23.1.19

As Desigualdades Sociais e a Saúde

Por Filomena Mónica
Por mera coincidência, andava eu a ler a obra de R. Wilkinson e K. Pickett, The Spirit Level: Why Equality is Better for Everyone, quando me dei conta de que ex-Presidente do BCP, Jardim Gonçalves, recebe, desde 2005, uma pensão de reforma de 167.000 € por mês (285 salários mínimos). Há muito que este banqueiro anda envolto em controvérsia, tendo chegado a ser acusado pelo Banco de Portugal de infracções com dolo, ficando inibido do exercício de cargos em instituições de crédito. Sucederam-se peripécias jurídicas para mim incompreensíveis envolvendo reivindicações variadas (carros, motoristas e seguranças) no valor de 2.124 milhões de Euros.
 Tratando-se de um banco privado, o dinheiro destinado à sua reforma não sairá, julgo, do meu bolso, mas o que está em causa não é tanto a legalidade desta pensão, mas a sua moralidade. Aliás, o argumento de que os banqueiros têm de ser altamente remunerados devido à sua competência não colhe: nenhum deles, note-se, foi capaz de prever a crise de 2009 e apenas um, Horta Osório, foi contratado por um banco sedeado em Londres. Espanta-me ainda que uma figura conotada com a Opus Dei, como é o seu caso, acabe a sua carreira desta forma. Será que algum vez leu o que o Evangelho diz sobre a ganância?
Há muito que me dei conta de ser Portugal um dos países mais desiguais da Europa. Do que não estava ciente – embora isso me pareça agora óbvio – era da forma como isso afectava a saúde das pessoas. O livro acima citado, escrito por dois epidemiologistas, demonstra a maneira como as desigualdades sociais não só minam a coesão social mas têm efeitos deletérios sobre outros aspectos- O quadro 13.1 relaciona as doenças e as desigualdades sociais. Aí se vê a posição, negativa, de Portugal e a positiva dos países escandinavos e do Japão. Veja-se ainda o quadro 13.2, onde aparecem as estatísticas dos diabetes, da hipertensão, do cancro, das doenças pulmonares e do coração em Inglaterra e nos EUA: é neste país, um dos mais ricos do mundo, que a origem de classe conduz a uma maior morbilidade. No final, estes autores concluíram que existe uma correlação elevada entre a saúde e a desigualdade social. Percebo agora a irritação de uma amiga diante da falta de comparência, na última 4º Feira, da sua empregada doméstica. «Esta gente», disse-me, «passa a vida nos hospitais». 
A ideia de que não podemos ter, ao mesmo tempo, igualdade e liberdade ganhou força durante a Guerra Fria. A União Soviética parecia ter demonstrado que uma maior igualdade só podia ser obtida à custa de uma menor liberdade. Acontece que, como o evidenciam as democracias escandinavas, isto não é verdade. A desigualdade social portuguesa mantém-se porque não há partidos responsáveis. Mas esta conversa levar-nos-ia para o tema da necessidade de uma alteração na lei eleitoral, um assunto que aqui não cabe.
“Expresso” de 19 Jan 19
                        

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22.1.19

Apontamentos de Lagos

Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Janeiro 2019.

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VERGONHA NA CARA

Por Joaquim Letria 
Governo, partidos e sindicatos entretêm-se muito a discutir o justíssimo fim dos cortes nas pensões dos trabalhadores com longas carreiras contributivas, ou seja, daqueles que começaram a trabalhar muito cedo e descontaram a vida toda, em muitos casos ao longo de 46 e mais anos.
Porém, como estes trabalhadores já não descontam para os sindicatos, nem vão nas camionetas que estes e os partidos mandam para as manifestações, ninguém quer saber deles e por isso continuam com os ignominiosos cortes que os políticos ordenaram que lhes fossem feitos. 
Acham que alguém se preocupa com eles!? Para assim ser seria necessário que aqueles que decidem tivessem vergonha na cara. 
Publicado no Pasquim da Vila

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21.1.19

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Grande Angular - A política de proximidade, a democracia distante

