16.1.18

A responsabilidade dos economistas na Educação

Por Nuno Crato

O sucesso na educação dos estudantes contribui para o desenvolvimento económico, e de uma forma muito mais importante e mensurável do que até há algum tempo se supunha. Não é pois de estranhar que os investigadores de economia se preocupem com o sistema educativo. Na realidade, têm ajudado a desfazer alguns dos lugares comuns mais difundidos na educação e, dessa forma, contribuído para melhorar o ensino dos jovens

Num artigo recente na Science[1], Eric Hanushek e Ludger Woessmann, dois dos mais importantes investigadores de economia da educação da atualidade, perguntam-se sobre as razões do incrível crescimento económico dos países asiáticos, em contraste com o dos países latino-americanos. A Science que, com a Nature, é uma das revistas científicas com mais impacto no mundo académico, não é muito propensa a incluir artigos sobre educação. As suas preferências vão para a Física, a Bioquímica, a Geologia e outras ciências da natureza; as experiências, a observação, a medida, os números, a verificação rigorosa são o seu apanágio – as questões sociais, nomeadamente de educação, são menos do seu gosto. Mas lendo o artigo destes dois investigadores percebe-se que o rigor observacional e o tratamento estatístico dos dados estão ao nível do que melhor se faz em ciência. Em qualquer ciência. São dois economistas da educação, estudiosos que aplicam a econometria e a análise contrafactual de impacto, que procuram variáveis causais, que usam modelos de funções de produção inspirados na economia quantitativa e que têm critérios de rigor característicos do método científico[2].
As suas conclusões são muito interessantes. Verificam que o PIB per capita na Ásia de Leste se multiplicou por nove desde 1960, enquanto os países da América do Sul tiveram um crescimento de duas vezes e meio apenas. Relatam em seguida várias tentativas de explicação baseadas nas diferenças de formação de capital humano e referem uma série de insucessos nessas tentativas. De facto, se olharmos para a duração da educação obrigatória, por exemplo, ou para o número de anos que os estudantes em média estudam nos diversos países, não encontramos uma explicação. Que se passará, então? Será que a escolaridade não tem influência no desenvolvimento económico e que é antes o desenvolvimento que causa o progresso da educação, como alguns historiadores e sociólogos afirmaram?
O mistério é esclarecido se, em vez da duração da escolaridade ou de outros fatores semelhantes, se utilizar como variável explicativa a qualidade da aprendizagem dos alunos. Isso é possível a partir dos anos 1960 graças à existência de testes internacionais comparáveis – de que os mais conhecidos são actualmente o PISA e o TIMSS. Verifica-se então que o desempenho cognitivo dos alunos, ou seja, o que eles de facto aprendem e sabem aplicar, tem um grande poder explicativo sobre o desenvolvimento económico.
O tema é fascinante. E este não é um trabalho isolado. Um conjunto de estudos empreendidos nas últimas décadas vieram a corroborar a tese de que o sucesso da educação é causa do desenvolvimento económico[3].
O fator considerado por estes investigadores – o sucesso efetivo na educação, medido pelos ganhos cognitivos dos estudantes – permite deslindar uma série de questões educativas e colocar os problemas de forma correta.
Relembremos alguns dos debates recentes, por exemplo o tão debatido aumento do número de alunos por turma. Em 2011/2012, num período de grandes dificuldades financeiras, o número máximo de alunos por turma em Portugal aumentou de 28 para 30 (no 1.º ciclo de 24 para 26)[4]. O número médio de alunos por turma que era então cerca de 20, um dos mais baixos da OCDE, passou para cerca de 21, aproximando-se da média europeia.
É demasiado, ter 30 alunos numa turma? Reformulemos a pergunta: demasiado para quê ou para quem? Claro que ninguém gostará de sobrecarregar o trabalho já difícil dos professores, mas pediu-se então esse esforço. É também interessante notar que esse máximo não foi ainda revogado pelo governo atual. Pensemos nos alunos: os seus resultados pioraram? Não; melhoraram. Então o aumento do número de alunos por turma não prejudica o ensino?
Os economistas e estatísticos estudiosos da educação têm debatido muito seriamente este problema sem conclusões claras. A realidade é que a maioria dos estudos quantitativos não encontra uma correlação entre o número de alunos por turma e os seus resultados escolares. Olhe-se por exemplo para os dados do estudo PISA da OCDE em 2015. No gráfico que aqui se reproduz nota-se uma grande dispersão e nada de conclusivo se deduz num intervalo que vai dos 18 aos 47 alunos por turma. E num intervalo que vai entre os 28 e os 30, haverá uma diferença sensível para os alunos?
Talvez mais supreendente ainda, analisando os dados portugueses do mesmo inquérito PISA encontra-se um efeito positivo da dimensão da turma: ou seja, a turmas maiores correspondem resultados melhores[5]. Poder-se-ão encontrar explicações para este resultado, mas o certo é que ao nível de escola e estimando um modelo linear hierárquico (HLM), se encontra um razoável poder explicativo (coeficiente normalizado de 0,39) para a dimensão da turma.

