26.2.15

A Líbia, o Estado Islâmico e a Europa

Por C. Barroco Esperança
A Líbia do exótico coronel Kadafi, cristãmente cedido para ser torturado e assassinado ao nível da mais refinada violência islâmica, deixou de existir. As hordas libertadoras arruinaram o país, que passou do Eixo do Mal ao do Bem, antes de acabar Péssimo. As tribos roubaram as armas químicas do arsenal do exótico ditador, o sofisticado material de guerra que acumulou e o petróleo que sustenta a formação do Estado Islâmico com que generais de Kadafi se vingam das milícias que os derrotaram, apoiadas no potencial de fogo dos ‘libertadores’.
No país que resta, afundado no caos, onde todos combatem contra todos, por entre um número indeterminado de tribos insubmissas e armadas, surgiram dois governos, um islâmico e outro nacionalista, com duas capitais, Tripoli e Tobruk, e dois parlamentos. O Estado Islâmico saiu à rua neste húmus onde semeia a palavra do profeta amoral e medra a jihad.
A anarquia e a violência são mais ferozes do que mulás furiosos a recitar o Corão. A Itália aterroriza-se com a fuga em massa que se vislumbra, ajudada ou estimulada por milícias líbias. A quinhentos km memorizam-se os versículos do Corão e treina-se o manejo de armas. Lampedusa poderá ser a Meca da viagem de tunisinos cheios de fome, ódio e fé.
A jihad virá a caminho do sul da Europa num movimento inverso ao do cristianismo, de Granada ao Algarve, com vários séculos de intervalo, burkas a caminho de Albufeira e cimitarras a brilharem nas praias da Andaluzia. Nasceu um «espaço vital», agora num território que expulsará Voltaire sob pressão da epidemia demencial criada por um beduíno analfabeto.
Entre a Tunísia e o Egito, o Mediterrâneo é a ponte para Itália, por onde passa um drama colossal que criará outro. A Itália não pode continuar sozinha, vítima dos dramas do outro lado do mar, com a Europa a ignorar os milhares de afogados que procuravam a sobrevivência e os que sobrevivem, com as vítimas da primavera árabe a desembarcarem no inverno europeu.
Ah! A União Europeia esquece-se do Chipre e da Grécia, esta com 227 ilhas habitadas, das 1400 que lhe deixam 14880 km de costa por onde se perde o rasto dos desesperados que podem chegar da Ásia, do Médio Oriente e, sobretudo, da África, invadindo a Europa num êxodo de fome e desespero onde não faltarão gregos.  
Ponte Europa / Sorumbático

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22.2.15

Luz - Azenhas do Mar

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Era o fim de Janeiro de 2014. Foram uns dias de mau tempo como raramente se tinha visto em Lisboa e em Portugal. Chuva interminável. O mar com uma raiva pouco frequente. Praias que se perderam para sempre, ou quase. Cafés e casas à beira mar que desapareceram. Fui um dia almoçar às Azenhas, a um restaurante em cima do mar. Era um dia de sol de inverno. Mas o mar não acalmava. No fim do almoço, as ondas batiam nas vidraças das janelas. Tentei registar o melhor possível a espuma, as ondas e as gotas… (2014)

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2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS



Por A. M. Galopim de Carvalho

FALANDO DOS SOLOS (5)
DEVE-SE ao norte-americano Curtis Flechter Marbut (1863–1935), geólogo de formação, a primeira alusão ao conceito geológico de solo. Anos depois, a meados do seculo XX, o geógrafo francês Henri Herhart (1898-1982), reafirmava este conceito e introduzia um outro fundamental ao pensamento geológico, ao divulgar “La genèse des sols en tant que phénomène géologique: Esquisse d'une théorie géologique et géochimique, biostasie et rhexistasie”, publicada, em 1956, um tema que abordarei oportunamente. (...)
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19.2.15

