1.3.08

Oportunidades para os novos?

Por Carlos Fiolhais
NÃO É NADA DE NOVO. Já sabíamos que há muitos licenciados no desemprego. E também sabíamos que há cursos com maior probabilidade de desemprego do que outros. Mas o recente e oportuno relatório sobre A Procura de Emprego dos Diplomados com Habilitação Superior divulgado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ilumina o problema fornecendo dados quantitativos – são cerca de 40.000 os diplomados inscritos nos vários Centros de Emprego – e qualitativos – quais são os cursos que fornecem mais desempregados.
O número alto de desempregados com licenciatura, fruto em larga medida do insuficiente crescimento económico, não nos deve enganar: precisamos ainda de mais licenciados. A nossa proporção de pessoas com formação superior é menos de metade da que existe na Europa desenvolvida. Aliás, o grande drama nacional é a falta de suficiente qualificação dos portugueses, isto é, o desempenho claramente insuficiente do nosso sistema escolar a todos os níveis. Estão equivocados os que preconizam a redução na formação superior por ela não ser hoje garantia de emprego imediato: as pessoas com mais habilitações estão mais bem protegidas do ponto de vista profissional.
Vou ser claro: as universidades, descontados alguns cursos especiais, não são escolas de formação profissional e o diploma de licenciatura ou de mestrado ou de doutoramento não é uma chave que abra logo a porta de um posto de trabalho. Uma universidade não é uma escola de hotelaria que forma cozinheiros (profissão muito necessária e pela qual tenho a maior admiração a respeito) que vão logo cozinhar para o hotel. Uma universidade é um sítio onde se transmitem conhecimentos ao mais alto nível assim como as atitudes para os receber e criar. A criação de conhecimentos é essencial à sua transmissão. Sem ela transmitir-se-ão conhecimentos em segunda ou terceira mão, requentados, que pouco valem em comparação com conhecimentos novos. É bom que as universidades olhem para a empregabilidade dos seus cursos – deviam olhar mais! – mas essa visão não pode ser única nem míope na organização dos cursos. Um cidadão deve ter a possibilidade de fazer Estudos Clássicos ou Filosofia, mesmo que, olhando para o mercado de trabalho, veja que os especialistas em grego e em epistemologia não têm pleno emprego nas respectivas áreas.
Outro equívoco frequente neste contexto é o das “habilitações a mais”. Muitos empregadores recusam candidatos por estes terem “habilitações a mais”. Ora a expressão vai entre aspas porque não sei o que são habilitações a mais. Acho que as habilitações nunca são a mais. Se uma pessoa estudou mais, o saber que tem a mais em nada a pode diminuir. A questão deve ser outra: se a pessoa é ou não capaz de desempenhar bem as funções em causa. Eu não me importaria nada de falar sobre Sófocles com o motorista de táxi ou sobre Popper com a rapariga da caixa do supermercado. De facto, essa situação, descontado o exagero, já acontece nos países mais desenvolvidos. Os cidadãos que executam essas funções nesses países - e há táxis e supermercados em todo o lado – têm em geral habilitações superiores às da média dos seus congéneres portugueses. A produtividade e a cidadania são maiores. Já é tempo de acabar com o país “contentinho” com os seus fracos níveis de qualificação.
Cada desempregado é, bem sei, um drama pessoal. E é um drama social, pois a formação que teve não está a ser aproveitada. Há, entre nós, um problema dramático com recém-licenciados em busca de prometidas oportunidades, em particular ao fim de certos cursos. O relatório acima mencionado é esclarecedor sobre o desemprego nalguns cursos de papel e lápis (Psicologia, Serviço Social, Direito e Economia estão no topo dos cursos que fornecem mais desempregados, embora também haja cursos de outro tipo como Enfermagem e Design). Alguns desses jovens terão de procurar e estar preparados para aceitar empregos noutras áreas. Por outro lado, as respectivas escolas terão de fazer todas as adaptações que se revelem necessárias. Mas há outras responsabilidades, bem maiores que as das escolas. Houve alguém que prometeu 150.000 novos postos de trabalho. Quem foi?
«Público» de 1 Mar 08 - c.a.a.

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6 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Há uns anos, ouvi dizer:

-Eh, pá! Aquilo em França é bestial! Não imaginas como é frequentíssimo encontrarmos taxistas com curso superior!

Algum tempo depois, dizia outro (teria mais graça se fosse o mesmo...).

-Eh, pá! Aquilo em Portugal é uma m****! Não imaginas como é frequentíssimo encontrarmos gajos com curso superior a trabalhar como taxistas!

1 de março de 2008 às 19:23  
Blogger Blondewithaphd said...

Eu não teria dito melhor!
Subscrevo esta visão.

1 de março de 2008 às 23:13  
Blogger ferreira said...

Eu explico-lhe o que são "habilitações a mais", no caso que se passou comigo, já lá vão uns anos.

Sou licenciado em engenharia, e estava empregado, com um bom vencimento, embora na altura não gostasse muito do tipo de actividade que desempenhava, "demasiado manga de alpaca" (eu tinha pouco mais de 20 anos).

Encontrei então um anúncio de emprego que oferecia mais do dobro do meu vencimento, para "motorista particular" e decidi responder.
Na entrevista, o empregador não me aceitou "por excesso de habilitações".
Explicou-me que queria estar à vontade para dizer "ó Zé espera aí" e por muito que eu lhe afirmasse que não me importava com isso, ele afirmou que eu poderia não me importar, ele é que não estaria à vontade.

2 de março de 2008 às 00:46  
Blogger Jorge Oliveira said...

"Habilitações a mais" será, porventura, um conceito duplamente relativo.
A mais para o trabalho a desempenhar.
E a mais para o empregador, que normalmente tem "habilitações a menos" e que, por isso, não se sente à vontade com um empregado que lhe "come as papas em cima da cabeça" (velho aforismo, parece que actualmente em desuso).

2 de março de 2008 às 07:15  
Blogger ferreira said...

E lá vêm os doutores e engenheiros cascar nos "analfabetos empresários".

Para desmentir a teoria basta citar um nome, de entre muitos: Amorim.

Se fosse essa a razão, a solução seria bem simples: se o candidato está assim tão mais habilitado que o empresário, não lhe seria assim tão difícil abrir ele a sua própria empresa e mostrar como é que se faz.

Será difícil de compreender que não quero um engenheiro para a função de apertar parafusos porque, provavelmente:
1-Pede melhores condições.
2-Como passou demasiado tempo a estudar, apertará pior os parafusos.
3-Vai requerer mais formação.
4-Estará sempre desmotivado.
5-À primeira oportunidade vai-se embora.
Aqui estão 5 razões contra.
A favor encontro
1-Quando a actividade for alterada para desapertar parafusos, compreenderá isso mais depressa.

2 de março de 2008 às 23:21  
Blogger Jorge Oliveira said...

Esta intervenção do empresário “Pois” só vem dar razão aos doutores e engenheiros.

Eu sou engenheiro e já fui empresário. E nunca apliquei aquele conjunto de critérios. Talvez porque, apesar de ter passado muito tempo a estudar, comecei muito cedo a apertar parafusos.

E durante longos anos de actividade, o que verifiquei é que a maioria dos empresários portugueses, naturalmente com honrosas excepções, não sabem fazer nem uma coisa nem outra. Pior : frequentemente manifestam muita dor de cotovelo relativamente a quem passou tempo a estudar.

3 de março de 2008 às 11:35  

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