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Se há algum consenso entre os economistas e estatísticos da educação sobre este tema, esse é o seguinte: há fatores muito mais importantes para o sucesso dos alunos do que a dimensão das turmas, pelo menos em intervalos de variação razoáveis, e o investimento público deverá dirigir-se para esses fatores, nomeadamente para a formação e selecção dos futuros professores.
O curioso é que, chegados a este último ponto, a discussão cessa. Poucos querem falar desse problema decisivo para a educação em Portugal que é o da preparação e seleção dos futuros professores.
Outro debate recente foi o das turmas mistas[6], ou seja, das turmas em que alunos de mais do que um ano de escolaridade coexistem na mesma sala de aula, e com o mesmo professor. É algo que pode surpreender quem sempre estudou nas cidades, mas que é muito comum no mundo rural. De acordo com os últimos dados a que tenho acesso[7], de 2015, em Portugal 32% das turmas do 1.º ciclo do Ensino Básico, isto é, do 1.º ao 4.º ano, incluem alunos de mais do que um ano de escolaridade. Em 2010, essa percentagem ultrapassaria os 40%.
O fenómeno tem expressão internacional. Segundo uma síntese recente[8], nos Territórios do Norte da Austrália, em 1998, 40% das escolas tinham turmas mistas; em Inglaterra, em 2000, 25% das turmas eram mistas; na mesma data, em França, a correspondente percentagem alcançava 34% e na Irlanda, 42%.
Apesar de haver experiências com sucesso na mistura intencional de idades e anos numa mesma turma, na maioria vezes, as turmas mistas surgem por necessidade. Aparecem pela escassez de população escolar, pela dispersão das populações, pelas dificuldades de transporte e pelas restrições de recursos. O problema não tem solução fácil. Pergunte-se: o que será melhor, ter 15 alunos de três anos diferentes de escolaridade na mesma turma, ou fechar a escola e fazê-los viajar 40 km todos os dias para se juntarem a alunos de outras localidades, ou ainda contratar dois professores adicionais e fazer turmas de 5 alunos? Em anos de restrições orçamentais, e mesmo em anos de menos dificuldades, tem sentido contratar dois professores adicionais nestes casos? Será pedagogicamente rico, para os alunos, passarem os seus anos na escola apenas com meia-dúzia de colegas de turma? Haverá solução que não tenha problemas?
A discussão foi trazida para a ribalta pública em 2013, quando um deputado da então oposição acusou o governo de fabricar intencionalmente turmas mistas[9]: “Verificamos a existência de um retrocesso brutal, algo que já não se passava há muitos anos.” Além da falsidade da afirmação, como se pode verificar na Figura 2, este debate revela duas características importantes das discussões educativas.
A primeira é a assumpção subjacente de que tudo o que pode ser associado a restrições orçamentais é automaticamente negativo. Na realidade, trata-se da tentativa de capturar os debates educativos pelos interesses da oposição partidária e de algumas cúpulas sindicais, que são frequentemente os de contratar mais professores e funcionários, os de aliviar as cargas horárias e os de ter meios adicionais de financiamento, tais como o pagamento de centros sindicais de formação.
A segunda característica deste tipo de debates é que os interesses dos alunos e da educação são esquecidos. Será que é pedagogicamente negativo ter turmas mistas? Isso discute-se?
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Ora sobre esta última pergunta é elucidativo recorrer de novo aos estudiosos de economia da educação. Em 1995 Simon Veenman fez uma revisão muito completa dos estudos quantitativos do tema, que começaram na década de 30 do século passado, ou ainda antes, e concluiu não ser possível tirar conclusões definitivas. Admitiu, no entanto, uma ligeira vantagem das turmas mistas: em condições semelhantes, estas turmas teriam resultados escolares ligeiramente melhores[10]. Pela mesma altura, dois outros investigadores, A. DeWayne e Robert B. Burns, num outro meta-estudo, contestaram essas conclusões[11]. A indefinição manteve-se, o que levou Angela Wittle, uma das mais conhecidas estudiosas do tema, a tentar ultrapassar o problema dizendo que o importante era transformar a “necessidade numa pedagogia positiva”[12].
Mais recentemente, numa série de estudos de economistas da educação usando métodos econométricos contrafactuais mais sofisticados voltaram a encontrar-se resultados mistos, mas de pequena amplitude. Se algo se pode dizer em geral é que as turmas mistas não acarretam necessariamente problemas significativos de aprendizagem, podendo mesmo ter vantagens[13]. É natural que os efeitos dependam do contexto, da experiência, da formação dos professores e até do currículo. Será interessante também conhecer os efeitos a prazo e não apenas na avaliação imediata. Em Portugal, com a redução da natalidade é natural que o fenómeno persista, pelo que será importante estudar melhor os seus efeitos e conhecer as didáticas específicas mais apropriadas para turmas mistas.
Outro debate recente foi o do investimento em educação. Como referimos, apostou-se em identificar despesa com promoção do sucesso, quando aquela não determina este. Os dados do mesmo estudo de 2015 da OCDE são elucidativos: até um certo nível, uma maior despesa em educação aparece associada a melhores resultados, mas a partir de certo patamar não se encontra uma correlação significativa entre a despesa e o progresso dos alunos.  O gráfico junto mostra-o com clareza, e basta pensar um pouco para o compreender: quando chove na sala de aula, quando faltam cadeiras para os alunos se sentarem, quando não há manuais escolares por onde estudar, qualquer investimento ajuda o progresso dos alunos. Mas a partir de certo limiar, aumentar a despesa não significa melhorar a educação. Entram em jogo muitos outros fatores. Mais do que despender recursos, interessa apontá-los na direção certa.
