30.9.14

Pergunta de algibeira

O que aqui se lê é um pouco estranho. Alguém sabe como se explica? (A resposta já está em comentário)

Sujaram o teu nome, primavera

Por Ferreira Fernandes 
Poeta da desobediência civil (inspirou Gandhi), o americano Henry Thoreau (1817-1862) escreveu: "Que fogo se pode igualar a um raio de sol num dia de inverno?" A Revolução Francesa de 1848 deu--se em pleno inverno, foi liderada por um poeta, Lamartine, inspirou Flaubert e Hugo. Incendiou as capitais europeias nas semanas seguintes e deu Constituições a Berlim, Munique, Viena, Turim... Chamaram a esse dias "a primavera dos povos", e foi o começo da Europa. Mais de um século depois, aconteceu a "primavera de Praga" e às duas vagas a favor da democracia na China, em 1979 e 1989, chamou-se "primavera de Pequim", dada a semelhança com 1848. Primaveras cheias de desejo pela democracia. Recentemente, aos levantamentos contra ditaduras em países muçulmanos, também se chamou "primavera árabe". Um erro, como chamar Luz à dona de uma burka. Todas as primaveras históricas referidas atrás, antes da árabe, representaram esperança e, apesar de algumas falharem, voltaram para a casa de partida, nunca para pior. Já as "primaveras árabes" estavam reféns do fascismo islâmico e é caso para dizer que felizmente não vingaram em Marrocos, Argélia, Síria, porque onde derrubaram os ditadores foi para ir para pior. "Primavera" passou de nome de esperança a marca de tragédia. Fez bem quem não batizou de "primavera" o que se passa hoje em Hong Kong e chamou-lhe "revolução dos guarda-sóis". Esta, sim, volta a sugerir o raio de que falou Thoreau.
«DN» de 30 Set 14

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29.9.14

A obrigação de não morder todos os anzóis

Por Ferreira Fernandes 
Através da internet o ministro britânico Brooks Newmark foi abordado por uma relações-públicas, Sophie Wittams. Ministro da Sociedade Civil, New-mark tinha entre as suas funções aumentar a participação das mulheres na política. Conversa puxa conversa entre correligionários, ambos são conservadores, passaram para redes sociais mais (oh, ilusão...) discretas, daí, para tiradas mais ousadas e troca de fotografias. O termo "gráfico" já não tem só a ver com grafia, já importámos o outro sentido do inglês graphic, que quer dizer também vivo, animado, inflamado. Bem-vindo o agora uso comum de "linguagem gráfica" em português, pois é a imagem exata da febre que já possuía o ministro: acabou a enviar a foto dos seus genitais e implorou a Sophie que fizesse o mesmo. Ela, que já lhe tinha enviado a cara loura, mandou-lhe um selfie da barriga lisa e calções descuidados. E tudo apareceu agora no Sunday Mirror, mais um esterco em papel de jornal, num país que tem a mais invejável imprensa europeia. Para acabar com o esterco: a "Sophie" era um jornalista à pesca de políticos incautos (também contactou com outros ministros, que chutaram para canto), a cara loura era a foto roubada de uma sueca e a barriga era de uma inglesa, também ela surpreendida pela trapaça. O ministro Newmark demitiu-se com as palavras corretas: "Que parvo fui!" É essa a questão. Não é moral nem jurídica, é política: um ministro não pode ser tão tolo.
«DN» de 29 Set 14

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28.9.14

O que será um lapso suspenso?

Apontamentos de Lagos

O "hall" de entrada das Urgências do Hospital de Lagos está ligeiramente abaixo do nível da rua. Ora, em vez de um pequeno degrau, alguém achou que ficava melhor colocar os mosaicos em rampa, pelo que há dias, tendo de ali entrar a acompanhar um familiar, escorreguei nela, e ia dando um trambolhão. 
Como forma de arranjar utentes, não está mal pensado!

Tão rara,tão necessária e tão justa

Por Ferreira Fernandes 
É tão rara, tão necessária e tão justa que tem de ser assinalada. Na sexta-feira, frente à Grande Mesquita de Paris, uma manifestação de algumas centenas de muçulmanos solidarizou-se com o francês Hervé Gourdel, dias antes degolado na Argélia por um grupo local ligado à organização do Estado Islâmico (EI). No vídeo, inspirado nos do EI decapitando reféns, uma voz justificava o assassínio de Gourdel por ser "um porco francês". Foram respondidos à letra pelos manifestantes de Paris que, ao apelo do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), disseram: "Somos todos porcos franceses." Gente comum, com a condição de muçulmana, disse que não admite que bárbaros falem por ela. Vários cartazes, escritos à mão, diziam: "Não em Nosso Nome." Já cá faltavam. Há cinco milhões de muçulmanos em França e são muitas as suas organizações. Nem todas aceitaram a iniciativa do CFCM porque recusam, como disse o Coletivo contra a Islamofobia em França, "a culpabilização sistemática das pessoas de religião muçulmana." Essa recusa tem sido um erro trágico. Perante os sucessivos e cada vez mais terríveis atos dos radicais islâmicos, cometidos certamente por minorias, as comunidades muçulmanas deixaram-se encafuar na ausência de repúdio. Tem faltado a rua. Os europeus muçulmanos têm de se fazer ouvir. Não têm de dar explicações aos seus compatriotas de outros credos. Mas a si próprios têm. E alto. 
«DN» de 28 Set 14

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Luz - Vista de Bogotá do alto do edifício do museu da Esmeralda, Colômbia.

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Está aqui mais ou menos tudo: do estilo colonial ao moderno século XXI, passando pela burguesia comercial dos princípios ou meados do século XX. Bogotá ferve e agita-se. A cidade são várias cidades, rica e pobre, moderna e antiga, asseada e desmazelada, segura e de meter medo… De qualquer maneira, para uma capital de um país que, ainda há tão poucos anos, vivia quase em permanente guerra civil e com “territórios libertados”… Fiquei surpreendido com a relativa ou aparente indiferença dos cidadãos da capital perante esse legado recente. (2013)

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27.9.14

Vá lá um esforço, gabe-se, Passos!

Por Ferreira Fernandes 
Desconfiamos dos políticos e das empresas e levamos com um fim de semana com stripteases de político (Passos Coelho) e de empresa (Tecnoforma), com discurso no Parlamento e conferência de imprensa de advogado, sabendo tudo sobre um e outra. Afinal, entre Passos e Tecnoforma não houve nada, até à data controversa de 1999. Nem uma nota, nem cheque, nem um cartão de crédito. E quando eu não tenho provas em contrário, acredito na palavra dos outros. É o caso. Eles, político e empresa, expuseram-se e fiquei a saber tudo. 
Mas estranho uma nebulosa. Onde menos esperava. Sobre o Centro Português para a Cooperação (CPPC), onde Passos trabalhou, de borla, naquele período para o qual os jornais trouxeram a controvérsia, 1996-99, é que fiquei sem saber nada. Estranho. Sim, porque o CPPC era uma ONG, uma organização que não vive para lucros. A esta altura, eu já devia saber tudo sobre o CPPC. O que fazia, que generosidade praticava? Como obrigava os seus a sacrifícios nas viagens e nas pensões? Seria educativo vermos as faturas modestas para tão grandes causas. Passos tem um livro, Mudar, lançado em 2010, em que se conta a si próprio. Fala da Tecnoforma e nunca fala dessa coisa bonita que foi trabalhar numa ONG. Aliás o termo "ONG", nas 277 páginas do livro, só é referido uma vez e de forma geral sem nada que ver com o CPPC. Estranho. Mais, irrita-me a modéstia das pessoas devotadas, como é certamente o caso.
«DN» de 27 Set 14

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O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO, UMA PEDRADA NA LÍNGUA PORTUGUESA

Por A. M. Galopim de Carvalho 
FAZ HOJE, dia 27 de Setembro, seis meses que faleceu Vasco Graça Moura, um dos mais destacados intelectuais deste tão mal aproveitado rectângulo, palco da gula de uns tantos poderosos que, em termos de cultura e como diz o povo, não lhe chegavam aos calcanhares. 
Referenciado como uma das vozes mais críticas do Novo Acordo Ortográfico, dizia, e com razão, que este apenas "serve interesses geopolíticos e empresariais brasileiros, em detrimento de interesses inalienáveis dos demais falantes de português no mundo". (...)
Texto integral [aqui]

