31.1.13

A onda é a nossa Nokia

Por Ferreira Fernandes
GARRET McNamara é só o último de uma linhagem secular: as ondas de Portugal tornam os homens grandes. Ontem, a capa do Times de Londres tinha uma imensa pincelada de verde. Dentro, falava-se do surfista e do recorde, mas o essencial estava na foto da capa: a nossa onda. Amanhã virão mais McNamaras para o nosso Himalaia em movimento, homens que passam. Mas as ondas ficam e repetem-se. O mais importante é que as nossas ondas não são daquelas atrações exóticas, como gôndolas em Las Vegas, compradas por fundos. Elas são autenticamente nossas, fundaram o Portugal que interessou ao mundo. Qualquer exposição sobre Portugal deveria abrir com uma parede larga e alta de 30 metros, a onda. E vendia-se, saindo de conchas ou headphones, os sons da onda de Portugal. A onda é o nosso ADN, o nosso destino e a nossa Mensagem. 
Pensávamos que era relação acabada, coisa antiga, mas ei-la que volta. Como que a reivindicar o que o outro queria para o pastel de nata, ser nossa bandeira, mas com muito mais substância. Peguemos no povo que é tudo o que não somos, os finlandeses das contas certas e da Nokia que nos atiram à cara. Mostremos-lhes a onda. Com eles perplexos, expliquemos: os clássicos tinham a palavra norte como sinónimo de longínquo e extremo. Eles eram o norte, isto é, remotos. Foi com as viagens dos portugueses, aumentando o mundo, que eles se aproximaram. No fundo, nós metemo-los na Europa. 
Quanto vale a nossa onda em royalties
«DN» de 31 Jan 13

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Não é grave... é apenas a malta do "é igual ao litro" a trabalhar.
(Lagos, Janeiro 2013)

Notas soltas: janeiro/2013

Por C. Barroco Esperança
PR – A promulgação do OE 2013, com dúvidas sobre a «justiça na repartição dos sacrifícios», revelou a inexistência da alegada magistratura de influência e, no envio para o TC, mais do que a justiça, deve ter pesado a certeza de que os deputados o fariam.
Marques Júnior – A morte, aos 66 anos, de quem foi o mais jovem membro do Conselho da Revolução e um generoso Capitão de Abril, foi a dolorosa metáfora da perda dos valores de abril por quem despreza a História, a Democracia e a República. (...)
Texto integral [aqui]

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30.1.13

O eterno 'lobby' da vírgula

Por Ferreira Fernandes
HÁ CONFUSÃO com o pagamento em duodécimos. Claro. Uma lei embrulhada é uma boa lei... 
Não conhecem a história do "da" que virou "de"? Um dia, decidiu-se limitar a três os mandatos dos presidentes da câmara. Em 2005, o Governo fez uma proposta de lei sobre mandatos, onde se escrevia "o presidente DA câmara..." E não "presidente DE câmara..." A nuance contava. Estava escrito "da", com a preposição "de" junta ao artigo definido "a" porque se tratava sempre de uma determinada câmara. Dizia-se, pois, que o presidente da câmara de, p. ex., Ovar não podia concorrer ao quarto mandato em Ovar (e só estava impedido em Ovar, não nas outras câmaras). E foi o que aprovou o Parlamento: o decreto de publicação da AR, a 8 de agosto de 2005, também dizia "da". Lá está, era uma lei má: era clara! E quando apareceu no Diário da República (Lei 46/2005 de 29 de agosto) já vinha escrito "presidente DE câmara". Isto é, a lei promulgada (mas não votada) passou a ambígua, colocando a hipótese de um presidente de câmara não poder concorrer a um quarto mandato onde quer que fosse. Uma boa lei, manhosa, pedindo pareceres. A confusão estava instalada e a Comissão Nacional de Eleições teve de fazer uma reunião extraordinária para interpretar a lei... 
Não tratei aqui sobre o que é certo, impedir quatros mandatos só na própria câmara ou em todas. Confirmo é que havendo alternativa entre lei clara e confusa, prefere-se sempre esta. Cherchez le juriste... 
«DN» de 30 Jan 13

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Não é grave... é apenas a malta do "é igual ao litro" a trabalhar.

Deviam ter ido à catequese!

Por Joaquim Letria
“AS IDEOLOGIAS do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam (…) a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado”, criticou Bento XVI numa mensagem urbi et orbi, na qual acrescentou:
"Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime, inclusivamente, num capitalismo financeiro desregrado”. E o Sumo Pontífice disse ainda: 
“O liberalismo radical e a tecnocracia querem que o crescimento económico se consiga mesmo à custa da erosão da função social do Estado, e das redes de solidariedade da sociedade civil. O trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não são adequadamente valorizados”. 
Entre outras frases, o Papa proclamou “ser necessário um novo modelo de desenvolvimento e uma nova visão da economia”. Se o chefe da Igreja Católica já vai aqui, onde poderiam ir os sociais-democratas e os democratas cristãos!? Que pena que os nossos não tenham ido à catequese das “Js” onde aprenderam tão pouco!

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29.1.13

Sei lá se é racismo? Sei, não é!