Por António Barreto 
É um dos grandes mitos da política contemporânea: os políticos estariam cada vez mais distantes dos eleitores e mais longe do povo! Parece ser o mal de qualquer país ocidental. É uma das explicações mais banais para os problemas actuais da política.
Nada é menos verdade! Nunca os políticos estiveram tão perto dos eleitores. Dirigem-se aos cidadãos em qualquer dia e a qualquer hora. Passam grande parte dos fins-de-semana em viagem pelas freguesias e em visita pelos distritos. Vão a inaugurações, lançamentos, primeiras pedras e aniversários de nascimentos ou de mortes. Deixam placas comemorativas em cada esquina. Não faltam aos acidentes, desastres, mortos, quedas, incêndios, naufrágios e enterros. Fazem reuniões deslocalizadas, descentralizam, desconcentram, abrem presidências e conselhos de ministros, estabelecem roteiros de jovens, de velhos, de estudantes, da ciência, dos pobres e de tudo quanto mexe. Vão aos desafios de futebol, condecoram os desportistas, assistem a missas (mesmo não sendo crentes), distribuem medalhas, a cada volta dão um giro e passam pelo partido. Fazem-se acompanhar por jornalistas sempre prontos para o movimento e levam colossais comitivas de comunicação a qualquer parte do país ou do estrangeiro. Pagam transporte e alojamento. Dão entrevistas breves, pequenas, médias, longas e de uma vida, assim como grandes entrevistas e conversas informais. Jornais, dezenas de canais televisão e rádio, redes sociais, telemóveis, telefones, computadores e todas as vias imagináveis são frequentadas com assiduidade. As entrevistas rápidas e as declarações à porta de qualquer lugar público são aos milhares. Os chefes de partido e os ministros são os mais próximos de todos, os que mais frequentemente aparecem nos comícios de sexta-feira, nas inaugurações de sábado e nas sessões de esclarecimento de domingo.
Nunca, como hoje, houve tantas emissões em directo e em “prime time”, ou “horário nobre”, com declarações políticas, debates entre políticos fora ou dentro do Parlamento, transmissões de sessões de comissões de inquérito ou não e audiências parlamentares de toda a espécie. Olhe-se com olhos de ver para os costumes parlamentares e televisivos de há trinta ou quarenta anos: era o silêncio das abadias ao lado das romarias de hoje.
Tudo isto contribui para que nunca, como hoje, os políticos estivessem tão perto dos cidadãos e os eleitores tão próximos dos políticos. Tão perto e tantas vezes. Nunca, como hoje, os políticos perderam e gastaram tanto tempo a contactar as populações, a fazer reuniões em todos os sítios, a viajar em aviões, comboios e autocarros rodeados de pessoas e jornalistas. Nunca, como hoje, foi tão fácil a qualquer pessoa, amigo ou inimigo, apoiante ou adversário, falar com um político, contactar um deputado ou um secretário de Estado. Não deve haver cidadão em todo o país que não tenha estado meia dúzia de vezes com o Presidente, o Primeiro-ministro, o ministro, o secretário de Estado, o deputado e o presidente da Câmara. Nunca, como hoje, houve literalmente milhões de pessoas que guardam pelo menos uma fotografia em companhia do presidente, do ministro ou do chefe de partido.
Os grandes temas, as grandes orientações para os novos políticos e para os novos democratas são as políticas de proximidade. Tudo se resume a esta formidável etiqueta, “proximidade”. Saúde de proximidade. Justiça de proximidade. Educação de proximidade. Urbanismo de proximidade. Protecção civil de proximidade. O que tem como imediato resultado a demagogia, sobretudo a dos orçamentos de proximidade e dos orçamentos participativos. As inaugurações são quotidianas e repetem-se, sobretudo em anos eleitorais, tudo em nome da proximidade. Sucedem as reportagens de televisão (cujas estações se prestam miseravelmente ao propósito), com rostos atrás do protagonista do dia. Anuncia-se tudo: o anúncio, a primeira pedra, o primeiro dia de obra, a avaliação, o acompanhamento, a preparação da inauguração e a inauguração.
Então… por que não funciona? Pelo carácter mecânico e artificial. O político pensa e fala como um vendedor de produto. A sua proximidade com o cidadão é preparada. Mediatizada por jornalistas, agências de comunicação, encarregados de relações com a imprensa e empresas de eventos. Sabe-se as horas e a duração do encontra casual, estabelece-se o roteiro informal, quem quiser encontrar por acaso o povo ou o político sabe-o com antecedência. O artificialismo destrói a sinceridade. As arruadas de campanha eleitoral permitem encurtar distâncias, aproximam políticos e cidadãos, são totalmente destituídas de um qualquer sentido, de reconhecimento ou de conteúdo. São excelentes substitutos das sessões de esclarecimento do século passado ou até dos comícios: numas e noutros, apesar da demagogia, era necessário pensar, informar e falar. Com as arruadas, estamos próximos das feiras e das romarias. É sobretudo necessário sorrir, agradecer e beber um copo.
Aquilo de que muitos verdadeiramente se queixam não é da distância, é de os políticos não lhes darem o que querem, o que prometeram e o que deveriam dar. As expectativas criadas e as necessidades estimuladas pela política de massas, de encontros populares permanentes, de populismo moderado e estabelecido, essas ambições permitem aos eleitores desejar tudo, saúde, educação, emprego, subsídios, estradas, creches e obras. São enormes as ambições, mas absolutamente impossíveis de satisfazer em tempo de vida seja de quem for. Mas são essas promessas não cumpridas, essas expectativas não satisfeitas, que criam esta ilusão de distância, que criam as bases deste mito. A saúde dos Noruegueses, a educação dos Finlandeses, as estradas dos Alemães, os empregos dos Americanos, os direitos sindicais dos Franceses e as férias dos Ingleses são direitos inalienáveis dos cidadãos Portugueses. Quem lhes faltar com isso, não cumpre os seus deveres. Ora, os nossos políticos prometem tudo isso.
Em contraste com os políticos, que estão cada vez mais perto e junto dos eleitores, são as decisões que estão cada vez mais longe, mais distantes, mais incompreensíveis, em Bruxelas, em Berlim, nos centros financeiros, em Washington, em Pequim, talvez em Moscovo. Este paradoxo da proximidade dos políticos em contraste com a distância da decisão pode ser fatal para os políticos. Talvez o seja também para os cidadãos!
 Público, 20.1.2019

