13.6.09

Quem quer decifrar?

ALGUMAS pessoas (mais recentemente os leitores 'Mg', em comentário e Pedro Sepúlveda, por e-mail), enviaram-me o aparente paradoxo que adiante se transcreve. Alguém quer 'desmontá-lo'?
*
Numa pequena vila e estância na costa sul da França, chove, e nada de especial acontece. A crise sente-se. Toda a gente deve a toda a gente, carregada de dividas. Subitamente, um rico turista russo, chega à recepção do pequeno hotel local. Pede um quarto e coloca uma nota de €100 sobre o balcão, pede uma chave de quarto e sobe ao 3.º andar para inspeccionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se lhe não agradar.

O dono do hotel pega na nota de €100 e corre ao fornecedor de carne a quem deve €100; o talhante pega no dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar €100 que devia há algum tempo. Este, por sua vez, corre ao criador de gado que lhe vendera a carne; este, por sua vez, corre a entregar os €100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os €100 e corre ao hotel a quem devia €100 pela utilização casual de quartos à hora para atender clientes.
Neste momento o russo rico desce à recepção e informa o dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos €100. Recebe o dinheiro e sai.
*
Não houve, neste movimento de dinheiro, qualquer lucro ou valor acrescentado. Contudo, todos liquidaram as suas dividas e este elementos da pequena vila costeira encaram agora optimisticamente o futuro. Como é que se explica o aparente paradoxo?
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Actualização (20 Jun 06): uma análise deste problema (relacionando-o com a transferência de Cristiano Ronaldo) pode ser lida em O Valor das Ideias, [aqui], num texto que se recomenda vivamente.

9 Comments:

Blogger Mg said...

Já tinha colocado este exemplo em jeito de comentário num post do Sorumbático.

Não me parece paradoxo.
Os 100 euros iniciais funcionam como que um "adiantamento", que é utilizado racionalmente para saldar dividas.
A partir daqui entra a história da pescadinha de rabo na boca.
O circulo vicioso do não pagamento de dividas converte-se num circulo virtuoso de respeito pelos compromissos assumidos.

Quando o dinheiro regressa às mãos do interveniente n.º 1 irá servir para reembolsar o "adiantamento" inicial concedido.

Parece simples, não é?!

E se todos pagassem as suas dividas? (Excepção aos compromissos com a Banca para financiamento de habitação ou automóvel, como é evidente).

E se o Estado fosse o primeiro a dar o exemplo?

E se os restantes Portugueses o seguissem?

Pois... estamos em Portugal...

13 de junho de 2009 às 11:56  
Blogger Mg said...

Um exemplo:
A deve 100 euros a B
B deve 100 euros a C
C deve 100 euros a A

Na prática, há um total de 300 euros em divida.
Teoricamente, podemos considerar que não existe divida nenhuma.

Bastaria que um começasse por dar o exemplo, ou que ambos combinassem, em conjunto, a contabilização do pagamento das dividas em simultaneo.

Boa parte dos problemas da nossa economia residem aqui.

Muitas vezes, e sem o sabermos, poderiamos saldar as nossas dividas perante terceiros (ou, pelo menos, parte delas...).

Um empresário endividado comporta-se, naturalmente, de uma forma diferente daquele que não o está.

13 de junho de 2009 às 12:01  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Mg,

Certo, e aqui vai a resposta que eu tinha preparado:

A questão pode simplificar-se em extremo, num exemplo com 2 pessoas + 1 exterior:

Eu devo 100 euros a X, por causa de um trabalho que em tempos me fez.
X deve-me a mim 100 euros devido a algo que lhe vendi.

Como nenhum de nós tem dinheiro neste momento, passamos a vida a
chatear-nos um ao outro. No entanto, bastava conversarmos um pouco, e concluíamos que as dívidas já estavam saldadas por acerto de contas.

Podia, no entanto, chegar uma 3ª pessoa que emprestava 100 euros a um de nós para desfazer o círculo vicioso, recuperando o dinheiro logo a seguir.

É o que, em Química, se chama "catalisador": permite a reacção, mas não troca moléculas com qualquer dos intervenientes directos.

