24.4.14

Viva o 25 de Abril

Por C. Barroco Esperança
Há quem, antes, não tivesse precisado de partido, não sentisse a falta da liberdade e se desse bem a viver de joelhos e a andar de rastos.
Houve cúmplices da ditadura, bufos e torturadores, quem sentisse medo, quem estivesse desesperado, quem visse morrer na guerra camaradas, soubesse os amigos nas prisões e se calasse. Mas houve quem resistisse e gritasse e quem foi calado a tiro ou nas prisões.

Uns pagaram com a liberdade e a vida a revolta que sentiram, outros governaram a vida com a desonra que calaram.

Houve quem visse apodrecer o regime e quisesse a glória de exibir o cadáver e a glória da libertação. Viram-se frustrados por um punhado de capitães sem medo, pela plêiade de heróis que tudo arriscou para que todos pudéssemos ser livres. (...)
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GRALHAS SEM GRALHAS - Trinta e um

Por Antunes Ferreira 
Trinta e um, contados a toque de sino, nem mais nem menos, trinta e um. Sem querer recordo o velho fado que Carlos Ramos celebrizou. Como este não há nenhum... Como esta só há em Roma, dizem os entendidos, com a correspondente prosápia. Deixemo-nos de trocadilhos que o tema é sério, sem nenhuma justificação; já dizia a minha avó Maria da Assumpção que graças a Deus, sempre; graças como Deus, nunca. (...) 
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Museu do Marceneiro

Por A. M. Galopim de Carvalho
VISITEI há dias, em Évora, o jovem Museu do Marceneiro. Desde que foi inaugurado, há cerca de dois anos e meio, que desejava fazê-lo e a minha expectativa era muita. Aprendiz de carpinteiro que (num brincar muito a sério) fora na oficina do mestre Roberto, chamava-me um tempo, de há muitas décadas, em que, sob o olhar vigilante deste meu vizinho e amigo, experimentei usar e usei algumas das suas muitas ferramentas. Lembrei-me do rebolo de amolar, grande, redondo e vermelho, da cor do barro, meio mergulhado em água. Nele, pedalando, o meu “mestre” afiava os badames, os formões e os ferros das plainas, rabotes e garlopas.(...)
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Um Professor não é um Robot

Por Maria Filomena Mónica
PASSEI AS ÚLTIMAS semanas a discutir o estado da escola pública em Portugal e no estrangeiro. Por cá, o escândalo reside na papelada idiota que, via Internet, o Ministério da Educação envia aos docentes. Lá fora, na concepção de que a escola pode ser ultrapassada por cursos on-line. Já segui certas lições, algumas excelentes, mas sei que nem as melhores conseguirão substituir um professor. Porque a aprendizagem é uma «conversa», isto é, uma iniciação no mundo do Saber.
Os professores são, serão sempre, necessários. É por isso que as turmas devem ser de reduzida dimensão; é por isso que o silêncio na sala de aula é precioso; é por isso que as crianças devem ter aulas desde uma idade precoce. Sem bons professores, não há boas escolas e sem boas escolas as sociedades tendem a ser crescentemente desiguais. Não foi a partir da minha experiência infantil que me apercebi de quão essencial era ter um bom professor. Foi preciso ter chegado a Oxford para que um filósofo, Alan Ryan, me lançasse à água sem que eu soubesse nadar, tendo-me acompanhado sempre que notava estar eu em vias de me afundar.
Li recentemente uma carta, dirigida a um professor primário argelino, que desejo citar. É de Albert Camus. Data de 1957, o ano em que recebeu o Prémio Nobel: Caro Monsieur Germain, Deixei que a barafunda à minha volta se tivesse acalmado para vos dizer o que, do fundo do meu coração, desejo comunicar-lhe. Quando ouvi a notícia do Prémio, depois de ter pensado na minha mãe, a segunda pessoa de que me lembrei foi de si. Sem a sua presença, sem a mão carinhosa que estendeu ao rapazinho pobre que então eu era, sem o vosso ensino e o vosso exemplo, nada do que agora aconteceu poderia ter ocorrido. Não dou demasiada importância a este tipo de honrarias. Mas, pelo menos, esta deu-me a oportunidade de vos dizer o quanto a sua pessoa representou e ainda representa para mim e de vos assegurar que os vossos esforços, o vosso trabalho e o coração generoso que punha em tudo quanto fazia ainda vivem no pequeno aluno que, apesar dos anos, nunca deixou de vos estar agradecido.»
Isto passava-se numa colónia francesa, certamente numa escola sem recursos, o que não impediu o miúdo de aprender o suficiente para conseguir ingressar no liceu local. Hoje, a escola massificou-se, o que suscita problemas nem sempre tidos em conta. Muita gente da minha geração – ver, por exemplo, a recente declaração de Durão Barroso sobre a excelência do ensino antes da Revolução de 1974 - fala da escola pública como se a composição das turmas se não tivesse alterado. Mas basta entrar numa escola contemporânea para se notarem as diferenças, desde os alunos, de origens sociais, étnicas e religiosas variadas, até aos docentes, muitos deles jovens exaustos depois de terem passado horas a preencher os questionários delirantes que os burocratas do Ministério lhes enviam. A pergunta, inevitável, é a seguinte: será uma escola digna compatível com a escolaridade de massas? Sim, desde que a tutela cesse de olhar os professores como robots. 
«Expresso» de 18 Abr 14

