31.7.12

Londres já tem um escândalo: uma dor de cotovelo

Por Ferreira Fernandes
JOHN Leonard fez a figura daquele Amigo da Onça que, à pergunta do padre se havia alguém contra o matrimónio, pôs o braço no ar, um sorriso malandro e acabou por não apresentar provas.
Leonard, diretor da Associação de Treinadores de Natação dos EUA, acusou ontem, no diário The Guardian, a nadadora Ye Shiwen de estar dopada quando ganhou os 400 metros estilos, batendo o recorde mundial. Caso se prove o doping, a medalha de ouro será retirada à chinesa. Mas isso, até agora, é mera hipótese. O certo é que a John Leonard devia ser-lhe já retirada a medalha do campeonato da decência desportiva.
O que Leonard disse ontem - seja Ye culpada ou inocente - vale por um doping, ou seja, é uma violação grave às normas desportivas. O doping não se sugere, prova-se. Uma coisa é ficar estupefacto com Ye Shiwen, sábado passado, cuja atuação merece esta palavra: inacreditável. O nadador americano Ryan Lochte, que nesse dia também ganhou o ouro nos 400 metros livres (e com o segundo melhor tempo de sempre), teria perdido os últimos 50 metros para a nadadora chinesa: ele nadou em 29.10 s e ela, em 28.93! Não é normal. E é estranho que tendo esse tempo sido feito em estilo livre, Ye nem vá nadar nas provas de 200 e 400 metros desse estilo. Mas não são as anormalidades e as estranhezas próprias dos recordes?
Por isso, John Leonard deveria ter-se ficado pela palavra justa, "inacreditável". Mas acrescentou: "[Ye] parece uma supermulher. De cada vez que alguém parece uma supermulher no nosso desporto é mais tarde culpada de doping." Deve ser uma especialidade das mulheres e da natação... Assim de repente, estou a lembrar-me de, nos JO de 1968, Bob Beamon ter voado 8,9 m no salto em comprimento. O que foi inacreditável durante 23 anos, até o próximo recorde, de Mike Powell, com 8,95 m. Ambos inacreditáveis e nenhum dopado. 
«DN» de 31 Jul 12

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"Viver sem dinheiro"

Por Manuel António Pina
A EX-PSICOTERAPEUTA alemã Heidemarie Schwermer, hoje com 69 anos, tornou-se uma celebridade (um documentário sobre ela foi exibido nas TV de 30 países) por viver há 16 anos "sem dinheiro". Pouco depois dos 50, abandonou o emprego, doou o que tinha e passou a viver fazendo palestras e outros trabalhos apenas a troco de tecto e comida, instalando-se em casa de amigos ou de pessoas que vai conhecendo, que também lhe dão a roupa que veste e lhe pagam tudo o resto, do cabeleireiro aos transportes.
"Muitas pessoas têm problemas", explicou à BBC. "Eu escuto-as e ajudo-as a pensar sobre as suas vidas". Isto é, continua a fazer psicoterapia, só que, agora, é paga em géneros. Prescindiu do intermediário geral das trocas e redescobriu a troca directa. E, assim, terá encontrado - diz - a felicidade.
Claro que as coisas não são tão simples: "Testemunho milagres diariamente. Por exemplo, no início, encontrava comida. Pensava nas coisas e depois encontrava-as na rua ou as pessoas traziam-mas". A psicoterapeuta acredita "que estes milagres acontecem devido à força do pensamento".
O dinheiro não faz, já se sabia, a felicidade. No entanto, é com dinheiro que se compram muitas das coisas que fazem a felicidade. O segredo de Heidemarie é que consegue, pelos vistos, obtê-las com "a força do pensamento". Ou então com o dinheiro dos outros. O que, vendo bem, não é tão incomum quanto isso.
«JN» de 31 Jul 12

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30.7.12

Apontamentos de Lisboa

A foto de cima é da Rua José Duro, e a do meio é da Rua Maria Amália Vaz de Carvalho - ambas em Lisboa. Mas a de baixo mostra como as anteriores são redundantes, pois é possível, com uma única foto (escolhendo o enquadramento adequado), documentar ambas as realidades desta 'zona fina' da cidade.

Uma tragédia grega e molhada

Por Ferreira Fernandes
OS JOGOS Olímpicos, além de espetáculo, afirmação de nacionalismos e acordos de bastidores, são jogos. Este contra aquele. Duelo que as técnicas modernas nos deixam ver ao pormenor e à exatidão. 
Que bem nos faz saber que este ganha àquele simplesmente porque é mais rápido, vai mais alto ou é mais forte. Lava-nos de tantos estranhos ganhos dos noticiários comuns... 
Os jogos são histórias de heróis e nestes JO de Londres temos um super-herói, Michael Phelps, embora se suspeite nele uma certa decadência. O nadador americano chegou com 16 medalhas, das quais 14 de ouro, e, tendo sete provas para correr, fortes possibilidades de bater o recorde de medalhas, 18, da ginasta russa Larisa Latynina, de há 50 anos. Phelps corre cego, com os óculos escurecidos, como para dizer que o diálogo (o duelo) é só consigo. Mas logo no primeiro dia de provas, sábado, apanhou uma tareia do seu compatriota Ryan Lochte e, pior, ficou pela primeira vez fora do pódio olímpico. Sem medalha. Ora ontem, na estafeta 4x100 livres, correndo na segunda posição, Phelps cumpriu em tempo prodigioso e distanciou a equipa francesa. Mas acabou por ver o seu colega de equipa Ryan Lochte a desbaratar a vantagem e o primeiro lugar. Então, Phelps contente pela sua 17.ª medalha, ou irritado por ela ser só de prata? 
Como os jogos são simples na forma mas complexos como uma tragédia antiga, Phelps deve ter gostado do falhanço do seu companheiro Ryan Lochte.
«DN» de 30 Jul 12

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 Ajudando a tratar da saúde dos passeios de Lisboa, e de ambos os lados da R. dos Fanqueiros
 Em Julho de 2012, anunciando a colecção 2011, na Rua 1.º de Dezembro
 Um difícil exercício de "português técnico", na Praça de Londres
.
Quem serão os 'consultores de imagem' da SEASIDE em Portugal?

Constituição a pedido

Por Manuel António Pina
O PRESIDENTE do BPI, Fernando Ulrich, já classificara a decisão do TC que confirmou a inconstitucionalidade dos confiscos dos subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas de "negativa", "perigosa" e "inaceitável". Agora é o presidente do BCP, Nuno Amado, a clamar que foi "uma decisão muitíssimo infeliz".
A banca (falta conhecer a opinião de Ricardo Salgado, do omnipresente BES, para o ramalhete ficar completo) não só tem enormes responsabilidades na crise como tem sido beneficiária da maior parte dos sacrifícios que, a pretexto dela, vêm sendo impostos aos portugueses. Mas a banca quer mais do que o seu financiamento com a "ajuda" que a 'troika' cobra ao país em desemprego, fome e miséria ou do que a destruição do SNS que alimenta os seus negócios na Saúde, a banca quer também uma Constituição "sua", já que a Constituição da República se revela, pelos vistos, "negativa", "perigosa", "inaceitável" e "muitíssimo infeliz" para os seus interesses.
Nem Ulrich nem Amado o escondem: "É premente alguma revisão da Constituição" (Amado), e a decisão do TC pode "justificar a discussão de uma revisão constitucional, o que até seria positivo" (Ulrich).
Numa democracia que cumprisse os serviços mínimos, os desejos de dois banqueiros valeriam apenas dois votos. Não tardará que vejamos quanto valem num regime do género "que se lixem as eleições".
«JN» de 30 Jul 12