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Muito naturalmente, Portugal já ultrapassou esse limiar. Mais do que despender recursos, interessa-nos apontá-los na direção certa.
Talvez surpreendentemente, no entanto, quando se chega a este ponto a discussão de novo cessa. Cessa subitamente. Já não interessa?
Valeria a pena, no entanto, olhar para os resultados das políticas. Nos últimos anos, e aqui incluo duas ou três legislaturas anteriores, deu-se essencialmente mais atenção aos resultados. Estabeleceram-se mais momentos de avaliação externa, divulgaram-se mais e discutiram-se mais os resultados das escolas,  deu-se mais atenção aos resultados dos alunos. Em consequência, o conhecimento dos alunos melhorou. No PISA de 2015, pela primeira vez na nossa história desse sistema de medida internacional, ultrapassámos a média da OCDE. No TIMSS do mesmo ano, em Matemática, os nosso jovens do 4.º ano ficaram à frente dos seus colegas da mítica Finlândia, gabada como tendo o melhor sistema educativo europeu. Foram os nossos melhores resultados internacionais de sempre.
Esses resultados conseguiram-se com progressos tanto nos melhores como nos alunos com mais dificuldades, mostrando que a exigência não implica desprezo pelos menos favorecidos, antes ajuda todos a progredir[14]. Além disso, ao contrário de algumas interpretações fantasiosas que irresponsavelmente surgiram, os jovens nas vias vocacionais e profissionais também melhoraram. Melhoraram ainda mais que os da via científico-humanista.
Foram boas notícias. Boas notícias que nos alegraram e que muita imprensa internacional, desde The Economist[15] ao El País[16], destacou.
Mas foram notícias que não estiveram isoladas. O abandono escolar precoce tem vindo a reduzir-se, de cerca de 50% nos anos 90 para os atuais 14%. Entre 2011 e 2015 a taxa passou dos 28%-25%[17] para 13,7%. É muito significativo que esse progresso se tenha vindo a registar em paralelo com a diminuição do desemprego jovem.
Vale a pena determo-nos um pouco sobre a retenção escolar, um indicador em que também as melhorias têm sido visíveis. O gráfico junto mostra a evolução recente. Portugal está muito acima do razoável. As retenções devem ser reduzidas para valores residuais e ainda há muito a fazer. Tenho insistido em que “é importante que os alunos passem, mas que passem sabendo”, pois de pouco ou nada serviria reduzir administrativamente as retenções. Ou seja, o foco da redução das retenções não deve ser dirigido para a eliminação da avaliação, mas sim para a melhoria do ensino, com incentivos e apoios especiais dedicados aos alunos que no momento revelem mais dificuldades.
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Ora os dados portugueses recentes mostram que a subida da exigência e a introdução de avaliações externas às escolas pode criar dificuldades num primeiro momento, mas que o sistema se reajusta e, no momento em que se reajusta, retorna para valores de menor retenção em paralelo com uma subida do conhecimento.  Ou seja, há um progresso real.
Outra indicação do progresso real dos alunos portugueses é-nos dada pelos resultados dos exames e provas nacionais. Apesar da maior exigência, que resulta de metas e programas mais ambiciosos, traduzidos em cartas públicas ao IAVE, instituto independente que elabora os exames, apontando para maior rigor e um nível de provas mais avançado, o certo é que, com oscilações, no 4.º, 6.º e 12.º anos as médias de exames vieram a subir a partir de 2012, e no 9.º ano, com oscilações nos resultados, as retenções diminuíram. Escrevo “apesar” e não o deveria: não foi apesar da exigência, foi devido a ela.
Quais são as razões destes progressos? As estatísticas da educação dão-nos algumas indicações. O estudo PISA de 2015 revela, por exemplo, que um ensino diretivo, com um papel activo por parte do professor, tem melhores resultados que o ensino menos diretivo, mais centrado no aluno. Veja-se o gráfico junto.
A ideia do ensino centrado no aluno, tal como o método de ensino por projetos, tal como a proposta de um ensino transversal destruindo as disciplinas, ou a teoria do ensino em contexto, são todas ideias velhas, desacreditadas pela psicologia cognitiva moderna[18].
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Muitas outras razões precisavam de ser descritas e bem analisadas. Muitas delas são fundamentadas em estudos recentes da psicologia cognitiva, que também apontam para a importância de reforçar o conhecimento, de metas bem estruturadas, de incentivos e de apoios específicos aos alunos com maiores dificuldades.
Os progressos que se registaram em 2015 têm uma explicação facilmente perceptível, e talvez ainda mais para economistas e gestores: um currículo com metas cognitivas precisas e ambiciosas, uma avaliação de resultados clara e com base nas metas estabelecidas, usando exames e provas nacionais, a divulgação dos resultados e incentivos que se traduziram em apoios acrescidos para as escolas que conseguissem empregar bem os recursos. Afinal, nada de misterioso. Simplesmente a judiciosa aplicação dos recursos no progresso dos alunos e no progresso do país.




