30.6.08

Que futuro para a Politécnica?

Por A.M.Galopim de Carvalho

ESTRANHAMENTE, SÓ AGORA, em pleno século XXI, 170 anos depois da sua criação, se põe em causa a sustentabilidade financeira deste magnífico conjunto arquitectónico, histórico, científico e cultural, que nos ficou da prestigiada Escola Politécnica, hoje um valioso e utilíssimo conjunto museológico, de que fazem parte o Museu de Ciência, o Museu Nacional de História Natural, incluindo o Jardim Botânico, e o venerando Instituto Geofísico Infante Dom Luís.

Quando, há duzentos e quarenta anos, o Marquês de Pombal criou o Museu Real da Ajuda, não lhe passou pela ideia questionar a sustentabilidade financeira deste pequeno museu, um embrião à semelhança de outros que o liberalismo, na Europa do século XVIII, encorajou desenvolveu e glorificou como autênticas catedrais do iluminismo - os Museus de História Natural. Concebidos ao serviço da cidadania, foram subsidiados pelos Estados e, só mais tarde, com a sociedade de consumo, muitos deles recorreram à cobrança das entradas, uma prática entendida necessária ao seu cabal funcionamento. Quando, em 1837, foi fundada a Escola Politécnica, em substituição do caduco Colégio dos Nobres, foram ali instalados “Gabinetes de História Natural”, visando os três “Reinos da Natureza”, sem que a Fazenda se preocupasse com a respectiva sustentabilidade financeira.

(...)
Texto integral [aqui]
Publicado no «Público» de 23 Jun 08, com o título “Os museus da Politécnica são descartáveis?”. As imagens são da capa do livro «O Edifício da Faculdade de Ciências», de José Lopes Ribeiro.

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29.6.08

Pão e vinho

Por António Barreto
AO DENUNCIAR A CNA E A CAP, o ministro Jaime Silva usou os lugares comuns habituais: acusou-as de defender interesses político-partidários! Uma de extrema-esquerda, outra conservadora. Para um ministro de um governo partidário, não é mau. Depois de levar uns açoites, corrigiu: referia-se aos dirigentes, não às associações. A diferença é, como se vê, radical. A CAP suspendeu a sua presença no conselho de concertação. O Primeiro-ministro acudiu e tomou conta das negociações a fim de conseguir assinar o acordo. Sócrates fez bem, o ministro merecia, aliás há muito tempo, o despedimento. Sócrates fez mal e deu um sinal do que poderá ser no futuro: quem se zangar com os ministros, tem como recompensa uma graduação.
Jaime Silva é um daqueles ministros que não são políticos; um daqueles políticos de um governo socialista que não são socialistas e que não cumprem um programa partidário, mas sim um programa nacional, sem preferências políticas, sem doutrina, só para bem do país. Ainda há criaturas assim. Julga-se impoluto e pensa que os outros são parvos. Este ministro tem brilhado pela sua dedicação a Bruxelas e às políticas europeias. Vindo de lá, para lá deve voltar, um dia, com a satisfação do dever cumprido. Sabe tanto da política comum que se transformou numa espécie de embaixador da União. O que quer dizer, literalmente, um carrasco da agricultura portuguesa, assim como das pescas e da floresta. Tem motivado a ira crescente dos agricultores e dos pescadores, a quem responde com discursos processuais e incompreensíveis. Paga mal e pouco, atrasa-se e não tem orientações que não sejam as directivas europeias. É mais um na linha de executantes da política comum e que, metodicamente, vem desmantelando grande parte da agricultura, das pescas e da floresta. Faz bem em financiar as grandes empresas agrícolas, as que têm tecnologia, competência e dimensão. Faz muito mal em não olhar pelas centenas de milhares de explorações, de lavradores e suas associações e cooperativas que não têm acesso à técnica e à qualificação. Em vez de pensar que muitos destes poderiam ser formados e preparados para aproveitar os recursos, este ministro, assim como os que o antecederam, prefere arranjar uma maneira doce de os matar, de os retirar da actividade e de abandonar terras, mares, recursos e pessoas. Jaime Silva tem vindo a liquidar as hipóteses de aparecimento de novas gerações de agricultores e pescadores, mais jovens, com formação, melhores qualificações e uma visão empresarial da sua actividade.
(...)
Texto integral [aqui]
«Retrato da Semana» - «Público» de 29 de Junho de 2008
Esta coluna interrompe agora por algumas semanas.

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UM EXEMPLAR deste clássico será o prémio do passatempo «Acontece...», [aqui] proposto na passada terça-feira, e cujo prazo termina às 20h de hoje, domingo.
Actualização (30 Jun/9h55m): no referido post, já estão indicados, em 'Actualização-2', os nomes dos vencedores.

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As faces da lei

Por Nuno Brederode Santos
OS DEUSES DECIDEM o destino dos homens pela mediação de um juiz de Direito. Com as magras (mas tremendas) excepções da fisiologia do cósmico e da má têmpera das grandes massas humanas (o clima, as catástrofes naturais, as invasões, os genocídios), a alta gestão das nossas vidas jaz - transida, frágil e ansiosa - no regaço negro de uma beca. É claro que nem só os juízes nos condicionam. Desde logo, porque cada eu esbarra no outro. E depois porque há o polícia autoritário, que diminui e humilha o cidadão, e há o político que se fecha com a sua consciência para resolver se somos mais amigos do Kosovo ou da Sérvia (ou qual a amizade que mais nos convém, o que é quase, quase, o mesmo). Mas são coisas que pouco mais fazem do que decorar o quotidiano: questões de Fabergé na vitrina ou de naperon debaixo da fruteira. Não resistem a três dias de conversas de roda de amigos, num total de três bicas pela manhã e três imperiais ao fim da tarde. Talvez atrapalhem a monitoria fina da qualidade de vida. Mas não mais. Porque quem nos liberta e prende; quem nos atribui ou denega a herdade do avô; quem decide da infância dos nossos filhos no divórcio; quem sabe dos ocultos critérios para a fruição de um riacho entre vizinhos de sequeiro; quem, enfim, com a ponta plebeia de uma bic, faz a gestão da felicidade individual em sociedade, são os juízes. E se o juiz não faz a lei, que apenas interpreta e aplica, e isto mais não for do que a percepção popular do cargo que ele habita e do mandato que lhe cumpre, acreditem: não há outra percepção que valha a pena.
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Texto integral [aqui]

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28.6.08

Passatempo-relâmpago

POR ASSOCIAÇÃO-DE-IDEIAS com o que JLSS escreve na crónica acabada de afixar, o Sorumbático resolveu oferecer um exemplar deste livro ao primeiro leitor que souber dizer qual é o seu título. No caso de a resposta demorar a surgir, irão sendo fornecidas sucessivas dicas.
Actualização: a resposta certa foi dada por 'Musicólogo' (no comentário-2), a quem se pede que escreva para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio do livro.

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As Obras Verdes

Por J. L. Saldanha Sanches
O FIM DA ERA DO PETRÓLEO BARATO está a forçar as sociedades ocidentais à mais dolorosa reconversão das últimas décadas. Os governos têm duas possibilidades: prolongar a agonia do doente com subsídios que adiam a reconversão ou usar os poucos recursos disponíveis para estimular a reconversão e proporcionar ajudas pessoais aos mais atingidos por esta crise.
A escolha está entre o corporate welfare e a ajuda social aos que têm mais dificuldades na adaptação.
As obras públicas são o outro lado da questão. Costumam querer dizer estradas, pontes e túneis. A questão das acessibilidades, como costumam dizer solenemente os senhores autarcas.
Já as temos, e quanto à sua capacidade para fazer crescer a economia estamos conversados. Parece haver mesmo uma relação inversa entre o número de quilómetros de auto-estradas e o crescimento do produto interno bruto.
Na economia pós-petróleo barato, obras públicas só podem ser formas públicas de ajudar a reconversão da economia. Principalmente ajuda às energias renováveis. Se e se for possível fazê-lo bem e não forem criados elefantes brancos com umas manchas verdes.
Estão aí – nas energias renováveis – as únicas boas notícias.
O sol do sul de Portugal – a zona da Europa com mais sol - não serve só para atrair turistas. As notícias animadoras sobre a explosão das centrais solares e a constante baixa de preço da sua produção mostram que temos tantos recursos a médio e longo prazo como se tivéssemos petróleo.
Seria desejável que as autoridades públicas – tão eficientes a criar deveres e encargos que embaraçam a iniciativa privada e não têm qualquer justificação – pelo menos não impedissem que isto aconteça. Como no caso da central solar que estava com dificuldade em aumentar o espaço de construção por faltar licença de utilização de uma reserva agrícola.
A posição do Governo não é fácil, a sua responsabilidade enorme. Os pescadores, os camionistas e os agricultores só querem uma coisa: subsídios que adiem a sua adaptação às novas condições. As construtoras querem empreitadas.
Obras, podemos e devemos ter: transportes de massa confortáveis e rápidos para os grandes centros urbanos que lhes permitam funcionar. Comboios de razoável velocidade que liguem o interior com o litoral (agora com os espanhóis fazer contas é melhor esquecer de vez o TGV) e mais, muito mais, linhas para o transporte de mercadorias. Barragens também, mais auto-estradas não.
Obras públicas verdes em vez de simples acumuladoras de betão.
As reivindicações de ajuda por empresas que vêem na cornucópia de subsídios a sua única salvação é a grande tentação do Governo e o grande perigo para a economia: os agricultores são o melhor exemplo. Falam dos pagamentos devidos pelo Governo e do seu aumento com a tranquilidade e a boa consciência do funcionário que trabalha para o Estado e vive do salário que este lhe paga.
Em vez de procurar formas de produção que reduzam a factura do petróleo, um subsídio maior para o gasóleo agrícola. A cultura dos subsídios perpetua-se e multiplica-se.
Adenda: As palavras irresponsáveis do Ministro da Agricultura que indispuseram gravemente a CAP podiam ter criado um sério problema. O Governo correu o risco de ficar nas mãos com milhões e milhões de subsídios que não iria conseguir distribuir.
«Expresso» de 28 de Junho de 2008 - www.saldanhasanches.pt