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29.7.12

Das rochas sedimentares (68)

Por A. M. Galopim de Carvalho
UMA OUTRA classificação dos carvões baseia-se na identificação das estruturas vegetais envolvidas na sua constituição e nas transformações sofridas por estas ao longo do processo de incarbonização. Com recurso ao microscópio polarizante em luz reflectida, esta identificação corresponde a uma rotina própria dos petrógrafos e mineralogistas, permitindo uma verdadeira classificação petrográfica dos carvões e subsequente definição de tipos litológicos ou litótipos (lithotypes). A classificação dos carvões nestes moldes interessa tanto aos geólogos de pendor naturalista como aos do sector mineiro. (...)
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Luz - Rio Nilo, diante da cidade de Assuão, Egipto 2006

Fotografias de António Barreto- APPh


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Estamos ainda longe da famosa barragem. Mas a cidade tem esse nome. Na minha juventude, a construção desta barragem estava altamente colocada na lista dos objectos de admiração. Fiquei fascinado diante da ideia (e do projecto e da realização...) de “desmontar” o famoso monumento de Abu Simbel e voltar a construir umas centenas de metros ao lado e acima do nível da água da futura albufeira. Proteger a cultura e modernizar, “dominar a Natureza”, como se dizia na altura, eram programas de optimismo histórico! Hoje, essas obras estão lá, para orgulho de muitos, com certeza. Mas entretanto sabe-se que o Nilo teve problemas ecológicos muito sérios, milhões de hectares de terras férteis viraram areia ou foram perdidos para a agricultura, a fauna fluvial transformou-se e empobreceu... Com o que sabemos hoje, teríamos feito a obra igualmente? Passei na região uns dias, entre as águas do Nilo, as margens férteis, as vilas e os mercados e os monumentos. É sítio inesquecível. (2006)

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27.7.12

Café Concerto

Por Joaquim Letria
DESCOBRI o café ideal através de um conhecido que sofre de angústia existencial
- Vamos ao café, que hoje estou para implicar - disse-me, e, quinze minutos depois, ele estava felicíssimo.
Quando entrámos, não se sentou. Dirigiu-se ao criado mais próximo e disse alto à boa maneira dos saloons nos westerns:
- Você é uma besta-quadrada. Sai à família, não é verdade?
- Tem Vossa Excelência toda a razão. Desejam mesa? - retorquiu sorridente o empregado. (...)
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Porque será que os jornais, quando querem referir-se a energia eléctrica, usam a palavra luz?

Atleta americano falha apuramento

Por Ferreira Fernandes
MITT ROMNEY, o candidato republicano às presidenciais americanas, está em Londres, e mais valia que não tivesse ido. Não que a gafe que cometeu ontem vá prejudicá-lo nas eleições de novembro, desvarios internacionais de candidatos americanos são pecadilho menor para os seus eleitores. Escusava era de nos assustar, ao resto do mundo, antes de se confirmar que um inepto diplomata vai estar à cabeça do mais poderoso dos países. E não, o problema não foi ter-se esquecido do nome de Ed Miliband, líder da oposição, nem ter tomado a iniciativa de dizer, o que nunca se faz, que reuniu com o chefe dos serviços secretos britânicos - trocar nomes estrangeiros e desconhecer protocolos é desculpável em recém-chegados à diplomacia internacional. 
O problema é que disse o que só um carroceiro diz quando está de visita a casa alheia - ainda por cima em dias de festa lá em casa. Sobre a organização dos Jogos Olímpicos de Londres, além de criticar a segurança e as greve de funcionários de imigração, pôs em dúvida o entusiasmo dos britânicos pelos Jogos: "Isso só saberemos uma vez que eles comecem." 
Num seminário nas suas empresas, o empresário de sucesso que ele é faria bem em expor, por sistema, todas as dúvidas. Mas tendo escolhido ser presidente, deveria saber que mentir pelo seu país é uma obrigação. Olha, poderia ter aprendido mais quando foi missionário mórmon. Os que me bateram à porta foram sempre de uma gentileza inexcedível. 
«DN» de 27 Jul 12

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26.7.12

Perder tanto e encolher os ombros

Por Ferreira Fernandes
A CRISE dos espanhóis vai desembocar em resgate financeiro mas não é por já termos essa desgraça que me regozija vê-la estendida a outros. Mais, até estou mais preocupado com eles do que connosco. 
Há dias, quando a seguir a outras regiões (Múrcia, Valência, Castilla-La Mancha...), a Catalunha, asfixiada com a dívida mais alta de Espanha, pediu ao Governo central para resolver o endividamento dela, logo vozes mais cínicas perguntaram: "Ah, agora já não falam de referendo para a independência?" Apressaram-se, esses críticos irónicos, não suspeitando da força que tem, em momentos difíceis, o apelo da fuga para a frente: ontem, o Parlamento catalão aprovou uma Fazenda pública catalã como única autorizada a recolher impostos na região. Decretar, gerir, recolher, sancionar, tudo relacionado com impostos na Catalunha deixará de estar dependente do Governo central - um dos cortes mais radicais da ligação com Madrid foi ontem encetado. 
O mundo dos nossos vizinhos está perigoso. Com a memória fresca dos Balcãs, talvez já há quem veja guerras civis (justificando-as, haverá quem lhes chame étnicas), mas não vou por aí. Provavelmente não haverá guerra, mas isso não basta para não haver tragédia. A tragédia mais provável de Espanha é a indiferença com que uns acolherão o facto de deixarem de ser do país de Don Quijote e outros, do Parque Güell. 
Perder e nem se dar conta. Pior, perder, dar-se conta e nem se importar. 
«DN» de 26 Jul 12

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O que eles fizeram pelas Ciências da Terra (25)

 Por A. M. Galopim de Carvalho
“IRMÃOS DA PUREZA”, ou Ikhwan al-Safa' em árabe, foi o nome de uma fraternidade de filósofos islâmicos do século X, que se admite terem vivido em Bassorá, no Iraque. Colectivamente, escreveram uma enciclopédia com mais de 50 volumes (Rasa'il Ikhwan al-safa') inspirada nas filosofias pitagóricas, platónicas e neoplatónicas, aristotélicas e na do próprio Corão. O principal objectivo destes “Irmãos” era o conhecimento do Universo, na sua grande harmonia e beleza, apontando a necessidade de uma preocupação que fosse para além da existência material. (...)
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Pobres juízes

Por Manuel António Pina

A ASSOCIAÇÃO Nacional de Bombeiros anunciou na terça-feira, pela voz do seu presidente, Fernando Curto, que iria processar criminalmente Jardim por este ter considerado uma "estranha coincidência" que a eclosão dos incêndios na Madeira se tenha verificado após afirmações suas sobre existirem bombeiros a mais na Região. (Eu processá-lo-ia mais depressa por ter qualificado os incêndios de "dantescos", mas isso sou eu).
Ontem, quarta, o Governo Regional da Madeira anunciou que irá, por sua vez, processar Curto por este ter processado Jardim, vendo insinuações nas suas inocentes palavras. Hoje, quinta, deverá ser Curto a processar Jardim por este o ter processado e amanhã, sexta, Jardim a processar de novo Curto por este o ter voltado a processar e assim em "mise en abyme" até ao infinito como as latas de sopa Campbell.
Não queria estar na pele do juiz que irá que julgar todos esses processos. Nem do que julgará o processo que Cristiano Ronaldo apresentou, também ontem, contra o CM, acusando o jornal de, ao publicar fotografias suas e da família em férias, ter desrespeitado a sua "vida privada" (afinal, contra todas as expectativas, parece que Cristiano Ronaldo tem vida privada). E os que têm que julgar os processos que certos figurões públicos põem contra jornais e jornalistas por ofensas ao seu bom nome quando ninguém imaginaria que tivessem bom nome? Pobres juízes.
«JN» de 26 Jul 12

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Adriano Moreira – cúmplice fascista reabilitado

Por C. Barroco Esperança
DEIXEM-ME pronunciar sobre este académico ilustre, de passado pouco recomendável, antes de ser adulado no próximo dia 6 de setembro, ao comemorar 90 anos, e elevado aos altares quando o seu deus for servido de o chamar à divina presença, ao contrário dos ateus que se limitam a morrer quando a vida se extingue. (...)
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25.7.12

Genial!

