2.3.08

Passatempo com prémio duplo

POR ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS, a gaffe de Manuel Pinho, referida por NBS na crónica anterior, sugeriu-me mais um passatempo com prémio, hoje com o seguinte teor:
Numa famosa obra da nossa literatura oitocentista conta-se, a dada altura, a história (que o autor diz ser verídica) d' «o homem das botas de cortiça» - uma monumental vigarice com que o governo, poucos anos antes, intrujara, sem pejo algum, o povo de Lisboa.
Pergunta-se: em que consistiu essa espantosa história (pede-se que se conte em poucas linhas) e em que obra é relatada?
O prémio, a atribuir ao primeiro leitor que, até às 20h da próxima terça-feira, der a resposta certa - às duas questões -, será um livro do referido autor.
Actualização 1: as respostas certas foram dadas por "Musicólogo", nos comentários 2 e 3. O livro que, entretanto, escolheu, já foi enviado.
Actualização 2 - questão adicional (também com prémio): Logo nos primeiros capítulos de uma outra obra não menos famosa, Garrett refere 'uma espécie de vice-rei do Porto' que manda um grupo de apaniguados cometer uma determinada agressão. O pior é que, quando confrontados com a sua obrigação de exigir justiça, os magistrados a quem tal compete... borram-se todos face ao poder do mandante do crime... e ainda lhe pedem desculpa. Pergunta-dupla: embora a história em causa seja ficção, há muito de verdade nela, pois esse tal cavalheiro, de facto, existiu - e fez isso e muito mais. Então - pergunta-se - quem foi ele, e em que obra do grande dramaturgo é que tudo isso é referido?
Actualização 3: as respostas certas correspondentes à questão adicional foram dadas por "Perspectiva", no comentário-12. Os livros que, entretanto, escolheu, já foram enviados.
Actualização 4: no comentário-15 transcrevem-se as páginas da «Crónica de D. Pedro I» em que Fernão Lopes narra a espantosa cena que serviu de inspiração a «O Arco de Sant' Ana». A crónica completa está disponível [aqui].
*
Curiosidade adicional: a obra foi começada a escrever em 1832, em pleno cerco do Porto (onde Garrett estava, integrado no Corpo Académico, combatendo por D. Pedro IV), mas só foi publicada 12 anos mais tarde. A explicação dada pelo autor no fim do livro faz-nos matutar: estando, nessa época, os sentimentos religiosos e anti-clericais muito exacerbados, a cena de um bispo libidinoso em vias de levar um enxerto de tareia do monarca podia trazer problemas - tudo agravado, se calhar, por estar em causa um rei (D. Pedro I, no romance), homónimo do contemporâneo (o IV).

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15 Comments:

Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Se as respostas tardarem, serão fornecidas "dicas", mas apenas no que respeita à obra.
Seguidamente, e se necessário, será indicado o capítulo.
A partir daí, e como se trata de um livro que toda a gente tem (ou deveria ter) à mão, a resposta é fácil.

2 de março de 2008 às 12:52  
Blogger Musicologo said...

Fez-se anunciar por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em umas botas de cortiça nas quais se teria direito e enxuto navegando a pé sem mais embarcação, vela nem remo.

Almeida Garrett, Viagens na minha terra.

2 de março de 2008 às 15:37  
Blogger Musicologo said...

Isto claro, a propósito de distrair as gentes de Lisboa, enquanto se levava a relíquia do Santo Milagre para Sentarém...

2 de março de 2008 às 15:44  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Sim, tratava-se, para usar as palavras de Garrett, do "grande paládio escalabitano", que tinha sido levado de Santarém para Lisboa para o proteger da invasão de Massena.

Rechaçada esta, a população de Santarém reclamava-o, mas a de Lisboa não o queria devolver.

Temendo uma revolta popular, o governo enjorcou a aldrabice do "homem das botas de cortiça" (atrás contada) e, quando o povo lisboeta estava todo distraído à beira-Tejo, o "Santo Milagre" foi embarcado longe dali e enviado para Santarém.

