31.12.07

«NEXT» - alguém já leu ou está a ler?

O primeiro leitor que indique, em comentário, que já leu este thriller de Michael Crichton (ou, pelo menos, que já passou da página 100), receberá um exemplar do romance Ardabiola do poeta russo contemporâneo Ievgueni Ievtuchenko.
Quem estiver nessas condições, deve ser capaz, também, de responder à seguinte questão: o que é que, em termos do tema-base, as duas obras têm em comum?
Ou então: o macaco e a planta (que se vêem nas respectivas capas) têm algo muito especial em comum. O que será?
-oOo-
Actualização: a resposta certa foi dada por Fred, no comentário-1.
Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

PS, S.A.

Por António Barreto
QUEM QUISER PERCEBER as últimas movimentações do governo e do Banco de Portugal no BCP, na Caixa Geral de Depósitos e na RTP terá de se interrogar sobre os seus antecedentes e o seu contexto. E não poderá esquecer outras intervenções do governo, eventualmente menos ruidosas, em casos de fusões e compras ou vendas de empresas, de privatizações, de concursos públicos e de nomeações de administradores por parte do Estado. Como não poderá perder de vista decisões que envolveram a PT e a PT Multimédia, a GALP, a EDP, a IBERDOLA e outras. Nem deve subestimar decisões futuras, mas iminentes, sobre o quarto canal de televisão, o novo operador de telemóveis, a televisão digital terrestre, o aeroporto de Lisboa e o TGV. Não é tarefa fácil, dado que o jornalismo parece especialmente contido. As informações são escassas. Muito jornalismo depende seja das empresas, seja do governo. Além disso, o próprio Banco de Portugal não é generoso na explicação das suas acções e sobretudo das suas omissões.
É UM VELHO MITO DAS ESQUERDAS: o poder político deve comandar o poder económico. Uns consideram que o “poder político” é o do soberano, do eleitor. Outros têm um entendimento mais vasto: é o poder dos políticos, sejam ministros ou vereadores, directores gerais ou deputados. Com o tempo, o poder político foi perdendo. Precisa do poder económico para investir, para o desenvolvimento, para mostrar boas taxas de crescimento, para fazer favores aos partidos e aos clientes. Com a globalização, novas formas de poder económico surgiram e ficaram à margem das leis nacionais e das directivas europeias. Foi o que bastou para que os governos se adaptassem. Mantendo embora as formas da democracia parlamentar, o poder político vive cada vez mais obcecado pelo poder económico, pelos favores das empresas e pelos investimentos que possam ilustrar a boa obra do governo. Vivemos tempos em que as únicas coisas de que os governos se vangloriam são os indicadores económicos, o crescimento, o emprego, o investimento, as exportações e os rendimentos. Para isso, precisam das empresas, dos capitalistas, dos bancos e dos investidores.
ESTES ÚLTIMOS TÊM, EVIDENTEMENTE, prazer em ajudar. Depois, ganham concursos, recebem benefícios de toda a espécie, auferem subsídios, aproveitam de adjudicações directas e fazem projectos. Trabalham impunemente nos off shores. Constroem edifícios públicos, centrais de energia, redes de comunicações, estádios de futebol, aeroportos, caminhos-de-ferro e tudo quanto ajuda à modernidade do país e aos lucros das empresas. Em especial, obtêm licenças para o que for necessário, designadamente a construção, que é a suma especialidade do capitalismo português.
PARA AJUDAR ÀS DECISÕES, criaram-se sistemas de vário tipo, uns crus, outros sofisticados. Há quem pague as obras nas sedes dos partidos, quem simplesmente financie as suas actividades e quem subsidie as campanhas eleitorais. Há também quem encontre outras maneiras de facilitar as decisões: depósitos no estrangeiro, transacções em “dinheiro vivo”, subsídios a instituições desportivas, culturais ou mesmo de beneficência. Nos partidos, há gente especializada nesse negócio. Uns são brutos, tratam dos trocos e recebem percentagem. Outros são delicados gestores ou representantes de boas famílias que se ocupam dos grandes números. Mas também há outros modos de estabelecer estas novas relações entre poder económico e poder político. As nomeações de políticos e simpatizantes para as empresas públicas e privadas podem ser feitas tanto pelos empresários como pelos ministros. Através dos seus direitos de accionista ou de outros direitos menos palpáveis, a influência do governo nas grandes decisões económicas só tem o seu equivalente na influência dos grupos económicos nas decisões do governo. Este tem a sorte de ter diante de si um capitalismo miserável, mesquinho e dependente. Estamos a viver episódios de real perda de autonomia do capitalismo nacional. Alguns dos seus dirigentes prestam-se com agilidade e gratidão à promiscuidade. Uns com interesse puro e simples. Outros com receio de serem presos. Ou apanhados na operação Furacão.
O PARTIDO SOCIALISTA tem vindo a estar atento a esta evolução do mundo, da política e da economia. E tem vários objectivos. Manter o contacto com a decisão económica. Encontrar empresas dóceis perante as suas necessidades políticas. Colocar alguns dos seus mais notáveis dirigentes, mas também empregar muita “arraia-miúda”, de secretárias a técnicos, de burocratas a assessores. Arranjar financiamento para as suas actividades eleitorais. Identificar parceiros para todas as formas de “mecenato” que aliviem os orçamentos de certos ministérios. Recentemente, o partido do governo parece ter enveredado por vias de superior entrosamento. O PS quer ficar com interesses económicos estáveis e duradouros, ao abrigo de resultados eleitorais sempre voláteis. A sua penetração no mundo do dinheiro tem vindo a crescer, no que está a seguir a via inaugurada pelo PSD. Como é evidente, tal actuação é formalmente apresentada como uma prerrogativa do governo, um dever cumprido no interesse nacional. Acreditemos ou não nessa versão, a verdade é que o PS está hoje directamente envolvido, através dos seus amigos, antigos dirigentes, filiados, sócios, simpatizantes e antigos governantes, em vários sectores da economia, da banca, dos petróleos, da televisão, das telecomunicações, da multimédia, das redes de electricidade e gás e outros. O PS mantém-se uma associação, mas parece estar a desenvolver-se como uma sociedade anónima de capitais públicos e interesse privado. O PS procura transformar-se num grupo económico com poder efectivo. Através da presença do governo em sectores estratégicos, este partido adquire um papel de peso na economia. Até há pouco tempo, essa posição era essencialmente a do PSD. Mas o equilíbrio alterou-se. Ainda se mantêm zonas de partilha entre os dois, mas a maioria absoluta de Sócrates foi um instrumento decisivo para a irresistível ascensão financeira do PS. Os três maiores bancos portugueses têm, a partir de agora, relações especiais com o governo e os socialistas. Temos banqueiros no governo e socialistas na banca.
«Retrato da Semana» - «Público» de 30 de Dezembro de 2007

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30.12.07

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Aqui se vê uma das maquinetas high-tech referidas no texto (esta abrilhanta o edifício do Ministério da Solidariedade Social e do Trabalho, na Av. Roma, n.º 1, em Lisboa) e o prémio que será entregue a quem vir a funcionar, durante 5 minutos, esta ou qualquer outra da família...
Pedro Oliveira retoma, nesta crónica do «Expresso-Economia» de ontem, os temas recentemente abordados por Helena Matos, no «Público» (ver aqui), incluindo a referência ao prémio de €50 que o SORUMBÁTICO oferece - e cujo prazo termina às 24h de 31 de Dezembro de 2007.

