31.3.12

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O grupo de pressão afinal não é Cavaco

Por Ferreira Fernandes

O QUINTO secretário da Embaixada dos EUA em Lisboa, encarregado de estudar os movimentos subversivos, costuma estar n' A Ginginha do Rossio, perscrutando.
Com a segurança os americanos não brincam. Estudam antes de vigiar, vigiam antes que aconteça. Daí, aquele lugar, a meio caminho da Igreja de São Domingos, onde começou o Massacre da Páscoa em 1506, e a estátua de D. Pedro IV, lugar de concentração do MRPP em 1975, dois momentos altos dos levantamentos lisboetas (e o resto é paisagem).
Foi aí, enquanto disfarçava não saber o que fazer com o caroço da ginja, que o quinto secretário deu conta da movimentação de oficiais reformados a caminho da esplanada da pastelaria Suíça. Alves Redol já escrevera sobre a aglomeração, na década de 40, mas julgou-a mera curiosidade pelas pernas das refugiadas.
Mais profissional, o americano informou a sede, em Langley, e deu nome aos bichos. Assim, como disse ontem o DN, a CIA publicou, no seu internético The World Factbook (Almanaque do Mundo), qual o grupo de pressão português mais poderoso. E não, não é Cavaco, é a AOFA. A coisa estendida resulta ser a Associação de Oficiais das Forças Armadas. A CIA revela até o nome do chefão: "coronel Pereira Cracel."
Entre dois abatanados e um café curto (para não serem relacionados com qualquer pressão nunca pedem sumo de laranja natural), os pré-amotinados preparam-se. Felizmente para nós, a CIA está atenta.
«DN» de 31 mar 12

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30.3.12

Guerra, aviões e asas cortadas

Por Ferreira Fernandes

A ARGENTINA é um país que os ingleses entendem mal. Só isso justifica que o ministro da Defesa inglês tenha dito (veio ontem no Times, de Londres), em pleno 30º aniversário da Guerra das Malvinas, que a Grã-Bretanha "bateria a Argentina numa nova guerra." E, como para espicaçar mais, mediu as pilinhas: "eles" não compram aviões há 40 anos e "nós" temos os Typhoons, os mais modernos dos caças...
Não me vou demorar no assunto, mas aproveito o sujeito, a Argentina. Aí (veio ontem no La Nación, de Buenos Aires), saiu uma lei que não proíbe mas complica muito a compra de livros e revistas on-line. Quem encomenda na Amazon, tem de ir ao aeroporto levantar o livro (por exemplo, em Buenos Aires é fazer 35 kms de ida) e pagar 50 euros que correspondem ao exame para saber se as tintas do livro não têm... chumbo a mais - exame, o tanas, simples pretexto protecionista.
Ora, livros na Argentina não são artigos de luxo. Na pátria de Borges e Bioy Casares, as livrarias ficam abertas até à meia-noite e, se querem saber o que é uma livraria, ide ao Google, metam "El Ateneo, Buenos Aires", e espantai-vos.
O que eu quero dizer, é o seguinte: se mesmo num conflito enterrado, há, de um lado, um ministro da Defesa que fala como se fosse do Ataque, e, do outro, amantes de livros que tiram asas aos livros, é de assustar.

«DN» de 30 Mar 12

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Apontamentos de Lisboa

ESTES 4 prédios situados na Av. dos EUA mostram outras tantas formas de lidar com as varandas - um tema que em tempos aqui provocou muita polémica, e ao qual não tenciono regressar. Ficam, pois, apenas as fotos.

PSP preocupada com... notícias

Por Manuel António Pina

JORNAIS, TVs e Net noticiaram por estes dias o espancamento por agentes da PSP, documentado com imagens que correram mundo, de pessoas que exerciam o seu direito à greve e à manifestação e de jornalistas que exerciam o seu direito de informar.

Muitas de tais notícias tão só repetiam as de há quatro meses, quando da greve geral de 24 de Novembro, dando conta, com numerosos testemunhos (e de novo imagens, malditos telemóveis!), de que a violência terá então tido origem na acção de agentes provocadores infiltrados pela PSP entre os manifestantes, actuação proibida por lei e confirmada ao "i" por um agente do Corpo de Intervenção que, prudentemente, pediu o anonimato.

O Relatório de Actividades da PSP, ontem conhecido e ainda subscrito pelo famoso director-geral que avisou o país de que "nós não andamos com bastões, nem com pistolas, nem com algemas, nem com escudos e etc. para mostrar que temos aquele equipamento...", preconiza agora a análise das notícias dos media e a adopção de "estratégias de combate às menos positivas". Não constando que o Relatório se mostre preocupado com a formação dos agentes da PSP em matéria de direitos humanos e de cidadania, quanto mais não seja para evitar "notícias menos positivas", é de recear que a PSP pense levar a cabo tal combate com "bastões", "pistolas", "algemas", "escudos" e, sobretudo (tenhamos medo, muito medo), com "etc.". Só o ministro Miguel Macedo o sabe...
«JN» de 30 Mar 12

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História

Por João Paulo Guerra

HÁ DOIS aspectos em que a situação política no País nos dias que correm se assemelha perigosamente ao que se passava em Portugal no prenúncio da ditadura.

Um deles é a sofreguidão do patronato que já tem tudo mas quer sempre mais alguma coisa. Outra é a pesporrência da Polícia. Ainda ontem os jornais davam conta da insatisfação dos patrões com as novas leis laborais. Ao mesmo tempo, um relatório da PSP expunha a estratégia para combater as "notícias menos positivas".

Nos anos 20 do século passado, a Confederação Patronal e a União dos extremaram posições em relação às lutas e direitos das classes trabalhadoras, esticando a corda até que a tropa veio por aí abaixo pôr ordem no caos reinante. O que mais incomodava as associações patronais eram as greves, chegando alguns patrões a propor o recurso a actos de terrorismo para acabar de vez com o direito à greve.

Hoje, com as novas leis laborais, o patronato vai despedir a seu bel-prazer e barato, vai pagar as horas extraordinárias por metade. Mas quer mais. Quer acabar com aquilo que um aparelhista da JSD designa por "ditadura dos direitos adquiridos". Os trabalhadores resistem, fazem greve, desfilam em manifestações e cai-lhes a Policia em cima. Ao mesmo tempo, e depois de um conhecido gestor preconizar uma "informação filtrada", "a bem da Nação", a Policia vem dizer que considera sua atribuição estabelecer uma estratégia para combater "as notícias menos positivas". Mas as atribuições da Polícia estão na Constituição da República e não contemplam nada que se pareça com o combate a notícias menos positivas, vulgo Censura.

Parece que há quem queira repetir a história. Talvez para acabar com a ditadura... da democracia.
«DE» de 30 Mar 12

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29.3.12

O homem que nos preparou para nós

Por Ferreira Fernandes

NOUTRO ponto deste jornal e hoje, já escrevi sobre Millôr Fernandes. Espero que ninguém me vá cobrar por voltar aqui ao mesmo sujeito. Quando se repete tanto sobre gente que voa baixinho (e se lhe dá páginas e minutos em telejornais) até é indecente contar o espaço dedicado ao maior génio da nossa língua condensada.
Ninguém inventou tantas e boas frases. Mas há outra razão para voltar à carga.
Acabo de ler o testemunho de Luis Fernando Veríssimo, dado ao jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Ele conta uma sessão literária em que participou com Millôr e na qual este leu um discurso belo e comovedor. O tema era sobre democracia e direitos humanos. No fim, depois do silêncio de todos, que interiorizavam a beleza do que tinham acabado de ouvir, Millôr fez um acrescento: o discurso era do general Garrastazu Médici. Sim, do ditador que governou no período mais repressivo da História do Brasil.
Millôr tem trinta livros, milhares de frases e viveu dos jornais, enfim, da palavra. E foi ali para dizer: cuidado com ela. Dei-me conta, lendo o testemunho de Veríssimo, que o cinismo de tantas pérolas de Millôr não era truque de poseur. Era aviso.
Frase dele, recolhida na colectânea Millôr Definitivo: "Prudência: e devemos sempre deixar bem claro que nenhum de nós, brasileiros, é contra o roubo. Somos apenas contra ser roubados."
Foi a ser cínicos que eles nos andou (e não só aos brasileiros) a ensinar ser.
«DN» de 29 Mar 12

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O livreiro insolente

Por Manuel António Pina

A POESIA tem justificada má fama. Chamar poeta a alguém, no Parlamento ou no Estádio da Luz, é maior insulto do que chamar intelectual a Pacheco Pereira, como fez Valentim Loureiro num dia em que se achou mais pachorrento. E temos que convir que, se "ser poeta é" o que Florbela Espanca diz que é e os Trovante andam por aí a "dizê-lo, cantando, a toda a gente", compreende-se que assim aconteça.