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19.1.19

Apontamentos de Lagos



Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Jan 19

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ESCRITURÁRIO

Por A. M. Galopim de Carvalho
Escriturário ou empregado de escritório, foi a profissão do meu pai na antiga Companhia Alentejana de Seguros, “A Pátria”, e, aos fins de semana, em mais uma ou duas pequenas empresas (os filhos a criar eram muitos). A vê-lo trabalhar, aprendi o que era, nesses anos, esta profissão, na maioria dos casos, masculina. Havia, mas eram raras as mulheres escriturárias. 
Escriturário, nos anos 30 e 40 do século que passou, era aquele que fazia a escrita de quaisquer instituições ou empresas comerciais e industriais com dimensão que exigisse essa actividade. E dessa escrita fazia parte a contabilidade, o expediente, a administração e tudo o que envolvesse trabalho feito à secretária, de caneta ou lápis na mão
Ser escriturário ou guarda-livros, como também se dizia, nesses anos, tinha estatuto social acima do dos empregados de comércio, designados por caixeiros, e dos operários das poucas indústrias. Não tinha salário, tinha ordenado, em média, acima do destes profissionais. Usava chapéu de feltro do tipo vulgar nos homens desses anos. Digo vulgar porque havia um “chapéu à diplomata”, com abas enroladas para cima, usado por alguns eborenses tidos ou assumidos como mais importantes do que o vulgo. Por dever de ofício, o meu pai vestia fato completo, de calça, colete e casaco, e camisa com gravata. Alguns homens desta classe usavam “polainitos” de feltro a cobrir os sapatos. Botas, só se fossem de cabedal fino. Nos casos de que me lembro, os escriturários gozavam do regime laboral dito de “semana inglesa”, isto é, além do Domingo de folga, tinham também as tardes de Sábado.
Nos cafés e nas sociedades recreativas conviviam com patrões do comércio local e da pequena indústria, graduados do exército e profissões liberais. Daí que a expressão “manga-de-alpaca”que, em sentido figurado, se lhes referia, era dita depreciativamente, em tom de despeito, por uns, e no de desdém, por outros.
Em sentido real, as mangas de alpaca eram duas mangas postiças, uma para cada braço, numa prática vinda do século anterior e ainda utilizada pelos escriturários da primeira metade do século XX. Eram feitas de um tecido leve, primitivamente alpaca,vestidas por cima do casaco ou da camisa, desde os punhos até ligeiramente acima dos cotovelos e apertadas nas extremidades com um elástico, de forma a não danificar as respectivas mangas durante o serviço.
Como o nome indica, o escriturário escrevia, não como hoje, nos teclados dos computadores, mas à mão, com caneta e aparos de molhar na tinta (solução aquosa de pigmentos e outros aditivos), via de regra, a azul e, para determinados destaques, a vermelho. Escreviam em livros e, daí, o nome de “guarda-livros” que também se lhes dava. Esses livros, adequados ao tipo da empresa, registavam a respectiva contabilidade e outros procedimentos da administração, incluindo, balanços e actas das reuniões da direcção ou das assembleias no caso das sociedades. Para tal, os interessados nesta profissão saíam do curso de Comércioda então Escola Industrial e Comercial Gabriel Pereira(situada no edifício do antigo Colégio do Espírito Santo),onde, além das disciplinas teóricas adequadas e da dactilografia, aprendiam a escrever em caligrafias convencionais, então muito em uso, como a francesa, a inglesa e a alemã ou gótica, usadas em títulos, em palavras e frases a destacar. Havia aparos próprios para cada um destestipos de caligrafia. Fendidos na ponta, alguns deles permitiam desenhar letras com traço mais fino ou mais largo (fazendo mais ou menos pressão sobre o papel) no respeito pelo tipo de caligrafia escolhido.A caneta de tinta permanente, uma invenção de escrever a tinta, sem precisar de tinteiro,já fazia parte do material escolar dos alunos do Liceu, mas não era a mais usada no escritório.
O uso de tinta líquida exigia o uso do “mata-borrão”, um papel encorpado, sem goma na sua constituição e, por isso, bom absorvente da tinta. Assim evitava-se que algo que passasse sobre a escrita acabada de fazer, a borrasse. Um pequeno suporte baloiçante, de uso manual, com uma superfície cilíndrica forrada com este papel, fazia parte dos objetos colocados sobre a secretária.
À mão do escriturário e indispensáveis ao seu trabalho, havia ainda a “raspadeira”, uma lâmina muito afiada, adaptada à ponta de um cabo, no género de um bisturi, com a qual raspava uma letra, uma palavra ou uma frase que tivessem de ser apagadas. Com o mesmo fim, podia utilizar os líquidos de dois frasquinhos, um com água, para diluir a tinta da palavra ou do conjunto a apagar, molhando com a ajuda de uma pequena vareta de vidro fixa à respectiva rolha e outro, com um soluto de hipoclorito de sódio (o mesmo da vulgar lixívia), colocado logo a seguir, com idêntico procedimento, o que, imediatamente, exercia a sua acção branqueadora.

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18.1.19

Empréstimos & Dívidas

Por Joaquim Letria
Penso que seria bonito, útil e honesto que as nações ricas e credoras explicassem às suas populações que estão a tratar delas o melhor possível cuidando e protegendo as suas poupanças ao ajudarem os países mais pobres e periféricos como por exemplo a Grécia e Portugal.
A alternativa ao que fazem e se vangloriam seria aceitarem a perda dos empréstimos feitos e recapitalizar directamente os bancos. No entanto, admitir isso seria aceitar que as suas políticas tinham sido estrepitosamente erradas. Todavia, esse reconhecimento seria uma grande ajuda. 
De facto, poderíamos ir mais longe. A admissão de que foram cometidos erros graves quer pelos virtuosos quer pelos pecadores seria uma condição essencial para se criar e consolidar a vontade política de desenvolver e reforçar o sistema.
Porém, permanecem diante de nós terríveis desafios capazes de nos fazerem sofrer dentro de pouco tempo, com mais uma crise mais ou menos grave como aquelas que ciclicamente experimentamos. Seria mais claro e mais fácil se todos confessassem – uns e outros – a sua contribuição para esta confusão e ameaça em que vivemos.
Tanto aqueles que emprestaram duma forma louca, sem rei nem roque, como os que aceitaram endividar-se sem retorno e não dando mostras de explicarem como tencionavam pagar estão implicados na terrível situação que mais cedo ou mais tarde teremos de enfrentar. Não nos esqueçamos que “it takes two to tango”.
Publicado no Minho Digital

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17.1.19

A direita no seu labirinto

Por C. Barroco Esperança

O PSD anda em polvorosa, como é da tradição, quando está fora do poder e minguam os lugares para quem se julga ungido para os ocupar. Luís Montenegro cometeu um erro que dificilmente lhe será perdoado, desafiando o líder num dos piores momentos que o partido atravessa e quando o seu desespero pode acelerar a implosão, com benefício dos partidos à sua direita (do PSD, não de Montenegro, Passos Coelho ou Maria Luís).

Não é fácil ser homem de mão de Passos Coelho e tentar um golpe para fazer regressar à AR a tralha que vendeu as principais empresas do Estado ao preço da uva mijona.
A Dr.ª Cristas é a mais perseverante adversária do PSD, embora sem tropas e qualidades de comando, mas Santana Lopes, cujo passado autárquico, governamental e de gestor da Misericórdia de Lisboa devia ter vacinado os eleitores, pode ser o grande beneficiário da derrocada eleitoral do PSD, que Montenegro acelerou de forma canhestra.
Há na esquerda quem se sinta feliz com esta dissolução da direita, sem pensar que a pior direita ainda não apareceu. O Menino Guerreiro, num país de memória curta, pode vir a ser o fiel da balança, a roçar os extremismos que grassam na Europa. E até já se permite ser arauto da luta contra a corrupção. Quem diria!
O PR, com a enorme popularidade de que ainda dispõe, tem força e vontade suficientes para impedir a esquerda de crescer de forma consistente, mas mingua-lhe a capacidade para travar uma onda populista de extrema-direita.

A direita representa um terço das intenções de voto, mas tem enorme poder nos sectores económicos e financeiros, na comunicação social e aparelho de Estado, nos bombeiros e IPSSs, nas fundações e Ordens profissionais e, pasme-se, nos sindicatos selvagens que emergem através das Ordens.
A direita dissolve-se, sem ideologia nem projetos, e unir-se-á em torno dos interesses, enquanto a esquerda se digladia, com forte ideologia e projetos que tendem a dividem.
A agitação social, onde coexistem reivindicações justas, difíceis de atender, e exigências obscenas, indignas de acolhimento, têm constituído o caldo de cultura de que a direita precisa para eleger a ordem e a segurança como trunfos para eliminar direitos e incitar a rivalidade entre trabalhadores do sector público e do privado.
Em França já é claro que a grande beneficiada das manifestações dos coletes amarelos é a extrema-direita de Marine Le Pen. Espero que o exemplo seja vacina em Portugal.