[1] Eric A. Hanushek e Ludger Woessmann (January 21, 2016), Knowledge capital, growth, and the East Asian miracle, Science 351 (6271), 344-345. [doi: 10.1126/science.aad7796]

[2] Ver uma discussão do desenvolvimento da economia da educação em Stephen Machin (2008), The new economics of education: methods, evidence and policy, Journal of Population Economics 21, 1-19.
[3] Quem quiser perceber melhor o tema pode ler uma súmula da investigação recente no livro de E. A. Hanushek e L. Woessmann, The Knowledge Capital of Nations: Education and the Economics of Growth (MIT Press, Cambridge, MA, 2015). Para estender o período de análise a períodos mais longos poder-se-á ver a obra de R. J. Barro e J. W. Lee, Education Matters: Global Schooling Gains from the 19th to the 21st Century (Oxford Univ. Press, Oxford, 2015).
[4] Para referência, no mesmo período em Espanha passou-se de 30 para 37.
[5] Marôco, João (2017). Portugal’s educational asymetries: Through the lens of PISA, Beyond PISA Results: International Conference, CNE, Lisboa, 16 de maio de 2017.
[6] “Multigrade classrooms”, na literatura internacional.
[7] Conselho Nacional de Educação, Organização Escolar: As Turmas, Lisboa, 2016, p. 33.
[8] Pelo menos a última síntese internacional que conheço: Angela W. Little (2006). Education for all: Multigrade realities and histories, in A.W. Little (ed.) Education for All and Multigrade Teaching: Challenges and Opportunities, Springer, 1-26.
[9] Declarações de C. Zorrinho, Jornal de Notícias, 13 de Dezembro de 2013. É significativo que o tema tenha tido um certo eco. Quem foi menino na cidade não imagina a persistência e a dimensão do fenómeno das turmas mistas.
[10] Veenman, Simon (1995). Cognitive and noncognitive effects of multigrade and multi-age classes: A best evidence synthesis, Review of Educational Research 65, 319-381.
[11] Mason, DeWayne A. and Burns, Robert B. (1996). “Simply no worse and simply no better” may simply be wrong: A critique of Veenman’s conclusion about multigrade classes, Review of Educational Research 66, 307-322.
[12] Little, Angela W. (2006). Education for all: Multigrade realities and histories, in A.W. Little (ed.) Education for All and Multigrade Teaching: Challenges and Opportunities, Springer, 1-26.
[13] Ver, por exemplo, Amanda Quail e Emer Smyth (2014), Multigrade teaching and age composition on the class: The influence on academic and social outcomes among students, Teaching and Teaching Education, 43, 80-90 e as referências aí citadas.
[14] O facto foi reconhecido pela OCDE nestes termos: “In the majority of countries with comparable data, students’ performance in science remained essentially unchanged since 2006. However, mean performance in science improved between 2006 and 2015 in Colombia, Israel, Macao (China), Portugal, Qatar and Romania. Over this period, Macao (China), Portugal and Qatar increased the share of students performing at or above Level 5 and simultaneously reduced the share of students performing below the baseline level of proficiency (Level 2). Consultado online em 6/09/2017 https://www.oecd.org/pisa/pisa-2015-results-in-focus.pdf
[15] "What the world can learn from the latest PISA test results". The Economist. 2016-12-10
[16] “El secreto portugués para mejorar casi 30 puntos desde que existe PISA”. El País, 2016-12-06.
[17] No princípio do ano letivo de 2010/11 era de 28,3%, no princípio do ano letivo seguinte 23,0%, registando-se uma quebra de série.
[18] Veja-se, por exemplo, Daisy Christodoulou, Seven Myths About Education, Routledge, 2014, vários artigos em N. Crato (org.) Ensino da Matemática: Questões e Soluções, Gulbenkian, 2010, nomeadamente o de David Geary, e mesmo o meu velhinho O ‘Eduquês’ em Discurso Direto: Uma Crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista, Gradiva, 2006.

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15.1.18

John le Carré - 1963-2017

Com 54 anos de diferença, o livro da direita lança uma nova luz sobre o da esquerda. 
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Em complemento, a obra "O Túnel de Pombos" (2016), já aqui referida, fala da adaptação cinematográfica de "O Espião que Saiu do Frio", com as peripécias que envolveram Richard Burton e a sua mulher Elizabeth (Liz) Taylor, actriz que o realizador não aceitou para interpretar o papel feminino da personagem homónima Elizabeth (Liz) Gold.
Essa estranha coincidência obrigou a alterar, no filme, o nome da personagem!

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14.1.18

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

O Cristo das Trincheiras no mosteiro da Batalha. A estátua de Cristo crucificado, com braço e pernas partidas, além de ferida de bala no peito, tem o curioso nome de Cristo das Trincheiras. Veio da Flandres, onde, durante meses, fez companhia aos soldados do Corpo Expedicionário Português. Faz agora, no Ano Europeu do Património, um século que tudo isso aconteceu. E faz sessenta anos que o Cristo veio para Portugal. Conhecem-se fotografias da estátua, ainda intacta, no meio das trincheiras. São da autoria de um grande fotógrafo que "cobriu" parte da campanha da Flandres, Arnaldo Garcez. A estátua encontrava-se, em 1918, no cruzamento de estradas perto de Neuve-Chapelle. Aquando da batalha de La Lys, em que os alemães destroçaram a força portuguesa, o Cristo foi também bombardeado e quase destruído. Morreram nessa batalha milhares de portugueses. Os que sobreviveram recordaram sempre o Cristo das Trincheiras, que por ali ficou, mesmo quebrado, durante quarenta anos. Em 1958, as autoridades francesas acederam aos pedidos do governo: a escultura foi entregue ao exército português, viajou de avião para Lisboa e daí para a Batalha, onde, a 9 de Abril de 1958, foi fazer companhia, na Sala do Capítulo, ao túmulo do Soldado Desconhecido, que já ali se encontrava desde 1921.
DN de 14 Jan 18

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Sem emenda - A inocência perdida

