30.3.20

No "Correio de Lagos" de Mar 20

O nosso Ministro do Ambiente informou-nos que Portugal assinou o “Pacto Europeu para os Plásticos”, no mesmo dia em que o Parlamento, com os votos do seu partido (juntamente com os do CDS e do IL), chumbou as 4 iniciativas legislativas do PCP, PEV, BE e PAN acerca do tema das embalagens excessivas e/ou desnecessárias. 
Pelo que se percebe, estaria em causa a indústria nacional do sector. 
Ficámos esclarecidos.

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29.3.20

Grande Angular - O que sobra e o que resta…

Por António Barreto
Salvar milhões de pessoas. Tratar dos doentes. Lutar contra o contágio. Conter a propagação. Liquidar o vírus. Impedir o seu regresso. Preparar meios para curar os infectados. Descobrir uma vacina. Fazer tudo isto nas melhores condições de equidade. Tratar todas as pessoas igualmente, sem favorecer classes sociais, raça, etnia, religião, origem, idade, sexo, crença ou partido. Esta é uma prioridade.
A outra prioridade é tratar do que vem a seguir. Da sociedade que se mantém de pé. Mas também daquela que fica de rastos. Ocupar-se das empresas, do emprego, do Estado, da educação, da segurança social e da justiça. Da economia que vai ser necessário reerguer. Das instituições a que vai ser preciso dar vida. Da democracia que vai sair ferida. Dos direitos individuais que vão ser diminuídos. Da tolerância que vai sair magoada. Da compaixão que vai ser pisada por muitos. Da informação que vai ser necessário salvar da morte iminente.
Fazer as duas coisas que parecem ou são contraditórias: este é o grande problema. Fazer com que os cientistas e os técnicos, sem se envolver em política, encontrem os remédios e tratem de quem necessita. Mas fazer também com que os políticos façam as leis necessárias, sem se envolver em ciência. Fazer ainda com que os serviços hospitalares e de saúde pública cumpram os seus deveres sem se envolver em ciência nem em política.
Vivemos tempos muito difíceis, inéditos para a maior parte da população, em que é frequente encontrar quem saiba tudo de tudo. Quem tenha soluções para a ciência, a administração, a economia, o emprego, a educação e tudo o resto. “Há que…”, “É só…”, “Basta…”, “O que é preciso é…” estão entre as expressões mais ouvidas nas televisões e mais lidas nos jornais! E o problema é que todos têm direito a tudo, às suas opiniões e às suas asneiras, mesmo erradas… Como todos têm o direito de viver com ansiedade, de ter medo, de imaginar soluções. Mesmo os tolos que dizem que o vírus é mortal para capitalismo e os idiotas que garantem que o vírus é o golpe de misericórdia no comunismo: todos têm direito à opinião. As asneiras e as parvoíces de muitos são a liberdade de todos. E isso é o que interessa.
É essencial tratar da doença. Encontrar as suas causas. Inventar a sua cura. Descobrir a vacina. O que se dispensa é quem aproveita para fazer contrabando de política, tão grave quanto os que fazem mercado negro de máscaras ou papel higiénico. Já se percebeu que há quem queira aproveitar para liquidar direitos dos trabalhadores, despedir precários, reformar efectivos, baixar salários, reduzir a segurança social, diminuir os impostos, tudo legalmente e de modo definitivo. Mas também já se percebeu que há quem queira liquidar a iniciativa privada, as empresas, as instituições particulares de solidariedade, o mercado, a liberdade de estabelecimento e de iniciativa. 
Dar a prioridade às condições sociais e económicas, como muitos fazem, é ridículo. Ouvir um sermão esquerdista sobre a luta de classes e o sector público, a propósito do vírus, com o maior oportunismo sectário que se imagina, é convite a descrer nas capacidades de inteligência. Considerar que tem de se tratar da questão biológica e médica, sem atenção às condições sociais, económicas e políticas, é miopia indesculpável ou intenção eugenista inaceitável.
Quem tem duas assoalhadas, sem aquecimento, para seis pessoas, não tem as menores condições para “ficar em casa” e se salvar. Quem vive em lares miseráveis está condenado. Quem não tem meio de transporte seguro não tem acesso a alimentos frescos. Quem não tem instrução não percebe as recomendações. Quem vive nos arredores ou em isolamento não consegue chegar com segurança às instituições. Quem não tem emprego não consegue comprar pão. Quem é despedido não pode tratar da saúde dos seus. Quem tem pensões mínimas fica sem capacidade de acorrer ao que é necessário. Quem vive no limite da sobrevivência não chega ao que já é mais caro e inacessível. Quem não tem meios não pode contrariar os mercados negros que proliferam. Quem não tem wireless, telefones modernos, telemóveis à altura, iPad capazes, conhecimento informático avançado e assinaturas de redes, não tem meios para ser informado devidamente. Quem vive sozinho e tem problemas de deslocação fica nas margens da sociedade. Quem tem outras doenças e insuficiências vive em pânico.
É tão difícil combater ao mesmo tempo o vírus, a pobreza, o privilégio e o despotismo! É tão difícil tratar das duas coisas, do imediato e do futuro! Da saúde e da sociedade! Da vida e da democracia! É tão difícil tratar de tudo sem demagogia, sem oportunismo, sem aproveitamento político! É tão difícil deixar à ciência o que é da ciência, à política o que é da política, à cultura o que é da cultura e aos indivíduos o que é deles! É tão difícil impedir que a emergência se transforme em regra! Que a eficácia liquide a liberdade! Que a centralização de esforços se transfigure em sistema de vida! Que a vida e a saúde sejam cada vez mais o recurso colectivista e a mercadoria capitalista! Encarar estas dificuldades ou contradições é o princípio de uma sociedade decente.
Algumas das coisas que começarem a ser feitas agora ficarão para sempre. A solidariedade europeia, por exemplo. O que de bom ou de mau se fizer agora, ficará para depois. A dimensão do Estado, também. O necessário reforço do Estado na saúde pública e na ciência médica poderá, depois, transformar-se numa monstruosidade burocrática ou numa máquina lucrativa de mercadoria. Se a força do sistema nacional de saúde não for preservada, fácil será voltar ao seu declínio. Se muitos direitos individuais forem contidos agora, podemos ter a certeza de que, depois, será difícil voltar atrás. Se a comunicação social livre desaparecer agora, é certo e sabido que nunca mais voltará a ser o que foi nem o que deve ser. O que fizermos agora com a autoridade do Estado, a liberdade individual, a cooperação europeia ou o fecho de fronteiras nacionais é o que provavelmente ficará para depois.
Não é o vírus que fará o que quer que seja às sociedades. O destino será o que as pessoas quiserem fazer para lutar contra o vírus, pela saúde e pelo futuro. Haverá mais comunismo e mais despotismo se as pessoas quiserem. Haverá mais mercadoria e mais capitalismo se for isso que as sociedades desejam. Não é por causa do vírus que teremos, a seguir, mais liberdade, mais segurança, mais igualdade e mais decência. Se tivermos, é por causa de nós. Se não tivermos, é por nossa causa.
Público, 29.3.2020

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"Está no livrinho!", como dizia Jô Soares

Já em 1871 Antero explicava as grandes diferenças existentes entre Portugal e Espanha (por um lado) e Alemanha e Holanda (por outro) — diferenças essas que estão na base do triste episódio que recentemente ocorreu entre o ministro holandês e A. Costa.