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26.9.14

Bem-vindos ao mundo cada vez mais novo

Por Ferreira Fernandes 
Num tempo em que o Paquistão eram dois, o Oriental (hoje chama-se Bangladesh) quis a independência. Houve uma guerra civil e, num dia de dezembro de 1971, os independentistas bengalis, já vencedores, andaram pela capital Daca à caça de aliados dos paquistaneses. A guerra tinha trazido muitos jornalistas. Numa praça foram apanhados quatro "traidores" que foram "julgados" com a sanha que os "libertadores" gostam de demonstrar. Justamente, alguns fotógrafos, quando os guerrilheiros ameaçaram os presos com as baionetas, perceberam que havia ali alguma coisa de encenação trágica de que eles, jornalistas, eram parte: as mortes eram para a fotografia! Um grupo de fotógrafos (entre eles, célebres como Marc Riboud da Magnum e Peter Skingley da UPI) baixaram ostensivamente as máquinas e foram-se embora. Mas dois jornalistas da agência americana AP, Michel Laurent e Horst Faas (este, experimentadíssimo fotógrafo de guerra), ficaram, fotografaram as baionetas a entrar nos corpos e ganharam o prémio Pulitzer com a série Morte em Daca. Ficou uma polémica nunca resolvida: em nome da informação valia a pena ser instrumento do horror? Hoje, com os vídeos dos terroristas islâmicos, a decisão (em vez de "fotografar ou não?" é "ver ou não ver?") alargou-se ao mundo inteiro. E a polémica tornou-se um dilema: querem fazer-nos cúmplices de um ato feito para nos aterrorizar. Uma coisa é certa: nenhum de nós terá prémio.
«DN» de 26 Set 14

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25.9.14

Os pinta-paredes

Lagos - Grafito feito numa parede disponível
Nada a objectar, pois, numa terra onde não faltam paredes brancas (que são uma verdadeira tentação!), esta é uma boa maneira de combater os gatafunhadores.

O Catur e o funeral do Martins (Crónica)

Por C. Barroco Esperança
Numa placa de bronze da estação do Caminho de Ferro estavam gravadas em relevo, em letras maiúsculas, as seguintes palavras: «Aos 12 dias do mês de Abril de 1964, Sua Ex.ª o Governador Geral de Moçambique, Contra Almirante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, deu início aos trabalhos de construção do último troço do Caminho de Ferro para a cidade de Vila Cabral», com letras destacadas para o Governador e a cidade.
Era do Catur, onde chegavam de comboio, que partiam as tropas, em viaturas militares, para o distrito de Niassa, rumo a Malapísia, Massangulo e Leone ou, com passagem por Vila Cabral, para Meponda, Litunde, Cantina Dias, Unango, Chiconono, Maniamba, Metangula,  Nova Coimbra, Lunho, Miandica, Cobué, Macaloge, Valadim, Luatize e, no  extremo norte, Pauíla e Olivença. (...)
Texto integral [aqui]

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24.9.14

Os pinta-paredes

Lagos - Estátua de D. Sebastião, de João Cutileiro
Já se sabe que raramente as autoridades conseguem apanhar os gatafunhadores - e, mesmo quando isso sucede, não há, depois, consequências verdadeiramente desincentivadoras do vandalismo. 
Seja. Mas a autarquia não tem, ao menos, produtos de limpeza (nem sequer quando estão em causa ex libris da cidade)?! 
Ora francamente!

Ponto prévio

Por Ferreira Fernandes 
Estão a ver a Maria Luís Albuquerque? Pois está aí uma política de quem não gosto das ideias nem de como as executa. Mas foi nela em quem pensei, disposto a ouvi-la se - por um acaso que nem é assim tão espantoso - ela estivesse ontem, com António Costa, a discutir a liderança do PS. Ela defenderia e atacaria com a qualidade primeira a exigir em quem quer mandar: ela mostraria ser líder. Esse, um problema que tem o PS, e não têm o PSD, o CDS ou o PCP. Além de líderes, os partidos têm todos políticos, a vários níveis - e por isso citei Albuquerque -, que transmitem firmeza, e, aí, o PS também. Mas no topo o PS tem Seguro. É por isso que se me perguntam o resto, sobre o que ele defende, desde a reforma da lei eleitoral ao combate ao desemprego, digo sempre ter um ponto prévio. Que é: ele não presta para chefe. Nem preciso de ser grandiloquente, dizer que não iria caçar tigres com ele. De facto, eu preferia ir sozinho por um bairro perigoso do que tê-lo ao meu lado. Sim, ele seria o melhor que uma velhinha poderia encontrar no passeio para ajudá-la a atravessar a passadeira (sobretudo se houvesse fotógrafo por perto) mas, já na passadeira, eu aconselharia a velhinha a confiar só em si. Seguro é a cara mais sincera da fraqueza e a expressão mais notória da insegurança. Achar que ele pode ser chefe de partido e, sobretudo, chefe de Governo é uma tragédia. É extraordinário que ele suscite outra discussão que não seja esse ponto prévio. 
«DN» de 24 Set 14

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Isto é a sério?

 «CM» 24 Set 14
Há uma velha anedota em que um indivíduo, que matou o pai e a mãe, pede clemência ao tribunal por ser órfão... 
Pelos vistos, e até haver esta nova legislação, é possível, em Portugal, algo muito parecido.

A minha pátria é uma cegada

Por Baptista-Bastos
Dois ministros, Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato, pediram publicamente desculpas pelas aleivosias que têm cometido. Milhões de portugueses sofreram o que numa sociedade organizada seria entendido como crime. Nada lhes vai acontecer além da punição "democrática" de ser votados fora. Mas há, em toda esta farsa preparada no Conselho de Ministros, algo de repugnante por muito pouco genuíno. As experiências que estes e outros consideráveis têm feito, na estrutura orgânica portuguesa, liquidando tudo o que vêem pela frente, em nome de uma "renovação" que mais não é senão a obediência a regras obsoletas e abstrusas de alteração política, económica, social e cultural, conduziram Portugal a um deserto de tudo, e os portugueses à mais atroz das misérias.
Há anos, numa declaração que deixou perplexos aqueles que ainda pensam por si, o dr. Passos Coelho, acabado de tomar posse como primeiro-ministro, pediu-nos desculpa em nome de quem? De José Sócrates, vejam a bizarria, pelas malfeitorias por este praticadas! Iniciava-se, daquela forma, o modo neossurrealista de governar, tão do gosto de Juncker e de Merkel.. O pessoal ficou muito comovido, sem relacionar os elos ideológicos que o texto de Passos possuía com o violento discurso de Cavaco contra Sócrates.
O que ocorre no nosso país é de tal gravidade que sobressalta, por exemplo, Adriano Moreira, cujas advertências constantes deveriam merecer toda a atenção do Governo; e Mário Soares, em textos que lembram o finis patriae e o dobre a finados a uma glória moribunda.
Enquanto os membros do Governo se divertem com estas tropelias de garotos, no PS o insulto fervilha, sem que da penosa balbúrdia surja uma ideia, uma, sequer!, de redenção e de grandeza. Os "debates" havidos entre Seguro e Costa estão pautados por uma notória procura de poder pessoal. Claro que ninguém acredita, nem eu, que sou crédulo por vacina, que o PS vai sair desta triste e fétida contenda um partido novo, pleno de genica, e revolucionário de punho cerrado e erguido. O que está em causa é a natureza de um sistema, manifestamente a desfazer-se, e que determinará, certamente, um conflito generalizado, como, aliás, o Papa Francisco assinalou. Tudo se encaminha para a catástrofe, e as semelhanças entre os antecedentes da tragédia de 1939 e os acontecimentos actuais são de molde a percebermos a magnitude do que está em jogo.
O Governo brinca connosco, o PS e os seus paladinos parece que nos não tomam a sério, o conceito de democracia foi substituído por aventuras momentâneas e pérfidas, as televisões enchem-se de chalaceiros ignaros, convertendo Portugal numa cegada brejeira mas cabisbaixa. E nós? Nós assistimos a tudo isto de braços cruzados.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
«DN» de 24 Set 14

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23.9.14

Lembram-se disto?