À beira das doze passas

Por Nuno Brederode Santos
JÁ AQUI ESCREVI sobre a tragédia do BCP. O que depois aconteceu, ou foi acontecendo, não justificaria uma insistência. Apenas se evoluiu para o que José Medeiros Ferreira, no "CM", chamou "a democratização do debate sobre a gestão bancária". É verdade. Mas algures, na avalanche dessa democratização, algum norte se perdeu.
Somos relativamente pobres entre os ricos, não somos um rico entre os pobres. Pese embora ao patriotismo dos nacionalistas, não fomos um momento autónomo ou especial da Criação. Já sabemos que os portugueses são invejosos, megalómanos e depressivos. (São portugueses os que no-lo relembram diariamente). Mas são-no como os franceses, os holandeses e os suecos. Enquanto, por sondagens de venda fácil, nos querem convencer de que a maioria de entre nós anseia por se submergir na Espanha, a Bélgica definha, a Itália treme e nos Balcãs, ninguém está certo de existir.
Até bem recentemente, toda a esquerda e alguma direita, mais desassombrada ou sincera, compartilhavam de uma convicção. A de que o poder económico ameaçava o poder político. Um mal típico do "primeiro" mundo, pois o que é típico do "terceiro" é ser o poder político a fazer o poder económico, a torná-lo sucursal e reserva para futuros incertos. Entre nós, só mesmo os mais distraídos é que não se preocupavam com o poder condicionante dos principais grupos económicos - e de alguns grandes bancos em particular. Só quem não vê televisão, não lê jornais, não vai à bola e não sai à rua, é que não teve esta inquietante percepção.
Mas o império do momento é poderoso. Trucida os dias, as semanas e os meses. Trucida a História. Insiste em querer que o tempo seja a mera eternização do efémero. Por isso explodiu agora este formidável debate sobre a ameaça que os partidos representam para os bancos e que o poder político representa para o poder económico.
Tudo seguia a mais mansa e consensual das rotas, quando Luís Filipe Menezes, que parece dado a azias de espírito, se lembrou de evocar uma "OPA informal do Governo sobre o BCP" para reclamar a presidência da Caixa Geral de Depósitos para Miguel Cadilhe. Antes mesmo do Governo ou dos partidos, caíram-lhe em cima o céu e a terra e a comunicação social inteirinha. Mas eu acredito que Menezes nem quis tomar de assalto a Caixa. Quis apenas algo mais simples, natalício e infantil: dar um horizonte de esperança aos seus apoios internos, manter a chama entre os deserdados que herdou, mostrar que tem o cuidado de reclamar para os seus os "bons lugares". Claro que a paragem cerebral não é o melhor momento da inteligência e Menezes não pensou na posição em que deixava Cadilhe (que não é um devoto mas um mero aliado de circunstância). Como não pensou no favor que fazia ao Governo. Porque Teixeira dos Santos, a quem cabe o exercício da função accionista do Estado, passou a ter maior folga para qualquer escolha - até para fazer o brilharete de escolher alguém do PSD, mas recrutado de entre os vencidos do Congresso e dos afectos a Cavaco (onde até há muito mais nomes possíveis do que entre as hostes vencedoras).
Quando não anda às voltas com o seu gatilho ansioso (e não dispara sobre o dedo grande do pé), Menezes sabe - ou tem junto de si quem saiba - uma verdade elementar: para quem quer que acompanhe a vida nacional, para quem quer que faça ou tenha feito vida partidária, para quem quer que tenha espreitado por dentro o sector empresarial do Estado. É certo que os gestores profissionais que têm cartão partidário beneficiam deste para o serem. Mas, uma vez instalados, não são comissários do partido na empresa, são a influência da empresa no partido, na Assembleia, no Governo. São o "lobbying" à nossa moda. Podem até mediar um financiamento ilegal em eleições, mas será sempre com o conhecimento (discreto) dos colegas. Mas têm a plena consciência de que a sua vida e o seu futuro jogam-se na empresa, e não no partido.
Daí que, quando a actual discussão serenar, possamos voltar à questão que sempre nos ocupou: as tentações da banca para influenciar e condicionar os partidos e os governos. Porque, se bem me lembro, a europeíssima ameaça que enfrentamos é a da prevalência do poder económico sobre o poder político - e não o seu contrário. Como na velha graçola reviralhista de outrora: "Salazar não é da Pide. A Pide é que é de Salazar".
«DN» de 30 de Dezembro de 2007

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«Bispo espanhol culpa crianças»

«Há adolescentes de 13 anos que são menores e estão perfeitamente de acordo e, mais, desejam-no. Se te descuidas, até te provocam. Isto da sexualidade é algo mais complexo do que parece», declarou o bispo de Tenerife», Bernardo Álvarez (foto).
«Correio da Manhã» de 28 Dez 07

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29.12.07

A CML que promete e a CML que faz

Junto à Escola do Bairro de S. Miguel, em Lisboa
27 Dez 07
Junto à Escola da Ameijeira, em Lagos
Iniciativa de uma outra CML (a de Lagos...) - 14 Set 07
Numa altura em que se faz o habitual balanço de vítimas da estrada (incluindo os atropelamentos), talvez não seja mau perguntar a António Costa como vai a sua promessa de (re)pintar as passadeiras de peões junto às escolas...
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Actualização: a foto de cima foi tirada em Dezembro de 2007. Em Agosto de 2008, a situação era a mesma... ou pior.
Curiosamente, ambas as autarquias (de Lisboa e de Lagos) são do PS, o que mostra que a sensibilidade para com os problemas REAIS dos munícipes pouco ou nada tem a ver com a cor partidária.

"O maior drama da humanidade"

Por Rui Tavares
QUAL É O MAIOR DRAMA DA HUMANIDADE? A guerra, a fome, as doenças, a miséria, a ignorância, o fanatismo, a violência, as catástrofes ambientais, a indiferença pelo sofrimento dos outros? Não. O maior drama da humanidade, segundo o Cardeal-Patriarca de Lisboa, é o ateísmo.
O ateísmo é aquela opinião, hoje em dia trivial, de que a existência de Deus é altamente improvável ou mesmo impossível. Mas não é bizarro que, nos dias de hoje e com tanto por onde escolher, mesmo um cardeal designe tal ideia como “o maior drama da humanidade”? Aquele superlativo deixa implícito que qualquer outro drama, por grande que seja, é afinal menor do que o ateísmo, em toda e qualquer forma, desde todo o sempre. “Todas as formas de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade”, disse José Policarpo na homilia do Natal.

***
O QUE EXPLICA QUE SE CONSIGA DIZER ISTO? Uma característica curiosa da linguagem religiosa que verificaremos através de um exemplo prático. Em princípio, concordaremos todos que a guerra causa mais devastação e sofrimento do que o ateísmo. Mas se por “guerra” entendermos um momento ou circunstância em que os homens “negam ou se esquecem de Deus”, logo a palavra “guerra” cabe dentro da definição de “ateísmo” do Cardeal. Assim será possível dizer que o “ateísmo” é o maior drama da humanidade, de que a guerra passou simplesmente a ser uma manifestação. E o mais fascinante é que isto pode incluir até as guerras religiosas.
Nesta redefinição, o Cardeal não quer dizer que ser ateu é pior do que matar alguém, mas que matar alguém é por definição uma forma de nos esquecermos de Deus e, por extensão, uma forma de ateísmo. Continua a ser absurdo, mas ao menos não é tão imoral.

***
PORQUÊ ENTÃO O ATEÍSMO? Explicou o Cardeal: “Os diversos ateísmos, nas mais variadas expressões, tiveram origem neste reduzir a esperança humana à dimensão da história”, mas “nenhuma esperança deste mundo anula a esperança na vida eterna”. Contra esta ideia de que a “esperança na vida eterna” é mais virtuosa do que a vida que temos, poderíamos lembrar que os bombistas suicidas matam pessoas às centenas com base numa “esperança na vida eterna”. Mas não vale a pena. Isso seria apenas reeditar o debate inicial (o Cardeal poderia dizer que os fundamentalistas “se afastaram de Deus” e o terrorismo religioso seria redefinido como uma espécie de ateísmo inconsciente).
Alguém lembrará que José Policarpo falava apenas para os fiéis, a quem estas palavras despertam outros sentidos. Pode ser. Mas esse é um dos problemas de falar para dentro e, em particular, da “viragem europeia” que Bento XVI impôs no Vaticano. Para poder combater a irreligiosidade na Europa a prioridade passou a ser a doutrina, em detrimento dos problemas que realmente causam sofrimento à humanidade em todos os continentes. A estratégia é errada e, se os europeus virem a igreja mais preocupada com jogos de linguagem do que com o sofrimento real, acabará por agravar ambos os problemas. Mas ao menos explica porque vê o Cardeal como “maior drama da humanidade” aquilo que afinal é mais um drama da igreja europeia.
«Público» de 27 de Dezembro de 2007 - c.a.a.

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28.12.07

Isto baralha qualquer um...

Qualquer um menos atento às coisas da bola poderá ver aqui uma prova da promiscuidade entre o futebol e os interesses imobiliários - tanto mais que o cartaz da REMAX está em Alvalade...