Rua José Falcão
 
 Av. Almirante Reis
Av. S. João de Deus
Estes estabelecimentos resolveram o problema relacionado com o género da palavra "grama" (algo que faz muita confusão aos analfabetos) afixando, bem perto uma da outra, as duas versões...

A máquina de nos levar à certa

Por Ferreira Fernandes
PUBLICOU-SE ontem um estudo internacional da Fundación BBVA sobre cultura científica. Em onze países, EUA e dez europeus (Portugal não entrou), considerou-se a investigação como o motor do progresso. Mas os resultados são pouco credíveis, e não só por o BBVA ser banco e espanhol e, por estes dias, os bancos espanhóis terem é de se calar. 
A minha principal objeção vem da lista dos inventos da era moderna escolhida pelas 1500 pessoas ouvidas em cada país: à cabeça, medalha de ouro do maior dos inventos, está a máquina de lavar roupa! A ordem do pódio foi: a "lavadora" (como se diz em castelhano), a anestesia e a bicicleta. Esta, à frente do comboio, avião e automóvel. Como se os inquiridos, no dia em que precisarem de uma anestesia urgente, preferissem ver chegar uma bicicleta a uma ambulância. 
Mas o extraordinário é mesmo o lugar cimeiro da "lavadora". Todas as grandes invenções humanas, embora motor de progresso, já foram, até pela sua enormidade, causa de desgraças. Aviões (bombardeiros), pesticidas (desertificações), Internet (devassa da vida privada) trouxeram grandes desvantagens a reboque dos seus grandes méritos. Ora a máquina de lavar roupa só matou alguns gatos em experiências parvas. Pô-la à cabeça da civilização vale a felicidade, porque então a máquina de lavar não existia, de Beatriz Costa na aldeia da roupa branca. 
Decididamente, os estudos dos bancos querem parecer filmes ingénuos.
«DN» de 25 Jul 12

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A "paciência" terá limites?

Por Manuel António Pina
EM POUCOS dias, já são dois os bispos a sair da sacristia, onde era suposto deverem estar confinados a tratar em dedicação exclusiva de assuntos divinos, para apontar o dedo acusador a César, responsabilizando-o pela tragédia social que se abateu sobre o país, cuja verdadeira dimensão a Igreja, através da sua obra assistencial, conhece provavelmente melhor do que ninguém.
E se D. Januário Torgal Ferreira falou, referindo-se a alguns membros do actual Governo, de "tipos que lutam pelos seus interesses, têm o seu gangue, têm o seu clube e pressionam a comunicação social", o arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, fala de políticos para quem "muitas vezes e quase sempre, vale apenas o [seu] bem-estar pessoal ou, quando muito, do seu grupo ou partido".
Tudo indica que o primeiro-ministro se terá precipitado quando agradeceu ao bom povo português a "paciência" com que vem suportando as medidas de austeridade impostas ao país pelo seu Governo, a pretexto de uma crise de que são responsáveis e principais beneficiários os "interesses", "gangues", "grupos" e "partidos" de que falam os bispos.
Talvez tenha sido justamente esse agradecimento que, por soar excessivamente a hipocrisia, terá feito saltar finalmente a tampa, já não digo do bom (e, a crer no primeiro-ministro, "piegas") povo português, mas do povo de Deus ou, pelo menos, dos seus representantes. 
«JN» de 25 Jul 12

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Esperar é a nossa sina

Por Baptista-Bastos
AS DECLARAÇÕES dos ministros levam-nos a considerar que, antes da sua auspiciosa aparição, estava tudo errado. Na administração, na saúde, na educação, nas finanças, na gestão vulgar da res publica, a soma era um conjunto de erros grosseiros. Pedro Passos Coelho e os seus surgiram como virtuosos salvadores da pátria. Os "endireita o sítio", como se dizia daqueles iluminados, tidos como pouco místicos e nada existenciais, que actuavam de sarrafo e sem credo.
Será que os governantes que os antecederam eram gente sem talento, sem grandeza e desprovidos da mais leve centelha de competência? Com uma ligeireza que raia a mais vil malevolência, quando os adversários estão no poder são os piores que há, e eles, os que chegaram, irão melhorar consideravelmente as coisas e a nossa vida.
A verdade é que, ainda ontem, as notícias divulgadas (porque numerosas são as omitidas) dizem que o défice aumenta; vai haver manigâncias para novos aumentos de impostos; o número de desempregados atingirá níveis ainda mais preocupantes do que os de agora, e manter-se-ão os subsídios de férias e de Natal para um grupo seleccionado de inconfundíveis. O denominado "desenvolvimento consistente", apregoado por esta clique no poder, configura uma triste facécia, ainda por cima apoiada pelas frases amigas do dr. Cavaco. E a perspectiva de alteração não é de molde a regozijarmo-nos.
O conceito de Europa foi desagregado pelas debilidades da própria utopia. O poder dos mais fortes impôs-se, uma vez ainda, com punições e castigos (por exemplo à Grécia) que dissolvem qualquer esperança de reconstrução das ideias generosas dos fundadores. Melhorou tudo para os poderosos e piorou tudo para os mais fracos. O capitalismo venceu e robusteceu-se; perderam todos aqueles que, um tanto ingenuamente, pensavam ter alcançado um mundo equilibrado.
Os vencedores estão por todo o lado. Infiltraram-se nas empresas, nas companhias, no Estado. Estão nas faculdades, nas decisões, nos aparelhos ideológicos de comando. E, habitualmente, não são os melhores. Dir-se-á que sempre foi assim. Apenas presumíamos que, com a democracia, a sociedade melhoraria na forma e no conteúdo. O «homem novo» foi um embuste político, cultural e moral. Tudo piorou, até se chegar à degradação actual. Passos Coelho e o seu Governo são uma consequência directa, não um incidente à espera de acontecer. Fomos nós quem o permitiu. O voto comporta estas surpresas e estas contradições. Mas é o que há.
Não acredito, seriamente não acredito, que este Governo caia antes de tempo. Aliás, o PS não me parece muito interessado em antecipar a queda. A situação é tão grave, a estrutura social é tão preocupante, que aos socialistas resta esperar. Esperar quê? Que o tempo resolva o que, neste momento, os políticos não conseguem. 
«DN» de 25 Jul 12