O senhor do boné diz umas verdades, e o pessoal à volta acha muita graça. Mas essa gente ri-se de quê?!

Apontamentos de Lisboa

Uma das muitas obstruções feitas nas caleiras de escoamento das águas da chuva na Rua das Portas de Santo Antão (foto de arquivo).

Por onde andava a Polícia Municipal de Lisboa quando este crime foi cometido, e durante os muitos anos em que isto esteve assim?

Debate de manda-chuvas

Por Ferreira Fernandes
Às 14.37, a Rua de Santa Marta, Lisboa, transforma-se em correnteza, quase cascata. Um táxi trava porque saltou uma tampa de saneamento. A água explode em géiser, junta-se à que golfa das grelhas das sarjetas e forma-se o rio de Santa Marta. Os passageiros, dois turistas, já estão arrependidos de não terem vindo equipados para rafting e outros desportos radicais quando escolheram Lisboa. Já se viam levados pelo caudal quando voa pelas escadas da Avenida Duque de Loulé um vulto escuro, com uma capa. É um morcego? É um helicóptero? Não. É o mayor! Com uma mão põe a tampa no lugar, com os lábios sopra de volta a água para as sarjetas e com o olhar plácido acalma os turistas. Estes não sabem quanto aquela coragem era desinteressada, o que movera o herói não era o voto deles, pois eles nem inscritos estavam nas primárias. Domada e devolvida a rua, Santa Marta viu partir o vulto de capa: "Obrigado, presidente!", disse o taxista, enquanto o vulto voava para a Calçada de Carriche... 
Entretanto, no Largo do Rato, das largas portadas de um palácio cor-de-rosa, outro vulto. As mãos em cruz de Santo André e o olhar mártir de São Sebastião, o vulto rezava: "São Pedro, cala a Nossa Senhora da Conceição que nos dá sol e chuva não, cala Santa Bárbara, para que troveje! Por favor, São Pedro, entope Lisboa..." Foi ouvido, mas só por fonte terrena: pelo menos até domingo, dia das primárias, haverá chuva, segundo os Serviços Meteorológicos. 
«DN» de 23 Set 14

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22.9.14

A propósito das inundações em Lisboa...

Caleiras de águas pluviais tapadas com cimento...
A foto de cima é da Praça da Figueira. A do meio é da esquina da 5 de Outubro com a Júlio Dinis. A de baixo é das Portas de Santo Antão (a única que não é actual).

AS MOCHILAS ESCOLARES, UM GRAVE PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA

Por A. M. Galopim de Carvalho
O MAL não está nas mochilas, uma inteligente invenção para transportar cargas, por vezes com duas ou mais dezenas de quilos, deixando as mãos livres para tudo o que for preciso, apoiar o caminheiro segurando um varapau, tocar pífaro ou harmónica durante a marcha ou, até, caminhar de mãos nos bolsos.
Como campista de ocasião que fui, no tempo em que se podia, em segurança, praticar esta modalidade em regime selvagem, reconheço a imensa comodidade da mochila, sobretudo quando ela está equipada com uma armação de metal que torna o seu uso mais confortável. Mas uma coisa é um rapazinho ou uma rapariguinha de dez ou doze anos transportarem uma mochila carregada, durante umas horas de caminhada, uma, duas ou três vezes por ano, como campistas em tempo de férias escolares, outra coisa, é carregarem-na cheia, até mais não, de livros, cadernos e tudo o mais o que a escola determina, duas vezes, todos os dias, durante meses. (...)
Texto integral [aqui]

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Sem comentários

Portugueses derrubam mito universal

Por Ferreira Fernandes
É conhecida a tese de Lucy, um filme recente com Scarlett Johansson. Lucy é uma jovem que absorveu uma droga sintética e passa a ter o superpoder de usar a totalidade do seu cérebro, e não só o poucochinho habitual a que todos recorremos. O sucesso do filme bebe numa tese antiga. Um cientista de Harvard, William James, quantificou a coisa - só usamos 10% do cérebro e o resto está adormecido - e essa ideia tendo aparecido no prefácio do popular livro pioneiro de autoajuda Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, em 1936, solidificou o mito dos 10%. Depois, melhores estudos fizeram que se suspeite que o mito dos 10% não passe disso, mito. E é aqui que se chega aos nossos noticiários. Havendo eleições para o ano, estamos em plena época da magistratura plantar notícias, os jornalistas debicarem as sementes e o povo empanturrar-se com escândalos. Uma figura jurídica pinga todos os dias nas manchetes: o crime da "participação económica em negócio". Vem no art. 377 do Código Penal e quer dizer um tipo com funções públicas receber por baixo da mesa. Deveria chamar-se simplesmente luvas, mas chama-se complicado e errado (todos os negócios têm participação económica) porque magistrados, jornalistas e povo são burros. E é assim que os portugueses estão em condições de arrumar, definitivamente, com o tal mito dos 10% do cérebro. Pelo menos nós, usamos só 2 ou 3%.
«DN» de 22 Set 14

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21.9.14

Luz - Curioso edifício moderno, Pereira, Colômbia

Fotografias de António Barreto- APPh

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A fotografia foi tirada de dento de um carro. Vêem-se, aliás, alguns reflexos nos vidros das janelas. É mais um exemplo de um “estilo” excêntrico, atrevido e por vezes descuidado (preguiçoso também seria um atributo…) a que se pode chamar “road photography”, por analogia com a famosa e antiga “street photography”. O instantâneo, o enquadramento insólito e a curiosidade que de outro modo se perderia podem ser apanhados com este género de fotografia. Mas, pelas circunstâncias, a qualidade deixa, em geral, muito a desejar. Neste caso, o edifício merecia o “snapshot” quase sem reflexão ou preparação! (2013)

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Ministro mostra o caminho certo

Por Ferreira Fernandes 
Miguel Macedo, o ministro dos bombeiros, fez o balanço: neste ano houve menos de metade dos fogos de 2013 e é o terceiro melhor da última década em área ardida. Concluiu de forma bem humorada: "Devo ser o único português que gostou do verão que tivemos até agora." Os números são de facto extraordinários, não conheço nenhuma área governamental capaz de apresentar resultados tão positivos. Acaso a dívida externa caiu para metade? O tempo de espera para cirurgia é dos mais curtos em dez anos? O abandono escolar diminuiu? Não, para todas as perguntas... Nos incêndios, sim. Mais do que puxar para si os méritos, o humor de Miguel Macedo apontou a causa do tanto que se fez: a meteorologia. E, ao dizê-lo, o ministro aconselha os seus colegas de Governo sobre a filosofia política a adotar. O que fazer? Nada. Deixar outros governar. No caso do Ministério da Administração Interna, foi a muita chuva e o pouco sol. Para as outras áreas que cada uma encontre quem trabalhe por ela. É importante, pois, que cada ministro se convença de que não só é prescindível, como o seu não fazer é que é eficaz. Lembram-se do lema daquele antigo político brasileiro, "roubo mas faço"? Não dou conselhos sobre a honestidade mas agora o que está a dar é: "Não faço!" Seria um magnífico slogan de campanha. E para programa uma só resposta: "Como não pretendo fazer nada, não tenho." Vão ver que seria ter sol na eira e chuva no nabal no dia das eleições.
«DN» de 21 Set 14

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20.9.14

Novo livro é lançado dia 25 na reitoria da UL

Por A. M. Galopim de Carvalho
O novo livro Evolução do Pensamento Geológico (da Âncora Editora) vai ser lançado no próximo dia 25 (uma quarta-feira) na Reitoria da Universidade de Lisboa. A sessão terá lugar na Sala de Conferências, pelas 18.30 horas. Nesta sessão o livro será apresentado pelo Prof. Doutor José Barata-Moura.

