo quanto é admissível: veja-se o que sucede junto ao Frutalmeidas, na mesma avenida (fotos já aqui inúmeras vezes afixadas), junto à EDP, na Av. dos EUA (fotos de ontem, de hoje... e de sempre), etc., etc., etc...

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Crónica de um dia de Verão

Por António Marinho e Pinto
DESLOQUEI-ME HOJE (03/08/2007) de Coimbra a Lisboa e, como habitualmente, utilizei o Serviço Alfa da CP. Fui de manhã bem cedo e regressei a meio da tarde.
Costumo viajar em segunda classe, porque é mais barata e melhor frequentada do que a primeira.
No entanto, quando regressei já não havia bilhetes na turística, pelo que tive de viajar em primeira classe, numa das carruagens, pomposamente designada por «conforto».
Puro engano. Conforto nem vê-lo, pelo contrário. Foi um verdadeiro suplício. Tive de viajar numa carruagem fechada, sem janelas e com uma temperatura que variava entre os 28 e os 29º centígrados… Permanentemente. Toda a viagem a suar sem qualquer possibilidade de atenuar o sofrimento senão a beber «quartos» de água comprada a preços especulativos.
Por isso, aqui fica o conselho: evite a CP nos tempos de canícula. É bem melhor usar o automóvel ou então os autocarros da Rodoviária.
Antigamente, quando alguma coisa funcionava mal em Portugal, dizia-se logo que era «como o aquecimento nos comboios da CP – só aqueciam de verão». Pelos vistos a velha «joke», readquiriu actualidade.
Mas o mais curioso é a justificação dada. A temperatura interior das carruagens está «indexada» à temperatura exterior, apenas em 10º centígrados a menos. Portanto, os utentes (e não clientes, pois não há alternativa nesse meio de transporte) da CP já sabem a que temperatura irão viajar: se a temperatura exterior for de 39º graus (como aconteceu hoje), dentro das «carruagens conforto» da CP a temperatura não será inferior a 29 graus. E se a canícula aumentar… Bem, então o melhor mesmo é fugir para bem longe.
Os leitores do SORUMBÁTICO estão convidados para o lançamento do livro «Fundação Calouste Gulbenkian - Cinquenta anos - 1956-2006».
Será amanhã, dia 29 de Novembro, às 18h, no Auditório 3 da referida Fundação.
Esta é a 52ª tira de Van Dog, a do seu 1.º aniversário.
Parabéns, pois!

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O poder da memória

Por Baptista-Bastos
"Os que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo"
George Santayana
A MEMÓRIA, a falta ou o excesso de memória, motivaram, no sábado, uma intervenção de Mário Bettencourt Resendes, no DN, e uma afirmação da historiadora Irene Flunser Pimentel, na revista Única, do Expresso. No dia seguinte, domingo, também no DN, Mário Soares, em entrevista a João Marcelino e José Fragoso, reverte, igualmente, para a memória histórica. De um modo ou de outro, qualquer deles alude ao silêncio que envolve muitos dos factos determinantes do nosso destino ou que marcaram datas da nossa época. E os três sugerem que essa ausência de memória acaba por ser factor de desumanização. O que Kierkegaard designou de "o passado presente" deixou de constituir a reserva ética da Imprensa. Na sociedade, o exercício de recordação passou a ser um incómodo, para não dizer uma maçada. Na política, o apagamento da memória associa-se à carência de moral e corresponde à estratégia do "pragmatismo", eufemismo inesgotável das traições mais vis.
Irene Flunser Pimentel, autora de A História da PIDE, propõe uma tese, consignada nesta afirmação: "Acho que durante algum tempo, em Portugal, até por razões de pacificação a seguir ao PREC, acabou por cair-se numa espécie de esquecimento, o que fez com que algumas pessoas tivessem excesso de memória por estarem sempre a viver no passado." Há quem saúda os erros com aplausos. Neste caso, creio que a pressa em "pacificar" o País originou amolgadelas na própria recepção do ideal democrático, afinal "servido" por gente que nada tinha a ver com os fundamentos desses ideais.
Em nome dos interesses e das necessidades do momento, o projecto político saído do 25 de Abril morreu 19 meses depois. Os episódios de "reabilitação" que se lhe seguiram comportam muito de abjecto. E não esqueço as responsabilidades incumbentes a jornalistas estipendiados. Encontram-se todos muito bem na vida. Foi num governo do dr. Cavaco que a viúva de Salgueiro Maia viu recusada uma pensão. O mesmo governo atribuiu-a a torcionários da PIDE, por "distintos serviços prestados à pátria". George Steiner: "O irreparável é a coisa dita. Poderemos imaginar que a contradição mereça a absolvição? Nem por um segundo." A prática democrática não é, somente, a procura do justo equilíbrio entre as partes. É, antes de tudo, uma questão ideológica.
Quando Mário Soares repete o que tem vindo a dizer: "Gostaria que o PS se voltasse um bocadinho para a Esquerda", ele sabe, muitíssimo bem, que a viragem é impossível com esta gente. Ela não se nutre na moral, despreza a ética, tripudia sobre a ideologia, está ferida de autoritarismo grosseiro. Sobretudo, não tem memória e combate quem a ilumina.
Ter memória e defender o seu património é extremamente perigoso.
«DN» de 28 de Novembro de 2007

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27.11.07

Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933
www.tsf.pt/online/internacional/interior.asp?id_artigo=TSF185856