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Três bons malandros

Por Antunes Ferreira

O CARLOS PINTO COELHO é boa praça. O Mário Zambujal, idem. Sou muitíssimo amicíssimo dos dois. Que querem? Uma desgraça nunca vem só. Que os que me lêem – parece que ainda os há, poucos, mas há, e certamente bons cidadãos – me relevem o tom intimista deste escrito. Porém, não podia ser outro. Passo a explicar, justificar não, que a Amizade não se justifica.
.. Um destes dias, mais precisamente na sexta-feira, uma tal Luísa Barragon mandou-me um mail. Transcrevo a parte que para o caso interessa. «Dr. Antunes Ferreira: O Carlos Pinto Coelho teria um enorme prazer de o poder entrevistar para o programa de rádio "Agora Acontece" a propósito do seu livro "Morte na Picada". Temos gravação na próxima 2ªfeira, dia 16 de Junho, às 11h00m. Diga-me, por favor, se poderemos agendar»?
.. Claro que pois claro, disse logo à Senhora, cuja amabilidade e simpatia me deixaram desvanecido. Naturalmente, pedi-lhe para retirar o Dr. e, apesar do telemóvel dela se estar a ir abaixo das canetas, ainda tive a oportunidade de saber, naturalmente por ela, ser filha do Salvador Ribeiro, fotógrafo de mão cheia, com quem eu trabalhara no «Jornal Novo». E fizera um Amigo.
.. Encurtando. O CPC, o malandro, já me dissera que me estava a preparar a armadilha microfónica. Um carinho dele, no que é especialista. Desta feita para comigo, seu amigo de decénios, etc. e tal. Lá fui a Miraflores, ao Estúdio Tcha Tcha Tcha. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente a Luisinha, «uma querida», de acordo com o meu editor.
.. Veio o Carlos e ipso facto estamos na cabine de gravação, entretidos numa conversa de compinchas, a que também se podia chamar entrevista. Conduzida pela mão de mestre do meu interlocutor. E a ser difundida por toda a parte (até por Macau). São 84 (eu escrevi oitenta e quatro, não haja dúvidas) as Rádios que a emitem. Só o Pinto Coelho.
.. De resto, um aparte. Nunca compreendi como a RTP se deu à estupidez crassa de acabar com o Acontece que, anos a fio, o Carlos produziu, escreveu, apresentou e sei lá mais o quê. O melhor programa cultural da televisão em Portugal. Ponto. Nada. O melhor, o mais ágil, o mais audaz – o mais vivo. E posso assegurar que não é de agora que o escrevo, nem por força do CPC ser meu Amigo. Já o fiz e repeti-lo-ei.
.. Terminámos. Pareceu-me que a coisa tinha corrido bem, mais por mérito do entrevistador do que do entrevistado. Mas, quando saía da sala do estúdio, há um gajo, perdão, um Senhor gajo que comenta assim a charla. Estava parvo. Era o Mário Zambujal. Há quantos anos o não via. Noites a fio passámos juntos (salvo seja…) no «Diário de Notícias»; ele, chefe da Redacção; eu, Chefe Adjunto. O maior fazedor de títulos que encontrei em toda a minha vida profissional.
.. De resto, assistira ao seu lado à facilidade de escrita – escorreita, directa, irónica – que tinha. Por ali passaram textos e ideias da «Crónica dos Bons Malandros» que seria classificada de óptima, (apenas…) e já vai na 34.ª edição. Se não assisti ao parto, acompanhei a gestação.
.. Foi uma festa. O Carlinhos ia entrevistá-lo de seguida. «Já não se escrevem cartas de amor», o motivo do encontro. Que, vejam lá, decorreu excelentemente. Como nos desafios de futebol, a segunda parte foi melhor do que a primeira, opinião minha. O malandro do Zambujal acabara de me fazer mais uma acintosa maldade: só às quatro da matina correra os taipais da leitura sem parança. Dormira umas escassas quatro horitas, portanto, e por mor da entrevista.
.. Teríamos ficado por ali uns bons cinquenta e sete anos, cinco meses, três dias, oito horas, 27 minutos, 43 segundos e dois décimos na costura das lembranças – e das malandrices. É que eu, ainda que em patamar mais abaixo, também me enquadro nesse quadro dos malandros. Dos bons, Mário dixit. Mas, tudo tem um fim. O Zambujal jurou-me que iria ler o «Morte na Picada». Acreditei e acredito, ainda que com algumas reservas. E, para fechar com chave electrónica, trouxe-me a casa no seu BMW. Gente fina é, realmente, outra coisa.
.. Pronto, está feito. Ninguém tem nada a ver com esta prosa. Ou, quem sabe, se calhar, terá. Não bati no Sócrates, o que é já tão banal de tantas repetições, que já é um ponto a meu favor. Não critiquei a des(união) laranja, que já se tornou calina. Não encomiei a selecção portuga de futebol, o que poderia parecer seguidismo da sua omnipresença. Não falei da crise, de tal forma é óbvia. Nem sequer aflorei o miserável índice de confiança na economia nacional. Limitei-me a fazer a crónica do reencontro de três bons malandros. Sem que nisso se veja qualquer tentativa soez de plágio, pois o Mário é único e implagiável. Até me dando ao luxo de uns quantos neologismos espúrios. Porra! Os Amigos são, sobretudo, para as ocasiões.

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27.6.08

A Quadratura do Circo

As horas

Por Pedro Barroso


O TURISTA CHEGA A LISBOA e sorri. O sonho de uma vida satisfeito. Prepara-se para um banho de sol e liberdade. Férias ou negócio, não importa. Estar em Portugal tem uma aura de lazer, de uma certa e pachorrenta modorra. Mesmo nos bussinessmen mais severos, essa conclusão reflecte-se mais tarde ou mais cedo, com um sorriso complacente perante a índole de um país onde tudo se há-de resolver.
Mais ou menos; sem grande rigor e sem pressas. Dando um jeito. Mas há-de.