Laranja amarga

METEM POEMAS DEBAIXO DOS NOSSOS PÉS. Com a discrição de quem não sabe escrever e só fala quando tem coisas importantes a dizer.
Curvados sobre os joelhos, sentados sobre os calcanhares, escrevem poemas a preto e branco nas calçadas da cidade que, esventrada, se abre e entrega aos devaneios deles.
De martelo e pedras escolhidas nas mãos, cobrem a pele da cidade com uma tatuagem fina, filigranada. É a sua forma de escrita, resistente e pesada como o calcário que manuseiam, com o qual dizem flor, amor, barco, corvo, curva, cálice, verdade.
São bandos silenciosos e rasteiros, olhando pedra a pedra, estudando a rua onde se sentam, com os olhos a um nível nunca superior aos calcanhares indiferentes que se afastam. Vêm de fora, com a pele curtida e as mãos duras, que volteiam calhau após calhau. E levam-nos, em camionetas, em bandos silenciosos e encarrapitados nas caixas abertas, sem nunca olharem para trás, para aquilo que deixaram escrito para ser pisado pelos pés indiferentes a poemas figurados, com rima em amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Enfeitam a cidade que não é deles. E silenciosos se vão embora, assim calados e sem remetente, para as suas terras sem pedras no chão a enfeitarem o caminho dos passos desencontrados.
Nas ruas das terras deles, o enfeite é, normalmente, outro. Quase todas têm apenas por adorno filas de laranjeiras amargas, coloridas e cheirosas para os tristes e frios dias de Inverno.
Sempre que alguém quer um poema de pedra escrito nas ruas de uma cidade, a preto e branco, certo, de caligrafia regular (a única que conhecem no território calcário que é o seu) vão buscá-los. E lá ficam, rasteiros e silenciosos, de pedras e martelo nas mãos, a fazerem a caligrafia que aprenderam em meninos e que nunca conheceu reformas ortográficas nem grafismos electrónicos.
É um trabalho paciente, pedra a pedra, peça a peça, um bordado meticuloso, certo, combinado, escrito com a lentidão de quem escolhe as palavras que ali vão ficar mudas, em figuras silenciosas, a dizerem-nos coisas simples e belas que vão de laranja amarga a amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Por vezes, mais parece um difícil quebra-cabeças, destinado à indiferença das solas-para-que-vos-queremos de quem tem destino certo, ou simplesmente vagueia num mosaico a preto e branco, desenhado a calcário por estes homens que chegam, e partem, silenciosos, no seu cotim, cinzentos, em caixas abertas de camionetas escuras e sorumbáticas, que os aguardam enquanto trabalham.
A exposição dos seus trabalhos não tem vernissage possível. Quando muito, uma mangueira possante, a atirar para longe restos de areia que serviu de leito às pedras colocadas depois de partidas com ponderação, para encherem a parte do desenho que lhes compete.
Sentam-se em pequenos tacos, ou caixas, de madeira, quase nos próprios calcanhares, e olham o que fazem por entre os joelhos, sem levantarem os olhos a não ser com grande indiferença, às vezes até com uma certa vergonha, para os poucos que acidentalmente param, mirando com apreciação o que fazem.
Engolem ali mesmo o almoço, entre pedras por partir, fios de nível para alisar o chão futuro dos nossos pés. Falam pouco, mesmo entre si, e quanto a rir é bom nem pensar.
Só se ocupam de ruas e calçadas nobres, onde normalmente há mais pés e mais pressa do que em outras, onde há mais tempo e mais olhos para admirarem os desenhos que podem deixar.
Metem poemas debaixo dos nossos pés. Com a discrição de quem não sabe escrever e só fala quando tem coisas importantes a dizer. Com a humildade de quem espera não ser entendido, com a tristeza de quem muito menos pensa vir a ser apreciado.
Tecem, pois, com as suas pedrinhas, que partem na mão com a delicadeza de quem liberta uma noz da casca, tapetes que ninguém nos pode puxar. Deixam-nos, belo, um chão sólido que podemos pisar com firmeza, sem receio de alçapões ou outras falsidades. E depois, cinzentos de cotim, ignorados e silenciosos, partem sem um olhar para o que deles ali deixaram.
Normalmente, só os avós os entendem. Seguram, aos domingos, as mãos dos netos, e apontam-lhes o chão que estes homens nos vão deixando, mostrando e explicando cada coordenada destes mapas desprezados da geografia citadina. E devagar, com muita paciência, como aquela que só os avós sabem ter para os netos, mostram-lhes a rima do poema, a sua métrica, escrito à mão, pedra a pedra, a preto e branco, com desenhos e riscos que nos falam, nos versos certos de amor, flor, barco, arco, corvo, curva, cálice, verdade.
Certamente que todos os que me lêem já há muito que perceberam que vos falo dos calceteiros da minha cidade de Lisboa, das nossas vilas e cidades, poetas ignorados das nossas pedras lascadas, cinzentos e calados, sem que saibamos de onde vêm ao certo, para onde vão realmente, e de que vivem, quando cada vez menos nos metem poemas debaixo dos nossos pés.
No outro dia, quieto e com falsidade aparentando indiferença, ouvi dois a falarem entre si. Escreviam com as pedras que iam escolhendo e juntando, na sua gloriosa caligrafia pesada de calcário, palavras que não sabem dizer por letras.
- Manel, achas que os advogados sabem todos ler?
- Ora, hão-de ser como nós. Uns sabem, outros não.
Deixei-os a escreverem, por pedras, amor, flor, arco, barco, corvo, curva, cálice, verdade.
Já vinha longe e, palavra de honra, senti de repente o cheiro a laranja amarga.
Lisboa, 1987

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Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

27.12.07

A conversão de Blair

Por C. Barroco Esperança
O ANTIGO PRIMEIRO-MINISTRO BRITÂNICO, Tony Blair, converteu-se ao catolicismo, informou no último sábado a imprensa britânica, chamando conversão àquilo que eu designaria por transferência e que, quando é ao contrário, o Vaticano chama apostasia – um dos pecados mais graves para qualquer religião.
Veio ao encontro do apelo prosélito feito pelo Vaticano na última campanha de Inverno. Blair fingiu-se anglicano para ser primeiro-ministro e fez-se católico para melhor aturar a família, com as crianças já cativadas pelo catolicismo militante da pia consorte.
Não deixa de ser intrigante que todos os invasores do Iraque explicitem publicamente a sua fé quando esta devia ser, em países laicos, um adereço particular como um angioma na face, um quisto sebáceo no escroto ou uma verruga no pescoço.
Ao imaginar este belicista de joelhos vem à memória João Paulo II a rejeitar a guerra sem nunca desautorizar os invasores, todos amigos da hóstia e da missa. Excepto um cristão evangélico fundamentalista, todos eram católicos romanos como se vê pela afirmação pública do que agora se junta e que andava clandstino na fé anglicana – Blair.
Blair, Aznar, Barroso, Berlusconi e, naturalmente, os devotos da Polónia e da Áustria, todos eram tementes a Deus no tempo do papa que via no Opus Dei o Espírito Santo.
O trânsfuga resolveu dar uma prenda natalícia ao professor Rätzinger. Levou-lhe o corpo ao baptismo, a testa ao azeite e a língua à hóstia. O Papa já instruiu o clero para usar este troféu como argumento.

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Prémio Eça de Queirós


O SORUMBÁTICO oferece um exemplar do livro «Eça de Queirós e o Egipto Faraónico» (ou, em alternativa, os dois volumes de «Os Maias» da colecção VISÃO) ao primeiro leitor que, em comentário, disser em que obra e em que capítulo é que Eça refere a cena dos dois miseráveis que se estrafegaram mutuamente numa discussão acerca de qual deles tinha o patrão mais rico.
*
Esclarecimento: Este prémio é uma comovida homenagem ao entusiasmo com que o povo português acompanhou a OPA sobre a PT (tomando partido por uns ou outros capitalistas), e também ao interesse com que agora acompanha a saga do domínio sobre os maiores bancos nacionais.

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Dezembro de 2007

Os responsáveis pelo trânsito da capital
Desejam aos Ex.mos peões um Feliz Natal!

Nada como o humor para moralizar

Por Ferreira Fernandes
SOBRE O CASO BCP já percebi tudo. E não foi lendo o Diário Económico. Foi cotejando o noticiário do escândalo com livros de humor. Nestes, encontrei as frases adequadas para me ilustrar.
Assim, quando me interrogava sobre o significado do retorno de Jardim Gonçalves ao banco, com as consequências dramáticas que isso lhe trouxe, li a explicação em Bernard Shaw: "A maneira mais certa de arruinar um homem que não sabe gerir dinheiro é dar-lhe mais."
Quando me espantei por gente ligada ao Opus Dei ficar calada quando o seu bom nome era posto em causa, encontrei a resposta em Maurice Baring: "Se queres saber como Deus despreza o dinheiro, basta ver para quem Ele o dá."
E quando me perdi com as histórias de dinheiro mandado para paraísos fiscais e que voltava para compras fictícias que aumentavam o valor das acções do banco, salvou-me a definição de Northcote Parkinson: "Certos balanços de empresa deviam estar nas estantes de ficção."
«DN» de 27 de Dezembro de 2007 - c.a.a.

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Esta tira, que saiu hoje no «Público», parece ter sido feita de propósito para comentar a crónica de Alice Vieira - «No escuro do cinema» - que se pode ler [aqui]...