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14.1.19

Grande Angular - Em defesa do Parlamento

Por António Barreto
É a instituição que melhor representa a democracia. Com muitos ou poucos partidos, com ou sem maiorias absolutas, o Parlamento é condição de democracia. Não há democracia sem Parlamento. Ainda não se inventou melhor. É talvez a instituição que melhor defende a democracia. Mas do Parlamento também podem vir perigos. Um Parlamento que não se dá ao respeito é letal para a democracia.
Os partidos tratam-no com se fossem seus patrões, proprietários ou cônjuges com direito a assédio. Fazem o que querem. Nem admitem que os cidadãos se metam com eles. E assim danificam o Parlamento. Há hoje casos em que o Parlamento estraga a democracia, como na Venezuela, no Brasil ou na Hungria. Iniciativas antidemocráticas vêm liquidando os respectivos parlamentos há vários anos. Quer dizer, estes podem ser as primeiras vítimas deles próprios. É verdade que o Parlamento é a instituição que melhor representa o povo e que confere mais legitimidade aos governos. Mas nem sempre é a instituição que melhor defende o povo.
Com duas eleições, este formidável ano de 2019 poderia oferecer a oportunidade para uma reflexão aprofundada, sem preconceitos, sobre o papel dos parlamentos nacionais. É bem provável que o futuro da democracia dependa em parte do seu regresso a uma posição central, deixando de ser a instituição cada vez mais subsidiária que é actualmente. Melhor seria, por exemplo, fazer com que os parlamentos nacionais desempenhassem funções essenciais no plano europeu. Ou até que substituíssem o Parlamento europeu. Com um Parlamento de Babel e parlamentos nacionais despidos de soberania e despojados de poderes reais, a democracia europeia ficará pobre e sem sentido.
Entre os parlamentos nacionais raquíticos e o parlamento europeu obeso, vai-se criando um espaço vazio, rapidamente preenchido. Por quem? Pelos movimentos populistas, grupos de pressão, empresas multinacionais, vanguardas políticas, associações criminosas, organizações de traficantes e toda a espécie de confrarias financeiras.
O Parlamento português parece cada vez mais uma fortaleza de defesa dos deputados e dos seus privilégios. Com inusitada frequência surgem no espaço público notícias sobre irregularidades e vilanagem. E logo se ouve um deputado declarar que tem “a consciência tranquila”, cliché cada vez mais utilizado pelos corruptos. Ou o seu presidente garantir que não tem lições a receber de ninguém e que não “compactua” com as pessoas que criticam o Parlamento.
No Parlamento, nem toda a irregularidade é corrupção. Há formas de roubo que o não são. Há anormalidades que também não são. É o local de eleição para as artimanhas que, sendo vigarices, não são corrupção. As faltas dos deputados. Os passwords que se fornecem aos amigos. As assinaturas feitas por procuração. As inscrições em ficheiros informáticos. As falsas declarações de deslocações e estadias. As ajudas de custo indevidas. As viagens em grupo mas contadas como individuais. Os endereços de empréstimo. As declarações de património “marteladas”. As contas de familiares maquilhadas. O “dinheiro vivo” que não deixa rastos. Este universo de trapalhice não é corrupção. É mais desvio e mentira.
Alguns deputados ilustram-se com declarações de fidelidade moral, outros ficam escandalizados quando alguém denuncia os trafulhas (indignados com quem denuncia, não necessariamente com o culpado…). Outros ainda, mais solenes, queixam-se das “campanhas antidemocráticas”! Como é cada vez mais evidente e se tem descoberto, os autores das piores campanhas contra o Parlamento são os deputados. Pelo que fazem. Pelo que não dizem. Pelo que deixam correr, sem apurar responsabilidades.
A democracia tem geografia (círculos eleitorais) e indivíduos (uma pessoa, um voto). Com este sistema proporcional e sem responsabilidades pessoais, com disciplina de voto e com os votos colectivos (que se podem observar todos os dias na televisão), o que vigora é uma democracia de anónimos e de responsabilidade limitada, sem comunidades e nem individualidade. Nenhum deputado é pessoalmente responsável. Nenhum eleitor pode pedir contas ao “seu” deputado. Nenhum deputado deve a sua eleição a um eleitorado real. Tudo o que um deputado é deve-o ao partido.
Assim se vai o Parlamento debilitando. Brevemente, sem liberdade de voto, bastará um deputado de cada grupo votar por todos. Os hipotéticos rebeldes ficam calados ou são convidados a sair da sala. O actual modo de votação por colectivo, sem nome nem contagem, é já há muito o anúncio deste admirável Parlamento novo, em que qualquer deputado é substituído por doença, casamento, férias, emprego, lazer, negócios ou interesse do partido… As aparentes boas intenções dos responsáveis parlamentares são inúteis. Querem curar com adesivos os pés da cadeira partida. Toda a lógica actual dos grupos, da disciplina de voto, das listas partidárias e das substituições sem eleição é a mesma dos sistemas de faltas, de ajudas de custo, de transmissão de passwords, de votos por barriga de aluguer e de marcação de presenças por ausentes. O que parece ser uma falta grave para a opinião pública é praticado há décadas por muitos membros dos grupos parlamentares. Não todos. Mas muitos.
O método de votar por procuração e “tirar a falta” tem quarenta anos. Antes dos computadores, muitos deputados tinham nas suas carteiras fac-simile de assinaturas de amigos, em geral da província, por quem rubricavam. Viam-se alguns mais descarados tirar a agenda do bolso para copiar a rubrica dos faltosos. As sextas-feiras eram dias particularmente cheios de trabalho para os procuradores. Nesse dia, uma assinatura valia por três, pois incluía o fim-de-semana, a ajuda de custo e a deslocação. Os passwords não fizeram mais do que modernizar a tramóia.
Votar em colectivo, com disciplina, não é muito diferente de tirar a falta. O deputado pode estar lá dentro, em comissão, no seu gabinete, no Chiado, na Avenida dos Aliados ou em Tavira! Qual é a diferença, neste mundo informatizado?
Há três anos, foi criada uma Comissão especializada para tratar destes assuntos relativos à fraude parlamentar. Ao fim de três anos e dezenas de reuniões, não há conclusões! Típico! Em três anos, os deputados não conseguiram chegar a um acordo sobre o Código de Ética, as faltas, as incompatibilidades, os deveres de lealdade, de cumprimento de deveres e de declaração de despesas… Parece que nem o Parlamento, nem os partidos, conseguem estimular a honestidade de todos os deputados!
Público, 13.1.2019

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À ATENÇÃO DAS PROFESSORAS E PROFESSORES DAS NOSSAS ESCOLAS.