Por Ferreira Fernandes 
VAMOS lá à polémica de brancos parolos. 
Arménio Carlos disse: "Vêm aí outra vez os três reis magos: um do BCE, outro da CE e o mais escurinho, do FMI." Estalou a indignação: racismo! Ora racismo é generalizar uma condição negativa a um grupo ou povo. Sobre Obama, Berlusconi disse-o "bronzeado". Basta ver como Berluscuni cuida da sua tez para saber que "bronzeado" era elogio e, no entanto, alguns dos que defendem hoje o líder da CGTP não se privaram então de acusar o italiano de "racismo". 
É habitual que as culpas e as desculpas sejam deitadas segundo a conveniência. Carlos podia chamar "escurinho" a Selassie, como "bochechas" a Soares. Não será delicado sublinhar uma característica física de alguém, mas deixo isso para Paula Bobone. Carlos nem se equivocou chamando "negro" a Selassie: o termo negro é usado para os povos melano-africanos, a que não pertencem os etíopes. Abebe Selassie é o escurinho, como o outro da troika é o careca e nem sei a qual dos dois branquelas me refiro, confundo-os (daí a escolha do sindicalista em especificar Selassie, o mais nítido dos três). 
Polémica da tanga! Com 16 anos, amigos lançavam-me: "Branco!" E eu: "Preto!" Abraçávamo-nos e dizíamos isso baixo, porque podíamos fazer piada com tudo mas não com toda a gente. Mal seria que quase meio século depois não se pudesse dizer alto de alguém o tom de pele que eu, aliás, não me importava nada de ter. Conhecem quem vá de férias para ficar clarinho? 
 «DN» de 29 Jan 13

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28.1.13

E os nossos em verso como seriam?

Por Ferreira Fernandes
SOMOS procrastinadores, entre nós a pergunta oficial é sempre a mesma: qual é a pressa? Em matéria de prazos públicos, prefiro os franceses: eles já sabem que a 1 de abril sai o novo disco da pré-reformada primeira dama Carla Bruni. Os jornais franceses descobriram o nome do álbum, Little French Songs, e sabem que não há ali traição à língua, só oportunidade comercial (a cantora Bruni tem de recuperar o quinquénio perdido para a pátria, no Eliseu). O disco é uma homenagem a glórias francesas como Édith Piaf e Charles Trenet. Justamente, Piaf tem uma canção de amor arrebatador: Mon Légionnaire. E Bruni canta no novo disco o seu amor: Mon Raymond. Ela não podia ser explícita, tiraria a poesia chamar-lhe Mon Nicolas... Mas o Raymond dela é, sem dúvida, o hiperativo Sarkozy que, nos murmúrios sensuais que a Bruni empresta à voz, se adivinha em combates entre lençóis. Sai letra: "Mon Raymond tem tudo de bom e de autêntico/ Para passar o Rubicão nunca hesita/ Mon Raymond é um canhão, é a bomba atómica..." E assim por diante, até aos dois versos finais, mais públicos: "Mon Raymond é ele o patrão, é o dono da loja/ E apesar de trazer gravata, Mon Raymond é um pirata." 
Então, Sarkozy voltará a líder da direita francesa (penúltimo verso) ou prefere um destino de financeiro arrojado (último verso)? Seja o que for, é um sortudo com mulher tão apaixonada. É o que eu dizia, a política francesa é bem mais interessante... 
«DN» de 29 Jan 13

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Era uma vez... com Ciência


A. M. Galopim de Carvalho
ilustração de Francisco Bilou
Âncora Editora
TODAS iniciadas pela tradicional “Era uma vez…”, as sete histórias que integram o presente livrinho, agora editado pela Âncora, utilizam a ficção, ao estilo dos contos infanto-juvenis, falam com simplicidade, mas sem perda de rigor científico, de temas de geologia, mineralogia e paleontologia, de grande utilidade no dia-a-dia do cidadão.
O autor escreve, desta vez e em especial para os mais jovens, numa linguagem que não desmerece os mais crescidos, interessados em ler o que se procura ensinar.

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Um desejo impraticável

Por Joaquim Letria 
JACQUES Delors foi o criador da moeda única europeia, o euro. Perante a actual crise, Delors defende a revisão do tratado europeu. O socialista francês vai até ao ponto de criticar o governo de Paris por não ter apoiado Angela Merkel na urgência de se rever o tratado. 
Delors diz que se o tratado não for revisto, e se não se apaziguar a Grã Bretanha, que voltou às ameaças de sair, a Europa comunitária acabará por dar com os burrinhos na água e transformar-se-á numa simples zona de comércio livre.
Em Dezembro de 2007 foi aprovado o tratado de Lisboa, já depois de se ter alargado a UE. Este tratado, depois de diversas tentativas malogradas, não foi mais do que uma habilidade para se fingir que o tratado era muito diferente da Constituição Europeia, chumbada em referendo na França e na Holanda, em 2005.
Agora, o que Delors quer é impraticável, com a comunidade alargada a 27 países e a exigência de unanimidade. Poucos de nós cá estaríamos para aplaudir um resultado positivo ao cabo de décadas de negociações…

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27.1.13

Nogueira desmascara porcos no asfalto

Por Ferreira Fernandes 
A FRASE "desde que vi um porco a andar de bicicleta..." já era. Aliás, ela fora inventada num contexto de futebóis, o que desmerecia o citado, todo útil (do focinho ao pernil) e protagonista de uma famosa sátira política (O Triunfo dos Porcos, de George Orwell). Ontem, o porco foi redimido dos relvados e devolvido ao seu elemento natural, a alta política. O preclaro Mário Nogueira, líder sindical dos professores, do acidente de um camião de porcos na A1 disse pérolas que talvez o povo português não mereça. Dezenas de animais foram parar ao asfalto, as pistas fecharam-se e os manifestantes que vinham para Lisboa ao apelo de Nogueira ficaram engarrafados. O sindicalista disse então à SIC: "Não considero que fosse de propósito, até porque se calhar o Governo não tinha dinheiro para comprar um autocarro de porcos e atirá-los ali para o meio. Agora, aquilo... Não quero dizer que foi de propósito mas foi estranho." 
Deixando de lado o upgrade do meio de locomoção dos porcos (eles é mais camião), a insinuação de Nogueira é pertinente. Já em novembro passado, a 20, outro camião de porcos também fechou a A1. Ora, nesse dia, o Correio da Manhã titulava na primeira página: "Gaspar aperta função pública"... 
Temos aqui, pois, uma tendência clara: de cada vez que há um acidente de camião com porcos, o Governo mete-se com os trabalhadores. Felizmente, temos o professor Nogueira para nos dar lições sobre o assunto.
"DN" de 27 Jan 13