O sr. Embaixador

Por Joaquim Letria
HÁ MUITO QUE NÃO ME RIA TANTO como me ri com este embaixador que os Estados Unidos têm em Lisboa. Bons tempos, quando em Lisboa o Carlucci me convidava para jantar na Lapa para discutir o PREC, e o Kalinine, da falecida União Soviética, me enchia de borsch no Restelo para ganhar lastro para a vodka, rum cubano, armagnac e espumante da Crimeia com que tentava enfrascar-me antes de falar dos perigos da contra-revolução.
Hoje, o russo é capaz de não ter piada nenhuma, mas este americano é muito engraçado.
Não me digam que não se riram como eu, quando ele, muito paternal, muito querido, avisou a Galp dos perigos que está a correr ao meter-se na Venezuela do Chávez e na Rússia do Putin.
Além de parecer mal tais patacoadas num Estado soberano, até parece que a Exxon e a Chevron não estão metidas até ao pescoço na Venezuela e que não há investimentos e empresas americanas na Rússia, nem estão de língua na boca da Gazprom que deu emprego ao amigo Schroeder!
É por sermos pequeninos e pobrezinhos?! Deixe lá, embaixador, não faz mal!
Leia-nos antes o “Capuchinho Vermelho”, ‘tá?
«24 horas» de 27 de Novembro de 2007

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Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

O palito

Por Nuno Crato
NÃO DEVE HAVER OBJECTO MAIS SIMPLES nem manufactura aparentemente mais banal. Apenas usa uma matéria prima, vende-se sem manual de instruções, não necessita de montagem nem de manutenção. Mas tem uma história longa e fascinante.
Antepassados dos modernos palitos eram usados pelos Egípcios, Gregos e Romanos, que se serviam de lascas de madeira para limpar os dentes e faziam palitos de metal que incorporavam na joalharia da época.
O naturalista Plínio o Antigo e outros sábios da Antiguidade discutiam as vantagens dos diversos tipos de madeira. E o poeta romano Martialis ridicularizava em verso os desdentados que se passeavam na rua com inúteis palitos na boca, apenas para disfarçar a sua decrepitude.
No Renascimento usavam-se penas de ganso. Durante a revolução industrial desenvolveram-se processos de corte de madeira e fizeram-se grandes progressos na indústria. Usaram-se as técnicas mais modernas e estudaram-se matematicamente os melhores processos de aparo. Fizeram-se cortes triangulares e desenharam-se palitos em forma de tetraedro alongado.
Ainda antes das técnicas matemáticas de optimização de corte, maximizava-se a resistência e minimizava-se o desperdício.
Um dos países que mais se destacaram no negócio foi Portugal, que servia de exemplo aos próprios Estados Unidos (Petroski, «The Toothpick», Knopf, 2007).
Em 1817, tentando convencer os ainda recalcitrantes críticos da industrialização, a Sociedade Americana para Promoção da Manufactura recordava o exemplo da indústria de palitos do Lorvão, perto de Coimbra: «Será que as indústrias degradam Portugal?», perguntava. «Será que a manufactura de palitos é feita na Universidade de Coimbra?»
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 24 de Novembro de 2007

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26.11.07

Quem tem acompanhado os passatempos promovidos pelo SORUMBÁTICO, decerto já reparou que, de vez em quando, um dos prémios possíveis é este livro, da autoria de Paulo Querido, oferecido pela editora Centro Atlântico. Pois bem; hoje há um exemplar autografado pelo autor reservado para o visitante N.º 347.743, que só terá de enviar o print-screen comprovativo, juntamente com nome e morada, para sorumbatico@iol.pt. Boa sorte!

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Act. (22h06m): Pronto! Finalmente, apareceu o leitor que fez o print-screen que em cima se vê.

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Quando o comércio quiser

Por Alice Vieira
AS COMPRAS DE NATAL são sempre, para mim, momentos de enorme prazer. Nunca percebi muito bem as pessoas para quem as prendas desta época são uma obrigação instituída, uma coisa que tem que ser, uma espécie de competição para ver quem despacha mais e no mais curto espaço de tempo, tudo a correr e como se se estivessem a libertar de um terrível frete sazonal. De lista na mão, vão riscando os nomes, “a tia já está, a prima já está, o chefe já está”, e tudo tem um ar mercenário que me aflige muito.
Eu demoro imenso tempo a pensar no que cada pessoa gostará, porque o Natal é também isso, pensar mais um bocadinho nas pessoas, e fazê-las sentir que são importantes para nós, que não são apenas um nome no meio de uma lista, que aquela prenda que lhe damos foi pensada para ela, e só podia mesmo ser para ela.
E depois vêm ainda as horas que passo em casa a fazer os embrulhos, porque também esses têm de ser especiais - já para não falar dos cartões que os acompanham.
Resumindo: as compras desta época, para mim, são também um ritual, tal como espalhar pela casa os presépios todos, e armar a árvore, e enfeitá-la - e como tal necessita de tempo.
Começo sempre muito cedo, com as lojas ainda pouco movimentadas - mas nunca antes de finais de Novembro.
Mas este ano, não sei porquê, se calhar levando ao extremo aquela estafada frase de que “Natal é quando um homem quiser”, o comércio decidiu querer muito cedo - e apareceu um calendário estranhíssimo, e ao tempo que as lojas estão superlotadas, e as pessoas andam afadigadas nas compras.
Mas afadigadas mesmo: transpiradas, despenteadas, aos encontrões a todo o mundo, sem paciência e a berrarem pelos filhos pequenos que ficam parados diante dos monstros que abundam nas prateleiras infantis. Como se estivéssemos no dia 24 de Dezembro e elas tivessem descoberto que ainda lhes falta riscar os nomes da lista inteira.
Porque agora o Natal começa logo nos primeiros dias de Outubro - ou até antes. Acabamos o último mergulho na praia e já nos furam os tímpanos com o “jingle-bells”, o “I wish you a happy christmas”, ou a “noite feliz” em várias línguas, atirados pelos altifalantes de todas as grandes (médias, pequenas) superfícies comerciais. É uma overdose de cânticos que até eu, a indefectível, já dou por mim a escolher as lojas onde entro pela música que NÃO dão.
Por isso percebi tão bem a angústia daquela empregada que, há dias, me pedia “por favor, não passe diante daquele Pai Natal, porque os sensores fazem com que ele cante de cada vez que alguém se lhe atravessa na frente… Está ali há quase dois meses e eu já não o posso ouvir…”
Claro que lhe fiz a vontade. Até porque a pobrezinha me pareceu pálida, com olheiras, e instintos assassinos, coitada.
Mas se calhar era por causa das luzes especiais.
Também elas a caírem-lhe em cima há dois meses...
«JN» de 25 de Novembro de 2007

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Já que se falou de restauração...

Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933
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Eles estão doidos!

Por António Barreto
A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da “fast food”, para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e “petiscos”, a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.
Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta “produto não válido”, mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.
«Retrato da Semana» - «Público» de 25 de Novembro de 2007
-
Actualização (6 Dez 07): esta crónica continua [aqui]/ CMR

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25.11.07

«O Triunfo de Fedúncia da Costa» - Votação

Terminou a primeira fase do passatempo «Fedúncia da Costa», que consistiu em comentar a crónica de Appio Sottomayor [v. aqui] acerca do fecho da "Ginjinha" do Largo de S. Domingos, em Lisboa. Dos 12 comentários (que se transcrevem, em anexo, NESTE post - referenciados de A a M), o júri decidiu premiar os dois últimos, da autoria de "Maria Socretina" e de "C".
*
Aqui fica, também (e até às 20h de terça-feira, dia 27), uma "votação pelos leitores". Se o resultado indicar um vencedor diferente dos dois que o júri escolheu, também ele será premiado.

Qual o melhor dos 12 comenta'rios?

A
B
C
D
E
F
G
H
I
J
L
M
pollcode.com free polls

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Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

A casaca e o camuflado

Por Nuno Brederode Santos
ANUNCIAVAM-SE NEGOCIAÇÕES para parcerias energéticas da Galp com russos e venezuelanos, quando ocorreu o episódio que todos conhecemos. Foi no final da Cimeira Ibero-Americana de Santiago do Chile, não se encontrando já presentes nem Cavaco nem Sócrates. O "bolivariano" Hugo Chávez, naquele estilo inconfundível que é feito da falta dele, brindou Zapatero com uma sonora heresia diplomática. O Rei Juan Carlos, fazendo do Bourbon o refém de um súbito rancor plebeu, lançou-lhe aquele último olhar de Pizarro a Atahualpa e desferiu o já famoso "por qué no te callas?". Entre nós - já que na Venezuela e em Espanha isso era inevitável - alguma gente de direita e outra tanta de esquerda quis ver aqui, se não a ressurreição, pelo menos um novo fôlego para um seu herói. Mas o embaixador americano em Lisboa preferiu aproveitar o incidente para lançar sobre a empresa portuguesa envolvida naquelas parcerias e sobre o Estado que entretanto receberia Chávez, numa breve escala entre Paris e Cuba, suspeições e avisos. Com a Espanha a servir de involuntária boleia aos interesses que ele cá representa, Alfred Hoffman Jr. declarou várias coisas de oportunidade duvidosa. Destaco apenas uma: "Parece que a Espanha e os EUA estão na lista do Diabo e Portugal está na lista dos abraçados." (Para os mais distraídos, "el Diablo" é George Bush, na pitoresca nomenclatura de Hugo Chávez).
Alfred Hoffman não é um diplomata de carreira. Não tem, dela, a componente de bisbilhotice científica, nem o activismo aventureiro, que marcam a diplomacia americana. Nem a fleumática disciplina de salão e a sólida cultura conservadora que, de Kipling a Chesterton, um embaixador inglês, no pós-guerra, era constrangido a exibir. Talvez nem tenha a barrela escolar de relações internacionais ou história universal. Saber se estica ou não estica o dedo mindinho ao soerguer uma chávena de chá é irrelevante (ou foi-se tornando irrelevante à medida que o século XX se ia aproximando do XXI). Saber se é simpático de seu natural não é tão importante como saber se foi simpático a Cheney, Rumsfeld ou Wolfovitz. Ele é um milionário que, ao que se diz, por muito ter contribuído para a campanha eleitoral, Bush quis mais tarde agraciar com um posto diplomático. Está em cobrança de lazer. Há, na sua missão, qualquer coisa de veraneio cívico. E é provavelmente um devoto, que retomará a gestão da(s) sua(s) empresa(s) logo que o parêntesis da Administração Bush se feche. Não é, por isso, de estranhar que não veja qualquer delicadeza em se ingerir nos assuntos de uma empresa ou de um Estado, aliado e soberano. A diplomacia americana, esta que agora começa a fazer as malas, teve de se ajustar ao seu tempo: vestiu o camuflado e desceu à carreira de tiro. É a diplomacia Chuck Norris, esse apolíneo e aristocrático ranger do Texas que, em defesa de qualquer pardalinho ferido de asa, parte cabeças, queixos e braços a quantos humanos com ele quiserem partilhar o pequeno ecrã.
Registava um DN desta semana terem sido recebidas muitas cartas de leitores, incomodados com a sobranceira displicência das várias declarações de Alfred Hoffman. Mas eu não sei se não haverá excesso de candura em nos darmos ao trabalho de lhe explicar o óbvio. Ou seja, que, se as imprudências da história o fizerem outra vez embaixador, terá de ter a maçada de, antes de mais, mandar varrer à morteirada o território e passar a fio de espada os habitantes. Para depois, mas só depois, poder dizer - já em casa e causa próprias - aquilo que lhe passar pela cabeça.
De resto, consta até que ele está para se ir embora. E, por surpreendente que seja, eu lamento o facto. Primeiro, porque como, pelos vistos, poucos levam totalmente a sério a desenvolta ligeireza com que faz de dono da quinta, ele tornou-se uma assombração gentil, um fantasma da casa, como o de Canterville: espreita entre os bibelots e a família enternece-se. Depois, porque ele provavelmente sairia após a saída de Bush. E assim arriscamos uma escolha idêntica, mas nova - podendo, por isso, demorar mais tempo.
«DN» de 25 de Novembro de 2007