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24.7.12

Educação e Desenvolvimento Económico

Por Maria Filomena Mónica
TODOS os dias surgem notícias de que há licenciados escondendo as suas habilitações a fim de arranjar trabalho. Não me venham dizer que não preveni os meus compatriotas: fi-lo, não uma, nem duas, mas uma centena de vezes. De quê, perguntar-me-ão? Dos perigos de se imaginar que mais escolaridade significava automaticamente mais desenvolvimento. Acredito que o engº Sócrates e o Doutor Cavaco Silva – à sua maneira, ambos analfabetos – não me tenham lido, mas lamento que a elite intelectual não dedicasse algum do seu precioso tempo a reflectir sobre a relação entre escola e crescimento. Só a Historia é capaz de explicar os motivos por que um país se desenvolve e por que outro estagna, mas em vez de assim terem analisado a questão, os políticos preferiram olhar devotamente as correlações que um punhado de economistas lhes pôs diante do nariz. O resultado está à vista: os adolescentes estão desesperados, os seus pais melancólicos e Portugal inteiro atónito.
Quem imaginou que o desenvolvimento económico se obtém apenas aumentando a escolaridade – a proverbial tese da esquerda – estava enganado. Em 1909, Léon Poinsard, um pioneiro da Sociologia, veio a Portugal. A conclusão a que chegou foi a seguinte: «A nação portuguesa é pequena e, além disso, pobre». Em grande medida, o diagnóstico mantem-se. Com raras e nem sempre honrosas excepções, a atitude oficial foi a de que o atraso nacional derivaria da existência de uma mentalidade retrógrada, susceptível de ser tratada a doses crescentes de instrução. A ser isso verdade, o recente investimento público no campo da educação deveria ter dado frutos. De facto, nos quarenta anos, entre 1970 a 2010, a percentagem do PIB conferida ao sector passou de 1,5% para 5%, um aumento significativo. E que vemos? Uma crise sem precedentes.
Num livro intitulado «Does Education Matter?», Alison Wolf critica os mitos relacionados com a educação, comparando dois países - o Egipto e a Coreia do Sul – que haviam investido somas avultadas neste sector. No final, verificou que tinham obtido taxas de crescimento bastante diferentes: entre 1960 e 2000, o primeiro apenas crescera 2% ao ano, enquanto, no segundo, a taxa ascendia a 7%.
Deus, ou alguém por Ele, dotou-nos de um solo infértil, de rios pouco navegáveis e de um mercado nacional desprezível. Isto para não falar da classe dirigente. Basta recordar D. Afonso Henriques, um jovem, como hoje se diria, problemático, para se notar quão antigo é o problema. Passada a febre do oiro, do incenso e da mirra, logo o dinheiro começou a rarear. Em 1974, o país estava, como de costume, na chamada cauda da Europa.
A terminar, peço que não me venham maçar com a acusação de que defendo o analfabetismo. O que digo, o que sempre disse, foi que a escola pode, e deve, oferecer muitas coisas, mas que, por si só, não conduz à riqueza das nações. Quem tal apregoou devia ser investigado pela DECO. 
«Expresso» de 21 Jul 12
 

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O fato novo do Rei

Por Manuel António Pina
QUEM, como eu e a generalidade dos portugueses, não percebe nada de Finanças nem consta que tenha biblioteca e ouve repetidamente dizer, ao fim de um ano de inauditos sacrifícios, desemprego, miséria e fome, que "estamos no bom caminho", acabando por descobrir que afinal, em Março, a dívida pública portuguesa cresceu mais 26 mil milhões em relação a Março de 2011 (reinava então Sócrates, cognominado pelo actual Governo de "o Gastador"), perguntar-se-á legitimamente onde irá dar o "bom caminho".
Mas talvez, quem sabe?, seja assim que se combate a dívida, aumentando a dívida. Como o desemprego se combate facilitando e embaratecendo os despedimentos e destruindo emprego.
Dir-se-á que nem eu nem os portugueses mais pobres cuja existência tem sido imolada no altar da dívida, somos economistas, do mesmo modo que o menino que não conseguiu ver a fatiota invisível do Rei e gritou "O Rei vai nu" não era, obviamente, alfaiate. Mas quem escute as homilias diárias dos alfaiates da política de austeridade demonstrando, mediante equações só acessíveis a pessoas inteligentíssimas e com vastas bibliotecas, que "não há alternativa", esperaria ver o Rei, já não digo com sapatos novos, mas ao menos um pouco mais apresentáveis do que há um ano.
Sobretudo depois de, em Janeiro, o alfaiate-mor ter anunciado no Parlamento que 2012 seria o "ano de viragem económica para o país".
«JN» de 24 Jul 12

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Tão estranho e demasiado perto

Por Ferreira Fernandes
ESQUEÇA o noticiário, são pormenores que só atrapalham. O essencial sobre o que se passa na Síria: há os sunitas da Arábia e há os xiitas do Irão. Bachar al-Assad, o ainda líder sírio, tem pouco a ver com o ayatollah Khameini, líder do Irão, basta ver as mulheres de ambos. A primeira com cara destapada e os cabelos soltos; a segunda, que nunca foi vista, sem uma só foto, nem se lhe conhecendo o nome. Mas hoje eles estão juntos: são xiitas. 
Já ao Rei Abdallah pouco lhe interessa que Khameini lhe seja próximo, tão socialmente conservador e tão crente: para o saudita, hoje o iraniano é tão inimigo quanto o sírio, porque ambos são xiitas e ele é sunita. 
Dois lados, como num Benfica-Sporting. Arábia Saudita, Qatar, Emiratos, de um lado - sunitas. Irão, do outro. A minoria síria, à qual Al-Assad pertence, xiita, tem apoio do Irão. A maioria síria, sunita, tem apoio da Arábia e vai ter o poder, em breve. Resultado deste desafio: perdem os xiitas. 
Há um desastre humanitário que todos os dias nos é relatado pelos jornais e há também uma mudança histórica naquele tabuleiro - não podemos fazer nada com um nem com outra. Mas, ao menos, que não nos escapem as regras do jogo (sunitas contra xiitas e vice-versa), porque o campeonato é para durar. 
Eu ia dizer que parecemos amadores com telescópio a ver choque de estrelas, não fosse a forte probabilidade de restos das explosões virem ter connosco. 
«DN» de 24 Jul 12

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23.7.12

 Foi com grande pena que, ontem, pude constatar ao vivo que nem a multi-centenária Igreja de Cedofeita escapa aos grafiteiros de serviço...

A equivalência da vida real

Por Ferreira Fernandes
ESTAVA o País divertido com o escândalo de uma licenciatura, quando surgiu a notícia de que os soldadores ganham mais do que os engenheiros. Nada que Woody Allen não tivesse já dito: "Não só não acredito em Deus como não consigo encontrar um canalizador ao fim de semana." 
Voltando à notícia: há anúncios a oferecer 834 euros/mês a um tratorista agrícola, em Viana do Castelo, e 485 a um engenheiro agrónomo, em Trancoso; 
800 para um montador de tubagens, em Valença, e 600 para um engenheiro mecânico, em Lousada... 
E assim por diante, sempre com a mesma relação, quanto mais canudos menos equivalências no ordenado. 
Nada como a vida para inventar ironias: no momento em que as licenciaturas atingem o pico da fama, tiram-se-lhes créditos na folha salarial... A notícia, que no fundo é uma comparação entre licenciados e profissionais qualificados, dá boas lições, a uns e a outros, apesar das ofertas baixas de salários. 
Os com canudo deverão ver no balde de água fria dos 500 euros uma pós-graduação: ficam a saber (na pele, que às vezes permite o mais profundo dos saberes) que licenciado não é, ainda, ser um profissional qualificado (quem vier a sê-lo, tirará o melhor partido dos anos de estudo). Por seu lado, os não licenciados, com esta histórica inversão salarial, talvez venham a ser mais respeitados. No dia em que ouvirmos no restaurante "ó Firmino, arranja uma boa mesa aqui para o sr. serralheiro", Portugal chegou lá.
«DN» de 23 Jul 12

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O preço de sermos "bons"