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Geologia sedimentar (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho
O ESTUDO comparativo dos sedimentos actuais com as rochas sedimentares (entendidas como depósitos sedimentares antigos) constitui o pilar da interpretação destas rochas sob os mais variados aspectos. Com efeito, partindo do princípio que, tanto hoje como no passado, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos[1], é viável reconhecer tipos de ambientes geológicos, mais ou menos remotos, comparando as características das respectivas rochas com as dos materiais actualmente em formação nos diversos ambientes que conhecemos à superfície da Terra, e que temos a possibilidade de ver “funcionar”.  (...)
Texto integral [aqui]

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26.1.13

Ele há passos em frente que não o são

Por Ferreira Fernandes 
A MALIANA Khaira Arby, conheço-a do YouTube, passeando-se na areia da sua cidade, Tombuctu. Ela é feia, até que se transforma na diva dos blues do deserto, poderosa e magnífica. Mas Tombuctu já não é dela. Há meses, os militantes islâmicos expulsaram-na de casa e disseram-lhe que se ela voltasse a cantar lhe cortariam a língua. 
Por outro lado, esta semana, o Pentágono anunciou que as militares americanas passam a poder ir para a frente de combate. 
Os noticiários destes dias são dialéticos. Na frente das notícias sobre género, umas vezes calam-se as mulheres, outras anunciam-se igualdades. Um murro nos dentes, um beijo na boca... Às vezes, ainda, surgem notícias sobre o velho e não resolvido assunto - as mulheres no mundo - sem que saibamos em que sentido as arrumar: elas vão adiante ou recuam? 
Na quarta-feira, no estado de Bengala Ocidental, Índia, abriu o primeiro tribunal em que todos os juízes, advogados e demais pessoal judiciário são mulheres. Este tipo de tribunal surge depois da recente violação de uma estudante em Nova Deli, horror que comoveu o mundo e amotinou parte da Índia. Uma advogada disse que "quando há homens à volta, a vítima não fala, envergonhada." Outra disse que nestes tribunais femininos "as vítimas devem sentir uma atmosfera amiga para as mulheres". Há controvérsia. Mas eu não tenho a menor dúvida: a língua de Khaira Arby, a salvar-se, será porque mulheres e homens se juntam.
"DN" de 26 Jan 13


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A Casa dos Degredos


Por Pedro Barroso
CUSTA-ME tanto este país em perda! E serei só eu?... 
Onde quer que o mau gosto invade a caravela do sonho, sinto tristeza. 
Onde quer que a festa se torne pimba e o castelo da beleza efémera em casa de altercação e analfabetismo. 
Onde quer que a cupidez ultrapasse o mérito, e o favor seja mais forte que o merecimento. 
Onde quer que se condecore uma besta e se ignore um mestre. 
Onde quer que se proteja a ignorância por dentro do saco podre do poder.
Onde quer que o estudo e a fabricação do belo, - retirado tantas vezes a escopro da nostalgia evidente do quotidiano - não nos forneça nem sustento, nem notoriedade e pelo contrario nos arranje inimigos, desconfiantes e críticos de esquina... 
Onde quer que isso aconteça, eu morro um pouco mais.
Será do país? Da gestão maior da cultura? Ou das pessoas mesmo? Serei assim tão exigente? Fico triste a cada dia, ao respirar este país coitado; tentando resistir pelos poros do fado, da praia e da montanha; talvez pela história, pela gastronomia e pela lenda; talvez ainda um pouco pela hombridade, tolerância e simpatia natural do povo. Sobram-nos os castelos bonitos, as águas de nascente, o fandango, o cante alentejano. As remessas de emigrante ajudam a combater a depressão dos que ficam, mas mesmo essa cada vez maior, que o desgaste é notório.
Como fazer? Não consigo viver entre tanto desvalor e desmerecimento e também não me apetece, não há paciência para ser triste a vida inteira!
Tentando resistir por essas pequenas bolsas de conforto ao signo malévolo, à fada maldita da ultima verdade, confirma-se há muito que a justiça não mora por aqui. Sinto-me triste e confrontado com a eficácia de tudo o que quis combater uma vida inteira. 
Vejam o próprio acordo ortográfico. Viver para a criatividade do belo, a sensibilidade e a inteligência compensam? Em Portugal, não. 
Vivi uma vida para isso, portanto - nada sou. Resta-me a consciência de mim e dos alguns que em mim têm referência. E de outros tantos resistentes, em bolsas avulsas de bom gosto e qualidade. Mas somos tão poucos Gonçalo Mendes da Maia... Alferes Duarte de Almeida, alguém se lembra? Somos ainda nada e ninguém, no oceano de tanta mediocridade. Qualquer treinador de futebol bate Eduardo Lourenço em prime time. Qualquer Casa dos Segredos bate o Pedro Barroso. Aliás, quem é esse Pedro Barroso, coitado? 
O país embrutecido e bovino amoucha. O país inteligente e digno revolta-se. Mas na guerra de audiências, por cá - digo eu, a quem nunca ninguém deu subsídios, e medalha de mérito, nem de limpezas de WC...- ganha sempre… a merda.
Tornámo-nos portanto uma fábrica de produto cultural avariado, com a validade condicionada ao dia vulgar da urbanidade medíocre e sem outro desejo de relevo que não seja a aurea mediocritas.
Neste caso já só medíocre, pois o ouro há muito que passou para o colo dos falcões.
E tudo o que fulge, afinal, é pechisbeque.

