30.4.12

Vítor Gaspar: "Onze é de mais!"

Por Ferreira Fernandes
SOMOS um país de coletividades onde a mais sintomática, sendo grupo excursionista, se chama "Vai Tu". 
Então, temos um campeonato - onde há um Leiria sem dinheiro para mandar cantar onze cegos - que quer aumentar os clubes de 16 para 18, já para o ano. Faz sentido. Assim, em vez de vermos um sindicalista desconhecido, cercado do que nos parecem ser arrumadores de automóveis, para o ano teremos uma conferência de imprensa com os líderes das centrais sindicais, ladeados pelo Hulk e o Luisão. Não pagos. 
Há que nivelar Portugal pela relva: o que é a tática para o resto do País que seja também para o futebol. Há que multiplicar o que aconteceu ontem no estádio da Marinha Grande (Leiria-Feirense). O Leiria entrou com oito jogadores em campo, jogou num esquema esquisito e só perdeu por quatro. 
Com uns meses de prática, os esquemas dos clubes portugueses falidos (4-3-0, 5-2-0, 7-0-0...) podem vir a baralhar os campos da Europa. Por exemplo, num futuro Real Madrid-FC Porto, Mourinho manda marcar o Hulk e o Pepe fica nervoso por defrontar uma ausência. Ora, o Pepe, nervoso, comete penáltis infantis... 
Outra tática: sendo o mínimo de jogadores sete (ontem o Leiria já foi perdulário), sete futebolistas garantem um empate a zero se forem largos e bem distribuídos entre os postes e a trave. 
Portugal, que já inova na economia fazendo um país sem trabalhadores nem trabalho, pode fazer o mesmo no futebol, cortando o excesso de jogadores. 
«DN» de 30 Abr 12

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Um Estado policial?

Por Manuel António Pina 
VÊM-SE acumulando nos tempos mais recentes sinais inquietantes de que, aproveitando o vazio de autoridade do MAI, a PSP está a tornar-se uma espécie de Estado (policial) dentro do Estado. Depois da ilegal utilização de agentes provocadores infiltrados e do espancamento, que começa a ser rotineiro, de cidadãos que exercem o seu direito de manifestação ou de jornalistas que cumprem o seu direito-dever de informar, ainda há dias foi, não o ministro, mas um operacional da PSP quem veio ameaçadoramente anunciar "tolerância zero" no 25 de Abril, isto é, tolerância zero "com" o 25 de Abril.
Agora, a propósito da constituição como arguida de uma jovem do Movimento Sem Emprego que, com outros três desempregados, distribuía no Dia Mundial do Desempregado panfletos à porta de um Centro de Emprego de Lisboa, revelou a porta-voz da PSP que, para esta polícia, "duas pessoas já fazem uma manifestação". (Ora como, segundo a PSP, seriam oito, e não quatro, os activistas que distribuíram panfletos, terá havido à porta do Centro de Emprego, não uma, mas... quatro manifestações de duas pessoas).
A Constituição (art.º 45.º) determina que "os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização" e que "a todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação".
Mas parece que "a PSP não tem de justificar a sua actuação"...
«JN» de 30 Abr 12

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Feira do Livro - III

anos que este placard (sinalizando um simpático restaurante existente ao cimo do Parque Eduardo VII, em Lisboa) está assim. Será por se situar junto à feira do livro que não acertam com a "feira" em que ele encerra? 
(Nem sequer com o acento no "A"!)

Liberdade

Por João Paulo Guerra
DE CADA vez que se celebra em Portugal a instauração da democracia ocorre-me um episódio, ocorrido às primeiras horas da manhã de 25 de Abril de 1974, no Terreiro do Paço, em Lisboa. Foi quando um jornalista, já então sénior, perguntou a um jovem capitão se podia citar os objetivos da operação militar em curso que o oficial enunciava para o pessoal da chamada comunicação social. O jovem capitão respondeu-lhe que era também para que ele e os outros jornalistas pudessem escrever livremente o que bem entendiam e o que testemunhavam que os militares ali estavam, dispostos a derrubar o governo da censura e de outras coisas igualmente odiosas.
O capitão chamava-se Maia, Fernando José Salgueiro Maia, tinha 29 anos, e era naquela manhã a face mais visível da revolução em curso. Tempos depois viemos a saber que o oficial era também um dos mais puros e generosos dos capitães de Abril: naquele dia fez o que tinha a fazer, depois regressou ao quartel, em Santarém, morreu 18 anos depois no posto de tenente-coronel, sem honrarias nem benesses do Estado, após um exílio nos Açores e de uma passagem pelo comando do Museu da Escola Prática de Cavalaria. O poder político e a hierarquia não o queriam a comandar tropas pois tornara-se suspeito de ter feito o 25 de Abril.
Mas a liberdade de imprensa ficou. E foi em liberdade que escrevi nos últimos 15 anos no Diário Económico, como editor, grande repórter, redator principal, comentador e autor das cerca de 2.700 crónicas da Coluna Vertebral, 12 anos e sete meses de publicação ininterrupta, desde Outubro de 1999. A Coluna Vertebral chegou agora ao fim. Não é o fim da linha. Apenas a denúncia de um contrato por uma das partes. Liberdade sempre.
«DE» de 30 Abr 12

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29.4.12

Feira do Livro - II

HÁ LIVREIROS que, quando os livros que expõem têm de ficar  na vertical, têm o cuidado de colocar todas as lombadas com os textos virados para o lado do cliente (imagem de cima).
Parece um procedimento óbvio, mas se calhar não é, pois em boa parte dos stands os livros estão postos "como calha". Assim, e em termos estatísticos, 50% dos textos aparecem "de pernas para o ar" (imagem de baixo)...

Actualização: sucede um problema semelhante com os títulos em que é preciso torcer o pescoço - ora para a esquerda, ora para a direita... - Ver [aqui].

Luz - Matança de porco, Estremoz, 1979

Fotografias de António Barreto- APPh

 Clicar na imagem, para a ampliar
As principais operações estão terminadas. O animal está cortado e desfeito. Cada um dos participantes fica com o seu quinhão ou encarrega-se de arranjar uma parte.

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O juiz que merecia não ficar incógnito

Por Ferreira Fernandes
SE QUERES ser famoso, filho, inscreve-te no Ídolos. Mas o Fulano foi para juiz e agora como vou eu saber como se chama Fulano? Esse, o que assinou a medida política (política, isto é, que trata da saúde da Polis, da cidade, dos cidadãos) mais justa desde que chegou a crise. Pronto, fica Fulano, o juiz estagiário de Portalegre, sem foto. 
Então que fez de notável o meritíssimo, superlativo por uma vez merecido, Fulano, de Portalegre? Desfez uma iniquidade. 
Enquadremos o assunto, bastante comum nos tempos recentes em que não faltava dinheiro, bastava pedi-lo. 
Para comprar casa, uma família ia ao banco para um empréstimo e o banco avaliava a casa o mais alto possível para a família ser ousada a pedir. Mas as mãos largas mirraram e a crise deu nisto: as pessoas deixaram de poder pagar o empréstimo. Todos os dias, 25 casas são entregues aos bancos. Não podiam pagar a casa e ficam sem ela, paciência... Mas é mais que isso: ficam sem a casa e continuam a pagar ao banco. É que o banco, nestes tempos murchos, avalia a casa, e fica com ela, por preço bem mais baixo do que quando, nos tempos eufóricos, a avaliara da primeira vez. Já arrasadas, como fica quem perde a casa, as famílias são esmifradas até à indecência. 
O juiz Fulano, que julgava um caso desses, foi salomónico: a família, que apostou mal, fica sem a casa; e o banco, que também apostou mal, fica com a casa e só. 
Dizem que pode fazer doutrina. Eu digo que só pode. 
«DN» de 29 Abr 12

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PORTA NOVA (6) - Torradas com Toucinho

Por A. M. Galopim de Carvalho
PROVAVELMENTE já havia torradeiras eléctricas, mas nós ainda as não conhecíamos, e a manteiga de vaca era um dos muitos produtos tornados raros e caros com o desenrolar da 2ª Guerra Mundial. O pão, felizmente, nunca nos faltou. Quando não havia no padeiro, íamos buscá-lo à Manutenção Militar, recurso a que tínhamos acesso, uma vez que o nosso pai era um reformado da Marinha, de onde tinha saído em 1917, por motivo de doença, no posto de 2.º grumete. (...)  
Texto integral [aqui]