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23.4.14

Para o que der e vier

Por Baptista-Bastos
A memória luminosa desses dias eles não nos conseguem tirá-la. Há qualquer coisa de sagrado nesse regresso: perdida a juventude, perdida a religião, emergia uma espécie de salvação individual em cada um. A liberdade contém algo de poderosamente indefinido, sobretudo para quem, como nós, que dela fôramos brutalmente privados. "Não quero morrer sem conhecer a cor da liberdade", cantou, melhor do que qualquer outro, o poeta Jorge de Sena. Ele conheceu essa cor, e disse-o, numa franja mágica de vida que ocultava o trágico da experiência. Mas os que alguma vez tiveram a felicidade de nela mergulhar percebem que têm de pagar um preço, por vezes triste, mareado de pequenos tormentos. O que aconteceu, a seguir aos dias resplandecentes, foi-nos dito ser a paga da nossa soberba e da nossa louca alegria. Coisa de remorsos mal emendados ou de punição por um júbilo quase perverso que nos envolveu.
Bebemos em excesso, vivemos apressadamente, deixámos a cólera de lado a fim de nos atirarmos para o vórtice dessa blasfémia de ser livres. A bebedeira dos sentimentos nascia da proibição dos sentidos a que tínhamos sido obrigados, e descobrimos, espantadíssimos, que a noite era um outro mundo. A noite, ah!, a noite, um outro mundo repleto de surpresas, couto de todos os sonhos. Pertenço a uma geração que partilhou a preocupação de não suprimir a ética das relações. Pertenço a uma grande geração que provou o tempo, e o bebeu quase até à última gota. Estes que tais não entendem o registo desses sentimentos, nem a grandeza secreta das nossas emoções e a dimensão da nossa história. Fomos educados para o medo e o ódio. E só havia uma resposta para este problema: lutar pela liberdade. Com que armas se o salazarismo tinha suprimido a mais elementar de todas elas: a liberdade de expressão.
Chegámos a este estado mas sabemos que não há verdades definitivas enquanto se esperam soluções provisórias. "Eles não sabem nem sonham / que o sonho comanda a vida" disse António Gedeão. E também não sabem que são aparentes vencedores. Ouvir para lá do que dizem as palavras. Perceber o que se oculta nas conversas, eis.
Aprendemos, com Abril, o que apenas pressentíamos. Nas tertúlias, nos cafés, os encontros constituíam um ponto para tomadas de consciência e de reflexão. A vida do espírito que promovia o espírito da vida através do conhecimento, da paixão da liberdade e da vontade de combater quem e o que se lhe opusesse. Ouço-os e penso: quem acredita nestes insignificantes, quem vai atrás desta gente que possui da verdade um conceito obscuro; quem?
Temos passado por uma violência sem nome, por uma tenaz que nos destrói e aos próprios laços sociais. Porém, como disse, um dia, o Manuel da Fonseca: cá estamos para o que der e vier.
«DN» de 23 Abr 14

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Curiosidade gastronómica

No Continente de Grândola

20.4.14

Maria Luís e Lima com açúcar e desafeto

Por Ferreira Fernandes 
Insistem muito comigo sobre o que faço: crónica ou coluna de opinião? Como prova de que não saberia fazer esta última, a minha resposta mais comum é: sei lá! Saberia lá eu citar Max Weber para explicar a decadência das coligações através de uma frase da ministra Maria Luís Albuquerque, à terça, prometendo "tributação sobre produtos que têm efeitos nocivos para a saúde", seguida do ministro António Pires de Lima, à sexta: "Não há taxa. É uma ficção, um fantasma que nunca foi discutido em Conselho de Ministros e cuja especulação só prejudica o funcionamento da economia"... 
Um colunista de opinião argumentaria sobre a contradição entre A (Albuquerque) e B (Lima) e mostrava como essas notícias confirmam o que já fora escrito por Bertrand de Jouvenel no magistral Essai de Politique Pure. Mas eu sou mero cronista, mais terra-a-terra. Sou colecionador de borboletas e o mais alto que vou nem sou eu, é a rede, caçando lepidópteros que voam por aí. O conflito no interior do Governo por causa das taxas sobre o excesso açúcar não me escapa, como não escapa aos opinion makers. Mas numa crónica (nas minhas, pelo menos) não se sobe acima da chinela. Lembro a taxa da Albuquerque só porque ela ilustra o sugar de néctar, tão próprio das borboletas. Lembro o suicídio da coligação de Lima, por evocar a vida efémera das borboletas. Se a vida (a crónica do quotidiano) fala por si, porque hei de eu aborrecer-vos com a minha opinião?
"DN" de 20 Abr 14

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Luz - Pereira, Colômbia, vista do alto de um hotel

Fotografias de António Barreto- APPh

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Pereira é a capital do “Eje cafetero”. Região de montanhas muito verdes, longe de Bogotá, terrenos férteis onde o café cresceu em excelentes condições. Percebe-se que está tudo em crescimento mais ou menos desordenado, muito desigual, mas com pujança. Parece que a guerrilha e o terrorismo não foram fortes por estas bandas. (2013)

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OS SEDIMENTOS E A PAISAGEM FÍSICA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Na enciclopédia escrita no século X pelos Irmãos da Pureza pode ler-se: a erosão destrói perpetuamente as montanhas e o escorrer das águas pluviais arrasta rochedos, pedras e areia para o leito das torrentes e rios que, por seu turno, ao escoarem-se, acarretam tais materiais para os pântanos, lagos e mares, onde os acumulam sob a forma de camadas sobrepostas.
We could read the Earth’s history in geological record of its stratified sedimentary rocks.
(James Hutton, 1726-1797).
O “Livro dos Sedimentos”, reconstruído pelo esforço de diversas gerações de geólogos, equivale a um extensíssimo documento histórico, ao lado do qual todos os alentados volumes da História da Humanidade não passam de insignificantes opúsculos (George Gamov, 1941). (...)
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18.4.14