Após a chegada ao terminal da Portela e recolhida a bagagem, a primeira coisa que um viajante faz é acertar o relógio pelas horas do país. É preciso, é elementar e faz falta para nos inserirmos na realidade local, onde quer que seja.
Talvez por isso, tempos houve em que a Rotunda do Aeroporto - que também se chama justamente Rotunda do Relógio - exibia pois, dois enormes e airosos relógios inseridos na relva, que serviam para tal necessidade elementar.
Depois houve obras e requalificação da Rotunda e outros relógios se seguiram, em pedra, coisa bonita. E durante um tempo funcionaram. Mas hoje experimentem fazê-lo. Ficarão uma hora e cinquenta minutos atrasados, mais ou menos. Ninguém compreende porquê.
Os relógios lindíssimos, obra de meu particular amigo, o grande escultor Francisco Simões, são belos. São sem dúvida, uma ideia bonita de boas vindas, simpática e bem pensada. Só não indicam as horas. Coisa irrelevante, claro.
O Mr Smith pode seguir depois até à Baixa. É um percurso muito provável, digamos. Ver o Rossio, a Rua Augusta, a Avenida, enfim, o Tejo. Conhecer Lisboa, pois claro. Um homem em Lisboa apetece-lhe passear, viver o velho centro da cidade. Ver pulsar a vida das pessoas e das coisas.
Na rua Augusta confirmará uma vez mais que o país não tem horas nenhumas. Que está provavelmente parado. Coisa deduzida do relógio que encima o Arco da referida rua, como já perceberam.
O Mr. Smith vai ficar sintonizado. Visitará talvez, a capital do V Império em Mafra, onde verificará mais do mesmo nos relógios do Convento. E pelo país fora, vai ter oportunidade de verificar durante a sua estadia muitos casos de não funcionamento semelhantes.
Museus fechados. Obras no Verão durante a estação turística. Ausência de WC’s públicos de qualidade. Atraso crónico nos barcos e comboios e aviões. Setas indicando um posto de Turismo, que, afinal, depois, se encontra encerrado. Sinalização de ruas e sentidos enigmática, entre o cuneiforme e o confuso. Por vezes omissa, o que se torna a mais confusa de todas as formas de assinalar… Beira Tejo em obras há dezenas de anos, Cais das Colunas sem Colunas. Torre de Belém com um colar de bolas de plástico gigantes, lindíssima. Passeios no Tejo só até à Ponte Vasco da Gama, pois esqueceram-se de dragar a montante. Isto é – o tabuleiro da ponte subiu e faz uma lindíssima rampa, para que os paquetes passem; mas o leito impede que um simples veleiro de calado mais fundo se possa atrever. Um dia acerta-se isso.
O povo é sereno, disse um especialista.
Observe e divirta-se. Veja os comércios e falências fechando a porta com escritos. Letreiros a dizer Trespassa-se e Vende-se por toda a parte, já reparou, Mr Smith? Entre o parado e o For sale – eis como andamos. E pedintes, gosta? Temos pedintes genuínos, de todas as tácticas e etnias. Condução caótica, desorientada. Buracos na estrada, traiçoeiros, dos bons.
Tanta coisa que havia de remediar e agora ainda por cima, preocuparmo-nos com as horas! Como vê, nem pensar. Espero que a tal estranho facto, claro, já se tenha habituado logo no primeiro dia. À chegada talvez tenha percebido que esta é a latitude zero da normalidade.
No arco da Rua Augusta estarão celebrando, aparentemente, as virtudes dos maiores; mas sem data ou hora certa. O atraso dos relógios que haveriam de ser referência exemplar, ou o seu simples funcionar aleatório, são de resto, isso sim, a normalidade. Tal como no Rossio - uma lindíssima Estação de comboios - onde durante anos se passou o mesmo.
Mr Smith, entenda por favor. Relógios públicos funcionando para quê? O senhor está em Portugal. Somos assim. Aqui não queremos Big Bens para nada. Dava-nos conta do sistema. A coisa não anda, nunca andará bem. Estamos habituados. Já resistimos a tantas crises e incongruências que fariam qualquer país civilizado derrocar e que, para nós, nunca nos vão tirar o sono…
A coisa vai. Não se rale. O abismo, temos garantido. Por isso…
O pessoal quer é férias, o resto é conversa reaccionária. Volte sempre e não ligue. Somos assim. E acerte o seu relógio numa hora e data qualquer. É tudo igual.

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26.6.08

Luz - X

Fotografias de António Barreto - APPh

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Espelho de água do rio Douro. A imagem é vista da quinta do Crasto, perto de Gouvinhas. À direita, na margem Sul do rio, vê-se parte da quinta de São Luís. À esquerda, à beira do rio, o caminho-de-ferro da linha do Douro. Esta já só está em actividade até ao Pocinho, já não segue para Barca d’Alva, muito menos para Espanha. É uma das mais belas linhas de comboio da Europa. Mas os portugueses têm esta sina: desaproveitam o que de melhor têm! (2007).

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A alegria dos cemitérios

Por Baptista-Bastos
"FALHEI! FALHÁMOS!" Dramático, numa infelicidade de intempérie, Ângelo Correia crucificou-se no Congresso do PSD. Mas logo acusou a intriga permanente, o mal-dizer constante, a sombra pesada do rancor como factores determinantes para a enfermidade da alma do partido. Foi um momento trémulo, lacrimoso, pungente. As câmaras das televisões percorreram as faces dos ilustres, e os ilustres apresentavam as faces com o decoro espiritual recomendado pela grave circunstância.
Pedro Passos Coelho quis saber qual o projecto, qual o programa, qual a doutrina, qual a estratégia que a Dr.ª Manuela Ferreira Leite possuía para resgatar a pátria dos malefícios do "socialismo moderno" de José Sócrates. A pátria ficou muito reconhecida, e até lhe saltou uma furtiva lágrima, com as estremecidas preocupações do desenvolto Passos. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite, impassível, fechada, fatigada, gótica, na escura profundidade das suas cogitações parecia nem sequer ouvir.
(...)
Texto integral [aqui]

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Dois "contadores de histórias", Carlos Pinto Coelho (fotografia e palavra) e Pedro Barroso (música e canção), encontram-se numa atmosfera descontraída e, seguindo um fio temático ligado aos valores humanos, às viagens e aos afectos, lêem textos, comentam fotografias, conversam, ouvem-se, evocam casos, pessoas e fazem humor.
Pedro Barroso toca e canta canções enquadradas tematicamente e alusivas às deixas de Carlos Pinto Coelho.
Há uma profunda amizade e estima pessoal que suscita um ambiente de inteligência, bem-estar e intimidade. É compartilhado e transmitido o prazer da palavra escrita, da expressão musi­cal, da narração, num gosto de estar, de evocar e de comunicar, que se transmite ao públi­co.

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A utopia do Bloco Central

Por C. Barroco Esperança

MARCELO FALOU EM ARRANJOS para novo Bloco Central. Ninguém levou completamente a sério a intriga, mas ninguém, com um mínimo de senso, pode ignorar o que diz e, sobretudo, o que esconde um dos mais brilhantes estrategos e panegiristas da direita portuguesa.
Vamos por partes. Em caso de catástrofe, bloqueio insuperável do regime, iminência de bancarrota e ditadura, ou de ambas, não seria legítimo recusar, em absoluto, o Bloco Central. Salvo em situações extremas, a solução seria implacavelmente pior do que o problema. Não estamos perante tal cenário.
Há muito que a esquerda da esquerda, PCP e BE, acusa o PS de ser de direita. Aliás, fá-lo sempre. É o seu papel na luta pelo voto no mercado eleitoral, a tentativa de dividir o PS e atrair o eleitorado menos receptivo ao equilíbrio das contas públicas e mais aberto aos apelos da luta contra o capital. O PS é o inimigo principal por estar mais próximo e, apenas, por ser aí que o PCP e o BE podem caçar votos.
A direita dizia que o PS era igual ao PCP e, quando o argumento se esgotou, que havia o perigo de se aliarem, como se isso fosse, em democracia, um crime ou uma desgraça.
O que leva, pois, a direita a levantar o fantasma do bloco central? O que levou a direita mais pragmática a apoiar Manuela Ferreira Leite em detrimento de Passos Coelho ou de Santana Lopes? – Apenas o medo do ridículo e do descrédito. Um deu tamanhas provas de incompetência governativa e o outro de ignorância que a aposta teria de ser na mais credível e menos desejada das candidaturas.
A ameaça do Bloco Central é gratuita e inviável mas dá muito jeito aos que pretendem sujeitar Portugal, com uma economia frágil e enormes debilidades sociais, a uma experiência neoliberal dura. É por aí que se abre espaço para o sonhado partido liberal.
Isto explica que Marcelo, António Borges, Pacheco Pereira e Paulo Teixeira Pinto, entre outros, apoiem, por ora, Manuela Ferreira Leite. Preparam o terreno, perante a crise social que se agrava e as previsíveis deslocações de voto num eleitorado zangado, para a aventura com que sonham.

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25.6.08

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Passatempo-relâmpago

ESTE PLACARD DE ALUMÍNIO, existente, já há algum tempo, na Av. dos EUA, em Lisboa, tem uma particularidade: a sua aresta inferior está a menos de 1,70m do chão, pelo que qualquer pessoa de altura mediana, mais distraída (ou que veja mal), se fere facilmente.
São pequenas coisas como esta que tornam, por vezes, a vida dos cidadãos um inferno; e que mostram, melhor do que muitos discursos, o grau de (in)sensibilidade de alguns "responsáveis".
Mas como nada disso (pelo menos em Lisboa) é novidade, aproveitemos o assunto para um passatempo-relâmpago:
Trata-se de premiar o primeiro leitor que completar a seguinte frase, substituindo os astericos pelas letras em falta:
O indivíduo da Câmara que fez o lindo serviço que a foto documenta deve julgar que Lisboa está em L******, o reino de anões celebrizado por J******* S**** na sua obra "A* V****** d* G*******.
O prémio será, precisamente, um exemplar da obra referida.
Actualização: a resposta certa já foi dada por "Canochinha" no comentário-1.