Imagine-se agora que, num determinado "país de poetas", um insolente livreiro decide abrir uma livraria exclusivamente dedicada à poesia. Era bem feito que lhe chamassem poeta, ou ainda menos. Foi o que aconteceu. Ao fim de mais de três anos a juntar e vender ociosidades numa obscura rua do Príncipe Real, em Lisboa, a livraria "Poesia Incompleta" fechou ontem portas. Ainda por cima sem dívidas, o que hoje é coisa ainda mais insultuoso do que "poeta".

Alguém deveria ter explicado ao jovem empreendedor Mário "Changuito" Guerra que a única forma de manter durante três anos uma livraria exclusivamente dedicada à poesia e chegar ao fim com uma pequena fortuna é começando com uma grande fortuna. Não foi, obviamente, o caso.

Anunciou o livreiro que irá doar (ou doer, não sei) os milhares de volumes que lhe sobram nas prateleiras ao omniministro Relvas. Só que, tal como "assustar um notário com um lírio branco", pôr Miguel Relvas ao alcance de Kavafy, Camões e Rilke cai decerto sob a alçada da lei antiterrorista.
«JN» de 29 Mar 12

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Desafios

Por João Paulo Guerra

AINDA não se extinguiu nem o eco mediático nem a indignação pela brutalidade policial do dia da greve geral e já a PSP entra em choque mais uma vez com a cultura da democracia, ao incluir entre os “desafios acrescidos” do seu plano de actividades para o ano de 2012 “as situações resultantes de manifestações”.

Ou seja, para a PSP "as situações resultantes de manifestações" são questões como o furto de carteiras ou o atropelamento e fuga. E é assim, com falinhas tecnocraticamente mansas, que um direito constitucional - "a todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação", CRP Art.º 45, 2. - se vai pouco a pouco transformando num caso de polícia. Um dia destes os portugueses acordam num estado salazarista onde "são proibidos ajuntamentos de mais de duas pessoas".

A questão é que as polícias não funcionam simplesmente como órgãos do Estado com funções de defesa da legalidade democrática e garantia da segurança interna e dos direitos dos cidadãos. Também fazem doutrina, o que é próprio dos estados policiais. E o próprio Estado cada dia se identifica mais com concepções ideológicas e políticas e até mesmo com práticas culturais intolerantes e antidemocráticas. O Estado que supostamente anda a inquirir, muito preocupado, o que se passou no Chiado no dia da greve geral é o mesmo Estado que formou, educou, equipou, armou e comandou as forças de choque que actuaram no local com a brutalidade que os documentos fotográficos exibem.

Os "desafios acrescidos" significam que a Polícia espera por mais actuações ao longo do ano, na proporção directa do empobrecimento e dos protestos dos próprios polícias. Polícia contra polícias nem sequer seria uma originalidade em Portugal.
«DE» de 29 Mar 12

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Resposta a uma pergunta de ontem

Lisboa, Rua da Alfândega
Portas da cerca moura

ESTAS portas são referidas nas crónicas da conquista de Lisboa aos mouros (em 1147) devido a uma circunstância curiosa: ficavam mesmo junto ao rio, que ali chegava na preia-mar. Quando as águas baixavam, os sitiados faziam surtidas por elas, travando-se combates no areal que duravam até à nova subida das águas.

As fotos, de anteontem, mostram como muitos lisboetas acarinham a sua cidade. Também aqui, os turistas fazem prodígios de enquadramento para que os gatafunhos não fiquem nas fotos que tiram...

Greve geral – Esta polícia de choque não é a da democracia

Por C. Barroco Esperança

QUANDO vi as imagens de agressões policiais, a manifestantes e jornalistas, vieram-me à memória as manifestações contra a guerra colonial, o funeral do estudante Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE, ou o da mulher do bancário Daniel Cabrita cuja prisão e tortura do marido a conduziu ao suicídio. O funeral foi uma imensa manifestação contra o regime, rodeada de enorme aparato policial, em Almada. (...)
Texto integral [aqui]

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28.3.12

Para a semana é que vale

Por Ferreira Fernandes

ONTEM não cumpri uma das leis do jornalismo, a da proximidade, e não me interessei pela transmissão da Champions onde jogavam seis ou sete portugueses. Em vez desse jogo em Chipre, Apoel-Real Madrid, estive a ver o Benfica-Chelsea, apesar de só terem aparecido três portugueses e, esses, morando no Oeste de Londres.
Decidi-me pelo jogo da Luz por questões morais. Infelizmente, acabou por não se realizar. Como se sabe, no dia do sorteio, ao anúncio do adversário para os londrinos, um dos seus mais talentosos jogadores pôs-se a gozar com o clube que lhe calhou: Drogba fez de conta que tremia, mimando todo o desprezo que lhe merecia o Benfica. Desde aí, adeus transições e situações de um para um, adeus toda a ciência dos compêndios futebolísticos. Era necessário ir ao básico, onde as coisas simples são ensinadas: urgia reler A História do Declínio e Queda do Império Romano, do inglês (mas não caseiro) Edward Gibbon. Sobretudo aquela página em que ele conta que todo o general romano regressado com vitórias e troféus, entrando em Roma, nunca ia sozinho no carro triunfal. Acompanhava-o um escravo que lhe segredava, entre as aclamações do povo: "Lembra-te, és um simples mortal!".
Soberba, a palavra de que todos os grandes devem fugir.
Ontem, na Luz, não pudemos ver o resultado porque o que estava em jogo, Drogba, não alinhou. Fica tudo adiado para Londres e espera-se que, dessa vez, Drogba não falte.
«DN» de 28 Mar 12

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Um "negócio" surreal

Por Manuel António Pina

A HISTÓRIA trágico-financeira-política do BPN atravessa dois governos e é assustadoramente surreal (ou talvez antes neo-abjeccionista): "nacionalizado" por um Governo PS, isto é, nacionalizadas as suas dívidas, a maior parte resultante de trafulhices, e detido o seu guru-mor, Oliveira Costa, enquanto os demais responsáveis continuam a andar por aí de cabeça despudoradamente erguida e como se não fosse nada com eles, coube a um Governo PSD/CDS "privatizá-lo" de novo.

Os jornais publicaram há dias a notícia de um grupo norte-americano que se disporia a dar 600 milhões pelo BPN. Parece que, apesar de repetidas tentativas, nunca conseguiu chegar à fala com o Governo. E o Governo, não tendo melhor oferta, acabou por vendê-lo a um banco, o BIC, de Isabel dos Santos, filha de Eduardo dos Santos, e de Américo Amorim, pela módica quantia de 40 milhões de euros.

Entraram, pois, 40 milhões nas contas do Estado? Não: saíram (mais) 600 milhões, pois o Governo PSD/CDS comprometeu-se, para que o BIC fizesse o favor de "comprar" o BPN por 40 milhões, a dar-lhe... 600 milhões. Parece que para o "viabilizar". E ainda a emprestar-lhe outros 300 milhões a 0% de juros. E a ficar com o encargo de metade dos seus trabalhadores.

Não foi um negócio da China, foi um negócio de pôr os olhos em bico. E, como em negócios assim há sempre um otário, adivinhe o leitor a que bolsos irão parar os seus subsídios de férias e de Natal.
«JN» de 28 Mar 12

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Alguém sabe onde se podem apreciar estas obras de arte (entrada livre)?
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A resposta aparecerá em 'post' próprio, às 10h de amanhã, 29 Mar 12

Guloseimas

Por João Paulo Guerra

CONTA o Diário de Notícias que o Serviço de Informações de Segurança elaborou e distribuiu por todas as forças policiais um relatório sobre uma situação de caos iminente na cidade de Lisboa, no dia da greve geral, com ruas bloqueadas e explosões de cocktails Molotov e outros.