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História de embalar as altas finanças

Por Ferreira Fernandes  
Uma empresa chinesa entrou na Bolsa de Nova Iorque e teve a maior IPO, oferta pública inicial (seja lá isso o que for), de sempre: 17 mil milhões de euros (seja lá isso o que for). Gosto da história quando leio o nome da empresa: Alibaba. Aportuguesemos, Ali Babá sugere logo 40 ladrões e é extraordinário que uma empresa que tem quatro quintos do comércio online na China e se ramificou nos pagamentos eletrónicos e investimentos financeiros tenha um nome que nos lembre ladrões. Mas é verdade que antigamente uma empresa que movesse cifrões tinha de ter um nome que inspirasse confiança - e viu-se como acabou o Banco Espírito Santo. Por isso compreendo a tática da Alibaba. Embora, se calhar, o melhor seria queimar etapas e chamar-se logo Forty Thieves, 40 Ladrões. O facto é que a Alibaba entrou em Wall Street e, num "Abre-te Sésamo!" e "Fecha-te Sésamo!" (meu Deus, como o Financial Times de ontem me atirou para a minha infância!), sacou os tais 17 mil milhões. Se estou bem lembrado, o meu antigo Ali Babá era mais prudente, entrava na caverna, via aquele tesouro todo a brilhar e só tirava um bocadinho. E assim ia voltando, sem os ladrões da gruta se darem conta. Jack Ma, o patrão da Alibaba, agiu mais como Cassim, o irmão do Ali Babá, que foi tão ganancioso que se esqueceu das palavras mágicas, ficou preso em Wall Street, perdão, na caverna, e foi morto. Temo que a minha infância nunca me deixe ser um frio analista financeiro. 
«DN» de 20 Set 14

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19.9.14

O que será um "não" de Londres a Madrid?

Desculpas de mau pagador

Por Antunes Ferreira
ESTA SEMANA entrámos na fase das desculpas dos (des)governantes. Na quarta-feira foi a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, que pediu desculpa pelos "transtornos" resultantes dos problemas detectados na plataforma informática Citius e garantiu que serão apuradas responsabilidades.
Paula Teixeira da Cruz disse "assumir integralmente a responsabilidade política" pelos "transtornos" registados na plataforma, mas negou que estes tivessem causado o "caos" nos tribunais. E garantiu que tinha recebido informações de que a 1 de Setembro, data da entrada em vigor do novo mapa judiciário, o Citius estaria em condições de funcionar em pleno.
Quanto às anomalias técnicas verificadas no Citius, a ministra assegurou que "haverá um processo de averiguações porque não há ninguém irresponsável" e que serão "apuradas as responsabilidades até ao limite", mas insistiu que "não houve qualquer caos" e que essa teoria só pode ter partido de pessoas que "são contra a reforma" ou que estão de "má fé".
Questionada sobre para quando o restabelecimento da normalidade da plataforma informática, a ministra não se comprometeu com qualquer data, afirmando, contudo, esperar que os problemas sejam resolvidos o mais breve possível.
Num país a sério e sério um governante que reconhecesse que um tal erro corresponderia à apresentação de um pedido de demissão. Porém em Portugal não é assim. Sobre a eventualidade de se demitir, a titular da pasta da Justiça disse que "tem sempre o lugar à disposição", mas que, "numa altura de dificuldades", a sua prioridade é "resolver os problemas" da plataforma.
Após as declarações da ministra, Rui Mateus Pereira, presidente do Instituto de Gestão Financeira e dos Equipamentos da Justiça (IGFEJ), disse ter sido ele a garantir a Paula Teixeira da Cruz que a 1 de Setembro o sistema estaria apto a funcionar. "O que se passa é que a plataforma com a sobrecarga de dados acabou por não corresponder às exigências", explicou. E adiantou que, além dos 3,5 milhões de processos que foram migrados para o Citius, houve 80 milhões de documentos e 120 mil milhões de actos processuais enviados para a plataforma.
De desculpas em desculpas por ordem regredidativa  de funções todos os intervenientes sacudiram a água dos respectivos capotes e de degrau em degrau ver-se-á que no fim da escala regressiva, quem se irá tramar será um “técnico” Mas, entretanto o presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais disse que os tribunais estão num situaçõ impossível devido aos problemas do Citius. Não querem chamar-lhe caos, chamem-lhe confusão, pandemónio, enfim.. E acrescentou eu era provável que a ministra não tivesse entrado num tribunal há quinze dias, porque, se o tivesse feito, veria a situação com que se confrontavam.

Por seu turno, o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, assumiu na tarde de quinta-feira que “houve uma incongruência”, “na harmonização da fórmula” com base na qual foram ordenados milhares de professores sem vínculo, que começaram a ser contratados pelas escolas na segunda-feira passada. “Peço desculpa aos pais, aos professores e ao país”, disse, na Assembleia da República, ao assumir o erro. Ao fim da tarde, soube-se que aceitou a demissão do director-geral da Administração Escolar, Mário Agostinho Pereira.
Em causa está a fórmula matemática utilizada pelo MEC para criar as várias listas de contratação, nas quais milhares de docentes estão ordenados por ordem decrescente. Nos restantes concursos a lista está ordenada com base na graduação profissional. Neste, designado por Bolsa de Contratação de Escola (BCE), a legislação determina que a classificação é feita com base na graduação profissional (com a ponderação de 50%) e na avaliação curricular.
O ministro, que falava na Assembleia da República num debate de actualidade agendado pelo PSD a propósito do arranque do ano lectivo, assumiu a existência de "um erro", com “implicações jurídicas”. E sublinhou que os deputados estavam a assistir “a uma coisa que não é comum na História, que é um ministro chegar ao parlamento e reconhecer a responsabilidade por uma não compatibilidade de escalas, e um ministro assumir que o assunto vai ser corrigido”, disse. O erro, explicou, "é um aspecto não apenas matemático ou aritmético, mas que tem implicações jurídicas, e que precisa de ser visto não só de um ponto de vista quantitativo e lógico, mas também à luz da legislação existente".
Por certo não se recordou dos casos Walter Rosa e Jorge Coelho que tiveram a hombridade de pedir a demissão face a casos que não sendo da sua responsabilidade objectiva, mas que aceiram como responsabilidade política; para não falar da ocorrência anedótica do ministro Manuel Pinho verificada na Assembleia da República; Pinho também se demitiu por mor do caso que ficou conhecido como caracol põe  os corninhos ao Sol. A uni-los uma característica comum: todos eles eram do Partido Socialista.
Cada um desculpa-se como pode; são as desculpas de mau pagador que neste caso é o (des)Governo que descredibiliza a afirmação que o Estado é pessoa séria deve pagar a quem deve. 

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18.9.14

A Escócia ganhou um grande discurso

Por Ferreira Fernandes 
Quem gosta de saber do mundo deveria reservar 13 minutos do seu tempo para ouvir o discurso de Gordon Brown, ontem, em Glasgow. Se calhar, o voto de hoje dos escoceses, a ser "sim" à independência, varrerá esse discurso, tal como Churchill foi apeado em 1945 depois de ter ganho a guerra; se o voto for "não", o discurso será lembrado como o momento-chave, aquele que decidiu a continuação do Reino Unido. Em qualquer dos casos, o discurso merece atenção futura, por tanto tempo quanto perdurar o interesse dos homens pelo exercício do bem falar dos políticos. Querendo estes convencer-nos, e na democracia é pela palavra que o fazem, então que o façam com estilo e paixão. Aconteceu ontem com o trabalhista Brown, na esteira do que algumas vezes aconteceu com o conservador Churchill. Como a política é utilitária, os grandes discursos merecem momentos decisivos. E os momentos decisivos e graves anseiam por políticos capazes de se mostrarem líderes. Pois bem, o momento crucial por que passa a Grã--Bretanha teve ontem quem o merecesse. Foi o escocês e ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown que falou como deve ser, no tom e na mensagem. Lembrou: "O que [os escoceses] conseguimos foi muito e não foi fora do Reino Unido, mas dentro do Reino Unido." E: "O que nós escoceses fizemos foi sem sacrificar na união a nossa identidade, cultura e tradição de escoceses." Vão partir? Seja, ficarão todos mais fracos, como os que escolhem mal. 
«DN» de 18 Set 14