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Para que serve a língua portuguesa

Por Alice Vieira
TINHAM SIDO DIAS COMPLICADOS, febres descontroladas e sem razão aparente, ora muito altas, ora muito baixas, e o braço a inchar, e a doer horrivelmente, assim como se a carne fosse rebentar da pele - mas eu odeio hospitais, e fui tentando tudo (incluindo aquelas mezinhas que a gente já sabe que não resolvem rigorosamente nada mas que dão um grande consolo à alma - e se a alma precisava de ser consolada, meu Deus!) para ver se a coisa se resolvia a nível caseiro.
Até que lá tive de me render às evidências e entrar naquele ambiente terrível de uma sala de espera das urgências de um hospital — que, como toda a gente sabe, é o melhor lugar para se apanhar todas as doenças, para além daquela que a gente já leva de casa.
Lá fico encolhida no meu canto, à espera de vez, quando de repente alguém vem ter comigo, “caramba, há que anos não te via!,”e dou de caras com um amigo de que há muito tinha perdido o rasto.
Nem sequer era daqueles amigos muito íntimos mas, naquela altura, soube-me a aparição salvadora.
Por nada de especial, apenas porque eu estava sozinha naquela madrugada, e precisava urgentemente de companhia, e podíamos conversar e ser gente, e não apenas uma senha ou um número.
Ele vai buscar-me um café a uma daquelas máquinas de produzir mistelas a que depois, sabe-se lá porquê, dão esse nome, e diz:
“Conta-me tudo”.
Sorrio, porque me lembro dos primeiros versos de um belíssimo poema do meu amigo Tolentino Mendonça (“paga-me um café/e conto-te a minha vida”), e falei, falei, porque precisava mesmo de falar e porque assim o tempo não custava tanto a passar e até as dores parecia terem abrandado.
É então que a empregada do guichet fixa em mim os seus olhos, abre a boca de espanto e de repente exclama, no seu açucarado sotaque brasileiro:
“Pôxa, como ‘cê fala bem!”
É a minha vez de fazer um olhar espantado, mas já ela continua:
“Se eu ‘tivesse aflita qui nem você, da minha boca, ó, só saía era palavrão mesmo!”
Garanto que, nestes últimos e complicados dias, foi a primeira vez que dei comigo a rir.
E ainda ri mais quando o médico apareceu à entrada da porta e ela gritou:
“Dótor, leve aí a moça pra vê como ela fala bonitinho!”
Foi também a primeira vez na minha vida que o uso mais ou menos escorreito da língua portuguesa funcionou, desavergonhadamente, como cunha.
«JN» de 22 de Junho de 2008

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Rossio 2020

(Clicar na imagem para visualisar melhor)
HÁ UM ANO, EXACTAMENTE, publiquei este desenho no Diário de Notícias. Quase ninguém quis perceber a mensagem.
Será que hoje, com o petróleo 30% mais caro, a minha visão do Rossio em 2020 já parece menos fantasista?

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24.6.08

«ACONTECE...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho

Os concorrentes são convidados a inventar (até às 20h de domingo, 29 de Junh0) um breve diálogo para esta imagem. O prémio (que, como habitualmente, será um livro) irá para a maior imaginação e criatividade.
NOTA: esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «ACONTECE...», é da autoria de CPC.
Actualização-1 (CMR): consegui arranjar um exemplar de «A Religiosa», de Diderot, livro que calha muito bem como prémio para este passatempo. Actualização-2 (30 Jun 08/9h45m): o júri decidiu premiar Rui Silva (pelo comentário das 17h51m de 29 de Junho) e INF 1962 (pelo das 20h00m de 28 de Junho). No entanto, como só há um exemplar do livro anunciado, ele será entregue ao primeiro dos dois que escrever para sorumbatico@iol.pt, indicando morada para envio. O segundo leitor receberá um outro livro, surpresa. Actualização-3: o exemplar de «A Religiosa» já vai a caminho de Rui Silva, que foi o primeiro (às 10h44m) a satisfazer o que se pede atrás.

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ESTE EXEMPLAR do «Menina e moça» será enviado ao leitor que, até às 20h de hoje, der a resposta que mais se aproxime da correcta (para mais ou para menos) à pergunta:
Quantos gramas, segundo esta balança, pesa o livro?
*
Nota: cada leitor poderá dar duas respostas (não necessariamante no mesmo comentário). Caso pretenda, poderá (até à hora limite) apagar a resposta dada e substituí-la por outra. Em caso de empate, o premiado será o autor da primeira resposta. Boa sorte!
Actualização (20h05m): a resposta certa (73g) pode ser confirmada [aqui]. Assim, o passatempo foi ganho pelo leitor João Gaspar (com a resposta 130g), a quem o livro vai ser enviado. Obrigado a todos!

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Bernardim

Por Joaquim Letria
UM DIA, EM PERUGIA, um antiquário perguntou-me a nacionalidade. Para minha surpresa, ouvi um elogio a Bernardim Ribeiro, que o senhor considerava o pai do moderno romance.
Nós, portugueses, temos muita coisa e muita gente que lá fora têm o respeito que aqui lhes negamos, como no caso de Bernardim, agora afastado do ensino secundário, não fossem os portugueses querer lê-lo e estudá-lo.
Escusado será dizer que fui reler o “Menina e Moça”, eu que prefiro a dor das éclogas. Mas o meu interlocutor tinha razão. Bernardim e o “Menina e Moça” foram os primeiros a desprenderem-se das convenções da ficção coeva para assumirem, obra e autor, a narrativa feminina da solidão e da saudade. Amor, natureza, mudança e distância estão lá inteirinhos.
Fiquei muito contente ao ver que o Torrão, Alcácer do Sal, reclama Bernardim como seu e o festeja justamente. Pena que do Torrão a Almada só haja cultura das reservas de patos bravos.
«24 Horas» de 19 de Junho de 2008

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Caronte

Por Nuno Crato
Caronte - Gustave Doré

FAZ ESTA SEMANA 30 ANOS que foi descoberta uma lua de Plutão. Tem um diâmetro de 1207 quilómetros enquanto o astro maior — antigamente chamado planeta, mas hoje classificado como planeta anão — tem um diâmetro de 3390 quilómetros.
Se Plutão foi difícil de descobrir, imagina-se a dificuldade que houve em visualizar o seu satélite. Visto da Terra, Plutão é tão pequeno como seria uma moeda de um euro na Arrábida, vista de Sintra. E a lua de Plutão? Seria bem menor que uma moeda de um cêntimo à mesma distância. A descoberta foi feita praticamente por acaso. Em Junho de 1978, James Christy, um técnico do Observatório Naval de Washington, entreteve-se a olhar para algumas fotografias de Plutão que estavam classificadas como defeituosas. O defeito era uma distorção num canto, mostrando a imagem do astro como uma espécie de pêra, em vez de uma esfera perfeita. Christy comparou essas fotografias com outras tiradas ao longo dos anos e verificou que a protuberância se movia com regularidade: umas vezes estava acima do astro outras abaixo. Era certamente um objecto em órbita de Plutão. Duas semanas depois, a União Astronómica Internacional reconhecia a descoberta.
Começou a saga para arranjar um nome para a nova lua. Christy quis nomeá-la em homenagem à sua esposa Charlene. Mas os astrónomos não aceitaram um nome tão prosaico. Foi então que Christy resolveu ler um pouco de mitologia greco-romana e procurou associações com Plutão, o deus dos infernos subterrâneos. Viu que o barqueiro que levava os mortos se chamava Caronte (Charon em inglês).
Assim ficou o nome da nova lua. É um deus grego, mas para Christy é a sua deusa.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 21 de Junho de 2008

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23.6.08

O meu São João

Por A.M.Galopim de Carvalho

PARA MUITOS HOMENS DA MINHA CIDADE, o São João, bem como o São Pedro, valia pelas touradas, as corridas, como então se dizia, com diestros vindos do país vizinho, e os cavaleiros tauromáquicos João Branco Núncio, aristocrático e austero, a tourear para a burguesia da Sombra, e Simão da Veiga, mais popular e risonho, a arrancar esfusiantes aplausos do Sol e a apanhar os muitos chapéus que sempre lhe atiravam para a arena no final das lides. Nestas touradas, amplamente anunciadas a toques de trompete pelo Zé Baca, percorrendo as ruas de Évora, rivalizavam, ainda, os garbosos e valentes forcados de Montemor-o-Novo e os de Santarém.
(...)
Ler o texto integral [aqui].