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28.4.12

A Europa acaba na próxima terça

Por Ferreira Fernandes
LEMBRAM-SE da Europa? A da livre circulação, que começou por ser do carvão e do aço, só para seis, e agora é para tudo e para 27? A dos 500 milhões de europeus que podem passear-se sem fronteiras? Vai acabar no próximo dia 1 de maio. 
Há pequeninas coisas estruturais que, mudando, fazem o edifício cair. Suponham que um lisboeta, em Huelva, pede uma dose de presunto de pata negra. "Usted es português, verdad?", e depois da confirmação, leva com a nega: "El jamón es para españoles!" Não pode ser? Pois é o quer vai suceder, mudando o que há para mudar, na Holanda, no fatídico dia 1. Quem entre num coffee shop holandês e peça a especialidade da casa, começa por ter de se identificar: cidadão nacional? Se for estrangeiro não tem direito a ser servido. É verdade que as coffee shops de Amesterdão, ao contrário do que o nome sugere, não vendem bicas. Lá, o aroma é mais de erva, charros, haxixe. Até agora, casas de porta aberta (há mesmo uma cadeia de lojas, a Kandinsky), onde qualquer cliente, logo que maior, tem direito aos seus cinco gramas. Mas os tribunais decidiram: a partir do 1.º de maio, o cliente tem de ser holandês. 
A questão é: a Europa vai engolir esta medida ou só inalar? Não está em causa o haxixe, mas o princípio. Se os holandeses podem guardar só para si o melhor que têm, por que razão não ficamos com a exclusividade da sericaia? E, por maioria de razão, os croatas não proíbem as croatas de se casar com outros europeus? 
«D» de 28 Abr 12

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Feira do Livro - I

TODOS os anos, aquando da Feira do Livro de Lisboa, aqui se afixam imagens destas. Lembram-se do que é que está em causa?
.
Actualização: como se vê pelo link indicado no 2.º comentário, o que está em causa é o acesso às prateleiras do lado do Marquês de Pombal: quando os stands não colocam os necessários degraus, só as pessoas mais altas conseguem ver o que está para venda - e, mesmo assim, com grande dificuldade. Tratando-se de livros infantis, então a conclusão a tirar é que o livreiro "não deve querer vender"...

Asneiras a esmo

Por Antunes Ferreira
A DESFAÇATEZ, a criancice e a ignorância são qualidades que permitem aos mais ineptos bolsarem sentenças de que nem sabem muito bem qual é o significado. É triste, mas é assim. São os casos em que contrariando o ditado, quem abre a boca nem sequer a mosca tenta entrar, tamanha é a asneira que não permite qualquer veleidade ao inseto. 
 O autor de tais barbaridades é também arrogante, porque se crê, porque está certo de ser o detentor da Verdade. Porém, recordo, está quase a fazer um século sobre a data em que Luigi Pirandello publicou a sua obra mais conhecida: Para cada um a sua verdade. Donde, o que se julga o único que possui a verdade comete, por certo, um dislate e um pecado: não leu Pirandello e atenta contra o Deus, qualquer Deus que, esse sim - de acordo com os seus apaniguados – é o verdadeiro eterno. Ou seja não diz mentiras nem permite que as digam. Mas isso é para quem acredita que ele existe.
Quando alguém emite um comentário, faz uma afirmação, brinda quem o ouve com uma calinada, assume que o fez porque esse dislate é absolutamente indiscutível. É uma convicção falaciosa, mas a ousadia de quem abandonou há pouco as fraldas e a chupeta é, normalmente, a mãe da baboseira. E pior se torna, quando a burrice é apoiada, louvada e repetida pela corte que aplaude o autor, normalmente o chefe do bando.
A sandice é, assim, maior ainda – se tal é possível – quando parte de alguém que se considera um líder. Argumenta-se que se trata para além da burrice, falta de preparação para o cargo que desempenha.
Num segundo, a catástrofe desencadeia-se, o tsunami varre tudo em redor, a estupidez instala-se por entre as cinzas e as ruínas que restaram. Um cataclismo oral chega a ser pior do que o de origem tectónica. 
Dito isto, a patacoada do primeiro-ministro a propósito das ausências nas cerimónias oficiais do 25 de Abril no Parlamento. Disse Coelho que está «habituado a que algumas figuras políticas queiram assumir protagonismo em datas especiais». E acrescentou que tinha pena que «figuras históricas» como Soares e Alegre tivessem decidido faltar às comemorações do «Dia da Liberdade», numa altura em que Portugal «vive um regime menos livre do que devia», por «ter tido necessidade de assumir a sua falência interna na gestão das suas finanças públicas», e está a tentar recuperar a sua «completa liberdade» face ao exterior. 
Quem é PPC para falar sobre «figuras históricas»? Onde estava o atual chefe do Governo quando Soares e Alegre se batiam pela Liberdade nos tempos salazaristas? Ainda não estava. E no 25 de Abril? Tinha dez aninhos. E por que bulas Portugal «vive um regime menos livre do que devia»? Porque teve necessidade «de assumir a sua falência interna na gestão das suas finanças públicas. O Amigo Banana não diria melhor. O Amigo Banana não diria tantas asneiras.

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Museu do Quartzo - Inauguração

Por C. Medina Ribeiro

VAI TER lugar no próximo dia 30, 2ª feira, pelas 21,00 horas, a cerimónia de abertura deste invulgar museu, concebido e construído junto à escarpa da pedreira de quartzo abandonada, no Monte de Santa Luzia, em Viseu. Numa estreita colaboração da Câmara Municipal de Viseu e do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, esta interessante realização, de notável interesse pedagógico, visa realçar as inúmeras variedades e o sem número das suas aplicações nas ciências da Terra, nas tecnologias mais variadas e na arte, nomeadamente na joalharia.
Concebido para, numa primeira fase, de âmbito local, servir as escolas da região e divulgar conhecimentos entre o cidadão comum, o Museu do Quartzo reunirá uma representação significativa de exemplares desta espécie mineral (e suas variedades) e das suas múltiplas aplicações industriais e artísticas, a par de equipamentos interactivos adequados e de oficinas pedagógicas. A médio prazo, numa segunda fase, de âmbito nacional, aspira-se a uma colaboração activa com as universidades e as empresas interessadas no quartzo como matéria-prima nas mais variadas tecnologias. Na eventualidade de previsível sucesso deste embrião do saber, e se as entidades competentes (a Autarquia e/ou o Poder Central) assim o entenderem e apoiarem, o Museu do Quartzo poderá e deverá evoluir para um Centro de Investigação Científica e Tecnológica em torno desta temática, a nível internacional, domínio amplamente justificável e, por si só, susceptível de atrair patrocínios por parte de grandes empresas interessadas nesta investigação.
Por decisão camarária este museu vai ter o nome de Galopim de Carvalho, o autor do projecto (galardoado com o Prémio Nacional do Ambiente–Autarquias, em 1997), no qual trabalhou ao longo de quase duas décadas.
PARABÉNS, pois, Professor Galopim!

27.4.12

Os que nos representam

Por Manuel António Pina
A TVI24 teve a perplexa ideia de, na cerimónia da AR comemorativa do 25 de Abril, se pôr fazer perguntas sobre a democracia portuguesa a deputados das diferentes bancadas.
Uma despachada deputada do PSD, perguntada sobre quem foi o primeiro primeiro-ministro pós-Revolução, o mais que conseguiu dizer, no meio de muitos risinhos, foi qualquer coisa como: "Oh, valha-me Deus... Não me faça essa pergunta que estou muito enervada hoje de manhã, acabei de tentar descobrir onde arranjava um cravo...". Outro optou por mudar de assunto (pela pesporrente amostra, não tardará a chegar a secretário de Estado de qualquer coisa): "Eu... acho que o mais importante é... é garantir que estamos a comemorar o Dia da Liberdade".
À esquerda, igual panorama. Uma deputada do PCP, convicta: "Vasco Gonçalves!". E outro, do BE (?): "Está-me a apanhar desprevenido, mas... hum... aquele que mais me marcou foi... Vasco Lourenço".
Entre os entrevistados, apenas Michael Seufert, do CDS, conhecia, honra lhe seja feita, tanto o nome do último presidente do Conselho do regime deposto como o primeiro primeiro-ministro da era democrática.
Já vi escrito, com razão, que idêntico inquérito na maioria das redacções de jornais e TVs não daria resultados diferentes. Só que os jornalistas só se representam a si mesmos (ou nem isso...) e esta gente senta-se num órgão de soberania da democracia representativa. Quem representará é que não se sabe.
«JN» de 27 Abr 12

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Bons sentimentos e boa informação