Por favor, procurem José Arcádio Buendía

Por Ferreira Fernandes
Há 20 anos, os diretores do DN Bettencourt Resendes e Fragoso Mendes enviaram-me a Cartagena, Colômbia, representá-los num encontro de diretores de jornais ibero-americanos. Sou péssimo em formalismos mas, na verdade, a viagem servia de pretexto para reportagens, que fiz depois, em Cali e Medellín sobre a droga. No entanto, guardo do encontro de Cartagena uma foto de que gosto. Estou no grupo de diretores (eu, como já disse, intrometido), prestando guarda de honra ao cidadão mais nobre da terra, o único em camisa, uma bela guayabera cercada pelas nossas gravatas. É a única foto que tenho com Gabriel García Márquez e é natural que assim seja porque ele não sabia nada de mim e assim continuaria até ontem. Gosto e orgulho-me dessa foto de grupo, porque a conquistei. Conquistei o direito de não ter uma foto indecentemente agarrado a Gabo, como quase todos (suspeito até que todos) fizeram naquele fim de tarde entre as muralhas de Cartagena. Estou ali, secundário, como devia ser perante o autor de Cem Anos de Solidão. Nunca ouvi Jacques Brel num palco, mas havia-me convencido de que se tal tivesse acontecido não bateria palmas - não cometeria a iconoclastia de responder a deuses, nem com agradecimentos. Mas seria assim, mesmo? Sim, afinal, era capaz. Estive com o deus que criou o mundo de Macondo e foi pai de sete gerações de Buendías, nunca estive tão perto de um escritor que amei tanto e fiquei no meu lugar.
«DN» de 18 Abr 14

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Os pinta-paredes (100)

Lisboa - Junto à estação do Rossio
É de saudar que tenha sido pintada a parede da direita, ocultando os gatafunhos (foto de cima). Já agora, dava jeito que se arranjassem mais uns litros de tinta, para fazer o mesmo nas da esquerda...

17.4.14

Jornais que por trás parecem uma velha

Por Ferreira Fernandes
O regresso de Ricardo Araújo Pereira (R.A.P.) foi um falhanço, como dizem os títulos dos jornais: na estreia, o programa de humor Melhor do que Falecer ficou aquém da novela da SIC. Share do infeliz: 25,9 por cento; share da novela: 29,4 por cento! Comparação tão adequada só me lembro do vinho Barca Velha 1966 que vendeu menos garrafas do que o carrascão ribatejano vendeu de tonéis de 200 litros. Nesse ano, o share do carrascão traçado a gasosa foi arrasador nas tabernas do Bairro Alto enquanto no vizinho restaurante Tavares só se abriram duas Barca Velha. Essa é a verdade dos números e ainda bem que os jornais sabem comparar. Depois de fazer um belo genérico com a voz do Camané, escolher para companheiro Miguel Guilherme que só com o levantar do sobrolho esquerdo diz mais do que as falas dos 164 episódios da tal novela e logo no primeiro programa fazer um texto para pensar e um texto para rir, R.A.P. não fez mais nada. R.A.P. é só um génio mas o povo português não está para essas inutilidades, pensar e rir. R.A.P. acabou a interpretar um popular atazanado com um drama nacional pouco falado. Perguntou às autoridades: "O que é que está a ser feito no âmbito das crianças que vistas por trás parecem uma velha?" No seguimento, aos jornais portugueses - que, como se sabe, são um primor de qualidade e um modelo de negócio com sucesso - deu-lhes para comparar shares... O balanço é este: R.A.P. e jornais, dois grandes momentos de humor.
«DN» de 17 Abr 14

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A cidade da Guarda e a campanha de Humberto Delgado (Crónica)

Por C. Barroco Esperança
Humberto Delgado, com Maria Iva e Iva Delgado, no Hotel de Turismo Não sei se resistiu ao tempo e aos acasos da sorte a carta que escrevi a felicitar Arlindo Vicente, pela sua candidatura, em 1958. O deslumbramento pela advocacia e o desdém por Salazar eram motivos da preferência e razão da carta que, se a memória me não trai, foi subscrita por todos os alunos da turma (5.º D) do Liceu Nacional da Guarda, com a única exceção do Edgar. Queríamos que fosse ele, Arlindo Vicente, o Presidente da República.
Não sei como não teve conhecimento o reitor e se a carta chegou ao destinatário, com o selo de 1$00 que decerto me privou de alguns cigarros. Não foi audácia, foi ingenuidade que podia ter custado caro a meus pais e, certamente, a minha expulsão do liceu. (...)
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16.4.14

O inalienável direito à garganta funda

Por Ferreira Fernandes
Não é um qualquer. Foi reeleito presidente do maior grupo parlamentar europeu, o Partido Popular Europeu, e é dos mais influentes a preparar a substituição de Durão Barroso. Joseph Daul, de 67 anos, é um conservador francês, deputado europeu pela direita. Ontem deu uma entrevista a um jornal da sua região, Dernières Nouvelles d"Alsace, isto é, falou com cuidado, para quem o elege. Perguntaram-lhe como motivar os jovens sobre a Europa. Respondeu: "Digo-lhes que quando tinha a idade deles e ia a Khel, na Alemanha, a poucos quilómetros de minha casa, para ver um filme pornográfico, proibido em França, perdia horas na alfândega e chegava atrasado. Quando digo isto aos jovens eles percebem o que a Europa quer dizer." Joseph Daul não respondeu ao lado, falou certo. No ano passado, escrevendo sobre o 25 de Abril, lembrei-me do Sr. Glória, dono de uma papelaria na Alameda, frente ao Instituto Superior Técnico. Por aqueles dias de 1974, antes do grande dia, era comum haver manifestações. O comerciante, que servia uma cliente, não levantou a cabeça quando disse: "Ontem lá houve mais bordoada entre estudantes e polícias." Fez mal em não levantar a cabeça, não reparou num desconhecido. Este era um guarda da PSP que "logo lhe deu voz de prisão" (relatou o Diário de Lisboa, 1-2-74). O Sr. Glória foi a tribunal por "propagação de boatos". A liberdade é sagrada. Incluindo ver filmes pornográficos e não levantar a cabeça quando se fala.
«DN» de 16 Abr 14

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«Divergente»

Alguém viu e quer comentar?