26.12.07

Então quando é o nosso almoço, Mário Lino?

À beira de expirar o prazo, informo os eventuais interessados de que mantenho integralmente a aposta nos termos indicados [aqui], porque ainda não apareceu ninguém a aceitar o repto.
Relembrando: aposto um (*) almoço de lagosta como até às 24h do dia 7 de Janeiro de 2008 (**) não haverá uma única destas portagens a funcionar em pleno nos moldes anunciados por Mário Lino: tudo 100% automático e electrónico, e em regime não-experimental.
-
(*) Por razões relacionadas com o meu colesterol, a aposta só é válida para o primeiro que a aceite. Posso, no entanto, abrir uma excepção para um segundo comensal, desde que esse seja o próprio ministro.
(**) Esta data corresponde a um brinde de uma semana, já que a promessa de Mário Lino se refere a 31 de Dezembro de 2007.

Very smart!


Estas fotos mostram uma brigada da EMEL em acção, a bloquear e a rebocar carros. Até aqui, e à parte a raridade da "coisa", nada de especial.
No entanto, pode ver-se na imagem de cima que, atrás da carrinha da empresa, havia um espaço vago - pequeno, mas suficiente para o condutor de um Smart chegar, estacionar calmamente e ir à sua vidinha, tão cego como certo da impunidade (que, evidentemente, voltou a reinar assim que a brigada se foi embora...)

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A escada de Jacob

Por Baptista-Bastos
O ANO QUE FECHA PORTAS foi muito mau. Graves economistas declaram a pés juntos que o próximo será pior. Os adventistas de Sócrates pregam que vivemos no melhor dos mundos. E a maioria de nós esforça-se por amarinhar pela escada de Jacob, na melancólica fé de que chegará lá acima - local incerto e abstracto. O varar do tempo amarrota toda a gente; mas há gente muito mais amarrotada do que outra. E o pior é a alma que se dissolve, a esperança agredida, o sonho desfeito. A televisão formou a ideia de que tudo o que é importante é imediato. Num roldão, deixámos de nos reconhecer e, numa bizarra mistura de serenidade e de impaciência, aceitamos as imposições de uma casta difícil de definir - a não ser por uma notória mediocridade.
"O triste povo, de rosto taciturno e alma acabrunhada", designado por Unamuno, desfez a fatalidade predominante, quando se insurgiu contra o opressor. Veio para a rua e ergueu 1383, 1640, 1820, 1910, 1974. O festim durou pouco. A liberdade não tem consequências simples. Exige respostas práticas e decisões amplas. E assistiu-se à desintegração da coesão social, em nome de uma Europa, cujos propagandistas proclamavam o contrário. Um pouco por todo o lado, a democracia é seriamente abalada. Em Portugal, já apenas se manifestam resquícios dela. O que se sobreleva são o medo, a precariedade no trabalho, o desemprego, e a imposição de que o nexo entre o social e o político pertence a dois blocos de interesses: ao PS e ao PSD. Desvalorizada a ideia de bem comum, exacerbou-se os interesses particulares e inculcou-se sorrateiramente o pensamento de que nada há a fazer. Claro que há! "Mostra-me o teu talento; não me mostres o cartão do partido", disse Brecht, a um actor que lhe apareceu no Berliner Ensemble, resguardado com o facto de ser militante comunista. E correu com o apadrinhado. A lição não perdura. Estabelecida a vocação da "cunha" partidária, o instinto de independência moral provoca indiferença e, até, hostilidade. A inteligência, o mérito, a integridade e a habilitação são castigados como delitos. O que se observa, nos tristes casos da BCP e da Caixa Geral de Depósitos, com a disputa da pertença circunscrita aos assim chamados "partidos de poder", reflecte o mais atroz impudor. As exclusões permitem-nos concluir que o PS e o PSD perderam o respeito pelos portugueses e a dimensão colectiva que se lhes exige. Aliás, o projecto inscrito na exigência de um mínimo de cinco mil militantes por partido e a revelação dos seus nomes é desprezível, por equivaler a uma estratégia de poder absoluto do "centrão". É preciso conciliar os vínculos morais com os traços distintivos das nossas indignações.
«DN» de 26 de Dezembro de 2007

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Como é gasto o nosso dinheiro


Entrecampos, Lisboa

Alguém saberá quanto é que isto custou? Quanto tempo trabalhou e quando funcionou pela última vez? E alguém terá sido responsabilizado pelo dinheiro atirado borda-fora? E não haverá ninguém que tenha por obrigação manter estes equipamentos a funcionar - ou, no mínimo, desmontar estas porcarias e vendê-las para o ferro-velho?

Ou será que, apesar das aparências, está tudo operacional?

O autor do melhor comentário que, até às 20h do próximo dia 29, seja feito a este assunto, ganhará um livro de ficção científica. No entanto, se se concluir que o que está causa, nestes desperdícios de dinheiros públicos, são casos de polícia, o prémio será um livro policial («Crime Impune», p. ex...).

-oOo-

Actualização (30 Dez 07): Foi decidido atribuir um prémio a João Castanhinha e outro a Dinada. Pede-se-lhes, pois, que escrevam para sorumbatco@iol.pt, indicando uma morada para envio dos livros.

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25.12.07

No escuro do cinema

Por Alice Vieira
QUANDO ME ESTIVEREM A LER, o Natal está mesmo à porta, e se calhar eu devia escrever uma crónica toda cheia de paz na terra, homens de boa vontade e coisas assim. Juro que tinha pensado nisso.
Mas eu estou sozinha com quatro crianças em casa (como acontece, nesta altura, a muita avó desta terra…) e, sem outras alternativas, enfiei-me com todos no cinema, a ver um desses filmes natalícios que por aí andam.
Acabo de chegar a casa tão traumatizada, que esqueci todos os temas em que tinha pensado, para falar desta aventura que acabo de viver numa das salas de cinema de um centro comercial lisboeta (e que, se calhar, até nem está muito distante da crónica que aqui escrevi há duas semanas.)
Imaginem a cena uma ou duas mães de família pegam nos seus rebentos, todos entre os 10 e os 12 anos, enchem-nos de baldes gigantescos de pipocas e de não menos gigantescos baldes de coca-cola - e largam-nos no cinema. É, possivelmente, uma festa de anos, pois os rebentos são tantos que enchem quase três filas.
Imaginam a cena? Três filas de pré-adolescentes à solta no escuro do cinema? Não imaginam, mas eu conto.
Mal o filme começa, desatam numa gritaria a chamar uns pelos outros, a trocarem de lugares, a passearem-se pelas filas como se estivessem em casa, conversando em voz alta, levantando-se, rindo, e obviamente atirando pipocas estilo quem-é-que-acerta-mais-vezes-na cabeça-dos-que-estão-à frente.
Por mais que as pessoas os mandassem calar, nada feito, apenas a risota subia de tom, e a má criação aumentava.
Uma senhora ameaçou sair e chamar alguém se eles voltassem a atirar com pipocas, ao que um respondeu "é preciso terem paciência connosco, porque somos crianças".
Aí saltou a tampa ao rapaz atrás de mim,"crianças? Mas vocês são crianças? Têm seis anos, têm? Não têm, pois não? Podem vir ao cinema, não podem? Ninguém vos obrigou, pois não? O que vocês são é uns grandes malcriados!
"Voz de homem (ainda que não muito mais velho do que eles…) impõe sempre algum respeito e, por momentos, os actores no écran conseguiram falar mais alto.
Sol de pouca dura.
Acabámos por ter de aguentar, que remédio, na sala não havia ninguém para os pôr na ordem, e as mãezinhas e paizinhos deviam andar pelos diversos pisos do shopping nas compras de Natal.
Os rebentos (não, não eram de bairros problemáticos, e os da fila à minha frente davam pelos sintomáticos nomes de Tomás, Sebastião, Carminho, Martim, e afins) levaram a melhor porque ninguém podia fazer o que quer que fosse. Saíram da sala à gargalhada - e deixaram o chão num verdadeiro chiqueiro, como se um tornado por ali tivesse passado.
Mas não duvido de que, na escola, sejam todos muito ecológicos, e façam excelentes trabalhos sobre a necessidade de proteger o ambiente. Ambiente que, evidentemente, eles não têm a mínima noção do que seja.
Tal como não fazem a mínima ideia do que seja viver em sociedade. Porque, evidentemente, ninguém se preocupou em ensiná-los.
«JN» de 23 de Dezembro de 2007

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Os quiosques Infocid e o SORUMBÁTICO na crónica de Helena Matos no PÚBLICO de ontem
(Clicar na imagem para ampliar)
Os trambolhos referidos nesta crónica (bem assim como a forma de ganhar €50 ou uma almoçarada de lagosta à conta deles) podem ser vistos [aqui] e [aqui].
Boa sorte!