Quem não tem dinheiro não tem vícios

Por C. Barroco Esperança
A herança judaico-cristã, exacerbada pelo calvinismo e protestantismo evangélico, não nos deixou apenas complexos de culpa e de pecado, impôs-nos, como axiomas, aforismos falsos e cruéis.
A conduta da União Europeia em relação à Grécia, movida mais por razões de ordem ideológica do que racional, trouxe-me à memória colegas com quem convivi ao longo de três décadas.
Pernoitávamos nos mesmos hotéis, juntávamo-nos e jantávamos em bons restaurantes onde, depois da refeição, ficávamos a conversar e a filosofar num fraterno convívio de amigos, onde os mais novos estimavam ouvir os mais velhos, talvez por generosidade, sempre com bonomia.
Não esqueço a simpatia que me prodigalizaram os mais novos à medida que passei a ser dos mais velhos. A muitos ainda os encontro, outros sumiram-se da vida ou da vista e os que descubro dão-me notícia de desempregados, apanhados nas curvas da vida. Não são os que partiram que ora me preocupam, são os que andam por aí aos baldões da sorte.
Descobri alguns a iniciar negócios onde arriscaram o subsídio de desemprego e algumas poupanças, na esperança de um novo recomeço, para desaparecerem depois do fracasso. Lembro-me deles nos locais onde deixaram as últimas ilusões, não deixaram morada nem se despediram, esconderam-se decerto.
A outros ainda os vou encontrando, falam-me de envios de currículos, das dificuldades acrescidas pela idade e falta de empregos, mas esperam melhores dias, como se fosse eu a precisar de consolo, querendo mostrar que não desistem.
Encontro os que, durante o desemprego, se divorciaram e perderam a casa e os filhos, os que têm alguns recursos de que vivem com um módico de dignidade e aqueles que estão desesperados. Um, pediu o subsídio de desemprego da Segurança Social e o negócio ruinoso deixou num quarto alugado onde passou fome e acumulou rendas por pagar até que uma instituição de caridade lhe valeu. É celibatário e há muito que deixei de o ver.
Outro, fui-o encontrando a dizer que esperava novo emprego e, mais tarde, a vaguear com ar de abandono. Acabou a arrumar carros num parque onde várias vezes deixou o seu. Vi os esgares a que o sorriso deu lugar, perdidos os incisivos do maxilar superior, a evitar-me pela vergonha e pelo odor, salvo quando o apanhava no torpor de viagens que os químicos induzem. Abalou. No meu círculo não sabem dele.
Afinal, quem não tem dinheiro, tem vícios.
Ponte Europa / Sorumbático

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15.2.15

Luz - Porto e aldeia da Carrasqueira, Comporta, Portugal

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Eis um muito interessante local perto da tão conhecida e famosa (pelas boas e más razões) Quinta da Comporta, entre o Sado e o Atlântico. Trata-se de um “porto palafítico”, solução adequada à construção de instalações de apoio à pesca. Nas marés baixas, seria quase impossível aceder aos barcos, por entre terras lamacentas e pantanosas. Estas construções feitas sobre estacas de madeira desenvolvem-se ao longo de corredores com centenas de metros, incluindo também pequenas “casotas” destinadas a guardar equipamentos, artes e apetrechos de pesca. Ao que parece, este é o maior porto palafítico da Europa. Há muitas décadas, quando estas estacas foram colocadas e as construções instaladas, tratava-se também de encontrar uma solução para outro problema, que não era apenas o das marés baixas e dos terrenos lamacentos. Com efeito, os proprietários dos terrenos não autorizavam nenhuma construção com carácter definitivo, o que era impeditivo do desenvolvimento de uma actividade piscatória permanente. Esta mesma proibição de construir com carácter permanente está também na origem, na região e na aldeia, das casas típicas de madeira, terra batida e colmo. (2014)

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2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Por A. M. Galopim de Carvalho 
COMO NOTA PRÉVIA desta 4ª conversa em torno dos solos, convém lembrar que os textos que, neste e noutros propósitos pedagógicos, de há muito venho divulgando, têm como destinatários preferenciais os professores que nas nossas escolas básicas e secundárias se debatem com falta de elementos que complementem os tradicionais livros adoptados. Visam, ainda, o cidadão comum, interessado em conhecer o chão que pisa e lhe dá o pão. Não pretendem, longe disso, ensinar algo de novo aos meus pares, alguns deles bem mais entendidos do que eu nestas matérias. A esses o que se lhes pede é que, com o mesmo empenho e a mesma humildade com que os produzo, corrijam o que eventualmente tiver de ser corrigido, acrescentem o que deva ser acrescentado e melhorem o que precisar de ser melhorado, tudo isto no real interesse de fornecer ao leitor a melhor informação possível. (...) 
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14.2.15