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25.1.13

É grátis atirar pedras a velhos

Por Ferreira Fernandes
PORQUE me doem as cruzes, a figadeira já não é a mesma e... e... ai, queres ver que me esqueci do que estava a dizer... ah, já me lembro! Porque há razões para isso, só agora vou escrever sobre um assunto que veio à baila há duas semanas. Carlos Peixoto, deputado pela Guarda, deitou crónica no jornal i. Onde escreveu: "A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha." E acabou assim: "Se assim não for, envelhecemos e apodrecemos com o País." 
O resto do texto era sobre não nascerem portugueses suficientes, o que é facto, mas escrito por ângulo insultuoso para os idosos. Daí as tais duas frases em que aos velhos o deputado colou as seguintes ideias: contaminar, peste e apodrecer. Ele disse e foi silêncio. 
Na semana seguinte, Peixoto disse que quem aceita "o casamento homossexual pode também vir a aceitar o casamento entre irmãos, primos diretos ou pais e filhos...". Foi um escândalo. Ora num país que já foi governado por D. Maria I, casada com o tio, o que deu com que o seu filho, D. João VI, fosse primo direito dela e sobrinho-neto do pai, D. Pedro III, comparações tão tolas como a do Peixoto deveriam levar ao sorriso. Mas foi um escândalo, porque com a sua tolice Carlos Peixoto indispôs-se com poderoso lobby. Já o insulto à peste dos apodrecidos velhos passou incólume... E Carlos Peixoto apresentar-se-á fresco às próximas eleições, na jovem Guarda, terra de ganapada, maternidades prenhes e liceus à cunha. 
"DN" de 25 Jan 13

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Ele seja ceguinho

Por Joaquim Letria
QUANDO tomou balanço para vir a ser primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho disse que não nos aumentaria os impostos (oh!oh!oh!) e jurou que iria cortar os gastos, as gorduras e os desperdícios do Estado (ih! ih! ih!)
Ele fosse ceguinho se não seria isso mesmo que ia fazer para aliviar a vida a todos nós! Ao fim de ano e meio no Governo, fez exactamente o contrário e as únicas coisas que não pioraram foram aquelas em que o Governo não fez raspas.
Cortou salários, pensões, aumentou impostos, criou taxas, empobreceu famílias e deitou no desemprego e na miséria mais uns bons milhares de portugueses, enquanto muitos outros tiveram de zarpar para verem se arranjam com que pagar a bucha lá fora, na nova qualidade de emigrantes. Hoje em dia, mais de dois milhões de portugueses enxameiam a Europa à procura de trabalho ou a fazerem limpezas e a servirem à mesa.
A recessão, o encerramento de empresas e o desemprego continuam a ser galopantes. Mas o Estado não se contém nos gastos. Os institutos, as fundações, os Boys & Girls, os especialistas e assessores em ministérios e gabinetes de secretários de Estado, as empresas municipais, as negociatas, as mordomias, os juros pagos pela dívida pública, os bancos privados que vêm tirar mais dinheiro aos contribuintes públicos são territórios livres de qualquer austeridade.
Os trabalhadores, os pensionistas e as pequenas empresas sabem bem quanto o regabofe lhes custa. São eles os grandes castigados pelo preço dos privilégios de quem continua a mamar na teta do Estado.

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24.1.13

Apertar o cinto é para os outros

Por Ferreira Fernandes  
A FERNANDA Câncio tem a mania de ler relatórios, e o do FMI sobre Portugal leu-o até às assinaturas. Entre estas, ela desencantou o nome de Carlos Mulas-Granados, espanhol, diretor da Fundación Ideas, dos socialistas espanhóis. A Câncio tem o hábito de não guardar para si as perplexidades que encontra. Aqui, no DN, na semana passada, ela seguiu a pista do estranho socialista espanhol, à partida avesso ao aperta-aperta do relatório de que foi um dos autores. Começou por se saber que no Carlos Mulas (é assim que é conhecido em Espanha) havia uma coerência, digamos, endógena. Em se tratando do corpo castelhano, o homem era pra-frentex, assessor de Zapatero e autor dos programas eleitorais do PSOE. Mas quando emigrava dava-lhe - pelo menos no caso português, deu - para a austeridade: corta!, era a sua ordem preferida. O seu slogan seria, pois: "Austeridade num só país (o do lado)!" 
Foi esta criatura que Fernanda Câncio escalpelizou, aqui. Ontem, o jornal El Mundo descobriu que a fundación que o Mulas dirigia publicava textos pagos de uma tal "Amy Martin". Esta escrevia que se desunhava (do cinema nigeriano à medição da felicidade) e fazia-se cobrar bem (50 mil euros de crónicas em dois anos). Tudo bem, não fora a Amy ser o Mulas, que já foi demitido. 
Se já com Espanha Carlos Mulas-Granado era antiausteridade, consigo próprio era a favor de um regabofe. No fundo, o costume: o cinto dos outros é que é de apertar. 
 «DN» de 24 Jan 13

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Os pinta-paredes (41)

Lisboa, ao Rossio

O Mali, o Islão e a intervenção estrangeira

Por C. Barroco Esperança
ÁFRICA sofre e sofrerá por muito tempo da pesada herança colonial e das fronteiras que as potências colonizadoras arbitrariamente desenharam a régua e esquadro, sem que as linhas retas fossem justas ou correspondessem minimamente à vontade dos povos.
A cobiça das matérias-primas e os interesses geoestratégicos não são alheios à rápida solidariedade com que os países europeus, neste caso, a França, acodem ao chamamento dos débeis governos locais. (...)
Texto integral [aqui]

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23.1.13

As jóias de estimação

Por Joaquim Letria
HÁ DOIS anéis que custa muito aos portugueses desfazerem-se deles para ficarem com os dedos: a TAP e a RTP. 
 Uma e outra são verdadeiros símbolos e instrumentos do nosso ser colectivo, do nosso orgulho nacional, ambas indissociáveis do nosso conceito nacional. Não têm a ver com a EDP, a REN e a Ana, outras jóias de família que já fomos deixar no prego para comermos fiado mais algum tempo. A TAP e a RTP são diferentes. São também jóias de estimação, mas estas já eram de estimação da avó e da mãe. 
Vender agora, é vender ao preço da uva mijona, o que ainda custa mais, não fora essa, ao que nos dizem, uma necessidade absoluta. É pior do que penhorar para dar a sopa aos filhos. É ceder a prestamistas, mostrar o rabo a agiotas, facilitar a amigos, dar dinheiro por obséquio sem perguntar aos verdadeiros donos se autorizam, se acham o preço certo, se concordam com a política do “vão-se os anéis, mas fiquem os dedos”.
A gente até estaria disposta a fazer maiores sacrifícios se soubéssemos para quê, se acreditássemos nos vendedores e se confiássemos nos prestamistas. Mas a verdade é que, para mal dos nossos pecados, até há negócios destes em que confiamos mais nos credores…

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Os pinta-paredes (40)

Lisboa, ao lado do Convento do Carmo

O nosso Gaspar está cá um político...