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28.3.20

No "Correio de Lagos" de Mar 20

Há dias, foi motivo de galhofa a cerimónia pública de inauguração de um bebedouro em Lisboa, com a presença do Ministro do Ambiente, do Presidente da C. M. Lisboa, de mais uma quantas “individualidades” e de toda a Comunicação Social. 
Na realidade, o que está em causa não é a recuperação de bebedouros, em si mesma (e muito menos a criação de novos) — isso só se pode saudar, pois são equipamentos públicos do maior interesse e que, além do mais, permitem reduzir a utilização de embalagens descartáveis. 
O motivo da risota estava na desproporção entre o FACTO e o ESPECTÁCULO, digno de uma inauguração do Almirante Américo Thomaz ou de uma comédia do Vasco Santana. Mas também é verdade que se aquelas personagens nos deram VONTADE DE RIR, as que deixam degradar os equipamentos existentes (e que estão à sua guarda) dão VONTADE DE CHORAR. 

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27.3.20

A admirável nova China

Por Joaquim Letria
Devem ter reparado no meu mutismo quanto ao  COVID 19 . Pela primeira vez escrevo o nome do maldito vírus. Não foi por acaso. Haja por onde a gente possa pensar noutras coisas e, se estas não puderem ser alegres, pelo menos que sejam sérias e respeitadoras das vítimas, dos que sofrem e de todos aqueles que se sacrificam no combate a esta peste.
No entanto, vou olhar o assunto por outro ângulo que ainda não vi ser utilizado para falar da peçonha. Mas estou em crer que, ainda que silenciosos, milhões viram a imagem de que vos vou falar e do seu significado ao qual ninguém pode escapar.
Todos devemos ter visto nos noticiários das televisões aviões de passageiros chineses a aterrarem nos aeroportos encerrados de Fiumicino e Malpensa, respectivamente em Roma e Milão. E todos vimos, certamente, as centenas de chineses já equipados para o que sabiam ir encontrar em Itália. Um locutor explicou-nos que os aviões transportavam 9 médicos, virologistas e pneumologistas, e dezenas de enfermeiras, enfermeiros e técnicos de saúde que iam ajudar as autoridades italianas a combater a grave infecção que toda a Itália enfrenta.
O que os editores daqueles telejornais não disseram é que aqueles aviões transportavam ainda, além de toneladas de medicamentos, mil ventiladores, essenciais à sobrevivência das vítimas das graves crises respiratórias. Também a cidade do Porto pediu ajuda de material clínico a Macau enquanto o Governo português negociava com os grupos Mello (Hospitais da Cuf) e grupo Luz, dirigido ainda pelo que resta do  desaparecido Espírito Santo e hoje da Fidelidade.
O modo como a China conteve o violento surto que irrompeu pelo mundo a partir de Huan e de outros pontos da China é simplesmente notável, assim como as regiões especiais de Hong Kong e Macau, com raros casos, demonstram a eficácia e competência da medicina chinesa, bem como o rigor das decisões políticas que impuseram todas as disposições de saúde pública que lograram um esforço tão bem sucedido.
Conheço bem a China, na sua vastidão, em resultado de onze extensas visitas que fiz ao seu território ao longo de 50 anos. Vi desde a China de Mao Tse Tung até aos dias de hoje, incluindo a grande transição de Deng XiaoPing duma “nação dois sistemas” que possibilitou o incrível progresso e modernidade que hoje temos de reconhecer a esta extraordinária nação de 1400 milhões de habitantes. Cruzei-me com chineses em África e noutros Países do Oriente, vendo-os ajudar na agricultura e construindo o desenvolvimento possível. Jamais vi um chinês armado fora da China e os militares que vi na China entretinham-se com paradas e honras militares com que mantêm a imagem, a pompa e a circunstância da disciplina do regime.
A Itália, hoje já cheia de médicos chineses, é o princípio dum novo Mundo reconhecido a uma superpotência, quando até aqui não estávamos habituados a ver nenhuma com esta imagem positiva. Mau grado ter sido de lá que o COVID19 saíu para nos atacar, devemos estar agradecidos à República Popular da China, a esta admirável nova China, pela sua vontade, competência e capacidade em ajudar todos nós.
Publicado no Minho Digital

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26.3.20

Entre o alarmismo injustificado e o "não há-de ser nada" dos idiotas, que tal a VERDADE, tal como ela aparece ao 66º dia?

O vídeo, com a evolução da COVID-19 dia-a-dia, pode ser visto [AQUI]

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Os média, as Igrejas e a COVID- 19

Por C. B. Esperança
É deprimente e medíocre a informação da maioria dos órgãos de comunicação. Quando as autoridades de saúde se têm pautado por impecáveis princípios éticos e assumido a função pedagógica com exemplar serenidade, há jornais, canais de televisão e de rádio que exploram o medo para aumentarem audiências. 
Há, em alguns média, o gosto mórbido de convidarem alarmistas profissionais e líderes de corporações que não dão tréguas a um Governo que tem sido a âncora da esperança, na rapidez das decisões, na qualidade da informação e na esperança que transmite.
É lastimável o alarmismo das falhas do SNS, apontadas por quem não o queria, como se algum país estivesse preparado para uma situação tão tremenda, como se as mesmas, ou piores, carências não fossem comuns aos países mais ricos. Salvou-se, nesta conjuntura, a grandeza cívica do apoio declarado de Rui Rio ao Governo, sem esperar dividendos da tragédia.
Mas, se os necrófagos pululam, dos média às redes sociais, esperava-se das Igrejas uma contenção que o Papa aconselhou.  Do Islão e dos judeus ortodoxos já se esperava uma visão medieval de quem não saiu da Idade Média com pensamento da Idade do Bronze. Hoje, ainda há quem prefira a crendice à razão, quem veja nas calamidades a vontade de um Deus vingativo cuja ira é preciso aplacar com orações e penitências, mas o que mais surpreende é a Igreja católica, com um Papa sensato, persistir em manifestações de culto com aglomerações de pessoas. Só não acusam ainda hereges, judeus e bruxas pelo vírus, nem convocam procissões e peregrinações, porque o ambiente lhes seria hostil.
Já em plena explosão da pandemia, o bispo do Porto ainda ameaçava rezar a missa pelo aniversário da eleição papal, a menos que o Estado o impedisse. O Estado não o ouviu e desistiu da missa, e em Espanha, em situação mais alarmante, o bispo de Jerez passava uma espécie de salvo-condutos para que os fiéis da Adoração Perpétua pudessem ir à missa, sem serem objeto de sanções legais, como os restantes cidadãos, todos obrigados a reclusão domiciliária pelo estado de alarme decretado pelo Governo.
É inútil falar de párocos cuja imbecilidade ultrapassa a fé, e arriscam a vida dos fiéis e a das pessoas com quem convivem, insistindo em cerimónias litúrgicas concorridas.
Quando a economia que restar desta pandemia trouxer níveis de desemprego e pobreza que as atuais gerações dos países desenvolvidos nunca conheceram, não se sabe quem vão culpar, mas é previsível o regresso de Fátima, Futebol e Fados a Portugal.
Registe-se também a boçalidade de políticos:O vice-governador do Texas disse que preferia morrer a ver as recentes medidas de saúde pública prejudicarem a economia dos EUA. (DN)
Trump sugeriu que uma crise económica poderia resultar em mais mortes, através do suicídio, do que uma pandemia global (DN); 
Bolsonaro, o Trump tropical e analfabeto, afirmou: “No meu caso particular, com meu histórico de atleta, caso fosse contaminado, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria quando muito acometido de uma gripezinha, ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão” (Rede Brasil Atual – RBA).