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Terrae adquae Solis filiae

Por A. M. Galopim de Carvalho
Se não erro, a expressão latina Terrae adquae Solis filiae quer dizer “as filhas da Terra e do Sol”, uma maneira alegórica de referir as rochas sedimentares, cujo estudo atingiu níveis de especialização que justificaram o aparecimento de uma nova disciplina a que, em 1932, o sueco Hakon Adolph Wadell (1895-1962) deu o nome de Sedimentologia, Nesta visão alegórica, pode dizer-se que, fecundada pela radição solar indutora dos processos geológicos e biológicos próprios da sua capa externa, a mãe Terra dá nascimento a esta outra categoria das suas criações. Estas rochas trazem consigo, não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas e, muitas delas, ainda, a data do seu nascimento. Armazéns ou arquivos de vultuosa informação, o seu estudo tem-nos permitido conhecer grande parte das histórias da Terra e da Vida.(...)
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O GES, o BES, o BPN, o Banif, o BCP e as desgraças que nos esperam

Por C. Barroco Esperança
Rui Rio, para fazer prova de vida, afirmou nesta última terça-feira que era impagável a dívida portuguesa e inexequível o memorando de entendimento, salvo se o crescimento económico atingisse níveis absolutamente imprevisíveis.
Não é preciso um curso de economia para uma profecia ao alcance de um guarda-livros por correspondência. Só um Governo autista, com a missão de desmantelar o Estado, de modo a que nunca mais possa cumprir as suas funções sociais, é capaz de afirmar que o País está melhor, apesar de os portugueses estarem pior. (...)
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17.9.14

Sol & Sombra

Por José António Lima
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SOL
João Marques Vidal
Ficou evidente, com a leitura do acórdão e das sentenças do processo Face Oculta, que os juízes do Tribunal de Aveiro confirmaram no essencial a excelência da investigação judicial e da análise criminal que fora liderada por este procurador de Aveiro (agora à frente do DIAP de Coimbra) e pelo inspector da PJ Teófilo Santiago. Só faltou que tivessem a mesma comprovação e sequência judicial as certidões que então extraiu e incriminavam o primeiro-ministro da altura, José Sócrates. Mas a qualidade e a coragem da investigação do caso Face Oculta, face ao poder socrático então todo-poderoso, ficarão como momento alto da sua carreira.
Carlos Moedas
É obviamente uma pasta de segunda linha da Comissão Europeia a que lhe calhou em sorte no elenco Juncker (na qual terá mesmo que reportar a uma vice-presidente). Mas depois de 10 anos com a presidência de Barroso na Comissão seria sempre difícil a Portugal manter um estatuto de primeira grandeza. E a pasta da Investigação, Ciência e Inovação, além do tão falado superorçamento de 80 mil milhões, é uma oportunidade para o promissor ex-secretário de Estado Adjunto de Passos Coelho se tornar uma figura influente em Bruxelas.
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SOMBRA Paulo Bento
Ironicamente, quatro anos depois, é forçado a abandonar a liderança da Selecção quase nas mesmas circunstâncias que o seu antecessor Carlos Queiroz em 2010: logo após o começo desastrado de um grupo de apuramento para o Europeu. Entretanto, conseguiu duas qualificações sofridas de Portugal e os seus momentos altos foram chegar à meia-final do Euro-2012 e o inesquecível play-off com a Suécia (graças a uma enorme exibição de Ronaldo). O ponto mais baixo foi esta derrota impensável em casa com a Albânia. Mas o problema da Selecção reside mais na falta de qualidade da base de recrutamento de jogadores para a necessária renovação da equipa nacional do que nas capacidades deste ou doutro seleccionador.
Armando Vara
Com o seu amigo Sócrates no Governo subiu alto no mundo empresarial e financeiro, da CGD ao BCP. Mas nunca se livrou da imagem de ser mais um comissário político e um gestor de influências do que um administrador respeitado - e a sentença do processo Face Oculta só veio confirmar essa ideia.
«SOL» Set 14

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As primeiras reguadas

Por A. M. Galopim de Carvalho
A escola de São Mamede, em Évora, era húmida e gelada no Inverno. Muitas crianças descalças levavam um pedaço de cortiça para não porem os pezinhos no ladrilho. Era uma escola só para rapazes, pois nesse tempo havia separação de sexos nestes e noutros estabelecimentos de ensino. Nas escolas femininas só havia professoras, mas nas masculinas havia professoras e professores, alguns deles, mais do que elas, particularmente severos. Por não se saber a lição, errar uma conta, dar erros no ditado ou por qualquer violação da disciplina, apanhavam-se reguadas a sério, muitas vezes, meia dúzia em cada mão e, às vezes, mais. Foi interiorizando medos, não confessados, que dei entrada na Escola de São Mamede em 1940. Adeus bons tempos de menino a aprender as primeiras letras no carinho da mãe e no aconchego da casa, à braseira nos meses de inverno. (...)
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O pântano

Por Baptista-Bastos
Circula o rumor, astutamente organizado, de que António Guterres é um bom candidato à Presidência da República. Não o é. À menor contrariedade foge espavorido, como se viu quando perdeu as eleições municipais, e refugiou-se num chamado Alto Comissariado para os... Refugiados. É sempre assim: começa com um rumor, prossegue com um grupo de "notáveis" a apoiar, segue-se um abaixo-assinado, e as coisas vão rolando, a bel-prazer do contemplado.
Contrario, abertamente, esta estratégia, por muito ardilosa que os seus mentores a hajam congeminado. Guterres está longe de ser o homem que o momento exige. Carece de carácter, é um espírito flébil, pouco consistente e indeciso. Estou à vontade: votei nele, burlado pela paixão que, então, dizia "devorá-lo": a educação. Revelou-se habilidoso no uso do idioma, mas inútil, manietado e medroso como primeiro-ministro. Designou o País de "pântano", por não estar à altura das circunstâncias imprevistas. E demonstrou ser ressentido, rancoroso e vingativo, quando saneou Vasco Graça Moura das funções de comissário para as Comemorações dos Descobrimentos, porque o escritor criticava, publicamente, a política do Governo. Acontece que Graça Moura realizava um trabalho magnífico, a justificar o prémio e o elogio e não o olho da rua e a execração. Na altura, verberei a condenação absurda, injusta e muito pouco democrática, e deixei de apertar a mão ao saneador, que teve o descoco de afirmar que perdera a "confiança política" no saneado.
Conheci António Guterres no escritório de João Soares Louro, na Cinevoz, onde trabalhei uns meses. Ali se reuniam, periodicamente, alguns socialistas conspirativos, enquanto eu me divertia um pouco e devagar. Guterres usava um bigode hirsuto, pouco convincente e perlado de gotas de suor, que limpava com pressurosa persistência. Possuía aquela forma patusca de falar que ainda mantém, que me suscitava alguma ironia. "Ria, ria; mas ele ainda vai ser primeiro-ministro", comentava Soares Louro. Como revelei, acabei por votar nele, fui enganado, fiz o que tinha a fazer, não oculto um certo desdém que por ele embalo, e não encontro nenhuma virtude que o recomende à Presidência.
O rumor organizado que pretende propô-lo constitui uma manobra de interesses marcada por tudo menos pela vocação de servir o País. E o apagamento ao nome de Manuel Carvalho da Silva, um nome que surgiu com a evidência oposta à rotina e aos jogos tenebrosos de poder, é mais um sintoma das características sombrias dessa moscambilha.
A questão não reside no ardil: pior do que Cavaco é impossível. A questão é de honra, de decência - ou, se quiserem, de patriotismo. Portugal não é um pântano, e os portugueses não são degraus para ambições, essas, sim, pantanosas.
«DN» de 17 Set 14

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16.9.14

Pergunta de algibeira

Durante quantas noites Xerazade entreteve o sultão Xariar, contando (a ele e a Dinazarde) as histórias que vieram a ser conhecidas como «As 1001 Noites»?
Actualização: 
Curiosamente, a seguir à 236ª noite ainda há umas 3 dezenas de histórias, pelo menos na colectânea de Gallant.