Por Ferreira Fernandes
EM ECONOMIA sou um pitosga só capaz de saber se faz noite ou dia. Sei que é mau o Estado português ser considerado menino ou borracho, sobrevivente só à custa de o Deus FMI lhe pôr a mão por baixo, e sei que seria bom essa dependência desaparecer o mais depressa possível. Ao que parece, a reconquista de parte da nossa maioridade, ou sobriedade, estava prevista para setembro: iríamos, então, aos mercados. Mas, ontem, foi anunciado por Vítor Gaspar que a data dessa parcial alforria será já hoje. Como grandes, vamos lançar: "Quem nos empresta dinheiro?" Era pergunta banal até há uns tempos, mas que nos estava vedada ultimamente. Com a capacidade de apreciar aquilo de bom que não se tem, só podemos congratular-nos com a "ida aos mercados" (é gira a fórmula) e com a sua antecipação. Deixo aos menos pitosgas a avaliação de quanto desta ida se deve a méritos da política portuguesa e quanto à mudança da política do BCE. Dito isto, sei ver uma mudança. Em psicologia comportamental de ministros sou barra: o nosso Gaspar está a tornar-se um político. Antes, o homem do dois mais dois igual a quatro não sairia da meta que se tinha dado. Em setembro ia-se aos mercados e pronto. O excel tinha dito e estava dito... Esta jogada de antecipação cheira a bluff, a Mourinho a adiantar a equipa do adversário, a... a..., que Gaspar me perdoe o palavrão, a política. Eu, que gosto de aventura e poesia, só posso dizer: bem-vindo, sr. ministro! 
«DN» de 23 Jan 13

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Para ver, clicar [aqui].

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Duas mortes para cada um

Por Baptista-Bastos
ERAM BELGAS, eram gémeos, eram surdos, eram operários. 45 anos, inseparáveis nas atenções ao mundo, e o mundo nada lhes ocultava porque o mundo era deles e do entendimento que do mundo faziam. O infortúnio não os afligia assim tanto porque se tinham um ao outro, nessa fraternidade secreta e única que pode moldar o carácter. Nem sempre os irmãos se dão bem; nem sempre os gémeos são exemplos de amor. Estes, por inusuais, seriam exemplo de tudo.
Passeavam, juntos, iam juntos ao cinema, apreciavam caminhar pelos campos belgas, e alimentavam uma particular simpatia pela terra que os vira nascer: Antuérpia. Agora, viviam em Bruxelas, eram vistos muitas vezes de mãos dadas, e, na linguagem gestual através da qual se entendiam, não dissimulavam a preocupação que lhes causava o mundo moderno.
Às vezes eram observados de viés: não só porque emitiam sons altos, próprios dos surdos, como aquele modo de andarem de mãos dadas não era um quadro natural, no espírito dos que julgam as coisas apenas pela aparência das coisas.
Os gémeos belgas riam desses soslaios e chegavam a forçar a nota, beijando-se como a um irmão se deve beijar. Sabe-se, agora, na discrição das existências que levaram, que um deles escrevia poesia, e que o outro alimentava o secreto sonho de ser pintor. Nada mais se sabe, ou pouco mais se sabe, destes dois irmãos, dependentes um do outro por decisão própria. Apenas, e não é pouco, que eram excelentes operários, e tinham grande predilecção pela cidade de Bruges-la-Morte, pelos bosques enevoados, pelo vinho quente tomado nas tardes frias.
A vida corria-lhes com a normalidade possível. As rotinas não se alteravam; admiravam a beleza das mulheres, o seu andar torneado, o verde dos olhos, os sorrisos oferentes. Iam ao futebol; claro que iam ao futebol, e apreciavam sentar-se, aos domingos, numa qualquer esplanada da Gran'Place observando os turistas estrangeiros, máquinas fotográficas na mão ou a tiracolo, só raramente entendedores da natureza e da história do país, tão martirizado pelo conflito idiomático como por estar sempre tão perto das desgraças europeias.
Foi quando, numa consulta médica de costume, ambos se souberam portadores de doença oftálmica irreversível. Em poucos meses ficariam cegos. O infortúnio não deixava os gémeos. Surdos e sem ver, sem se comunicar entre si, é que não. Solicitaram às autoridades que lhes fosse permitido o recurso à eutanásia. O caso, tornado público, quando, na verdade, devia ter pertencido aos domínios particulares, suscitou grande polémica. Mas eles levaram a sua avante. Onde está a razão? Tenho o entendimento de que cada qual pode fazer do corpo o que decidir: é a única propriedade privada de que, verdadeiramente, dispomos. Porém, lembro Malraux: uma vida nada vale, mas nada vale uma vida. 
«DN» de 23 Jan 13

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Apontamentos de Lisboa

Duas curiosidades numa: parque de estacionamento para cães (placa com uma argola para meter as trelas), à porta de um estabelecimento, e anúncio remetendo os eventuais interessados para a rua do 'Quintal'.