Por Manuel António Pina
DEPOIS de a terem "desanimado" com medidas cegas de austeridade que limitaram dramaticamente a procura interna, a "troika" e o Governo estão agora preocupados em "animar a economia".
"Animar a economia" significa aumentar as expectativas de lucro daquela parte do patronato ainda não satisfeita com despedimentos fáceis e baratos, mais dias de trabalho, "bancos de horas", desregulação laboral, etc.. Isto quando, já em 2011, os custos do trabalho em Portugal (12,1 euros/hora) eram substancialmente inferiores a metade da média da zona euro (27,6 euros/hora).
A ideia é reduzir, no OE de 2013, a TSU paga pelo patronato, de modo a "animar" com mais 840 milhões de redução dos custos do trabalho quem, ao mesmo tempo que constantemente clama por "menos Estado", sempre se habituou, desde os idos da lei do condicionamento industrial, a viver à sombra da árvore das patacas públicas.
O FMI "admite" ir buscar esses 840 milhões ao aumento das taxas reduzidas de IVA que hoje incidem sobre alguns bens essenciais: carne, peixe, cereais, ovos, leite, azeite, legumes, jornais, livros e medicamentos. Já que, como diz o "troiko" Jurgen Kröger, ao contrário da Grécia e da Espanha, em Portugal "as pessoas são boas" e não reagem, além de que, como diz Cavaco, "a imprensa é muito suave", assistiremos assim a nova e brutal transferência de recursos dos mesmos de sempre para os mesmos do costume.
«JN» de 23 Jul 12

22.7.12

Das rochas sedimentares (67)

Por A. M. Galopim de Carvalho 

À  SEMELHANÇA da turfa, os carvões húmicos resultam, como atrás se disse, do processo conhecido por humificação ou incarbonização, mas mais acentuado. Como o nome indica, são ricos em húmus (do latim humus, solo) ou humo, o mesmo tipo de matéria orgânica de elevado peso molecular, constituinte essencial do solo, insolúvel nos solventes orgânicos anteriormente citados. Neles se incluem, em especial, o lignito, o carvão betuminoso e o antracito. (...)

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Luz - Da Régua ao Pocinho

 Fotografias de António Barreto- APPh

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Na linha de caminho-de-ferro, da Régua para o Pocinho. Nesta última estação, o caminho-de-ferro termina. Já não vai até Barca d’Alva, muito menos até Espanha. É a Linha do Norte, que começa no Porto, em S. Bento ou na Campanhã, e ia até Espanha, recebendo ainda passageiros das linhas “afluentes” do Tâmega, do Corgo, do Tua e do Sabor, todas fechadas, condenadas, abandonadas e destruídas. É uma das mais belas linhas de comboio do mundo, com dezenas de quilómetros à beira do Douro, por vezes a meia dúzia de degraus ou poucos metros do rio. Traçada entre vales e vinhas, serviu, durante um século, gente e mercadoria e sobretudo vinho e materiais para a vinha. Afastou os barcos rabelos, foi afastada pelos camiões e pela estrada. Em qualquer parte do mundo, pelo menos nos países civilizados onde houvesse linhas de caminho-de-ferro como estas, sobretudo as do Douro e do Tua, tudo seria feito, em nome da cultura, da qualidade de vida, do turismo decente, da história, da decência, do ambiente e da estética, para que fossem preservadas. Não é assim entre nós! Triste sina!

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Leituras para um verão incendiado

Por Ferreira Fernandes
ESTÁ quase tudo nos livros. Neste caso, num dos mais belos livros escritos na nossa língua, Luuanda, de Luandino Vieira. Zeca Santos, garoto estouvado dos musseques, anda sem trabalho, o pouco dinheiro de biscates ele gasta com camisa e regressa esfomeado à cubata onde vive com a avó. Há dois dias que não comem, a velha até já tentou cozer raízes de dálias. Nessa noite, porém, Vavó Xíxi dá uma esperança ao miúdo: "Olha só, Zeca! O menino gosta peixe de ontem?" Zeca Santos até passa a língua pelos beiços secos, suspira: "Vavó sabe que eu gosto. Peixe de ontem..." Então, a velha diz: "Se gosta peixe de ontem, deixa dinheiro hoje, para lhe encontrar amanhã..." 
Ontem, uma bela moradia da Camacha estava invadida de gente, donos e vizinhos tentavam afastar as chamas das traseiras. Aquela casa era a mais próxima do fogo, mas toda a fileira de vivendas dava as costas para mato bravio. Os bombeiros ainda não tinham chegado, rapazes atiraram-se para a piscina e passavam baldes de água para as mulheres e homens que defrontavam o incêndio. Depois do muro era mato seco e árvores de copas juntas, tudo varrido por línguas de fogo. 
Se no outono e inverno se abrissem caminhos nos terrenos baldios e na primavera se limpasse o mato, encontrar-se-ia, amanhã, o verão de que se gosta. Isso diria a Vavó Xíxi, tão longe e tão certa.
«DN» de 22 Jul 12

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21.7.12

Como Lisboa acarinha a calçada de que diz orgulhar-se

Estas fotos, tiradas ontem (na Rua Augusta e na Rua do Ouro), foram 'enriquecer' a colecção de horrores que pode ser vista [AQUI]. Felizmente para os analfabetos a quem estes trabalhos são entregues (a quem se juntam os que acham que estas coisas não têm qualquer importância), os turistas não olham muito para o chão...

Uma jornada de rapazes malucos

Por Ferreira Fernandes
ONTEM, pela manhã, vinha uma mulher de cabelos ao vento correndo por uma rua de Gravesend, Inglaterra. Anna Skora, de 23 anos, era de Lublin, no leste da Polónia. Gravesend, que na Guerra dos Cem Anos foi saqueada por uma esquadra castelhana e na II Guerra Mundial bombardeada pela Luftwaffe, ontem era um lugar de amizade entre os povos. A tocha olímpica que Anna segurava celebrava esse conceito bom - e estranho, de tão recente. Foi então que saltou do passeio, cheio de gente a aplaudir, um jovem que gritava: "Alá é grande!" Ele quis agarrar a tocha, mas foi manietado pelos guardas que protegiam Anna e deitado com as trombas para o asfalto. Pouparam-no de ver que a mulher de cabelos ao vento e sorriso descoberto nem se assustou e prosseguiu a corrida, orgulhosa por ter vindo de tão longe e sentir-se entre os seus. 
Horas antes, em Denver, nos Estados Unidos, num cinema que estreava o novo filme de Batman, um rapaz mascarado de Bane, um dos personagens maus, começou a atirar balas reais e a atingir gente real - 12 mortos e mais de 50 feridos. 
A questão é: quem, dos dois rapazes, mais depressa cairá na realidade? O maluco de Denver, dando-se conta de que o seu vilão só devia ser de filme e de banda desenhada? Ou o de Gravesend, convencendo-se de que o seu Alá que nem consegue deter a corrida de uma mulher de cabelos ao vento e sorriso descoberto não é tão grande como isso? 
«DN» de 21 Jul 12

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Apontamentos analfabéticos

20.7.12

Um «esquerdista» chamado Álvaro

Por Alfredo Barroso 
CRITICANDO os presumíveis «esquerdistas» que insistem na necessidade de Portugal renegociar e reestruturar a dívida pública, um famoso sociólogo outrora estalinista e agora ao serviço de um grande merceeiro perguntava, com arrogância e displicência, sentado à mesa quadrada de um debate na televisão: «Renegociar? Mas renegociar o quê?». O sorriso cúmplice dos seus parceiros de mesa confortou o famoso sociólogo na ideia de que tinha acabado de fazer uma pergunta genial e, no mínimo, arrasadora para a canalha esquerdista que por aí prolifera. (…)
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Tempos modernos