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24.3.20

No "Correio de Lagos" de Mar 20

Quando havia terrenos rurais encravados no meio de outros, o direito de a eles se aceder era, muitas vezes, apenas garantido pelas chamadas “serventias de-pé-posto”, umas nesgas com 60 cm de largura, que se considerava ser suficiente para passarem pessoas e animais. 
Vem isso a propósito do recente anúncio da recuperação de pavimentos em diversas artérias de Lagos (que se saúda, claro!), pois esperamos que não sejam só os “pavimentos para os carros” a serem intervencionados, mas também os “pavimentos para os peões”, também conhecidos por “PASSEIOS”. 
Nota curiosa: O DL 123/97 estipulava que a largura mínima dos passeios devia ser de 2,25m; 9 anos depois, o DL 163/06 já só exigia 1,50m. Certamente antecipando-se a esse espírito de ir de redução em redução, Lagos já há muito que até tem “passeios” ao nível dessas “serventias de-pé-posto”!

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22.3.20

Grande Angular - Medo

Por António Barreto
Com certeza que tenho medo. De morrer. Mais ainda, de sofrer. Pior, de perder os que amo. É moda garantir que não temos medo, que não devemos ter medo e que devemos lutar contra o medo. É bem afirmar que vamos vencer, que sairemos desta prova reforçados, que lutaremos com todas as energias e que, no fim, ganharemos. É lugar-comum persistente e enganador que diz que “se não tivermos medo, venceremos o medo”. Pode ficar bem a certas pessoas dizer isso. Mas é enganador. E errado. Não corresponde à verdade e convida à irresponsabilidade. Não ter medo da morte, da sua e da dos seus, é não dar valor à vida.
Ter medo é, muitas vezes, o mecanismo essencial que nos leva a resistir, a organizar a luta e a tomar precauções. A evitar disparates. A correr riscos inúteis. Ter medo é frequentemente o que nos dá coragem para evitar a tragédia e para combater o demónio. Ter medo é o que nos permite, tantas vezes, escapar ao acidente e à catástrofe. Não conheço quem se tenha livrado do perigo ou derrotado o inimigo sem ter medo, justamente diante da ameaça e perante o inimigo. Ter medo é recear sofrer e perceber que existem altas probabilidades de perder familiares, amigos e pessoas que admiramos, além de eu próprio morrer ou sofrer da doença. Ter medo é recear que efeitos colaterais, incompetências, preconceitos e injustiças provoquem ainda mais desastres e dramas na vida das pessoas queridas e da minha comunidade. 
É evidente que ter medo se pode transformar em pânico, em excesso que paralisa e em pavor irracional. Contra esse medo, também teremos de lutar. Mas não vale a pena fazer o discurso que engana e mente, que garante que não temos medo, nem devemos ter medo. Estas tiradas políticas têm sempre qualquer coisa de machista e marialva insuportável. Quem diz não ter medo está geralmente a tremer de terror ou é exibicionista absolutamente irresponsável.
Tenho medo desta doença, como tenho medo da guerra, da violência, do assassino, do torturador, do selvagem, do criminoso, do terramoto, da inundação e do incêndio. E não vejo que haja mal nisso. Ter medo significa amar a vida e as pessoas. Ter medo implica recear perder qualidade e talento, ver desaparecer oportunidades e obras a fazer. Ter medo quer dizer recear perder quem nos faz falta e quem amamos.
Depois das alterações climáticas que mobilizaram as opiniões e as consciências durante anos seguidos e chegaram agora ao seu ponto mais intenso de alarme, não tivemos repouso e apareceu esta nova ameaça, a da doença inexorável e da pandemia aterradora. É provável que a ciência e os cientistas, a medicina e os médicos, os enfermeiros e os cuidadores, acabem por vencer. Antes disso, todavia, os hospitais estarão sobrelotados e os cemitérios cheios.
Ainda por cima, o paradoxo da previsão aterra mais do que tranquiliza. As estatísticas e a matemática quase nos dizem quantos vão morrer, a que ritmo, em que locais e em que países. Este absurdo, que permite saber com antecedência quantos milhões vão ser infectados e quantos milhares vão morrer, não chega para evitar o mal, até porque as previsões já contam com isso mesmo, o facto de se prever, de se lutar contra e de evitar uma parte, mas não tudo. Ao contrário do que se diz, o inimigo não é invisível, sabe-se o que é, onde está, como actua, por onde se propaga e quantas vítimas vai fazer… Invisível é o ataque. E é esse que mata. É contra esse inimigo que as sociedades e as pessoas podem fazer qualquer coisa.
Todos nós temos uma esperança irracional: a de que escaparemos, a de que os nossos poderão salvar-se, a de que uma cura chegará a tempo de travar o desastre, a de que a vacina será inventada antes do fim do ano e que evitará milhões de mortos… Esta esperança ajuda-nos a organizar a vida, a prever, a evitar… Mas sabemos que muitos ficarão para trás.
Também tenho medo do diabo. Que vive no pormenor, como é sabido. As nossas melhores leis perdem diante do real e da vida. As medidas mais sofisticadas são derrotadas pela rotina e pela incompetência. Os sistemas de defesa e os mecanismos de ataque podem ser fenomenais, dispendiosos e sofisticados, mas podem perder tudo por uma luva, uma máscara, um fato de protecção, um ventilador, um reagente, uma seringa e um tubo de ensaio. Os melhores planos podem falhar porque a injustiça social é mais forte e porque a burocracia resiste. Leis maravilhosas no papel falham estrondosamente sem serviços à altura, sem equipamentos, sem pessoas e sem conhecimento prático.
Há meses que se está à espera disto. Em Portugal e noutros países. No mundo inteiro. Como se explica que não haja máscaras para os médios e os enfermeiros, que faltem os equipamentos de protecção e transporte de doentes, que faltem ventiladores, luvas, máscaras, álcool, desinfectante, papel higiénico e reagentes? Há semanas que sabemos que isto ia acontecer. Há muito que devíamos estar preparados. Mais bem preparados, pelo menos.
Esta semana, a evidente falta de sintonia ou de convergência entre Presidente, Governo e Parlamento, a propósito do estado de emergência, foi sintoma aterrador, pela aparente falta de consciência e responsabilidade. Mas, finalmente, uma réstia de sensatez permitiu um acordo em que a regra geral está aprovada e o governo trata agora de assegurar a eficácia prática e gradual das medidas e das acções. Mesmo com reserva mental e com manha política, foi importante os três terem chegado a este acordo. Mas não esqueçam os ventiladores, as máscaras, as luvas e os reagentes. É aí que se perdem os combates, não nas leis.
Criámos uma sociedade de heróis vácuos, de espectáculo e de satisfação imediata, sem medo, sem amanhã e sem futuro… Fizemos uma sociedade de produto e marca, de performance e produtividade. Inventámos uma sociedade de banalidades e futilidades, de falso brilho e de satisfação efémera. Concebemos uma sociedade que idolatra o risco, sem se dar conta de que esse valor é geralmente destruidor de pessoas e de sentimentos. Houvesse um pouco de medo, de receio do inútil e do vistoso, e talvez estivéssemos mais bem preparados para esta praga.
Público, 22.3.2020

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No “Correio de Lagos” de Mar 20

Ao fim de vários anos e de muitos protestos (aos quais demos aqui voz por várias vezes), esta cratera, existente na praia de Porto de Mós, lá foi tapada. 
Enquanto aguardamos por uma iniciativa semelhante que ponha cobro ao escândalo — ainda maior — que é a cratera existente à entrada da Praia de D. Ana, fazemos votos para que esta resista às chuvadas que — esperemos... — hão-de vir, mais cedo ou mais tarde.