Governo cheio de medo

Por Baptista-Bastos
Assunção Esteves não permitiu que um representante dos capitães de Abril, acaso Vasco Lourenço, falasse no Parlamento, durante as comemorações dos 40 anos da Revolução. E acrescentou: "Se não quiserem estar presentes nas cerimónias, o problema é deles." Em duas penadas, a presidenta da Assembleia da República reduziu a subnitrato a imagem de simpatia que conquistara e arrogou-se o triste e subalterno papel de recoveira do Governo.
Os capitães de Abril irão falar cá fora, porventura nas escadarias do majestoso edifício, certamente vigiados e mantidos por cordões de polícias de choque e afins. No hemiciclo, ouvir-se-ão os discursos mais ou menos veementes dos partidos, e a habitual prosa fúnebre dita pelo dr. Cavaco, escrita por outro.
Reconheço que nesta ocasião autorizar a subida ao púlpito de um representante dos capitães é um risco perturbador. O País está de pantanas; este Governo desgraça-nos e ao nosso futuro; a população passa fome; os nossos miúdos vão para a escola em jejum; os suicídios aumentam; e a democracia das incertezas, habitada por uma dinâmica de divisão nacional, realiza o acelerado retrocesso civilizacional. O caos instalado criou múltiplas tensões latentes ou declaradas, e percebe-se que basta uma pequena faísca para se registar uma grande explosão.
Por outro lado, impedir a fala a um homem que nos proporcionou a liberdade sem caução constitui sinal de fraqueza do Executivo, cujos membros já só saem à rua rodeados de "gorilas" e no meio de gritarias protestatárias que chegam a ser assustadoras pela qualidade das indignações. O Governo, este, que induziu o medo e o horror de viver nos portugueses, está, ele mesmo, cheio de medo, um medo múltiplo e viscoso. Assunção Esteves foi outra das demonstrações desse medo, lamentavelmente expresso por uma mulher que parecia "disagionata" desta irracionalidade que nos está a dizimar. Ramalho Eanes disse, há dias, na Gulbenkian que a fome, o desemprego, a indeterminação estão a cindir a coesão nacional. As afirmações foram feitas num colóquio que levara o título, tão absurdo como ardiloso, de "Valeu a pena o 25 de Abril?", cuja natureza mais parecia destinada a esfolar a Revolução do que a celebrá-la. Mário Soares insurgiu-se com o carácter subterrâneo da pergunta, acentuando que "tudo no 25 de Abril valeu a pena." O "dia inicial/ inteiro e limpo", de Sophia, continua generoso e até permite acções tão perversas como a de Assunção Esteves ou a velhacaria do tema do tal colóquio.
Da inutilidade compacta do bate-papo na Gulbenkian à decisão repressiva da presidenta vai o pequeno espaço do nada. Numa recente sondagem, regista-se que a Revolução de Abril mais do que valer a pena foi o incidente luminoso de um novo tempo, que ainda não terminou.
«DN» de 16 Abr 14

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15.4.14

Mais mil, menos mil...

75 cêntimos/senhorio/ano?

Felizmente temos o bom olho de Angela

Por Ferreira Fernandes
Nunca agradeceremos bastante por na antimetropia dos chanceleres alemães termos ficado com o mais conveniente olho virado para nós! Como sabemos, na antimetropia um olho é míope e o outro é hipermetrope. Grosso modo, o primeiro vê mal ao perto e o segundo vê demasiado bem ao longe. Felizmente, repito, calhou-nos o olho míope de Angela Merkel que nos vê de forma difusa e relativamente desinteressada. Por isso só temos de comprar uns Audi para dar prémios e mais carruagens Siemens do que precisamos, temos juros indecentes, obrigação de exportar de borla engenheiros que formámos e uma economia arrasada, só. Poderia ter sido bem pior. O outro olho de Angela, como o dos seus antecessores, está virado para Leste e não para nós. A hipermetropia que olhou e olha para a ex-Jugoslávia e, agora, para a já quase ex-Ucrânia, apesar de parecer trazer um benefício, ver bem, é uma doença. O esforço para focar leva a dores de cabeça, ardor e lágrimas. Mas graças à sua tão celebrada indústria de lentes (quem não conhece as Zeiss?), esses malefícios, em vez de atingirem os alemães do olho hipermetrope, dão cabo daquilo para onde ele olha. Não arrasam só a economia, estilhaçam os países. Graças a Odin e outros deuses germânicos, calhou-nos o olho míope. Danke schön! Fosse o outro olho, já teria havido umas milícias lusas a atacar Olivença, o Porto a cortar com Lisboa e a unir-se a Santiago de Compostela, e a Península Ibérica a ferro e fogo.
«DN» de 15 Abr 14

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14.4.14

Problema dela e problema nosso

Por Carlos Fiolhais
A actual Presidente da Assembleia da República, Maria da Assunção Esteves, é  bem o retrato do grau de indigência da maior parte da nossa actual geração de políticos. É bem sabido que se trata de uma "reformada de luxo", que recebe uma reforma  relativa a um lugar no Tribunal Constitucional, em vez de receber o salário do lugar que ocupa, correspondente ao de segunda figura do Estado. Não tem  capacidade nem de pensamento nem de discurso, tendo chegado ao ponto de inventar palavras talvez por desconhecer as existentes. Não tem a mínima sensibilidade política para se aperceber que devia representar todos os portugueses. Não tem qualquer sensibilidade social, que seria o mínimo exigível nestes tempos penosos.  Ao dizer, como agora disse de forma sumária e intempestiva, que o problema da não comparência dos "capitães de Abril" na cerimónia oficial de comemoração dos 40 anos do 25 de Abril era um "problema deles", não podemos deixar de concluir que não está, de facto, à altura do lugar que ocupa. Mesmo que não concordasse com as pretensões dos autores materiais do 25 de Abril, há formas mais elegantes de se expressar do que essa, mais própria de uma conversa de rua. Desprestigiou a Assembleia da República quando o seu papel era o de prestigiar. É, decerto, um problema dela, mas é, sobretudo, um problema nosso, enquanto a tivermos em S. Bento.

