16.9.18

Obrigado, Joaquim Letria!

"Correio de Lagos" deste mês

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14.9.18

A sociologia do salto alto

Por Joaquim Letria
Depois das botifarras Doc Martens, tipo bota da tropa, que há tempos as jovens tanto gostavam, a moda do salto alto não desaparece e até se agudiza à finura do salto–agulha de 15 ou 17 centímetros. Tenho algumas amigas a quem, para lhes oscular o rosto com amizade, quase tenho de trepar para um banquinho de modo a ficar à altura.
Colin McDowell, um filósofo do calçado e da sensualidade, no seu tratado "Shoes, Fashion and Fantasy" (Thames & Hudson) não hesita em escrever que as mulheres nunca dispensarão o salto alto pela simples razão de que lhes evidenciam as ancas, favorecem os tornozelos e fazem parecer que têm as pernas mais longas.
McDowell concorda com a sua colega Beatrice Faust, autora de “Mulheres, Sexo e Pornografia”, que escreve que os saltos altos não só fazem as mulheres parecerem sexy  “mas também fazem que se sintam sexy”. Ambos ignoram, mas todos nós também sabemos que assim é, que os saltos altos fazem as crianças sentir-se adultas, ainda que por efémeros momentos, daí qualquer menina tomar de empréstimo os sapatos da mãe e com eles tarocar pela casa fora ou simplesmente se ver e admirar ao espelho.
Evidentemente que no fetichismo do calçado, o salto alto é associado ao poder, à dor e à dominação, pois não se vê filmes ou erótica em geral sem uma mulher vestida de latex a desfrutar da crueldade e a infligir o prazer da dor, brandindo o chicote e pisando o comparsa de saltos rasos.
Claro que a cor também é muito importante. O vermelho e o negro são as cores mais importantes e hoje até a sola vermelha é uma imagem de marca como Christian Loubotin pode comprovar de modo indesmentível.
Como aqui fica demonstrado, os sapatos de saltos altos das minhas amigas bem podem levar-nos muito longe, sem termos de chegar aos mocassins vermelhos do papa Bento XVI que o cardeal Ratzzinger não se dispensou de impor com a sua meia branca. Nem temos de recordar o padecimento das jovens chinesas que viviam num doloroso aperto para ficarem com pés minúsculos, com os quais davam o seus curtos e graciosos passos que as faziam parecer avezinhas esvoaçando em redor dos seus senhores.
Lamento é que exportando nós tanto e tão bom calçado, algum até usurpado por marcas de renome suíças, inglesas e italianas, não tenhamos um único sociólogo ou um psicólogo a ajudarem os estilistas e fabricantes portugueses. E quando estes académicos  se debruçam sobre o calçado é para irem ao tempo da outra senhora e nos falarem das botas que chegaram a justificar a alcunha  do Dr. Oliveira Salazar.
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13.9.18

Espanha a caminho de um Estado laico

Por C. Barroco Esperança
Numerosos espanhóis ignoram a lei franquista de 1944, que permitiu aos bispos registar em nome das dioceses o património público que lhes aprouvesse, sem necessidade de justificar a legitimidade. Tinham outorgadas funções de notários e registavam os bens de que quisessem apropriar-se. Foram muitos os bens públicos que saciaram a gula episcopal e, às vezes, privados, cuja indemnização aos proprietários foi imposta ao Estado espanhol pelo Tribunal de Estrasburgo.
A lei iníqua, que Aznar, ligado ao Opus Dei, ampliou em 1998, só caducou em 2015. A voracidade eclesiástica registou templos, praças públicas, fontes, monumentos, vinhas, cumes de montes e outros bens, numa dimensão que está agora a ser averiguada. Em declarações à comunicação social, no ano passado, o representante da Conferência Episcopal admitiu serem 30 a 40 mil propriedades.
Como exemplo, e por ser o caso mais escandaloso, a Mesquita de Córdova, património da Humanidade desde 1984, foi registada pela Igreja, em 2006, com o valor patrimonial de 30 euros, e a diocese cobra 10 euros por cada entrada na «sua Catedral», que é o 3.º monumento mais visitado de Espanha, e com direito a impedir o culto islâmico.
Embora a Igreja ameace o Governo por exigir os bens públicos que os bispos e párocos puseram em seu nome, o ministério da Justiça está a ultimar a lista de propriedades que o clero registou ao abrigo da lei franquista, talvez em pagamento da cumplicidade e do silêncio no genocídio que o ditador levou a cabo.
Até há pouco, com a cumplicidade dos governos de direita, que obtinham votos com os privilégios concedidos à Igreja católica, era tarefa difícil, ou impossível, investigar os bens piedosamente recetados.
O que apavora os dignitários religiosos é que se torne pública a imensa riqueza de que a Igreja se apropriou de forma indigna. Nem a severa advertência da sentença (junho de 2017) do Tribunal de Justiça da UE contra os Acordos de 1979 do Estado Espanhol com a Santa Sé, que declarou contrárias ao direito europeu as bonificações e isenções fiscais concedidas, parece ter abalado tanto o episcopado espanhol.
O nacional catolicismo permitiu à Igreja católica a apropriação de todos os templos, quer fossem igrejas, mesquitas ou sinagogas, e de palácios, largos públicos, casas de habitação, vinhedos, olivais, quintas agrícolas e picos de montes, onde uma cruz romana marca a propriedade como o ferro em brasa ao gado dos ganadeiros.
A Conferência Episcopal argumenta que a Igreja cumpriu sempre as leis em vigor, leis de que devia envergonhar-se, e nota-se o incómodo que a divulgação da apropriação de bens públicos lhe causa. A “inmatriculación” (1.º registo), permitia-lhe registar os bens públicos que o Estado não tivesse inscritos.
Bem-vinda, laicidade. As almas do Purgatório abdicam das caixas que recebem o óbolo, mas o clero anda possesso com a concorrência que reclama privilégios iguais, sobretudo 0,7% do IRPF (IRS português) dos seus crentes e as ajudas públicas que a vigência da Constituição tornou ilegais e continuam ao abrigo do escrutínio do Tribunal de Contas.
O Governo exigirá os bens que a Igreja pôs em seu nome e o paraíso judicial e fiscal em que vive a Igreja católica, de que a “Europa Laica” acusa o Governo, acabará por razões de justiça e salubridade democrática.