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24.11.07


Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

Sentimento de culpa com rabo de fora

Por Ferreira Fernandes
HÁ TRÊS ANOS, Frank Warren imprimiu três mil postais que distribuiu a desconhecidos. Pedia-lhes: "Escreva um segredo seu, não assine e mande-mo de volta." Foi um sucesso. As confissões aparecem no blogue PostSecret, que se tornou um dos mais vistos da América, com três milhões de visitas por mês.
Frank Warren exportou o sucesso e já tem, desde Outubro, um PostSecret em francês. Segredos curtos, segredos pequenos. Tipo: "Roubo fotos dos clientes do laboratório de fotografia onde trabalho," Ou: "Quando era miúdo dei um bocado de galinha frita a comer a uma galinha. Ainda hoje me sinto culpado..." Warren roubou a ideia à Igreja Católica: a confissão lava a culpa. Freud também já o tinha topado e inventou com isso a psicanálise.
Expia-se falando. Também eu abri um consultório de segredos. Já recebi o primeiro. De um juiz: "Tirei uma menina a quem ela ama." As confissões só servem se há sentimento de culpa. É o caso: "Tirei-a, mas só depois do Natal."
«DN» de 24 de Novembro de 2007-c.a.a.

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Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

Arqueologia

«A discussão do O. E. [Orçamento de Estado para 2008] resumiu-se a:
Sócrates ataca forte com 2005; Santana atrapalhado contra-ataca com 2004; o primeiro argumenta com 2003; Santana ataca, sem convicção, com 2001.
Ficaram-se por aqui e não chegaram a D. Carlos e a 1891 (...) porque não houve tempo (graças a Deus!)».
-
Campos e Cunha no «Público» de 23 Nov 07. Texto completo em "Comentário-1".
Como sempre sucede aos fins-de-semana, aqui fica um post-aberto para quem o quiser utilizar.


23.11.07

A Netcabo e a Staphylokokus

Hoje de manhã, ao abrir a página do SORUMBÁTICO, deparei-me com um grande aviso da Netcabo que me informava que eu havia sido identificado como spamer, na medida em que estava a enviar 1000 e-mails por minuto!
«E esta?! Decerto apanhei algum vírus!» - pensei eu, naturalmente preocupado. «Se calhar, não devia ter mudado do Panda (pago) para o Avast (gratuito!).
No entanto, pouco tempo depois, a mesma Netcabo pedia-me desculpa pelo engano, porventura inspirada na história que seguidamente se pode ler (*)...
-oOo-
A GLORIOSA STAPHYLOKOKUS, LDA.
NA REALIDADE, (pelo menos que eu saiba), não existe por aí nenhuma firma chamada Staphylokokus.
Mas sucede que, quando eu tenho de relatar factos embaraçosos passados com empresas minhas conhecidas, preciso de ter alguns cuidados – de contrário, arrisco-me a ter de responder em tribunal por atentados ao seu bom-nome, pois a liberdade de expressão tem alguma limitações, como toda a gente sabe. Além do mais, o que vou contar envolveu uma pequena marotice da minha parte que - embora com alguma vergonha, confesso… - passo a explicar em detalhe.

*
TODA A GENTE que tem correio electrónico já recebeu (e às dúzias, se não mesmo às centenas) estranhas mensagens alertando para terríveis perigos. São todas do mesmo género:
«Atenção!!! A Microsoft avisa! Se receber uma mensagem com um anexo intitulado A Bíblia dos Monges apague-a imediatamente! De contrário, o seu computador será destruído…», etc., etc.
Em geral, só varia o nome do tal ficheiro supostamente perigoso (havendo muitos outros - um que dá pelo nome de Life is Beautiful também está sempre a aparecer) e a mensagem, depois de descrever as incríveis desgraças que nos podem suceder se não acreditarmos nela, termina invariavelmente apelando para que avisemos este mundo e o outro, começando por todos os nossos amigos.
Na realidade, o melhor é avisar só os inimigos, pois trata-se dos famigerados hoax, ou vírus-peta (uma espécie de vírus-dos-pobrezinhos): embora não estraguem coisa nenhuma, atafulham as caixas-de-correio das pessoas crédulas - que, a avaliar pela quantidade de vezes que os recebo, são quase infinitas.
Ora sucedeu que, depois de apanhar com vários desses e-mails vindos da Staphylokokus, resolvi servir-me de uma variante para uma pequena marotice que só hoje confesso.