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20.3.20

No "Correio de Lagos" de Mar 20

Pelo que se lê em rodapé, a autoria deste cartaz, dos anos 80, é da Região de Turismo do Algarve; mas, à parte a ingenuidade do desenho e o facto de “Algarve” estar escrito com minúscula (?!), fica a pergunta: porque é que o boneco está a varrer o lixo para o mar?!

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Matutando em reflexões da morrinhanha

Por Joaquim Letria
Anatole France escreveu que uma coisa que torna fascinante o pensamento humano é a inquietação. Da inquietação à curiosidade vai um curto passo. A curiosidade, no dizer de Catalina, é quando se ouve o que se propõe saber, mas quando se escuta, chega-se a saber muitas vezes mais do que aquilo que nos propúnhamos ouvir.
Para se tirar bom proveito daquilo que a curiosidade nos faz saber, a razão é indispensável, desde que se manifeste e utilize de forma viva, dinâmica, inquisidora e meditabunda, de modo a assimilar os conhecimentos de forma a calar e conservar a sua intimidade.
O contrário da razão em repouso (“a infância é a razão do repouso”, Jean Jacques Rousseau) é a característica da infância. O que chamamos de inocência, que “como a luz da aurora resplandece pela manhã ao nascer o sol sem nuvens”.
Inocência e razão, infância e maturidade compõem o binómio de que está formada a maravilha a que chamamos género humano. É curioso, por outro lado, como o homem sempre quis minimizar, até mesmo apagar, os melhores exemplares de si próprio. Essa qualidade pode sintetizar-se, e convém para esta reflexão, num centro comum que classificamos de modéstia, verdadeira ou falsa, que acabamos por definir como se tratando de virtuosa humildade.
Dizia Boileau que a humildade se verifica quando “o mais sábio é aquele que nem remotamente pensa em vir a sê-lo“. Humildade, para os latinos, é quando “ninguém é sábio em todas as ocasiões“. E Séneca sentenciava que “humildade é quando se pode ser sábio sem vanglória nem inveja”. Sócrates, que também se deu ao trabalho desta reflexão, criou um pensamento defensivo que nos chega até hoje: ”só sei que nada sei”.  
Em síntese e à luz da nossa tradição judaico-cristã, é a sabedoria que garante que “quem se humilhe será exaltado”. E como profetizou o livro de Job “viverá sem glória”.
Muita gente, tal como Afonso Karr, não acredita em nenhum sábio até o ouvir dizer três vezes “duvido” e duas ”não sei”. Se a terra pertencerá aos humildes, por que não brincarmos “à razão do repouso”, que nada tem a ver com “o repouso da razão”? Poderemos então ser todos felizes ao guardarmos muito do que sabemos de outros na nossa cordial intimidade.
Publicado no Minho Digital

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19.3.20

A Ana e o Fernando

Quando o medo e a incerteza se agravam, as notícias não tranquilizam e as redes sociais disseminam o pânico, a insegurança apodera-se das pessoas e surge o que há de pior em cada um.

O egoísmo dos açambarcadores, os instigadores do ódio e os pregadores do apocalipse encontram terreno fértil para a demência a insensatez e a maldade.

É nestas alturas que, a par da pusilanimidade, do egoísmo e da desumanidade, aparecem exemplos que nos redimem, atos que, na sua singeleza, revelam o altruísmo que habita as pessoas de bem.

Seria enorme ingratidão silenciar o exemplo que preenche esta crónica de onde exonero a literatura para referir a comovedora disponibilidade da Ana e do Fernando. Quero viver para os abraçar quando, depois da tempestade, vier a bonança.

No prédio onde habito há 17 apartamentos de tipologia diversa e os seus moradores são maioritariamente idosos, os mais vulneráveis ao coronavírus, alguns com dificuldade de locomoção.
No 2.º andar vive um casal jovem cujos nomes desconhecia e que, em boa verdade, não tinha a certeza da sua morada.

Imaginem, caros leitores, como me senti quando li o aviso manuscrito que me chamou a atenção. Esqueçam a prosa, lembrem-se de que num prédio, algures em Coimbra, vivem a Ana e o Fernando. Não sou tão eloquente a descrever a seu altruísmo como o prova o aviso que fotografei e reproduzo.

Dizem onde moram, dão os números dos telemóveis e oferecem-se para ir às compras, à farmácia, etc... Basta que lhes batam à porta ou lhes telefonem.

Neste prédio deixámos de estar sós.

Ponte Europa Sorumbático

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18.3.20

No "Correio de Lagos" de Fev 20

«Não há nenhuma arte que um governo aprenda tão depressa como a de sacar dinheiro do bolso dos contribuintes» - Adam Smith (1723-1790)
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I - Há uns anos, estava eu a saborear as delícias campestres numa aldeia do interior, quando tomei conhecimento de que, devido à “gripe das aves”, o governo determinava que quem tivesse “criação” devia dirigir-se à respectiva Junta de Freguesia e fazer a declaração de galinhas, patos e afins, sob a ameaça de terríveis multas. 
Ora, essa povoação, que em 1980 ainda nem sequer tinha electricidade, ficava a uma boa meia dúzia de quilómetros da vila mais próxima — onde teria de ir quem quisesse aceder a luxos como escola, comboio, correio, C. de Saúde, banco, farmácia, C. Municipal ou J. de Freguesia — mas, para lá chegar, os únicos transportes públicos de que poderia dispor eram uma camioneta (semanal!) e um táxi — que, neste caso, teria de chamar, numa época em que telemóveis e telefones fixos se contavam pelos dedos das mãos.  
Mas feita então a viagem, e uma vez cumpridas as determinações governamentais, as pessoas regressariam à sua terra, onde viriam a descobrir que a declaração acabada de fazer já estava desactualizada — pois, entretanto, teriam nascido seis pintos e um peru fora atropelado. Ah, mas o legislador previra isso, pelo que informara o seu povo que tudo se poderia fazer pela internet, apesar de ninguém fazer a menor ideia do que isso era.
Assim sendo, o que é que fizeram as pessoas dessa terra (e das outras em redor)? Pelo que pude constatar, não fizeram rigorosamente NADA, limitando-se a esperar que passasse o “vento da maluquice”.
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II – Vem tudo isto a propósito do que se anuncia para os donos de cães, gatos e furões (!) que, sob a ameaça das inevitáveis penalidades, deverão providenciar para que, algures no cachaço dos seus companheiros, seja inserido um cilindro com 10,9 mm x 1,6 mm, um ‘micro-chip’ que mostrará, a quem disponha de um leitor apropriado, um número de 15 algarismos. E é esse número que vai figurar no Sistema de Informação de Animais de Companhia, base-de-dados onde o veterinário preencherá umas dezenas de campos relativos ao bicho e ao respectivo proprietário — um processo que (se não for preciso fazer mais nada, como vacinas obrigatórias, p. ex.) custará uns € 25 por animal. A juntar a isso, os donos ainda terão de possuir os “Boletins Sanitários”, uns livros maneirinhos onde constam os registos das vacinas, desparasitações, etc.
Acham que tudo fica por aí? Então estão muito enganados, pois o legislador pretende ainda que os donos se dirijam à sua Junta de Freguesia, TODOS OS ANOS, para pagar uma TAXA — sequela da inenarrável “licença de isqueiro” que, tendo nascido em 1937, morreu de ridículo em 1970. Ah! E quanto ao que terão de fazer se o bicho morrer ou mudar de dono, consolem-se com o que dizia Jô Soares: «Burocrata tem de viver... Filho de burocrata tem de comer...»
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III — Dizem-me que as autarquias poderão vir a fornecer o serviço de implantação do ‘chip’, de forma gratuita para quem não o puder pagar. A intenção é boa, e cá estarei para ver como isso será feito, nomeadamente em terras como a que referi; e, já agora, como será a fiscalização dos cães que andam por aí em flagrante desrespeito pelo DL 314/2003 que estipula, nos seus Artigos 7.º e 14.º, coimas que vão desde €25 a uns delirantes €44890 — «contra-ordenação punível pelo presidente da Junta de Freguesia da área da prática da infracção» (sic), aplicável a quem não acatar a «obrigatoriedade do uso de coleira ou peitoral e açaimo ou trela» (sic).  Mas tudo bem; «Cão-fiemos!», como diria o saudoso Tóssan.