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Marcelo vai atirar Barroso da ponte?

Por Ferreira Fernandes
A semana passou-se entre duas dúvidas dilacerantes, uma estrangeira e uma portuguesa. Ontem, uma teve resposta cabal. Quanto à outra, a resposta foi adiada - e, evidentemente, esta era a portuguesa. 
Vamos à primeira: estará Kate Middleton grávida? O príncipe William, a mulher e o filho de 8 meses visitam a Nova Zelândia, onde uma tecedeira ofereceu um xaile de merino ao bebé. Resposta do pai babado: "Se calhar vai ter de tricotar outro..." Logo correu a notícia de nova gravidez de Kate. Ontem, porém, a duquesa andou por desportos radicais, descendo de lancha o rio Shotover, entre escarpas e canyons. Antes, foi-lhe perguntado, como é de lei, se estava grávida: "E ela disse que não", garantiu o piloto da lancha às televisões. 
Entretanto, nos antípodas, a dúvida era: estava a vinda de Durão Barroso a Lisboa prenhe de intenções presidenciais? Pairou a suspeita, esperando-se a resposta para quando elas costumam ser dadas, domingo à noite na TVI. Mas o professor Marcelo disse que Barroso só veio deitar "um balão de ensaio" e veio ver "se os portugueses já lhe perdoaram"... Enfim, não tivemos resposta definitiva. Talvez para a próxima, se Marcelo adotar a receita neozelandesa. Quando Durão Barroso voltar, e ele vai voltar muitas vezes, Marcelo pergunta-lhe: "Se você quer ser candidato presidencial vai ter de fazer bungee jumping e atirar-se da Ponte 25 de Abril. Atira-se?" No domingo, o professor anuncia: "Ele disse que não."
«DN» de 14 Abr 14

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Apontamentos de Lisboa

Praça da Figueira
Genial! 
As tampas das caleiras (que escoam as águas pluviais) caem, pondo em perigo quem por ali passa? Não tem problema. Tapam-se os buracos com cimento!

Angolanos compraram o DN e tenho medo (2)

Por Ferreira Fernandes
Dizia eu, os angolanos compraram o DN e tenho medo. Medo? Sim, medo de que essa compra possa não ir tão longe quanto promete. Os patrões do espanhol El Mundo são italianos e os do inglês The Independent, russos. Jornais com donos estrangeiros, como agora o DN, é costume crescente. Novo é o DN ter sido comprado por gente da nossa língua e com muito destino comum. Da compra do DN por finlandeses eu esperaria números, e só. Com angolanos quero mais. Portugal e Angola partilham uma condição, necessitam-se, e uma tolice, ignoram-se. Conhecer a primeira e resolver a segunda é de um jornal. A paz angolana, real e já com 12 anos, não se deve a um milagre mas, entre outras razões, por o chefe do Estado-Maior ser o general Nunda, vindo da UNITA. Conhecem muitos rebeldes que chegaram ao topo do exército que combateram? Esse facto poderia ser-nos irrelevante, mas não é: permitiu a milhares de professoras e marceneiros portugueses arranjar emprego. Contar a condução solitária de um camionista minhoto por 600 quilómetros de estrada angolana varreria, por cá, muita teia de aranha. O humorista angolano Gody escolhe cantores na TV Zimbo com a verve e na mesma língua de Ary Barroso (o da Aquarela do Brasil) no programa radiofónico A Hora do Calouro, há 70 anos, no Rio. Gody não tem ideia de quem foi Ary. E porque havia de ter? Olhem, porque Portugal tem interesse em unir aquilo que teceu. Entendem agora o meu medo, que não é medo, é esperança?
«DN» Abr 14

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13.4.14

Pergunta de algibeira

Sabendo-se que as imagens são de «A Marca Amarela», cuja acção decorre em Londres, pergunta-se: Qual a imagem do livro e qual a que foi invertida em espelho?
(A resposta será dada, em actualização, com a afixação da imagem do livro, pág. 36).
*
 Actualização
A resposta certa já foi dada em comentário. Mas o que levou à colocação da questão foi o facto de estes dois carros londrinos (o da Scotland Yard e o de Blake) terem volante à esquerda.
Curiosamente, todos os outros carros que aparecem desenhados neste livro têm (e bem) o volante à direita.
O mais curioso é o Austin castanho de Blake que, na página 60, já aparece com o volante do lado certo (imagem de baixo).

Apontamentos de Lisboa

Pérolas a porcos: uma equipa ao serviço da autarquia cavou e limpou uma fiada de canteiros de árvores. Ficaram "um brinquinho", como se vê pela imagem de cima. 
A outra foto documenta o dia seguinte.

Luz - Boston, em frente ao MFA, Museum of Fine Arts

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem para a ampliar
Esta fotografia foi tirada dois dias depois do enorme nevão e da colossal tempestade que, no princípio de 2013, se abateram sobre o Nordeste dos Estados Unidos, sobre a Nova Inglaterra e sobre Boston em particular. Um dia esplendoroso de sol. Apesar da altura dos montes de neve, as ruas estão já limpas e preparadas para o movimento e o tráfego. Mas ainda há pouca gente a circular normalmente. A visita ao Museu foi feita num sossego admirável, tal era reduzido o número de visitantes. À saída, um camião amarelo esperava em frente, com motorista e um funcionário: vinham buscar duas dúzias de adolescentes que, vindos da escola, tinham ido passar a manhã ao MFA. (2013)

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Granadas (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho
A GROSSULÁRIA é uma espécie de granada de cálcio e alumínio, de fórmula Ca3Al2(SiO4)3, na qual o cálcio pode ser parcialmente substituído por ferro ferroso e o alumínio por ferro férrico. Espécie típica do metamorfismo de contacto de calcários, a grossulária ocorre geralmente associada a vesuvianite, diópsido, wollastonite e wernerite. O termo radica no nome latino da groselha, Ribes grossularia, em alusão à cor verde da variedade tsavorite. A variedade de cor laranja é conhecida por hessonite, e a rosa, geralmente opaca, por rosolite. A variedade translúcida a opaca, com água na composição, toma o nome de hidrogrossulária. (...)
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11.4.14

Contributos para o debate sobre a calçada portuguesa (15)

A CML propõe-se manter a calçada portuguesa em algumas artérias de Lisboa. Aqui ficam imagens recentes de algumas delas, devidamente acarinhadas...