Por Ferreira Fernandes
NOTÍCIA dos nossos dias, no El Mundo, sobre Humilladero, vila andaluza perto de Málaga. O jornal não diz, mas em castelhano antigo "humilladero" era o lugar onde os camponeses eram julgados pela caça furtiva nas terras do senhor. Frente ao cruzeiro, o homem ouvia o castigo, de joelhos, humilhado. 
Em 1930, na Andaluzia, diz El Mundo, três por cento dos proprietários controlavam 48 por cento das terras. Também por causa dessa desproporção, aconteceu uma guerra civil, veio o franquismo e, finalmente, a democracia. 
Em 2012, na Andaluzia, os tais três por cento (ou filhos deles) controlam... 55 por cento das terras. Hoje, um em três dos habitantes de Humilladero não tem emprego. Mas isso são estatísticas. Vamos à carne e ao grito: "Saiu-nos a nós, Maria, saiu-nos a nós!", diz El Mundo que Antonio Ruiz disse à irmã, por estes dias. Parecia que lhes tinha saído o Euromilhões ou El Gordo, mas não. Era lotaria, mas de emprego. Há meses, à câmara de Humilladero vinha uma pessoa por dia pedir ajuda; agora, vêm oito por dia. A câmara decidiu remediar, dá empregos por um mês e a 600 euros. Com esta bizarria: como são 300 pedidos por um posto, faz-se uma tômbola no salão da câmara. Foi isso que ganharam António e Maria, saiu-lhes na rifa emprego efémero de jardineiro e de trolha. A "alcadesa", que faz o que pode, chama-se Noelia Rodríguez Casino. Não me apetece fazer ironia com o nome, tenho a foto dos dois irmãos olhando-me a quatro colunas. 
«DN» de 20 Jul 12

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Bica, bagaço & factura

Por Manuel António Pina
ESPERO que o Ministério das Finanças não deixe de patentear a rede de pesca fiscal que laboriosamente desde há um ano vem tecendo, de trama dir-se-ia fisicamente impossível: apanha sardinha miúda e carapau do gato e deixa passar o peixe graúdo. O segredo está no material usado, inteiramente de concepção neoliberal nacional: uma legislação fiscal labiríntica e imune a investidas débeis e desorganizadas mas que facilmente dá de si quando o "investidor" é de peso.
Agora, depois de, com o fim das deduções de despesas de saúde em sede de IRS, ter poupado os consultórios médicos privados à maçada da passagem de recibos, o Governo assesta as armas pesadas para o pequeno café da esquina, a cabeleireira de bairro, o biscateiro do fim da rua. Imagino que Passos Coelho tenha, numa das suas saídas pelas traseiras, entrado em alguma tasca de vão de escada para tomar uma bica, observando à saída, indignado, a Vítor Gaspar: "Viste que a velha não me passou factura? Agora como vou meter os 50 cêntimos nas despesas?".
Assim, a partir de 2013, ou a velha passa factura ou pagará 3000 euros de multa. Toda a gente, até a velha, consideraria isso mais que justo se processos de milhões como os de Américo Amorim ou Soares dos Santos não se arrastassem nos tribunais fiscais sem fim à vista ou se as Finanças não se tivessem desinteressado de colectar as luvas do "caso dos submarinos".
«JN» de 20 Jul 12

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19.7.12

Empresa de restauros...

O que eles fizeram pelas Ciências da Terra (24)

Arthur Holmes(1890 - 1965)
Por A. M. Galopim de Carvalho
FÍSICO e geólogo britânico, foi discípulo de John William Strutt, mas trocou a física pela geologia, tornando-se um dos mais ilustres geólogos do século XX. Pioneiro da geocronologia isotópica, salientou a importância desta via de investigação, e aplicou o método urânio/chumbo (de Bertram Boltwood) na datação de uma rocha do Devónico da Noruega, que lhe permitiu atribuir, em 1911, a idade de 370 Ma. Foi o primeiro responsável pela revisão e aperfeiçoamento da escala do tempo geológico (escala cronostratigráfica). (...)
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D. Januário e os outros

Por Manuel António Pina
QUE, como há 50 anos, um bispo tenha de novo erguido a voz, fazendo "política" em vez de se remeter à sacristia, eis o escândalo que agita hoje esta espécie de tempos democráticos e de liberdade de expressão em que vivemos.
Também em 1958 a Igreja institucional se demarcou da carta do bispo do Porto a Salazar. Revelaria mais tarde D. António que até "da Cúria vaticana alguém [lhe] disse: "Bem sabemos que isso é doutrina da Igreja; mas se, de um lado e de outro sabemos isso, para que estar a pregá-lo?".
Em muitos aspectos, essa carta é hoje de novo singularmente actual: voltaram à rua o "mendigo, o pé-descalço, o maltrapilho, o farrapo (...), os subalimentados"; e o "financismo 'à outrance'", o "economismo despótico", o "benefício dos grandes contra os pequenos", o "ciclo da miséria" são outra vez "o centro da Nação".
Por isso, mais actuais que nunca são também os versos de Sophia: "Porque os outros se mascaram mas tu não/ Porque os outros usam a virtude/ Para comprar o que não tem perdão./ Porque os outros têm medo mas tu não./ Porque os outros são os túmulos caiados/ Onde germina calada a podridão./ Porque os outros se calam mas tu não./ Porque os outros se compram e se vendem/ E os seus gestos dão sempre dividendo./ Porque os outros são hábeis mas tu não./ Porque os outros vão à sombra dos abrigos/ E tu vais de mãos dadas com os perigos./ Porque os outros calculam mas tu não". 
«JN» de 19 Jul 12

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Varridos pela História

Por Ferreira Fernandes
EM 1989, eu estava em Tsumeb, uma vila do Norte da Namíbia, país à beira da independência, à beira da dúvida plena para o homem branco que me perguntou se podia sentar-se à minha mesa. Se o melhor da Namíbia são os seus desertos, Tsumeb servia de oásis: o nosso hotel tinha uma varanda interior cercando o andar único e dando para um jardim de buganvílias. 
Não houve diálogo mas eu adivinhava a origem inglesa do homem pela pronúncia da pergunta inicial e pelos calções e meias até aos joelhos, um branco daquela África. Depois de muito silêncio, ele perguntou de onde eu era. "Lá de cima, de Angola", respondi. Ele fez que sim com a cabeça e disse: "Então, você já sabe." 
Dez anos depois, em 1999, eu estava no Kosovo, em vésperas da independência. Os jardins do mosteiro ortodoxo de Decani estavam cheios de refugiados sérvios. Dos grupos que tentavam contactar as quintas assaltadas, por vezes saltava um grito de mulher, desesperada pelo silêncio que respondia aos apelos da rádio. Um sérvio grande agarrou-me para um pedido: que eu fosse a Pec, cidade vizinha, ao apartamento tal, para saber do irmão, acamado, que ele abandonara na fuga. 
Hoje, 2012, não estou na Síria. Se lá estivesse, saberia ver, claro, a razão dos revoltados. Mas também não deixaria de deitar um olhar para os alauitas, a minoria a que pertence o atual poder e que vai ser varrida pelos ventos da História. 
A demografia é uma arma poderosa e pouco generosa. 
«DN» de 19 Jul 12

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Dr. Miguel Relvas, um caso exemplar

Por C. Barroco Esperança
NÃO consta do currículo que o ministro apresentasse a esse areópago do saber e da ética – a Universidade Lusófona –, a falsificação de moradas que lhe tornou mais suculento o vencimento de deputado e que certamente lhe poderia dar equivalência a maratonista. O dom da ubiquidade, com quatro moradas diferentes, três em Tomar e uma em Lisboa, ainda o há de conduzir à santidade dado que a Santo António bastaram duas, Lisboa e Pádua, para o elevarem aos altares.(...)
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18.7.12

