26.5.16

CIÊNCIA E COMUNICAÇÃO

Por A. M. Galopim de Carvalho

Ao cumprirem as funções essenciais à sobrevivência, em particular, a procura de recursos alimentares e de defesa, os nossos mais longínquos antepassados interagiram de muito perto com o meio físico e, ainda que de forma muito embrionária, podemos aceitar que se iniciaram nos conhecimentos que, milénios mais tarde, integraram as diversas disciplinas científicas. Entre os objectos e os mecanismos que lhes foi dado observar no mundo físico que foi o seu, experimentaram o que puderam experimentar, estabeleceram relações de causa-efeito, deduziram o que souberam deduzir, inferiram o que conseguiram inferir e transmitiram aos descendentes o saber que foram acumulando, servindo-se para tal das linguagens de que dispunham, nomeadamente o gesto e, mais tarde e progressivamente, a palavra falada e só muito depois a escrita.
À semelhança da transmissão destes saberes rudimentares também a ciência é inseparável da comunicação. Entendida como um conjunto de conhecimentos acerca de parcelas maiores ou menores do todo universal, obtidos através da observação, da experimentação e/ou da elaboração mental, a ciência é um edifício do colectivo, cujos alicerces se perdem nos confins do tempo da humanidade. Edificada pedra sobre pedra, o seu fio condutor sempre foi e será a comunicação. Sem comunicação, o conhecimento científico não avança. Morre com quem o cria. Comunicar ou comungar, do latim, communicare, significa partilhar com outrem. Comunica-se através da linguagem escrita, falada ou gestual. Comunicam entre si, e até connosco, muitos dos animais que conhecemos. A comunicação entre os humanos utiliza sobretudo a palavra falada e escrita. Quando falada, apoia-se quase sempre no gesto e na expressão fisionómica e corporal. Comunicam entre pares, ao mais alto patamar de erudição, os sábios nas academias e os investigadores nos congressos e outras reuniões científicas. Comunicam entre si professores e alunos. Comunicam, através dos livros ou dos media, e aos mais diversos níveis, os poucos divulgadores que se dispõem a fazê-lo.
Quase tudo o que nos rodeia e de que constantemente nos servimos, ou com o qual nos articulamos diariamente, resultou das conquistas da ciência e da tecnologia. Os alimentos, os medicamentos, os transportes e comunicações, os equipamentos mais variados da indústria, da saúde, da cultura ou do lazer, radicam, em grande parte, nestas conquistas do génio humano. O conhecimento científico e as tecnologias com ele relacionados são alguns dos pilares sobre os quais assentam as sociedades humanas, o progresso social e o bem-estar da humanidade.
O paralelismo entre a produção científica e o avanço das técnicas de comunicação é, sobretudo nos dias que correm, uma evidência espectacular. Do texto manuscrito enviado por mar e à vela, ou por terra, na bolsa de um estafeta a cavalo, ao Morse e ao correio expresso, ou dos já antiquados telexes e faxes, ao actualíssimo e-mail e à inesgotável internet, a generalização e o aperfeiçoamento constante e progressivo dos meios de comunicação de pessoas e ideias fez crescer exponencialmente o hoje imenso e inabarcável edifício da ciência. Esperemos que o instantâneo da comunicação, que caracteriza os nossos dias, possa acautelar muitos dos riscos que os avanços da ciência e da tecnologia também acarretam. Lembremo-nos da pólvora, da dinamite, da energia nuclear, da química e da biologia ao dispor de arsenais bélicos, e não esqueçamos a clonagem, os transgénicos, a nanotecnologia e tudo o mais que já está aí e, ainda, o que se adivinha, com inevitáveis reflexos, bons ou maus, na vida dos cidadãos.



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22.5.16

Luz - Fachada do Arquivo Fotográfico Municipal, com passeantes e fotógrafo, Lisboa


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Na Rua da Palma, ali à Almirante Reis, diante da fachada da sede do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, uma senhora africana passa com seu filho pela mão, assim como senhor a caminhar de canadiana e em sofrimento evidente. No reflexo, imagem de fotógrafo aparentemente descuidado… (2015)

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21.5.16

Sem emenda - Paralaxe

Por António Barreto
As memórias e as biografias dos dirigentes políticos são interessantes. Já não têm influência, mas oferecem a oportunidade de rever a história. E ajudam-nos a compreender episódios que, sem a dimensão pessoal, poderiam ficar misteriosos. O problema é que as versões contraditórias sobre os mesmos assuntos são inevitáveis.