Por António Barreto
A nomeação, pelo Presidente da República e sob proposta do Governo, do Procurador-geral da República, é dos actos mais sérios do elenco de competências dos titulares de órgãos de soberania. A seriedade deveria ser a regra, o que não exclui debate. Transformar aquela designação, a quase um ano de distância dos prazos devidos, numa cena de intriga não é próprio de uma República decente. Governantes, partidos, jornalistas e gente avulsa já se encarregaram de estragar a próxima nomeação, de que alguém sairá mal.
Como é evidente, há, em teoria, várias soluções para o problema. O mandato pode ser sem renovação. Ou só com uma, ou duas ou três. Ou sem limite. Há em Portugal soluções para todos os gostos: o Presidente da República, os Presidentes de Câmara e de Junta de Freguesia, os juízes do Tribunal Constitucional, o Procurador-geral da República, o Provedor de Justiça, o Presidente do Tribunal de Contas, o Governador do Banco de Portugal e outros. Quando o legislador quis estabelecer limites, estes ficaram explícitos. Se não estão, é porque não há. Gostemos ou não. Todas as soluções são legítimas e legais, desde que expressas na lei. Cada um pode gostar mais de uma ou de outra, é seu direito. O que não se pode é divagar sobre as intenções do legislador, conforme as conveniências pessoais. Mas parece que é por causa disso, das divagações, que há tantos juristas e gente que sabe tanto de Direito!
Por mais legítima que seja, por mais racional e cuidada que venha a ser, qualquer decisão ficará sempre marcada pela intriga. O próximo PGR nascerá estigmatizado por uma espécie de reserva de desconfiança. A escolha ficará para sempre sob suspeita. Para salvar ou condenar Sócrates? Para liquidar ou ressuscitar Salgado e o Grupo Espírito Santo? Para ocultar ou trazer à luz do dia administradores do BES e do GES que se têm mantido na sombra? Para ajudar ou prejudicar os socialistas? Para sentenciar ou poupar Granadeiro, Bava, Vara, Penedos, Vicente, Oliveira e Costa, Lalanda, Macedo e outros? Para afastar do horizonte ou renovar a questão da lista das 200 personalidades dos Panamá Papers de que tanto se fala? Para arredar de uma vez por todas ou trazer à superfície o persistentes rumor sobre as gravações alegadamente nunca destruídas das escutas telefónicas de Sócrates e de muitos políticos e empresários?
As razões para desconfiança são muitas. Mas uma coisa é certa: a próxima nomeação não será inocente. A escolha será feita por causa dos boatos. Qualquer que seja a decisão, haverá desautorização, cedência, recuo ou derrota de uma ou várias figuras centrais do Estado: Ministra, Primeiro-ministro, Procuradora e Presidente da República. Não é muito saudável.
A renovação do mandato da actual Procuradora (que parece ter feito excelente trabalho) ou a sua substituição têm de resultar da vontade explícita do governo e do Presidente da República. Creio que nunca saberemos o que pensam a Ministra, o Primeiro-ministro, a Procuradora e o Presidente da República. Só sabemos que há gente interessada em liquidar o fim do mandato da actual Procuradora, em tornar ilegítima a nomeação futura, em fragilizar o Presidente da República e em perturbar o curso de alguns dos mais difíceis processos da história do país dos últimos cem anos!
Aliás, não passou despercebida a coincidência, no tempo, entre a intenção de substituir a Procuradora, a recordação dos “casos das adopções da IURD” e a apresentação, ao Presidente da República, de um primeiro rascunho para um Pacto de Justiça proposto pelos corpos e sindicatos.
É cada vez mais possível que nunca haja julgamento das figuras importantes da política, do Estado, dos partidos, da economia e da banca. Que nunca haja legislação eficaz sobre corrupção. Que a crise da Justiça se desenvolva. Que o Pacto de Justiça, já hoje mal nascido, seja enterrado. Este debate sobre a nomeação da Procuradora é desnecessário, extemporâneo e muito prejudicial, além de perversamente orientado. É um atentado à Justiça. 
 DN, 14 de Janeiro de 2018

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13.1.18

Este cartune tem uma incorrecção: os likes não foram tantos...