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Matemática visual

Por Nuno Crato
ESTÁ NO PAVILHÃO DO CONHECIMENTO, em Lisboa, uma nova exposição que vai percorrer o país. Nela se encontram vários módulos que permitem visualizar conceitos matemáticos de grande alcance. Além dos tradicionais painéis sobre os números de Fibonacci e a razão de ouro, da tábua de Galton e do teorema de Pitágoras, a exposição permite tomar contacto com temas matemáticos actuais.
Alguns destes têm uma origem antiga, como o problema do empilhamento óptimo de esferas. Em 1610, Kepler imaginou que o empilhamento usual dos vendedores de fruta, de que resultam pirâmides aproximadamente regulares, seria o que menor volume externo ocuparia. A conjectura, depois de ter sido formulada de forma precisa, só seria provada em 1998 pelo matemático norte-americano Thomas Hales, que reduziu a demonstração à análise de 5094 tipos de empilhamento.
Na exposição pode ter-se uma ideia do problema alinhando bolas em fileiras e colocando novas fileiras por cima destas. Não se fará certamente a demonstração, que obrigou a cálculos extremamente complexos em computador, mas pode ter-se uma ideia do problema percebendo as figuras geométricas geradas pelas esferas em diversos tipos de empilhamento.
Na exposição destaca-se igualmente a importância das matemáticas financeiras modernas, nomeadamente da fórmula de Black-Sholes, que permite estimar o valor de um activo financeiro numa equação dita diferencial estocástica, em que se relaciona a variação do preço com uma componente aleatória.
Noutro módulo fala-se de navegação; explica-se a loxodrómica e o GPS.
Noutro ainda das redes telefónicas. Noutro do processamento de imagem.
É uma exposição interactiva que destaca o poder da matemática.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 22 de Dezembro de 2007

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24.12.07

Misérias domésticas

Por António Barreto
DEPOIS DAS GLÓRIAS INTERNACIONAIS, chegou a vez das nacionais. Antes mesmo de acabar a presidência portuguesa, foram inauguradas as estações de metropolitano do Terreiro do Paço e de Santa Apolónia. Foi momento alto para a obra pública e para a vida do governo. A luzidia comitiva fez o que tinha a fazer, accionou os sistemas, inaugurou e cumprimentou. Sócrates fez discurso. O melhoramento dos transportes que se anuncia é indiscutível. O conforto para os que fazem a trasfega todos os dias aumentou muito. Há décadas que estas obras deveriam estar feitas. A principal estação de caminho-de-ferro da capital não tinha metro, caso certamente único em metade do mundo, sendo que a outra metade não tem metro! O mais importante ponto de passagem, durante décadas, entre as duas margens do Tejo não tinha ligação directa entre barcos, comboios, autocarros e metropolitano! Toda esta obra é discutível, pelo sítio, pela dimensão e pela solução adoptada. Com certeza. Mas os benefícios parecem, para já, inquestionáveis.
SÓ QUE... A obra demorou dez anos a mais. E custou muitos milhões de euros a mais, pelo menos 140. A Câmara e o Estado foram relapsos, as empresas construtoras não previram os graves acidentes ocorridos, nunca foram apuradas as responsabilidades pelos atrasos, pela imprevidência, pelos prejuízos e pelos custos exagerados. As inspecções não funcionaram, a fiscalização também não. Muito menos a justiça. A impunidade, a irresponsabilidade e o branqueamento parecem indispensáveis às obras e aos concursos públicos. Esta é apenas a última de uma longa e permanente série de obras públicas sem controlo nem planeamento. E, ao que parece, sem honestidade e rigor.
O JULGAMENTO DA UGT e de mais de trinta dos seus dirigentes, entre os quais o antigo secretário geral Torres Couto, chegou ao fim. Com uma excepção (mas com crime prescrito), os arguidos foram todos absolvidos. Falta de provas. Acusações não fundamentadas. Ausência de documentação demonstrativa. Foram estas as conclusões do tribunal. Os factos alegados datam de 1990. O processo foi iniciado em 1995. Foram necessários 17 anos! Perderam-se vidas e carreiras. Não se fez justiça.
A ASAE DECIDIU RESPONDER aos seus críticos. Ou antes, o Secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor publicou um comunicado no qual investe contra os críticos da actuação daquela polícia da segurança alimentar. É, a todos os títulos, um comunicado notabilíssimo. Muito daquilo que a ASAE e o governo são acusados é totalmente confirmado por este comunicado que é uma verdadeira obra-prima! Num estilo de grande burocrata despótico e num exercício de puro cinismo técnico e jurídico, garante que nada é proibido, “desde que...”. Bolas de Berlim na praia, castanhas assadas, facas de cozinha, colheres de pau, açorda de pão velho e produtos artesanais, tudo é permitido, “desde que...”. No “desde que...” está a chave. Os produtores têm de estar certificados, as facas descontaminadas, as colheres higienizadas, as gorduras medidas, os aromas calibrados, as licenças actualizadas, os géneros embalados, os procedimentos normalizados, as torneiras automatizadas, as mãos desinfectadas, as temperaturas aferidas, os queijos datados, o fiambre etiquetado, a ventilação assegurada, os transportes refrigerados, as licenças regulamentadas, as certificações validadas, as inscrições conferidas, os funcionários identificados, os géneros protegidos, os produtos separados e os operadores licenciados. Desde que tudo isto seja feito e esteja assegurado, há bola de Berlim e croquete.
COM ESTE MÊS DE DEZEMBRO, iniciou-se mais uma campanha de promoção de Portugal no mundo. São dezenas de cartazes, de enormes dimensões, nas cidades portugueses e centenas de inserções em revistas e jornais do mundo inteiro. Portugal foi transformado na “West coast of Europe”. As imagens reproduzem as caras dos portugueses de sucesso, Mourinho, Ronaldo, Mariza e outros. É a mais vistosa de todas as saloiices em que este governo (e outros antes dele...) se empenhou. É um velho hábito dos países do Terceiro Mundo e de algumas ditaduras que consiste em comprar páginas de jornal e minutos de televisão para se promover. Escolhem-se umas personalidades com hipóteses de serem reconhecidas e tenta-se convencer os putativos clientes de que este país é todo assim, feito de belas paisagens e de pessoas excepcionais. O dinheiro que se gasta com isto é colossal, mas talvez nada de muito grave. Apesar de inútil. O que mais choca, além da capacidade de influência no governo que as agências de publicidade assim exibem, é a atitude de quem encomenda estas campanhas. Quem assim procede está a dizer aos outros que o país, sem campanha, é desconhecido e ninguém dá conta dele. São justamente os países que têm pouco a oferecer, que nem pela sua mediocridade se distinguem, que não pesam nas balanças da fama e da reputação, que são destituídos de interesse especial e que se revelam razoavelmente simplórios e longínquos, que sentem a necessidade de se promover e de repetir a sua excelência, a paz, o sossego, a beleza e os tesouros escondidos. Quem assim age, está plenamente convencido de que o seu país não vale grande coisa e de que tem de fazer estas campanhas. Os responsáveis julgam que tudo se compra com publicidade, mesmo ridícula. O resultado é o previsível. Quem vir os cartazes e seja capaz de reconhecer aquelas individualidades de excepção pensará imediatamente que o país não tem mais nada a oferecer e pretende, com as excepções, convencer os estrangeiros. Portugal não precisava desta campanha para nada. Para absolutamente nada! Talvez o governo precise, mas o país não.
«Retrato da Semana» - «Público» de 23 de Dezembro de 2007