Como se sabe não aconteceu nada de «inopinado» e «radical» do que o SIS previra. Ou as fontes do SIS estão inquinadas ou os analistas das Secretas portuguesas andam a ver muitos filmes de terror.

Quanto às forças policiais, em geral, e em particular ao Corpo de Intervenção da PSP, basta que os graduados e agentes andem a ler muitos relatórios do SIS, na linha do que veio agora a público, para ficarem transtornados, com os nervos à flor da pele, perante uma visão distorcida de um pequeno país infiltrado por indignados, ciclistas, okupas, e outros perigosos frequentadores das redes sociais.

A questão é que não há qualquer tipo de controlo sobre a idoneidade das fontes, internas ou externas, que o SIS selecciona e credita como boas. Em tempos idos - que podem estar de volta - fontes dos serviços secretos convenceram o poder político sobre uma iminente «revolução dos pregos».

Sabe-se lá que fantasias são impingidas ao SIS, que guloseimas, que bagatelas - como diz John Le Carré em A Toupeira -, são pespegadas como produtos de qualidade aos diligentes espiões portugueses. E sabe-se lá qual a predisposição do SIS para engolir guloseimas e credibilizar bagatelas dos seus fornecedores, o que ainda é mais grave.

Pelo que agora chegou à opinião pública, um perigo real que pode a qualquer momento pairar sobre o País é o de uma intoxicação através de guloseimas envenenadas, sem antídoto, sem defesa.
«DE» de 28 Mar 12

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Apontamentos de Lisboa

Praça Pasteur

Um congresso

Por Baptista-Bastos

UMA SOMBRA tenebrosa perpassou pelo Congresso do PSD: a sombra de José Sócrates. No discurso, no depoimento, na declaração, na entrevista, o nome do ex-primeiro-ministro foi presença constante. Para ser desancado, bem entendido. Até Passos Coelho não se conteve. Ele, que prometera, solene e sólido, nunca se referir, nem em breve alusão, a Sócrates e seu Governo, indica-os, a um e a outro, como causas de todos os nossos males. Luís Montenegro, chefe da bancada parlamentar daquele partido, tentou gracejar com as seguintes afirmações: "O PS tem um Governo clandestino, em Paris" ou "O PS tem uma direcção bicéfala: Seguro, cá; e Sócrates, lá." A graça era tão desajeitada que ninguém sequer sorriu.

Parece ser uma nova estratégia dos sociais-democratas, destinada a fazer esquecer os nossos sufocantes problemas, e que se transformou numa obsessão perturbadora. Apenas reavivaram a lembrança de um homem, como tema, e a transferiram para a categoria de problema. Ao que consta, Sócrates pende, neste momento, para o estudo dos estóicos. Foi visto no Café de Flore, a folhear Cartas a Lucílio, de Séneca.

De resto, o congresso foi uma irrelevância. E nem a promoção de Moreira da Silva, que me dizem ser rapaz jeitoso, em detrimento de Miguel Relvas, colocado no papel de falador sem perigo, animou a massa parda do conclave. Alberto João Jardim fez o que dele se esperava: elogiou, excessivo e congestionado, o presidente Passos, porque pressente ter de lhe pedir auxílio. Também não se coibiu de aplicar a José Sócrates umas sarrafadas. Os congressistas, de pé e muito comovidos, aplaudiram-no sem reservas

Simpático e gracioso, tão ao gosto do que gosta, Marcelo passeou a popularidade pela sala, proferiu umas frases inócuas, e escapuliu-se. Santana, que posa de leão jamais domesticado, nem humilde nem errante, foi à gostosa reunião para ser visto. Disse que não dizia e acabou por dizer o que lhe interessava. Fotografaram-no e filmaram-no em jubilosa conversa com Miguel Relvas. Nada de mal. Nada de importante. Santana é a pop-star do PSD, e anda sempre por aí.

Tudo a contento de Pedro Passos Coelho, a rodear-se de amigos que não se exaltam nem contestam, e a preparar-se para uns pequenos outros ajustes de contas. O pobre Pacheco (servindo-me de uma expressão cara a Eduardo Prado Coelho) que se cuide. As diatribes um pouco oblíquas, e notoriamente ressabiadas, com as quais pretende atingir Passos e a sua governação, vão ter, certamente, resposta adequada. Já foi corrido do Parlamento. Que mais lhe pode acontecer? Muita coisa, creio. Nem o discurso final do líder, pressionado para falar dos desempregados, possuiu a consistência das convicções. Referiu-se-lhes com uma espécie de mensagem caritativa.

Haja Deus e haja Freud!
«DN» de 28 Mar 12

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27.3.12

E o Oscar vai para...

Por Manuel António Pina

"NESTES nove meses, nós no Governo temos cumprido aquilo que prometemos", garantiu Passos Coelho aos correligionários e ao país durante o Congresso do PSD do passado fim-de-semana. Podia tê-lo dito pondo pudicamente a mão à frente da boca e rindo para dentro como Muttley, mas não: conseguiu dizê-lo com o ar mais sério deste mundo.

Foi aplaudidíssimo. E mais que justificadamente: todo a gente sabe que, como Passos Coelho prometeu, nestes nove meses os portugueses não ficaram sem o 13.º mês; nem subiu o IVA; nem aumentaram os impostos sobre o rendimento, mas apenas os impostos sobre o consumo; nem "quando [foi] preciso apertar o cinto, não [ficaram] aqueles que têm a barriga maior a desapertá-lo e a folgá-lo"; nem foram "impostos sacrifícios aos que mais precisam" (a Comissão Europeia é que fez mal as contas ao concluir que, em Portugal, "nestes nove meses", as medidas de austeridade exigiram aos pobres o dobro (6%) do esforço financeiro pedido aos ricos (3%); além disso, amigos como Eduardo Catroga, seu braço-direito nas negociações com a "troika", Paulo Teixeira Pinto, autor da sua proposta de revisão constitucional, ou Ilídio Pinho, seu antigo patrão, colocados na EDP, para não falar dos colocados na CGD e em tudo o que é empresa pública, podem testemunhar que, como prometeu, Passos Coelho "não [deu] emprego aos amigos".

Só não se sabe se os aplausos foram para a interpretação se para o despudor.
«JN» de 27 Mar 12

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Bordoada até já chegou a Belém

Por Ferreira Fernandes

HÁ 30 ANOS Vizela queria ser concelho e boicotou umas eleições. Marcada nova data, a vila encheu-se de jornalistas que puderam ver que o povo era sereno - tirando a verve nortenha: "Botar só se for as urnas ao rio" - e a GNR impreparada.
Se querem uma ilustração moderna para a atuação dela nesse dia, serve o vídeo do agente da PSP que agrediu, há dias, a jornalista no Chiado: aquele polícia, de bastão ao contrário, atirando-se a uma repórter em zona de ninguém, é antes do mais um não profissional. Um histérico, quando era obrigado à calma, um bruto, quando se lhe exigia firmeza, enfim, alguém impreparado, que não serve os cidadãos nem os seus colegas.
Eu estive em Vizela há 30 anos e vi não um polícia mas um pelotão da GNR na mesma exibição de incapacidade: malhavam, em vez de imporem a ordem. Um grupo de jornalistas refugiou-se no cimo de um muro: "Um deles tirou a carteira profissional e gritou: 'Sou jornalista! Sou jornalista!', e, tendo confessado, levou mais", escrevi então, para o meu jornal, o Tal & Qual.
Há impreparações profissionais que, não indo além disso, devem ser tratadas sem mais, com desprezo. Hoje, felizmente, podemos ser ainda mais exigentes e querer tirar aquele mau polícia da rua.
Mas, chega o que chega, fazer do Chiado um assunto de Estado (que já vai em apelo do Presidente) é ridículo. E as costas de jornalistas não devem ser trampolim para chicana política.

«DN» de 27 Mar 12

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Das rochas sedimentares (42)

Por A. M. Galopim de Carvalho

O TERMO INGLÊS chert, o mais divulgado entre os geólogos dos quatro cantos do mundo, abarca, praticamente, todos os silicitos litificados. Entre nós, este vocábulo tem sido usado com a grafia cherte e está na base de expressões, correntes entre os petrógrafos, como chertificado e chertificação, em substituição de silicificado e silicificação. (...)
Texto integral [aqui]

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Congreso

Por João Paulo Guerra

O DIRECTOR-EXECUTIVO do Diário Económico escrevia na edição de ontem que o Congresso do PSD “foi um bocejo”.