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22.6.08

O estado da União

Por António Barreto
OS PAÍSES EUROPEUS, sobretudo os grandes e com mais responsabilidades, não podem deixar-se submeter às decisões dos mais pequenos, muito menos aos resultados de um referendo de que resultou uma maioria de escassos milhares de votos. Imaginar que toda a Europa possa ficar condicionada pelos irlandeses é quase uma deficiência intelectual. Tal como imaginar que a União, de carácter federalista, se possa fazer com a unanimidade dos Estados e dos povos. A França e a Alemanha, ajudadas pelos seus clientes e arrastando atrás de si os pequenos países que não se importam de ver aumentar as suas dependências, vão pois tomar as providências necessárias para que a constituição do Tratado de Lisboa seja aprovada. No que serão ajudadas pela enorme, luxuosa e apátrida burocracia europeia. Com ou sem Irlanda. Com ou sem favores prestados e dinheiros dados aos irlandeses. Não podia deixar de ser assim. Só nos contos de fadas é que os gnomos mandam e os anões derrotam os gigantes.
.. O referendo irlandês teve as suas virtudes. Revelou, uma vez mais, a crise europeia. Exibiu a verdadeira natureza desta União. E mostrou, sem deixar dúvidas, o caminho que esta se prepara para seguir. A reforma das instituições europeias ficará na história como um caso exemplar de esbulho de independências, de esmagamento pacífico de autonomias e de tentativa de destruição de culturas e de carácter. Toda a gente percebeu que a saga da aprovação do Tratado de Lisboa, depois de Maastricht e de Nice, tem como principal objectivo o de retirar poder aos povos e de lhes administrar as soluções das elites esclarecidas. O Tratado foi inventado para retirar aos povos a possibilidade de os discutir e aprovar. O Tratado é incompreensível? A Constituição é absurda? Tanto melhor. São documentos que, justamente, não devem ser compreendidos. E que oferecem explicações úteis para a indiferença crescente dos cidadãos. Votam em eleições e em referendo, dizem os iluminados, por razões nacionais e não por razões europeias! Votam, acrescentam, por causa da crise económica, das desigualdades, dos preços dos combustíveis, das questões laborais e da imigração. Na Irlanda, então, para cúmulo, dizem eles, o “não” foi motivado pelo aborto, pela eutanásia e pelos impostos. Tudo, asseguram, questões locais, paroquiais, nacionais, sem a importância dos reais problemas europeus. Estes argumentos, infantis e destituídos de qualquer inteligência, são repetidos candidamente por todos os servos, sobretudo juristas, da plutocracia europeia. E ninguém, entre essas luminárias, se deu ao trabalho de reflectir nas últimas eleições europeias que deram dois resultados inesquecíveis. Primeiro, uma enorme abstenção. Segundo, o facto de quase todos os que perderam essas eleições foram recompensados, directa e indirectamente, com cargos, responsabilidades e decisões nos actos que se seguiram. Chirac, Schroeder, Tony Blair e Durão Barroso, entre outros, perderam as eleições, mas, pelo jogo do federalismo, moldaram a União que se seguiu! De qualquer modo, ficámos a saber, mais uma vez: para os dirigentes europeus, o emprego, os impostos, a liberdade, a demografia, a família, o sistema de saúde, a educação, a idade de reforma, a legislação laboral e as desigualdades sociais não são questões europeias. Não são problemas relevantes!
(...)
Texto integral [aqui]

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O Prof. Galopim de Carvalho oferece um exemplar do livro «Contos da Dona Terra», de que é co-autor, ao visitante do seu blogue Sopas de Pedra que se depare com o número do site-meter 0001234 - o que deve suceder muito em breve. Ver [aqui]. Actualização: às 13h32m, o número indicado já tinha sido atingido.

Agenda de Verão

Por Nuno Brederode Santos
O QUE JÁ CHEGOU foi o calor a sério. Pontual, veio com o Verão e alapou-se-nos na pele. Pegadiço, ele toma-nos por dentro: não há banho ou ablução que nos redima. Ainda assomei à janela, procurando os pássaros do Hitchcock: filas de gaivotas e corvos, inertes, silenciosos. Felizmente, só vi pombos, pardais e melros, uma fauna aculturada que, devagar, se corrompe connosco na cidade. Não fora o bico e dir-se-ia boa gente.
.. A vizinhança guarda recolhimento, num pudor que é luto. Esperava um mês de festa gorda, mas os quartos-de-final do Europeu de futebol impuseram-lhe uma espécie de Ramadão sem fé. Deixaram-se surpreender por quinze dias suplementares, para os quais o subsídio não assegura projecto nem merenda. Num país cuja elite sempre assegurou ser pior do que os outros, o povo embarca na simétrica ilusão de que é melhor. Talvez um dia estes dois desenganos possam convergir e dotar-nos de mais lucidez e realismo.
(...)
Ler o texto integral [aqui].

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Taxa «Robin dos Bosques»

EM POST com o título que aqui se plagia, J. Medeiros Ferreira escreveu, ontem, no seu blogue:
Percebe-se logo o espírito do anúncio da «possibilidade» de uma taxa crismada de Robin dos Bosques sobre as petrolíferas. E porquê Robin dos Bosques e não Zé do Telhado? Só se for para enredar a cosmopolita Comissão...
*
A questão remete-nos para o livro «Memórias do Cárcere», onde Camilo nos dá conta da vida e obra do famigerado salteador que conheceu aquando da detenção de ambos na cadeia da Relação do Porto. E fica bem claro que, se quanto a Robin dos Bosques ainda se pode crer que ele «roubava aos ricos para dar aos pobres», no que toca ao outro artista a afirmação só é válida por metade: «roubava aos ricos...» - sim, mas para dar a si mesmo.
No entanto, vendo o assunto por esse outro prisma, a conclusão também é interessante: não teríamos, então, o Estado a taxar as petrolíferas para ajudar os mais desfavorecidos, mas sim para se engordar a si mesmo...

20.6.08

O mais difícil

ANO NOVO, VIDA NOVA. É um provérbio comum a muitos países e pertença de muitos povos. Mas será, por certo, o ditado mais traído de quantos são atribuídos à sabedoria popular.
Acontece, naturalmente, assim, porque «Ano novo, vida nova» se trata de uma manifestação de intenção que, posteriormente, não encontra tradução na prática, não se consuma na vida real. Por estas e por outras, também o povo diz que «de boas intenções está o inferno cheio».
No início, um novo ano, como este agora iniciado, é uma mão-cheia de nada, que é como quem diz um espaço onde cabem todos os sonhos que gostaríamos de ver realizados.
(...)
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JÁ QUE O POST DE ONTEM, acerca do acordo ortográfico, tem suscitado tanto interesse e tantos comentários, aqui fica esta imagem, que documenta bem uma questão relacionada com o tema:
Deverá a grafia evoluir no sentido de se aproximar da oralidade?
*
A foto foi tirada, há poucos dias, num posto de Inspecção Periódica Obrigatória do Algarve, onde os clientes começam logo por se deparar com aquilo que - por enquanto... - é um erro de ortografia de palmatória.
Já agora: alguém quer explicar porque é que CANALIZADOR se escreve com Z e ANALISADOR com S (apesar de serem palavras tão parecidas)?

Bem-vindo à iliteracia!

QUALQUER listagem de erros-de-palmatória traz, invariavelmente, as diversas variantes de «bem-vindo», incluindo o inenarrável «benvindo» (que, quando escrito com maiúscula, é nome de homem). Pois a página da DGCI, logo a abrir, brinda-nos com esta...
NOTA: durante muito tempo, a página da NAER resolvia o 'problema' apresentando duas ortografias opcionais (e o leitor que escolhesse a correcta!), como por várias vezes se referiu neste blogue [v. aqui]. Demorou, mas, felizmente, já corrigiu.

POR-TU-GAL! POR-TU-GAL! POR-TU-GAL!

O AUTOMOBILISTA (m/f) que atravancou completamente este passeio não parou ali "só por um instantinho" - como costuma dizer quem o faz.
Nada disso; apesar de haver lugares por perto (e gratuitos!), parece que escolheu o sítio onde mais poderia incomodar. Em seguida, meteu o resguardo contra o sol, trancou o carro, e foi à sua vidinha calmamente, pois bem sabe que, numa terra onde a impunidade reina, o único risco que corre é que lhe roubem a bandeirinha (de Portugal ou da Selecção?) com que mostra o seu amor pelo país - a única forma de patriotismo que muitos portugueses conhecem.