Por A. M. Galopim de Carvalho
Se não acrescentarmos algo de cultural e/ou de histórico às matérias curriculares da nossa responsabilidade, ficamos como os papagaios e os nossos alunos também. Maneira singela de dizer que, se nos limitarmos a debitar o manual em uso, estamos a amestrar os alunos a acertarem nas perguntas a afrontarem nos exames, mas não estamos a formar cidadãos. 
Esclareço que limito estas linhas ao ensino da Geologia, embora colegas me digam que outro tanto se passa em outras áreas. Por outro lado, faço questão de tornar claro que estou, sobretudo, a visar o sistema 

- em que, insensatamente, as sucessivas tutelas parecem estar mais interessadas nas estatísticas do que na qualidade do ensino;
- em que os programas oficiais amarram os professores, não lhes dando tempo para “divagações desnecessárias”;
- em que os professores vivem sobrecarregados em tarefas administrativas e outras de que deveriam estar rigorosamente libertos;
- em que muitos deles vivem longe das famílias ou perdem horas nos caminhos diários de ida e volta a casa e a contarem os tostões; 
- numa sociedade que lhes retirou a dignidade e o respeito a que têm direito. 

É, pois, neste quadro e na convicção de que os que ensinam (hoje são mais as professoras do que os professores) devem saber muito mais do que o estereotipado no deficiente manual de ensino, que aqui deixo um exemplo que poderá ser ideal mas, nem por isso, recusável. 

Suponhamos que temos de falar de calcários. Para além de sabermos qual a sua natureza, o seu significado como documentos indispensáveis para o conhecimento da história da Terra e o seu interesse como importantíssima matéria-prima, será interessante sabermos que a palavra radica no latim “calcariu”-, termo relativo a cal, que cal, também do latim, “calx”,traduz a ideia de pedra e, a partir daqui, podermos abrir portas a duas das mais importantes e úteis capacidades do ser humano – aprender e pensar.

Um parêntese para lembrar que, desde que haja apetência, a nossa capacidade para aprender é praticamente ilimitada. Cabe a quem ensina ter arte de criar essa apetência.

Neste texto, que exemplifica uma possibilidade de complementar a, matéria curricular com algo de cultural e/ou histórico que contribua para a formação dos alunos como cidadãos, destaco, em maiúsculas, as principais palavras do léxico português radicadas no acima referido étimo “calx”. 
Comecemos pelo CÁLCIO, o elemento químico isolado pela primeira vez em 1808, pelo químico inglês Humphry Davy, que hoje sabemos ser o 5º mais abundante na crosta terrestre, com 3,6% na escala ponderal, e que entra na composição do mineral CALCITE, já conhecido ao tempo de Plínio. o Velho (século I), que hoje sabemos ser um carbonato de cálcio (CaCO3) descrito, em 1836, pelo alemão Johann Carl Freiesleben, mineral essencial na constituição do CALCÁRIO.Vulgarmente conhecido por pedra-de-cal, o calcário é a rocha sedimentar que, submetida a CALCINAÇÃO(decomposição térmica), produz CAL,o óxido de cálcio (CaO), substância sólida, branca e alcalina,vulgarmente referida por cal-viva,. Uma vez regado com água, o óxido de cálcio gera o respectivo hidróxido ((OH)2Ca), bem conhecido por cal-apagada que, em suspensão aquosa, dá a cal com que ainda se branqueiam as paredes nas aldeias e montes que caracterizam o Alentejo e o Algarve. Cal designa, ainda, a argamassa de cal-apagada que se usava antes da era do cimento. CALEIRAouCAIEIRA(termo usado no Alentejo) é o forno de cal, CALEIROouCAIEIRO, o homem que a fabrica e/ou a vende, eCAIADOR, oque se serve da cal para CAIAR.Lá longe, nosmares recifais das Caraíbas, onde sabemos ter sido importante a presença dos portugueses (lembremos a muito provável naturalidade de Cristóvão Colombo na vila alentejana de Cuba), deu-se o nome deCAIOS(Caio Largo e Caio Coco)àspequenas ilhas cubanas, rasas e exclusivamente feitas de areia calcária bioclástica.
CALEIRArefere ainda o sulco ou rego inicialmente empedrado, tendo o nome sido generalizado, depois, ao mesmo tipo de aparato, ainda que feito com outros materiais.CALCIMETRIAé o procedimento químico destinado a quantificar o teor de cálcio, do seu óxido ou do seu carbonato, em rochas ou em terrenos,CALCÍMETRO, o aparelho que, no laboratório, é usado com esse fim, e CALCEMIA, o teor de cálcio ionizado no sangueEra com pedras, a servirem de lastro, que se CALAVAMos barcos quando, sem carga, se faziam ao mar. Com o mesmo étimo, dá-se o nome de CALADOà profundidade a que se encontra o ponto mais baixo do casco de uma embarcação, em relação à superfície da água onde se encontra mergulhada. Com a mesma origem,CALÇADAé o revestimento de ruas e praças com pedras eCALCETEIRO,o artista que celebrizou no mundo a calçada portuguesa. Paralelamente, CALÇARtanto é enfiar o pé no CALÇADO, como é meter um CALÇOpor baixo daquilo que queremos que fique firme, eCALCARo chão é dar-lhe a compactação da pedra.CALCANHAReo respectivo osso, o CALCÂNEO, têm a mesma etimologia.
A terminar, a palavraCÁLCULO, do latim calculus (de calx(pedra) + sufixo diminutivo -ulus), que significa pedrinha, é o termo erudito para designar a pedra nas litíases biliar e renal e CALCULISTA, a pessoa que tudo calcula ou que não procede senão por interesse. Na Antiguidade, era com pedrinhas (cálculos) que se contava e se faziam contas, ou seja, se CALCULAVA, operaçãoque hoje fazemos, por via electrónica, nas modernasCALCULADORAS
Na sequência desta exploração semântica, poderíamos dissertar, menos ou mais detalhadamente, sobre cada uma das palavras lembradas atrás, mas fixemo-nos, por exemplo, em CALCÁRIOCALÇADAe, aqui, vale a pena começar por dizer que, no essencial, a “calçada portuguesa” consiste no calcetamento com pedras de calcário brancas e pretas (que, na realidade, são cinzentas), criando figurações plásticas de notada beleza. 
Na origem, as pedras pretas eram de basalto, que há muito na região de Lisboa, tenho sido aqui intensamente explorado, num passado recente. São Sebastião da Pedreira deve o nome à pedreira de basalto que ali existiu. 
Há, ainda, pedras de calcário de outras cores (avermelhadas e amareladas), mas apenas usadas em casos pontuais. No que se refere às referidas pedras, basta olhar para o chão de praças ou avenidas, ou navegar na “Net”, para vermos que umas não têm talhe uniformizado, ditas ao “malhete”, e que outras, nas calçadas mais aperfeiçoadas, foram aparelhadas ao “quadrado” ou “sextavadas”. A “calçada portuguesa” surgiu em Lisboa, em 1842, com o calcetamento de parques, praças, passeios e outros espaços pedonais, com um simples motivo em zigue-zague (“ondas do mar largo”), a branco e preto, realizado por “grilhetas”, nome que, na época, se dava aos presidiários. A calçada portuguesa alastrou rapidamente por todo o país, pelo Brasil, pelas então colóniase pelo estrangeiro, numa expressão de arte muito nossa, tendo sido criada, em 1986, uma Escola de Calceteiros da Câmara Municipalde Lisboa.
Em 2015, a Agência de Publicidade MSTF Paterns, promoveu a implantação, na rua Garrett (em Lisboa), doprimeiro código QR (sigla de Quik Response, ou código de resposta rápida), feito em calçada portuguesa,com pedras brancas e pretas, talhadas ao quadrado. Com uma área de,aproximadamente, um metro quadrado, esta novidade mundial da calçada portuguesa permite aceder a informações turísticas sobre esta zona de Lisboa. 
Como nota final, saiba-se que o Código QR, de múltiplas utilizações, à semelhança do já familiar Código de Barras, foi inventado no Japão em 1994.
Sugiro a visita aos “sites”, de que há muitos e bons no Google, alusivos à calçada portuguesa.