O bispo que não se esconde

Por Manuel António Pina
O QUE o bispo D. Januário disse na TVI não foi, como clama o jornalismo de "soundbyte", que "este Governo é profundamente corrupto". Disse que "há jogos atrás da cortina, habilidades e corrupção, este Governo é profundamente corrupto nestas atitudes a que estamos a assistir". Há uma diferença essencial. E há uma desonestidade igualmente essencial quando se retiram da frase algumas palavras omitindo o resto.
Por coincidência, no mesmo dia o vice-presidente da Transparência Internacional afirmava que os envolvidos nas privatizações da EDP e da REN devem ser chamados a responder pelo que se terá passado "atrás da cortina". E, no dia anterior, fora noticiado que a PJ e o DCIAP fizeram buscas nos bancos ligados a essas privatizações, não decerto por estarem seguros de que tudo se terá passado sem as "habilidades" ou sem a "corrupção" de que fala o bispo.
A reacção do ministro Aguiar-Branco, tomando as dores dos "alguns" a quem D. Januário insistentemente se reporta, traiu-o: mandou o bispo escolher entre "ser bispo (...) e ser comentador político". O mesmo que Salazar queria que D. António Ferreira Gomes fizesse.
E imagino o que diria Aguiar-Branco se D. Januário também tivesse, como o bispo do Porto, condenado o "financismo 'à outrance'", o "economismo despótico", o "benefício dos grandes contra os pequenos", a "opressão dos pobres" e o "ciclo da miséria" hoje promovidos pelo Governo. 
«JN» de 18 Jul 12

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Jornal declara guerra à chuva

Por Ferreira Fernandes
OS EDITORIAIS dos jornais costumam ser lugar para dar lições. Os políticos devem ser honestos, os povos, ordeiros, e as grandes potências, respeitadoras das mais frágeis. 
Um bom editorialista deve ser canhoto, segurando a caneta com a esquerda para que o indicador direito fique livre para, espetado, indicar o caminho certo. Por isso a meteorologia nunca é falada em editoriais. Como exigir que chova no nabal e haja sol na eira? As nuvens, ou a falta delas, são livres e não sujeitas a lições de moral. Daí a admirável (porque inusitada) campanha do jornal britânico The Times, sempre centenário mas cada vez menos conservador, que ontem exigiu em editorial: "Este não é, simplesmente, o tempo que o país quer." Em jeito de: ou isto muda ou partimos para manifestações... 
A campanha do jornal pela melhoria do tempo começou há uma semana e intensifica-se agora que se aproxima a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres. O Times começou por confiar no Dia de St. Swithin, 15 de julho, do qual a tradição diz "se é seco, assim será por 40 dias." Choveu. O jornal não desistiu: "Onde o St. Swithin falhou, The Times vai ter sucesso", escreveu-se ontem no editorial. 
Aberto a negociações, o jornal diz que admite que o mau tempo não acabe de repente, mas é duro nos prazos: quando chegarem os jogos, acabaram as brincadeiras. E o editorial remata: "Se houve uma primavera árabe, tem de haver um verão britânico." Como não gostar de um povo assim?
«DN» de 18 Jul 12

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A pátria empobrecida

Por Baptista-Bastos
E DE REPENTE, este vazio cheio de vozes inúteis. "Apetece cantar e ninguém canta / Apetece gritar e ninguém grita..." Escreveu Miguel Torga. O desespero era semelhante ao de agora porque a mão do medo entravava a condição de todos. Os acasos da fortuna, os equívocos da época e as ambiguidades de carácter de muitos homens embrulharam-nos neste sudário. Repete-se a história dos lutos portugueses. Os espanhóis Unamuno e Ortega falaram do nosso infortúnio. O primeiro com terna simpatia; o segundo com displicente desprezo. Unamuno tentou compreender-nos. Ortega observou-nos com azeda desconsideração.
Olhamos em volta. Talvez mereçamos ambas as perspectivas. A qualidade da existência colectiva, acaso possa medir-se nessa dualidade. Elegemos quem nos faz mal por excesso de incoerência e vocação para o infausto. A História está repleta desse mal-entendido vital. Mas poucas vezes, como agora, estivemos no interior do círculo concêntrico da angústia sem saída.
O projecto de empobrecimento de Pedro Passos Coelho enfraqueceu, sobretudo, a nossa alma. Mas a diminuição projectada para os outros diminuiu quem a executou. Ou, melhor: quem a executou está desprovido da grandeza exigida aos que dirigem e decidem. Observemos os rostos desta gente: reflectem a génese dos que não possuem força natural, e mais não são do que expressões servis e inconsistentes. Gil Vicente narrou-os e ao espírito que os anima, antes de qualquer outro. Camilo e Eça remataram o retrato. São filhos, netos e bisnetos dos que se julgam sacramentados pelo direito divino, e não têm de dar satisfações pelos seus actos. Quando alguém se ergue, através do trabalho, do talento e da vontade, para tentar modificar as coisas, logo ressuscitam os velhos e malditos poderes. "O país é pequeno, e não maior a gente que o habita." A frase é atribuída a Herculano, que desistiu com um parágrafo terrível: "Isto dá vontade de morrer!"
As balbúrdias morais que por aí se cometem e circulam têm servido de pretexto ao anedotário. Mas o assunto não dá para rir. Ele revela o estado de irresponsabilidade doentia a que Portugal chegou. E não creio que consigamos sanar a endemia com facilidade. O mal propagou-se, e os que ficam ao lado desta miséria, sem querer salpicar-se, por inércia ou receosa precaução, demitem-se do civismo que constrói a cidadania. Sei muito bem que estes princípios e padrões de comportamento são tidos como anacronismos. E talvez nem todos sejamos virgens impolutas. Porém, não esqueçamos de que a enxurrada arrasta tudo e todos.
Ao deixar de ouvir as nossas sociedades civis, o Governo sobreviverá até que o PS encontre uma alternativa (António José Seguro, averiguadamente, não o é) e redescubra a sua natureza ideológica. E cuja matriz toda a gente, na realidade, ignora. Entretanto, a pátria está de mão estendida.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
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«DN» de 18 Jul 12

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Publicidade subliminar?

Senso comercial é isto: uma empresa que faz mudanças anuncia os seus serviços afixando autocolantes sobre cartazes que as exigem...

17.7.12

Férias grandes

Por Alice Vieira
JÁ NÃO sabia as vezes que tinha feito, desfeito e refeito a mala.
- Raio de tempo… - murmurou.
O marido largou o jornal e as palavras cruzadas e sorriu:
- Ninguém te entende…Se chove é porque chove, se faz sol é porque faz sol…
Deixou-se cair no sofá. Não era nada disso e ele sabia.
- O que eu queria era o tempo certo. Fiável. Dantes, quando íamos de férias no verão, levávamos roupa leve, um guarda-chuva, vá lá, por mera precaução, mas nunca enchíamos a mala de camisolas, casacos, meias… (...)
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Mais papistas que o papa...

Já se sabe que, com o Novo Acordo Ortográfico, certas palavras que dantes se escreviam com maiúsculas (como os nomes dos meses e das estações do ano) perderam essa característica. Tudo bem; mas fazerem isso com a cidade onde eu nasci é que já me custa a engolir!