22.1.13

A Receita do FMI

Por Maria Filomena Mónica
O FMI é uma espécie de call center internacional para países em aflição. Os governantes desgovernados carregam num botão e, do outro lado, ouvem uma voz com um timbre metálico: «Se necessita de ajuda financeira, carregue no 1»; «Se necessita de receitas para cortes no Estado, carregue no 2» e por aí adiante. Tudo idêntico às vozes que nos atendem quando, em casa, temos problemas com a electricidade. Tal como sucede nestes casos, raramente o medicamento é o recomendado. Quando se trata de máquinas ainda vá, mas quando, como é o caso, estamos a falar de seres humanos, a questão é grave.
Atenho-me ao sector que melhor conheço, o ensino. Vejamos o que propõe o FMI? O despedimento de 50.000 docentes do Ensino Básico e Secundário e a entrega das escolas à iniciativa privada. Apenas abordarei hoje a primeira receita, deixando a segunda, a da «escolha», para um próximo artigo. Pode ser que existam, nalgumas escolas, professores a mais, como existirão muitos que, por serem incompetentes, deveriam ir para a rua. Mas não é disso que trata o FMI mas tão só de diminuir as despesas do Estado, para o que apresenta um número, o da ratio professores/alunos, que nem actualizado está.
Estes técnicos querem saber tanto de exactidão estatística quanto de realidade. Desconhecem, por exemplo, que os docentes passam mais tempo a responder aos formulários que o governo lhes manda pela Net, a frequentar reuniões tontas inventadas pelo Executivo e a tentar decifrar uma legislação que muda todos os dias do que a preparar e a dar aulas. Como nunca entraram numa escola não viram os milhares de planos de recuperação, as centenas de relatórios (de direcção de turma, de coordenação, de aproveitamento escolar) e os milhões de planos individuais de trabalho que os professores são obrigados a elaborar. Em vez do corte no número de docentes, o FMI deveria ter proposto a demissão dos burocratas do Ministério, dos professores destacados em gabinetes e dos «especialistas» em Ciências de Educação. No final, até poderiam analisar a ratio motorista por Ministro e Secretários de Estado, o que os teria levado à conclusão que dois terços são dispensáveis.
Mas o que me preocupa é a ignorância relativamente à evolução da escolaridade em Portugal, o que leva a que seja mais difícil ensinar um português do que um finlandês. Alguém deveria ter recordado a estes cérebros que a evolução da taxa de analfabetismo em Portugal não tem paralelo na Europa. Em vésperas da Revolução de 1974, a percentagem de analfabetos ainda era de 26%. É difícil imaginar um país onde o número de factores adversos à escolarização fosse tão elevado. O resultado está à vista. Muitos dos alunos contemporâneos têm avós analfabetos e pais que não passaram da 4.ª classe. Na actual crise, quando é o desemprego que os espera, a maior parte não entende o que está a fazer na escola. Os técnicos do FMI deveriam ter sido obrigados a leccionar em Rio do Mouro, Baião e Rabo de Peixe. Com um pouco de esforço, talvez conseguissem entrever a realidade.
«Expresso» de 19 Jan 13

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Os pinta-paredes (39)

Continuando a tentar adivinhar o que o tal turista, atrás referido, andaria a fotografar...
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Não há vespas más

Por Ferreira Fernandes  
TÊM NOME suave que mais parece um nespresso, velutina, mas são máquinas de guerra invasoras. Como num filme de ficção científica, chegaram ao porto de Bordéus talvez escondidas num vaso chinês, em 2004 ou perto, subiram já até Paris e a Alemanha treme com a chegada delas, desceram pelo País Basco e descobriram-se, há dias, 40 ninhos no Minho. 
Diz-se que em poucos anos a Vespa velutina nigrithorax pode dar cabo das colmeias europeias. O eurodeputado Nuno Melo perguntou ao Parlamento Europeu o que pensa e este respondeu como na crise financeira: que cada país se safe. 
A lenda diz que 40 destas recém-chegadas vespas conseguem dar cabo de 30 mil abelhas (uma colmeia pode ter 80 mil). Carnívoras, despedaçam a abelha, desperdiçam a cabeça, asas e patas, ficam só com o abdómen, que levam para o ninho, para alimentar as suas larvas. 
Lá longe, as abelhas japonesas têm um truque para sobreviver a uma vespa mais terrível, a mandarina: deixam-na entrar na colmeia, fecham as entradas e aquecem o ambiente abanando as asas. Com 43 graus, matam a vespa que é mais sensível ao calor do que as abelhas. Sempre mais inteligentes os japoneses. Mas como importar essa sabedoria?... Os cientistas franceses, os europeus mais aplicados no estudo da velutina, tentam acalmar dizendo que não há vespas más. O povo está assustado. E, como já vimos, as autoridades empurram a solução com a barriga. 
A Europa é previsível qualquer que seja o assunto.
«DN» de 22 Jan 13

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Os pinta-paredes (38)

Há dias, mostraram-se [aqui] imagens de um turista a fotografar grafitos junto ao elevador do Lavra e na Rua das Portas de Santo Antão. Deixei-o para trás, e fui andando, procurando antever o que ele iria fotografar, no seu caminho em direcção ao Rossio;  talvez, uns metros à frente, ele entrasse no Pátio do Tronco, levado por algum guia turístico (que o referisse como monumento nacional devido ao facto de Luís de Camões ali ter estado preso), onde poderia apreciar o que aqui se mostra.
Mas estas imagens pouco têm de novo. Como compensação pela falta de originalidade, deixa-se aos leitores, à laia de puzzle, algumas letras, fora de ordem, da divisa SEMPRE PORTUGAL.