Acabou-se a estória, acabou-se a glória, acabou-se a vitória

Por Antunes Ferreira

SOMOS, REALMENTE, muito mauzinhos, pois nem mauzões sabemos ser. Por vezes, porém, a maldade, ainda que rasteirinha e videirinha, origina galhofas duras, dolorosas, mas que fazem sorrir - ou mesmo rir, ainda que não seja à gargalhada. Vitória e glória acabou-se a estória. No caso presente poder-se-ia dizer - estória e glória acabou-se a vitória.
Nós, os Portugazinhos não prestamos. Disse-o, escrevi-o, digo-o, escrevo-o e repeti-lo-ei as vezes que bem entender e que julgue que sejam as necessárias. Reafirmo - nós os lusitanitos, nos quais me incluo, infelizmente, pois creio não fazer parte das honrosas excepções - algumas, bastantes, mas percentualmente diminutas, que, na verdade, só servem para confirmar a regra atrás enunciada - não P-R-E-S-T-A-M-O-S. O governo também não? Mas esquecemo-nos que integra Portugas depois de nós termos elegido o partido que de onde saiu. Qualquer que seja.
(...)
Ler o texto integral [aqui]

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19.6.08

De vez em quando, há leitores que ganham prémios mas depois não os reclamam no prazo estipulado. Acaba de acontecer isso com um dos vencedores do passatempo cujos prémios eram exemplares do livro «Como se de uma fábula se tratasse», de Fernado Évora. Assim, o livro sobrante será enviado ao primeiro leitor que, em comentário a afixar aqui neste post, escreva: «Quero-o eu!». Pode logo indicar a morada para envio, escrevendo para sorumbatico@iol.pt
Actualização: o passatempo terminou, tendo o prémio sido ganho por Bruno Santos.

Luz- IX

Fotografias de António Barreto - APPh

Clicar na imagem para a ampliar
Bairro da Sé, Porto - É um dos bairros urbanos mais antigos do país. De certas casas se diz que as suas fundações e parte do rés-do-chão datam dos séculos XIII e XIV. São belíssimas construções de granito em ruas estreitas. Há muito que este bairro deveria estar restaurado, arranjado, com as infra-estruturas modernas (esgotos, saneamento, águas, redes eléctricas, etc.) e melhores condições de vida. Alguma coisa foi feita, sobretudo nas partes exteriores do bairro. Mas, no seu miolo, há ainda muito por fazer e nem sempre as condições de vida são boas. Por outro lado, esta parte histórica do Porto (é Património mundial da UNESCO!), sobretudo nas áreas que datam do século XIX (o Porto burguês da Mouzinho da Silveira, da rua Nova dos Ingleses, da praça do Infante, etc.) está em curso de despovoamento e de abandono progressivo. É uma enorme tristeza ver o centro histórico do Porto a degradar-se diante dos nossos olhos! (2006).

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Outra vez o «Acordo Ortográfico»

Por C. Barroco Esperança
OS ADVERSÁRIOS DA ORTOGRAFIA ACORDADA podem não assistir à assinatura do futuro tratado que necessariamente há-de ocorrer na sã tentativa de unificar a língua que diariamente assimila novos termos. O pragmatismo acaba sempre por vencer a vontade dos puristas e a argumentação dos eruditos.
Os adversários mais truculentos das novas alterações não dizem o que pensam das anteriores e qual o critério que usam para definir a transformação de um vocábulo corrente em arcaísmo.
Estes zeladores da pureza idiomática lembram fidalgos arruinados a exibirem o brasão de família com as calças puídas na albarda de um jerico, depois de lhes minguarem as posses para ataviarem um cavalo puro-sangue.
Sendo a obsessão pelos costumes mais forte do que o pragmatismo, surpreende que a cruzada fique pelas últimas alterações e que os paladinos não tercem armas pelo português arcaico.
A língua portuguesa é património comum de centenas de milhões de falantes e não pode ser confiscado pelos guardiões do templo sob pena de converterem em dialecto o idioma que é de todos.
É tempo de pararem os abaixo-assinados contra o acordo, tão inúteis nas consequências como atrasados no tempo.

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Do arquivo Humor Antigo - Ano de 1934

18.6.08

Manuela Ferreira Leite e os camionistas

Por José Medeiros Ferreira
LEIO NO DIÁRIO ECONÓMICO declarações perfeitamente demagógicas de Manuela Ferreira Leite sobre o seu inexplicável silêncio durante a crise dos camionistas. A recém líder do PSD não soube o que dizer de útil na emergência, isso pareceu-me claro. Daí a procurar refúgio na sua condição de mulher e de avó já é demais e um péssimo sinal. Que estava em Londres com o neto e que «Não se deve esperar que as mulheres só pensem na política 24 horas por dia».
Mau serviço à política e às mulheres.
«Bichos Carpinteiros» de 17 de Junho de 2008 - c.a.a.

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Onde pára a esquerda?

Por Baptista-Bastos
DE SÚBITO, o Estado viu-se confrontado com movimentações "inorgânicas", de camionistas e de pescadores, sociologicamente situados à direita. Se o poder dos sindicatos, sobretudo os associados à CGTP, tem demonstrado ser necessário acabar com o maniqueísmo e a ilusão de tábua-rasa, e inscrever, na esquerda, uma nova visão do futuro, as dificuldades emergem a cada momento. Numa entrevista à Rádio Renascença e ao Público, José Saramago recolocou a questão central: "À direita não lhe interessa as ideias, porque pode governar sem elas; à esquerda deviam interessar-lhe as ideias, porque não tem outra maneira de governar senão com elas (...) Sem ideias, a esquerda vai-se estiolando. E mais agora, quando a pretensa salvação da esquerda é a aproximação ao centro. Mas a aproximação ao centro é a aproximação à direita."
(...)
Ler o texto integral [aqui].

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17.6.08

NO JORNAL «metro», de onde esta notícia foi respigada, a ilustração usada é a de um poste de alta tensão. Tomei, no entanto, a iniciativa de a substituir por outra que me pareceu muito mais apropriada.

Indiana Jones

Por Nuno Crato


A REVISTA “NEW SCIENTIST” relatava recentemente uma discussão curiosa. Queixam-se alguns arqueólogos da maneira como a sua profissão é retratada na ficção e no cinema. Na realidade, os verdadeiros investigadores não passam a vida em aventuras violentas, disputando peças arqueológicas em locais misteriosos. Ao contrário do que transparece, por exemplo, no filme “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, assim como noutros da mesma série, os arqueólogos passam anos e anos estudando e catalogando peças, dirigindo escavações e recuperando ruínas obscuras. Os tesouros são poucos e as perseguições também. As grandes descobertas são extremamente raras e o trabalho rotineiro é a regra. O herói Indy é pois uma personagem que não faz jus ao trabalho dos verdadeiros investigadores do passado.

Outros arqueólogos, contudo, dizem que os filmes de Indiana Jones têm atraído muitos jovens para a sua actividade, existindo um interesse redobrado pelas carreiras de investigação histórica. Contrapõem os primeiros dizendo que não vale a pena enganar os jovens e que os que são motivados pelas aventuras cinematográficas não estão certamente interessados na verdadeira arqueologia.

Estas discussões são quase tão velhas como o mundo, mas contrapõem duas realidades diferentes. Uma coisa são os sonhos de infância; outra as realidades da juventude adulta. Uma coisa são os motivos, felizmente algo idealistas e românticos, que levam muitos jovens a escolher carreiras científicas; outra são as realidades do trabalho.

Muitos jovens mudam enquanto aprendem. Não vale a pena levar tudo demasiado a sério. E há ainda adultos, como eu, que gostam de Indiana Jones.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 12 de Junho de 2008

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16.6.08

O CONTISTA Fernando Évora oferece aos leitores do Sorumbático dois exemplares desta sua obra. Ver em comentário-1 o critério da sua atribuição.
*
Actualização-1 (10h37m): O passatempo terminou. Aguardo informação do autor para atribuição dos prémios. Actualização-2 (13h22m): Os vencedores são Helena e Siri (ver comentário das 13h20m). Pede-se-lhes que, nas próximas 48h, escrevam para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio.
O autor oferece ainda um 3.º exemplar a quem responder correctamente a uma pergunta adicional que será colocada ainda hoje, em "Actualização-3".
Actualização-3 (14h45m): no seguimento do que atrás se diz, o autor oferece um exemplar da obra ao primeiro leitor que, a partir deste momento, responder correctamente à seguinte questão-dupla: «Neste livro é feita uma discreta referência a um gato e a um galo da obra "Bichos" de Miguel Torga. Qual é o nome destes dois animais?» [Da obra de Torga]. não poderão concorrer os 2 premiados na 1ª fase. Actualização-4 (17h28m): A resposta certa foi dada por JPadrão às 17h09m. Pede-se-lhe que, nas próximas 48h, escreva para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio. Obrigado a todos!