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O ANO FEYNMAN

Richard Feynman
Por Carlos Fiolhais
Bem sei que em 2018 se comemora o bicentenário do nascimento de Karl Marx e da publicação de Frankenstein, a obra-prima de Mary Shelley, e o centenário do armistício que pôs termo à Primeira Grande Guerra e dos nascimentos de Nelson Mandela e de Leonard Bernstein, assim como o meio centenário do Maio de 1968 em França e da estreia de 2001 Odisseia no Espaço, a obra-prima de Stanley Kubrick. Mas, para mim, 2018 é principalmente o ano do centenário do físico americano Richard Feynman, Prémio Nobel da Física de 1965 pelo seu trabalho sobre a electrodinâmica quântica, a teoria quântica dos electrões e da luz, e uma das maiores lendas da ciência do século XX.
Nova-iorquino de ascendência judaica, o facto se só ter começado a falar aos três anos não o impediu de logo revelar uma voraz curiosidade. Licenciou-se em Física no MIT e doutorou-se em 1942 em Princeton, um sítio onde a grande figura era na época Einstein (este, que também começou a falar tarde, estava aliás presente no primeiro seminário que Feynman lá deu). A sua tese de doutoramento inaugurou uma nova maneira de trabalhar com a teoria quântica. O mundo estava em guerra e, no ano seguinte, Feynman foi recrutado para trabalhar no projecto Manhattan, que construiu as primeiras bombas atómicas. Ficou então lendária a sua capacidade de abrir cofres, adivinhando códigos. A seguir foi para Cornell, onde realizou o trabalho que havia de merecer o Nobel.
No início dos anos 50 passou um ano sabático no Brasil, onde aprendeu português para além de aprender a tocar bongo e frigideira. Depois aceitou uma oferta de Caltech onde alcançou o pícaro da fama como professor. Nos anos 60 revolucionou o ensino da física com as suas Feynman Lectures on Physics, um clássico em três volumes. Um livro que traduzi em jovem foi um conjunto de palestras gravadas pela BBC intituladas O carácter da lei física, que dão um cheirinho dessa obra maior. Os direitos dos vídeos foram adquiridos por Bill Gates que os colocou na Internet em acesso livre (Gates chamou a Feynman o ”melhor professor que nunca tive”). Tal como o seu contemporâneo Leonard Bernstein, também ele nova-iorquino e judeu, Feynman tinha uma fabulosa capacidade pedagógica, na qual se aliavam a mestria dos assuntos com a teatralidade da exposição.
Nos anos 80 saíram dois livros auto-biográficos de Feynman que retratam a sua excentricidade: Está a brincar Sr. Feynman! e Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!, ambos traduzidos entre nós na Gradiva. Para proporcionar estes livros às novas gerações surgirão este ano nos Estados Unidos novas edições com um prefácio de Bill Gates.
Feynman já estava doente com cancro quando, como membro da comissão de investigação do desastre do Challenger, mostrou com uma experiência, durante uma conferência de imprensa, como uma anilha do vaivém se tinha quebrado no lançamento devido às baixas temperaturas. Declarou, criticando a NASA: “A realidade tem de estar à frente das relações públicas, já que a Natureza não pode ser enganada”.
Já no final da sua vida tentou visitar a república soviética de Tuva, no centro geométrico da Ásia, só porque em pequeno tinha coleccionado selos dessa república, então independente, mas o clima de guerra fria não o permitiu. Para compensar, o seu colaborador próximo Robert Leighton vai passar o próximo dia do aniversário de Feynman, 11 de Maio, na capital tuvana, que dá pelo nome de Kyzyl. 
Os interesses científicos de Feynman foram variados. Onde havia um problema, lá estava ele a propor uma solução. Onde havia uma possibilidade, lá estava ele a lançar um desafio. Fez em 1959 uma célebre conferência onde lançou a área, hoje pujante, da nanotecnologia. E, em 1982, propôs a ideia de computação quântica, um domínio hoje muito auspicioso. O mundo bem pode agradecer ao físico.
Feynman é hoje um herói popular: há filmes, peças de teatro, bandas desenhadas e até uma ópera sobre ele. Numa das peças aparece a querer ensinar física teórica a prostitutas de Las Vegas. Apesar de ter tardado a falar, Feynman não tinha papas na língua. Só quando morreu ficou sem palavras. As suas últimas, no hospital, continuam a ser citadas: “Não gostaria de morrer segunda vez. É tão aborrecido.”
Público, 2 Jan 18

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12.1.18

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OS FALCÕES AMAM O COUTINHO

Por Joaquim Letria
Estava muito longe de imaginar possível a onda de apoio recebida pelo meu artigo contra o fim do edifício Coutinho, em Viana do Castelo.
Assim sendo, onde estiveram metidos estes vianenses, beirões e transmontanos que me contactam agora mas que se mantiveram em silêncio desde as primeiras ameaças  de execução do prédio Coutinho?
Só próximo da subida ao cadafalso do inocente e agrilhoado condenado esta gente solta em surdina o seu “miserere nobis”, tão em surdina que não chega ao Sr Bispo, reconhecido confidente do Sr. Presidente da Câmara.
O carrasco é contratado fora de Viana pelo cachet de 1,2 milhões de euros e inevitáveis alcavalas. Quem o manda vir é aquela organização que localmente adoptou o nome de Vianapolis, sucursal da Polis, invenção política nacional para aproveitar sobras que vêm do tempo da Expo e dos estádios de futebol desnecessários e às moscas. Antes de a baptizarem com o elegante nome latino houve até quem lhe quisesse chamar SDR, Sociedade do “Deixa o Resto”.
Obras conhecidas das polis locais são os passadiços de Arouca e da Lagoa de Santo André e aquela horrorosa espécie de caixotes e contentores de cimento com que nas praias da Costa da Caparica substituíram no areal restaurantes e esplanadas, em particular a saudosa Carolina do Aires, que era um encantador “chalet” de madeira.
A Polis é uma espécie de Protecção Civil. Alberga boys e girls que vão restando das câmaras, das empresas autárquicas e dos ministérios. Em Viana do Castelo até parece ter feito um bom trabalho no alisamento da zona das ribeiras. Mas a destruição do Coutinho, ainda que subestabelecida a uma empresa exterior, será a maior obra da Polis a nível nacional, apesar de não ser através da espectacular implosão, desejada pelo Sr. Sócrates ainda a Ordem não tinha declarado que ele não era engenheiro, e tinha ele visto o engº Belmiro de Azevedo a deitar abaixo os hotéis da Torralta, em Tróia, para fazer um casino.
O Coutinho resistiu a Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates, Passos Coelho, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva, mais a tropa fandanga de ministros, secretários de estado, assessores, juízes, advogados, engenheiros e autarcas. É muito, para um prédio só.
Até por isto o Coutinho merece um indulto de Marcelo Rebelo de Sousa e um “face lifting” de António Costa, sendo este exercício estético para que a Câmara e a Vianapolis não sejam prejudicadas. Quero eu dizer: em vez de ganharem dinheiro a deitá-lo abaixo, arrebitem o Coutinho, que também rende algum.
Podiam até pedir ao Dr. Defensor Moura, que morou lá e não conseguiu assinar a certidão de óbito, que lhe receitasse uma dieta e algum exercício ligeiro próprio para quem nasceu legal e viveu sempre saudável, sem fazer mal a ninguém, até ser rodeado pelas negociatas e cair à mercê das associações de amigalhaços que todos conhecemos de ginjeira.
Em Junho de 2017, uma torre de apartamentos com 24 pisos ardeu em Londres, matando 79 moradores. Provou-se ser revestido de materiais inflamáveis resultantes da conservação a que a autarquia procedera. Hoje, a torre está ainda a ser reparada e ninguém a quis abater, apesar de construída numa cidade plana e de casas baixas. Mais: as autoridades da cidade resolveram verificar as outras construções a seu cargo, no que resultou terem descoberto que mais 11 torres de 20 e tal andares necessitam de ser reparadas para a eliminação de materiais perigosos. E estão a fazê-lo. Ninguém falou, nem fala, em derrubar uma única destas torres, tão legais e ainda maiores do que o Coutinho. Mas isto ocorre numa das maiores cidades do mundo, grande capital europeia dum país rico, poderoso e educado, onde para estética e cultura basta falar da National Gallery, da Tate Gallery, do National Theatre e do Covent Garden.
Com a procura de tanto pessoal lusitano para os hospitais, os ingleses bem podiam importar o Dr. Defensor Moura e se o proibissem de assobiar no hospital, ele podia entreter-se a deitar torres abaixo, como fez em Viana, até o internarem ou devolverem à procedência.
A minha esperança reside nos Falcões Peregrinos e, graças a estes, no PAN. Por diversos motivos, a começar por ser o partido dos animais e da natureza, mas também pela sua posição quanto à lei do financiamento dos partidos e acabando na ninhada de falcões peregrinos que fazem casa no Coutinho e que são uma espécie ultra protegida em toda a Europa por ser rara e se encontrar em vias de extinção.
O falcão peregrino é uma das últimas esperanças do Coutinho, porque de moradores, sejam eles inquilinos ou senhorios, velhos doentes ou crianças risonhas, ninguém quer saber.
Publicado no Minho Digital