Ora se o director-executivo escreve que «O congresso foi um bocejo» que posso eu escrever? Que foi uma estopada, uma maçada, uma chatice? É pouco e não diz tudo. O mais adequado será dizer que, excepção feita a dois inspirados momentos, o XXXIV Congresso não existiu.

Tratava-se do congresso de um partido no poder, pondo em prática uma política que conduz o País à miséria, sendo que para o ano que vem o calendário prevê a realização de eleições autárquicas. Se acrescentarmos às políticas mais impopulares do Governo a reforma que visa mexer com o mapa autárquico, teremos o quadro negro do futuro do partido. Os social-democratas podem achar muito bem que se arrase o Estado social. Mas já não admitem se lhes pisem os limites dos concelhos, das freguesias, das quintas, quintais e quintarolas nos quais cada um é rei e senhor. Daí que o fautor da reforma administrativa, Miguel Relvas, tenha sido dado como desaparecido em combate no Congresso. Num dado momento de inspiração, e recorrendo a um passe de mágica, o grande líder do partido e chefe do Governo fez desaparecer o querido líder Relvas da foto de família mais depressa do que Leon Trotsky levou sumiço da caderneta dos cromos dos Comissários do Povo.

Outro inspirado momento foi quando o PSD virou vertiginosamente à esquerda, pensando certamente no eleitorado empobrecido das eleições de 2013. O momento ficou assinalado pelo facto inesperado de todo o conclave desatar a cantar baladas de Zeca Afonso, a mais oportuna das quais foi "O que faz falta...".

E pronto. Congressos era antigamente, quando Sá Carneiro batia com a porta. Ou quando Emídio Guerreiro contava as espingardas.
«DE» de 27 Mar 12

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26.3.12

É de longe mas tem interesse

Por Ferreira Fernandes

MITT Romney vai ser o candidato republicano e os portugueses estão-se nas tintas. Está bem, mas eu tento refugiar-me em assuntos que me distraiam da possibilidade de um dia a SIC Notícias pôr uma moto com reporter-cameraman a seguir o trator em que o presidente da Junta de Freguesia de Vale da Coelha se desloca para a tomada de posse.
Entretanto, como quem vai à Disneyworld (é para miúdos, mas areja adultos cansados do nosso jornalismo político), li ontem um artigo do New York Times sobre as relações entre Romney e o falecido Ted Kennedy. Política com gente dentro. Sr. Limpo (marido fiel, empresário de sucesso, sóbrio militante), Romney foi disputar, em 1994, o lugar de senador com um velho democrata cheio de pecados (Ted era borrachão e mulherengo).
Só que a disputa era no Massachusetts, feudo de Ted e liberal de costumes, e o republicano Romney teve de namorar com as ideias de aborto e direitos gays. Romney perdeu essa eleição, mas tornou-se governador de Massachusetts em 2002.
Mais uma vez se deixou enfeitiçar por Ted Kennedy e apoiou o seguro estatal de saúde.
Hoje, esses pecadilhos são a causa principal da desconfiança do eleitorado conservador. Romney, por causa de Kennedy, é um republicano mal amado. Há quatro anos, o penúltimo ato político de Ted Kennedy foi apoiar Obama contra Hillary. O último, já da campa, é assombrar Romney - e voltar a apoiar Obama.
Isto pode não ser connosco, mas ao menos tem enredo.
«DN» de 26 Mar 12

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50 anos depois

Por Manuel António Pina

COLETTE Magny cantou-os chamando-lhes "les gens de la moyenne": "Os estudantes manifestaram-se,/ foram seviciados pela Polícia/ (..) em Lisboa, Portugal". Foi a 24 de Março de 1962, em plena ditadura, quando a Polícia de Choque atacou com grande violência estudantes que se manifestavam em Lisboa, dando origem à primeira das "crises académicas" (a segunda seria sete anos depois, em Coimbra) que abalaram os alicerces do regime salazarista.

Escreveu Marx que a História acontece como tragédia e se repete como farsa. 50 anos passados sobre esse episódio (e 38 anos sobre o 25 de Abril...), a Polícia de Choque mudou de nome para Corpo de Intervenção mas não parece ter mudado de métodos: violência e recurso a agentes provocadores para a justificar. E a ditadura é hoje uma farsa formalmente democrática - um "caos com urnas eleitorais", diria Borges - em que é suposto existirem direito à greve e à manifestação.

Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se.
«JN» de 26 Mar 12
NOTA (CMR): juntei a foto de um famoso 'confronto' de 1962

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Apontamentos de Lisboa

TODAS estas fotos foram tiradas ontem, na Av. Guerra Junqueiro, em Lisboa - uma artéria que podia ser das mais agradáveis de Lisboa se não fosse aquilo que todos os que lá passam podem ver.
Ultimamente, e talvez por já escassearem as paredes disponíveis, alguns artistas urbanos passaram a atacar os estabelecimentos comerciais - e dá que pensar, muito especialmente, o apelo que se vê na última imagem...

Confrontos

Por João Paulo Guerra

O CONFRONTO, a confrontação, o ato de confrontar pressupõe sempre dois ou mais confrontadores.

De maneira que por mais voltas que se deem à língua e aos dicionários não há maneira de vislumbrar qualquer espécie de confronto entre um polícia de choque armado até aos dentes e de chanfalho em riste e uma jornalista carregada de máquinas fotográficas e com uma carteira profissional na mão. Sendo que a relação entre ambos é que um espanca a outra. A foto da Reuters regista o momento em que um polícia de choque português espanca a fotojornalista portuguesa da France Press, no Chiado, em Lisboa, durante uma manifestação associada à greve geral. Espero que a foto tenha corrido mundo para vergonha de quem espanca, manda espancar ou assegura a impunidade de bestialidades como esta.

O termo confrontos, sem cobertura dos dicionários, foi usado pela generalidade dos meios de comunicação para descrever a relação entre agressores e agredidos. No Chiado, os factos terão decorrido por esta ordem: a Polícia identificou e deteve manifestantes, voaram algumas chávenas de uma esplanada sobre a Polícia, protegida com escudos, capacetes, viseiras, coletes, e a Polícia desatou a espancar quem tinha mais à mão, no caso eram fotojornalistas. Será que o uso do termo "confrontos" é recomendado por algum "argumentário do Governo" para cábula de copistas e de "journalistes policiers", como lhes chamava o autor da canção Elle n'est pas morte? Será que fazia parte das instruções que Portugal recebeu da Grécia para reprimir a greve geral um prontuário de termos e expressões para manipular a opinião pública? Ou será que simplesmente foi reeditada para efeitos de provocação, repressão e manipulação a célebre e distante "revolução dos pregos"?
«DE» de 26 Mar 12

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O que eles fizeram pelas Ciências da Terra

Jean BuridanLink
(circa 1300 - 1360)
Por A. M. Galopim de Carvalho
DE SEU nome latino, Johannes Buridanus, foi um filósofo francês e reitor da Universidade de Paris. Como Aristóteles, acreditava que o mundo existiu perpetuamente e, antecipando-se a Copérnico, colocava o Sol no centro do mundo, lançando, por assim dizer, as sementes da revolução copernicana. (...)
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25.3.12

O bocejo mata o jornalismo

Por Ferreira Fernandes

O PROBLEMA do jornalismo político num congresso do PSD em março de 2012, quando ninguém contesta a liderança do partido, é idêntico ao do jornalismo desportivo em julho, quando já não há campeonato e às manchetes de A Bola só resta gritar: "Vem aí Borongonga!"
Ao voltar do almoço, ontem, Passos Coelho disse aos repórteres: "Deixem-me entrar no congresso", o que, por mais estranho que pareça, queria só dizer que ele queria entrar no congresso. Sem se deixar iludir pela quietude dos propósitos, um repórter pôs-se a esgaravatar e lançou ao homem que só queria entrar: "Quase que disse: deixem-me trabalhar..."
Há dias, Sarkozy lançou a um repórter: "Idiota." Mas isso é França, sem brandos costumes. Daí o repórter de ontem ter insistido: "Sabe quem disse 'deixem-me trabalhar', não sabe?"
É duro ser repórter de congressos pacatos. Mais, só comentador. Pelo menos por cá.
Num país em que os comentadores fossem tão pândegos como um dirigente do PSD que sobe à tribuna e diz que há que passar à fase pós-capitalista - num país em que os comentadores merecessem Alberto João Jardim -, um congresso pacato podia ser interessante. Mas na televisiva mesa redonda para que depois Jardim foi convidado, e onde ele falou da dialética e d'O Banquete, de Platão, ninguém lhe deu para troca Epicteto ou outro filósofo da Antiguidade. Rir-nos-íamos todos. Mas não, falou-se de coisas graves. Se calhar também nos devíamos rir disso, mas dói.
«DN» de 25 Mar 12