Por Ferreira Fernandes
POIS, então, Miguel Portas era filho de e irmão de. E foi também um político cordato. É bom saber que tinha família notável e que a convicção não obriga à antipatia. Na hora dos obituários - generosa, por tradição - cai bem que se diga bem. Porém, eu, que não privei com Miguel Portas, gostaria de ler coisas mais substantivas. Os jornais não deram e admiti que não as houvesse. Ter passado pelo PCP e fundado o Bloco de Esquerda não é necessariamente uma medalha. Já estava conformado em sair com pouco deste acontecimento, apesar do extraordinário relevo que lhe foi dado, quando me dei conta de um vídeo, que se tornou viral (não era só eu a querer factos...): "Não consigo compreender como um eurodeputado no dia em que viaja pode receber 300 euros em ajudas de custo, mais o subsídio de distância e mais um subsídio de tempo...", protestava o eurodeputado Miguel Portas, cordato (mas não foi só isso que anotei), no Parlamento Europeu, em fevereiro de 2010, já em tempo de crise, onde se acabava de votar aumento para os eurodeputados. "Temos a obrigação de dar o exemplo e hoje demos um mau exemplo", concluiu ele. Discurso bonito mas isolado? 
Ontem, escrevia um correspondente em Bruxelas: "Ele foi o mais ativo na luta contra os privilégios desmesurados dos seus colegas deputados." E alinhava vários exemplos. Ontem, foi pelo texto desse jornalista de um jornal estrangeiro, El Mundo, que eu confirmei a dimensão pública de Miguel Portas. 
«DN» de 27 Abr 12

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Apontamentos de Lisboa

Alguém sabe como é que o carro com a matrícula 17-IX-67 saiu do seu lugar de estacionamento reservado?
(Até logo, em "actualização")
.
Actualização

Antes de se saber como é que o 17-IX-67 sai dali, será preciso saber como é que vai entrar...
(Esta situação é a habitual neste lugar, com carros variados)

Cravos

Por João Paulo Guerra
HÁ 38 anos, o 25 de Abril foi o dia das surpresas, como tal profetizado num poema de José Saramago musicado e cantado por Manuel Freire. E foi assim que, de então para cá, de surpresa em surpresa, os portugueses se terão surpreendido agora ao verem os ministros do actual Governo, de cravo vermelho ao peito, na enfadonha sessão do Parlamento no dia 25.
Observando aquela cariofilácea bancada governamental, os portugueses terão concluído que os cravos, como a democracia, andam com más companhias por muito duvidosas lapelas. Um cravo pelos cortes e congelamentos de salários? Outro cravo pelos cortes dos subsídios de Natal e de férias? Mais um cravo pelos cortes nas reformas? E outro cravo ainda pelo corte de outros subsídios sociais, como seja o abono de família? Um ramo de cravos pela facilidade nos despedimentos, pelo desemprego, pelo corte nos subsídios de desemprego? Cravos e mais cravos pela liquidação do SNS e pela ruína da Segurança Social? Cravos pelo aumento sem travão dos impostos? E ainda uma plantação de cravos pela hipoteca da independência nacional e da soberania do povo?
Nada disso, a menos que à socapa o Fisco tenha penhorado o cravo, ou que os cravos em exibição em São Bento sejam do jardim de frau Angela Merkel ou do horto privativo de Nicholas Sarkozy, ou ainda de importação dos países que já mandam mais em Portugal que as instituições e os cidadãos portugueses. Mas o mais provável é que haja aqui um pequeno equívoco semântico ou um pequeno lapso ortográfico.
Porque em verdade este não é um Governo de cravos mas uma companhia de cravas, tantas e tais são as maneiras e vias que o Executivo descobriu e aplicou para ir aos bolsos dos cidadãos.
«DE» de 27 Abr 12

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26.4.12

Das rochas sedimentares (50)

Por A. M. Galopim de Carvalho
PARA além dos dois tipos fundamentais de rochas ferríferas, as ferrochérticas do Pré-câmbrico e os ferrólitos do Fanerozóico, devem ser incluídos nesta classe os nódulos de siderite, o ferro dos pântanos, as areias verdes, as areias negras, de tipo placer e, finalmente, os lateritos, formações que, em certos casos, têm sido utilizados como minérios de ferro. (...) 
Texto integral [aqui]

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Olhos secos para ver o que é bom

Por Ferreira Fernandes
ESTA semana, o duelo aqui do lado, por adversários interpostos, contra o Chelsea e o Bayern, sublinhou dois futebóis. Ao fim do duelo, sabe-se, morreram os dois. Eu sei que os adeptos de um ou de outro, culés e merengues, depois de curadas as mágoas próprias, acabarão com mais desdém pelo outro. 
Numa noite de 1965, eu estava pela primeira vez no Estádio da Luz. O Manchester United veio ganhar 5-1 e, à minha volta, chorava-se e rasgavam-se cartões de sócio. Eu guardei os olhos secos e vi o nascimento de uma estrela, George Best. Desde aí fiquei-me agradecido por saber, apesar da cor preferida, olhar para um campo inteiro (não foi lição que me tivesse ficado só para o futebol). Eis o que me permite sair do duelo desta semana ganhando com ele. Barcelona e Real Madrid, um, contemplação, outro, emoção. 
Vermeer a pôr uma pérola num brinco, Goya a fuzilar numa colina. Luchino Visconti, lento como a cara de um pescador siciliano, Fellini, excessivo como um par de mamas na Emilia-Romagna. Santa Teresa de Ávila, mística, São Jorge com a lança na goela do dragão. 
Porque excluir, quando posso juntar? Vejo dois, Messi tecendo, Cristiano Ronaldo explodindo, e não me arrependo de querer ver os dois. Ainda bem que o posso dizer com os dois por terra, para que se saiba que é um gosto e não uma moda. 
Barcelona e Real Madrid perderam? Pois eu ganhei com eles. 
«DN» de 26 Abr 12

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Álvaro "Lagaffe"

Por Manuel António Pina
A MINHA infinita simpatia pelo ministro Álvaro resulta de ele ser um azarado. Dir-se-ia que todas as forças do Universo se conjugam obstinadamente contra ele. Estivessem atentos os nossos autores de BD e já teríamos um Gaston Lagaffe à portuguesa.
O seu primeiro azar (conhecido) foi alguém ter dito a Passos Coelho quando este se preparava para formar Governo: "E se convidássemos para ministro da Economia aquele 'blogger' que faz uns "posts" muito giros e até escreveu um romance às cores?". O segundo foi ter aceitado o convite.
Daí para cá têm sido só azares, desastres e coincidências infelizes, do "cluster" dos pastéis de nata àquele seu secretário de Estado que julgava que o memorando da "troika" era para cumprir ou à feliz ideia do comboio de bitola europeia de Sines até França (é preciso ter azar: a Espanha tem bitola ibérica e o animoso comboio teria que levantar voo em Badajoz e só voltar a aterrar para lá dos Pirenéus). Até a "semper fidelis" UGT ameaçou há dias rasgar-lhe a sua obra do regime, desta vez um romance a preto e branco, dito Acordo de Concertação Social!
Agora que vivazmente se preparava para argumentar com a média europeia para reduzir ainda mais o valor das indemnizações por despedimento, veio o Eurostat lembrar-lhe que os custos do trabalho em Portugal já vão em menos de metade da média europeia e nem assim os seus queridos empresários são mais "competitivos". Eu ia à bruxa. 
«JN» de 26 Abr 12

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Brigada


Por João Paulo Guerra
UM DEPUTADO, a respeito do qual a opinião pública não terá razões para ter fixado o nome, referiu-se aos militares que fizeram o 25 de Abril apodando-os de “brigada do reumático”. Há a possibilidade de o deputado ser absolutamente ignorante - nenhuma lei o impede - e não saber que "brigada do reumático" foi a designação dada aos oficiais superiores que, por oposição aos militares que preparavam o 25 de Abril, beijaram a mão e engraxaram as botas do fascismo quando este agonizava, situação que eles não conheciam nem previam. Ou então, há a hipótese do deputado ser desprovido das mais elementares regras de educação e civismo.
Mas esta falta de consideração pelos fundadores da democracia portuguesa pode querer dizer mais alguma coisa. Pode significar, por exemplo, que o deputado em questão quer com esta grosseria dizer que o 25 de Abril não lhe diz nada e que sem a revolução de Abril estaria hoje bem instalado na vida social, na política e à mesa do Orçamento. Poderia ter descido das berças para se assumir como um imperturbável deputado da União Nacional, um taciturno secretário ou subsecretário de Estado do poder central, um indiferente chefe de brigada da polícia, um silente oficial da censura, enfim oportunidades não lhe faltariam. O 25 de Abril é que lhe afastou tais oportunidades do caminho.
Apesar da coloração maioritária do Parlamento não haverá muitos pares do parlamentar capazes de partilhar a galegada através da qual o praticamente desconhecido deputado quis ganhar um pouco de notoriedade. Mas a verdade é que há na casta política portuguesa alguns espécimes que parecem ter vergonha do 25 de Abril. Quando, em boa verdade, o 25 de Abril é que tem todas as razões para se envergonhar deles.
«DE» de 26 Abr 12

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Viva o 25 de Abril. Sempre.