*
A HISTÓRA passou-se assim:
A Staphylokokus tinha-me dado um trabalho para fazer em casa; no entanto, devido à grande quantidade de encomendas que nessa altura me apareceram, acabei por me esquecer totalmente do compromisso assumido com ela.
Assim, quando, dias depois, a Dra. Geringonça (a Chefe dos Serviços de Informática) me telefonou a perguntar se ele já estava feito, fiquei sem fala; e, quando a recuperei, recorri à resposta habitual em casos semelhantes:
- Está quase, já não falta tudo… – respondi, sem grande convicção.
Como eu receava, ela não foi na minha conversa e, sem esconder o seu aborrecimento, informou-me, com maus modos, que contava receber o trabalho por e-mail nessa mesma tarde. Se assim não fosse – depreendia-se… – o nosso contrato cessaria de imediato.
E foi quando, bastante nervoso, me sentei ao computador para tentar fazer qualquer coisa, que tive uma ideia fabulosa: inventar um desses vírus-peta, para, graças a ele, bloquear os computadores da Staphylokokus e ganhar, com isso, o precioso tempo de que precisava para cumprir a minha parte do contrato.
A primeira ideia que tive para passar à prática essa pequena marotice implicava enviar para lá uma dessas mensagens que eles mesmos me tinham mandado, mas pensei que o melhor seria, já agora, introduzir algumas pequenas alterações, quanto mais não fosse no nome e características do suposto vírus.
E foi assim que alguns colaboradores da Staphylokokus receberam, pouco depois, um e-mail onde se podia ler, em grandes letras vermelhas:
«ATENÇÃO! A Microsoft avisa!!! Acaba de aparecer um novo vírus perigosíssimo!!! Se receber uma mensagem que tenha, em cabeçalho, a palavra SUBJECT ou ASSUNTO apague-a imediatamente!!! De contrário, o seu computador vai começar a deitar fumo e derreterá em menos de 5 minutos!!! Avise toda a gente, começando pelos colegas da sua empresa, pois o vírus propaga-se, de preferência, nos meios empresariais! E comece já por ver se esta mensagem está nas condições referidas!!!!».
Recostei-me para trás na cadeira e não precisei de esperar muito tempo até receber um telefonema da Dra. Geringonça:
- Espere, Jeremias! Não mande nada ainda! Estamos com um perigoso vírus nos computadores todos! Quando o problema estiver resolvido eu aviso-o!
Sorri, satisfeito, e foi nessa altura que me veio a inspiração que me faltava, e que me permitiu fazer o tal trabalho em pouco tempo. Depois, foi só esperar que a doutora me voltasse a telefonar, o que sucedeu ao fim do dia.
- Olhe, não mande nada ainda! Tivemos aqui um falso alarme de vírus, mas, quando já estava tudo esclarecido, o sistema voltou a encravar – é que as pessoas desataram todas a enviar umas às outras o aviso de que o vírus é falso, e está tudo outra vez num pandemónio!
Assim, e para não perder mais tempo (pois aproximava-se a hora de ver o futebol na televisão), acabei por tirar os ténis, calçar os sapatos novos, e ir lá pessoalmente levar o CD com o trabalho – cujo tema era… «Os falsos vírus».
-
(*) Capítulo 10 do livro «Jeremias dá uma mãozinha», Plátano Editora. E-book disponível em formato PDF [aqui]

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Este passatempo com prémio, da iniciativa do leitor "Zé de Portugal", está disponível no seu blogue [v. aqui]. Como sinal de reconhecimento ao destaque dado ao SORUMBÁTICO, este oferece, para juntar à lista de prémios lá indicados, o livro «Morte Suspensa», de Maurice Blanchot - um título escolhido por associação de ideias...

Act.: O passatempo já terminou e foi ganho por um nosso velho conhecido, o André Cid Proença.

A QUADRATURA DO CIRCO

O país dos Almerindos
Por Pedro Barroso
NÃO SE LHE CONHECIA OBRA DE CULTURA, drama ou romance. Não se lhe conhecia curriculum nem de cineasta, nem de vídeo amador. Não se lhe conhecia nenhuma especial sapiência em coisas de Rádio ou Televisão. E contudo.
Fundador do Partido Socialista, já foi também Presidente dos Conselhos de Administração da Agência Lusa e da Portugal Global; já foi também administrador da Caixa Geral de Depósitos e do Banco Espírito Santo; já foi também Presidente do Banco Fonsecas & Burnay e da filial portuguesa do Barclays; já foi também deputado pelo Partido Socialista e até Secretário de Estado da Administração Escolar, num governo chefiado por Mário Soares (1976/78).
Veio pois, do Banco de toda a gente, quando este acaba, para a Caixa de toda a gente, quando esta expande. Talvez como prémio.
Diz-se que, aí, houve mau entendimento com o Administrador principal. Saiu da dita CGD e logo arranjou um empregozito modesto na gestão da RTP. “Convite”, ao que parece, que é sempre como se contrata a este nível cá no burgo.
Uma surpresa para tantos homens de televisão elegíveis.
Como gestor implacável. Diz-se que é um homem de miúdos. Passe a expressão, hoje em dia equívoca e maldosa... Falo de trocos, tostões, pataqueira, entenda-se. Diz-se dos garimpeiros do cêntimo. Verificadores de contas, nunca investidores, com ordens rigorosas para poupar. Coisa que, ao que parece, sabe fazer.
Advogava que nunca deve investir-se nem em programas musicais, nem culturais, pois não dão audiências.
Foi-me dito na cara, em passados encontros, posso afirmá-lo, portanto.
Tem uma irritabilidade fácil e, contudo, tem sabido resistir a denúncias públicas das suas muitas benfeitorias, haveres, poderes, cargos e tachos. Em vão, jornais tentaram implicá-lo em tentaculares ligações. E denunciar-lhe os mil e um lugares, vencimentos e domínios. Imperturbável, o seu prestígio fica sempre incólume. De pedra e cal.
Tem defensores públicos que vêm à liça defendê-lo ao mínimo ataque.
Governar para o tostão tem sido o investimento de regime na cultura do povo. Se ele ficar progressivamente bimbo e recuado no gosto, não há problema. Imbecilize-se, mas haja pé-de-meia. O Estado assim entende a função da rádio e da televisão próprias.
E depois dá-se um fenómeno curioso – se não soubermos nem quisermos expandir o sentido crítico, a qualidade e a modernidade, o povo passa a consumir a mediocridade. E aí as audiências retornam. Bovinas mas retornam.
É o primeiro presidente da RTP a ser nomeado por um Governo e a ser reconduzido por outro Governo de outro partido. E continua dono do futuro, ao que parece.
Que ninguém o conteste. O empregado Rodrigues dos Santos que o testemunhe, pois escreve nas horas vagas e, para isso, parece que não anda a cumprir os horários. E dá com a língua nos dentes em assuntos que não deve. Está mal.
Ter tachos, afinal, é feio.
Agora, espantosamente, o homem sabe ainda mais comprovadamente de tudo. Acaba de ser nomeado presidente das Estradas de Portugal. Pimba!
Da Banca, à Televisão, às Estradas. Nem Nuno Rogeiro faria melhor.
Conclusão:
Eu quero mudar o meu nome.
Já deu entrada no cartório da minha terra que, em vez de António Pedro, quero passar a ser definitivamente, Almerindo. Apesar de um pouco teutónico, gosto muito.
Está decidido. Ponto. Não aceito menos.
É um nome muito bonito e paga demasiado bem, para lhe ficar indiferente.
Sou um óptimo gestor, o pessoal é que anda por aí distraído. Somítico, miudinho, minucioso, jacobino, avarento, agarrado, terrível. Serei tudo isso.
Tenho é andado adormecido entre o sonho e a viagem. Mas prometo reencaminhar-me de forma severa e exemplar. Aproveitem-me, por favor, desatentos indicadores e convidadores de cargos deste país. Serei excepcionalmente produtivo.
Cortiças, vinho do Porto, futebol, pescas, cereais, açúcares, azeites, banca, orquestras, televisão, ramas de petróleo, tangerinas, moda, helicópteros, qualquer coisa.
Prometo lucros. Resultados garantidos.
Como tal, mudo o nome e inscrevo-me em tudo o que for preciso.
Trigo limpo.
Ao vosso dispor. Atentamente,
Almerindo Barroso
(fica bonito, não fica?)