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Luz - Jardins do Palais Royal, Paris, 1995

Fotografias de António Barreto- APPh
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Quando em Paris, volto sempre a este palácio e seus jardins. No centro da cidade, bem perto do Louvre, é um sítio de refúgio e calma. A arquitectura é serena, equilibrada e deslumbrante, sem os excessos franceses dos tempos de Luís XIV e seus descendentes. O palácio foi mandado construir por Richelieu nos inícios do século XVII. Foi residência de vários nobres e familiares dos reis (que em geral preferiam o Louvre...), mas foi sobretudo local de animação, de tertúlias e de intriga política. Muitos cafés se instalaram ali, até um dos mais famosos restaurantes de Paris contemporâneo, o Grand Vefour. Dos seus cafés e jardins partiram vários cortejos e marchas revolucionárias em direcção a Versailles ou à Bastilha. Ali se namorou intensamente, a ponto de escritores e poetas se referirem com malícia ou ironia aos costumes vigentes nas suas arcadas e sob as belas árvores.

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24.3.12

Uma Gralha na Varanda - Tiroliroliro

Por Antunes Ferreira

PALAVRA de honra que nem eu queria acreditar, mas acontecera. Conto, sem necessidade de tradução. Se vos custar a acreditar bem podem encolher os ombros; mas, aconteceu e posso assegurar que o espanto foi meu e, obviamente, da Raquel. Esta terra tem preciosidades que nunca poderia imaginar, não fora o caso de as ter visto e ouvido.

O caso nem sequer podia ter sido assinado por Mr. Erle Stanley Garneder, porque não tem mistério, assassínio, muito menos julgamento empolgante, para não falar de Miss Della Street e de Mr. Paul Drake. Desculpem se o escriba se meteu por caminhos ínvios, não pode nem deve deixar-se levar pela imaginação e meter ao barulho romances policiais. Donde, deixe-se o cronista de frioleiras e, por conseguinte, volte-se ao ocorrido.

Tínhamos ido a Pangim para a minha cara-metade fazer umas compras, encontrar umas pulseiras semana (um conjunto de sete aros mas todos separados) destinadas a ofertas, apreçar uns tecidos para o mesmíssimo efeito e mais umas quantas diligências concomitantes. Para tal contava – e contou – com a Dr.ª Ângela, médica, prestimosa esposa do Dr. José Gracias Menezes, igualmente clínico, companheira da Raquel nos sete anos do então Liceu Nacional Afonso de Albuquerque. Ao casal já me referira em textos que escrevera há cinco e há dois anos. Um encanto.

Enquanto as senhoras saíram para shopar (neologismo que acabo de criar, ou seja fazer shopping, estão a ver, obviamente sem ter em conta o Acordo Ortográfico), o Zico e eu ficámos a conversar sobre o nosso Sporting. Perdoe-se o autor, ele crê que já o terá dito, mas o motivo da quiçá repetição é justíssimo: o ilustre hipocrático é um leão de madrugadas a ver os jogos dos nossos que a RTPI transmite. Magnífico cidadão, portanto.

Perguntarão os que ainda fazem o obséquio de seguir estas linhas desconchavadas onde raio é que entra o tiroliroliro do título. Já lá vamos. Tem o repórter de seguir o caminho que entende ser o mais completo possível, e lá se chegará, em tempo. As Donas foram-se atrasando, que nestas coisas de mercas respeitar o decurso do tempo é condição sine qua non. Por isso a charla virou-se para o novo Governo local chefiado pelo Shri Parrikar e para a necessidade de limpar o território. Todas as moedas têm duas faces. Este caso da sanidade pública está a transformar Goa numa lixeira por toda a parte.

Já o escriba neste blogue contou de três coisas menos boas por estas bandas, mas repete-as: a corrupção, as muitas minas ilegais e o lixo. Em paralelo com a enorme diferença entre os muito ricos e os muitos pobres. Há outras, esta terra não é o Paraíso, dizem que já o foi; mas, comparado com o que temos pelo triste e desanimado Portugal que espera pelo casal Ferreira, é ainda uma maravilha. As novas que nos chegam de Lisboa são assustadoras. E PPC até diz que tem sido «o lombo» dos tugas a pagar, mas há que aguentar. Um exemplo do é preciso sofrer cá na terra para se ganhar o céu. Sina danada.

O autor já voltou a descarrilar. Tem de meter os travões a fundo, porque desta maneira desgarrada não conseguirá terminar o escrito. Voltaram as compradoras, acabou a conversa, já era tarde para cá, rondavam as oito da noite. Vá de tomar um táxi para se voltar a Mapusa. Os 16 quilómetros custam… 350 rupias. Recorde-se que um euro anda à volta das 65. O condutor é um goês bem-disposto, o que, de resto é facílimo de encontrar. Chama-se Ajay. Hindu.

Foi uma viagem muito agradável. O homem falava inglês e fazia comentários com muita graça e oportunos, de resposta pronta na língua. Desde as considerações sobre a política e o descrédito da esmagadora maioria dos que a exercem, até às pontes. Porquê? Porque para ele as do «tempo dos portugueses» são estreitas, mas não caem. Agora, se duram dez anos é uma festa…

Voltam as gargalhadas e o escriba pergunta-lhe se sabe alguma coisa de Português. Respondeu: olá, como está? E de seguida, bom dia, boa noite, muito obrigado, Cristiano Ronaldo, Mourinho. O pai era secretário das Finanças, falava a nossa língua, a mãe, não, mas ele, já depois da libertação, muito miúdo aprendera com o progenitor umas palavras e umas frases. E, de repente, disse que se lembrava de uma cantiga: lá em cima… E o cronista respondeu: está o tiroliroliro. Até a música o Ajay sabia. Acabámos em coro com um sonoro: cá em baixo está o tiroliroló, juntaram-se os dois à esquina, a tocar a concertina e a dançar o solidó.

E ele tirou as mãos do volante para fingir que tocava o acordeão. No meio do trânsito louco, nem foi motivo de cagaço, tão-só, de galhofa com imensos decibéis. E foi a Raquel que, do banco de trás, recomendou atenção. A que o dueto não ligou peva.

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A medida por que todos esperávamos

Por Ferreira Fernandes

NA CANÇÃO J'Arrive, Jacques Brel, o homem que mais sentidamente disse palavras, diz aquela que melhor diz: "crisântemo". Ele vai, "de crisântemos em crisântemos", cada vez mais solitário, vendo partir os seus.
Os crisântemos são as flores preferidas dos cemitérios, e eis-nos da canção para a atualidade: a Câmara de Matosinhos quer proibir as flores artificiais nos seus dois cemitérios municipais.
Assistam aos programas televisivos da manhã e vejam a emoção popular que o novo regulamento está a causar. Flores de plástico numa campa, qualquer pessoa de bom gosto o dirá, é feio. Aliás, eu considero de mau gosto enterrar os seus e não mandar vir uma funeral jazz band de Nova Orleães, marcha compassada, tocando When the saints go marching in. Mas, enfim, admito que nem todos possam ter do que as pessoas de bom gosto de todo o mundo, incluindo Matosinhos, naturalmente não prescindem.
Há algum povo que abdica de contratar bandas com clarinetes e tubas e se fica pelos ramos de flores. Como já referi, preferencialmente, pelos crisântemos. Sabem porquê? Porque, com as suas pétalas finas, são as flores mais duráveis.
O Brel que me perdoe, foi aí, nos chrysanthèmes, que os cemitérios começaram a perder-se. O povo, sabe-se como ele é, vendo a mão estendida, agarrou logo no braço, e, com o argumento do durável, foi para as flores de plástico.
Multe-se, pois, e o bom gosto voltará aos nossos cemitérios habitualmente tão belos.
«DN» de 24 Mar 12

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Negócios EDP-Porto de Lisboa-CML

COM a legenda que em título se lê, o leitor José B. Monteiro enviou-nos algumas fotos. Elas aqui ficam, sem comentários desnecessários.