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23.12.07

Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

Um olhar por cima do ombro

Por Nuno Brederode Santos
EU SIGO O INSTINTO: não puxo pela memória, porque acredito que ela esvazia com o esforço. É um caleidoscópio que dispara sem critério e esvai-se em factos, tempos, palavras e cores. Tirado o pipo, é difícil recolocá-lo. Tende a voar, janela fora, como a boneca insuflável do amante solitário. Por isso, entre o bacalhau e o peru, não largo a trela.
Daí que eu não passe em revista o ano que chega ao fim. Mas, se penso em 2008, ele assoma. E eu olho por cima do ombro. O que dele vejo e passo a referir pouco mais é que o focinho.
Vejo um semestre de presidência da União Europeia, que inegavelmente correu bem. Claro que pode não se gostar da ideia de nos envolvermos na aventura europeia. E então critique-se essa opção política em si mesma. Mas o sucesso mede-se em função dos objectivos. Pelo que não faz sentido criticar globalmente o modo como nos desempenhámos dela, quando eles foram manifestamente atingidos. Sejam como os quakers: sintam-se livres para não gostar de automóveis, mas não critiquem a condução de ninguém.
Vejo também um referendo, o da interrupção voluntária da gravidez, feito para repor a legitimidade - não jurídica, mas política - de uma decisão parlamentar. Correu bem. Juntámo-nos à modernidade e aos países que a vivem. Tempos depois, os derrotados já só se agarravam a notícias como aquela de que, afinal, o número de abortos voluntariamente solicitados era quase metade do que se anunciara. Raio de argumento. Porque a notícia é boa. Ninguém votou "sim" por achar que nascem meninos a mais.
Registo ainda a reforma do Parlamento. A opinião pública ser-lhe-á mais sensível ao abrir 2008, quando todos os mecanismos de prestação de contas do Governo perante a Assembleia estiverem a funcionar. Houve uma maioria capaz de limitar a liturgia com que os governos celebram o seu triunfo no hemiciclo. Não para vigorar no futuro e para complicar a glória dos outros, mas fragilizando o seu próprio presente. Não creio que haja muitos casos similares.
Fizeram-se eleições na Madeira, para que tudo ficasse ainda mais na mesma. Ficou mesmo. A solução do problema, que o poder soberano criou, designadamente pelas sucessivas contemporizações da Assembleia da República nas revisões constitucionais, continua a residir no modo como o Estado o quiser enfrentar. Alberto João Jardim quer uma quase união pessoal: Portugal e a Madeira serem dois países com um Presidente comum - acrescendo a isto a responsabilidade da República pelas despesas de tribunais, polícias e representação externa. Só uma posição firme do Estado pode repor a normalidade e o bom senso (e, de caminho, impedir que as oposições locais se convençam que é imitando Jardim que melhor lhe fazem oposição).
Fizeram-se eleições em Lisboa. Pouco participadas e com o PS e o PSD a verem os seus eleitorados divididos com candidaturas independentes. Ganhou o primeiro, mas apenas a oportunidade para desbravar o caminho de uma solução a prazo. O uso, por parte do PSD, de uma maioria na Assembleia Municipal que as urnas desautorizaram não augura dias tranquilos.
CDS e PSD mudaram as suas lideranças. O CDS não superou a sua perplexidade. E se, em termos de regime, alguém como Ribeiro e Castro podia valorizar a componente democrata-cristã e dar voz, nas instâncias políticas, a pulsões da Igreja, já os conservadores de Portas estão atolados na sua aflitiva redundância com a gente mais direitista do PSD. Este, por seu turno, trocou a insuficiência de Marques Mendes pela ineptidão de Menezes. Agora, como um canhão accionado por um artilheiro cego, o partido não acerta com as regras da balística. Ora fica aquém do alvo, convencido de que revela grande sentido de Estado, e desdobra-se em propostas de pactos de regime e apoios incondicionais a um Presidente da República que tem feito gala em apoiar o Governo, ora acerta além do alvo, com os irresponsáveis radicalismos de uma nova Constituição de raiz, o fim do Tribunal Constitucional e o "desmantelamento" do poder do Estado em seis meses.
Triste sina a de quem tem boas razões de queixa: sem oposição, não há Governo que acredite nelas.
«DN» de 23 de Dezembro de 2007

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22.12.07

Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933
(Clicar na imagem para ampliar)

A sorte de Jesus

Por Joaquim Letria
SE ESTES DEMOCRATAS SOCIALISTAS que Deus nos reservou tivessem andado há dois mil anos pela Palestina, a civilização mundial era muito diferente. Para já, Jesus tinha aprendido um ofício qualquer, ou era carpinteiro como o pai afectivo, e tinha-se deixado de religiões que depois deram lugar às outras, no meio das dissidências, ideias, vaidades, confrontos, reflexões, crenças e vontades de salvar o mundo, em nome da fé.
Já imaginaram estes democratas socialistas a deixarem andar a pé pela Palestina Jesus Cristo e os 12 farrapilhas que o acompanhavam, sem roupa nem calçado, sem televisão nem rádio, a criticarem os doutores e os engenheiros, a baterem nos vendilhões, a falarem sem pagarem direitos de autor!?
Já lhes tinham açulado a ASAE e mandado crucificar depois de lhes tirarem o alvará por não terem 5 mil militantes com cédulas e quotas em dia. Por certo que o pai biológico não poderia provar a sua paternidade e estaria a cumprir 12 anos de cadeia por sequestro e rapto, porque aquela fuga para o Egipto não foi outra coisa! Perguntem à PJ!
«24 Horas» de 21 de Dezembro de 2007

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E continuam as experiências...

[Na imprensa de hoje]
É possível gerir-se uma sapataria sem se ser (ou ter-se sido) sapateiro, tal como é possível gerir-se uma pastelaria sem se ser (ou ter-se sido) pasteleiro - e é por isso que ninguém estranha o facto de termos um ministro da saúde que não é (nem nunca foi) médico.
Pela mesma ordem de ideias, também estabelecimentos de ensino poderão não ser dirigidos por professores.
Mas uma coisa é "poderão não ser" e outra, muito diferente, é "não poderão ser"...

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Como sempre sucede aos fins-de-semana, aqui fica um post-aberto para quem o quiser utilizar.


21.12.07

A Quadratura do Circo

Crónica de um Natal impossível
Por Pedro Barroso
HOJE NÃO ME APETECE Natal.
Não acredito na bondade por decreto.
Não me deslumbro com as luzes e os sinos tocando aleluias de alegria.
Acho tudo isso uma treta de consumo. E, num país sem dinheiro, nem o consumo pode circular no excesso destemperado da saison.
Porque não havendo um, não pode existir o outro.
E o povo, sem poder de compra, assiste ao sonho compensatório e impraticável de quebrar fronteiras em Schengens distantes.
E compra castanhas assadas em discutido embrulhamento, nas tais controversas folhas da lista amarela, como tradição.
É pouca e controlada felicidade. Farinhenta vida, a do adorador de sonhos.
Fraca alegria para a capital da Europa, ao que parece, supostamente passando por aqui. Tratados de Lisboa. Êxitos imensos. Glória in excelsis.
Pois. É pena. Porque só não temos é dinheiro para cantar.
Este é, seguramente, dos Natais mais pobres de sempre dos últimos anos para o Povo português. Com salários a diminuírem, pensões insignificantes, ajuda nos medicamentos a baixar, prestações das casas a subir desenfreadamente todos os meses, desemprego alarmante.
E contudo estamos de parabéns. Brilhantes acordos Europeus. Bravo.
Podemos circular de Tallin a Lisboa, sem parar em nenhuma fronteira. Schengen alargou. Quase deixou de ser necessário o velho passaporte. Meu querido companheiro de viagem, meu cúmplice de fugas e secretos desvios de percurso, meu medidor de mim, numa juventude que foi – a medo, mas foi – viajante e transgressiva.
Hoje podemos celebrar Natais – para quem neles acredite – com Pais do dito cujo vindos directamente da Noruega sem passaporte. Renas incluídas, se estiverem vacinadas, supõe-se. ASAE oblige. Um escândalo.

Não me vejo aqui. Amigos, acreditem: - não sei onde pertenço.
O facto é que, contudo, também não me vejo em mais parte alguma. Com efeito, a praia tropical, sinceramente - que alguns amigos praticam como fuga compulsiva a uma época de convívio familiar por obrigação - também não me seduz por aí além.
Dezembro é bonito com neve e frio. Com lareira e aconchego. Sou europeu daqui, deste lado do tempo e do mar. Desta gente marinheira e montanheira. Deste cheiro a sardinha assada no Verão. Dos cavalos lusitanos. Do bacalhau com grão. Da paixão de Florbela e da angústia existencial de Vergilio. O Ferreira, claro, meu querido professor.
Queime-se, pois, a cavaca e o chambaril. Demos as mãos na noite de angústia e saboreemos a nossa pequenez contente. Misturemos leite e farinha e façamos os coscorões da ilusão. Cortemos no açúcar, que está caro. E troquemos de pequenas prendas com um sorriso quase conformado.
E disfarcemos a tristeza.
Eu não devia escrever isto. Porque é suposto estar alegre.
Mas andam-me a roubar, aos poucos, um outro País maior. Onde foi palavra, e gesto, e esperança e teve significado o verbo acreditar.
Como sobreviver, pois, ao Natal de Sócrates, após estes anos de deslize em perda do poder de compra, sob o mais hipócrita sorriso de alegrias marginais de foro europeu, que nos aportam nada?
Que me interessa que me ofereçam viagem sem fronteiras até à Estónia, se o povo tem de contar os tostões para ir visitar a velhota que está lá, no frio, afinal aqui tão perto? Numa lareira acesa, sozinha, algures, numa qualquer casa perdida, lá para a Guarda, Arganil, Bragança, Mértola, Mação, Melgaço?
E quantas vezes é um telefonema meigamente mentiroso que vai ter de disfarçar a mágoa secreta da impotência?
Ah! Meu velho passaporte de partir!... Vou passar a consoada dos outros, ricos e pobres, contigo no meu peito.
Leva-me longe daqui e que eu não volte.
Ou volte sempre, que o meu viajar é eterno em tuas mãos. E eu amo-te tanto como a vida que não tenho, o sonho inacabado do Império adiado e adormecido de coisas superiores que habita em mim.
E dá-me os longes todos que encontrares, que eu vou gostar.
E não preciso de aviões, nem renas, nem Schengens abertos para circular no sonho. Nem no Mundo.
Mas noutro. Feito de homens melhores, e duma total e absoluta felicidade.
Que este fede. E assim não há poema.
Quanto mais Natal.