O que, esta semana, sobre a Cimeira dos Açores, nos disseram Jorge Sampaio e Durão Barroso, não foge à regra do erro de paralaxe. Este decorre, segundo os dicionários, de um desvio óptico. Muda o observador, mas parece que é o objecto que mudou. Isto é: tudo depende do ponto de vista. Se, com observadores, o erro é possível, com protagonistas é provável. Os ângulos de visão de Sampaio e Barroso provocam visões diferentes do objecto. Este último, no caso vertente, não é pequeno: é a guerra e a paz.

Foi em 2003 que se realizou a cimeira que precedeu a guerra do Iraque. Bush, Blair, Aznar e Durão Barroso conversaram durante umas horas. O Português era o anfitrião. A participação de Portugal nas operações que se seguiram não estava em causa. Mas a hospitalidade tinha valor político. A meio do Atlântico, acolhida por um membro da NATO cujos membros estavam divididos, o local da reunião tinha mais significado do que o expediente geográfico.

É um momento forte da diplomacia e da posição de Portugal no mundo. De avaliação das alianças internacionais. E de decisão importante para a paz e a guerra. O então Chefe de Estado, Jorge Sampaio, e o então Primeiro-ministro, Durão Barroso, não têm hoje a mesma visão do que se passou. Tinham ideias diferentes sobre os méritos da questão, o que não é inédito nem grave. Que tenham hoje recordações diferentes é mais aborrecido. Mas útil. Porque podemos aprender com a história. Ou antes, com as histórias.

Dias antes do início da guerra, já os jornais portugueses falavam dessa iminência, garantiam que a reunião dos Açores era a última tentativa pacífica e relatavam declarações do presidente americano segundo as quais os americanos estariam dispostos, com ou sem autorização das Nações Unidas, a atacar o Iraque. Os mesmos jornais sublinhavam que Durão Barroso concordava com o ataque militar.

Temos duas versões do mesmo acontecimento. Em quem confiar? Não tenho nenhum motivo para acreditar piamente no que me dizem Sampaio ou Barroso, sobretudo se estão um contra o outro. Creio que nunca saberemos a verdade. A não ser por fé, o que não parece ser bom critério. Mas é possível, mesmo sem testemunhas autênticas, reflectir sobre o caso.

Se Sampaio tem razão, não é admissível que, sobre assunto tão importante, o Primeiro-ministro o tenha informado tardiamente. Ou lhe tenha ocultado o que estava em causa e omitido conversas com os aliados. Se Sampaio tem boa memória, o que se passou é inadmissível. Ou antes: é sintoma do sistema de semipresidencialismo em que vivemos. Sampaio não devia, em tema tão grave, dizer apenas “nada a opor”. Sampaio não pode dizer que ficou estupefacto e deixou correr. Sampaio não podia desconfiar da urgência e nada ter feito para impedir a precipitação. Sampaio não pode dizer que tinha reservas e desculpar-se com a falta de competências do Chefe de Estado.

Se a memória de Barroso é mais fidedigna do que a de Sampaio, não é admissível que em assunto tão grave o Presidente da República tenha apenas dito “nada a opor”. Nem que se tenha mantido passivo. Se Barroso está a dizer a verdade, o que se passou é inadmissível. Dois dias de prazo são insuficientes. Dispensar o acordo do Chefe de Estado ou satisfazer-se com o “nada a opor” é erro. Aceitar o “nada a opor” é não perceber que o presidente “lavava as suas mãos”.

Portaram-se ambos mal! Por decisão ou ocultação. Mais uma pérola para as aventuras do semi-presidencialismo!