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22.11.07

«Não aquece nem arrefece»?!

Não se trata de fazer humor com as desgraças dos outros, mas o certo é que é difícil não relacionar [esta] notícia do «JN» com a imagem que aqui se vê (e que representa uma invenção de finais do séc. XIX).
Note-se que estes cobertores eram melhores do que os actuais, pois tanto serviam para aquecer como para arrefecer - só dependendo da temperatura da água circulante.
Já terminou o passatempo com prémio «ACONTECE...» desta semana [v. aqui].

A vencedora foi "Nanda", com o seu comentário «Diálogo absurdo». O prémio que, entretanto, já escolheu, ser-lhe-á enviado na segunda-feira.

Fala quem sabe...

Quem, como eu, conhece o "nosso" Pedro Barroso, sabe que não são de desprezar os seus conselhos acerca dos sítios onde se come bem!
Por isso, aqui fica uma sugestão de amigo: esteja atento a este seu novo blogue...

Casa Pia - Parte II: Por favor, nós já vimos este filme

Por João Miguel Tavares
NÓS VIVEMOS NUM PAÍS onde a desgraça dá a volta: os problemas demoram tanto a ser resolvidos e continuam a repetir-se tanto tempo depois de serem denunciados que primeiro causam enjoo e depois conduzem à passividade. Às tantas, em vez dos nos indignarmos face ao mal passamos a encolher os ombros, como quem vira a cara ao pedinte que todos os dias nos estende a mão na rua. Mais uma tese sobre o desaparecimento de Maddie?, mais um abuso na Casa Pia?, por favor, mudem a bobina que este filme já vimos. Em casos assim, o mais grave já nem sequer é a culpa morrer solteira ou a justiça ficar por fazer - são as sementes de indiferença que ficam plantadas em nós.
Vejam as notícias. Só mesmo o facto de a nossa capacidade de indignação já estar meio sedada é que pode justificar que as novas suspeitas sobre abusos sexuais entre alunos na Casa Pia possam ser escutadas com este sentimento de tédio, que só será levantado se mais um nome bombástico cair na sopa. Mas convém passar água fria pela cara e fazer as perguntas indispensáveis a quem governa aquela casa e a quem nos governa a nós: Como é possível? Como podem ainda existir funcionários da Casa Pia a angariar miúdos para encontros sexuais? Será que nada de significativo mudou na instituição depois de tudo o que se passou?
É certo que convém não sermos demasiados ingénuos: a pedofilia não desaparece por decreto e é plausível que vários jovens da Casa Pia, depois de violentamente introduzidos nesse circuito, acabem por permanecer nele por opção. Mas não é isso que aqui está em causa. O que está em causa, mais uma vez, é a angariação de miúdos a partir de dentro, com novos Carlos Silvinos a tomarem o lugar do original, como se estivéssemos perante uma organização mafiosa e não uma instituição a cargo do Estado.
Eu sei que o PS, com as suas velhas teorias da conspiração e tendo-se atravessado à grande por Paulo Pedroso, não será o partido mais adequado para lidar com o assunto. Mas, por favor, que alguém tenha olhos e vergonha na cara: um remake do processo Casa Pia seria uma tragédia para a credibilidade das instituições. Se as actuais denúncias se confirmarem, a Casa Pia não pode continuar nos actuais moldes - mude-se tudo, refunde-se, encerre-se, mas faça-se alguma coisa. E para começar, até por uma questão de mero decoro político, corra-se com a actual responsável pela Casa Pia, porque é impensável que Joaquina Madeira ande mais entretida a desmentir denúncias de Catalina Pestana - que pelos vistos eram justas - do que a olhar pelos jovens que tem a seu cargo.
«DN» de 20 de Novembro de 2007-c.a.a.

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Também, que raio de localização!

«Público» de 21 Nov 07

Vítimas (M/F)?!