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11.9.18

"Correio da Manhã" de hoje
NOTA: Tem um erro. O nome da Biblioteca era de um tio avô

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SOBRE O GRANITO E A SUA ORIGEM, NUMA CONVERSA TERRA-A-TERRA.

Por A. M. Galopim de Carvalho
Já dissemos que não há um, mas sim, vários tipos de rochas a que o vulgo dá o nome de granito
Deixando este tema para outras conversas, comecemos agora por dizer que o termo granito, em sentido restrito, designa uma rocha plutónica (gerada em profundidade, na crosta), granular, rica em sílica (mais de 70%), com quartzo essencial, expresso e abundante (20 a 40%), e feldspato alcalino (ortoclase, microclina, albite). Como mineral ferromagnesiano contém, geralmente, biotite, sendo raros os granitos com anfíbolas ou piroxenas. Entre os seus minerais acessórios, destacam-se moscovite, apatite, zircão e magnetite. Esta rocha corresponde ao que, numa linguagem mais rigorosa, se designa por “granito alcalino”. O termo granito, atribuído ao italiano Andrea Caesalpino, surgiu em 1596, e radica no latim granum, que significa grão.
Imagine o leitor uma paisagem como a do norte de Portugal, essencialmente formada por granitos, xistos argilosos e grauvaques, na margem ocidental da placa litosférica euroasiática, à beira de um oceano (o Atlântico) que a separa de uma outra placa (a Americana). Como é sabido, os agentes atmosféricos (a humidade, a água da chuva, o oxigénio e o dióxido de carbono do ar e as variações de temperatura) alteram (“apodrecem”) as rochas e é essa alteração, ou meteorização, que gera a capa superficial (rególito) que dá origem ao solo.
— E quais são os materiais desta capa de alteração e do respectivo solo? – Pergunta-se.
Restringindo a resposta ao local em questão, aos principais minerais destas rochas, e à situação climática que aqui exerce a sua influência, diremos, de um modo muito esquemático, mas que aponta o essencial da questão, que:
(1) No granito, o feldspato altera-se, transformando-se parcial e, de início, superficialmente, em argila. Alterando-se o feldspato, os restantes grãos minerais descolam-se uns dos outros e a rocha perde coesão (esboroa-se entre os dedos). Os grãos de biotite (uma mica contendo ferro) também se alteram e dessa alteração resulta o seu aspecto “enferrujado”, o que confere à rocha exposta as cores de castanho-amarelado, que contrasta com a cor da rocha sã, acabada de cortar. O quartzo não sofre qualquer alteração, o mesmo sucedendo à mica branca (moscovite) que apenas se divide em palhetas cada vez mais pequenas e delgadas.
(2) No xisto argiloso, que além de argila tem quartzo em grãos finíssimos, microscópicos (ao nível de poeiras), tem lugar a perda de coesão destes materiais.
(3) No grauvaque acontece outro tanto, com a libertação dos seus componentes arenosos (os mesmos do granito, mas muito mais finos). 
Podemos agora dizer que os rególitos e os solos desta região de Portugal têm uma fracção arenosa com quartzo abundante, algum feldspato, micas e um fracção argilosa ou barrenta que faz o pó dos caminhos, em tempo seco, e a lama, em tempo de chuva. Podemos igualmente dizer que, quando chove com certa intensidade, as águas de escorrência arrastam estes materiais, com suficiente visibilidade na componente argilosa em suspensão. Isso vê-se frequentemente nas enxurradas, nas águas barrentas dos rios e, até, no mar, frente às fozes desses rios.
As pedras (cascalho) vão ficando, em parte, pelo caminho, outras atingem o litoral e não passam daí. As areias enchem as praias, as dunas e o fundo rochoso da plataforma continental. As areias mais finas e as argilas, incapazes de se depositarem em mar de pequena profundidade, constantemente agitado pela ondulação, progridem no sentido do largo, indo depositar-se na vertente continental (onde ficam em situação instável). As muitíssimo mais finas, essencialmente argilosas, vão imobilizar-se mais longe, no fundo oceânico. Sempre que, por exemplo, um sismo abala a região, os sedimentos em situação de depósito  instável na vertente desprendem-se, indo decantar sobre os já acamados no dito fundo.
Imaginemos que este processo (alteração das rochas, erosão, transporte e acumulação no mar) se repete ao longo de milhões de anos e que dele resultam alguns milhares de metros de espessura deste tipo de sedimentos. Imaginemos, ainda, que o mesmo se passa do lado de lá do Atlântico.
A tectónica global ensina-nos que este oceano, como todos os outros, ao longo da história da Terra, irá fechar-se. Isso terá como resultado o encurtamento do espaço coberto pelos ditos sedimentos que, à semelhança de um papel que amarrotamos entre as mãos, sofrerão enrugamentos, com “dobras” que vêm para cima, formado novas montanhas, e outras que vão para baixo, formando as “raízes” dessas montanhas.
É sabido que a Terra conserva grandes quantidades de calor no seu interior e que a temperatura aumenta com a profundidade, o mesmo sucedendo com pressão (dita litostática). Assim, dos sedimentos envolvidos nas citadas “raízes”, os mais superficiais ficarão sujeitos a pressões e temperaturas relativamente baixas, sofrendo ligeiríssima transformação (anquimetamorfismo), dando origem a rochas na fronteira entre as sedimentares e as metamórficas, como são o xisto argiloso, o grauvaque e, um pouco mais abaixo, a ardósia. Continuando em profundidade, com o aumento da pressão e da temperatura, mas sempre com transformações no estado sólido, formar-se-ão outras rochas francamente metamórficas, de graus progressivamente mais elevados, expressas na sequência: filádios ou xistos luzentes (uma vez que a componente argilosa se transformou em minerais que têm brilhos característicos, ”luzentes”, como a sericite, a clorite ou o talco), xistos porfiroblásticos, micaxistos e, ainda mais abaixo, gnaisses (estes representando o grau mais elevado).
A profundidades na ordem dos 30 quilómetros, a temperatura pode atingir os 800C, e a pressão ultrapassar as 4000 atmosferas. Neste ambiente e na presença de água (toda a contida na composição das argilas) terá lugar a fusão dos minerais menos refractários (quartzo e feldspatos). Entra-se aqui no domínio do chamado ultrametamorfismo e o processo toma o nome de anatexia (do grego “aná”, novo, e “teptikós”, fundir), ou palingénese (do grego “pálin”, de novo, e “génesis”, geração), dando origem a migmatitos. 
Logo que a fusão seja total, entra-se no domínio do magmatismo, com a formação de um magma que, dados os materiais envolvidos, só pode ser de composição granítica, magmaque, uma vez arrefecido e solidificado, gerará um novo granito. 
A história que acabámos de descrever nesta espécie de antevisão é a que julgamos saber contar relativamente à que, há pouco mais de 300 milhões de anos, deu origem à orogenia hercínica ou varisca e ao granito, ao xisto e ao grauvaque que nela se geraram e que marcam a paisagem do norte de Portugal. Do mesmo modo, esta história conta a de todas as paisagens afins do planeta, desde as mais antigas, com mais de 4000 milhões de anos, às mais recentes com escassos milhões.
Relativamente ao granito, a mais importante rocha magmática que forma a “ossatura” dos continentes, sabemos que o primeiro resultou de um processo de diferenciação, lenta e complexa, de uma crosta primitiva, de natureza próxima da do basalto. Sabemos também que qualquer geração de granito tem, atrás de si, outro granito e que, muitos milhões de anos  depois (400 a 500, em média), renascerá numa nova geração de granito.
Esta história é, afinal, a expressão (reconhecível ao nível das paisagens da Terra) do conhecido Ciclo de Wilson (do geólogo canadiano John Tuzo Wilson (1909-1993), relativo às sucessivas aberturas e fechos dos oceanos da Terra.
Notas: 
Grauvaque – rocha sedimentar arenítica e coesa, gerada nos grandes fundos marinhos, a par dos xistos argilosos. Contém, sobretudo, quartzo (20 a 50%), feldspatos e micas. O termo foi Introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Lasius, e radica no alemão grauwacke, que significa pedra cinzenta.
Migmatito –rocha ultrametamórfica, gerada por anatexia, de que resulta uma composição granitóide, na qual uma parte foi fundida e outra, mais refractária, permaneceu no estado sólido. Situa-se na passagem das rochas metamórficas da catazona (como é o gnaisse) ao granito franco.
Abaixo da zona dos gnaisses a temperatura e a pressão permitem a fusão dos elementos