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Antiguidades - 3

Retomando a divulgação de anúncios antigos

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11.1.18

... e a propósito de pobres...

Um cartune de Rodrigo de Matos — já antigo, mas sempre actual...

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Pois...

Si Robin Hood levantara la cabeza se quedaría atónito de cómo están cambiando los tiempos. En Portugal se va a usar el dinero de la caridad para salvar un banco. La Santa Casa de Misericordia, primera institución benéfica del país, destinará la quinta parte de sus activos, unos 200 millones de euros, para conseguir el 10% del Montepío, el último banco con problemas de Portugal. La extraña inversión, calificada por las agencias de rating como “especulativa” y “basura”, no ha levantado la más mínima crítica de la clase política, de la derecha a la extrema izquierda, que han pasado de rondón sobre tan delicada situación. El actual presidente de la Santa Casa —que tiene el monopolio del juego en Portugal y un infinito fondo inmobiliario— declara que su inversión se hace “con alguna tranquilidad” en un banco que tiene “alguna solidez”.
De momento todas las sospechas lanzadas provienen de ex. El ex ministro Bagão Félix dispara con bala: “Ya sabíamos que la Casa, de santa, no tenía mucho, pero ahora de Misericordia pasará a Banquera”.
Detrás se ve una solución imaginativa para salvar el último banco portugués con problemas. En la crisis bancaria que el Gobierno socialista ha afrontado desde que llegó al poder ha ido aplicando recetas cada vez más rebuscadas. Comenzó en 2015 con la venta urgente del Banif al Santander (por 150 millones y las deudas para el Estado); después inyectó miles de millones en la Caixa Geral de Depósitos (sin que contara para el déficit); después vendió por 0 euros el Novo Banco a un fondo norteamericano (que deberá inyectar 1.000 millones en tres años). La última oveja negra es Montepío, pero el Gobierno ya no puede recurrir a más ayudas públicas, así que la chapucera solución es que una entidad supuestamente independiente y privada, como la Santa Casa, invierta en un banco. El riesgo no es solo una operación “potencialmente ruinosa”, según el ex ministro, sino que en la Santa Casa nacida para ayudar a los más necesitados, ahora el más necesitado es un banco. ¿Será que todos los pobres portugueses ya tienen el riñón cubierto?
El País - 5 Jan 18

Manifesto pela canibal

Apelo à legalização da canabis, numa loja de brinquedos, em Lagos - Foto CMR
Por Ferreira Fernandes
Eu estou bem colocado para dar um pontapé no Pedro Marques Lopes caído no chão: somos amigos. Ele é amigo, dos melhores, daqueles que se conhecem tarde e se escolhem. Amigo com quem discuto tanto e com o consolo, meu, de ficar quase sempre claro, para mim, que sou eu a ter razão. É bom ter amigos assim. 
Ontem, o Pedro escorregou como só ele, de forma original e com estardalhaço, com a ponta dos dedos. Escrevia ele um tweet sobre a momentosa questão expressa num título do Público, "Carta aberta pede legalização da cannabis para fins medicinais", e, então, ele postou: "Só há uma explicação para a canibal ainda não ser legal para fins terapêuticos: uma imensa ignorância." 
Eis um assunto (refiro-me ao tratado pelo jornal Público) sobre o qual eu não tinha nada para dizer, mas com a incómoda suspeita de falhar a ocasião de defender uma causa justa. Porém, outro assunto (refiro-me ao tweet do Pedro) veio libertar-me da indecisão. Sei que vou aproveitar-me da partida que o corretor ortográfico lhe pregou e vou juntar-me à turba (quase toda risonha e simpática, aliás) que gozou ontem com o Pedro e a sua defesa de uma insólita causa: a inalienável urgência de tornar a canibal legal para fins terapêuticos. Em doses pequenas, simples mordidelas, também acho que a canibal devia ser legalizada. Até digo mais, não vejo a necessidade de qualquer doença para o consumo, moderado, da citada mesinha. O tipo de marcas que a canibal deixa é imediato, ao contrário do álcool que só tarde nos previne com um nariz vermelho, já quando é irremediável a decomposição de órgãos internos. Prevenidos com as dentadinhas dela, à canibal nunca a deixaremos chegar ao fígado. 
Parabéns, pois, querido Pedro, pelo manifesto que ousaste, embora sem quereres. E voltando ao assunto de que eu não sabia como escrever por ignorar tudo, o aparecimento da canibal vem acompanhado de uma vantagem sobre a canábis: não vejo como aquela traga qualquer dependência.
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Um Ponto é Tudo - DN 11 Jan 18

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O CDS, o financiamento partidário e o PR


Por C. Barroco Esperança
Sou de opinião que o financiamento partidário, para além das quotas dos militantes e donativos de simpatizantes, não deve ser feito por empresas. Não há almoços grátis.

