29.11.05

Rousseau inimigo da liberdade?

SAIU na semana passada a tradução de um dos livros de um dos mais importantes pensadores do século XX.

Trata-se de um homem difícil de definir. Era filósofo, literato, historiador e politólogo. Mas era sobretudo um especialista em história das ideias. Era um ensaísta de génio e deixou tantos escritos que o seu testamenteiro literário, Henry Hardy, está há vários anos a organizá-los e publicá-los.

Era um britânico de origem letónica, nascido em Riga em 1909. Viveu na Rússia e deslocou-se depois para a Grã-Bretanha. Viveu alguns anos em Washington antes de regressar a Inglaterra, onde haveria de ficar até falecer, em 1997. Chamava-se Isaiah Berlin. Era professor em Oxford.

Este livro é a adaptação de uma série de palestras radiofónicas proferidas em 1952. Nelas Berlin descreve as ideias de seis pensadores que considera inimigos da liberdade. São eles: Helvétius, Rousseau, Fichte, Hegel, Saint-Simon e Maistre.

(Texto integral em «Comentário-1»)

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1 Comments:

Blogger Nuno Crato said...

Rousseau inimigo da liberdade?


Saiu na semana passada a tradução de um dos livros de um dos mais importantes pensadores do século XX. Trata-se de um homem difícil de definir. Era filósofo, literato, historiador e politólogo. Mas era sobretudo um especialista em história das ideias. Era um ensaísta de génio e deixou tantos escritos que o seu testamenteiro literário, Henry Hardy, está há vários anos a organizá-los e publicá-los.

Era um britânico de origem letónica, nascido em Riga em 1909. Viveu na Rússia e deslocou-se depois para a Grã-Bretanha. Viveu alguns anos em Washington antes de regressar a Inglaterra, onde haveria de ficar até falecer, em 1997. Chamava-se Isaiah Berlin. Era professor em Oxford.

Este livro é a adaptação de uma série de palestras radiofónicas proferidas em 1952. Nelas Berlin descreve as ideias de seis pensadores que considera inimigos da liberdade. São eles: Helvétius, Rousseau, Fichte, Hegel, Saint-Simon e Maistre.

Se o epíteto de antidemocrata não levanta dúvidas em homens como Joseph de Maistre, já é mais surpreendente que o mesmo réprobo seja lançado contra outros, nomeadamente Rousseau. Ainda mais interessante o livro se torna.

Mas este pensador suíço é tão dissecado no livro de Berlin que a tradução da Gradiva optou pelo título Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade. É preciso ler Berlin. O autor mostra que Rousseau, ao invés de ser um homem das Luzes, como muitos julgam, era um romântico inimigo da ciência e do progresso. Era o «maior militante anti-intelectual da história» e «um dos mais funestos e formidáveis inimigos da liberdade», no dizer de Berlin.

Curiosamente, um pensador português que muitos classificam como rousseauniano, o influente António Sérgio (1883-1969), qualifica Rousseau de forma semelhante. Diz ele num ensaio de 1917 que «o Rousseau político, ao cabo de contas, é o mais sinistro dos autoritários». Mais à frente, referindo-se à sua célebre obra pedagógica que ainda hoje inspira muitos teóricos da educação, diz que o «erro do Emílio, em poucas palavras, foi o individualismo sentimental - romântico e desagregativo».

Vale a pena ler os argumentos de Berlin; e vale a pena ler os argumentos de Sérgio. Rousseau tinha a arrogância de acreditar que conhecia o «homem natural» e dizia que a harmonia perfeita existiria entre os que fossem «homens naturais». Os que se afastassem dessa harmonia deveriam ser condenados pois não sabiam ser livres. Rousseau não aceitava a dissensão.

A pedagogia rousseauniana não é muito diferente. Os pedagogos românticos, inspirados no pensador suíço, dizem que é necessário deixar a criança desenvolver-se por si própria e que, nas palavras de Agostinho da Silva (1906-1996), «toda a interferência tiranizante do indivíduo adulto [...] não lhe pode ser senão prejudicial». Os rousseaunianos têm a arrogância de acreditar que sabem aquilo que ninguém sabe, pois ninguém verdadeiramente o experimentou. E querem afastar os outros da educação dos jovens. Apenas os que não educam são educadores - é este o paradoxo de Rousseau. Mas isto não basta para o perceber. O melhor mesmo é ler Rousseau e os seus críticos. Este livro é um grande contributo a essa leitura.
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Nuno Crato - Texto adapt. do Expresso-online

29 de novembro de 2005 às 07:51  

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