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7.9.18

O mistério das fardas desaparecidas

Por Joaquim Letria
Ao contrário dos bombeiros, agentes da PSP e militares da GNR, que podem deparar-se-nos nos seus uniformes em plena via pública, os guias espirituais e guardas da nossa paz de espírito mergulharam numa clandestinidade onde, por certo, exercem o seu papel de infiltrados no mundo das trevas de Satanás de onde velam pela nossa sobrevivência no bem.
Juntamente com a nobreza, também desaparecida e só reconhecida em alguns apelidos e títulos ilustres, referências de feitos e tenças de antepassados, lá se foi o clero, abandonando-nos à nossa sorte e apetites de políticos e seitas que não perdoam a ninguém neste princípio de milénio.
Sem clero nem nobreza, resta o povo e essa terá de ser a classe privilegiada, pois de colarinho aberto ou de manga arregaçada não há hoje nobre ou padre que também não reclame com ele se confundir nos hábitos e atitudes.
Essenciais para defenderem a soberania nacional devíamos ter ainda as Forças Armadas, mas também estas vivem acobertadas no anonimato das roupas civis e na cor garrida dos carros que as altas patentes utilizam para fazerem circular as suas pessoas e suas apessoadas famílias.
Tropa a que possamos recorrer desconheço, para além de alguns mancebos que andam a fazer obras em Tancos ou são arrebanhados para uma ou outra guarda de honra em cerimónia onde a brigada do reumático tem de tirar as fardas apertadas da naftalina.
Pelo que me tem sido dado ver, os oficiais militares e os sacerdotes, nossos protectores dos inimigos da Pátria e de Satã, vestem-se e despem-se no serviço, como as coristas e os “travestis”. Lembrei-me de lhes falar disto por causa duma recente viagem a Espanha onde não só dei de caras com um major fardado a rigor, passeando com a família, como também baixei a cabeça a um cura que tinha uma sotaina como há anos não via.
Ignoro se é por modernidade que os padres não querem parecer curas e os oficiais preferem que a gente julgue que são empresários de meia tijela.
Deus me perdoe, mas olhando aquele cura espanhol pensei que deve haver quem ache muito mais erótico ter de desabotoar uma sotaina até aos pés, do que ajudá-los a tirar a camisola de gola alta pela cabeça.
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6.9.18

A divisão administrativa do país e a descentralização

Por C. Barroco Esperança
Não me revejo na descentralização, decorrente da má consciência de quem não cumpriu a regionalização do Continente e a aprofundou nos Açores e Madeira cujos Orçamentos representam cerca de 60% de receitas próprias (a totalidade dos impostos aí gerados) e o restante é oriundo do Continente e da União Europeia.
As Regiões Autónomas estão isentas de contribuir para as despesas com os organismos internacionais, incluindo a UE, de onde recebem parte do Orçamento, a Justiça, Defesa, Forças Armadas, Polícias, representação externa do Estado, Nato e ONU, permitindo o excesso de autarquias, comarcas e órgãos regionais faraónicos. A Beira interior, Trás-os-Montes e Alentejo não gozam de igual tratamento e a Madeira ainda exige mais 145 milhões de euros, para garantir a perpetuidade do PSD-M, bizarro partido regional de matriz salazarista, que monopolizou o poder nestes 44 anos de democracia.
A distribuição de dinheiro e tarefas a autarquias, a que falta população, quadros e massa crítica, é um maná para o caciquismo e a pulverização de recursos na gestão do País.
Com 308 concelhos e 3091 freguesias, com autarcas cujo vencimento está indexado ao do PR, o que torna risível o vencimento deste e perigosa a atualização, com as senhas de presença para funções cívicas, o atual mapa administrativo é incomportável. No entanto, os demagogos ameaçam com a redução do número de deputados, como se fosse a chave da sobriedade de lugares políticos, no desejo de evitar novos partidos e extinguir alguns.
Com o pretexto de aproximar o poder dos cidadãos, aproxima-se a ingovernabilidade e a insustentabilidade financeira para manter a rede de caciques, agências de emprego e sindicatos de voto.
Imagino a desolação de quem sente ameaçados pequenos poderes e médias vaidades, as ajudas de custo, motoristas e senhas de presença. Os partidos, imprescindíveis, não têm condições para confrontos, mas, pelo menos, podem abster-se de fazer mais asneiras.
A pseudorreforma do então Dr. Relvas e do ora Doutor Coelho foi mera cosmética, que não reduziu os concelhos e agregou freguesias sem gente, procedendo António Costa a uma redução drástica em Lisboa.
Seria lamentável que o atual Governo fizesse agora pior do que a direita. Bastou o erro do INFARMED, sem racionalidade económica nem justificação técnica, cujo recuo é sensato, para obrigar à ponderação do estímulo às ambições e ao ego de caciques.
O PM ganhou autoridade como autarca e governante. Não pode fazer cedências nefastas para o ordenamento do território. A redução de pessoal político autárquico é imperiosa, para transferir os recursos financeiros para a fixação de pessoas em zonas desertificadas.