DN, 15 de Maio de 2016

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20.5.16

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

A caminho de Petra, na Jordânia – A aproximação de Petra (cidade, templos, teatro, lojas comerciais, avenidas, etc.) faz-se por um longo caminho estreito, entre desfiladeiros cavados pela erosão do ar e da água e pelos homens em sua defesa. São passagens muito apertadas e encravadas na rocha. Tem de se fazer o caminho a pé ou a cavalo. A cidade nasceu pelo menos mil anos antes de Cristo. Os Nabateus, seus principais habitantes, ocuparam os locais cerca de 300 AC. Durante séculos, controlaram as rotas comerciais na região. Depois de mil e quinhentos anos de vida próspera, um terramoto, no século VI, arrasou quase tudo. Só recentemente, no século XIX, a localidade foi “redescoberta” aproveitada por arqueólogos e turistas. A cidade fica na encruzilhada de populações, entre o porto de Aqaba e o Mar Morto, entre o deserto do Wadi Rum e Jerusalém. Sítios extraordinários que figuram em dezenas de filmes que nunca esqueceremos, do “Lawrence da Arábia” à “Última Cruzada do Indiana Jones”. E até o Tintim andou por aqui.


DN, 15 de Maio de 2016

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19.5.16

Laicidade, crenças e liberdades

Por C. Barroco Esperança
Quando a jihad islâmica começou a ameaçar a Europa, depois de o Islão ter sido banido no século VII, várias vozes advogaram o diálogo entre civilizações, confundindo estas com as religiões, como se os valores civilizacionais pudessem incluir todos os preceitos e preconceitos das diversas crenças.

De algum modo, tentou fazer-se a síntese de preconceitos para criar um novo paradigma comum, esquecendo que a civilização europeia se tornou secular e laica e que, mesmo a contragosto do clero, já foi assimilada pelos cristãos.

O ecumenismo, a utópica busca unitária entre cristãos, passou a designar, na apressada aceitação da semiótica cultural, uma quimera, o fraterno e definitivo diálogo entre todas as religiões, de modo a banir a concorrência entre si e, quiçá, eliminar os não crentes.

Rejubilaram os clérigos no seu proselitismo, pensando na conjugação de esforços para a eliminação do ateísmo, agnosticismo, racionalismo e ceticismo, isto é, uma vitória sobre o livre-pensamento.

Esqueceram-se os almocreves da fé que a civilização originou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, nomeadamente a igualdade de género e respeito pela orientação sexual como direitos inalienáveis, sendo incompatíveis com os códigos morais da Idade do Bronze que os monoteísmos perpetuam sem condescendências.

O caminho da paz não está na renúncia à laicidade e ao secularismo perante as religiões, mas na submissão destas à civilização, que permitiu o direito à crença, descrença e anti crença, sendo o Estado o garante da neutralidade e defensor das liberdades individuais.

Ninguém ignora que o desemprego, a pobreza e a segregação exacerbam a frustração e a violência, que a crise económica, social e política que atingiu a Europa cria as condições para a explosão da fé e das bombas, mas é no respeito pela diversidade étnica e não pela sujeição às religiões que passa a vitória da civilização contra o retrocesso civilizacional.

A liberdade dos homens é demasiado preciosa para ser deixada ao arbítrio de Deus cuja interpretação da vontade é reclamada pelo clero, que se reclama detentor do alvará.

Apostila – A eleição de Sadiq Kan, para presidente da maior Câmara do Reino Unido, é a vitória de um islamita progressista e democrata contra o islão ignorante, reacionário e intolerante, a vitória do crente ilustrado que expurgou da fé a violência e o obscurantismo.

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17.5.16

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Jacarandás diante do Parlamento, Lisboa – Os Jacarandás deste ano estão quase aí! Efémeros, mas fiéis. Breves, mas inesquecíveis. Um amigo, que cultiva a mesma busca anual, viu a primeira promessa deste ano perto do Museu das Janelas Verdes. Ainda estão tímidos, parecem ter receio de se mostrar. A chuva dos últimos dias não é muito estimulante para quem quer nascer. Mas já sabemos que, dentro de poucos dias, talvez uma ou duas semanas, esta cor começará a cobrir muitas ruas de Lisboa. Mas também jardins, praças e parques, de Santos ao Parque das Nações, do Eduardo VII ao Império e de Belém ao Jardim da Burra. A imagem que hoje publico tem alguns anos, mas é seguramente anunciadora do que veremos em breve.
DN, 8 de Maio de 2016