13 de junho de 2009 às 12:10  
Blogger José Fernando Magalhães said...

Meu caro,

com a sua previsível permissão, copiei este "post" para o meu sítio.

(http://atributos-1.blogspot.com/2009/06/sorumbatico.html)

Melhores cumprimentos

José magalhães

13 de junho de 2009 às 12:14  
Blogger Mg said...

"Catalisador" e não "adiantamento". :)

A minha Fisico-Quimica (ou a Quimica, por si só), não são das melhores!

Este é um daqueles exemplos que merecem ser difundidos.

Por vezes cria-se insegurança e instabilidade onde ela não existe.
Claro que não se vão resolver todos os problemas com base num email que anda por aí a circular, mas em algumas situações pode dar uma boa ajuda.

13 de junho de 2009 às 12:20  
Blogger Unknown said...

O problema começa quando ao invés de 7 pessoas nesta corrente de interdependência estão biliões; quando os montantes vão dos 100 aos 100 000 000; e quando um dos elementos, ao invés de contraír um empréstimo para adquirir um bem, prefere investir o seu dinheiro num fundo Madoff.

13 de junho de 2009 às 13:08  
Blogger Sepúlveda said...

Será que é possível criar uma enorme "central de acerto de contas" (o catalisador) que, mantendo de alguma forma a privacidade de todos, conseguisse contabilizar todas as dívidas e créditos concluindo quais os círculos que se saldavam (ou se atenuavam mais) automaticamente? Talvez baixasse as dívidas e os juros a pagar, indo certamente contra alguns interesses. Para além de fantasia, seria bonito.

Quanto ao aparente paradoxo, eu diria que é como as transformações, em física, dos diferentes tipos de energia uns nos outros sem se considerar a entropia: energia potencial gravítica em cinética, num exemplo muito aplicado no secundário. Mas a troca tem de ser iniciada em algum lado: um dia alguém colocou uma bola em cima de uma prateleira e só mais tarde é que foi empurrada para fora da mesma, ganhando velocidade ao cair até ao chão.
Da mesma forma as dívidas criaram-se ao longo do tempo permitindo não se saber o percurso anterior nem da dívida nem do dinheiro que a vai saldar.
Logicamente, se todos pagassem a pronto, o problema não surgiria mas também não se tiraria partido de ter as coisas antes de se poder pagar. Através dos juros e spreads, quem ganha são sempre os bancos.
Logo, o turista russo é como a tal "central" que referi no início, mas que ao emprestar aquele dinheiro (sem juros, neste caso) funciona como banco.

Finalmente, será isto aquilo que o Governo faz ao dar aquelas garantias aos bancos, quer eles precisem ou não?
Como diz Mg, já era bom que o Estado pagasse as suas dívidas, no mínimo no mesmo prazo que reclama aos seus devedores.

13 de junho de 2009 às 15:29  
Blogger Malta da Rua said...

No aparente paradoxo apresentado, as dívidas resolveram-se porque surge dinheiro físico... parece-me que o problema do endividamento e do credit crunch deve-se em parte ao facto de o dinheiro que se deve e que é devido não existir fisicamente. É tudo virtual e não há dinheiro físico que chegue para "garantir" o pagamento das dívidas... insolvabilidde, falta de liquidez, chamem-lhe o que quiserem mas se aparecerem umas notas de 100 euros reais a coisa resolve-se eheh o Estado tem um mecanismo chamado "lender of last resort" que teoricamente serve para isso mesmo, abrir os cordões à bolsa, ou seja, largar umas notas reais para garantir depósitos e evitar "bank runs".

14 de junho de 2009 às 04:28  
Blogger CS said...

Caro Carlos Medina Riberia,

Fui ontem desafiado por um amigo a explicar este problema como economista no contexto concreto da transferência do Ronaldo. E isso ilustra tanto o que está aqui em causa, como alguns aspectos em que a realidade seria diferente.
As vossas observações seriam bem vindas. Um abraço,
Carlos Santos
(E desculpem o link mas tenho que o inserir:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/06/ronaldo-e-o-combate-virtuoso-crise.html)

16 de junho de 2009 às 12:19  

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