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31.8.18

Pensamentos de Verão

Por Joaquim Letria
Nós, cristãos, celebramos todos o Natal. Mas, na verdade, e em rigor, não se sabe muito bem em que ano e em que dia Jesus da Nazaré terá nascido. À excepção dos evangelhos não há qualquer outro documento que comprove a existência de Cristo.
Flávio, Plínio e Tácito, bem como outros cronistas romanos, não se referem nos seus escritos aos efeitos da vida do nazareno, ainda que se pronunciem quanto aos efeitos da morte dum certo rabino judeu.
Os agnósticos têm sempre insistido em que a esmagadora maioria dos mitos da antiguidade têm, invariavelmente, um nascimento entroncado na fábula da anunciação: o imperador Chin-Nung, da China, o Deus Quetzalcoatl do México, Vishnu da Índia, os faraós, Zoroastro, os conquistadores mais importantes eram primeiramente anunciados por arcanjos e nasciam, depois, de mãe virgem.
A existência de Jesus tem, portanto, pouca solidez histórica e foi recebida com grande hostilidade pela intelectualidade do seu tempo. Juliano, o Apóstata, considerava os cristãos como os novos bárbaros que proibiam a liberdade de religiões no mundo pagão.
Os helenistas e os filósofos diziam, com enorme virulência, que Jesus comparado a Platão e Aristóteles não passava duma criança débil. Os bispos redigiam as encíclicas num péssimo grego burocrático. Apoiando-se nos pensamentos daquele renovador judeu, acossou-se aqueles que não acreditavam no monoteísmo.
Houve perseguições contra os heterodoxos, os livre – pensadores e os sábios. Toda a filosofia é a preparação para a morte, mas os seguidores de Cristo temiam o vazio, receavam o sexo, eram obcecados com os ossos e viviam fascinados pelas relíquias.
Os estóicos interrogavam-se se antes de nascermos não existíamos, por que razão teremos nós de nos convertermos no que éramos no início. Os cristãos temem o nada.
Tudo o que aqui escrevo é verdade. Mas também é verdade que Galileu venceu e que as ideias resultantes da verdade sempre acabaram por triunfar. Nem papas incestuosos nem bispos pecaminosos conseguiram destruí-las.
Hoje, a religião não escraviza ninguém. Bem pelo contrário. Muitas vezes a Igreja transforma-se num espaço de verdade, em arauto de ideias como se verificou na configuração da História da Europa, mesmo quando esta teve de se defrontar com a sua racionalidade e com a ilustração contra as trevas da Igreja que lhe deram consciência sem lhe travar o progresso. Assim, hoje, a Igreja nos traga esperança, pois não há pior escravo do que aquele que é impedido de exprimir os seus pensamentos.
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30.8.18

A Igreja católica no seu labirinto


C. Barroco Esperança

Sabe-se que a Igreja católica, enquanto defendia a moral mais conservadora e os valores mais reacionários, silenciou crimes cometidos no seu próprio seio e ordenou sacerdotes bandos de pedófilos. Pior, encobriu-os e mudava-os de paróquia, para onde os nómadas levavam o vício, a desgraçar crianças e adolescentes.
O que não pode ser esquecido é que a Igreja católica não tem o monopólio desse tipo de perversão e a divulgação exclusiva dos seus crimes não tem apenas em vista a denúncia e punição dos prevaricadores, visa beneficiar os interesses de outras Igrejas e amordaçar o atual Papa, que tem tomado atitudes corajosas no seu pontificado.
Esquece-se mais facilmente a cumplicidade com ditaduras fascistas do que se perdoa o alinhamento com a modernidade. O episcopado ultramontano que não aceita a rutura do Papa com a perpetuação da moral da Idade do Bronze, prefere destruir a Igreja a aceitar que acerte o passo com os valores civilizacionais.
A Europa tem sido varrida, depois da vitória sobre o nazismo, por sucessivas vagas de conservadorismo, cada vez mais reacionárias, no retorno aos anos trinta do século XX. Reagan, Thatcher e João Paulo II protagonizaram a primeira vaga contra as conquistas sociais e a liberalização dos costumes; depois veio Bush, Blair e Aznar; agora é a vez de Trump, May e vários neofascistas que ascendem ao poder na Europa e no mundo. Cada nova vaga é mais violenta do que a anterior.
Este Papa é um alvo a abater. Não é de admirar que tenha sabido de casos de pedofilia e que, à semelhança de João XXIII, não tenha sabido dar a resposta que devia, mas seria ingénuo atribuir ao acaso a denúncia do arcebispo Carlo Maria Viganò.


O ex-embaixador do Vaticano em Washington, de extrema-direita, nomeado arcebispo por João Paulo II, divulgou cirurgicamente, horas antes da habitual conferência de imprensa a bordo do avião papal, uma informação que, a confirmar-se, seria de enorme gravidade. Francisco foi colhido de surpresa na sua viagem traumática à Irlanda, onde a Igreja cometeu tropelias durante séculos e o aguardavam as vítimas, com a acusação de que encobria abusos sexuais e sabia dos do cardeal McCarrick, que descurou, e outras acusações dirigidas ao clero mais próximo e de maior confiança do Papa.
Viganò é um experiente quadro da carreira diplomática e integra o numeroso grupo que acusa o Papa Francisco de cometer 7 (estranha fixação neste número primo!) heresias. O seu ataque cínico e premeditado é uma agressiva declaração de guerra ao atual pontífice, e tem atrás um bem organizado exército de sotainas que não hesitará em afastá-lo, ainda que provoque uma cisão na Igreja católica.
A luta pelo poder é a manifestação de força do obscurantismo contra a modernidade, e a vítima é o Papa Francisco, que procura reconciliar a Igreja com as sociedades laicizadas e democráticas, com a determinação de um jesuíta e a paciência de um franciscano, mas o tempo e os ventos reacionários que sopram na Europa e no mundo ameaçam varrê-lo.
Dos escombros da Igreja católica nada brotará de bom e no Islão a pedofilia não choca.