10.4.14

João Paulo II (JP2) – a canonização agendada

Por C. Barroco Esperança
A morte de JP2 relembrou a dor e sofrimento manifestados na URSS quando o pai da Pátria, José Estaline, exalou o último suspiro, e o histerismo demente que rodeou a morte do aiatola Khomeini em todo o mundo islâmico, particularmente no Irão. Em comparação, as mortes de Franco, Salazar e Pinochet foram choradas de forma contida.
O absolutismo papal que restaurou com o apoio entusiástico do Opus Dei, Libertação e Comunhão, Legionários de Cristo e outros movimentos integristas, tornou JP2 o Papa da Contrarreforma, antimodernista, infalível, intolerante, substituindo os arcaicos autos de fé pela propaganda e pela diplomacia. (...)
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9.4.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
O que terá levado Durão Barroso a quebrar a regra, que há mais de nove anos impôs a si próprio, de não se pronunciar sobre questões da política interna portuguesa enquanto desempenhar as altas funções de presidente da Comissão Europeia? Barroso decidiu agora quebrar essa regra, com indiscutível impacto político e estrondo mediático - não poupou Sócrates por causa da bancarrota, Vítor Constâncio devido à falta de supervisão sobre o BPN, Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix por subscreverem o manifesto da reestruturação da dívida... e até Passos Coelho por ultrapassar certos limites com a sua política de austeridade.
Duas razões terão movido Barroso a esta contundente incursão na política interna. Por um lado, no momento simbólico em que termina o programa da troika, Barroso não quer ser visto em Portugal como um dos maus da fita (“isso é a única coisa que me magoa”, confidencia) e até descreve como esteve “uma hora ao telefone a convencer a chanceler Merkel a dar mais tempo a Portugal e a uma redução dos juros”. Traduzindo, em termos de imagem: Barroso não fugiu do país em 2004, foi, sim, assumir a difícil função de liderar os destinos da Europa; e não foi o polícia mau da troika que impôs a austeridade aos portugueses, mas o polícia bom que ajudou a salvar o país da insolvência.
Por outro lado, depois de Marcelo Rebelo de Sousa se ter reposicionado na corrida presidencial em pleno Congresso do PSD e de Santana Lopes ter revelado há dias a sua disponibilidade para essa mesma corrida, Barroso terá sentido que corria o risco de deixar que outros ocupassem por completo o palco. E decidiu marcar o seu terreno.
Fê-lo com a proposta apressada e abstrusa de um Presidente apoiado por PSD, PS e CDS. Apetece dizer que - com tanto e tão alargado consenso - qualquer dia é melhor voltarmos aos tempos da União Nacional, reduzindo ao mínimo o pluralismo e impondo a unicidade do pensamento político.
Barroso precisava de puxar pelo tema e colocá-lo em cima da mesa. Fê-lo com uma ideia tonta, mas que o posiciona como potencial candidato do centro político. Bem pode repetir que não tem qualquer intenção de se candidatar a Belém. Esta entrevista é o seu melhor e maior desmentido.
«SOL» de 4 Abr 14

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Um livro raro

Muitos ainda se lembram das peripécias que levaram ao desaparecimento deste livro, em todas as livrarias do país e arredores. Isso transformou-o numa raridade, e até mesmo nos alfarrabistas é difícil de encontrar.
No entanto, e pelo menos neste momento, um exemplar encontra-se à venda no OLX [aqui].

A nossa tristeza triste

Por Baptista-Bastos
Um estudo europeu revela que os portugueses são dos povos mais tristes do continente. Não esclarece, o estudo, que medições foram utilizadas, que processos científicos, ou não, indicaram as razões dessa tristeza. Estes métodos comparativos surgem periodicamente e, às vezes, acertam; mas constituem, apenas, afirmações desasadas, produto da criatividade de quem os organiza. Unamuno, por exemplo, não escapou a generalizações, e escreveu que os portugueses são um povo de suicidas. E os franceses tornaram conhecida a epítome tão absurda como abstrusa: "Les portugais sont toujours gais." Eduardo Cortesão, grande psicanalista, disse que nós, como os outros, éramos ciclotímicos. Sirva-se à vontade das definições quem o desejar e querer. Mas a nossa tristeza possui raízes sociais, políticas e religiosas facilmente entendíveis. O cantochão, o hissope, a labareda inculcaram-nos o terror e o medo, pecadores infames e sem remissão. Em quase mil anos de história, e atendendo a todos os conceitos de liberdade conhecidos, temos quase sufocado com a falta dela e as imposições das classes dominantes. Não há que fugir a isto. Os grandes poetas não se calaram, apesar de tudo. De Camões a Sá de Miranda, passando por Bocage e, mais próximo, O"Neill, Armindo Rodrigues e José Gomes Ferreira, todos eles e muitos mais nunca foram cúmplices do silêncio, porque enjeitavam a vassalagem. "Não hei-de morrer sem saber a cor da liberdade." Eis o grito de Jorge de Sena. "A tristeza é o vinho da vingança", cantou Carlos de Oliveira. E Manuel Alegre publicou, agora, País de Abril, uma selecção de poemas belíssimos que talvez devesse ser lida nas escolas.
"É preciso saber porque se é triste/ é preciso dizer esta tristeza/ que nós calamos tantas vezes mas que existe/ tão inútil em nós tão portuguesa".
Somos assim porque o somos? Não porque assim nos fizeram, moldados às circunstâncias? Manuel Alegre sabe que a História é uma deusa cega: cobriram-lhe os olhos aqueles cuja sede de domínio encontrou apoio e sustentação em forças e instituições que cultivam e impõem a superstição, o respeitinho, a obediência, a servidão. Quando passam quarenta anos sobre a data na qual a felicidade foi a estrela cintilante da manhã, quando vislumbrámos ser felizes, enredou-nos novamente "esta tristeza que nos prende em sua teia." As sombras dos muitos medos regressaram-nos e reassolaram a Europa. Os medos que visam atingir o que caracteriza a lógica da liberdade. Os medos que possuem rostos, os de agora, expressão do que sempre foram. O reaparecimento destes rostos constitui o modelo de um mundo que não morre porque fundado na relatividade e nas hesitações das coisas humanas.
"Porquê esta tristeza como e quando/ e porquê tão submissa tão tranquila (...) É preciso matar esta tristeza."
«DN» de 9 Abr 14