21.1.13

A sina do mexilhão

Por Joaquim Letria
ÁGUA MOLE em pedra dura, tanto dá até que fura! Este velho ditado popular está a ser muito bem aplicado por alguns partidos e pelas suas ramificações no Poder Local, de modo a garantirem um rendimento exponencial escandaloso, por via indirecta, e ainda a satisfação de boa parte da clientela que é dominante e muito rendosa na penumbra dos financiamentos partidários.
Também aqui, apesar de se tratar de água doce e levar cloro e outros desinfectantes, quem se prejudica é o mexilhão… 
Muitas autarquias privatizaram o negócio da distribuição de água com resultados catastróficos para as populações. Na maioria destes casos, verificou-se que os acordos de privatização provocaram aumentos escandalosos nos preços pagos pelos consumidores.
Além do mais, e tal como em certos casos das PPP nas vias rodoviárias, ficaram também garantidas rendas fixas e décadas de grandes margens de lucros para os privados, ficando os prejuízos por conta dos orçamentos municipais.
Na existência dos monopólios públicos já se corriam grandes riscos, como muitos de nós podem, infelizmente, comprovar. No caso de monopólios privados, só uma regulação e fiscalização de grande rigor e independência poderiam garantir um preço justo para um serviço de qualidade, premissas muito raras, pouco prováveis e só excepcionalmente praticadas no nosso País.
Acresce, ainda, que as concessões municipais foram e serão destinadas àqueles que dominam todos os negócios públicos locais, especialmente os construtores e os promotores imobiliários. Uma dúvida pouco consistente mas que perdura, correndo o risco de se transformar em certeza, é o aumento dos preços e a pior qualidade de serviços para as populações e consumidores e a repercussão desta realidade em outros sectores, vitimizados pelo fracasso que se abaterá com maior violência  sobre as finanças dos municípios.

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Apontamentos de Lisboa

A menos que se disponham a dar uma grande volta, é este o caminho dos peões quando descem a Av. Fontes Pereira de Melo, do lado esquerdo, nas Picoas. 
É assim há anos e anos, e não há motivos para pensar que venha a haver aqui um passeio decente...

Por favor, Seguro, não me surpreenda

Por Ferreira Fernandes
SEGURO disse: "Irei surpreender os portugueses com futuro Governo." Eu preferia não ficar surpreendido. Já chega de estranhar sobre como, por cá, é possível chegar a primeiro-ministro ou candidato a primeiro-ministro. Das próximas vezes preferia não estranhar e passar logo à fase de entranhar políticos capazes. Eficazes e sem conversa mole em entrevistas. Que não chamem "laboratório de ideias" àquilo de pensar como vão governar, nem "viveiro" ao lugar onde vão buscar os potenciais governantes. Não os quero enxertados, só bons políticos. E era simplesmente assim que gostava que eles me fossem apresentados por quem se farta de dizer "deixe-me dizer-lhe com muita clareza." 
Mas houve um momento da entrevista de Seguro de que gostei. Ele recordou que haver crise política ou não "depende do dr. Pedro Passos Coelho e do dr. Paulo Portas porque eles dispõem de maioria absoluta."Boa malha! São coisas assim, simples, não surpreendentes, que quero na vida política: com muita clareza (não dita, mas aplicada), mostrar contradições dos adversários. Depois, Seguro disse que a crise política começou quando Portas disse publicamente: "Se me perguntarem se eu sabia das medidas da TSU, eu respondo que não..." Ora, o que Portas disse, na altura, foi: "Se me perguntarem se eu soube [da TSU], claro que soube." Está a ver, Seguro, as surpresas que eu não quero? Um candidato a primeiro-ministro, citando mal, a estragar um seu bom argumento... 
«DN» de 21 Jan 13

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20.1.13

Apontamentos de Lisboa

 Av. de Roma, 19 Jan 13 (8h50m e 10h30m)
Com tantas árvores que ontem caíram em cima de carros, porque é que a Providência não mandou uma para cima deste? Agora, a moda (como aqui já se mostrou na semana passada) é deixá-lo estacionado em cima do passeio... até vagar um lugar na sempre 'esgotada' paragem da Carris!

Ai, amigos...

Por Pedro Barroso
AI, AMIGOS... afinal, além de caro e indigno, começa a ser injusto, hieroglífico e inquietante viver em Portugal. 
Numa situação de desastre público - só na minha rua caíram 7 árvores... - onde pára a tal "Protecção civil"?  Onde param os inefáveis Gil's com fato-macaco camuflado entre os computadores com ar de peritos inteligentes em situações de catástrofe? 
Sim, esse ao que parece foi corrido por caricata e dolosa figura... mas onde raio param os sucessores?
Porque não vemos os jipes da Protecção Civil a darem uma volta no terreno e reconhecerem onde ainda há coisas por fazer - árvores por cortar , muros em risco de ruína, galhos perigosos, semáforos em perigo de queda, estradas a inundar, etc?
Como não sentir que o país improvisa recursos e que não existe sequer, afinal, um socorro verdadeiramente organizado?
Estamos sem luz 20 horas e da EDP respondem ao telefone dizendo que, como há muitas chamadas... tente mais tarde.
Chamamos o 112 ou os bombeiros e dizem que esta tudo ocupado, não podem acudir... 
Estradas cortadas... nem sinalizadas são - cai-se na 1ª árvore atravessada ou no charco...
A rede net impossível... rede telemóveis cortada...
Ora bem. Eu sei que a tempestade e o ciclone foram bravos mesmo; vivo no campo e senti na pele o susto. 
Mas também sei que o prejuízo somos nós q o vamos remendar - do nosso braço e do nosso bolso. 
Atenção - Honra aos que estão no terreno, à chuva e ao frio a tentar resolver tudo; nem sempre bem dirigidos, nem sempre nas prioridades melhores; nem sempre bem enquadrados por uma estrutura inteligente e abrangente... nem sempre bem pagos... nem sequer, em alguns, casos, - dizem-me - bem alimentados! Médicos acabam de me confessar que estão há 48 horas de serviço sem luz a terem de improvisar curativos para dezenas de pessoas à luz de petromax! É para isto que pagamos tanto?!
Sente-se demais, na prática, essa falta de resposta global. Aliás, as más condições com que esses estão a atacar as causas e a tentar repor a normalidade só reforçam o que digo.
Porque... num país em que metade do se paga vai para impostos (!!!) como não sentir a injustiça primária agressiva, sinistra, esdrúxula e decadente de tudo isto?
É este o prometido Portugal?