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13.1.19

PENSARAM ALGUMA VEZ NO OE?

Por Joaquim Letria
Nós não ligamos a muita coisa como devíamos. Uma delas é aquela coisa a que os políticos e a Comunicação Social chamam Orçamento de Estado, que a maioria desconhece o que seja. Pensam que aquilo é um desses negócios dos políticos para nos entreterem com nomes estranhos e discussões animadas na Assembleia da República. 
Mas a verdade é que essa coisa,  cujo nome os jornais simplificam reduzindo o seu nome para OE, é muito importante e mexe nas vidas de todos nós. Para entendermos os benefícios e malefícios dum Orçamento de Estado, basta referir duas situações  que ilustram bem o que pode fazer  mais ou menos dinheiro que o OE destine à despesa dos serviços públicos com o dinheiro dos nossos impostos.
Por exemplo, o Sr. António que vive na Manta Rota, no Algarve, para conseguir uma consulta de urologia tem de vir ao Hospital de Cascais.  O Sr. José Luís, que vive em Pias, no Baixo Alentejo, está há ano e meio na esperança de ser visto por um ortopedista.
Além disto, ainda há os hospitais que têm aparelhos caríssimos por utilizar porque não têm pessoal especializado. Mas estas coisas, que têm a ver com o OE, incomodam pouco os ministros e mesmo nada o ministro das Finanças entretido no  seu jogo de jogar com o défice perante o FMI, o BCE e a Comissão Europeia.
Pouco os preocupa os cidadãos que sofrem e não têm voz. E o povo adora ver os bons resultados de que o Governo se gaba nas televisões. Acaba por pensar que o Terreiro do Paço é  só um palco de concertos e um sítio para armar écrans para ver o futebol.
Publicado no Pasquim da Vila

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12.1.19

Apontamentos de Lagos - Proibições Diversas



A malta adora proibições — se não existem, inventam-se...

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11.1.19

Antiguidades

Colaboração adicional no Correio de Lagos
(Clicar na imagem para a ampliar)

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A Vergonha dos Compères

Por Joaquim Letria
Numa noite destas pude assistir a um espectáculo lindo e único num dos canais nacionais de TV. Principalmente rendi-me à rábula do ex-ministro Armando Vara, antigo peão de brega da quadrilha de Sócrates que o país aguarda ver atrás das grades depois dele ter dissipado múltiplos milhões de euros nossos. Mas Vara, naquelas circunstâncias que algum amigo lhe proporcionara, fez o que esperamos que ele faça em vara larga.
Mentiu e claro, como os seus próximos companheiros sempre fazem, declarou-se inocente, apesar de condenado por quatro tribunais e bastantes juízes que igualmente lhe recusaram qualquer recurso e chumbaram todos os apelos, já vai para oito anos, pelo menos.
Mas para mim, que já fui do ofício, o maior espectáculo foi dado pelos jornalistas sentados no estúdio com Vara. Entrevista aquilo não foi. Tratou-se de mais uma má representação de compères, tão maus que não teriam lugar na revista à portuguesa que antigamente se representava no Parque Mayer, onde trabalharam alguns excelentes actores e muita gente séria.
O insólito da situação é terem facultado ao homem a oportunidade de mais uma vez não ter vergonha nenhuma e vir mentir e falar para mais dum milhão de portugueses no bom estilo do Sócrates ou do Bruno de Carvalho.
Na informação das televisões não há jornalistas. Há “compères”, meninas e meninos a quem ensinaram a dobrar a espinha e a falar com simpatia com gente que deveriam entrevistar mas que são avisados para não o fazer se verdadeiramente quiserem progredir na carreira. E eles progridem… progridem… progridem sem a menor precariedade.
Hoje, os políticos são os comentadores, os rapazes da música são os avençados e ou portam-se todos muito bem ou no fim do mês acaba a mama e, acima de tudo, deixa-se de ter a influência de lá ir dizer as bacoradas que o Governo, a Oposição, os partidos ou os clubes querem que eles digam. Entrevistadores é que nem pensar. Jovens bem vestidos e apessoados a lerem cartilhas ou a fazerem o papel de corpo presente é o que está bem.
É por estas e por outras que eu falo só 12 minutos por semana num programa dirigido a donas de casa e idosas, que é tudo o que me é autorizado fazer ao fim de 17 anos de silêncio imposto. Mas não me importo. Ainda vou marchar com as minhas velhotas pela Avenida da Liberdade e pela dos Aliados. E principalmente não seremos compères a dar deixas a alguém que nos envergonharia. Podem crer!
Publicado no Minho Digital