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8.4.14

Os pinta-paredes (99)

À Rua da Madalena
Não será mesmo possível evitar isto?

Apontamentos de Lisboa

Av. Almirante Reis
A pouco e pouco, estes prédios, que marcaram uma época no século passado, têm vindo a desaparecer. 
Este já tem o destino traçado. É pena.

GRALHAS SEM GRALHAS

Por Antunes Ferreira 
O Santosh é o empregado de mesa do restaurante George com mais pinta. Os outros são meros comparsas e olham-no de soslaio. Já o conheço - e ele a mim – há quase oito anos, começou então por dizer uns sins e uns nãos em Português macarrónico, a que depois acrescentou o clássico como está, o bom dia, o obrigado e (muito) pouco mais. Sempre que entrávamos no estabelecimento e ele dava conta disso comunicava o facto ao patrão e saía Amália Rodrigues ou o rancho folclórico de Santa Marta de Portuzelo. Simpático. (...)
Texto integral [aqui]

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7.4.14

Apontamentos de Lisboa

No centro deste enorme "deserto de relva", um jovem pratica exercícios de malabarismo.

6.4.14

Luz - Cartagena de las Índias, Colômbia

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem para a ampliar
Rua com vendedor ambulante. Cartagena fica na costa Norte da Colômbia, à beira do Atlântico. Tem praia e porto. Tem castelo antigo e palácios. Tem hoje quase 900.000 habitantes. Tem turismo e comércio. Tem fruta e rum. A cidade colonial é “património mundial da UNESCO”. Foi talvez a mais importante cidade do império espanhol. Foi também a capital dos piratas das Caraíbas. Por aqui passaram escravos, ouro, esmeraldas, canhões, prostituas, soldados e missionários às toneladas e aos milhares. A história da cidade, ao longo dos últimos cinco séculos, é absolutamente incrível de aventura, drama, romance e acção. Ainda hoje, um passeio nas ruas da cidade evoca, pelas cores, pelos cheiros, pelo movimento das pessoas, pelas correrias de gente aparentemente desempregada e pela vozearia cantante, um passado agitado e um presente estranho. (2013)

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Granadas (1)

Por A. M. Galopim de Carvalho
SE ESTIVÉSSEMOS em Espanha, estávamos a falar de romãs (Malum granatum, em latim). Mas não estamos. Estamos do lado de cá da fronteira, onde, por enquanto, ainda se fala português e alguns resistem à imposição de um acordo ortográfico que nos subalterniza e envergonha. Com origem no latim granatus (que significa muitos grãos), as granadas constituem um grupo de minerais, cujo nome, proposto por Alberto, o Grande, em 1250, reflecte a semelhança entre a forma e a cor dos bagos da romã e a forma e a cor dos cristais das espécies vermelhas mais comuns. Este grupo reúne várias espécies, só distinguíveis entre si por via química, e, algumas destas incluem variedades.  (...)
Texto integral [aqui]

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5.4.14

Apontamentos de Lisboa

Rua Infante D. Pedro
No seguimento do post anterior - aqui se vê o que parece ser uma moda muito inteligente por parte de funcionários da CML: fixar sinais de trânsito com arames! 
Em baixo vê-se o resultado... Brilhante!

4.4.14

Apontamentos de Lisboa

Av. dos EUA
Alguém, na CML, acha que é boa ideia fixar sinais de trânsito com arames em vez das braçadeiras próprias (foto de cima). 
O resultado desse improviso (e dessa pelintrice) pode ver-se em baixo - o poste é o mesmo.

Apontamentos de Lisboa

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Apontamentos de Lisboa

Arcadas do Martim Moniz
Este recanto nojento costumava ser um retiro de um sem-abrigo. Ainda será?

Apontamentos de Lisboa

Uma das simpáticas casas que ainda resistem na  Av. Almirante Reis, neste caso enquadrada por trambolhos.