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Neste pé

Por João Paulo Guerra
Em Portugal a lei tem sempre duas faces. É assim como a moeda. Vejamos.
AS ALTERAÇÕES À LEI DO JOGO aprovadas pelo Governo de coligação liderado por Santana Lopes, no final de 2004, foram feitas para que a Estoril-Sol ficasse com o imóvel do Casino de Lisboa no final da concessão, em 2020, uma situação que a lei anterior não permitia, sendo o Estado gravemente lesado com a mudança da lei. Este é o parecer da Procuradoria-Geral da República, entidade à qual cabe promover a acção penal. Mas que, neste particular, não promove por entender que o caso não é “desconforme” com o Estado de Direito.
.. O túnel do Terreiro do Paço do Metropolitano de Lisboa demorou 12 anos a construir, custou mais 31 milhões de euros do que os 47 milhões previstos, apesar dos atrasos e da derrapagem a empresa pagou regularmente prémios aos empreiteiros mas Portugal pode vir a ter que devolver milhões do financiamento da obra a Bruxelas. O Tribunal de Contas regista toda esta sucessão de atropelos mas julga que não se registaram “ilegalidades ou irregularidades”. Digamos que também este caso não é “desconforme”.
.. E é assim, em Portugal. Os casos acontecem mas é como se não acontecessem. E por mais casos que aconteçam as coisas ficam sempre “neste pé”, expressão peculiar do Estado que marca passo e não anda nem desanda. Neste contexto, o anunciado Conselho de Prevenção da Corrupção, uma visão um tanto enviesada do plano de prevenção da corrupção proposto por João Cravinho e rejeitado pelo PS, ameaça tornar-se em mais um elefante branco do imenso jardim zoológico do Estado. Serve para exibir aos visitantes do zoo, eventualmente para tocar a sineta, e pouco ou nada mais. De resto, continuará tudo “neste pé”.
«DE» de 16 de Junho de 2008 - c.a.a.

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15.6.08

Arroz de enguia

Por A. M. Galopim de Carvalho
A MINHA AVÓ PATERNA morreu muito pouco tempo antes de eu nascer. Casara e tivera três rapazes: o meu pai, Mário, o único que estudou no liceu, encorajado por um professor que o estimava; o Manuel, que não concluiu a instrução primária, desempregado por vocação e, de vez em quando, caiador; e o Óscar, o mais novo, que viera cedo para Lisboa e que por cá viveu, tendo casado tarde com uma mulher da região de Tomar. Esta tia, que mal conheci, sempre nos tratou – a mim e aos meus irmãos – com as maiores atenções e carinho, como que a querer prestar homenagem ao irmão mais velho do marido que, como era sua convicção, ocupava o ponto mais alto do pedestal da família, pois tinha estudado e era escriturário de profissão.
Ao tempo dos filhos crianças, já viúva, a avó Mariana e a sua muito jovem família viviam numa velha casa com quintal, para os lados do Farrobo, na cidade de Évora. De terra batida, com uma bela nespereira ao centro, este quintal, pintado na minha imaginação a partir das histórias que ouvi, era ladeado por alegretes, nome que então se dava aos canteiros, os quais tanto podiam ser de flores como de cheiros, quase sempre salsa, poejos, coentros e hortelã.
Uma ocasião entrou-lhe quintal adentro, vindo da casa ao lado, um belo coelho que pronto se anichou num canto, o que tornou fácil e imediata a sua captura. A família vivia com muitas dificuldades, em franco contraste com o desafogo dos vizinhos. A minha avó deve ter feito umas reflexões sumárias em torno de temas tais como moral, justiça social e outros afins e, tomada que foi a sua decisão, olhou em volta, certificando-se da inexistência de terceiros, pegou no bicho e deu-lhe aquele esticão entre pernas e orelhas que nesses tempos toda a gente sabia dar, pois não havia supermercados nem talhos que nos poupassem daquela desagradável operação. De seguida, esfolou-o. Não lhe guardou a pele que, como era regra, se punha a secar ao ar, virada do avesso e com sal, até que a levasse o peleiro ou o «ferro-velho», dando por ela umas migalhas que se não deviam nem podiam desperdiçar. Nesse dia, excepcionalmente, a avó abdicou desse pequeno rendimento. Já lhe bastava o ganho – e não era pouco – da parte comestível. Assim, e por razões evidentes, enterrou-a bem fundo num canteiro, o mesmo fazendo às vísceras e à cabeça do animal. Perder aquela cabeça foi o que mais lhe custou nesta operação de acautelamento que o bom senso ditava. E ela que gostava tanto daquela carne agarrada aos ossos e dos miolos, que comia, no fim, depois de a abrir ao meio com a faca da cozinha. Mas paciência, não se podia ter tudo. Assim, era mais seguro!
Esquartejou-o aos pedacinhos, que lavou bem lavados, e fez o refogado. Pô-lo ao lume e escolheu e lavou o arroz...
Quando, à tardinha, cheios de fome, os filhos entraram, correndo, vindos da escola e das brincadeiras da rua, e perguntaram à mãe o que era o jantar, a minha avó Mariana, sem trejeito que a denunciasse, levantou os olhos azuis da costura e, de agulha na mão, a espetá-la no peito da blusa, num gesto tradicional de quem interrompe o trabalho, respondeu apenas «arroz de enguia!».
E é por isso que, no passado, em casa dos meus pais, e hoje, na minha, o arroz de coelho sempre se chamou e chama “arroz de enguia”.
Esta e outras crónicas do autor estão também no seu blogue, Sopas de Pedra

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MUITO SE TEM FALADO, ultimamente, nas consequências nefastas do desinvestimento que Portugal tem feito, ao longo das últimas décadas, no transporte ferroviário. Acerca disso, o Público de hoje traz algumas informações curiosas que dão que pensar:
1ª - Mesmo quando as mercadorias circulam de comboio, o trajecto final (se não mesmo, também, o inicial) depende do transporte rodoviário.
2ª - Durante a paralisação dos camionistas, o aeroporto de Faro foi abastecido de jetfuel com recurso à CP (que tem comboios diários entre Sines e Loulé); no entanto, o trajecto final até ao aeroporto foi, como sempre, feito em camiões-cisterna. Nesses dias, as camionetas passaram... porque não havia piquetes em Loulé.
3ª - A própria CP, que continua a ter muitas composições movidas a Diesel, depende do transporte rodoviário para se abastecer desse combustível. Se a paralisação tivesse durado mais alguns dias, mais de metade da rede ferroviária parava.
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NOTA: a imagem escolhida é a de um brinquedo - e compreende-se porquê...
A IDEIA de ir repetindo referendos até eles darem o que se pretende (acedendo, com isso, a um estado de maior entropia que impede a reversão), foi muito citada a propósito da possível independência do Quebeque:
Aquando do último refendo (em que, mais uma vez, venceu o NÃO), um partidário do SIM explicou, sorridente, que era questão de ir insistindo, e fazia a analogia com o que sucede quando alguém é objecto de sucessivas tentativas de homicídio:
«A vítima precisa de ter sorte SEMPRE, enquanto o perpetrador do atentado só precisa de ter sorte UMA VEZ».