Voltando ao calafrio nas costas

Por Ferreira Fernandes 
Parece bater sempre na mesma tecla, e é. Tenho o pescoço sensível e, sim, volto ao Estado Islâmico. Temos, então, o referendo na Escócia, na próxima quinta. O primeiro-ministro britânico David Cameron disse que a independência escocesa não seria um convite para tomar chá mas um "divórcio doloroso." E insistiu que o "sim" à independência seria um ato irreversível, seria "para todo o sempre." Reparo que Cameron não lembrou um dos factos deste referendo: a decisão sobre a unidade será tomada por uma só parte, os residentes na Escócia. Como eu já disse aqui, um português que não saiba quem foi Livingstone, nem queira saber, e viva em Edimburgo há três anos porque a empresa belga o lá colocou, pode votar. Já um inglês e um escocês que vivam em Londres não podem votar, apesar da decisão lhes dar a dor de perderem, a um a Escócia, a outro a Inglaterra, partes da sua vida, memória e cultura. Temos, pois, para voltarmos à imagem de Cameron, um divórcio litigioso em que a parte que decidiu partir é que decide unilateralmente, sem recorrer à arbitragem de um terceiro, um juiz, como prudentemente os casamentos de pessoas se deram para acabar o melhor possível. Quer dizer, a haver saída da Escócia, não haverá melhor possível. Será rutura de consequências incontroláveis e imprevisíveis, como foi o fim da URSS. Logo, o melhor exército europeu, o britânico, acaba. Logo, o meu pescoço está mais frágil. Como eu disse, volto à minha tecla.
«DN» de 16 Set 14

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15.9.14

Publicitando a privatização dos CTT?

Um erro é um erro e isso não é pouco

Por Ferreira Fernandes 
Há dias, na crónica "O caso da Rainha que se fechou em copas", citei uma frase de João Ferreira do Amaral, que escreve regularmente no blogue 31 da Armada. Para situar o autor, eu disse que João Ferreira do Amaral, em coautoria com Francisco Louçã, escrevera um livro sobre o euro, há pouco lançado. Depois, dediquei-me ao assunto, isto é, demonstrar que ao recusar dar opinião sobre o referendo da independência da Escócia a Rainha Isabel II não merecia ser felicitada como o era na citada frase ("Talvez não exista maior exemplo do que deve ser um chefe de Estado, sempre acima do jogo político...") Ora, há este porém: João Ferreira do Amaral do blogue não é João Ferreira do Amaral do livro. Já sabia que nos blogues era preciso contornar o escolho do pseudónimo, fiquei a saber do necessário cuidado com a homonímia. Mas esse é um problema meu, não dos leitores e, sobretudo, não é de quem viu atribuída a si uma frase que não era sua. Não foi o professor João Ferreira do Amaral, autor de A Solução Novo Escudo, que escreveu aquela frase. Logo, quaisquer que sejam as razões que me levaram ao erro, o essencial é que houve erro meu. O professor João Ferreira do Amaral foi, por mim, metido numa história com a qual não tinha nada que ver. Peço-lhe desculpa. 
Outro assunto, menor: Francisco Louçã escreveu um texto no Público, intitulado "Bastava um minuto de trabalho, caro Ferreira Fernandes". Louçã escusava de pôr "caro", ambos sabemos ser falso. 
«DN» de 15 Set 14

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14.9.14

Casa dos Segredos e Estado Islâmico

Por Ferreira Fernandes 
O Estado Islâmico está a tornar-se Casa dos Segredos. Não há dia em que um Fábio, de kalashnikov, e uma Ângela, dum só queriducho barbudo, não nos entrem em casa. Despertando a Teresa Guilherme que dorme em cada um, os jornalistas, por twitter, vão sabendo o essencial sobre a alentejana do deserto ou o rapaz de Tondela especialista de fogo de artifício. Ela levou ingredientes para cozinhar - na última ligação à casa mais famosa de Portugal soubemos que foi maionese, ketchup... Olha, o kechup é difícil de encontrar na Síria! Se calhar é porque lá não se usam efeitos especiais. Já o rapaz dos foguetes deu há meses uma festa feérica, das melhores da região (é sabido, lá fora os nossos emigrantes dão cartas). Não foi como o fogo de artifício maricas das Festas da Senhora do Alívio, pipocando às mijinhas. No Estado Islâmico o rebentar é só um instante mas ouve-se melhor. Em Tondela, apanham-se as canas; por lá são uma perna aqui, um baço ali... Espetáculo! Mas ficou por saber: e bacalhau? Têm saudades de bacalhau, os nossos portuguesitos do Estado Islâmico? Para a próxima ligação de twitter, há que sacar essa informação chave - Teresa Guilherme, a original, falhava lá ela isso. Outra crítica, na Casa dos Segredos, a original, espreita-se debaixo dos lençóis; nesta, nada sob o hijab. Estou mortinho por pedirem o meu voto: não quero que nenhum concorrente venha para casa mais cedo. Aliás, prefiro que não voltem nunca.
«DN» de 14 Set 14

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Luz - Porto e litoral urbano de Cartagena de las Índias, Colômbia.

Fotografias de António Barreto- APPh
Clicar na imagem para a ampliar 
Este porto de mar, com antigas tradições, é ainda um dos principais da América Latina. A cidade teve uma história tormentosa, atravessou mesmo períodos de total ruína, no meio de guerras independência. Neste porto, por entre as estruturas tecnológicas, os guindastes e os contentores, também se encontram barcos de recreio, muralhas e fortalezas com três ou quatro séculos e edifícios muito modernos. Estamos ainda muito longe dos portos especializados com separação de actividades (comércio, transporte, passageiros, habitação, turismo, lazer…). Talvez não seja muito “rentável” nem “competitivo”. Mas lá que tem mais graça… (2013)

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PEDRAS DISTO, DAQUILO E DE MAIS ALGUMA COISA (3)

Por A. M. Galopim de Carvalho
Conhecidas de um tempo antigo, em que, como se disse atrás, não se distinguiam os minerais das rochas, as pedras preciosas (diamante, safira, rubi, esmeralda e a pérola) e as que, comparativa e popularmente, se designavam por pedras semipreciosas (turmalinas, granadas, ametista, topázio e muitíssimas outras), são hoje, todas elas, referidas por pedras preciosas ou gemas. Gema é um termo que, na Antiguidade latina, Plínio, o Velho (23-79 d.C.) usou no mesmo sentido e que Camões lhe alude, no canto VII dos Lusíadas, sendo, ao que se julga, a primeira vez que, entre nós, a palavra foi usada neste contexto.
No domínio gemológico são várias as expressões comerciais. (...)
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13.9.14

Bem a propósito da crónica anterior

(Uma boa sugestão de Nuno Rogeiro, no Facebook)

A atração fatal pelo pequenino

Por Ferreira Fernandes 
Foi um economista, E. F. Schumacher (1911-1977), britânico de origem alemã, que popularizou uma das frases que, dizem, mais influenciaram os tempos modernos: small is beautiful. A indústria informática com empresas tantas vezes nascidas em garagens ajudou a sustentar essa imagem romântica de minimalismo. Mas a verdade é que esse gosto pelo pequenino afogou-se num gigantismo que impressionou tanto mais quanto foi protagonizado por miúdos adolescentes (o Mark Zuckerberg do Facebook, o Larry Page do Google...) que num fogacho se tornaram potentados que fazem os Rockfeller de antigamente parecer pequenos burgueses. Então, o small is beautiful já era? Não, mudou de ramo. Foi para a política. A Bélgica, exemplo clássico, não suporta a sua vastidão, parta-se em dois! Já a Checoslováquia não aguentou nome tão comprido. Agora, dois médios países de um atarracado continente deram em sufocar na sua grandeza. A Grã-Bretanha acreditou que era mesmo grande, e está em vésperas de deixar ir a Escócia. A Espanha faz dois com a Catalunha (e amanhã fará três, e quatro...) Eu desde que ouvi os de Sendim, a meia dúzia de quilómetros de Miranda do Douro, garantindo que o seu sendinês não tem nada que ver com o mirandês, percebi: a atração pelo pequenino é fatal. Amanhã, os à volta da Europa mostrarão a estes indígenas como isso de ser pouco pode ser beautiful, mas é perigoso.
«DN» de 13 Set 14

12.9.14

Paulo Bento: quo vadis?