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Votação pelos leitores

Qual o melhor comenta'rio?
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Os comentários feitos pelos leitores à crónica de Saldanha Sanches «Máfia: o Clima Apropriado» estão em comentário a este post. O melhor deles (a decidir pela presente votação que decorrerá até às 20h do próximo dia 25) dará direito ao prémio duplo indicado [aqui].

-oOo-

Actualização (25 Dez 07/20h10m): o prémio foi ganho por "Mendonça", a quem se pede que contacte sorumbatico@iol.pt

Confuso...

«TSF online» 20 de Dez 07

Talvez a contradição seja apenas aparente: na primeira frase, a palavra "provinciano" é usada como substantivo; na segunda é como adjectivo.

20.12.07

Natal

Por C. Barroco Esperança
QUANDO EU NASCI, a quatro dias do solstício de Inverno do ano de 1942, ia a meio a guerra que grassava na Europa e alastrava pelo mundo, não havia Natal na casa dos pobres. E pobres eram quase todos, também aqueles que os mais pobres diziam ricos por o serem menos.
A guerra, não aquela que a Senhora de Fátima dissera à Lúcia que ia acabar mas a seguinte, mais devastadora, que nenhuma delas (a Senhora de Fátima ou a Lúcia) sabia então que eclodiria mais tarde, dizimava nações e judeus na orgia anti-semita de renascidas rivalidades tribais herdadas pelo Império Romano, com erros de tradução, e na volúpia de interesses económicos que eu desconhecia.
Não havia de facto Natal embora eu só o pudesse saber alguns anos depois numa aldeia muito mais pobre onde não ia o Menino Jesus por não ter onde deixar as prendas, dado andarem descalços os meninos e não terem as casas chaminé por onde descer. Em minha casa eram os meus pais que o substituíam comprando alguma roupa de que os filhos andassem precisados, guloseimas e, às vezes, um carrinho de corda no meu sapatinho e bonecas nos das minhas irmãs.
Os meninos sabiam que era Natal − talvez o fosse noutras localidades… −, por ouvirem dizer em casa e na catequese e por verem os anjos, na igreja e na escola, pendurados em fios, a fazerem voo picado sobre os presépios. E eram bonitos os presépios porque eram coloridos os músicos da banda, os camelos e os reis magos, as ovelhas e o cão, e o burro e a vaca que, à falta de outra energia, aqueciam S. José, a Virgem e o Menino, saídos todos da paciência e perícia de um oleiro.
Nas casas, o vento e o frio entravam pelos buracos das paredes e fisgas da telha vã levando chuva ou neve que se fundia por entre o fumo da lenha húmida enquanto as fonas caíam na mesa “de preguiça” que, girada a cravelha, desencostava da parede rodando as dobradiças e equilibrando-se na única perna que a nivelava. Era ali que fumegava a sopa e as parcas vitualhas que chegavam à mesa dos pobres onde o Natal não ia.
Na cidade havia polvo seco, a partir de Novembro, dependurado do tecto das mercearias e enormes peixes de bacalhau da Noruega que as pessoas não imaginavam ser um país mas sabiam os merceeiros que a referência à origem valorizava a mercadoria. Mas quem podia almejar tais iguarias com o jornal, quando o havia, a oito mil réis (oito escudos) os homens e a cinco as mulheres, para arranjar pão que os garotos, que nasciam como cogumelos, logo devoravam.
No solstício de Inverno era o frio que comandava a tosse e o catarro, trazia as amigdalites e a febre e substituía o Natal de outras paragens pelo chá de cidreira, a escaldar, e a enxerga que amparava o corpo. A fé exigia orações mas à força do hábito as pessoas balbuciavam-nas como quem fala só, sem saber porquê.
A ausência de Natal não impedia a liturgia e as orações. Diz-me a observação que a fome faz bem à alma, desperta a piedade e aproxima as pessoas do divino, mas ainda hoje me interrogo como podiam os pobres agradecer a refeição que não lhes matava a fome e, algumas vezes, era a fome que os matava a eles.
Celebrar uma festa, seja pelo nascimento de um Deus ou de um filho, exige comida para aconchegar o estômago e líquidos capitosos que soltem a língua e o regozijo e dêem às reuniões o júbilo que o estômago vazio e a sede indeferem.
Naquele tempo, nas aldeias mais pobres da Beira Alta, disse-o há pouco e já o repito, não havia Natal. Só no calendário. As crianças andavam descalças sobre palha, ouriços e folhas que apodreciam na rua para adubo dos campos, sempre avaros a produzir, e recolhiam a casa a tiritar de frio sem que à mesa notassem a mais leve suspeita do nascimento de algum Deus.
Com as senhas de racionamento a não poderem ser levantadas pelos pobres, por falta de dinheiro, lá iam os géneros para a candonga enquanto os infelizes se resignavam à sorte que lhes cabia. Na missa o padre José Dâmaso recordaria a protecção divina que confiou Portugal ao homem providencial que nos livrou da guerra e punha as pessoas a rezar para que Deus desse a Salazar vida longa e o iluminasse com a sabedoria. Só o primeiro pedido foi atendido mas, nessa altura, ninguém o adivinhava. Nem adivinhava, tão-pouco, que, tendo-nos livrado dessa guerra – como dizia o padre Dâmaso –, nos reservaria outra, mais adiante no tempo.
Hoje, quando regresso à minha Beira natal recordo os meninos pobres da aldeia onde não volto com medo de ainda achar aquela fome que vi nos olhos dos que não comiam, com remorso de ter comido, com vergonha da sorte que me cabia.
Anos mais tarde despovoava-se o país de homens, sangrado na loucura da Guerra Colonial e na vaga da emigração clandestina, para fugirem à fome uns, para fugirem à guerra e à fome outros, enquanto as mulheres mantinham as terras a dar o que era possível e punham os filhos a estudar, numa lenta e inexorável transformação que mudaria a face de Portugal. Tinham-se alterado os costumes quando a fome se afastou e no sítio dos presépios da minha infância começaram a surgir árvores de Natal e prendas em papel colorido trazidas pelo Pai Natal em trenós puxados por renas.
Naqueles anos não havia Natal porque a pobreza o não permitia. Faltou-lhe depois o afecto que unia as pessoas e o vagar que dá tempo às celebrações e aos rituais. Antes não era por falta de fé ─ tão parcas eram as vitualhas que as pessoas enganavam a fome a cuidar da alma ─, era por falta de posses para fazer a festa. Agora, vai deixando de ser pretexto para os encontros de família à medida que as pessoas aderem a novas liturgias nas catedrais do consumo e se vão desinteressando do nascimento do Deus que lhes ensinaram.
Do Natal que foi nos sítios onde o havia e do que não era nas localidades onde não chegava resta a memória dorida de um país cujo progresso estava em sintonia com a imobilidade das figuras do presépio.
«Revista de Natal» - «Jornal do Fundão» de 20 de Dezembro de 2007

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19.12.07

Outra vez Natal

Por Carlos Pinto Coelho

Olha o Natal outra vez... seu constante espectro de despedida derradeira... seu gonzo ferrugento por brunir... sua estafada alegria em naftalina murcha...
Chegam as canelas dos rostos da memória... desfiam-se tempos velhos nas curvas das couves fumegantes... tragam-se lutos em copos generosos... sibérias caladas no fogo das lareiras... a implacável inutilidade da existência num prato de aletria...
Consome-se, lento, cada Natal. Lento como a espera das coisas nenhumas que hão-de chegar em madrugadas de insónias... como aquele comboio vazio que passou, sem parar, pela minha estação de nevoeiro... num filme sem realizador nem fim sabido.
Olha o Natal outra vez. E não saber ignorá-lo... não poder rasgar-lhe a página... não conseguir despedi-lo... mai'las suas asas grotescas de monstro decadente!
Que venha, pois. Que entre, tire o ridículo barrete, sacuda a poeirada dos ombros e das botas, abra o remendado saco. E cumpra a sua única e definitiva missão: levar este meu aconchegado abraço a quem muito bem quero.
S. Miguel de Machede, Dezembro 2007

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E os americanos aceitarão?!