2 de março de 2008 às 16:44  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

VIAGENS NA MINHA TERRA - Cap XXXVII

(...)

Em poucas perplexidades tão graves se viu aquele pobre governo que tantas teve, e de quase todas se saiu tão mal.

Não assim desta que a evitou com o mais inesperado e admirável estratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun­el-Raschid, ou de qualquer outro príncipe de bom humor, desses poucos felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu povo, mas fazendo-o rir. Pois, senhores, apertada se via a regência destes reinos com a restituição do Santo milagre que era de justiça fazer-se a Santarém, mas que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alboroto no povo.

Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gosto; e bom gosto teve também o governo em o aceitar e aproveitar. Para o dia em que o Santo milagre devia sair de Lisboa Tejo acima, e que se esperava fosse com grande solenidade e pompa eclesiástica, — fez-se anunciar por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em umas botas de cortiça nas quais se teria direito e enxuto navegando a pé sem mais embarcação, vela nem remo.

A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi engolida. No dia aprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios, outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as classes, e todos passaram o melhor do dia à espera do homem das botas.

No entanto, muito sorrateiramente embarcava o Santo milagre no seu barco de água arriba, navegava com vento e maré para as ditosas ribeiras de Santarém.

Ninguém o viu sair, nem soube novas dele em Lisboa senão quando constou da sua chegada a Santarém, e das grandes festas que lhe fizeram aqueles saudosos e devotos povos ribatejanos.

Os Aarouns-el-Raschids do Rossio riram de socapa: e nunca tão inocentemente riu governo algum de ter enganado o povo.

(...)

2 de março de 2008 às 16:51  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

O capítulo completo pode ser lido em:

http://www.triplov.com/contos/garrett/viagens/cap37.htm

2 de março de 2008 às 16:54  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Uma 'dica' para a questão adicional:

Ver a «Crónica de D. Pedro I», de Fernão Lopes, Cap. VII

2 de março de 2008 às 18:52  
Blogger Rosário said...

A história decorre no século XIV, portanto?

2 de março de 2008 às 18:55  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Sim, e decorrendo a acção no séc. XIV, passa a ser fácil indicar o nome da obra.

Mas não esquecer que o prémio só é atribuído se se disser, também, quem era o 'manda-chuva' em causa.

2 de março de 2008 às 19:08  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Outra 'dica':

A acção das «Viagens na Minha Terra» decorre em dois períodos, mas ambos durante a 1ª metade do séc. XIX.
A do «Frei Luís de Sousa» decorre durante a dominação filipina.

A acção deste seu outro livro (que foi escolhido para esta 2ª parte do passatempo) decorre no Porto, no tempo d' el Rei D. Pedro I.

2 de março de 2008 às 20:51  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Ainda outra 'dica':

A acção de «O Alfageme de Santarém» também decorre no séc.XIV, mas alguns anos mais tarde - já com Nun' Álvares.

Portanto não sobra muito para, pelo menos, identificar a obra.

Entretanto, e dada a demora em aparecer a resposta, o prémio, para o passatempo adicional, sobe de 1 livro para 2

2 de março de 2008 às 21:41  
Blogger Eu mesmo said...

A Obra é, então, "O Arco de Sant’Ana" e a dita personagem o Bispo D. Egidio.

2 de março de 2008 às 21:51  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Perspectiva,

CERTO!!

Escreva, então, para sorumbatico@iol.pt, para que lhe seja enviada a lista de livros possíveis (para escolher 2).

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OBRIGADO A TODOS!

2 de março de 2008 às 22:08  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Não consegui encontrar na Internet o texto (*) do capítulo VII da «Crónica de D. Pedro I».

Nele, Fernão Lopes narra o episódio em que D. Pedro I se preparava para dar um grande enxerto de chicote ao bisbo do Porto - depois de ter mandado evacuar o Paço para que ninguém acudisse ao homem.