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10.1.19

Apontamentos de Lagos

Colaboração no Correio de Lagos de Dez 18

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O Vale dos Caídos e a provocação fascista

Por C. Barroco Esperança
A exumação de Franco do Vale dos Caídos, o genocida do séc. XX, que integra as listas dos maiores assassinos de sempre, não é só uma exigência ética para com os vencidos, é um ato de salubridade que tarda, pela presença do cadáver de quem mandou construir o monumento faraónico, com trabalhos forçados dos vencidos, para recordar a todas as vítimas quem foram os vencedores.
A incúria de vários governos e o medo dos franquistas, que ainda dominam numerosos sectores da sociedade espanhola, das Forças Armadas à Justiça, das autarquias às Forças policiais, dos partidos de direita à Igreja católica, têm adiado a legalidade democrática.
O Decreto-Lei de 1957, publicado no apogeu da ditadura franquista com a cumplicidade da Igreja católica, permite aos frades beneditinos administrar o Vale dos Caídos.
É aviltante que o Governo permita ao prior Santiago Cantera usar a legalidade fascista para não permitir a exumação de quem, durante quatro décadas assassinou centenas de milhares de espanhóis e esmagou tão cruelmente os direitos humanos.
O múnus não impediu o prior de ser candidato às eleições gerais de 1993 e europeias de 1994 nas listas do partido fascista, Falange Espanhola Independente, defensor do legado de Primo de Rivera, fundador, em 1933, da Falange Espanhola. Alega agora que só com autorização da família do ditador permite ao governo a exumação, sendo o representante da família o general Juan Chicharro, líder da Fundação Francisco Franco. desde a morte da única filha, Cármen, e cujo objetivo é perpetuar a memória e a ideologia fascista do ditador.
A Santa Sé, bairro mal frequentado, de 44 hectares, criado por Mussolini, diz que não se imiscui nos assuntos de Espanha. O Papa Francisco não consegue que a cumplicidade de Franco e da Igreja católica espanhola, no genocídio do seu povo, seja revogada.

E o fascismo avança. A Igreja, que podia agora distanciar-se, está mais interessada nos privilégios, entre os quais avultam as isenções fiscais e o óbolo de 0,7/% do IRS [IRPF], sendo a única confissão religiosa que usufrui de tal benefício.
A gula eclesiástica que a legislação franquista, reiterada por Aznar, alimenta, é agravada por hábitos que mantêm tóxicos os báculos, conspurcam as mitras e infetam os anelões.

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9.1.19

JUÍZES A REFRESCAR

Por Joaquim Letria 
O novo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, quarta figura na hierarquia do Estado, disse, quase a par da Associação de Apoio à Vítima, que os juízes deviam refrescar os seus conhecimentos sobre os crimes sexuais e actualizar as suas ideias quanto às diferenças de género. Deus os ouça!
Dantes, um magistrado para chegar a juiz passava anos como acusador público, devia percorrer as comarcas, das menores às mais importantes, prestar provas e ser, finalmente, juiz de Direito. Hoje, para se dizer que se é juiz, basta um daqueles cursos da tanga, dessas chamadas universidades que há por aí, comprar o Código de Direito Penal, melhorar o aspecto com duas demãos do verniz do Centro de Estudos Judiciários e, aplicando leis enviesadas, pôr-se a mandar inocentes para a cadeia e a deixar culpados cá fora, dizendo disparates a torto e a direito.
Diga-se, em abono da verdade, que na sua grande maioria os juízes são sérios e competentes, nem todos vendem sentenças ou batem na mulher. Mas agora, que se fala em os mandar aprender certas coisas, que se aproveite para lhes ensinar o resto que lhes falta. Para que haja menos Direito e mais Justiça. 
Publicado no Pasquim da Vila

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8.1.19

O Homem de Muitos Instrumentos

Por Antunes Ferreira
Desde sempre “O Homem dos Sete Instrumentos” faccionou os portugueses. Recordo  que na minha meninice tinha um vizinho, o Senhor Samuel que além de ter três empregos, nos tempos do saudoso Salazar os tempos eram difíceis, (ainda que hoje os Mários Machados os tentem ressuscitar) tocava violino  nas horas vagas (?)   e ainda tinha tempo para à noite dar uma de guarda nocturno  com espadão e tudo. Por isso era conhecido pelo Homem dos Sete Instrumentos. E se mais houvera – mais tocara.
Já nos nossos dias o Sérgio Godinho fez história com uma canção  a que deu exactamente esse título. Pessoalmente digo aqui à puridade que não sou fã do cantor de intervenção, realizador cinematográfico, autor, escritor, actor natural do Porto  cuja importância na música portuguesa é importantíssima e marcou uma época muito especial. A sua vida é bem o exemplo do título que deu à canção atrás mencionada.
Hoje temos um Senhor que é o Presidente da República e que também um Homem que toca Instrumentos mas no seu caso Muitos. Ou seja  ele é bombeiro, ele é fotógrafo, ele é enfermeiro, ele é professor, ele é nadador, ele é viajante, ele é visitante, ele é popular , ele é populista, ele é tudo e mais alguma coisa, ele é etc. Ele é mais do que Deus – está em toda a parte, é omnipresente e sabe de tudo,  é omnisciente. É o verdadeiro artista.
Convém, agora e aqui, dizer que não votei em Marcelo Rebelo de Sousa, não gosto de Marcelos. Também não gosto de selfies. Nem de abracinhos. É o meu feitio. E quem me fabricou já não está por cá e a forma que utilizou partiu-se. Posto isto, duas anotações que me deram dois murros no estômago, entre muitas outras. A saber:
1)  A ida à tomada de pose do capitão Jair Messias Bolsonaro como Presidente do Brasil. Para uma “conversa de um quarto de hora entre irmãos”? Irmãos? Eu não posso nem de longe nem de perto considerar, um fascista, racista, homofóbico, classista, machista e ouros qualificativos mais meu irmão!
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2)  O seu telefonema para a Senhora Cristina Ferreira aquando da transmissão em directo do primeiro programa dela na SIC, alegadamente para a compensar da entrevista que concedera ao Senhor Manuel Luís Goucha. Um Supremo Magistrado da Nação não pode tomar atitudes destas. Em nome de quê? Da popularidade? 