A democracia é mais dispendiosa, mas a ditadura, sendo mais barata, custa a liberdade e a honra de um povo. Quem, como nós, viveu na ditadura fascista, com censura, prisões sem culpa formada, violações de correspondência, torturas, vindictas, degredos e guerra colonial, devia ser sensível ao esforço coletivo para a defesa e manutenção dos partidos, de cuja existência e competição depende o funcionamento normal de uma democracia.
Quando julgávamos que todos os partidos se tinham entendido sobre a melhor forma de preservar a independência e desenvolver a sua atividade, após reuniões interpartidárias que, como é habitual, não elaboram atas, a decisão, que parecia consensual, foi discutida e votada na AR. Eis que, ao arrepio do que acontecera nas reuniões, o CDS veio pôr em causa o consenso partidário, com a baixeza da acusação de que tinha sido obtido numa espécie de clandestinidade, em que o delator aceitou participar.
A Dr.ª Assunção Cristas, não tendo a preparação e experiência política de Paulo Portas, herdou-lhe a maldade e a dissimulação. Na luta eleitoral, não hesita na traição ao PSD, a quem se oferecerá para muleta quando se tratar de ser poder.
Lamentável foi também a cobertura do PR ao despautério da D. Cristas e ao frenesim da comunicação social. Ignora-se se as reuniões do Conselho de Estado passarão, em nome da transparência, a ser públicas e, num apelo populista e demagógico, divulgadas.
O PR que não está ao abrigo do escrutínio popular, apesar da simpatia de que goza por mérito próprio e que é fácil manter no cargo não executivo que ocupa, alimentou, com a sua postura, a chicana política que obrigou a manter a lei que o Tribunal Constitucional pedira para ser modificada, a fim de permitir melhor fiscalização das contas partidárias.
Esqueceu Sua Excelência, o PR, que Marcelo era presidente do PSD e Marques Mendes líder parlamentar quando propuseram ao PS a negociação da revisão de 1997 fora do Parlamento, “com quietude, discrição e imunidade à comunicação social e às pressões externas”, como consta da sugestão do PSD onde deixou claro que, só depois do acordo obtido nas “conversações diretas”, seria assinado por António Guterres e Marcelo, como sucedeu.
A lealdade de Jorge Lacão para com os deputados do PS levou-o a exigir a envolvência dos dois grupos parlamentares, o que provocou a rebelião do seu grupo parlamentar, perante a mansidão do PSD, e que o levou a assinar o acordo com Marques Mendes na situação de demissionário.
Então, para vastas e importantes matérias constitucionais, não lhes tremeu a mão para as negociações de Marques Mendes e Jorge Lacão, à sorrelfa, sem os outros partidos, para rever a CRP. Agora, por amnésia, porque considero Marcelo incapaz da vileza, Marques Mendes e o PR consideram torpeza o que então apoiaram.
O respeito pela função presidencial, e a presunção de que Marcelo terá esquecido que já confirmou essa ‘informalidade’ no prefácio que escreveu para um livro do deputado do PSD, Luís Marques Guedes, leva-me a condenar apenas Marques Mendes, cujo carácter ficou à vista.

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10.1.18

Os cartunes de Rodrigo de Matos

Em tempos, e se não me falha a memória, Rodrigo de Matos convidava os leitores a escrever um texto para inserir no "balão". 
Mas para quê? Assim, "Sem palavras", está perfeito!

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A propósito de "Star Wars"

A crónica do Nuno Crato é muito interessante, mas em alguns aspectos não concordo com ela.
Claro que é muito bom que o ficcionista se mantenha dentro dos princípios do "possível" - Júlio Verne, mesmo nas suas obras mais delirantes, esforçava-se por isso.
Mas em ficção há uma coisa chamada "suspensão da descrença": o pacto entre o autor e o leitor (ou espectador) em que ambos fazem de conta que o que estão a ler (ou ver) é verdade (ou, pelo menos, podia sê-lo).
E, em muitos casos, esse faz-de-conta pode entrar pelo impossível adentro.
Que diabo! Então não é isso que fazem tantos autores consagrados (como H. G. Wells, Michael Crichton, Spielberg e por aí fora) com — p. ex. — as suas Máquinas-do-Tempo, algo que eles mesmos sabiam ser impossível? 
Percebe-se que Nuno Crato se insurge porque em Star Wars se pede demais a essa "suspensão da descrença", e as suas clarificações são óptimas pedagogicamente. Simplesmente, eu julgo que exagera um pouco...
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Mas, atenção: já não digo o mesmo em relação ao que a imagem mostra, onde as cores do arco-íris estão na sequência errada! (*). Trata-se de um erro famoso, desnecessário para a história, e incompreensível — tanto mais que Hergé era, precisamente, um autor extremamente cuidadoso.
(*) - Esta sequência estaria correcta para o arco-íris secundário, que por vezes se consegue ver por cima do principal. Mas não é este o caso, obviamente.

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