Por C. Barroco Esperança

HÁ QUEM, antes, não tivesse precisado de partido, quem não sentisse a falta da liberdade, quem se desse bem a viver de joelhos e a viajar de rastos.
Houve cúmplices da ditadura, bufos e torturadores, quem sentisse medo, quem estivesse desesperado, quem visse morrer na guerra os filhos e nas prisões os irmãos, e se calasse. Houve quem resistisse e gritasse. E quem foi calado a tiro ou nas prisões.
Uns pagaram com a liberdade e a vida a revolta que sentiram, outros governaram a vida com a vergonha que calaram. Houve quem visse apodrecer o regime e quisesse a glória de exibir o cadáver e a glória da libertação. Viram-se frustrados por um punhado de capitães sem medo, por uma plêiade de heróis que arriscaram tudo para que todos pudéssemos agarrar o futuro. (...)
Texto integral [aqui]

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25.4.12

Lisboa - Sta. Apolónia
21 Abr 12 - 17h
DIZ-SE que «Quem pode o mais pode o menos». Não sei se será verdade; em Lisboa, mais depressa se faz um terminal de cruzeiros do que se encara a sério o problema dos sem-abrigo - mesmo os que "moram" ali ao pé - e não são poucos.

Soares com fogo ao peito

Por Ferreira Fernandes
MÁRIO Soares não vai estar hoje no Parlamento. É atitude errada e é atitude bonita. Esta parece-me a mais importante. Aos 87 anos dizer "sei que não vou por aí" - mesmo, como dizia José Régio dois versos antes, manifestamente estando também no "não sei por onde vou/ não sei para onde vou" - vale mais do que as baratas encolhidas e assustadas em que nos tornamos todos. 
O susto sendo geral, haja um velho, grande e respeitável que diga qualquer coisa, seja até um simples "não". Soares não o diz para fazer prova de vida, não precisa, ele diz porque é daqueles (a história pessoal convenceu-o disso) que sabem que há momentos em que, mesmo sem soluções, o gesto é preferível à modorra e a palavra ao calar. 
Sendo este ano tão triste e cinzento, Mário Soares decidiu não ir às comemorações oficiais e pôr um sinal de fogo ao peito para fazer contraste com o pano de fundo de cravos murchos à lapela. Bonito, disse-o lá atrás, e repito. Mas (e esta adversativa é menor do que o meu aplauso) a atitude de Soares é errada. 
O "não" de Soares, por si só, é fulgurante. O problema é com quem ele não vai por aí... Encostado à Associação 25 de Abril (ele justificou a não ida ao Parlamento por solidariedade com ela), Soares fica misturado com as tolices dos passadores de certificados de democracia em que alguns velhos capitães se tornaram. O que é infeliz porque o contributo maior que Soares nos deu foi ter tornado de todos o 25 de Abril. 
«DN» de 25 Abr 12

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Para lá do arco-íris

Por Baptista-Bastos
DOBRO os olhos para antigamente, há trinta e oito anos, ontem, e não me reconheço nem àqueles rostos luminosos, a esperança à solta, o mundo e a vida tinham as nossas idades. Nada nos prende àquilo; tudo nos prende àquilo. Somos nós e não o somos. "Acabou a tua festa, pá!", cantou o Chico Buarque. Sobrou alguma coisa? Sobraram estes rostos desencantados, esta esperança cheia de ausências, este mundo velho e tonto. Mas ainda estamos aqui. Para o que der e vier.
As coisas não correram muito bem. As nossas ambições iam para lá do arco-íris. E pensávamos ter conquistado as extensões exemplares da felicidade ininterrupta. Não porque a Providência tivesse partilhado com todos o dom do sonho, mas porque assim pensávamos. A nossa exultação comprometia toda a gente? Nem toda; nós julgávamos que sim. Avaliámos mal a importância da alegria sentida, e talvez por isso o despertar e as consequências desse despertar tivessem a configuração de um pesadelo. Mas não sejas parco a pedir: tenta, sempre e sempre, atingir o inatingível.
Pessoalmente, embora magoado e ferido, nunca deixei de acreditar que a História caminha no sentido da libertação do homem, e que a esperança é capaz de ter sempre razão. A esperança não como uma questão de fé, sim como fisionomia da paixão. A esperança como uma ideologia, não como um dogma.
Há dias ouvi, rtp-1, o prof. João Lobo Antunes, num admirável diálogo com o bispo do Porto, comentar que os assassinos da esperança deveriam ser punidos. A esperança é a consciência de que as coisas estão ao nosso alcance; basta querermo-las, mas é preciso quere-las. Talvez, digo eu, esses assassinos tenham cometido o pior de todos os pecados: a degradação do eterno no que o eterno possui de mais temporal e de mais humano.
Claro que não nos reconhecemos naqueles rostos, então luminosos. Porém, a nossa alma, essa, ainda está lá, nesse vácuo e nesse resumo. E onde está a alma desta gente que nos governa e que nada a demove, desconhecedora da singularidade de cada qual, penetrada pelo mito da perenidade e pela imutabilidade das suas próprias decisões - onde está? Não perderam a grandeza: nunca a tiveram.
Há trinta e oito anos que me esperava, que nos esperava? As horas loucas de meses proliferantes; uma verdade que deixara de nos ser negada. Durou pouco; todavia, não fomos derrotados, nem estes que tais são vencedores: transeuntes, somente transeuntes. Éramos os protagonistas de uma história à altura do homem, e o homem dispunha de uma densidade criadora revalorizada a cada instante, em cada protesto, em cada acto. O nosso estado actual, acaso triste e até nefasto, é interregno para outra etapa do movimento. Já o escrevi. Repito-o: não há conquista sem luta nem luta sem sofrimento. Muitas vezes, um simples sinal, modesto, escasso vale uma vida.
E aqui estamos.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.
«DN» de 25 Abr 12

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38 anos depois

Por A. M. Galopim de Carvalho

TENHA-SE ou não simpatia pelas ideias do Bloco de Esquerda, o falecimento de Miguel Portas, ocorrido poucas horas antes de se completarem 38 anos sobre “aquela madrugada”, representa uma perda importante nesta fase da vida democrática, não só de Portugal mas também da Europa, ameaçada por um inimigo sem rosto.
O diálogo ficcionado que entendi escrever no meu post de hoje, dia 25 de Abril de 2012, é a minha homenagem a um homem que não conheci pessoalmente, mas que, como cidadão que me afirmo independente dos aparelhos partidários e interventor cívico activo, escutei e li com atenção e respeito. (...)
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24.4.12

A guardiã da casa

Por Alice Vieira

DE VEZ em quando tenho mesmo de arrumar livros.
É trabalho difícil e moroso porque, mesmo que à partida eu pense “vou só arrumar as estantes da entrada”, pego num livro, olho para ele e digo cá para mim, “os deste autor estão todos na estante da sala”- e lá vou eu com ele para a estante da sala mas, para o conseguir encaixar, tenho de desalojar para aí uns dez, e onde é que há lugar para eles? Se calhar só na estante do corredor – e, de repente, dou comigo com os livros das estantes da entrada e da estante da sala e da estante do corredor todos no chão, e eu no meio sem saber para onde me virar. (...)
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Das rochas sedimentares (49)

Por A. M. Galopim de Carvalho

É CONSENSUAL a existência, ao longo do Pré-câmbrico, de uma atmosfera primitiva muito pobre em oxigénio e, pelo contrário, rica em dióxido de carbono, causador de chuvas ácidas e, portanto, de águas oceânicas com valores de pH baixos. Um tal ambiente terá determinado um comportamento geoquímico do ferro diferente do actual. Estas condições globais eram favoráveis à solubilização do ferro, na sequência da meteorização anóxica e ácida de então e ao transporte para os oceanos de grandes quantidades de ferro ferroso, solúvel.(...)
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A Escola Pública