Por Antunes Ferreira
NA QUINTA-FEIRA passada a notícia do dia foi a rescisão “por mútuo acordo” do contrato que ligava Paulo Bento à Federação Portuguesa de Futebol, o que em termos menos codificados quis dizer que ele deixou de ser o seleccionador nacional. Para segundo lugar passaram a guerra na Ucrânia, os crimes hediondos dos jihadistas, a fundação de um novo partido por iniciativa de Marinho Pinto, os debates Costa-Seguro (ou Seguro-Costa para não ser considerado parcial) e mais que me dispenso de enumerar. Até as Notícias Google abrem com o divórcio no futebol nacional.

Aponta-se o novo timoneiro para a selecção que, depois do descalabro verificado na Copa do Mundo do Brasil, fez o pior resultado dos lusos, perdendo com a Albânia e em casa, mais precisamente em Aveiro. Uma vergonha nacional - disseram críticos da especialidade e outros que vieram comprovar a afirmação calina de que os portugueses são os melhores treinadores e experts em futebol no sofá.
Se algumas dúvidas houvesse sobre a importância do “Desporto Rei” (a que alguns chamam chuto na canela) no Mundo e por isso também em Portugal elas soçobrariam nesta ocasião. De resto, já no tempo salazarento o ditador de Santa Comba Dão percebeu que o futebol era o melhor derivativo para as enormes dificuldades e deficiências do Portugal da “Casa Portuguesa”. O povo que (quase) sempre tem razão disse sem meias tintas “pobretes mas alegretes”.
Este nosso país que era nesse sinistro período do “Estado Novo” (curiosamente hoje há um Novo Banco e isto resulta apenas da associação de vocábulos feita pelo autor do escrito) conhecido pela terra dos três F: Fátima, Futebol e Fado, não tem emenda. Se se fala de algum assunto, se se discute a propósito, se se engalfinham sujeitos tudo resulta do futebol. E se calhar alguns dos crimes de sacho ou machado não são tanto por ciúmes ou por diferenças de propriedades pelas quais passa o mesmo riacho. Vendo bem as coisas a futebolite também deverá contar como motivo para tais procedimentos.
Entretanto a curiosidade popular quanto ao famigerado caso BES/Novo Banco é mais centrada no facto do Cristiano Ronaldo ser a face da publicidade da cabeça do polvo de Ricardo Salgado. Fazendo jus ao que por aí corre, Judite de Sousa – honra feita pela força de mãe amargurada e pelo profissionalismo – na entrevista que fez ao Melhor Jogador do Mundo e da Europa pôs-lhe a questão a que o futebolista respondeu com habilidade.
Esse sim, esse foi um momento que deu motivos para se abordar com satisfação o futebol português. Com satisfação e orgulho diria eu. Toda a entrevista dividida em duas partes veio demonstrar que Judite de Sousa fez um tremendo esforço para um sorriso deslavado em alguns dos momentos mais engraçados. Mas também veio confirmar que o craque madeirense melhorou – e de que maneira – na forma de se expressar com um português muito aceitável num jogador de futebol. Por isso aplaudi os dois e dei-lhes os parabéns pela maneira com que se comportaram frente às câmaras televisivas.
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Creio que tenho alguma legitimidade para assim dizer. Quando o Cristiano Ronaldo veio da sua ilha para o Sporting, assisti à conversa/entrevista feita pelo António Castro chefe do “Desporto” do Diário de Notícias. O jovem metia as mãos pelos pés e vice-versa nas pretensas respostas (?) que dava ao jornalista. E para mim pensava que sendo considerado um jovem diamante futebolístico no modo de estar em campo, precisava de ser lapidado. E, pelos vistos, foi.
Mas, o relevo da comunicação social, na quinta-feira foi muito maior do que o concedido a uma entrevista que considero um dos bons momentos da televisão em Portugal. A saída de cena de Paulo Bento pela porta do cavalo teve uma repercussão muito maior. E a pergunta logo surgiu: Bento: quo vadis? No fundo, este pobre país tem hoje não três mas quatro F: Fátima, Futebol e Fado, a que se deve acrescentar Futuro. O que, como diz o Chico Buarque (e neste particular do último F) a coisa está preta.

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Uma grande história de amor

Por Ferreira Fernandes 
Eis uma história de amor destes dias. Um amor com história é sobre corações partidos, ou quase. Três ingleses de Westminster, Dave Cameron, Nick Clegg e Ed Miliband, cobrindo todo o arco britânico (um conservador, outro liberal e o terceiro trabalhista), unidos pela mesma amada, Escócia, partiram esta semana à procura dela. Estes modernos cavaleiros da Távola Redonda não iam nem para tirar a Excalibur da pedra, nem pelo sonho do Graal. Os tempos da glória e das conquistas eram passado, o que os movia era a paixão. Se cavaleiro os inspirasse, não seria o rei Artur, Galahad ou Perceval, os da espada, mas Sir Lancelote, o amante da rainha Guinevere. Ou, invertendo territórios, inspirava-os John Bull, o criado que sempre usou kilts, a saia escocesa das Terras Altas, e que consolou e amou a Rainha Vitória quando ela ficou viúva, e que praguejava nos palácios de Windsor e Balmoral, louco pela segurança da amada. Os nossos três cavaleiros, Dave, Nick e Ed, partiram para dizer o mesmo à sua Escócia: que a amavam perdidamente. Dave lembrou que Escócia não decidia agora como das outras vezes, "quando estava farta dos effing conservadores e dava-lhes um pontapé", simples protesto. Agora, se ela partia, deixava-os de "coração partido", e de vez. Por isso, Dave, tão bem educado e até é conservador, disse "dos effing [fodidos] conservadores", ousando praguejar como John Bull. É assim que a Grã-Bretanha é grã, e espero que continue grande.
«DN» de 12 Set 14

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11.9.14

O caso da Rainha que se fechou em copas

Por Ferreira Fernandes
João Ferreira do Amaral, que quer sair do euro com Francisco Louçã (escreveram juntos A Solução Novo Escudo), é monárquico. Se ele defende o tema monetário tropeçando como o faz com a Rainha Isabel II, Louçã vai ter de puxar sozinho pelo escudo. Isabel II, que é Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha, o que quer dizer, entre outros, da Escócia e da Inglaterra, avisou esta semana os políticos: não me metam no debate do referendo. No próximo dia 18, a Escócia vota "sim" ou "não" à independência. Isto é, decapita ou não a Grã-Bretanha. E sobre isso a Chefe do Estado, Isabel II, lava as mãos. Ferreira do Amaral maravilhou-se com a atitude: "Talvez não exista maior exemplo do que deve ser um chefe de Estado, sempre acima do jogo político..." Já houve tempo em que os monárquicos davam como mérito dos reis o de unir os povos. Isabel II encanta Ferreira do Amaral por se estar nas tintas para isso. O importante é que continue Rainha da Escócia e Rainha da Inglaterra. A monarquia britânica, se o referendo der para o torto, vai reciclar-se em nichos de mercado em vez de grandes empresas. Sorte a delas, monarquia e Isabel. E com a coroa sem estados de alma, "sempre acima do jogo político..." Sobre o novo escudo, não sei, mas esta nova monarquia não me convence. Assim como assim prefiro a velha, quando os reis para justificar o posto andavam à espadeirada. É certo que não era acima do jogo político, era mergulhado nele. 
«DN» de 11 Set 14

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Justiça, emoções e preconceitos

Por C. Barroco Esperança
O referendo é um instrumento democrático inquestionável, no campo dos princípios, e perigoso na sua aplicação. Imaginem-se os resultados de um referendo sobre o aumento de impostos ou sobre a pena de morte, este realizado na sequência de uma notícia sobre a violação, tortura e morte de uma criança por um tarado sexual.
Basta recordar como foi legitimada, em Portugal, a Constituição Política de 1933, para sermos atingidos por um arrepio, embora, no caso, as abstenções fossem votos a favor. (...)
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10.9.14