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26.8.18

Calamidade pública

Por Joaquim Letria
O nosso Portugal de hoje lembra-me um vizinho que tive em Lisboa. Esse senhor, de quem também eu gostava muito, era a figura máxima do meu prédio. Não havia alguém que não gostasse dele. Nunca percebi se gostavam dele por ser muito bem educado e simpático, se por causa da mulher lhe ter fugido com um diplomata grego, deixando-o com três filhos por criar e um par de cornos que não havia cão nem gato que não comentasse.
A este meu vizinho só sucediam desgraças. Depois da mulher o ter abandonado veio a falência. O sócio fez um desfalque digno desse nome na empresa de representações de ambos, onde andara a roubar durante anos, e fugiu para o Brasil com uma professora de liceu.
Os filhos também não ajudaram. O mais velho, que era o orgulho do pai por ser muito bom aluno de economia, começou a derrapar e acabou conhecido pela alcunha de “Didi Maluca”. A menina, carinhosa e simpática, foi estudar para o Porto, arranjou um engenheiro e nunca mais quis saber do curso nem do pai. O mais novo, que queria ser baterista, foi viver com a mãe para a Grécia onde não tinha de trabalhar e o padrasto lhe oferecia muitos presentes.
Foi nesta fase de desencanto, por se sentir abandonado pelos filhos, que o meu vizinho colapsou. O tio, de quem falava muito por ser riquíssimo e ele ser seu único herdeiro, casou-se com uma apresentadora de TV 30 anos mais jovem. O solar brasonado no Norte, do qual mostrava sempre muitas fotografias, ardeu por causas não apuradas e sem seguro . E até o DS 21 de volante branco e estofos de couro caiu na Boca do Inferno enquanto comia marisco no Guincho com um cliente.
Tomou então a decisão drástica de se suicidar. A bala de 6,75 da pistola que guardava no cofre atravessou-lhe a cabeça e estoirou o Columbano pendurado na parede, deixando a obra que se orgulhava de possuir sem possibilidade de restauro. Um neurocirurgião operou-o com sucesso, dando-lhe alta sem mexer o braço e a arrastar a perna esquerda, com a boca ao lado e crivado de dívidas.
Quando puseram o seu andar à venda eu soube que ele fizera uma tentativa desesperada de o considerarem zona de “calamidade pública” mas a pretensão foi negada. Morreu pouco tempo depois, num lar de idosos onde passava o dia a jogar dominó.
Portugal hoje faz-me lembrar esta figura trágica da minha juventude, devastado por si próprio, desunido, corrompido, quebrado, democrata “dominus vobisco”.
Mas não se pode dizer mal! Não parece bem nem é politicamente correcto. A bem da Nação, assim foi decretado a tantos de tal.
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O sexo e o clero

Por C. Barroco Esperança

A repressão sexual, comum aos monoteísmos, foi sempre um instrumento de domínio do clero sobre a sociedade e do homem sobre a mulher.

O judaísmo, com menos de 20 milhões de judeus, muitos deles agnósticos e ateus, é o monoteísmo cuja primeira cisão com êxito originou o cristianismo. É hoje irrelevante no número de crentes, contrariamente ao poder político, militar e financeiro, e não erradica os escândalos sexuais dos muftis, rabinos e judeus de trancinhas à Dama das Camélias.
O islamismo, plágio tosco do judaísmo e cristianismo, é implacável na misoginia e em outras perversões que o misericordioso Profeta, analfabeto e amoral, introduziu com a violência do guerreiro e a demência do prosélito. Mas é a sexualidade que ora importa e, nesse aspeto, a violência contra a mulher e a pedofilia são direitos masculinos exercidos em casamentos sem consentimento da mulher, na lapidação por adultério e casamentos com crianças de 9 anos. Mais do que religião, o islamismo é um fascismo inconciliável com a liberdade, os direitos humanos e a civilização.
No cristianismo, onde a Reforma foi uma lufada de ar fresco, coube à Igreja romana ser a guardiã dos valores mais retrógrados, que a Contrarreforma defendeu com a violência da alegada ortodoxia. O direito romano foi-lhe introduzindo a componente civilista e as democracias impuseram-lhe a laicidade. Hoje, com o fundamentalismo a contaminar as Igrejas evangélicas, o catolicismo romano tornou-se a versão mais tolerante e civilizada dos monoteísmos, mas não conseguiu libertar-se da imposição do celibato ao clero nem da discriminação da mulher.

Penso que reside nestas duas aberrações, aliadas à obsessão da castidade, a que se junta o livre escrutínio que só as democracias permitem, a sucessão de escândalos sexuais que a comunicação social e a justiça terrena têm investigado, divulgado e punido.

Nestes últimos dias o Vaticano sofreu a vergonha do maior escândalo sexual de sempre, com a divulgação do abuso de mais de mil crianças, por mais de 300 padres da diocese da Pensilvânia, EUA, durante sete décadas, com a conivência de bispos e, desde 1963, o conhecimento e tolerância do Vaticano. É uma desgraça para a Igreja e a ruína da fé.
A quebra ética de uma Igreja cuja dissimulação permitiu ocultar durante séculos os seus crimes, não deixará de ser usada pela concorrência, hoje muito mais reacionária e perigosa. É irónico que os escândalos de que foram cúmplices numerosos papas, muitos já canonizados, desabem sobre o primeiro que lhes quis pôr termo e a quem escasseiam apoios para abrir as portas do sacerdócio às mulheres e as do casamento ao clero.
Curiosamente, enquanto a ICAR* lambe feridas e suporta a vergonha e as decisões dos tribunais, Xuecheng, o abade do famoso templo de Longquan, demitiu-se da presidência da Associação Budista** da China, por assédio e violação das monjas. As hormonas apearam o principal líder espiritual chinês, que atingiu o mais alto cargo em 2015, antes dos 50 anos, com assento na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, órgão de assessoria do Governo, de que igualmente se demitiu no dia 15 deste mês. Sic transit gloriae mundi 😊
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* ICAR – Igreja Católica Apostólica Romana; ** O budismo não é um teísmo, mas é considerado religião.