3.4.14

Um Estado Imoral

Por Maria Filomena Mónica 
O PRESIDENTE da República acaba de aprovar o Orçamento Rectificativo de 2014, que inclui, entre outras coisas, novos cortes nas reformas. Apesar de a minha relação com o Estado ter sido invariavelmente má, nunca fugi aos impostos. Sempre os paguei, a fim de os meus compatriotas poderem ter um sistema de educação, um serviço nacional de saúde e uma rede de tribunais de que nos pudéssemos orgulhar. E que vejo eu? O governo entrega dinheiros públicos a escolas privadas, o serviço nacional de saúde corre o risco de perder qualidade e os tribunais deixam prescrever processos de gente tão poderosa quanto os administradores do BPN, do BPP e do BCP. Mais, a fim de salvar as chafaricas que dirigiam, o Estado já gastou cinco milhões de euros com aqueles patriotas: para nós, os velhos, não há dinheiro, mas ele existe para Oliveira Costa, João Rendeiro, Jardim Gonçalves & Associados. 
Trabalho desde os 19 anos, tendo-me, pelo meio, licenciado. Em 1971, com o objectivo de me doutorar numa Universidade prestigiada fiz o maior sacrifício da minha vida: estar sem os meus filhos durante seis meses. Depois, realizei todas as provas necessárias para chegar a catedrática. Até que, furiosa com uma lei que punha em causa a autonomia universitária, optei por me reformar. Por natureza frugal, a reforma dava-me para viver. Pensei que tudo se manteria igual até à minha morte. Afinal, o Estado dera-me a sua palavra de honra, não dera? Enganava-me.
Dou um salto até Espanha, um país governado por gente com quem não tenho afinidades, mas que trata os seus cidadãos melhor do que Portugal. A minha irmã Isabel vive ali há cinquenta anos. Eis o início da carta que, a 3 de Janeiro deste ano, recebeu: «Estimado/a Pensionista: após um ano, de novo entro em contacto consigo para lhe dar informações sobre a revalorização da sua pensão durante o ano fiscal de 2014. A 1 de Janeiro, a sua pensão aumentou 0,25%. Quero ainda informar que entrou em vigor uma nova forma de revalorização das pensões e subsídios do sistema público da Segurança Social, que garanta que as pensões subirão todos os anos seja qual for a situação económica e que nunca poderão ser congeladas». Assina Fátima Báñez Garcia, Ministra del Empleo y de Seguridad Social. 
No que me respeita, tudo quanto recebo são papeluchos da Caixa Geral de Aposentações, onde, em várias colunas, aparecem «Abonos» e «Descontos». Tais e tão confusos são os números que pensei estar a pagar 1.550,00 para o Supermercado Continente, o me espantou, visto não costumar ir a supermercados (tratava-se de uma coisa chamada IRS-Continente). Sobre o motivo por que apareciam três pagamentos para a ADSE e umas linhas com uma Cont. Ext. Solid, nada me era dito. Continuando a olhar os números, verifiquei que metade da minha reforma reentra imediatamente nos cofres públicos e que, desde 2007, o corte fora, em termos líquidos anuais, de 30%. Há tempos, o Primeiro-Ministro declarou que afinal os cortes «provisório» eram «definitivos». Alguém protestou? Não. Portugal é hoje um país de mortos. 
«Expresso» de 22 Mar 14

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Bairro de S. Sebastião (Crónica)

Por C. Barroco Esperança
Primeiro fechou a farmácia. O organismo responsável declarou a área incompatível com a função e a botica migrou para a Av. Elísio de Moura. Perduraram as dores e abalaram os comprimidos. O Centro de Saúde foi passado para Celas onde os velhos levam, no 7, os sacos de plástico, com caixas vazias, para renovarem os medicamentos, pedirem análises, marcarem consulta e regressarem no mesmo autocarro.

Das três mercearias, que expunham as hortaliças e a fruta, nos passeios, resta uma. A do Fernando Agapito  foi definhando com a doença dele e não lhe sobreviveu. Acabaram os frescos e a propaganda partidária para os clientes, obrigados a ouvi-lo, se queriam os melhores legumes e a mais saborosa fruta, que o Fernando levantava-se cedo e escolhia a melhor, na praça municipal. (...
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2.4.14

«Dito & Feito»

Por José António Lima
António José Seguro apostou numa táctica política com efeitos imediatos garantidos, mas difícil de sustentar para além do curto prazo: a de recusar quaisquer propostas de austeridade e de fugir a dizer que medidas aplicaria o PS no governo para baixar o défice e a dívida do país - compromisso que os socialistas assumiram como seu ao subscreverem o Tratado Orçamental.
O Governo propõe a convergência das pensões da CGA para baixar umas centenas de milhões de euros na despesa do Estado? O PS promete logo que reporá na íntegra o valor dessas pensões assim que chegar ao poder. A coligação PSD/CDS aplica a CES para ir buscar mais uns milhões nas receitas públicas? O PS não só instiga o TC a chumbar a CES como propõe mesmo reduções nas receitas do IVA e do IRS. Passos procura saber em que matérias será possível um entendimento de médio prazo na governação do estado? Seguro responde de imediato que há divergências insanáveis, sem especificar quais ou em quê.
Ora, “Seguro vai ter de dizer com clareza o que quer em relação aos grandes objectivos macroeconómicos para os próximos anos. Não basta dizer que há uma 'divergência insanável'. Os portugueses querem saber mais”. Quem assim avisa o líder do PS não é nenhum membro mais belicoso e politiqueiro do PSD ou do Governo. É o prudente e moderado Teixeira dos Santos, responsável máximo das Finanças na governação de Sócrates.
Todos sabem - a começar pelo conselheiro económico de Seguro, Óscar Gaspar, que resolveu falar com seriedade e clareza - que não será possível a curto prazo repor os cortes já feitos nos salários e pensões. Nem será possível que o PS tenha condições ou sequer a hipótese para o fazer quando regressar a S. Bento. Não chega, por isso, repetir balofamente todos os dias, como faz Seguro: “Queremos parar com os cortes, que já deviam ter parado há muito tempo, e iniciar a recuperação dos salários e das pensões dos portugueses”. Ninguém acredita.
Além do mais, até eleitoralmente a táctica de Seguro acaba por se virar contra ele e contra o PS. Nenhum português leva a sério o discurso de facilidades e do fim milagroso da austeridade que Seguro vem apregoando.
«SOL» 22 Mar 14

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Apontamentos de Lisboa

Deitar lixo para o chão é uma prática habitual em Lisboa, que já ninguém estranha. Com o mau tempo, vem a praga dos guarda-chuvas abandonados na calçada.