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Luz - Oração, Muro das Lamentações, Jerusalém 2012

Fotografias de António BarretoAPPh
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Outra imagem de dois Judeus em oração junto ao Muro das Lamentações. Um está instalado num curioso móvel de oração. Não era fácil fotografar neste sítio. O ambiente de recolhimento e de privacidade era tal que qualquer fotógrafo se sentiria intruso. É uma velha questão moral que se põe a qualquer fotógrafo uma ou várias vezes na sua vida! (2012).

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O crime de Armstrong

Por Ferreira Fernandes
DEPOIS de dez anos a pedalar pela inocência, Lance Armstrong largou o selim, sentou-se num sofá e confessou o que sabíamos: é um mentiroso. Valha-nos como consolação que aquele que venceu centenas de grandes atletas secos e musculados acabou em lágrimas nas duas etapas com a gordinha Oprah Winfrey. A frase mais citada da famigerada entrevista: "Dopei-me porque queria ganhar a qualquer preço." Que tomava EPO suspeitou-se, provou-se e, desde esta semana, confessou-se. Agora que fosse a qualquer preço... Só em prémios pelas vitórias em sete Tours de France ganhou três milhões de euros, o que levou a uma bola de neve de 100 milhões de euros amassados numa carreira de mentira. Daí que a sessão de psicoterapia entre Armstrong e Oprah não deva iludir. 
Nas estatísticas oficiais da Volta à França, o quadro de honra ocupa-se com os vencedores: o 1.º da classificação geral, o 1.º do prémio da montanha e o 1.º da classificação por pontos. Os outros, são os outros. Não reza a história. Sendo que nesse quadro de honra, de facto, o vencedor é só um, o camisola amarela. Ora de 1999 a 2005, esse quadro de honra do Tour é omisso sobre o camisola amarela. Foi varrido, não pelo carro vassoura, mas pela justiça que provou que Lance Armstrong fizera batota. Sete anos em que talvez tenha havido um campeão que quis ganhar mas não "a qualquer preço", ganhou, mas chegou só a segundo de Armstrong. E, graças ao mentiroso, deixou de existir. 
«DN» de 20 Jan 13

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Geologia Sedimentar (1)

Por A. M. Galopim de Carvalho
EM TERMOS de ciência moderna e numa fase inicial, a meados do século XIX, o estudo das rochas sedimentares era estritamente descritivo e revelava, no máximo, uma preocupação de sistematização vinda do século XVIII e, ainda, em grande moda na primeira metade do século XX. Foi a fase embrionária da petrografia sedimentar, preocupada com a descrição e classificação destas rochas e de outros materiais resultantes da sedimentação ainda que não litificados. Primeiro no terreno, macroscopicamente, em amostras de mão, depois no laboratório e, em particular, pelo recurso ao microscópio petrográfico, introduzido, em 1850, pelo inglês Henry Clifton Sorby (1826-1908), a petrografia sedimentar teve um papel importante na inventariação deste vastíssimo conjunto de produtos da crosta terrestre. (...)
Texto integral [aqui]

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Assim se faz a História...

Repare-se nestas notícias, tal como figuram, neste preciso momento, nos media. Apesar dos pormenores que 'enriquecem' a primeira versão (informação da Autoridade Nacional da Proteção Civil), o mais provável é que a correcta seja a de baixo - e, no entanto, é a outra que continua a ser divulgada.

Quatro por cento

Por Alberto Gonçalves
SEGUNDO um estudo da seguradora Zurich, 96% dos portugueses não acreditam nos políticos. Como agora é habitual, estes dados foram apresentados com preocupação e imputados à austeridade. Basta espreitar um noticiário televisivo ou folhear um jornal para perceber que, no caldo ideológico vigente, a austeridade está na origem de todos os fenómenos ocorridos no país, desde os suicídios ao abandono de cães, passando pelos assaltos à mão armada e a decadência do Sporting.
Fora das alucinações em voga, a notícia merece aplausos. Descrer da classe política não é, ao contrário do que a própria classe gosta de sugerir, meio caminho andado para o advento de uma ditadura, mas o primeiro passo para a consolidação de uma sociedade livre. As ditaduras erguem-se sobre a adesão excessiva aos "salvadores" nascidos justamente da veneração e da fé cegas. Numa democracia autêntica, criatura nenhuma depositaria nos políticos mais confiança do que a estritamente indispensável. Os políticos são um mal necessário, que se tolera com a resignação dedicada a uma gripe em Fevereiro. É óptimo que os portugueses suspeitem dos políticos. É trágico que, provavelmente, isso seja mentira.
Uma coisa é resmungar em inquéritos contra os senhores que mandam. Outra é supôr que os resmungos traduzem a capacidade de compreender que os senhores que mandam, quaisquer que sejam, constituem o problema e não a solução. Infelizmente, palpita-me que as pessoas não criticam o poder porque o poder é por definição criticável. Criticam-no porque não recebem dele tudo o que desejam. O poder, em suma, não satisfaz as expectativas, e a mera existência de expectativas, no sentido em que os de "baixo" delegam aos de "cima" a orientação das suas vidas, é flagrante sinal de atraso.
Entre parêntesis, note-se os extraordinários 4% de indivíduos que, íntima e publicamente, proclamam acreditar nos políticos. Antes de nos espantarmos com tamanha demonstração de primitivismo, convém somar os eleitos para cargos nacionais e locais, os adjuntos, os assessores, os secretários, os motoristas, os compinchas, os parceiros de negócios e todos os que sonham atingir um dos postos anteriores. O número parece plausível. 
«DN» de 20 Jan 13 (1.ª parte)

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