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Não estamos em férias. À atenção dos professores

Por A. M. Galopim de Carvalho
METAMORFISMO
Sempre que uma rocha da superfície terrestre, em equilíbrio com as condições ambientais, se afunda na crosta, os seus minerais ficam instáveis face aos consequentes aumentos da pressão e da temperatura, dando origem a outros, compatíveis com o novo ambiente. Neste processo, a rocha em causa, seja ela de que tipo for, sofre uma transformação a que os geólogos chamam metamorfismo (do grego meta, transformação, e morphe, forma) e passa a ser considerada como rocha metamórfica. Ultrapassados os valores da pressão e da temperatura, próprios do ambiente superficial, que definem o limite superior da diagénese, tem início o metamorfismo. Porém, se a elevação da temperatura atingir valores acima dos 800ºC, que determinem a fusão, ainda que parcial, da rocha, entra-se no domínio do magmatismo secundário, ou seja, no da anatexia.
Por definição, o metamorfismo implica que as transformações tenham lugar no estado sólido, representando um dos estádios do ciclo geoquímico das rochas, também chamado ciclo petrogenético. 

METAMORFISMO REGIONAL
Assim designado porque afecta extensas regiões da crosta continental
Intimamente relacionado com o enrugamento das cadeias de montanhas (orogénese), tem como factores principais: 
(1) o calor interno, em aumento com a profundidade; 
(2) a pressão própria do interior da crosta, ou pressão litostática, também ela crescendo com a profundidade (por exemplo, a 35 km de profundidade, a pressão litostática atinge as 10 000 atmosferas); 
(3) a pressão orientada, própria das faixas orogénicas, onde dominam os esforços compressivos característicos das fronteiras de placas em aproximação. 
(4) a estes dois tipos de pressão associam-se outros, não menos importantes, devidos à presença de água, dióxido de carbono e outros fluidos circulantes. 

O METAMORFISMO REGIONAL é, pois, tanto mais intenso quanto maior for a profundidade a que se processe. Fala-se, assim, de graus de metamorfismo. Por exemplo, o xisto representa um grau muito baixo de metamorfismo actuante sobre uma rocha argilosa; o gnaisse, pelo contrário, testemunha um grau muito elevado sobre aquela mesma rocha.
Para além das transformações de alguns dos minerais das rochas afectadas (todos aqueles que o consentem), o metamorfismo determina modificações nas respectivas texturas. As rochas laminadas, as xistentas ou as fibrosas testemunham as pressões orientadas a que estiveram sujeitas. 
Como resultado das reacções químicas ocorridas, podem libertar-se água, dióxido de carbono, bem como certos elementos com grande capacidade de escape (flúor, cloro, boro) que abandonam a rocha em transformação, migrando daí para outras regiões da crosta, onde vão provocar reacções químicas noutras rochas. Trata-se de um processo extremamente lento, à escala geológica, com durações na ordem das dezenas de milhões de anos. Em acção, no seio dos grandes orógenos actuais e activos, como os Alpes os Andes ou as Montanhas Rochosas, os seus efeitos estão ainda, na maior parte, ocultos no coração das respectivas montanhas. Pelo contrário, nas cadeias montanhosas do passado, em especial nas mais antigas, as dos escudos pré-câmbricos, a erosão, actuante ao longo de centenas de milhões de anos, acabou por arrasá-las, pondo a descoberto as suas entranhas de rochas metamórficas de vários tipos, bem como granitos e outras rochas, testemunhando a existência de magmatismo secundário ou anatexia.
No metamorfismo regional, toda e qualquer rocha é transformada ou reciclada. Por exemplo, o calcário dá origem ao mármore. Neste caso, o calcário perde os vestígios dos fósseis que habitualmente encerra e sofre recristalização total, aspectos bem visíveis a olho nu. 

Muito comum e bem conhecido da generalidade das populações do interior norte e sul, o xisto argiloso representa um estádio, ainda muito incipiente de metamorfismo (anquimetamorfismo, do grego “ankhi”, quase, próximo de)) de uma rocha sedimentar essencialmente argilosa (a profundidade relativamente pequena, 5 a 10 km). A ardósia ou lousa, que a minha geração e a dos nossos pais e avós usaram para escrever as primeiras letras, representa um estádio ligeiramente mais acentuado de aumento de pressão e temperatura. Estádios progressivamente mais avançados desta mesma sequência ocorridos a maior profundidade geram, no mesmo sentido, xistos luzentes, micaxistos e gnaisses (30 a 35 km de profundidade). Se a temperatura continuar a aumentar, estas rochas fundem total ou parcialmente, dando origem a granitos. Quer isto dizer que a mesma rocha sedimentar, sujeita a metamorfismo, pode dar origem a diferentes tipos de rochas metamórficas, tudo dependendo da profundidade a que mergulhou no interior da crosta. 
O quartzito, rocha muito dura, cujas bancadas, muito inclinadas, quase a prumo, sobressaem do relevo como cristas alcantiladas, é uma rocha essencialmente formada por quartzo, resultante de metamorfismo de antigos sedimentos arenosos. 
Meramente a título de exemplo e citando apenas os mais comuns, acrescenta-se que os carvões fósseis, como a hulha e o antracito, evoluem para grafite, os basaltos transformam-se em xistos cloríticos, xistos verdes ou anfibolitos.
Sabemos hoje que determinados minerais metamórficos são gerados a temperaturas e a pressões bem conhecidas. Um tal conhecimento permite usá-los como termómetros e barómetros dos ambientes onde as respectivas rochas se formaram e, assim, definir o que se convencionou chamar fácies metamórficas, expressas por conjuntos de rochas geradas sob as mesma condições de temperatura e pressão, independentemente da sua natureza (origem).
No interior do país e em relação com a orogenia hercínica, o Maciço Antigo além de granitos, exibe vários tipos de rochas metamórficas. Os xistos, de várias idades, do Pré-câmbrico ao Carbónico ocorrem de norte a sul do território, interrompidos, aqui e ali, por intrusões. Há gnaisses e micaxistos, por exemplo, entre Aveiro e Porto. Serras como as do Buçaco, Marofa, Penha Garcia e São Mamede, formando cristas alongadas, devem essas formas a espessas bancadas de quartzito com 480 Ma, resultantes do metamorfismo de arenitos sedimentares. Os mármores de Estremoz, Viana do Alentejo e Trigaches, com 400 Ma, constituem uma das principais riquezas do país. Os minérios de ferro do Marão (magnetite) e de Moncorvo (hematite e magnetite) correspondem a rochas sedimentares ferríferas de há 480 milhões de anos, metamorfizadas na mesma orogenia. Explorados a meados do século passado, deixaram de o ser, dada a sua inferior qualidade relativamente a outras jazidas situadas em países estrangeiros.