Por Maria Filomena Mónica 
ACABAMOS sempre por voltar ao local do crime. Em 1977, terminei uma tese sobre a escola durante os primeiros anos do Salazarismo. Como me aconselhou o Prof. Sedas Nunes, deveria prosseguir o trabalho nesta disciplina. Por varias razões, decidi seguir outro rumo, o que não me impediu de, em diversas ocasiões, ter escrito sobre os problemas do ensino. Em Abril de 1974, imaginei que, através de uma boa rede de escolas públicas, Portugal poderia eliminar as desigualdades que, desde a infância, me haviam escandalizado. Até fiz um documentário, «Nados e Criados Desiguais». Depois, fui-me apercebendo que o sonho não era tão fácil de concretizar quanto pensara. 
 Tem-se falado muito nos gastos disparatados com a reconstrução de alguns liceus. Quando me sentei ao computador estava determinada a escrever sobre este tópico, mas, a meio, a minha bússola intelectual obrigou-me a mudar de rumo, levando-me a fazer uma revisão da matéria. Eis, em dez pontos, aquilo em que acredito: 
1- Não são tanto os edifícios que contam no sucesso escolar, mas os professores. Precisamos de ter, nas nossas escolas, indivíduos bem preparados, bem remunerados e sobretudo acarinhados pela comunidade. 
2- O envio de papelada para cima dos professores, que faz as delícias dos funcionários do Ministério, deve terminar, a fim de que aqueles possam ensinar em paz. 
3- Se a cultura pseudo-progressista transmitida nos cursos de Ciências de Educação continuar dominante, estaremos a formar indivíduos incapazes não só de ganhar o seu sustento mas de ter um mínimo de cultura geral. 
 4- Muito do que se passa na sala de aula depende das expectativas dos docentes. Se estes olharem os filhos dos pobres como candidatos a empregos subalternos nunca deles exigirão o suficiente para que possam sair do círculo de pobreza onde estão encerrados. 
5- Nos últimos trinta anos, sacrificámos a qualidade à quantidade, do que resultou uma redução no nível de exigência dos exames. Os «netos do Rousseau» devem ser afastados, logo que possível, do GAVE (gabinete que prepara os exames). 
6- Apesar de poderem ser um veículo de mobilidade social, as escolas têm como missão central transmitir o saber, pelo que não devem ser pensadas como uma máquina de engenharia social. 
7- À ex-Secretária de Estado Ana Benavente deve ser interdita a aproximação de qualquer escola pública. 
8- A melhor forma de ajudar os filhos dos pobres é através da elaboração de bons programas, que os ensinem a ler, a pensar e a saber exprimir-se. 
9- As crianças não são naturalmente boas. Carecem assim, por parte dos pais e dos professores, da imposição de uma certa disciplina. A concessão de demasiada liberdade leva-as a tornaram-se tiranetes. 
10- Podemos ter igualdade de resultados ou igualdade de oportunidades: não as duas. A primeira, defendida pelos esquerdistas, leva a que às crianças dotadas, provenientes de meios socialmente desfavorecidos, não lhes seja exigido tudo aquilo que podem dar. A coberto de uma ideologia bondosa, está a cometer-se um crime. 
«Expresso» de 21 Abr 12

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O desamor dos patifes à camisola

Por Ferreira Fernandes 
MILÃO tem também o seu Coliseu, mais recente, mandado construir por Napoleão. O circo de Buffalo Bill, quando andou pela Europa, exibiu lá a tristeza de Touro Sentado e a pontaria de Calamity Jane. Mais de um século depois, em 2007, desdobrou-se ali a maior camisola de futebol do mundo, 5280 m2, numa daquelas parvoíces para recorde do Guinness. No entanto, havia como que poesia na exibição gigantesca de uma camisola de futebol na arena que agora se chama Gianni Brera, em homenagem ao maior jornalista de futebol italiano (1919-1992). Brera fez a carreira toda em Milão - onde ele inventou a palavra "libero", que daria a volta ao mundo dos estádios -, mas não se apaixonou por nenhum dos dois colossos da cidade, Milan ou Inter. O futebol tem fidelidades estranhas e o homem que com a caneta fazia equipas campeãs europeias só tinha olhos para uma camisola, a azul e vermelha do Génova, que da última vez que ganhou o campeonato italiano, em 1924, ele tinha cinco anos. No domingo passado, o Génova estava a perder em casa por 4 a 1, e nas bancadas quiseram que ele começasse a perder a honra. Dezenas de imbecis invadiram o campo e obrigaram os jogadores a tirar a camisola. Alguns dos jogadores choravam. Não deviam, o Génova será sempre de Gianni Brera e dos garotos de cinco anos. Mas fica aquele amargo de boca, e não estou só a pensar no Génova, por ver amores belos e inexplicados tão facilmente abusados por gente rasteira. 
«DN» de 24 Abr 12

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Hoje, 24 de Abril

Por Manuel António Pina  
AS IMAGENS que circulam na Net de funcionários municipais a lançarem das janelas da Escola da Fontinha livros escolares para a rua representam de forma expressiva a gestão autárquica de Rui Rio, a sua arrogância obscurantista, a sua insaciável sede de "autoridade" e a sua aversão a tudo o que lhe cheire a cultura e a autonomia cidadã; só faltou, à intolerante " Bücherverbrennung " do Alto da Fontinha, a fogueira. 
A História do século XX ensina-nos que o facto de um indivíduo ser eleito democraticamente não faz dele um democrata. A História do Porto nos anos de Rio - já é possível avaliá-la, agora que esses anos se aproximam do fim - é disso um bom exemplo. 
 Rio herdou a cidade num momento em que, na sequência da Capital Europeia da Cultura e da classificação do centro histórico como Património Mundial, ela fervilhava de animação e criação culturais, de multiplicação de iniciativas, de participação colectiva. Deixa-a com a ocupação policial de uma escola e centro cultural numa zona carenciada e a destruir livros e material escolar. 
Pelo meio ficaram, entre outros, casos como a descaracterização, com recusa de qualquer diálogo com a população, da Avenida dos Aliados ou a proibição de as associações apoiadas pela autarquia criticarem a Câmara, o que, na prática, significou a compra com dinheiros públicos do silêncio crítico sobre a sua gestão. Hoje, 24 de Abril, é o dia apropriado para evocar tudo isso. 
«JN» de 24 Abr 12

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38 anos

Por João Paulo Guerra 
Um MATUTINO de ontem apregoava que a Polícia «está a preparar um regime de tolerância zero» para o 25 de Abril e respectivas manifestações. 
Ora a bem dizer esta notícia terá 38 anos. Por este dia, em 1974, a Polícia estaria a preparar a «tolerância zero» para toda e qualquer manifestação. E na tarde do próprio dia 25 de Abril, na baixa do Porto, a Polícia ainda carregou sobre manifestantes que já celebravam e exerciam a liberdade de manifestação acabadinha de conquistar. 
 Claro que a intolerância dos nossos dias não tem que ver com os próprios polícias que, com o 25 de Abril, conquistaram pelo menos o direito de associação, criando os seus sindicatos, e a liberdade de manifestação, exercida e também reprimida tantas vezes, a mais famosa das quais é a do episódio «secos e molhados» vivido em 1989, no auge da democracia cavaquista. Mas quanto a instituições, algumas há que por mais que os tempos avancem mais elas recuam para a idade do chanfalho. 
As fontes da notícia pretenderam obviamente, a dois dias das comemorações do aniversário do 25 de Abril, intimidar e manter em casa potenciais manifestantes. Mas a verdade é que há 38 anos quanto mais a tropa recomendava o recolher mais o povo saia à rua. E se assim não fosse o mais certo seria que o 25 de Abril tivesse também recolhido antes da democracia, como já acontecera em 16 de Março. 
Mal vai o regime que se faz ouvir através do chefe da Polícia. E mal vão os chefes da Polícia que, em vez de lerem a Constituição da República, se dedicam a leituras de relatórios e romances de cordel em que cada cidadão é um suspeito até prova em contrário. E que em cada esquina há uma conspiração, nem que seja um remake da ridícula conspiração dos pregos. 
«DE» de 24 Abr 12

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23.4.12

O que eles fizeram pelas Ciências da Terra (22)

 Friedrich Mohs (1773 - 1839) 
Por A. M. Galopim de Carvalho
 UM DOS POUCOS temas da Mineralogia que persiste na memória dos portugueses, que abordaram esta disciplina na escola, é a escala de dureza conhecida pelo nome do seu autor, o mineralogista alemão, Friedrich Mohs, que estudou Química,Matemática na Universidade de Halle e, depois, na Academia de Minas de Freiberga. Em 1812 mudou-se para Graz, na Áustria, a fim de ensinar Mineralogia na Universidade de Tecnologia e organizar a colecção de minerais do então recém-criado Museu do Arquiduque Johann. No cumprimento desta tarefa experimentou classificar os minerais, não pelas suas naturezas químicas mas, sim, pelas suas características físicas, e foi nesta via que acabou por desenvolver a  sua escala de dureza.
 
Em 1818, regressou à Alemanha para assegurar a cátedra da mesma disciplina na Academia de Minas de Freiberga e, uma década depois, voltou à Áustria para leccionar em Viena, ao serviço do Gabinete Imperial. De entre a obra escrita de Friedrich Mohs, destaca-se o seu “Grund Riss der Mineralogie” (Tratado de Mineralogia), editado em 1822.