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22.8.18

A MATEMÁTICA É UMA ESCADA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Na revisão que estou a fazer do livro "Évora, anos 30 e 40", deparei com esta frase do meu professor de Matemática que me apeteceu reproduzir no seu contexto.
"Bom aluno em Ciências Naturais, cheguei ao final do 7.º ano (o actual 11.º). Aí, como nos tempos que correm, a razia no exame de Matemática foi quase total e nessa quase totalidade estava eu.
E a causa destas razias foi e é, sem dúvida, nas mais das vezes, a falta de qualidade do professor.
Na repetição desta disciplina apanhei o Dr. João Seruca, com quem o insucesso escolar nada queria, ao contrário do que tinha sido o seu antecessor. Com o novo professor passei a gostar de Matemática e fui, pela primeira vez, bom aluno nesta disciplina. Com ele comecei a consertar e a repor todos os degraus, dos mais baixos aos mais altos, que me faltavam para poder subir, sem tropeçar, a este maravilhoso edifício do saber racional.
– A Matemática, - disse-me um dia – é uma escada, sobes um degrau de cada vez. E se, em cada degrau, assentares bem os pés, podes subir até onde quiseres".

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17.8.18

O Comunismo do Post-Mortem

Por Joaquim Letria
O Cristianismo transformou o altruísmo através da virtude da caridade e fez dele o eixo do justo comportamento humano. Outras religiões e éticas também se equivaleram no reconhecimento dessa valia, mas sem dúvida que o pensamento cristão introduziu um conceito revolucionário, o qual é a igualdade universal diante da salvação.
É uma espécie de comunismo do post-mortemque contagiou o antigo mundo num momento em que as grandes massas, reduzidas ao sofrimento sem esperança duma sociedade cruel, aceitavam qualquer luz que lhes iluminasse a vida, mesmo que fosse para além da morte.
Assim, o vale de lágrimas desta vida não era mais do que o hallde entrada para a vida eterna a que chegaríamos mediante a Redenção depois de purgarmos pelo sofrimento o pecado original. Todo o foco da vida humana se desviou então para o seu final. Mas a lógica doutrinária da Igreja criou-lhe dificuldades na conciliação entre as exigências da prática religiosa com as necessidades da vida terrena.
Assim, o Cristianismo deixava de ser os estatutos duma empresa criada para durar e prosperar, fazendo o bem a todos aqueles que dela se aproximassem, para se converter na ordem de execução duma falência.
Quase todas as religiões fazem as suas exigências ao seu “staff”, aos seus clérigos. Mas o radicalismo cristão postulou a virtude terminal. O Juízo Final parecia então estar próximo. “Se queres seguir-Me , dá tudo o que tens aos pobres e acompanha-Me”. Se a Humanidade tivesse praticado a virtude deste despojamento, a sua presença na Terra teria sido abreviada. Ninguém perderia tempo a liquidar a factura do lado de cá.
O anunciado fim do mundo, sempre adiado, não chegou até agora. O maior receio dos tempos de hoje parece ser o dos perigosos e destrutivos vírus do software dos nossos smartphones, tablets e computadores. Que Deus, todo poderoso, os salve e tenha misericórdia de nós.     
Publicado no Minho Digital

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16.8.18

O regresso manso do fascismo

Por C. B. Esperança

Na caminhada para a presidência, a complacência de Donald Trump perante a violência nazi e a Ku Klux Klan (KKK) foi uma obscena vénia aos incómodos apoiantes, mas não foi o apoio dos extremistas violentos, que apoiaram o PR, que intimidou as democracias, foi a sua atitude que, na tibieza, silêncio ou cumplicidade, os estimulou.

Trump parece ser a referência de uma incubadora de lacraus: Putin, na Rússia, Xin, na China, Erdogan, na Turquia, Duterte nas Filipinas, Orbán, na Hungria, Al Sisi, no Egito e muitos outros que despontam, por todo o Planeta, alguns com rótulo de esquerda.
Curiosa e preocupante é a colisão entre dois autocratas agressivos, Putin e Erdogan, na ilustração da lei da Física, “polos do mesmo nome repelem-se”.
Em Espanha, a um conservador pragmático, Mariano Rajoy, sucedeu o mais reacionário dos candidatos, um franquista que exibe as habilitações académicas que recebeu de presente, com outras individualidades do PP, da Universidade Juan Carlos.
Salvini, na Itália, não é um caso isolado, é o paradigma dos fascistas do 3.º milénio que ascendem ao poder, com leves mudanças da linguagem e atitudes menos exuberantes.
De 1921 até à guerra de 1939/45 o nazi/fascismo não deixou de se robustecer, e foram vários os países onde a exaltação só esmoreceu com a destruição da guerra e a vitória dos Aliados. Antes, assistiu-se ao colapso das democracias parlamentares, aos abusos do poder, ao reforço da ordem e à orgia racista, enquanto os direitos e as liberdades fundamentais se esfumavam perante uma ideologia que fez soçobrar a civilização.
Hoje, assiste-se à derrocada dos valores civilizacionais com avatares desses fascistas de antanho, que tomaram sucessivamente o poder na Alemanha, Eslovénia, Croácia, Itália e outros países europeus com regras democráticas, enquanto a Espanha e Portugal, mais impacientes, se anteciparam pela via militar, dispensando as eleições. E mantiveram-se!
Hoje, também por meios democráticos, o fascismo pretende igualmente voltar ao poder, e está a voltar, com os mesmos tiques autoritários, apelos nacionalistas e igual desprezo pelos regimes que lhe permitem o acesso ao poder através do sufrágio. No maior país de língua portuguesa, um exuberante fascista tropical, Jair Bolsonaro, misógino, xenófobo, mitómano e homofóbico, pode tornar-se o próximo presidente brasileiro.
A Europa, em duas ou três gerações, esqueceu o passado e parece entusiasmada com os demagogos populistas de inspiração fascista que exploram o medo e o ressentimento de quem se alheou da participação cívica e foi criando horror à política.
Há uma amnésia coletiva que leva os cidadãos a julgar que as democracias são eternas e que se defendem sem democratas e sem luta política na sua defesa.