23.3.12

Tanto repúdio tanta polémica

Por Ferreira Fernandes

ROBERT de Niro, que é americano e está à beira dos 70 - era adolescente e os autocarros do Alabama mandavam os negros para os assentos traseiros -, é casado com uma negra, Grace Hightower. Talvez tudo isso o leve a pensar que é cedo meter o racismo numa gaveta.
Nos tempos da segregação racial, o protesto era a arma adequada; hoje, quase todos nós mais civilizados, uma piada é suficiente. Pensou ele. Há dias, acompanhado por Michelle Obama na recolha de fundos para a campanha eleitoral do Presidente, De Niro lançou no seu discurso: "Callista Gingrich, Karem Santorum, Ann Romney... Vocês acham mesmo que o nosso país está pronto para uma primeira-dama branca? Ainda é cedo, não é?"
As citadas são mulheres dos candidatos republicanos, mas a primeira reação veio da porta-voz da Sr.ª Obama, que achou a piada "desapropriada." Depois, foi o candidato Newt Gingrich que considerou a frase de De Niro "indesculpável e o Presidente devia pedir desculpas".
Enfim, quando satirizava, De Niro dizia, afinal, uma verdade: "ainda é cedo" brincar com isto. Mas felizmente brincou porque permitiu uma interessante piada involuntária de Gingrich (exigir desculpas por algo que se classifica de indesculpável).
Em todo o caso, anote-se o repúdio por uma piada suave, num mundo onde, no Afeganistão, um sargento mata nove crianças e, em França, um terrorista mata três crianças.
Restar ainda indignação para palavras é uma homenagem a elas.
«DN» de 23 Mar 12

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As "últimas" consequências

Por Manuel António Pina

O CDS e o PSD reclamaram ontem na AR o apuramento de "responsabilidades" relacionadas com os contratos do TGV.

O CDS exige "que se vá até às últimas consequências" nesse apuramento, pois "é preciso saber quem, onde e como não protegeu o interesse público, não protegeu as contas públicas".

E, se o CDS disse "mata!", logo o PSD acrescentou "esfola!", num monólogo a dois tipo Dupond & Dupont: nós diríamos mesmo mais, é preciso "começar a responsabilizar quem tão conscientemente lesou o Estado português".

Vê-se enfim uma luz laranja azulada ao fundo do túnel da irresponsabilidade. Talvez, quem sabe?, CDS e PSD vão seguidamente apurar "quem, onde e como não protegeu o interesse público, não protegeu as contas públicas" no caso da venda do BPN ao engº Mira Amaral por 40 milhões, doando-lhe ao mesmo tempo 600 milhões como brinde (mais 303 milhões para o feliz contemplado pagar umas dívidas); ou no negócio dos submarinos do dr. Portas, que custou aos contribuintes algo como 941 milhões; ou ainda no dos sobreiros, que trouxe fama & proveito ao misterioso militante centrista Jacinto Leite Capelo Rego; ou...

E a crónica ficaria aqui até segunda-feira a enumerar negócios não fora, para tanto negócio que "lesou o Estado português", tão curta a vida. Aposta contudo que ir "até às últimas consequências" significa ir até às consequências do último apuramento de responsabilidades, isto é, até consequências nenhumas.
«JN» de 22 Mar 12

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Apontamentos de Lisboa

Estas fotos (de carrinhos do LIDL e do Pingo Doce) documentam uma situação muito comum, pelo menos em Lisboa e arredores. Alguém quer comentar?

Silêncio

Por João Paulo Guerra

A GREVE geral começou com registos de paralisações nos transportes entre os 70 e os 90 por cento, segundo os sindicatos.

O Governo deixou de entrar no leilão das percentagens de paralisação. E compreende-se o silêncio. Mesmo opondo aos sindicatos percentagens de paralisação absurdas, o Governo alimentava uma polémica que perdia: o ridículo mata. E ao assumir a contestação aos dados sindicais sobre a adesão às greves, o Governo identificava-se, aos olhos da população, como a parte contrária daquela causa. Ou seja, como o fautor da pobreza e da exploração, mesmo que em favor de terceiros. A lógica do Governo em matéria de adesão a greves é agora a de deixar os sindicatos a falar sozinhos, o que é um engano.

A actuação do poder político conjuga-se nesse aspecto com a dos meios de comunicação que silenciam e manipulam a informação sobre o mundo do trabalho, em geral, e as lutas laborais, em particular. E em matéria de manipulação estamos conversados quando um jornal de referência publica um texto, ao qual dá a dignidade de notícia, denunciando alegados privilégios de trabalhadores de transportes em dia de greve na CP. A fonte do texto era, nem mais, nem menos, um "relatório interno que funciona como uma espécie de argumentário do Governo de resposta à greve", como explicou o próprio autor da prosa, apoiado pelo director de serviço, em resposta ao Provedor do Leitor do jornal em questão. Acresce que os visados nem sequer foram confrontados com a cábula governamental. De tudo isto nasceu uma prosa que o Provedor considerou "propaganda", que não jornalismo.

Este caso soube-se, por acção de um Provedor do Leitor. Das outras vezes, a manipulação embrulha-se em silêncio. "Silencio, já disse", berrava Bernarda Alba, sinistra personagem de Lorca.
«DE» de 23 Mar 12

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22.3.12

Das rochas sedimentares (41)

Por A. M. Galopim de Carvalho

A MAIOR parte da sílica dissolvida nas águas que atingem os mares e os lagos tem origem na:
- alteração das rochas, em particular, na hidrólise dos silicatos, em especial dos feldspatos. Durante os períodos de biostasia esta alteração é intensa, sendo grande a quantidade de sílica levada pelos rios para os mares e lagos. Apenas uma muito pequena parte provem do quartzo, dada a sua quase insolubilidade nas águas superficiais. (...)

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O que dá fazer textos rapidós...
S não cabem as letras todas...

Pudera...

Por João Paulo Guerra

A DESPESA subiu, as receitas caíram e aí está o défice a triplicar no mês de Fevereiro, por comparação com o mesmo mês do ano passado.

Não tem nada que saber, o que não faltou foi quem avisasse que este seria o efeito desta causa política. E se a política se avalia pelos resultados, então não pode haver política mais errada que aquela que está a ser aplicada pelo Governo PSD/CDS & Associados.

E é uma política errada em todos os sentidos: castiga o povo com a perda de direitos e a pobreza anunciada e não alcança os objectivos que se propõe. Os dados da execução orçamental aí estão para o confirmar. O défice agrava-se, enquanto por outras vias se sabe que igualmente se agrava o endividamento: tomara Portugal conseguir pagar os juros agiotas da dívida, quanto mais a própria dívida que todos os dias cresce.

A queda do défice tem várias parcelas mas a mais previsível é a que resulta da quebra das receitas fiscais. A ganância do IVA a 23 por cento já começou a asfixiar a economia, o mercado interno quebra o contributo para a receita, o empobrecimento da classe média, a falência de sociedades e o desemprego reduzem drasticamente a carga fiscal arrecadada.