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Hollande ganhou mais do que parece

Por Ferreira Fernandes 
FRANÇA. Como se esperava, a segunda volta fica para Hollande e Sarkozy. Ontem votou-se, entre as tantas alternativas, em que[m] se gosta. Tradição francesa: primeira volta, voto a favor de alguém. Facto relevante de ontem: a extrema-direita, Marine Le Pen (18 por cento), tem muita gente a gostar dela. O seu pai, Jean-Marie Le Pen, nas últimas presidenciais, em 2007, teve metade do que teve agora a filha, causando a ilusão de que a extrema-direita francesa estava em desaceleração. Por outro lado, o candidato mais mobilizador desta campanha, Jean-Luc Mélenchon, de extrema-esquerda (aliado ao PCF), teve ontem menos votos do que prometiam as sondagens. 
E assim se vai para 6 de maio, em que se votará contra aquele que mais se rejeita. É essa a tradição: segunda volta, voto contra alguém. Mélenchon já apelou a votar em Hollande, o centrista François Bayrou hesita e Marine Le Pen não vai escolher ninguém - mas a verdade é que nenhum é dono dos votos que ganhou ontem, e os seus apelos não são decisivos. 
Mais importante é a campanha que os dois candidatos vão fazer nas próximas duas semanas: Hollande vai para o centro (pode ir, porque à sua esquerda não se foi tão forte como o previsto) e Sarkozy vai mais para a direita (tem de ir, porque esse lado se revelou demasiado forte). Por isso, Hollande foi o vencedor de ontem, e não por ontem ter chegado em primeiro lugar. Ele vai criar menos votos contra e, à segunda volta, isso conta.
 «DN» de 23 Abr 12

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Fracasso

Por João Paulo Guerra
CERCA de quatro meses após o chefe do Governo exortar os professores sem colocação a emigrarem e do secretário de Estado da Juventude aconselhar os jovens portugueses desempregados a seguir o mesmo caminho, o secretário de Estado das Comunidades admitiu que o Governo está preocupado com a emigração.
"Evidentemente que o Governo está preocupado", disse o governante. E explicou que "vamos perder muitos quadros" qualificados, sem trabalho no respectivo país e atraídos, lá fora, por trabalho certo, segurança no emprego e salários a perder de vista em relação aos que se cometem em Portugal. E esta sucessão de declarações parece confirmar a ideia de que o Governo alberga uns quantos aprendizes de feiticeiros que falam primeiro e medem as consequências depois. Com 38 anos de idade, a democracia em Portugal tinha obrigação de ter mais qualidade e estabilidade. Mas a verdade é que cada dia é um marco numa marcha atrás acelerada. Há 38 anos, observando a cavalgada de sacrifícios para os quais, afinal, ninguém sabe apontar um destino, uma meta e um calendário, dir-se-ia que "não foi para isto que se fez o 25 de Abril". Com efeito, o rumo mais dramático da política do velhíssimo Estado Novo está em vias de reposição, com os portugueses a verem apenas um caminho para a frente, quando tudo anda para trás no seu País. E o caminho é o da emigração, que até mesmo governantes têm deixado escapar como solução para os problemas de Portugal e dos portugueses. Sendo que o reconhecimento da emigração como destino é a confissão do fracasso das políticas internas de sucessivos governos.
Pela mão dos seus burocratas, Portugal tornou-se um País que nega o futuro aos próprios filhos. Não será a Pátria, ou a mãe, é simplesmente uma parideira sem alma. 
«DE» de 23 Abr 12

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Perigo!


Lagos - Docapesca
(Foto enviada por António Diogo)

Da liberdade virtual

Por Manuel António Pina 
O MINISTÉRIO da Educação despachou que, a partir do próximo ano lectivo, os pais terão "liberdade de escolha" (bonita expressão) da escola dos filhos, independentemente do seu lugar de residência. Só que não terão nada para escolher...
Com efeito, as vagas existentes nas escolas não são, descobriu com surpresa o Ministério, infinitamente elásticas e já hoje, nos centros urbanos, as mais procuradas não conseguem sequer satisfazer os pedidos de matrícula preenchendo as condições preferenciais previstas na lei, entre elas a da área de residência. Como tais condições se mantêm, bem poderão os pais "escolher" essas escolas para matricular os rebentos, que a sua "liberdade de escolha" se ficará por aí e não terá resultado prático algum.
O próprio Ministério teve que reconhecer, uma escassa semana depois de ter tão despachadamente despachado, que a medida "pode acabar por não ser tão eficaz quanto se desejaria em zonas de maior concentração populacional", isto é, nos centros urbanos. Restam as zonas rurais, de menor "concentração populacional". Mas aí haverá, quando muito, uma escola e a "liberdade de escolha" dos pais será a de... escolher essa escola, ou então as que eventualmente existam a dezenas e dezenas de quilómetros de distância, nos... centros urbanos de "maior concentração populacional".
Há, claro, uma solução (Nuno Crato já deve estar a fazer as contas): turmas, não com 30, mas com 3000 alunos.
«JN» de 23 Abr 12

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22.4.12

Das rochas sedimentares (48)

Por A. M. Galopim de Carvalho

NÃO HÁ, propriamente, uma classificação petrográfica das rochas sedimentares ferríferas. A sua grande importância como minérios de ferro, muito antes do advento da sedimentologia, acabou por introduzir, no léxico das geociências, uma terminologia alusiva aos vários tipos de ocorrências que se mantém com reconhecida actualidade. Termos clássicos, anglo-saxónicos, mais próprios da geologia mineira, como iron formations, ironstone, bog iron ore, etc., fazem parte do glossário nos actuais textos científicos e pedagógicos de geologia e de petrografia sedimentares. (...)
Texto integral [aqui]

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A Coesão social

Por António Barreto

NÃO FORA a ansiedade que aflige milhões de cidadãos, no Ocidente e no resto do mundo, e poderia dizer que vivemos momentos fascinantes. São momentos de transição. E tempos de síntese, esperemos. Temos, creio, a sensação nítida de que vivemos um momento inesquecível em que muitos dos erros cometidos se tornaram evidentes e muitas das necessidades do futuro parecem indiscutíveis. Em toda a Europa, mais de meio século de paz e de crescimento económico chega ao seu termo e parece exigir novos modos e novas ideias, que todos reclamam, mas que ninguém descobriu. Em Portugal, mais de trinta anos de crescimento, de reformas e de melhoramento da nossa condição, chegam igualmente ao fim, mas de modo brutal. Uma crise sem igual e uma incerteza sem equivalentes próximos tingem o quotidiano de apreensão. (...)
Texto integral [aqui]

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De saudar

 9 Abr 12
DÁ GOSTO ver uma povoação bem cuidada e com auto-estima. Parece ser o que se passa em Ucanha, uma terra que, além do seu património medieval, se orgulha de ter sido o berço de José Leite de Vasconcelos (1858-1941).

Alô, portugueses! Alô, portugueses!...

Por Ferreira Fernandes 
ESCREVI aqui, há dias, que entendi bem o artigo de Passos Coelho no Financial Times. Neste, o primeiro-ministro sublinhava que "não há garantias" de que, em setembro de 2013, na data prevista para o fazer, já pudéssemos recorrer aos mercados como qualquer outro país. 
Havia no texto de Passos Coelho uma mudança no discurso recente dos governantes. Até aqui, era: nunca mostrar dúvidas, se não o lobo mau dos mercados vem e come-nos. Mas Passos Coelho foi para um jornal - e o jornal que os mercados leem! - mostrar dúvidas. Então, eu concluí: como o primeiro-ministro não é irresponsável, ele não falava lá para fora, para os mercados, mas cá para dentro. Foi esse, aliás, o título da minha crónica: "Falar lá fora cá para dentro." Cá dentro onde é necessário cerrar fileiras, engolir em seco, convencer as pessoas de ainda terem de amochar mais, e muito. 
A prioridade do Governo mudou: agora, é convencer-nos. A nós, não à Moody's. Entre a gente que, nos jornais e televisões, anda agarrada ao periscópio a tentar topar o rumo das coisas, não houve muitos que tivessem assinalado essa mudança de estratégia de comunicação. Ainda me perguntei: será que me enganei? Calculem a minha gratidão quando ouvi a ministra da Justiça a dar-me a mão: "O País chegou de facto à bancarrota", disse Paula Teixeira da Cruz. 
Confirma-se, agora estamo-nos nas tintas para os mercados. A preocupação do Governo és tu, leitor, e só. 
 «DN» de 22 Abr 12

21.4.12

No Reino do Absurdo

HÁ, AQUI, qualquer coisa que não está bem (uma situação que, por sinal, se repete do outro lado da avenida). O que é?
NOTA: a resposta será aqui dada, em breve, com a afixação de mais duas fotos.
Actualização: a resposta certa já foi dada. De um lado e de outro da Av. dos EUA, em Lisboa, pode ler-se «Excepto Carris» por baixo dos sinais de Paragem Proibida. Porém, logo à frente, estão as paragens (legais, supõe-se...) da Transportadora Ribatejana. (De passagem, repare-se na genial localização do vidrão, bem no enfiamento das várias paragens do lado sul).