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7.1.19

Apontamentos de Lagos - Três Coretos Desaparecidos

Apontamentos de Lagos - Estátua de S. Gonçalo


A estátua do Padroeiro de Lagos, vista da EN 125, parece estar às escuras, mas isso é porque, no lago que a rodeia, os 3 projectores estão apagados.
A luz que se vê na foto de baixo vem de um projector existente aos pés da estátua.
Curiosidade: Em Teatro e em Cinema, quando se quer que uma personagem tenha um ar fantasmagórico (nomeadamente nos filmes de terror), usa-se iluminação assim, de baixo para cima, obtendo-se um efeito que é reforçado com uma filmagem em "contre plongée", tal como aqui vemos devido à posição em que estamos.
(Fotos de 6 Jan 19)

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6.1.19

Apontamentos de Lagos

O Celibato dos Padres

Por Filomena Mónica
Em Fevereiro próximo, terá lugar no Vaticano uma reunião sobre os casos de pedofilia envolvendo sacerdotes. Diante dos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, o Papa dirá de sua justiça. 
A pedofilia no interior da Igreja Católica tem séculos de existência. Acontece que a hierarquia escondeu dos fiéis este fenómeno, tendo muitas vezes – escândalo ainda mais grave – pago às vítimas com o intuito de as silenciar. Segundo fontes bem informadas, o grande responsável por tudo o que recentemente se passou foi o Papa João Paulo II, que, durante cerca de vinte anos, optou por meter o escândalo debaixo do tapete. Nos EUA, entre meados de 1980 e 2004, a Igreja entregou 2,6 biliões de dólares às vítimas que pretendiam levar os seus casos a tribunal. Seguiram-se idênticos fenómenos na Irlanda, na Austrália, em Inglaterra, no Canadá e no México.
Até tarde na vida, não fazia a menor ideia de que isto envolvesse sacerdotes altamente colocados. Sempre que, falando com católicos, mencionava tal facto diziam-me tratar-se de calúnias. Até que começaram a aparecer, nos países onde a liberdade de expressão é tomada a sério, notícias sobre os abusos de menores praticados por padres importantes. Fiquei atenta. 
No passado dia 14 de Agosto, um tribunal da Pensilvânia divulgou o que, ao longo de décadas, se tinha passado não só com padres mas com o Cardeal McCarrick. Nos anos 1980, haviam começado a circular rumores de que este tinha por hábito convidar jovens seminaristas para a sua casa de praia e que, uma vez lá, lhes pedia para irem para a cama com ele. Apesar disto ser do conhecimento do Papa, João Paulo II nomeou-o arcebispo de Washington. 
E que se passa no nosso país? Tal como sucede com a Conferência Episcopal espanhola, a portuguesa tem mantido um silêncio cúmplice sobre o assunto. D. Manuel Clemente, que preside à Conferência Episcopal portuguesa, afirmou recentemente que «o número de casos de abuso sexual de menores por membros do clero católico em Portugal não é comparável ao de outros países» (Público 18.11.2018). Disporá ele de números? Se sim, por que não os revela? Já agora lembro que, no encontro de Natal com os funcionários do Vaticano, o actual Papa agradeceu aos jornalistas internacionais o terem tido a coragem de revelar a podridão no seio da Igreja Católica. 
Uma coisa é o cenário de párocos rurais que mantêm «governantas» que satisfazem os seus instintos libidinosos ou as tradicionais donas de pensão que albergavam padres, o que era tolerado pelos fiéis: basta lembrar o caso de São Joaneira, a amante do cónego Dias no romance O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós. Outra, os abusos de inocentes praticados por quem por eles deveria velar.
Estranhamente, poucos católicos relacionam os casos de pedofilia e, já agora, os de homossexualidade, com o facto de os padres católicos não se poderem casar. A maioria pensa ser tal facto um dogma, mas bastar-lhes-ia estudar a História da Igreja para ficarem a saber que só no século XII foi o celibato dos padres decretado obrigatório.
Expresso de 5 Jan 19

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5.1.19

Queremos aprender menos, ou deveremos aprender mais?

Por Nuno Crato
Será que queremos saber menos ou queremos saber mais? Há alguma dúvida!? Talvez, e talvez haja maneira de encorajar uma resposta contrária aquela em que o leitor está certamente a pensar.
Perguntemos a um jovem que está a entrar no Ensino Secundário se quer que o programa de matemática seja extenso ou que seja simplificado. Veremos que muitos – julgo que não a maioria – responderão que deve ser simplificado. 
Agora, refaçamos a pergunta de forma a facilitar a resposta: quererá o aluno ter um programa muito extenso, em que terá dificuldade em dominar as matérias e passará o tempo a correr para compreender superficialmente os temas, ou quererá o aluno ter tempo para perceber bem os conceitos, em vez de os memorizar apressadamente para os exames?
Variemos ligeiramente as questões e os sujeitos do inquérito. Perguntemos a um pai se prefere que o seu filho leia Os Maias ou outra obra qualquer deste escritor. 
Contextualizemos as coisas melhor. Estamos nas férias da Páscoa, em que a família quer ter um tempo descansado no Algarve, e os pais sentem-se obrigados a ajudar os filhos a prepararem-se para exame. Só o tamanho do livro pode desmoralizar o jovem em causa que, muito naturalmente, terá gosto em despachar as suas leituras e divertir-se com os amigos. 
Insistamos na pergunta: quererão os pais passar horas a insistir com o jovem para acabar esse extenso romance, ou preferirão que ele leia uma obra mais curta? 
Amaciemos ainda mais a tentação para a resposta: será que o jovem não compreenderá melhor um romance mais curto, não se recordará melhor do enredo, e não se preparará melhor para o exame, tendo assim oportunidade de, finalmente, entrar em engenharia, curso em que não voltará a ouvir falar de Eça de Queirós?
Afinal, o saber inútil não deve ser substituído por competências que nos preparem para o mercado de trabalho? 
Volto à pergunta do título: queremos todos aprender menos ou deveremos aprender mais?

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