Mas alguém estaria à espera de outro resultado? Cada um pode avaliar esta política e chumbá-la como errada. Mas ninguém vai dizer que os governantes não sabem o que fazem ou o que querem. Sabem perfeitamente. Esta política é deliberada. Mais, é premeditada. Mais ainda, foi meticulosamente traçada a régua e esquadro pelos inventores da crise. Está tudo previsto. Tudo, excepto a quantidade de indignação quanto baste para virar tudo isto do avesso, antes que políticos e políticas virem o País definitivamente de pantanas. Essa é contribuição da surpresa para a saída da crise.
«DE» de 22 Mar 12

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O álibi de vulgar canalha

Por Ferreira Fernandes

QUANDO soube que o assassino da scooter estava cercado, Albert Chennouf disse: "Quero saber o que vai dizer esse monstro." Não queria nada. Ele queria era entender a morte do seu filho, paraquedista francês de origem argelina, e para isso não há explicação. Em vez de razões e sentido, Chennouf já ouviu ontem o que o assassino tinha para dizer: conversa barata. Tretas ideológicas.
Antes de ter sido cercado Mohamed Merah, o assassino de Toulouse, comparei-o a Anders Breivik, o assassino norueguês: o mesmo rasto de lobo solitário. Quem desce da moto para abater três crianças equivale àquele que caça adolescentes numa ilha.
Do norueguês conhecíamos os discursos de supremacia branca. Do francês, mesmo antes de ser apanhado, já podíamos esperar igual, dessa área (não matou ele soldados de origem magrebina?) ou de outra (não atacou uma escola judia?)...
Soube-se agora que Merah se diz adepto da guerra islâmica - após percurso de bandideco de rua foi por duas vezes ao Afeganistão. Essas ideologias - racistas ou islâmicas radicais - as democracias podem combater até com pequenos gestos: ontem, o Presidente Sarkozy atravessou a parada do quartel de Montauban, mão na mão com a mãe argelina de um soldado morto. Mais difícil é prever a irrupção de raivosos Breiviks e Merahs. Pelo menos, que eles não nos enganem: nem cavaleiros de causas erradas são, a ideologia que apregoam é simples tapume para o seu gosto de matar.
«DN» de 22 Mar 12

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O feriado do 5 de Outubro e as crenças religiosas

Por C. Barroco Esperança

A SUSPENSÃO do 5 de outubro do calendário dos feriados não pode durar mais do que a atual legislatura. Mesmo um governo de igual cor partidária há de reconhecer que a data é património da História e matriz do nosso regime. Basta a substituição por governantes fiéis ao programa do PSD e à memória de Sá Carneiro e Emídio Guerreiro.
A questão dos feriados no último programa «Prós e Contras» do principal canal público teve, voluntariamente ou não, dois objetivos: desviar as atenções da escalada contra os direitos dos trabalhadores e defender o feriado do 1.º de dezembro, respeitável enquanto memória histórica, tendo o programa terminado ao som do Hino da Restauração, adrede preparado pelo político do CDS, Ribeiro e Castro. Era preferível o Hino Nacional. (...)
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21.3.12

Apontamentos de Lisboa


Aqui fica uma questão - mas apenas relativa à imagem de baixo:
era mesmo necessário pintar a parede?

A servidão e a dignidade

Por Baptista-Bastos

VIVEMOS no interior do medo. O medo deixou de ser um sentimento comum à condição para se transformar numa ideologia e numa arma política. A Inquisição e Salazar deixaram discípulos. Não conseguimos libertar-nos desta fatalidade histórica porque há quem limite as nossas forças e liquide as nossas esperanças. Por outro lado, aceitamos este fardo como um anátema. Reagimos escassamente mas não continuamos as acções contra a afronta. Ver os noticiários das televisões, ler a Imprensa tornou-se um exercício penoso, que conduz à depressão. Parece que o mundo desabou sobre os pobres portugueses. Tudo se enleia para favorecer o nosso infortúnio. Em nada acreditamos: a falsidade, a omissão, a desvergonha atingiram níveis desusados, e ninguém descortina onde está a mentira, e onde se oculta a verdade do que nos dizem.

As informações são um caudal contraditório; e há declarações tão surpreendentes quanto imponderáveis. Mohamed El-Erian, um desses senhores do mundo, que poucos saberiam quem é, assevera que Portugal vai pedir mais dinheiro e segue, cabisbaixo, o caminho da Grécia. Erian, leio no Diário de Notícias, é o presidente do maior fundo de investimento mundial e não costuma utilizar a metáfora nem o epigrama para falar das coisas. Papandreu, grego, socialista, primeiro-ministro até há bem pouco tempo, também não faz reserva em dizer que está aberta a vereda para seguirmos a passada do seu país.

O papão, o medo viscoso, ondulante, assustador é a Grécia. A Grécia, tal Asmodeu, rei dos demónios, é o crepúsculo como alegoria de todas as tragédias. Afastamo-nos, repugnados e receosos do contágio. Temos tudo a ver com a Grécia, mas nada queremos ter a ver com a Grécia. Os gregos são a doença infecciosa, larvar, perigosíssima. Passos Coelho, quando regressa de viagens, proclama logo, pensativo, austero e formal: com a Grécia, nem tomar café. Julgando, talvez, que esta frase corresponde a um optimismo criador.

Vivemos num confuso e absurdo almofariz de dubiedades. Agora, para rematar estes clássicos do assombro, surge Vítor Gaspar, campeão do humorismo involuntário, e assegura, arfante: "No dia 23 de Setembro de 2013 regressaremos aos mercados." Vinha dos Estados Unidos. E tudo indicava que lhe tinham segredado a extraordinária novidade. Ninguém sabe, nem Gaspar esclarece o mistério de tão prodigioso milagre.

O português comum, que sobrevive asfixiado entre o desemprego, o fisco, a multa, a humilhação, o vexame, a fome, a doença, a miséria, os impostos, as taxas moderadoras, a demolição do amor, o divórcio, a emigração, e outra vez a fome, a doença, a miséria, os impostos, esse português desorientado, desgraçado e triste sem remissão - que pode fazer ele?, que pode? Em cada um de nós reside a resposta sobre o compromisso com a honra e a recusa da servidão e da indignidade.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
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«DN» de 21 Mar 12

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Apontamentos de Lisboa


Retrato do assassino de mota

Por Ferreira Fernandes

O NORUEGUÊS maluco parece ter feito filhotes. Agora anda no Sul de França e de scooter. Atira sobre militares, o que começa por lhe dar um ar de anarquista. Mas, afinal, dos militares três são de origem magrebina e um é negro das Antilhas, o que nos coloca, por maioria, na pista antiárabe, ou, mais geral, na pista de tipo que não suporta não-brancos. Depois, houve o assassínio de quatro judeus, dos quais três crianças. Temos o perfil baralhado? Se calhar, não: ele gosta é de matar pessoas. Nos atentados ele andou de scooter Yamaha, modelo TMax 530, disparou com pistola de calibre 11,43 e agiu com intervalos de quatro dias de preparação.
Os especialistas apresentam-nos os assassinos em série com fetichismos que os fazem repetir os artefactos e os modos de agir. Receio que a realidade seja mais simples e já hoje ou daqui a oito dias (e não sexta, como julgamos ser norma neste) alguém vindo de carro e com outro tipo de arma atue em Paris (para onde foi de TGV), dispare, ou mate de outra forma, franceses com antepassados gauleses até há quinta geração.
O que eu quero dizer é que se gosta de emprestar lógicas, justificações e constâncias a quem a única certeza que provou até agora é o gosto absurdo de matar. Provavelmente esta minha teoria não ajuda muito a polícia a prever o próximo golpe, mas pelo menos livra-a de pistas falsas. E, sobretudo, dá o mais perfeito retrato do assassino: ele gosta é de matar.
«DN» de 21 Mar 12

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Bicicletas, motociclos e motos no Reino do Absurdo

Pobre País

Por João Paulo Guerra

CHEGUE ou não chegue a 2015, o Governo dos Drs. Passos Coelho e Paulo Portas já conquistou uma medalha de lata: a política governamental conduzirá Portugal, daqui a três anos, à classificação de país pobre.

Pobre País! Afinal, o destino que estava reservado a Portugal não era o do socialismo da miséria. Era o da miséria do neoliberalismo, mascarado de social-democracia e democracia cristã. E assim, por obra e graça do actual Governo, Portugal - que já seguiu os paradigmas da Irlanda ou da Finlândia - poderá então ombrear com a Roménia ou a Bulgária. Deve constituir um enorme motivo de orgulho para os membros do actual Governo que, lá por volta de 2015, poderão já estar ao abrigo das agruras da sorte, repimpados no bem-bom de um conselho de administração.

Este resultado, previsto pela Ernst & Young, não é um desastre. Corresponde a uma política deliberada, friamente seguida pelo Governo do PSD/CDS, com apoio de Belém mais ou menos disfarçado, mas sempre promulgado, e a cumplicidade do PS. Foram avisados vezes sem conta - até mesmo pelo FMI, pasme-se! - para os resultados da política seguida em Portugal: uma política para arrasar todo e qualquer direito social, destruir emprego, liquidar o poder de compra da classe média, desmantelar o mercado interno, arruinar empresas para as oferecer de bandeja à clientela das privatizações, baixar a produção e a própria receita fiscal e, desde logo, aumentar o défice. Não podia haver nada de mais errado, nefasto e de efeitos mais previsíveis.