Porta Nova (13) - Literatura à mesa, depois do jantar

Por A. M. Galopim de Carvalho
A MESA em que nos reuníamos às refeições, com duas abas que se abriam, mal chegava para tanta gente, tantos braços mexer e bocas a comer e só algumas a falar, tanto banco e tanta cadeira a gemer. Ao todo éramos nove, pai, mãe, seis filhos e a tia Cecília, irmã da minha mãe, viúva e sem filhos, a viver connosco.
– Come, Lourdes! Está calado, Mário! Tem juízo, Chico, não irrites a tua irmã! Essas batatas são para comer até ao fim! Não ficam aí no prato! Não se come uma azeitona de uma só vez! Não se trata assim uma coisa que leva um ano a criar! À mesa não se fala! Tu, aí, põe-te direito na cadeira, e chega-te para a frente. – Era assim todos os dias, duas vezes ao dia. (...)
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Lá vamos cantando e rindo

Por Ferreira Fernandes
BANDIDOS! Não lhes custa a ganhar, por isso o gastar é à fartazana. 22 milhões, quais 22?, mais, 22,58 milhões, isso sim. E por uma invenção! Gripe das aves, tá bem, tá, patos fomos nós todos. Qu'ela vinha aí, era mortos por todo o lado, vai daí tinha de se comprar o tal Tamiflu... Viste a gripe? Viste-la? Pois, e também não viste os laboratórios a untar certas mãos... E agora as vacinas vão para o lixo. Olha aqui o título do "Correio": "Negócio secreto." Epidemia da treta! Agora, são as desculpas do costume: que era a Organização Mundial de Saúde a garantir que a gripe era certa. Mas, claro, o que ninguém disse é que a OMS estava feita com os lambões lá do ministério. Bandidos! [Excertos de conversas de café, ontem, tendo tudo passado como se passou, sem grande gripe. 
Segue-se outro cenário.] Bandidos! Os gajos e a família deles, claro, tiveram a vacina. Agora o povo que se amanhe, não há vacina pra ninguém. Mortos por todo o lado, mas são só pobres, não é? E não foi por falta de aviso, a OMS, a própria OMS!, fartou-se de dizer: olhem que esta gripe é ainda pior do que a outra, a espanhola... A OMS, a maior autoridade mundial no assunto. Bastava pouco mais de 20 milhões e estávamos safos... Mas não, pouparam à nossa custa! Este título do "Correio" apetece-me esfregar nas trombas do ministro: "Incúria do Governo mata milhares!" [Excertos de conversas de café, que não aconteceram, nem o título do jornal, porque a gripe também não.] 
«DN» de 17 Jul 12

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Quais "portugueses"?

Por Manuel António Pina
QUANDO ontem aqui escrevi que Cavaco Silva terá dito a um jornal holandês que [os portugueses] foram "demasiado negligentes" e estão hoje a sofrer as consequências de "uma vida fácil", negligente fui eu, que me fiquei pelo "lead" da notícia da RR sobre a entrevista ao "Financieele Dagblad". Na verdade, Cavaco falou de "negligência" a propósito de não terem sido devidamente avaliados os efeitos de o país deixar de ter política cambial própria com a adesão ao euro; e de "vida fácil" a propósito do excessivo investimento em bens não transaccionáveis após essa adesão.
A questão central, no entanto, permanece: a facilidade com que os políticos, Cavaco incluído, afirmam "os portugueses isto", "os portugueses aquilo", omitindo a que portugueses se referem. Ora quem foi "demasiado negligente" e quem viveu e vive "uma vida fácil" não foram "os" portugueses, foram as elites político-partidárias do PSD, PS e CDS que governaram e governam o país, saltando entre o Governo e a administração de grandes empresas, com as quais não raro, no Governo, previamente subscrevem contratos de milhões ruinosos para o Estado.
E quem, por imposição dessas mesmas elites, está a pagar a sua negligência e a sua vida fácil são os "outros" portugueses, principalmente os pobres e as classes médias, cuja vida nunca foi "fácil" e se tornou hoje ainda mais difícil, quando não impossível, de viver.
«JN» de 17 Jul 12

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16.7.12

A malta do "a culpa foi da gráfica"

Versalhes, Versalles ou Versailles é igual ao litro...

A "vida fácil" dos outros

Por Manuel António Pina
OS NÚMEROS são relativos a 2010, ainda antes do PEC 1, PEC 2 e PEC 3, do memorando da "troika" e do Governo PSD/CDS: 18% dos portugueses, segundo o INE, e 25,3%, segundo o Eurostat, estavam em "risco de pobreza", eufemismo estatístico que significa que viviam com menos de 421 euros/mês, ou seja, que eram pobres.
Entretanto, Passos Coelho chegou a primeiro-ministro, clamando que "os portugueses não podem suportar mais sacrifícios". Afinal, podiam: em pouco mais de um ano, o desemprego subiu de 10,8% para 15,2%, foram drasticamente reduzidas as prestações sociais, confiscados, contra todas as promessas eleitorais, os subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas e aumentado o IVA para 23%, subiram para valores incomportáveis as taxas moderadoras no SNS, reduziram-se até à irrelevância as deduções no IRS e IRC e as isenções no IMI, aumentaram brutalmente os transportes, a electricidade e o gás, despedir tornou-se fácil e barato, multiplicou-se o trabalho precário e sem direitos, regressou o trabalho infantil...
Hoje há 1,4 milhões de pensionistas a viver com menos de 500 euros/mês, 550 mil trabalhadores com 485 euros (431,6 após os descontos) e 416 mil desempregados não recebem subsídio de desemprego. Tudo isto, como explicou Cavaco Silva a um jornal holandês, porque foram "demasiado negligentes e estão hoje a sofrer as consequências de "uma vida fácil".
«JN» de  16 Jul 12

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Alguém sabe explicar?

Está à venda este brinquedo que, segundo se lê na tampa da caixa, é uma espingarda que atira um par de jactos de água, mas em hélice dupla. Como é que isso pode ser?

A contrarrevolução têxtil em curso

Por Ferreira Fernandes 
O VÓLEI de praia feminino, apesar de ser olímpico só desde 1996, é desporto que se tornou rapidamente popular. Julgo que por boas razões: 
1) são só duas atletas contra duas, o que dá a sensação do mais simples dos jogos, o duelo (o ténis ainda beneficia mais dessa clareza, que a televisão explora bem); 
2) é praticado só com duas peçazinhas de roupa. 
As voleibolistas, ao contrário, por exemplo, das atletas das provas de marcha e do lançamento de peso, atraem, vá lá saber-se porquê, os responsáveis das edições internacionais da Playboy: em Itália, a olímpica italiana Francesca Piccinini foi capa em dezembro último e, no Brasil, a brasileira Mari Paraíba foi capa este mês. Esse interesse geral confirma-se nos JO de Londres, onde a modalidade tem dos bilhetes mais caros. Mas, preveniu ontem o Sunday Times, as expectativas podem ser goradas. Como o verão londrino vai frio e o vólei feminino será jogado nos campos ao ar livre do Horse Guards Parade, os espectadores arriscam-se a ver, em vez dos tradicionais biquínis, calções a três centímetros acima do joelho e tops com mangas, a nova indumentária que em março foi autorizada pela Federação Internacional de Voleibol. Junte-se isto à autorização agora dada pela FIFA para as futebolistas poderem usar chador e vestes a tapar o corpo inteiro... 
Eu sei que as pessoas estão mais preocupadas com a mudança do clima, mas esta mudança têxtil também não indicia nada de bom. 
«DN» de 16 Jul 12

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15.7.12

Das Rochas Sedimentares (66)

Por A. M. Galopim de Carvalho 
A TURFA, le charbon du pauvre, representa o termo inicial de algumas sequências carbonosas a partir da biomassa depositada em áreas deprimidas e mal drenadas, através da acção de microorganismos e de outros agentes físico-químicos. É o mais pobre e o menos evolucionado dos caustobiólitos. (...)
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