Um parentese para dizer que o Maciço Antigo é o conjunto de terrenos que formam o substrato da Península Ibérica, com idades anteriores à era mesozóica, isto é, com mais de 250 milhões de anos (Paleozóico e Pré-câmbrico). Reúne o que resta das rochas metamórficas e magmáticas geradas no seio de uma grande cadeia montanhosa que aqui existiu no final do Paleozóico e, hoje, em grande parte, arrasada pela erosão. Em Portugal, este maciço abrange, grosso modo) o Minho, Trás-os-Montes, Douro Litoral, Beiras e Alto e Baixo Alentejo, além de que constitui o soco rígido sobre que assentam os terrenos mais modernos, nomeadamente, as orlas mesocenozóicas ocidental e do Algarve e as bacias terciárias.

METAMORFISMO DE CONTACTO
Há outros tipos de metamorfismo que, não tendo a expressão do regional, são suficientemente importantes para o conhecimento do nosso planeta. Um tipo particular de metamorfismo resulta do contacto, em profundidade, de uma rocha, qualquer que ela seja, com uma fonte de calor, como é o caso de uma bolsada de magma (suficientemente grande e quente) em penetração (intrusão) no seio dessa rocha. Essencialmente térmico, é habitualmente referido como METAMORFISMO DE CONTACTO ou TERMOMETAMORFISMO. Deste contacto resulta, na rocha encaixante, uma orla ou auréola, cuja espessura pode variar entre escassos centímetros e algumas centenas de metros, valores estes que dependem do volume, da quantidade de calor que encerra e da temperatura (entre 400 e 800 ºC) do corpo magmático e, ainda, do tempo de actuação. As rochas resultantes deste processo e que constituem as orlas de metamorfismo de contacto são as CORNEANAS (assim chamadas porque as suas esquírolas mais finas são transluzentes como o corno.), cujas variedades são tantas quantos os tipos de rochas transformadas no processo. Há, assim, entre as mais comuns: 
1 - corneanas derivadas dos xistos argilosos, ou corneanas pelíticas (do grego pêlos, lama), de grão muito fino, compactas e duras (com fractura conchoidal), normalmente escuras; 
2 - corneanas geradas a partir de calcários, ou corneanas cálcicas; 
3 - corneanas a partir de basaltos e outras rochas de composição afim, referidas como corneanas básicas.

METAMORFISMO DINÂMICO
Um outro tipo de metamorfismo resulta de esforços de compressão ou de tracção não acompanhados de aumento significativo da temperatura ou de quaisquer transformações químicas. Também designado por DINAMOMETAMORFISMO, é predominantemente dinâmico e as rochas nele envolvidas são, simplesmente, deformadas. Por exemplo, um granito sujeito a compressão tectónica adquire a configuração de um gnaisse, isto é, com os seus minerais dispostos em bandas, mais ou menos paralelas. Havendo desligamentos na crosta, os corpos rochosos em confronto entram em fricção, gerando esmagamentos, transformando quaisquer tipos de rochas em brechas tectónicas, ou seja, material rochoso, fragmentado e esmagado, posteriormente consolidado, no próprio local, por um cimento resultante da circulação de fluidos, no geral, ricos em carbonato de cálcio ou em sílica.

METAMORFISMO DE IMPACTO
Raro, na crosta terrestre, o metamorfismo de impacte, tem grande expressão na superfície lunar. Tem por causa a colisão meteorítica com as rochas aflorantes. Animados de grande velocidade (dezenas de quilómetros por segundo), estes objectos vindos do espaço (asteróides e cometas) atingem o solo animados de grande velocidade, sendo, assim, portadores de grande energia. As rochas atingidas, designadas poe SUEVITOS ficam esmagadas, isto é, brechificadas (brechas de impacte), além de que sofrem vitrificação por fusão parcial ou total dos seus minerais.

METAMORFISMO HIDROTERMAL
Embora menos visível, o metamorfismo participa intensamente na evolução da crosta oceânica, em especial, através de um tipo particular, conhecido por METAMORFISMO HIDROTERMAL, decorrente da circulação da água do mar no seio das rochas sobreaquecidas. Predominantemente basálticas, as rochas do substrato oceânico, transformam-se em serpentinitos, rochas essencialmente constituídas por minerais do grupo das serpentinas (silicatos hidratados ricos em magnésio).

Próximo das dorsais oceânicas, em zonas praticamente destituídas de cobertura sedimentar, a água do mar penetra no substrato rochoso, essencialmente basalto, onde aquece bastante, a ponto de dissolver grande número de elementos químicos (enxofre, arsénio, ferro, manganês, zinco, chumbo, mercúrio, cobre, prata, ouro, bário, cálcio, silício, flúor, urânio, etc.) dispersos nessas rochas, ao mesmo tempo que se carrega de emanações oriundas do magma subjacente, entre as quais enxofre e gás sulfídrico. Ao ressurgir em fontes hidrotermais, essa água, a temperaturas que rondam os 350 a 380ºC, ricas em elementos mineralizadores, não só metamorfizam (metamorfismo hidrotermal) o basalto e outras rochas afins, como dão origem a crostas sobre o fundo, bem como a depósitos metalíferos estratificados e a estruturas em chaminé, de onde saem jactos de “fumos” negros, formados por água quente carregada de partículas ultrafinas de sulfuretos. Este processo submarino explica as mineralizações que caracterizam a Faixa Piritosa do Alentejo, formada há 350 a 370 Ma, entre o Devónico e o Carbónico. Se o fluido hidrotermal brotar a temperaturas inferiores a 200ºC, formam-se fumarolas brancas. Em torno destas fontes de água sobreaquecida desenvolveu-se um tipo de comunidade biológica muito especial, com vermes, moluscos, artrópodes, etc., numa cadeia que tem início em bactérias muito primitivas que sintetizam a matéria orgânica através de reacções ligadas ao enxofre, constituindo autênticos oásis de vida, nas profundezas do mar, totalmente privada de luz solar.

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17.3.20

Notícia muito triste...

