11.1.08

A Quadratura do Circo

Nem Pires nem Maria
Por Pedro Barroso
CORRE NA NET UMA PETIÇÃO contra a (in)acção da ministra Pires de Lima. Gosto do penteado da senhora, do seu formato de cara, do seu ar negligé quanto baste, da sua aparência afadigada e séria, mas não sei o que faz, sinceramente.
Ao passar pelo monstro de pedra da Ajuda, esse velho e enorme Palácio – onde recolhem as centenas de funcionários que supostamente agitam, administram e projectam a Cultura nacional, e os decisores que a constroem, dirigem e justificam – muitas vezes me tenho perguntado, como agente cultural vivo que sou, o que farão ali tantas e tão distintas criaturas juntas.
Que enorme fábrica de cultura sai diariamente dali para o almoço nos restaurantes vizinhos - alguns de minha discreta frequência - e com que enlevo cúmplice os contemplo. Tantos e tão compenetrados funcionários. Como os invejo, admito. Talvez na secreta esperança de uma qualquer súbita e redentora benfeitoria.
Sou, de resto, forçado a concordar.
Concordo que pouco ou nada se faz, pouco ou nada se pensa; pouco ou nada se promove; pouco ou nada se ajuda; pouco ou nada neste momento se subsidia, ou se programa.
Atenção. Nunca confundir com Instrução ou Educação, que estão não menos enfermas e condicionadas.
Falo da Cultura. A provavelmente maior imagem que um País passa de si para o exterior e para a posteridade.

Os momentos estão maus, com efeito, para quem vive de Cultura. Em qualquer das muitas vertentes dessa montanha de saberes e coloridos que culminam na superação humana, na elevação de gosto, na circulação das ideias, na diferença do viver dos povos e das gentes.
Portugal está criativamente estagnado, atrofiado, coxo, bimbo, desorientado, inoperante. Morto. Sabemos.
Com efeito, hoje por hoje, nada parece construir-se em politica cultural. O dinheiro, se existe, não sabemos com que prioridades é gasto, nem com que projectos.
Os subsídios circulam em roda restrita, coisa de amigos e compadres. O secretismo parece alastrar-se como palavra de ordem. Os avulsos sucessos e programas integram-se em macro políticas sequenciais de matérias evoluídas e cultivo exótico.
O País real vive à parte. Condenado à festa popular no Verão, com Conjunto de baile, Banda Filarmónica e Rancho Folclórico. Bailarico certo e rotundas festivas. Quim Barreiros e Tony Carreira a uma nível destacado de vedetismo, por um lado; Paula Rego e Emanuel Nunes do outro, complicando tudo.
Incertos no caminhar, os verdadeiros agentes culturais, que são os que andam no terreno, tacteiam sem rumo, tentando cavar trabalho em território árido, todos os dias. Junto de Câmaras e outros organismos, nem sempre disponíveis, sabedores ou abastecidos com os meios e as estruturas para o necessário escoamento do produto que tentam vender. Concerto, exposição, iniciativa museológica, performance, bailado, teatro ou a mais simples escola de Artes. Vender ideias e fazer circular produto cultural anda, com efeito, complicado. Nós sabemos.
As autarquias representam 80% dos clientes em matéria de consumo cultural. E se lhes cortarem verbas, elas não podem, obviamente, desviar dinheiros, nem do cemitério, nem da água, nem do saneamento, para actos ou projectos culturais. E a primeira actividade municipal a sofrer corte com essa magreza orçamental é, inevitavelmente, por uma questão de mentalidade, a actividade cultural.
Lega-se, com efeito, nos pequenos as decisões que deviam vir de cima, das grandes opções nacionais de um Plano cultural. Que não existe nem conhecemos.

O documento que aludi, a tal falada petição, exige que a Ministra saia e, praticamente, só falta pedir que seja Carrilho a entrar. Curiosamente, em tão curto documento – assinado por agentes culturais dignos, mas também por muitos outros em grande parte mal identificados, tipo Elsa – bailarina; ou Jorge – estudante de Teatro… – refere-se o mesmo nome duas vezes. Aparentemente, como solução milagrosa. Ave, Maria!
Ora bem. Proselitismos antigos?
Não sei, amigos. Mas não vejo na sua passagem no mesmo cargo, e pela mesma mansão de pedra da Ajuda, um capital de sonho concretizado assim tão diferente.
O seu elitismo não deixou nem memória, nem pedagogia.
É caso para dizer nem Pires, nem Maria.
Há muito mais que uma questão de nomes a emparedar a Cultura por aqui.
Projecto e coragem, precisam-se.
Porque nós, agentes culturais no País real, temos este mau hábito de comer todos os dias.

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1 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

As petições online, se não forem acompanhadas e verificadas pelos seus promotores, caem no descrédito completo.

Em tempos, numa, detectei nomes que apareciam duas vezes seguidas.
Avisei o responsável pela "coisa", mas tudo ficou na mesma.

Depois, começaram a aparecer nomes a abandalhar aquilo (com obscenidades e tudo).
Ninguém viu, ninguém corrigiu, ninguém fez nada!

Assim, não, caros peticionistas-da treta; assim, não!

11 de janeiro de 2008 às 18:33  

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