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11.8.18

É PRECISO ELEVAR A CULTURA GEOLÓGICA DOS PORTUGUESES

Por A. M. Galopim de Carvalho
Estamos a um mês do começo do novo ano lectivo e, antes de começar a editar textos visando matérias de ensino, como tem sido  minha preocupação de há anos, trago aqui, de novo, esta reflexão.
É preciso elevar a cultura geológica dos portugueses e isso começa na escola. De há muito que venho alertando, em textos escritos e em conversas públicas, para a ineficácia do ensino da Geologia em Portugal. Até parece que quem decide (leia-se o Ministério da Educação) sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, desconhece a real importância deste domínio da ciência na sociedade moderna. Assim, não se compreende a relativamente pouca importância desta disciplina nos nossos curricula de ensino. (...)
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Texto integral [AQUI

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Apontamentos de Lagos - No reino do absurdo

No "Correio de Lagos" deste mês, onde tenho a página 2

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10.8.18

A Cultura da Satisfação

Por Joaquim Letria
O Mundo vive hoje – e em boa verdade desde sempre – um período caracterizado pelo lucro rápido, a especulação e a desigual repartição da riqueza e do bem estar.

Na minha modesta opinião, o problema transcende fórmulas de economia e reside talvez naquilo a que se pode chamar de autocomplacência. Este conceito serviu para urdir uma trama perfeita em que assenta um novo tipo de dominação classista, assente no medo e na incerteza, inimiga do estado do bem-estar, ferozmente egoísta e destruidora de tudo quanto se possa assemelhar a solidariedade.
Este estado de complacência corresponde à ascensão ao poder de uma minoria de privilegiados que não tem outro interesse para além do curto prazo no que respeita aos seus projectos políticos e financeiros e se faz servir por hordas de sicários brutais, medíocres e desprezíveis.
Os resultados são temíveis.
Em nome da liberdade de mercado, o capitalismo está a destruir o próprio mercado e a mutilar-se a si próprio.
A tendência autodestrutiva do capitalismo moderno começa na grande empresa e acaba na perversão das finanças, nos destroços ecológicos, na exploração dos despojados, no abandono do investimento público, no crescimento do défice, na especulação e destruição da riqueza industrial, no desmoronamento do Estado-Previdência e, finalmente no desemprego endémico e no emprego frágil destinado à sub-classe dos desfavorecidos, dos imigrantes, dos desempregados, dos jovens e dos antigos operários.
A paisagem real é terrível: violência, drogas, guetos de miséria urbana e tráfico de seres humanos de um lado e, do outro, uma pequena minoria de privilegiados capaz de aforrar mais de metade do rendimento mundial.
A cultura da satisfação, ou da autocomplacência como lhe chamaram, converteu-se em sistema, com a sua antropologia, a sua moral própria, a sua filosofia apressada, os seus aparelhos políticos e as suas influências externas.
Publicado no Minho Digital

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9.8.18

A pena de morte e a Igreja católica

Por C. Barroco Esperança

A pena de morte é um anacronismo que persiste em sociedades ditas civilizadas, nódoa que a direita europeia de vocação fascizante se prepara para reintroduzir, à semelhança do que sucedeu em 1976 nos EUA, onde é aplicada em 34 dos 50 estados.
A aplicação, sem efeitos dissuasores, tem sido responsável pela execução de inocentes, por erros judiciais. Deveria bastar a irreversibilidade para fazer tremer a mão aos juízes humanistas, mas não faltam carrascos à crueldade, quando legalizada.
A Igreja católica, pressionada pela civilização europeia, condenou a pena de morte, mas com restrições, na última edição do seu catecismo.
O Papa Francisco limpou finalmente a nódoa do catecismo romano quando o facínora das Filipinas, PR católico, defende execuções sumárias para traficantes e drogados, e, como outros déspotas católicos europeus, se prepara para reintroduzir a pena de morte.
A decisão deste papa, rompe com dois milénios de tradição, credita-o como humanista e honra-o perante o mundo civilizado. Esperemos que, com este exemplo, as religiões não continuem ao serviço da tradição e dos interditos e se tornem aliadas da modernidade.
Foi de forma simples que revolucionou o Evangelho, um repositório da moral da Idade do Bronze: “A pena de morte é inadmissível porque é um ataque à inviolabilidade e dignidade da pessoa e ela [Igreja católica] trabalha com determinação para que seja abolida no mundo todo”.
Não posso deixar de me solidarizar com o papa católico que acaba de dignificar a Igreja e assumir o compromisso de se associar ao movimento abolicionista. Assim procedam os dignitários de outras religiões e das várias teocracias.
Recordando e alterando Neil Armstrong, ao pisar na lua: "Esse é um pequeno passo para a civilização, mas um enorme salto para o Vaticano".
Ponte Europa / Sorumbático