Se não fosse o medo, amanhã paravam todos os portugueses agredidos pela política governamental, todos os que recebem menos, pagam mais e têm os seus direitos em vias de extinção, e Portugal parava com eles.
«DE» de 21 mar 12

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20.3.12

Conspiração dentro de casa

Por Manuel António Pina

E SE O SEU frigorífico informasse a Mossad que você faz jejum no Ramadão e a sua dentadura alertasse os serviços secretos iranianos de que só come produtos "kosher"? O Admirável Mundo Novo, o de Huxley e o de Orwell juntos, demorou mais uns anos que o previsto mas parece que finalmente está aí, à nossa porta.

O "Público online", que dá a notícia, chama-lhe Internet das Coisas, anunciando "um mundo em que os electrodomésticos que usamos, as roupas que vestimos, os talheres com que comemos e tudo o resto (...) pode ser localizado, monitorizado e controlado" para passar a espiar-nos.

O director da CIA, David Petraeus, não esconde o entusiasmo: "Na prática, estas tecnologias [designadamente o "cloud computing" ] podem levar a uma rápida integração de dados de sociedades fechadas e permitir uma constante monitorização de praticamente qualquer coisa (...) Os dados estão em todo o lado. Todo e qualquer byte revela informação sobre localização, hábitos e, por extrapolação, intenções e prováveis comportamentos".

Aconselha a prudência que levemos a sério a lei de Murphy segundo a qual, se uma desgraça pode acontecer, o mais certo é que aconteça. Mas até para quem, como eu, já desconfiava da câmara que veio com o computador e do aparelho de TV, é duro ter que passar a olhar de soslaio para a própria roupa interior. É melhor nem imaginar o que a nossa roupa interior terá a dizer sobre nós ao general Petraeus.
«JN» de 20 Mar 12

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Apontamentos de Lisboa

«Dito & Feito»

Por José António Lima

VAI POR AÍ um extraordinário coro de carpideiras, pontuado por múltiplas recriminações e lamentações sobre o teor do prefácio de Cavaco Silva ao livro Roteiros VI, onde faz o balanço do ano político de 2011.

Que o Presidente da República quebrou o consenso político e abriu clivagens desnecessárias. Que fez agora revelações que antes ocultara. Que foi inoportuno, lançando críticas institucionais em pleno exercício do cargo, não esperando por sair de Belém. Que levou a cabo uma vingança pessoal sobre um ex-primeiro-ministro. Que atacou o PS, unindo-o em torno de Sócrates. Que criou instabilidade e promoveu a divisão entre os portugueses. E por aí fora.

Este muro de lamentações foi crescendo e sendo alimentado, ao longo da semana, por um misto de hipocrisia partidária e de opiniões da generalidade dos analistas, que foram na onda politicamente correcta. Vejamos ponto por ponto.

O PRESIDENTE quebrou o consenso e abriu clivagens desnecessárias? Mas já se esqueceu que houve uma gravíssima crise em 2011, que dividiu o país, provocou eleições e um pesado castigo eleitoral da anterior maioria, que deixou Portugal à beira da bancarrota? Cavaco disse agora o que antes ocultara? Só para quem quer passar uma esponja sobre os seus contundentes alertas sobre a governação de Sócrates em Janeiro, Março, Junho ou Novembro de 2010 ou sobre o seu discurso de tomada de posse em Março de 2011. Só devia expressar-se sobre o tema quando saísse de Belém, daqui a quatro longos anos? Então e Mário Soares não fez congressos e comícios em Belém contra a ‘democracia de insucesso’ do então primeiro-ministro Cavaco Silva? E Jorge Sampaio não lançou, ainda em Belém, diagnósticos duríssimos sobre a governação de Santana Lopes? Será que Sampaio uniu o PSD em torno de Santana? Alguém acredita nisso? E alguém acredita que Seguro e o que resta dos socráticos estão agora muito unidos e felizes no PS?

NUM prefácio que é um excelente e ilustrativo retrato político do ano 2011, Cavaco Silva limitou-se a fazer política. Ao seu melhor nível, que é o que se espera de um Presidente da República. Mas, pelos vistos, há quem deseje um Presidente politicamente asséptico, incolor e inodoro. Desenganem-se.
«SOL» de 16 Mar 12

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Tratando as cartolinas por "tu"

Pistas para ler discursos

Por Ferreira Fernandes

ONTEM, Vítor Gaspar disse em Nova Iorque que Portugal volta aos mercados em 23 de setembro de 2013. Do que fala o ministro quando fala de data tão exata e daqui a tanto tempo?
Na semana anterior, a culta revista The New Yorker, no blogue assinado por Amy Davidson, tinha um artigo intitulado "De que falam os Presidentes quando falam de cães". O texto de Davidson dava destaque a Franklin D. Roosevelt e ao seu Fala, um terrier escocês que durante a II Guerra Mundial foi o terceiro personagem mais importante na Casa Branca, depois do Presidente e de Eleanora Roosevelt.
Numa noite de 1944, o democrata Roosevelt proferiu um discurso - que ficaria para a História como o "Discurso de Fala" - contra boatos lançados pelos republicanos. Estes diziam que o Presidente, numa visita aos soldados nas ilhas Aleutas, tinha deixado para trás o cão e mandara um destroyer buscá-lo. Discursou Roosevelt: "Eu e a minha mulher não ligamos a boatos, mas o Fala, sim, liga. A sua alma escocesa não aguentaria que se desperdiçasse assim o dinheiro dos contribuintes..." Roosevelt estava em campanha eleitoral e as gargalhadas que se seguiram mostraram que a mensagem, usando o cão, foi bem recebida.
Ontem, Gaspar, em Nova Iorque, disse que Portugal vai voltar aos mercados a 23 de setembro do ano que vem. Pode parecer alambicada, mas é uma mensagem de otimismo. E é também uma homenagem ao "Discurso de Fala", que foi proferido a 23 de setembro de 1944.
«DN» de 20 Mar 12

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Porta Nova (3)

Por A. M. Galopim de Carvalho

ESTÁ a desaparecer a geração que presenciou o que se procura recordar nesta e noutras curtas crónicas alusivas ao dia-a-dia da cidade de Évora em finais dos anos 30 do século passado, e viu este tipo de aparato abastecedor de gasolina aqui reproduzido na imagem que, felizmente, o Google nos faculta, na sequência de um simples clique. Para informação da geração que nasceu e cresceu a tratar por tu a informática e tudo o que de bom e mau ela nos tem vindo a oferecer, e para satisfação dos sobreviventes da minha, aqui deixo também mais algumas imagens que nos foram familiares. (...)
Texto integral [aqui]

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Estratégia

Por João Paulo Guerra

MÃO AMIGA e sempre atenta fez-me chegar um power point denunciando diversas estratégias de manipulação no qual se regista o seguinte receituário como um dos pontos estratégicos: «Criar uma crise económica para que o povo aceite como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos».

Ora isto parece um retrato de corpo inteiro da chamada crise em Portugal. Com pequenas nuances: em Portugal o povo é mais atreito a aceitar os males que Deus, o governo ou o patrão classificam de necessários, como parte da canga que transporta aos ombros desde os tempos da ditadura, e que só em termos de folclore, e por curtíssimo lapso de tempo, arriou.

Os governos da democracia, que passam a vida a fustigar a herança dos «governos anteriores», deviam prestar uma sentida homenagem ao grande trabalho do «governo anterior» que foi o do Dinossauro Excelentíssimo ao domesticar o povo e submeter a opinião pública à tortura do sono. Para a grande maioria dos portugueses a sua política é o trabalho e a sua atitude na vida é transida de medo e repassada de cautelas.

Nos dias que correm basta ver e comparar como os gregos receberam a austeridade ou como os espanhóis se indignaram. Por cá baixa-se o tom de voz e muda-se rapidamente de conversa quando se fala dos sacrifícios, evita-se o contágio do activista que distribui panfletos, foge-se a sete pés do camarada de trabalho que não se cala e não se rende. Os que levantam a voz e mantêm direita a cerviz constituem uma minoria. A maioria é silenciosa. E no silêncio caberá alguma indignação mas acima de tudo muito medo.

«O medo vai ter tudo», insiste O'Neill e repito eu: «milagres // cortejos // frases corajosas // conferências várias // congressos muitos // óptimos empregos».
«DE» de 20 Mar 12

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