Há mais consciência e civilidade de vizinhos e familiares e, sobretudo, maior coragem das vítimas. Escreve-se no feminino porque, na esmagadora maioria dos casos, a violência doméstica é exercida pelos homens sobre as mulheres.
Excerto do EDITORIAL do «DN» de hoje

21.11.07

Um filme interessante

«Gangster Americano» - o trailer

Este filme, baseado num caso verídico (passado nos últimos tempos da guerra do Vietnam), é em torno de um selfmade-barão-da-droga que consegue importar da Tailândia heroína com 100% de pureza, que coloca no mercado nova-iorquino a metade do preço. Os problemas que isso cria não são só com a polícia, mas também (e principalmente) com os outros gangs (com uma curiosa componente racista, na medida em que ele é negro).

Durante quase todo o filme, a história divide-se entre esta personagem e uma outra, o inevitável agente incorruptível, que, além do mais, tem contra si a corrupção policial (que abrangia 75% dos efectivos de combate à droga) .

No fim, e como não podia deixar de ser, há o embate entre ambos, com um desenlace verdadeiramente inesperado que aqui não se conta...

Um outro mistério (que só vem a ser desvendado perto do fim e que aqui também não se revela) tem a ver com o processo que o "artista" usa para fazer transportar a droga para os EUA - 100kg da primeira vez e 1000kg mais tarde, quando a guerra está a acabar e o negócio ameaça entrar em crise...

Um esquecimento…

Por Joaquim Letria
GUTERRES E BARROSO, antes de fugirem, inquinaram o pântano onde nos abandonaram e Sócrates faz o que pode e aproveita as peles de jacaré para vender carteiras e sapatos. Afundamo-nos a falar inglês técnico e a perder património.
Aquela que foi construída para ser a “praça maior” mais bonita da Europa é um vazio de tapumes miseráveis que esconde a vergonha em que, desde o princípio deste século, se afunda o Terreiro do Paço.
Os museus não abrem por falta de verbas, preciosidades desaparecem da Ajuda e da Torre do Tombo, Mafra não tem electricidade, Vila Viçosa só se visita antes de almoço, com luz natural, Queluz está ao abandono, Sagres é uma vergonha, o São Carlos uma tristeza, o D. Maria uma perplexidade, o Museu de Arte Antiga a saudade de uma perda recente e os outros não abrem, por falta de verbas.
Numa das minhas visitas a Bagdade antes da invasão americana comovi-me nos seus museus, com a Mesopotâmia e o esplendor da Babilónia em réplicas de peças riquíssimas saqueadas para museus de Berlim e de Londres.
Daqui a uns bons anos, Lisboa será um esquecimento, porque nem sequer em grandes museus da Europa vai figurar.
Restarão algumas peças, que cultivámos e acarinhámos, que irão parar sabe-se lá a casa de quem…
«24 Horas» de 21 de Novembro de 2007

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Pequena crónica do banal

Por Baptista-Bastos
"A vida pede pouco mais que vida."
RUY BELO - Meditação Anciã
OS PAIS PORTUGUESES são os menos brincalhões da Europa: apenas 6% divertem-se com os filhos. Nenhuma interpretação semântica escapa a esta evidência. O sentimento de "pertença", corolário de um conceito de relação, e este como vector da ideia de cidadania, está a mirrar. O sistema aniquilou as redes de comunicação que permitiam a troca de valores e a difusão dos afectos. E está a dissolver o amor.
As dificuldades dos portugueses são crescentes, os direitos diminuem, os deveres e as obrigações aumentam. Os jovens casais são empurrados para as periferias. As rendas de casa são altíssimas; a compra de apartamentos insuportável pela subida inclemente dos juros; os salários não suportam as oscilações dos preços das coisas elementares. Na impossibilidade de possuírem dois automóveis, ou mesmo nenhum, um casal, habitando (habitar não é viver) no subúrbio é coagido a servir-se de transportes públicos desconfortáveis, cheios de fedores, de tristeza, de pobreza e de passado.
O cenário é aquela fronteira densa e excessiva, sem enigma nem segredo, que todos conhecemos. A mulher sai do emprego, corre às compras no supermercado, coloca-se, desanimada e democrática, na bicha do autocarro. O autocarro está pontualmente atrasado. As pessoas consultam os relógios de pulso. Começam as conversas, desencadeiam-se as lamúrias, cruzam-se os queixumes. As mulheres entram carregadas. Observam-se, formais e cristãs; atentas ao penteado, aos sapatos, às roupas da outra. O autocarro, já muito cheiroso, fica invadido de bafos.
Os homens enfiam-se no carro. Antes, haviam comprado o jornal "desportivo" de sua preferência. Cada um dos jornais "desportivos" cultiva, com discrição e reserva, uma tendência clubística, por todos conhecida. Os homens estão desejosos de chegar a casa. Até lá, hora, hora e meia de caminho: as bichas, os pequenos e grandes acidentes diários, as chuvas, os calores, o dia que escureceu mais cedo, o dia que se prolonga até mais tarde. Os homens consultam os relógios de pulso. Almejam chegar a tempo de assistir a um dos 122 programas sobre futebol que todas as televisões transmitem, com pedagógica alegria. Chegam, ligam os aparelhos, sentam-se.
A mulher apareceu finalmente. O homem ouve-a: está concentrado no que afirma um comentador. Nem olha para a mulher, a mulher dá-lhe um beijo rápido, rotineiro e indiferente. "Que é o jantar?", pergunta ele. Pergunta por perguntar. Os seus plurais interesses resumem-se a ouvir a palavra culta e eloquente daqueles sábios acerca do jogo que ainda se não realizou. Intervalo. "O menino?", pergunta o pai. "Ficou em casa da avó", diz a mãe.
"Ah!", responde ele.
«DN» de 21 de Novembro de 2007

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A propósito dos 85 anos de Saramago