A tareia era por causa do bispo andar com uma mulher casada.
Na obra de Garrett, o bispo do Porto manda raptar Aninhas, mulher casada, etc., etc.

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(*) Se alguém tiver o texto à mão, será muito bem-vindo aqui; e não é grande (menos de 2 páginas, na edição da Portugália)

2 de março de 2008 às 22:53  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Aqui vai ela:

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*CAPITULO VII* _ Como el-rei quizera metter um bispo a tormento porque dormia com uma mulher casada_.

Não sómente usava el-rei de justiça contra aquelles que razão tinha, assim como leigos e semelhantes pessoas, mas assim ardia o coração d'elle de fazer justiça dos maus, que não queriam guardar sua jurisdicção, aos clerigos tambem, de ordens pequenas, como de maiores. E se lhe pediam que o mandasse entregar a seu vigario, dizia que o puzessem na forca e que assim o entregassem a Jesus Christo, que era seu Vigario, que fizesse d'elle direito no outro mundo. E elle por seu corpo os queria punir e atormentar, assim como quizera fazer a um bispo do Porto, na maneira que vos contaremos.

Certo foi, e não o ponhaes em duvida, que el-rei, partindo de entre Douro e Minho, por vir á cidade do Porto, foi informado que o bispo d'esse lugar, que então tinha gram fama de fazenda e honra, dormia com uma mulher de um cidadão, dos bons que havia na dita cidade, e que elle não era ousado de tornar a ello, com espanto de ameaças de morte que lhe o bispo mandava pôr.

El-rei, quando isto ouviu, por saber de que guisa era, não via o dia que estivesse com elle, para lh'o haver de perguntar.

E logo, sem muita tardança, depois que chegou ao logar, e houve comido, mandou dizer ao bispo que fosse ao paço, que o havia mister por cousas de seu serviço. Falou com seus porteiros, que depois que o bispo entrasse na camara, lançassem todos fóra do paço, tambem os do bispo como quaesquer outros, e que ainda que alguns do conselho viessem, que não deixassem entrar nenhum dentro, mas que lhe dissessem que se fossem para as pousadas, cá elle tinha de fazer uma cousa em que não queria que fossem presentes.

O bispo, como veiu, entrou na camara onde el-rei estava, e os porteiros fizeram logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no paço não ficou nenhum, e foi livre de toda a gente.

El-rei, como foi áparte com o bispo, desvestiu-se logo e ficou em uma saia de escarlata, e por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestiduras, e começou de o requerer que lhe confessasse a verdade d'aquelle maleficio em que assim era culpado: e em lhe dizendo isto, tinha na mão um grande açoute para o brandir com elle.

Os criados do bispo, quando no começo viram que os deitavam fóra, e isso mesmo os outros todos, e que nenhum não ousava lá de ir, pelo que sabiam que o bispo fazia, dês ahi juntando a isto a condição de el-rei e a maneira que em taes feitos tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria jogar de algum mau jogo, e foram-se á pressa ao conde velho, e ao mestre de Christo Dom Nuno Freire, e a outros privados de seu conselho, que accorressem asinha ao bispo.

E logo tostemente vieram a el-rei, e não ousaram de entrar na camara, por a defeza que el-rei tinha posta, se não fôra Gonçalo Vasques de Goes, seu escrivão da puridade, que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobrevieram de el-rei de Castella a gram pressa. E por tal azo e fingimento houveram entrada dentro na camara, e acharam el-rei com o bispo em rasões, da guisa que havemos dito, e não lh'o podiam já tirar das mãos. E começaram de dizer que fosse sua mercê de não pôr mão n'elle, cá por tal feito, não lhe guardando sua jurisdicção, haveria o papa sanha d'elle; demais, que o seu povo lhe chamava algoz, que por seu corpo justiçava os homens, o que não convinha a elle de fazer, por muito malfeitores que fossem.

Com estas e outras rasões, arrefeceu el-rei de sua mui brava sanha, e o bispo se partiu de ante elle, com semblante triste e turvado coração.

4 de março de 2008 às 12:42  

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