Vénus de cabelos negros

Por Antunes Ferreira
DO AMPLO terraço do Hotel The Crown – A Gralha – tem-se uma belíssima vista sobre o Mandovi; à noite, então, com os barcos casinos iluminados, que são bastantes, e os que fazem os tours no rio, e são ainda mais, espalha-se pelas águas um tom garrido e feérico que contrasta, até sonoramente, com a quietude que se vai instalando em Panjim. É o exemplo típico do sussêgado, palavra suprema para qualificar Goa. As pessoas são sussêgadas, o ritmo de vida é sussêgado, os funcionários públicos são sussêgados, os donos das lojas e os respetivos empregados são sussêgados, os médicos, os enfermeiros, os advogados, os escrivães são sussêgados, até os briosos agentes da autoridade o são. 
Fora ali em que o engenheiro Rui Afonso Henriques encontrara a Senhora Dona Maria Zínia Filomena e mais seis apelidos, trinta e dois anos, viúva. Uma graça da Natureza, um brinde celestial, uma obra de Boticelli sem concha e de cabelos de azeviche, longos como os da Vénus mas sem os doirados desta. Uma verdadeira da Deusa do Amor, mas, infelizmente muito mais vestida do que a divina criatura. 
Era uma festa de apresentação de mais uma companhia do empresário mineiro Agnelo Mascarenhas Costa, com quem Rui colaborava desde Portugal; desta feita, era a primeira vez que estava em Goa, por mor da novidade. Agnelo apresentara-os, apertaram-se as mãos formalmente, mas, para o Português fora uma descarga fulminante através da epiderme morena da Afrodite tropical. Correntes fortes, fortíssimas, inebriantes, paralisantes. Um veneno de uma qualquer capelo não teria sido mais instantâneo. 
No dia seguinte Rui encontrou-a «por acaso» na Brodway, livraria imprescindível da capital. Usava um sari e um umbigo traquinas dava um ar ladino ao conjunto excelente. Sensual traje o sari, esconde tudo, mas desvenda o ventre voluptuo, comentou ele, o senhor engenheiro é um bom Português, insinuante, simpático, quiçá até um pouco atiradiço. E o riso quente, e os olhos profundos e verdes, e o requebrar dos quadris ainda que parados e o resto, levaram-no ao paroxismo. Nunca desejara tanto uma mulher. E tinha a certeza de que ela o sabia. 
Andaram nisto durante a semana. No sábado, ela veio no seu BMW Série 3, motorista discreto e monossilábico, apanhou-o no hotel e foram até Miramar. Face ao espanto plantado na face dele, Zínia entrou por revelações, era riquíssima, casara aos 17 anos com um advogado de 84, lúcido mas impotente, proprietário de inúmeras várzeas e múltiplos coqueirais, casas espalhadas por Salcete e outras em Bardez, arqui, portanto. O causídico viria a morrer quatro anos depois de terem dado o nó na Igreja do Bom Jesus, Velha Goa. 
Depois de umas largas horas de confidências, em que ela desabafou como nunca antes o fizera – palavras suas -, Rui Afonso Henriques, timidamente, pediu-lhe desculpa da pergunta que lhe queria fazer, ela, com um sorriso a cair no irónico, antecipou-se, ele nunca me tocou, mas encarregou um estagiário de me fazer mulher e me dar um filho que, como era óbvio, seria oficialmente descendente do idoso multimilionário. Mas, foram apenas duas vez mais, para garantir a gravidez, o jovem aparentemente suicidara-se, levando para a cova o segredo, e a barriga dela não se encheu. E, para ser mais completa na explanação, nem sequer chegara a ter prazer. Era, a bem dizer, uma virgem desvirginada. 
Voltavam para o hotel, mudos porque o engenheiro no meio do relato da vida dele, naturalmente correspondendo ao falar dela, deixara cair que na segunda-feira, iria tratar de reconfirmar os bilhetes de volta a Lisboa, já?, sussurrara ela. Passavam em frente da vivenda dela, melhor se dissera do palacete do tempo dos Portugueses, você não quer tomar uma bebida? Pois claro que queria, muitíssimo obrigadíssimo. 
Entre. O empregado que os viera esperar à porta saiu para tratar das bebidas, eu vou ali ao quarto para me refrescar, volto já, e seguiu ondulante. De volta, mas tem mesmo de ir já?, não pode ficar mais uns dias?, vou ver o que posso arranjar, adiar os bilhetes. E, num repente, ela puxou-o pela mão, vem. Era o primeiro tu e o primeiro passo para o paraíso. O quarto enorme, enorme a cama de dossel. Zínia fechou a porta, senta-te aqui na cama, quero ver-te bem, as luzes acesas, ele sentou-se. 
E ela começou a desenrolar o sari azul-escuro e dourado. Baixou o saiote e lentamente despiu o corpete. Sutiã e calcinhas da mesma cor. Uma estátua de canela que abriu os colchetes e soltou os seios eretos, mamilos castanhos grená, insubmissos, altivos, e, de seguida, tirou as cuequinhas, o velo negro bem desenhado. Baixou-se, despiu-lhe a camisa, as calças e os boxers com alguma dificuldade e uns quantos risinhos, porque o inquilino orgulhosamente empinado dificultou a manobra. Foi uma noite deliciosamente longa e atarefada… Às quatro da madrugada foram tomar duche juntos, os corpos suados, o desejo a fingir um intervalo, até voltarem à cama desfeita, depois de se secarem suavemente e ensarilharem as línguas e reacenderem o fogo que ameaçava ser eterno. 
Sete anos depois, de volta a Goa em férias, já com dois meninos e duas meninas, matizados os quatro, Rui e Zínia decidiram fazer nova encomenda para tentar desempatar as crianças. E se viesse um casal de gémeos? Logo se veria.

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Não ver a força do ter que ser

Por Ferreira Fernandes
A LEI (também a temos) que proíbe a divulgação de estimativas dos resultados eleitorais antes do fecho das urnas arranjou em França o melhor lugar para mostrar quanto está caduca... 
Cercados por francófonos - Suíça, Bélgica e Luxemburgo (onde há televisões e jornais on-line, sabiam?) -, vai ser difícil impedir os franceses de espreitar as novidades que os vizinhos já conhecem. E os 23 milhões de franceses utilizadores do Facebook e os três milhões do Twitter, que também obrigados pela lei a não darem eco do que já sabem, vão encontrar soluções para acalmar o nervosismo da ponta dos dedos... 
Perante o anacronismo, o jornal suíço Le Matin e o francês Le Parisien deram sugestões para sabotá-lo. Porque não, já que se trata de França, retomar as mensagens da Rádio Londres durante a Ocupação? Estas eram curtas, por vezes poéticas e bizarras. Uma: "A tia Amélia faz bicicleta de calções." Se alguém decifrou a mensagem, talvez um coronel alemão tivesse sido morto nesse dia de 1942. 
Assim, amanhã, os franceses arriscam-se a ouvir de um apresentador do telejornal, antes das 20 horas: "Vai haver Flanby à sobremesa, repito, vai haver Flanby à sobremesa!" Quem souber que "Flanby", marca de pudim, é o nominho que alguns socialistas dão a Hollande, fica a saber que ele passa à segunda volta. 
Aliás, inventando-se temperaturas nos Países Baixos e na Hungria (país do pai de Sarkozy) também se pode dar o resultado eleitoral até às décimas. 
 «DN» de 21 Abr 12

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20.4.12

Porta Nova (5) - O 70 do Carcavelinhos

Por A. M. Galopim de Carvalho

AINDA aluno em São Mamede, houve uma fase em que, à semelhança dos meus condiscípulos, gastava todos os tostões, que me dessem ou que ganhasse, nos rebuçados com cromos da colecção que, se alguma vez concluída, dava direito a uma bola de futebol, autêntica, de cautchouc, forrada a couro. Uma maravilha sonhada por quem só usava bolas feitas de trapos e de meias velhas. (...)
Texto integral [aqui]