Quando o Sorumbático nasceu, em 5 de Janeiro de 2005, os primeiros amigos que convidei foram o Carlos Pinto Coelho, o Joaquim Letria, o Nuno Crato, o Pedro Barroso, o Nuno Brederode Santos e o Alfredo Barroso.
Durante muito tempo, fomos apenas os 7 — e foram esses os melhores tempos deste blogue, até porque, além do convívio virtual, nos encontrávamos, de vez em quando, ora em casa uns dos outros, ora em intermináveis e inesquecíveis almoçaradas.
Mais tarde, quando eu saí de Lisboa e me mudei definitivamente para Lagos (em Agosto de 2014), tive o prazer de saber que eu e o Pedro éramos vizinhos, e de vez em quando encontrávamo-nos, para pôr a má-língua em dia.
Há um par de anos, no nosso último encontro (no Beira-Rio), soube que estava doente, e percebi que a doença era grave — já andava em tratamento, e não escondia o pessimismo.
Muito antes disso, no entanto, ele já se desinteressara do Sorumbático, que talvez tenha crescido demais, nomeadamente em número de contribuidores que, na realidade, pouco ou nada contribuíam.
E agora, seguindo a Lei da Vida, o Pedro deixou-nos.
Nesta alturas, fico sempre sem saber o que dizer, além de que perdi um bom — maravilhoso — amigo.

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16.3.20

Entretanto...

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Já tinha saudades do Rodrigo de Matos, cartunista do "Expresso", e que é "autor convidado" do Sorumbático. 
A imagem de baixo é tirada de um vídeo, feito ontem, e que mostra a Marina de Lagos — sem mais comentários

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Tiraram-me as palavras da boca!

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15.3.20

Grande Angular - Emergência e razão

Por António Barreto

É tão fácil perceber!
Os responsáveis pela pandemia e por esta loucura gerada à sua volta são os chineses, o respectivo governo, as suas forças armadas, os seus industriais e os seus comerciantes. Internamente, aproveitam para reforçar a ditadura. Externamente, perturbam o mundo inteiro, fazem mal aos Estados Unidos e aos Europeus, promovem as vendas dos seus produtos farmacêuticos e fazem subir os preços dos seus produtos industriais e electrónicos. Quanto ao número de chineses mortos, ou se trata de mentira descarada permitida pela censura daquele país, ou então é verdade, mas não tem muita importância, dado que eles têm uma noção diferente da vida e da morte das pessoas e que, de qualquer maneira, há tantos chineses!
Como é cada vez mais evidente e provado em relatórios secretos, foi um acidente ocorrido nas instalações chinesas de investigação e produção de vírus e bactérias destinados à guerra biológica e que de qualquer maneira teriam o mundo ocidental como destino.
Na verdade, as várias explicações fornecidas ao público são geralmente boatos destinados a encobrir a verdadeira razão: a origem está de facto nas instalações fabris chinesas destinadas a produzir armas biológicas de destruição maciça, mas tratou-se da execução de um plano deliberado de ameaça às economias e às políticas ocidentais, com o intuito de os obrigar a aceitar as regras e as condições chinesas para os mercados internacionais.
Tem custado muito a ser averiguado, mas já há alguma evidência capaz de sustentar o argumento de que foi este o mais bem urdido plano russo para destruir o ocidente liberal e democrático, facto visível nas quase nulas taxas de mortandade e de contágio verificadas na Rússia.
Tudo leva a crer que tenham sido os grupos islâmicos, moderados ou radicais, que assim conseguiram, pela primeira vez na história, cancelar milhares de missas e outras liturgias católicas através de toda a cristandade, especialmente preparadas para as festividades da Páscoa.
Há provas de que foram os judeus, mais uma vez, que melhor souberam aproveitar o vírus chinês, a fim de ameaçar os europeus e árabes, seja porque não são solidários com o Estado de Israel, seja porque aceitam fazer Jogos Olímpicos e Campeonatos de futebol em países muçulmanos.
A pandemia descontrolada é evidentemente alimentada pelas comunidades racializadas do mundo inteiro (especialmente negros e ameríndios), na mais clara e eficaz campanha de descrédito da civilização ocidental e europeia.
Trata-se de uma das mais conseguidas campanhas de terrorismo jamais concebidas e postas em prática, que não só vai destruir a serenidade em muitos países, desviar as atenções da segurança interna fazendo-as concentrar na segurança sanitária e atacar frontalmente alguns dos países mais ferozmente inimigos do terrorismo, designadamente os Estados Unidos e a China. É aliás surpreendente que ninguém tenha reparado que até agora não morreu um só dirigente dos movimentos terroristas e ninguém, daqueles grupos, tenha sido infectado.
Os principais responsáveis por esta verdadeira paranóia são evidentemente os laboratórios farmacêuticos, os produtores de vacinas e de desinfectantes que esperam ganhar milhares de milhões com este desvario. Não se sabe se foram eles que produziram e espalharam o vírus, ou se apenas se limitaram a aproveitar a oportunidade para fomentar a neurose e estimular as despesas colossais já em curso. Mas que são os primeiros responsáveis pela histeria não sobram dúvidas.
Como é evidente, esta alegada pandemia não é mais do que obra dos movimentos e grupos de extrema-direita, dos nacionalistas, da supremacia branca e dos racistas de todas as comunhões, na tentativa de destruir as liberdades de deslocação, os fluxos de refugiados e emigrantes, a miscigenação das populações a e integração das minorias.
Não há dúvidas de que este fenómeno, se não foi causado, foi pelo menos aproveitado pelas forças liberais e ultraliberais, a começar pelos grupos privados de hospitais e medicamentos, com o objectivo de destruir os serviços nacionais de saúde e todos os serviços públicos de saúde, protecção e educação.
Tem sido uma verdadeira conspiração dos governos ocidentais que, aproveitando-se de um acidente sanitário chinês, fabricaram uma autêntica crise internacional e têm vindo a promover um pânico colectivo que não tem outro fim que não seja o de desviar as atenções das populações e da comunicação social para os graves problemas políticos, sociais e económicos dos respectivos países e dos sistemas democráticos aí vigentes.
            A psicose colectiva e o pavor das multidões foram fenómenos induzidos pelo governo português, a fim de desviar a atenção do público e de não reflectir nos verdadeiros problemas do povo e dos trabalhadores.
Está claro que foram os sindicatos, designadamente os de funcionários públicos e de professores, os principais responsáveis pela neurose, com a intenção de beneficiar de umas semanas de precaução, mas, na verdade, ganhar umas férias pagas e pelo menos duplicar a duração das férias de Páscoa.
            A paranóia persecutória está a ser alimentada pelo governo português que, não vendo como resolver os seus problemas de maioria parlamentar e de governabilidade, melhor não viu do que desencadear esta crise artificial com o objectivo de reforçar o seu poder e de reduzir o espaço de manobra dos seus adversários.
            As farmácias, as drogarias e os supermercados, assim como as lojas dos chineses, têm alimentado o alarme, esvaziam artificialmente as prateleiras e colocam cartazes nas montras anunciando produtos esgotados, pois assim limpam stocks e vendem produtos fora de prazo.
            As redes sociais e os órgãos de comunicação exclusivamente on-line decidiram demolir definitivamente os jornais ainda impressos em papel e, graças à sua superioridade de fornecimento de notícias ao minuto, torná-los simplesmente obsoletos.
            Só não vê quem não quer!
Público, 15.3.2020

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14.3.20

GEOLOGIA PARA TODOS

Turbiditos, sob a espectacular discordância com os arenitos de Silves (Triásico) da Praia do Telheiro (Vila do Bispo)
Parede de casa emTalasnal (Lousã). 
Muito grauvaque (as pedras maiores) e pouco xisto (as mais delgadas)
Por A. M. Galopim de Carvalho
Quando, em conversas sobre geologia de Portugal, falamos do Complexo Xisto-grauváquico (anterior ao Ordovícico), do centro e norte do país, ou dos turbiditos do Carbonífero do Alentejo, sabemos, realmente, do que estamos a falar?
Haverá, certamente, quem tenha interesse em precisar alguns conceitos. Para esses, eis o que me ocorre dizer:

TURBIDITO – rocha sedimentar de fácies marinha profunda, gerada por correntes de turbidez.