Praga de rãs

Por Nuno Brederode Santos
DE VERÕES MALDITOS está o meu Inverno cheio. Contudo, vivemos cada um deles com o pasmo de um apocalipse sem causas, uma praga de rãs, um ajuste de contas com deuses que não são nossos.
Reconheçamos, porém, que poucas vezes o destino e a sorte colectivos foram testados nos limites como agora. Porque a convergência dos factores também foi rara.
Primeiro, instalou-se a ideia de que o constrangimento do défice externo estava superado. E, portanto, havia "folga" (designação folgazã de um país entristecido para designar o dinheiro comum que, se não for, desde já, por uns apropriado, ainda corre o risco de ir parar ao bolso de outros). Este fenómeno tem como emblema mais recente uma senhora a movimentar-se numa cozinha industrial primária, confeccionando pastéis de Tentúgal, e a revelar a um canal de televisão que não recebia qualquer apoio do Estado. Um amigo meu, que nem reza ao liberalismo económico, comentava, estupefacto: "Mas por que raio havia o Estado, o nosso Estado, de financiar os pastéis de Tentúgal?" Nunca lhe consegui dar resposta.
Segundo, estamos a um ano de eleições. Há cultores da "rua" que, de há tempos, vêm reclamando - servindo-se de boas e de más razões - que ela traz consigo uma legitimidade própria, paralela à das instituições democráticas. A chamada "governabilidade" das maiorias absolutas esbarra frequentemente neste pequeno contratempo: tudo o que não se consegue fazer no Parlamento arreia os cabazes na praça e o jargão de feira suburbana demonstra-nos em directo o que vale a retórica das gravatas.
Terceiro, a crise é real. Por importada que seja, ninguém cura de saber donde sopra a miséria que se lhe instalou em casa. (Ironicamente, aliás, as crises do nosso apocalipse - a financeira, a alimentar e a ambiental, agora seguidas pela institucional da União Europeia - chegam a galope ao mesmo tempo, pouco depois de um conjunto de medidas sociais certas, mas também de uma simbólica descida do IVA em 1%, que me pareceu um símbolo demasiado caro). O que, se não legitima, pelo menos agudiza a pulsão das "greves de Verão". Por um lado, são as falsas greves com que algum patronato ataca o bolo da "folga", lançando na praça pública assalariados, conscritos para a guerra alheia por já saberem a lógica que os envolve: se o patrão não ganha nada, a primeira fome é a dos seus filhos. Armadores e transportadoras conhecem as regras. Numa verdadeira greve, os trabalhadores param e reivindicam melhores condições de vida e trabalho contra os seus patrões - e a greve tem um risco: o de o incómodo causado à população a levar a posicionar-se contra a greve e, portanto, a favor do patronato. Aqui é diferente: o patronato - sobretudo o que não quer ver o Estado lá por casa, quando a mesa é farta - exige do Estado o que é de todos, manda os seus trabalhadores paralisarem o país ou um sector da economia e associam-lhes o destino pessoal ao desenlace. Depois, copiam, para efeitos mediáticos, o dialecto sindical e exigem o diálogo com as autoridades. É quanto basta para soltar o desespero e os rancores mais primários. É quanto basta para que haja quem dê a própria vida na desordem.
A crise dos transportadores de mercadorias acabou bem ("mas podia ter acabado mal", disse Mário Lino). Pelo que a imprensa relata, até acredito que o preço pago ficou aquém do que podia ter sido. Mas o precedente deixou uma lápide no chão para lembrar a todas as aristocracias assalariadas, que, por poderem produzir muito mais dano do que as vantagens que reivindicam, a arruaça destruidora e o contingentamento da liberdade dos outros valem a pena. E a lembrar também aos suscitadores destes desacatos de agora um caminho possível para resolverem qualquer crise de amanhã. Por isso, é necessário um esforço maior do que o esperado na criação de alternativas e na redução da dependência, mas visando só efeitos de médio e longo prazos. Mas, por isso também, vale a pena que a PGR leve por diante - agora - os escassos casos que, ao que parece, ela ainda tomou a peito.
É certo ser esse, hoje, o discurso da pior direita. Precisamente a que não tem moral para o dizer, porque, na sua desordenada gula eleiçoeira, tanto cavalga a desordem como a reposição da ordem. Mas isso é o que sucede a quem puder jogar no preto e no vermelho: ganha sempre. Mas ganha sempre numa cor aquilo que perde na outra. Não vai longe: só dá para contar aos netos que ganhou, sonegando o outro tanto que perdeu.
«DN» de 15 de Junho de 2008

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14.6.08

Do arquivo Humor Antigo - Ano de 1934
MUITO se tem falado da gaffe de Cavaco Silva quando, a propósito do 10 de Junho, se referiu ao «Dia da Raça». Pois bem; o Sorumbático oferece um exemplar do livro de onde foi tirado este extracto ao primeiro leitor que identificar o seu autor.
Actualização: a resposta certa foi dada no comentário-4.

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13.6.08

Transportadores rodoviários de mercadorias - No melhor pano…

Por Antunes Ferreira

SEJAMOS FRANCOS: foi um episódio tristíssimo que se pode, inclusive, qualificar de criminoso. Dúvidas? Meteu morte, assaltos, privação de liberdade, alteração à ordem pública, foi contra a economia do País. É preciso mais? Além disso, veio, uma vez mais, trazer à superfície uma questão aparentemente colateral, mas incontornável. A saber:
Que raio de gente somos nós, os Portugueses? Já o escrevi, reescrevi e mantenho tudo o que expressei: salvo honrosas e bastantes, felizmente, excepções, nós não prestamos. Assim mesmo, soletrando: n-ó-s----n-ã-o----p-r-e-s-t-a-m-o-s. Se for necessário, exemplificarei noutro escrito o porquê desta afirmação. Para já, porém, não me afasto do que aqui me trouxe.
Se existe representatividade de organizações de classe neste País, ela tem de funcionar. Quero dizer, ela tem de responsabilizar pelos actos praticados pelos seus associados. E estes têm de proceder de acordo com essa relação. A não ser assim, para que servirão elas? Para serem desrespeitadas sempre que as partes assim o entendam? Pobres associações, pobre País.
A Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários de Mercadorias, Antram, terá de, a partir de agora, sublinhar que, supostamente, representa os… transportadores rodoviários de mercadorias portugueses. A Antram terá, presumo, de alterar os seus estatutos para incluir neles essa suposição. Caso estranho? Mas, bem vistas as coisas, o que é que não é estranho em Portugal?
Os transportadores rodoviários de mercadorias, vulgo camionistas ou proprietários de empresas de camionagem devem exigir da Associação que diz representá-los essa alteração estatutária. Ou, em alternativa, continuarem a marimbar-se para a dita e fazerem as greves, paralisações, limitações da liberdade rodoviária, até mesmo originarem a perda de vidas. Com Antram – ou sem.
Daí que talvez seja melhor, se é que isso ainda é possível neste País à beira-mar plantado, correrem os taipais da Associação a quem os associados não ligam peva. Isto é, para quem eles, camionistas/associados, se estão nas tintas. Se nem para conduzir uma greve legal a Antram serve, para quê continuar a dizer que existe e a ser negada durante três dias? Comparado com a auto intitulada Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários de Mercadorias, Pedro, o discípulo sobre o qual seria erigida a Igreja, foi um herói. Apenas negou Cristo por uns momentos. Nunca durante um tal lapso de tempo: mais de 72 horas. É obra.
Estou, convictamente, com a Constituição Portuguesa (apesar de ser Português…, e fazer parte dos que não prestamos. Excepções são outros). Estou, assumidamente, com o direito – contemplado no texto fundamental – à greve. Só as ditaduras, de direita ou de esquerda, o proíbem. E Portugal é uma Democracia e um Estado de Direito.
Nós, porém, esquecemo-nos quase sempre, mas sempre de acordo com as nossas conveniências, do binómio direitos-deveres. Os primeiros têm de cumprir os segundos. Naturalmente, a inversa é verdadeira. Mal seria que assim não fosse. Neste Portugal dos Pequenitos – não é o de Coimbra, do Bissaya Barreto, é este em que vamos sobrevivendo – isso não passa duma apetência – vaga. Lastimavelmente.
Não é caso virgem, recordo. Ainda recentemente, depois do Governo ter assinado com as organizações de classe dos professores um acordo que, ainda que provisório, poria fim, também transitório, à luta dos últimos e logo um grupo de mestres auto-proclamados independentes veio dizer que o dito entendimento não era para eles, porque não o reconheciam. Com Fenprof ou com… nada.
Greve selvagens são excrescências de um passado ditatorial e salazarento. No «Estado Novo» a greve era proibida. Donde, a necessidade de se enveredar por formas de luta grevista ilegalíssimas. Participei – e com alguma, pequena, responsabilidade – na greve estudantil de 1962 e, por isso, falo de experiência própria.
Mário Lino e Antram tinham chegado, ao fim de muitas reuniões e muitas horas, a um acordo que aparentemente punha fim à greve dos transportadores rodoviários de mercadorias. Mas foi necessário ouvir e convencer os mesmos para que findassem a paralisação do País. Que dizer mais desta cegada?
Ainda na quinta-feira fui esperar à Portela um amigo que vinha em voo directo de Viena para Lisboa. Directo, uma ova. Tiveram de parar em Barcelona, para… atestar o depósito. Estou a ver a cena: mire Usted, por favor. A llenar el depósito porqué en Lisboa no hay combustible o casi. Sin embargo, perdóneme por las molestias. Por supuesto. E, o catalão, recordando ao utente: Antenciò: no es permet fumar!...
Disseram as agências que o Executivo de José Sócrates preparava uma requisição civil. E – só? E a manutenção da ordem pública? E o exercício da autoridade democrática do Estado? E a liberdade de circulação? Revelo-me um autoritário? Um facho? António José Teixeira, jornalista de quem sou admirador confesso, não é autoritário, muto menos fascista. E, perante as câmaras da SIC, onde é Director de Informação, fez as mesmas perguntas.
Só me entristece saber que o inefável Portas igualmente o fez. Mas o bom é inimigo declarado do óptimo. E, para terminar: no melhor pano cai a nódoa.

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Do arquivo Humor Antigo - Ano de 1934