Por Joaquim Letria
EM 2008, vamos ter as eleições presidenciais nos Estados Unidos da América a dominar a agenda deste ano, independentemente dos acontecimentos inesperados e dos desenvolvimentos da guerra no Afeganistão e no Iraque e, também, muito possivelmente, do novo conflito nos Balcãs, reaceso pelo disparate do Kosovo, rastilho complexo para a Rússia e estímulo para os separatistas europeus, da Catalunha à Escócia, passando pela Bélgica.
O Líbano também fará a sua marcha no arame…
Mas falando das presidenciais para mandar no mundo, sem que se veja alguém muito promissor, permitam que, ingenuamente, também perguntemos:
Estão os americanos prontos a aceitar uma mulher presidente? E, se não estão, aceitarão serem liderados por um negro que para os negros é demasiado branco e para os brancos é excessivamente negro?! E Giuliani poderá ser a vingança dos milhões de pobres emigrantes italianos? Veremos o que 2008 trará a todos nós, que bem precisamos de paz e sossego!
«24 Horas»

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Arquivo «Humor Antigo» - Ano de 1933

A Instrução do Medo

Por Baptista-Bastos
OS PORTUGUESES ESTÃO A SER ESPREITADOS por todos os sítios, lugares e ângulos, e esta estrutura muito moderna, eficaz e internacional de "segurança" parece torná-los extremamente felizes e, até, levemente excitados. O olho electrónico quase se tornou numa expressão artística: possui todos os moldes, formas, cores e tamanhos. Nos bancos, nos elevadores, nos hospitais, nos bairros mais elegantes, nos corredores dos hotéis, nas repartições, nos Correios, à esquina, no cairel dos edifícios, nas auto-estradas e nas ruas, de dia e à noite, com aviso e sem aviso - lá está ele. Quem sabe se a vigília incide sobre os amores clandestinos, como no belíssimo poema de Daniel Filipe? Asseguram-me que, em breve, estará nos cemitérios. Não por causa dos habitantes; sim para dissuadir quem ouse profanar o pétreo sono dos mortos.
O olho incisivo, inclemente, gélido, implacável, informa, não se sabe bem a quem, daquilo que, modestamente, estamos a fazer. As nossas minudências quotidianas: contemplar os movimentos do andar de certas mulheres, observar os livros expostos em montras, recalcitrar contra a vida infame, são decifradas como sujeito de intriga e apreensão públicas. E "ninguém sabe quantas câmaras nos andam a filmar todos os dias", diz o Expresso num bem organizado texto de Filipe Santos Costa.
José Magalhães tranquiliza-nos: "Isto não é o advento do Robocop." O sossego das almas dura pouco. O secretário de Estado adverte: "Estamos a caminho de uma sociedade onde a videovigilância é utilizada por cada vez mais entidades." Está aqui muito bem fixado o que nos espera. O lirismo das ruas, a épica das noites molhadas em balcões de bares, a frenética agitação triangular entre o Bairro Alto, 24 de Julho e Docas deixam, ou já deixaram, de ser o poema que se procura para se transformar numa perpétua homenagem ao império da desconfiança.
A sociedade, num futuro muito próximo, reduzirá o seu já limitado espaço de liberdade a uma instância insistentemente policiada. Não haverá sociedade como intervenção cultural, relação com o contrário, subdivisão de grupos de interesses, coexistência de sinalizações alternativas. Ser continuamente vigiado liquida o fundamento das instituições democráticas, o qual oscila entre o tratamento igualitário e o tratamento diferenciado. Impossível escapar ao reconhecimento de que caminhamos para uma nova e diferente ditadura, dissimulada em leis de "segurança", de "ordem" e de "autoridade". Não há lugar para o exercício das "referências", porque se deixou de admitir a alteridade. Uma das características sociais reside no direito do indivíduo a não ser "massa", e a recusar a rigidez identitária que a vigilância (pelo medo que lhe subjaz) sugere, impõe e inculca.
Não sorria. Está a ser filmado.
«DN» de 19 de Dezembro de 2007

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18.12.07

«ACONTECE...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho


A banda tocava e o bêbado encheu-se de alegria e dançou. Pode acontecer em qualquer parte do mundo. Mas estas fardas dos jovens estudantes são bastante comuns numa determinada zona da Europa. Pergunta-se: em que cidade foi feita a fotografia?
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O prémio, a atribuir ao primeiro leitor que der a resposta certa, será um livro à sua escolha de entre os indicados em comentário-1.
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NOTA: esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.
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A resposta certa foi dada por Fátima André, a quem o prémio já foi enviado.

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O autor do melhor comentário que venha a ser feito (até às 20h do próximo dia 21) à crónica anterior («Máfia: o Clima Apropriado») ganhará estes dois livros.
As alternativas «Ficções», «Cândido» e «No País das Maravilhas» também estão disponíveis.
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Actualização (25 Dez 07/20h10m): após uma votação pelos leitores, que decorreu [aqui], o prémio foi ganho por "Mendonça", a quem se pede que contacte sorumbatico@iol.pt.
Acerca do mistério "como é que fenómenos destes podem florir, manter-se e alastrar impunemente", sugere-se a leitura da crónica de Saldanha Sanches no «Expresso» de sábado passado «Máfia: o Clima Apropriado», publicada hoje no blogue onde escreve [aqui] e onde, por sinal, haverá um prémio para o melhor comentário.

Máfia: o Clima Apropriado

Por J. L. Saldanha Sanches
AS APARÊNCIAS ILUDEM: as máfias a trovejarem violência e morte são plantas muito delicadas; só conseguem crescer em certos climas. Depois de crescerem ganham raízes e tornam-se mais fortes. Mas serão sempre plantas de estufa que não suportam o frio ou os ventos fortes.
A primeira condição para que possam vicejar é a protecção de alguém que tenha influência política. Não se pode esperar que os homens da violência se relacionem directamente com o político B e lhe arranjem votos. Precisam de um protector que apareça sempre rodeado de políticos no activo e na reserva com uma imagem de invulnerabilidade.
O objectivo é criar um sub-sistema político que funcione com autonomia e que constitua a versão moderna do coito medieval: um espaço onde se não pode entrar sem a homenagem devida ao senhor da terra.
A segunda condição é a da penetração no sistema judicial e policial uma operação para a qual é essencial a criação de espaços sociais de convivência geridos pelo protector.
Os magistrados são pessoas normais a quem a ordem jurídica proporciona o distanciamento dos conflitos que são a condição institucional da sua independência.
Para quebrar esse isolamento pretendido pelo sistema são necessários espaços de convivência onde as relações se possam travar e dos pequenos favores se possa passar para os grandes compromissos. O objectivo é conseguir influenciar a decisão judicial. O sistema é vulnerável às denúncias e infiltrações e é necessário que a influência no sistema judicial funcione como uma segunda linha de protecção.
O célebre conselheiro “Mata-Sentenças” da Itália de Giovani Falcone ficou famoso por isso.
A primeira linha de protecção, contudo, tem de ser a polícia: nenhum sistema mafioso se consegue enraizar e prosperar sem conseguir que a polícia olhe para o lado. Algumas das actividades mais rendosas têm que ser feitas à luz do dia (ou à luz da noite) e uma polícia agressiva é um empecilho permanente para o bom andamento dos negócios. Para o sistema de tráficos e extorsões ser próspero, um acordo (com partilha de receitas) é essencial.
A outra condição é que justiça privada do bando seja feita sem demora, nem tibiezas: se alguém desrespeita os seus compromissos a resposta não pode ser uma acção judicial com pedido de indemnização. O medo é essencial, a «omertá» a base de todo o sistema, e depois das acções da intimidação e das propostas que não se podem recusar a consequência do incumprimento tem que ser a pena de morte.
Aqui entram novamente em cena a polícia e os magistrados: as testemunhas e os arrependidos têm que saber que não vão ser protegidos e por isso só lhe resta calar a boca mesmo que queiram falar.
Em condições ideais, o sistema a quem deveria ser confiada a punição dos criminosos mostra-se impotente e desorientado, transmitindo a mensagem de que não vale a pena contar com ele e que mais vale negociar, pagar a protecção e calar a boca.
Se isto for conseguido, o bando é invulnerável e o medo prevalece.
O poder do Estado torna-se ficção e o poder das máfias torna-se indestrutível.
«Expresso» de 15 de Dezembro de 2007

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