CORRENTES DE TURBIDEZ, de gravidade ou de densidade - envolvem enormes massas de água carregadas (quase ao limite) de finas partículas sedimentares, terrígenas (silte e argilas) e/ou carbonatadas, mantidas em suspensão pela turbulência do fluido que as transporta e, também, pela densidade e viscosidade que lhe comunicam. Com grande capacidade de transporte, estas correntes podem atingir velocidades próximas dos 100 km/h. Fluidas e viscosas, sendo mais densas do que a água que as rodeia, as correntes de turbidez deslizam sobre a vertente continental, provocando, ao mesmo tempo, erosão, transportando consigo todo o material que vão arrancando. Quando se espraiam na base, perdem velocidade e imobilizam-se, depositando os materiais que transportam, dando origem a leques submarinos profundos que, por acumulações sucessivas, podem atingir centenas de quilómetros de raio, e espessuras de milhares de metros. Nestes leques, em particular na dependência de importantes rios (Mississipi, Ganges, Amazonas, Nilo), as taxas de sedimentação são elevadas, podendo atingir valores da ordem de 2 mm/ano, o que equivale a uma espessura acumulada de 2000 m, num milhão de anos, valor considerável, mesmo em termos geológicos.

GRANOTRIAGEM – tipo particular de arranjo sedimentar, no qual os clastos mais grosseiros se encontram na base e os mais finos no topo, havendo entre eles uma variação progressiva ou gradual. Quando, a corrente de turbidez se imobiliza, ao atingir a base da vertente continental, toda a carga de sedimentos que transporta, no geral, arenosos e pelíticos (silto-argilosa), inicia a decantação e, como é sabido, os detritos mais pesados, neste caso, os maiores, ou seja, os grão de areia, são os primeiros a atingir o fundo, seguindo-se-lhes os de silte (ou limo) e, por fim, as partículas de argila.

FLICHE (flysch, na terminologia inglesa) - espessa sequência essencialmente areno-pelítica (grauvaques e xistos), bem estratificada e granotriada, própria dos depósitos marinhos profundos gerados por correntes de turbidez que, assim, ganharam o nome de turbiditosO termo flysch foi criado pelo geólogo suíçBernhard Studer (1794-1897), com base no verbo alemão fliessen que quer dizer fluir e era aí usado para descrever os depósitos constantemente sujeitos a deslizamentos ao longo das vertentes.

ARENITO LÍTICO ou litarenito - caracteriza-se por, além dos grãos de quartzo, conter grãos de rochas (litoclastos) até ao limite (convencionado) de 50%. 

MATRIZ - é aqui entendida como o conjunto de detritos (quartzo, feldspatos, micas e outros) de diâmetro inferior ao das areias e superior ao das argilas, que se introduz nos espaços entre os grãos de areia.
Com granularidade variável e mais de 15% de matriz, ocupando praticamente todos os vazios, os grauvaques contêm, na componente arenosa, quartzo (20 a 50%), feldspatos sódicos e/ou potássicos, micas, litoclastos siliciosos, pelíticos e, muitas vezes, vulcaníticos. 
Na matriz, incluem uma fracção primária, sinsedimentar, e uma outra, secundária, pós-deposicional, resultante de alterações de grãos minerais e líticos, mais ou menos instáveis, no decurso dos processos de transformação, como são a diagénese tardia e o metamorfismo de baixo grau. Enquanto que os grãos de quartzo, muito estáveis, permanecem intactos, os litoclastos instáveis e os grãos de feldspato cedem material para a formação da matriz secundária e do cimento, ou que se perde em solução, na proporção da sua instabilidade, podendo, mesmo, desaparecer.

CIMENTO - substância mineral de neoformação. que aglutina e fixa os elementos detríticos de um sedimento, consolidando-o, isto é, litificando-o. Entre os cimentos mais comuns, destaca-se o carbonato de cálcio (calcite), a sílica (opala, calcedonite, quartzo) e os óxidos de ferro (hematite e goethite). No grauvaque, o cimento, além de minerais argilosos, com destaque para a ilite e a clorite, é comum a presença de carbonatos (calcite e/ou dolomite), sílica e óxidos de ferro.

GRAUVAQUE (Grauwacke”, em alemão; “graywacke”, em inglês)  é uma rocha sedimentar arenítica imatura, coesa, com mais de 15% de matriz, ocupando praticamente todos os vazios. Os grauvaques são considerados os equivalentes paleozóicas e pré-câmbricas dos arenitos líticos do tipo dos fliches alpinos. De fácies exclusivamente marinha profunda, a sua génese está associada às correntes de turbidez ou de densidade. De granularidade variável, os grauvaques contêm quartzo (20 a 50%), feldspatos sódicos e/ou potássicos, micas, litoclastos siliciosos, pelíticos e, muitas vezes, vulcaníticos. No cimento, além de minerais argilosos, com destaque para a ilite e a clorite, é comum a presença de carbonatos (calcite e/ou dolomite), sílica e óxidos de ferro. Da matriz faz parte uma fracção primária, sinsedimentar, e uma outra, secundária, pós deposicional, resultante de alterações de grãos minerais e líticos mais ou menos instáveis, no decurso dos processos metassomáticos (diagenéticos tardios e metamórficos). 
Com uma história geológica, na génese, no espaço e no tempo, paralela à dos xistos argilosos, e uma importante representação na arquitectura do soco antemesozóico (maciço antigo) da Península Ibérica, os grauvaques, não têm tido, ao nível do nosso ensino, a divulgação que merecem.

A par do bem conhecido xisto, a rocha que deu nome sonante às turisticamente conhecidas por Aldeias de Xisto, há sempre, mas sempre, uma outra rocha, nunca falada, mas muito mais importante na construção, quer em termos de solidez (mais coesa e rígida), quer em termos da quantidade usada. Essa outra rocha chama-se grauvaque
Introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Otto Lasius (1752-1833), o velho termo mineiro alemão “Grauwacke, ou pedra cinzenta (graywacke, em inglês) radica nos elementos germânicos “grau”, cinzento, e “Wacke”, termo usado, em princípio, para referir o basalto alterado, que perdeu a cor e a coesão originais. Este termo, caído em desuso, foi usado entre nós, em finais do século XIX, princípio do século XX, para referir os vulcanitos, mais ou menos alterados, do Complexo Vulcânico de Lisboa-Mafra.
Não obstante o termo “Wacke” aludir a um material friável, o grauvaque, quando não alterado, é um arenito coeso, aceite, como se disse atrás, como equivalente paleozóico e precâmbrico dos arenitos líticos do tipo dos fliches alpinos. Em Portugal não temos grauvaques posteriores ao Paleozóico, apenas porque não temos sedimentação de talude ou vertente continental posterior a essa idade.

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