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5.8.18

Pergunta de Algibeira

3.8.18

As Malhas que o Império Tece

Por Joaquim Letria
Os ingleses foram quem melhor soube fotografar e filmar aquilo a que chamamos império. Nós até nisso fomos e somos envergonhados. Pelo contrário, os ingleses dão-nos o seu império com a intenção do calor, dos cheiros, cheios de elefantes, capacetes coloniais, ventoinhas, linho irlandês, espingardas de culatra, mosquiteiros e nativos ora africanos ora orientais. Nós não passámos do “Chaimite” e quando quisemos recriar alguma coisa depois disso não fomos capazes de sair do Jardim Botânico ou da Estufa Fria.
Os franceses reconstituem o seu império em película à imagem de Catherine Deneuve, Alain Delon ou Jean Paul Belmondo. Desperdiçaram Jean Marais, Lino Ventura ou Jean Gabin. Friamente, com olhos sempre europeus, com o raciocínio francês, com a haute couture du faubourg , o caqui vincadinho, a preanunciar os trajes elegantes dos enviados especiais da TV ou do Paris Match. No entanto, seja nas areias do Beau Geste ou na selva de Dien Bien Phu há sangue e a crueldade que não enjeitam.
Os americanos tentam ainda libertar-se do clima e da humilhação do Vietnam à custa das barbaridades no Iraque e Afeganistão, depois de trocarem as matanças dos comanches pela selvajaria dos 'contra' na Nicarágua.
Os russos ainda estão a pensar que desmantelaram um dos grandes impérios do nosso tempo. Os alemães e flamengos não ultrapassaram os piratas das Caraíbas, por isso fazem de figurantes menores nos filmes onde são comerciantes, fregueses de bares, pianistas ou pisteiros para amantes dos safaris.
Honra lhes seja, os nossos irmãos espanhóis têm orgulho no seu passado e chamam “Conquista” à grande expansão, não se desculpando das crueldades que infligiram por esse mundo fora e com que conquistaram a sua grandeza.
Os holandeses, por seu turno, assobiam para o lado, não vá nenhum filme lembrar a sua parte activa na construção do “appartheid” e a origem das suas crias “afrikander”.
Os turcos já não se lembram que foram otomanos, os austríacos para esquecerem o 'anschluss' estão a redescobrir os húngaros, os suecos morrem de tédio com os dinamarqueses e noruegueses e os italianos nem querem ouvir falar na Abissínia. Hoje, afinal de contas, cada um teve o império que o cinema quis que merecesse.
Envergonhados, nós não tivemos nada, não queremos falar de descobrimentos, mas sim de achamento, porque éramos muito bonzinhos, fomos fazer vela e as correntes levaram-nos até outros povos com quem confraternizámos. E voltámos a bater os pezinhos de contentes, carregados com as riquezas que eles nos ofereceram só para cá acreditarem que tínhamos lá estado e o Reino começasse a organizar a CPLP.
Acabamos por ficar com um império estranho, com o Governador na Casa do Alentejo, as roças no Jardim do Tabaco, as minas no Jardim Colonial, a capital em Alcácer do Sal e os nativos no Jardim Zoológico. Se calhar até nem tivemos império nenhum…
Publicado no Mundo Digital

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2.8.18

O criacionismo é uma crença perigosa

Por C. Barroco Esperança
Há quem confunda convicções e crenças e ignore que quem possui convicções fortes se mantém aberto ao contraditório, e quem perfilha crenças enjeita o que as possa abalar.
As crenças não exigem reflexão, basta-lhes a tradição e o ritual. As convicções obrigam à ponderação e à firme vigilância da realidade, que muda com os avanços da ciência.
Não há convicções que resistam aos factos ou que não sejam abaladas pela ciência, e as crenças resistem às evidências e recusam mudanças. A crença é a certeza sem provas, a obstinação que, perante a realidade que a contraria, lamenta que a realidade se engane.
O criacionismo é uma dessas crenças perfilhadas por quem pensa que a Idade do Bronze produziu verdades imutáveis transmitidas por um deus criado pelas comunidades tribais, dessa época, à imagem e semelhança dos seus patriarcas.
As pessoas de convicções firmes propõem as opiniões pela persuasão, as que perfilham crenças impõem-nas pela força. As primeiras são didáticas, as segundas são fanáticas. Umas sugerem, e veem adversários em quem diverge; outras recitam, e veem inimigos em quem discorda; num caso, há divergências; no outro, heresias.
As crenças conduzem ao proselitismo e são veículos de verdades únicas e imutáveis. As convicções são sugestões a debater, e suscetíveis de reavaliação.
As convicções baseiam-se na ciência e exigem método e objeto; as crenças prescindem do contraditório e não o toleram, dispensam o método, e o objetivo é a perpetuação.
Hoje vivemos num mundo que se deve à ciência, e que arrisca a sobrevivência por causa das crenças.
Pensar é mais difícil do que acreditar.
Ponte Europa / Sorumbático

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1.8.18

Apontamentos de Lagos

Rua José Afonso, 29 Jul 18

Rua Salgueiro Maia, 30 Jul 18

Praceta Ana Castro Osório, 30 Jul 18

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28.7.18

Publicidade Antiga

27.7.18

O Mundo do Escaravelho

Por Joaquim Letria
Cesare Pavese escreveu: "O consolo de uma visão consiste em acreditar nela, não que ela se trate de algo real”. E acrescentava: “As coisas que se viam pela primeira vez eram bastantes para satisfazer, mas agora requerem outro significado”.
A imagem mais forte que guardo da Televisão é a dos primeiros negros a entrarem numa universidade americana protegidos pela Guarda Nacional. Não sei porquê, mas esta visão foi mais forte e ficou mais nítida do que a outra, às cinco da manhã, do Homem a pular, pela primeira vez, na Lua, a espetar uma bandeira no meio de muitas crateras.
Um velho com fome num barraco dum subúrbio tem carências, cem mil refugiados amontoados num campo miserável e a viverem em tendas, sem carne e pouco pão são estatística.
Os males colectivos perderam importância. Milhões com fome, epidemias, bombardeamentos de cidades, guerras sangrentas perderam significado. Hoje, o que importa é a ferida da facada, o atropelamento, o disparo de balas, um corpo despedaçado, tudo o suficiente para se anunciar que “as imagens que se seguem podem chocar os espectadores mais sensíveis”.
Dantes havia reféns. Os reféns eram excitantes, fossem fregueses dum supermercado, passageiros dum avião desviado, clientes dum banco assaltado. Os reféns passaram de moda. Dantes saíam a correr dos bancos, falavam com os olhos na câmara e um revólver na cabeça.
O que mais conta hoje são as desgraças individuais. Ouçam-nos, nos seus quinze minutos de fama e glória: ”A minha vida dava um filme” ou “Se eu lhe contasse tudo, vocês escrevia um livro”. Nada de males colectivos. Treze crianças felizmente salvas duma gruta da Tailândia dominam o mundo que esquece 800 à deriva no Mediterrâneo.
Desempregados são percentagens. Crianças africanas a chuparem tetas vazias não interessam nem ao menino Jesus. Um menino morto vale mais do que um orfanato despedaçado.  
Uma lágrima furtiva vale mais do que um rio poluído. Já alguém viu o buraco do ozono? Quem paga a Amnistia Internacional? E  o  Greenpeace?
A TV mente mas a História também. A diferença reside na velocidade de sedimentação.
Para um escaravelho, uma bola de excrementos é o seu mundo. Quando se movimenta arrasta-a consigo levando todo o seu mundo. Para o escaravelho não existem África, guerras, meninos, árvores de Natal, tanques de guerra nem órgãos de Estaline.
Publicado no Minho Digital

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