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A norueguesa na menopausa

Por Ferreira Fernandes
A JUÍZA Eva Joly, que investigou casos muito mediáticos na viragem do século, é candidata à presidência francesa e quem não a conhece deve apressar-se porque a partir de domingo, com pouco mais de um por cento dos votos, sai de cena. Anteontem, discursando em Paris, ela disse: "Nós estamos na nossa casa, nós, os franceses e as francesas." E depois disse quem eram esses franceses, que são aqueles que presumimos serem e são também aqueles que ela designou com os termos pejorativos comuns: "Os polaks, os portos, os ritals (italianos), os youpins (judeus), bougnoules (árabes) e as norueguesas na menopausa." 
O último exemplo que Eva Joly deu deve ter surpreendido o leitor mais distraído - as norueguesas na menopausa... Era a própria oradora a dar-se como testemunho: ela foi batizada como Go Eva Farseth e nasceu em Oslo, Noruega, há 68 anos. Aos vinte conheceu a França pela primeira vez, veio trabalhar para uma família, na situação de au pair, doméstica que está a par, igual a todos. Esse au pair numa casa, ela fê-lo au pair no novo país, francesa como todos. 
Porque se fala muito da França dos Le Pen, trago para aqui essa outra França, que tem como candidata a presidente uma ex-norueguesa. Ela é dos Verdes, e se não tivesse sido escolhida pelo partido, talvez o candidato fosse Daniel Cohn-Bendit, um "judeu alemão." 
A França tem especialidades únicas, tão boas como um coulommiers, com pasta amanteigada. 
«DN» de 20 Abr 12

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Ódio à diferença

Por Manuel António Pina
É EM MOMENTOS como o ontem vivido no Alto da Fontinha que Rui Rio revela o seu rosto de autocrata e a sua aversão a tudo o que lhe cheire a diferença, particularmente a todas a formas de cultura e cidadania que escapem à Kultura, ao papel "couché" e à rotina institucional.
No edifício da antiga Escola da Fontinha, há cinco anos ao abandono, nascera espontaneamente, por iniciativa dos moradores e outras pessoas, um projecto cívico autónomo que, durante um ano, sem mendigar subsídios, fez a "diferença", infeccionando de vida comunitária e, sobretudo, de esperança, o resignado quotidiano de uma das inúmeras zonas degradadas que, longe do olhar dos turistas, persistem no coração da cidade.
Uma ilha de iniciativa, de partilha, de democracia participativa? Era de mais para Rui Rio. Ateliês de leitura, de música, de teatro, de fotografia?, formação contínua?, apoio educativo?, aulas de línguas?, xadrez?, yoga?, debates?, assembleias? - Intolerável!
De nada valeu ao movimento Es.Col.A constituir-se em associação, como lhe exigira a Câmara com a promessa de um contrato que nunca chegaria. Como os "Blue Meanies" de "O submarino amarelo", as retinas de Rui Rio não suportam as cores vibrantes e indisciplinadas dos sonhos. Ontem, por sua ordem, a Polícia cercou o bairro, invadiu armada a Escola da Fontinha, prendeu pessoas e destruiu e pilhou as instalações. E Pepperland voltou de novo a ser cabisbaixa e cinzenta.
«JN» de 20 Abr 12

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Futuro

Por João Paulo Guerra

NO MESMO dia em que no FMI reafirmou que os excessos da austeridade ameaçam matar o doente, os portugueses ficaram a saber que estão em preparação mais medidas restritivas.
Isto é, que em Portugal a doença da crise é mesmo para matar. Ou seja, a austeridade, com o rol de imensos sacrifícios impostos aos portugueses, longe de se destinar a vencer uma crise, é uma punição e uma medida ideológica destinada a impor uma nova ordem económica, social e política em Portugal como em parte da Europa. E portanto o aviso do FMI, neste particular, vale menos que as mezinhas de ‘frau' Angela Merkel.
A punição destina-se a servir de lição aos portugueses para que jamais sonhem com uma vida com um mínimo de conforto e largueza, numa Europa social. A continuação da austeridade tem por fito empobrecer ainda mais a maioria dos portugueses, pois o estatuto de miseráveis é o que lhe está reservado no futuro.

E assim, entre as novas medidas de austeridade conta-se um novo corte nos subsídios por despedimento, em cima do que ainda nem sequer está a ser aplicado. Tornar os despedimentos cada vez mais baratos é uma via para criar a legião de desempregados que fará da maioria dos portugueses párias na sociedade do seu próprio país, constituindo uma enorme pressão sobre os salários e os direitos sociais e políticos dos que tenham trabalho. A questão é que quantos mais forem os pobres mais ricos serão os muito ricos, pois já Almeida Garrett se interrogava, no século XIX, sobre o número de pobres que seriam necessários para fazer um rico.
A crise e como sair dela são conversa fiada. O que está em causa é um modelo ideológico mais refinado de exploração, retrógrado, reacionário e injusto que vigorará até um dia.
«DE» de 20 Abr 12

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Apontamentos da crise?

 17 Abr 12 - 16h00m
 18 Abr 12 - 12h33m
 19 Abr 12 - 11h55m
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O QUE aqui se vê (tendo em conta os locais, os dias da semana e as horas) não é muito habitual:
Uma ala inteira do hipermercado de Telheiras às moscas, uma das avenidas novas com lugares de estacionamento com fartura, e uma entrada de Lisboa sem carros...

19.4.12

Das rochas sedimentares (47)

MINERAIS DAS ROCHAS FERRÍFERAS

Por A. M. Galopim de Carvalho
ENTRE os minerais de ferro patentes nas rochas sedimentares desta classe, há que distinguir:- os de neoformação sedimentar,
- os gerados durante a diagénese, precoce e/ou tardia,
- os resultantes de eventuais acções metamórficas e
- os formados na sequência de processos de alteração supergénica. (...)
Texto integral [aqui]

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"Nos países desenvolvidos"

Por Manuel António Pina 
É CONHECIDA a anedota da singular noção de causalidade daquele investigador que cortou as patas a uma rã e lhe disse: "Salta!"; e que, como a rã não saltasse, concluiu que, quando se cortam as patas às rãs, elas deixam de ouvir. 
Ocorreu-me essa história ao saber do estudo que sustenta mais uma nova redução das indemnizações por despedimento que o ministro Álvaro (quem haveria de ser?) anunciou que levará à Concertação Social, estudo que conclui que... nos países desenvolvidos indemnizar trabalhadores despedidos não é obrigatório. Assim, acabam-se com as indemnizações por despedimento e, zás!, passamos a "país desenvolvido". E poder-se-ia ainda aumentar também os salários para os níveis praticados nos países desenvolvidos e então é que ficaríamos tão desenvolvidos, ou mais, que os países desenvolvidos. A ideia, no entanto, não ocorreu ao ministro Álvaro, como não lhe ocorreu a ideia de se demitir, pois nos países desenvolvidos ninguém salta da blogosfera para ministro... A mesma provinciana lógica causal foi recentemente invocada pelo secretário de Estado da Saúde para justificar uma nova cruzada antitabagista: nos países desenvolvidos - mais um esforço, portugueses, se quereis ser nova-iorquinos! - é proibido fumar na rua, no automóvel, na própria casa de cada um. 
 E, já agora, por que não restaurar também a pena de morte, seguindo esse exemplo extremo de país desenvolvido que são os Estados Unidos?
 «JN» de 19 Abr 12

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Falar lá fora cá para dentro

Por Ferreira Fernandes
FAÇO análises económicas lendo as nuvens. Cumulonimbus, os mercados vão tornar-se voláteis, stratocumulus, aumenta endividamento externo, e assim por diante.
É um método bizarro mas tão bom como o de The Economist: a ambos, a mim e à revista, durante o ano de 2008 escapou-nos a maior crise económica desde 1929, até ela morder-nos as canelas... Outro meu método é ler o Financial Times e deitar-me a adivinhar.
Ontem, Passos Coelho - que já tinha feito o mesmo há semanas em entrevista ao alemão Die Welt - em artigo agora assinado, escreveu no FT que, apesar de otimista, "não há garantias". Nunca se sabe - foi a sua tese.
Essas dúvidas, antes, seriam fatais. Os mercados são tramados, é preciso tratá-los com mil cuidados ou eles investem, ou melhor, desinvestem. Então, por que o primeiro-ministro pôs as dúvidas? Lendo-o, não sei, mas deixem-me adivinhar: ele permitiu-se falar assim porque os mercados já não nos mordem as canelas! Estão já convencidos do nosso bom rumo e não reagem mal a augúrios dubitativos (alô, professor Vítor Gaspar, já não é preciso dizer que lá estaremos e de peito feito, em setembro de 2013, a vender dívida...) Então, se Passos Coelho insiste em falar com "mas" e "contudo" lá fora, é porque fala cá para dentro. Avisa sobre um possível cenário negro para que, por cá, aguentemos as medidas duras.
Mas fica o mistério: se a mensagem é interna, porquê em inglês? Vou ler nuvens e depois respondo.
«DN» de 19 Abr 12

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