O livro «PARA UMA LEITURA DE "Memorial do Convento"», aqui oferecido nas condições indicadas nos "Comentários" ao post anterior, foi ganho por "Colibri", visitante n.º 344.000.
O outro livro lá referido, cuja capa que aqui se vê, será oferecido ao primeiro visitante que enviar para sorumbatico@iol.pt um print-screen do site-meter indicando um número terminado em 85.
Entretanto, já passaram o 344.085, o 344.185, o 344.285... e nada!
NOTA: Se o vencedor já tiver o livro, talvez se arranje, em alternativa (e por associação de ideias...), um dos 12 volumes de «Doces Conventuais»...
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O prémio foi ganho por Fernando Martins, visitante 344.385

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20.11.07

José Saramago - escritor, ateu e comunista

Por C. Barroco Esperança
JOSÉ SARAMAGO, o Nobel do nosso contentamento, faz hoje 85 anos, segundo o registo, embora já leve mais dois dias.
Domingo era aguardado no Convento de Mafra, terra onde tem uma escola secundária com o seu nome, à revelia do edil que nunca autorizou o preito que o Governo de Guterres acabou por impor. Há 290 anos foi lançada a primeira pedra do Convento com que D. João V agradeceu a mercê divina de um herdeiro e delapidou o ouro do Brasil que lhe sobrou das oferendas ao Papa.
Não adivinhava o «Senhor Fidelíssimo», título e prémio papal ao desperdício com que deslumbrou o Vaticano, que o Mosteiro serviria de cenário a uma das mais interessantes obras literárias do maior ficcionista português do Século XX.
Saramago deu a Mafra a fama internacional projectada pelo «Memorial do Convento», um romance em que a fina erudição se associa à fábula, as alegorias mergulham na história e Frei Bartolomeu Lourenço acaba louco por entre dúvidas metafísicas e a perseguição do Santo Ofício, havendo tempo para o amor entre Baltazar Sete-Sóis, ex-soldado maneta, e Blimunda Sete-Luas, que perscrutava vontades através dos corpos das pessoas, transparentes ao seu olhar.
A beleza literária e a linguagem inovadora criaram uma obra-prima a que o Convento de Mafra serviu de pretexto. Vinte e cinco anos depois da sua publicação e de 1 milhão de exemplares vendidos em Portugal, o Memorial do Convento aí está como obra imortal do génio de um escritor que a doença impediu, domingo, de estar presente.
José Saramago deslocar-se-ia ao Convento de Mafra se a doença o não retivesse, quiçá entregue ao desvelo de Pilar del Rio. Terá sido a última vez que Saramago perdeu a primeira oportunidade de falar do Memorial do Convento no Palácio que lhe serviu de berço.
Parabéns, José Saramago, pelos 85 anos e, sobretudo, pela obra singular, em língua portuguesa, que rivaliza em solidez e imponência com o Convento de Mafra.

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«ACONTECE...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho


O desafio que hoje se propõe aos leitores do SORUMBÁTICO é semelhante ao que se colocou a propósito das ruínas do Convento do Carmo: escrever um comentário inspirado nesta imagem.
O prazo termina às 20h de quinta-feira, dia 22, podendo cada leitor afixar até dois textos.
*

NOTA: esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.

-oOo-

A vencedora foi "Nanda", com o seu comentário «Diálogo absurdo», e a quem se pede que escreva para sorumbatico@iol.pt, indicando qual o livro pretendido e morada para envio.

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O triunfo de Fedúncia da Costa

Por Appio Sottomayor
NO PRECISO DIA em que me dirigia à centenária “Ginjinha” do Largo de S. Domingos para comprar uma garrafinha do precioso líquido – que me estava em falta na magra garrafeira – soube, pela rádio e pelo DN, que a casa tinha sido fechada.
Aquela “Ginjinha” exibe há largas décadas, nas portas e num quadro lateral, uma original publicidade à casa, toda ela em verso. O autor das rimas foi o jornalista e autor teatral Eduardo Fernandes, mais conhecido pelo cognome de Esculápio (pai de vários filhos, entre os quais outro Eduardo Fernandes, advogado e actor de cinema, “mau da fita” em “A Canção de Lisboa” e galã em “Maria Papoila”).
Ora o Esculápio e um pintor cujo nome ignoro deixaram nas portas do pequeno estabelecimento, de um lado um tal Mateus, que era “um chochinha, mais feio que um camafeu, magro, tísico, um fuínha”, por nunca ter bebido na vida “nem um copo de ginjinha”. Contrastava com o irmão; este, conhecedor das virtudes do licor, era forte e gozava de saúde; do outro lado, exibe-se
*****Dona Fedúncia da Costa
*****Delambida e magrizela
*****que fez, de ser tola, uma aposta:
*****Diz que ginjinha nem vê-la
*****Porque, coitada, não gosta!
Em contrapartida, a ama de um reverendo apresenta um aspecto “tremendo” e saudável porque o colorido líquido faz parte dos seus usos diários!
A jornalista Luísa Botinas não entrou em pormenores na sua reportagem, indicando as causas exactas do encerramento da casa. Mas deu uma deixa, que ouvi repetida por muitas bocas entre a vizinhança: não há ali casa de banho.
Se assim for – isto é, se não houver razões mais directas e fundamentadas – parece tratar-se de um manifesto exagero, quase de um fundamentalismo. Para que raio quer um cliente (que por ali passa e só vê um balcão pequeno, quanto basta para lhe servirem um copinho “com” ou “sem”) uma casa de banho? Porque não instala a Câmara por ali os sanitários práticos e higiénicos que se vêem por essa Europa e que em Lisboa não abundam?
Toda a gente de bom senso gostaria de estar grata à ASAE e, de um modo geral, a quem defende a nossa saúde. Mas parece haver às vezes uns laivos de recta pronúncia e legalismo cegos. Será o caso?
Para já, a ideia que fica é que Dona Fedúncia da Costa, ao cabo de tantos anos, ganhou a partida: Ginjinha nem vê-la . Ela não gosta...
«Sorumbático» - 20 de Novembro de 2007

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