Não vou discutir a baixa do IVA, não

Por Ferreira Fernandes
Há dias, saía eu do Hospital de Santa Maria para apanhar táxi, quando ouvi: "Olá, amigo!" De um carro estacionado, um jovem estendia-me a mão. "Há quanto tempo... Não me está a reconhecer...", disse ele. Continuei dubitativo. E ele, tirando o boné: "Está a ver? Sou a cara chapada do meu pai, você ia tanta vez lanchar com ele! O Pereira... Pereira da Silva, talvez o conhecesse como Silva. Já se lembra?" E eu: "Não me lembro. Bom-dia!"... Já fui mais rápido a reagir ao conto do vigário em fase preparatória. Um dia, no Leblon, íamos eu e a minha filha, ainda garota, felizes no primeiro dia dela no Rio. Um vendedor de lotaria deixou cair no passeio, de forma dissimulada, um bilhete de lotaria. A miúda ia apanhá-lo e devolver, quando a impedi. Chamei o dono, mostrei-lhe o bilhete e cortei o começo de conversa que já ia na oferta de alguma coisa pela minha simpatia... 
Sei porque me lembro disto agora, ouvi o debate, ontem, das primárias no PS. Ouvi Seguro a dizer: "E sabes porquê, António?" E dizer: "Naquele tempo havia solidariedade!" E: "O que fizeste ao PS?" Já aqui o disse: não gosto de Seguro. Não é por esta ou aquela linha política. E nem é por essa coisa que salta nos políticos quando falta, o carisma. É pela cara mesmo. O falso afeto. Isto é, por uma razão política maior. Se ele chegar a primeiro-ministro e encontrar o ministro alemão Schäuble, não quero vê-lo a debruçar-se e perguntar: "Então, como vão as perninhas?"
«DN» de 10 Set 14

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No Reino do Absurdo

Lagos - uma cidade onde os direitos dos peões não são espezinhados... porque nem sequer existem.

Portugal nebuloso

Por Baptista-Bastos
Os equívocos e as omissões parecem ter carta-de-alforria na sociedade portuguesa. Vive-se do aspecto, tudo aparentemente "natural", porque as nebulosas não são esclarecidas, e os comentadores que tinham obrigação de as clarificar não o fazem por incompetência, porque são estipendiados ou por medo. Se é preciso coragem para ser velho, como diz a Isaura, para ser velho em Portugal a coragem terá de ser dupla ou tripla.
Há pouco tempo, o Dr. Cavaco afirmou que não havia motivos para os clientes do BES terem sobressaltos. O vulcão já estava activo e, de certeza, muita gente sabia o que se passava no subsolo. O desmoronar do império financeiro foi, pelos vistos e ouvidos, um espanto para o Dr. Cavaco, cuja tranquila persuasão encaminhara milhares de portugueses para os abismos da desgraça.
Veio agora o pobre homem dizer à puridade que ninguém, nem Governo, nem os sábios com que se rodeia, nem o governador do Banco de Portugal, lhe chamara a atenção para o ruído vulcânico já pressentido. A inépcia do Dr. Cavaco, que, em certa ocasião, declarou não perder tempo a ler jornais, e raramente se enganava, tem, como testemunho histórico, a farsa em que vive e nos obriga a viver.
A sua ignorância, neste gravíssimo caso, e o silêncio ou as frases dúbias com que a ele se refere é mais um triste e nefasto episódio da tragédia portuguesa. Um Presidente deste género, um Governo tal assim, uma comunicação social que se perdeu em devaneios líricos, e que converteu em fazedores de opinião umas criaturas que não estão ali para explicar (como dizia o Chacrinha no Brasil) mas para complicar, deviam ser apontados à execração e alvitrados como delinquentes de lesa-pátria.
O País está de pantanas, já se fala abertamente no abandono do euro, e que o euro (com provas provadas) só beneficiou a Alemanha, e há por aí um ou dois grupos de lúgubres humoristas que gozam connosco tocados de leviana impunidade. Ridendo castigat mores (A rir castigamos os costumes) transformou-se numa cegada improvável e numa galhofa desprovida de sentido. Não é dilucidada a raiz oculta dos acontecimentos que nos afectam; as privatizações obedecem a critérios brumosos; surgem rios de dinheiro, de procedência calada para aquisição de empresas; poderosos escritórios de advogados envolvem-se nestes e em outros negócios - e nós somos colocados perante factos consumados, como rebanhos resignados e sem voto na matéria. A democracia de troca de favores funciona, e um pequeno grupo enche os bolsos de dinheiro, com a aquiescência de quem, na imprensa e nas televisões, capitula na missão de informar, explicar e combater. O País precisa, urgentemente, de uma barrela que expurgue as nódoas que o tornaram este amontoado de negócios sórdidos. 
«DN» de 10 Set 14

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9.9.14

E ele ainda exige benefício da dúvida

Por Ferreira Fernandes
Paulo Bento disse: "Se no final da primeira jornada colocamos já tudo em causa, não me parece que seja o melhor caminho." Mas não o disse na posição em que devia: escanhoando-se, frente ao espelho e com a vergonha dos profissionais que sabem ter falhado tanto. Patrão de uma equipa que a FIFA coloca em 11.º lugar do ranking mundial, Bento perdeu em casa com a Albânia, do 70.º lugar. Um ranking não é ciência exata, viu-se em Aveiro, mas também não tem a consistência de ovos-moles. Entre Portugal e a Albânia estão todos os adversários que nos tocam no apuramento para o Europeu 2016. Quer dizer, começámos por perder, e em casa, com os mais fracos. Por isso é legítimo que, logo na "primeira jornada", a crítica seja dura. E é cedo, sim, que se deve malhar porque perante o descalabro é necessário pôr "tudo em causa". Não foi só o resultado. Com bons e razoáveis jogadores, ele, em vez de uma equipa, fez uma tropa fandanga. Quando se perde com a Albânia, e em casa, o mínimo a esperar de um treinador é que diga: "Não me parece que seja o melhor caminho." Mas que o diga a si, não às críticas. Aliás, o mérito de se atacar cedo não devia ser preciso explicar a Paulo Bento, mestre de atacar até antecipadamente: ele ainda não tinha dado provas no Mundial e já assinara um contrato para o Europeu. Pior para ele e para nós, de incompetente comprovado vai a caminho de ser incompetente insistente.
«DN» de 9 Set 14

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Cada um sabe de si, mas...

Há algum tempo, um enólogo escrevia, no Expresso, acerca da importância dos rótulos na venda dos vinhos, nomeadamente quando o comprador escolhe um, de entre vários que desconhece.
No caso de cima, o rótulo (com a banda desenhada das personagens do Público) rodeia completamente a garrafa.
No entanto, dizem-me que o vinho tem sido um sucesso. Com tal nome e tal rótulo deve, então, ser muito bom!

8.9.14

A Europa está parva e é geral

Por Ferreira Fernandes
A pergunta, como em todos os referendos bem feitos, vai ao osso: "Deve a Escócia ser um país independente?" Nenhum chantilly para encher o olho, nenhuma palavra supérflua. Nem mas nem meio mas: sim ou não? Milhares de anos de misturas de povos como inevitavelmente aconteceu, porque se passou numa ilha, e pequena ilha, e três séculos de pátria comum, o Reino Unido da Grã-Bretanha, desde 1707... E agora (dia 18 de setembro), separa-se, como o trigo do joio: sim ou não? Muito antigas derrotas comuns (por exemplo, na Independência americana) e vitórias comuns (I e II Guerras Mundiais), um destino imperial feito junto, descobertas de máquinas e de ideias, literatura, desastres, sonhos e líderes partilhados. Tudo isso, passado, valores, história, famílias - inevitável forte identidade - depurado numa dicotomia: escoceses para um lado, os outros para outro. Um dos defensores do "sim" à independência, diz-me o jornal The Guardian, declarou que nada mais une a Inglaterra e a Escócia senão história e família. Senão? Não me parece coisa pouca. E ouso, eu que estou de fora, falar deste assunto porque salta-me a superficialidade com que o referendo é tratado. Eu, português, que por razões ocasionais da minha empresa residisse há três anos em Edimburgo, apesar de não saber quem são os Stuarts posso votar - cortar, sim ou não, no destino do Reino Unido -, mas um escocês a residir em Londres, não. A Europa está parva e é geral.
«DN» de 8 Set 14

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7.9.14

No Reino do Absurdo