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16.5.16

Sem emenda - Um mundo maravilhoso

Por António Barreto
Não nos podemos queixar. Vivemos tempos fascinantes num mundo maravilhoso. Nem sempre pelas boas razões, umas vezes sim, outras não. Verdade é que, com tanto mal que nos ocupa o espírito, preenche as páginas dos jornais e toma conta dos tempos de antena, nem nos damos conta da beleza do mundo. Ou das suas surpresas. Nem dos pretextos que nos oferece para sorrir.

Em Havana, Cuba, depois do Papa Francisco, do Presidente Obama e dos Rolling Stones, chegou a vez da Chanel. Com alguns dos mais bonitos modelos do mundo, Karl Lagarfeld presidiu, no Paseo del Prado, a um monumental desfile de moda, como já não se via há mais de cinquenta anos. A passagem de modelos teve lugar ao ar livre, só por convite.

Este fim-de-semana, reúne-se em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, o sétimo congresso do Partido Comunista. Já não havia congressos há 36 anos, recorde de todas as ditaduras de esquerda e de direita! A cidade vive em estado de mobilização há mais de dois meses. Desde as 5 da manhã, os altifalantes públicos começam a despejar, pelas ruas da cidade, apelos ao trabalho e músicas patriotas. Durante os trabalhos do congresso, estão proibidos os casamentos e os funerais.

Donald Trump, candidato da sociedade civil, sem máquina partidária, está praticamente designado como candidato republicano às presidenciais. Depois de vencer no Estado de Indiana, os seus rivais desistiram e já quase não há obstáculos a que este racista, xenófobo, machista, homofóbico e autocrata seja definitiva e oficialmente o candidato republicano. Terá provavelmente Hillary Clinton como adversária democrata.

Em Londres, uma das mais importantes cidades cristãs do mundo, realizaram-se eleições para o cargo de Mayor. Concorriam o muçulmano trabalhista de origem paquistanesa Sadiq Khan e o judeu conservador de origem alemã Zac Goldsmith. Venceu o trabalhista, que assim sucede a Boris Johnson, conservador, candidato a líder do partido e uma das principais figuras do Brexit, movimento que pretende que o Reino Unido saia da União Europeia.

Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados brasileira, um dos carrascos da presidente Dilma, arguido e investigado em casos de corrupção ligados à Lava Jato, foi suspenso das suas funções pelo Supremo Tribunal Federal. Parece que um dos motivos era a forte probabilidade de ele vir a ser presidente substituto, no caso de Dilma ser afastada. Tal hipótese foi agora posta de parte.


 Estão praticamente suspensas, em todo o caso interrompidas, as negociações entre a União Europeia (desconcertada, a negociar em fraqueza) e os Estados Unidos (agressivos, a negociar em força), relativamente à Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP).

Contra a opinião dos sindicatos e dos pequenos partidos de esquerda, o Primeiro-ministro francês, o socialista Manuel Vals, insiste em fazer aprovar, no Parlamento, uma lei que flexibiliza os regimes laborais e reforça os poderes dos acordos de empresa que poderão sobrepor-se aos regimes gerais e aos contratos colectivos.

Vítor Constâncio, Vice-Presidente do BCE, Banco Central Europeu, continua a recusar prestar esclarecimentos ao Parlamento português, insistindo em que o faria apenas ao Parlamento europeu.

Nos quatro meses de actividade, depois da tomada de posse, o Governo português já nomeou, sem concurso, 275 dirigentes e altos funcionários do Estado.

O Presidente Marcelo quer repensar e rever o Acordo Ortográfico. O Governo não quer uma coisa nem outra.

O Primeiro-ministro António Costa inaugurou este fim-de-semana o túnel do Marão, um dos maiores da Península Ibérica, assim como mais um troço (Amarante a Vila Real) da auto-estrada do Porto a Bragança. António Costa convidou José Sócrates a assistir à inauguração.
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DN, 8 de Maio de 2016

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