Nomes com História

Por Antunes Ferreira
Ainda não tinha contado que o Amigão Dr. Zito Menezes, já muitas vezes citado nas colunas da nossa Travessa, decidira levar-me à Professora Doutora Flora Miranda para que ela me visse a perna esquerda muito escalavrada. Assim aconteceu e ilustre médica receitou-me um antibiótico forte, um sabonete desinfectante e… Betadine. Pela consulta, paguei a exorbitância de 300 rupias, pouco mais de… quatro euros; uma exorbitância… Já comecei o tratamento e a pata esquerda parece melhorar.
 Por isso, voltou-me alguma disposição, animado pelos Amigos Zito Menezes, Carminho Costa e Álvaro Amorim, este de longa data e que é o “presidente” da nossa tertúlia Sabores & Saberes que todas semanas às quintas-feiras se reúne no restaurante “Sabores de Goa” no Bairro das Colónias aí em Lisboa. Note-se que foi a única denominação escapada ao frenesim salazarento que, como bom provinciano, pensou ter enganado a ONU com a transformação em… províncias ultramarinas. Porém o Bairro manteve orgulhosamente a assim e ninguém foi capaz de do derrotar, por decreto-lei aprovado na Assembleia Nacional. (...)
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12.2.15

Humberto Delgado – 13 de fevereiro de 1965 – 50 anos depois



Por C. Barroco Esperança
A ditadura salazarista impediu Humberto Delgado (HD) de ser presidente da República (1958), por fraude, e de continuar a viver (1965), por assassínio, baleado por Casimiro Monteiro, agente da PIDE, o instrumento repressivo ao serviço do déspota.
HD não foi a única vítima dos esbirros do fascismo, uma exceção na extensa história de repressão, mas foi um destacado opositor a quem o exílio e o assassinato, depois de uma fraude eleitoral, conferiram a auréola do martírio.
O chefe da brigada da PIDE que o assassinou, Rosa Casaco, passearia, depois do 25 de Abril, pelo país que ajudou a transformar em cárcere. Arrastou desbragadamente a sua incultura e pusilanimidade com ameaças a democratas, depois de prescrito o crime que o mandante, escondida a mão, se apressou a atribuir aos comunistas, através da RTP.
O então ministro do Interior, Alfredo dos Santos Júnior, morreu de velho e de velhaco, com a reforma de presidente do Conselho de Administração de uma importante empresa do Estado.
Salazar, ditador vitalício, perdeu o conhecimento, sentado, graças ao caruncho de uma cadeira, e morreu deitado no Hospital da Cruz Vermelha. Os velhos torcionários ficaram impunes, enquanto o «general sem medo» continuou a ser difamado depois de morto.
Hoje, meio século depois do seu assassinato, recordamos quem fez tremer a ditadura e quem, no combate persistente que lhe moveu, perdeu a vida.
Humberto Delgado foi, até então, o general mais novo das Forças Armadas Portuguesas.
A partir de 1958 consagrou a vida à luta pela liberdade. Hoje é património do País que amou e dos democratas que não suportam as tiranias seja qual for o pretexto, qualquer que seja o seu sinal.

Ponte Europa / Sorumbático

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9.2.15

Morreu um homem livre: Manuel de Lucena


Manuel Lucena, por volta do ano 2000, à janela do seu escritório no Instituto de Ciências Sociais, na Rua Miguel Lúpi
fotografado por António Barreto”
*
Por António Barreto

VI-O EM 1962, em Lisboa e em Coimbra, na agitação do movimento estudantil. Conheci-o em 1968, no exílio. Encontrámo-nos depois em Paris, Genebra, Roma, Argel e Lisboa. Fundámos a “Polémica” com o Medeiros Ferreira, o Carlos Almeida e o Eurico Figueiredo. Trabalhámos no mesmo Instituto durante mais de trinta anos. Colaborámos intimamente em diversos projectos. Afastámo-nos e aproximámo-nos várias vezes. Sempre com a certeza da amizade.
A sua monumental obra sobre a evolução do sistema corporativo português (“O Salazarismo” e “O Marcelismo”) é um dos expoentes maiores das ciências sociais portuguesas. O mesmo se pode dizer das suas reflexões sobre o sistema político do Estado Novo, que, singularmente, classificava de “fascismo sem movimento”.
Mais do que a inteligência, luminosa e meticulosa, mais do que a cultura, fenomenal e sem fronteiras, tanto quanto o carácter, íntegro e inconformista, o que mais apreciei nele foi a sua liberdade. Foi o homem mais livre que conheci. Porque começava por ser livre no pensamento. Nunca recusou, por preconceito ou fé, olhar para um facto ou analisar uma ideia. Nunca classificou antes de compreender.
Era conservador e revolucionário. Tinha, da família, da religião, dos costumes e da moral crenças e convicções muito próprias que as tribos habituais tinham dificuldade em reconhecer como suas. Gostava de Portugal e de Angola, custava-lhe ver um sem outra, mas desertou do exército colonial e recusou fazer a guerra, porque nenhum, Portugal e Angola, merecia tal.
Era o terror dos editores, dos directores de jornais e dos chefes de redacção: nunca respeitou prazos nem dimensões. Mas o que escrevia acabava sempre por o reabilitar e fazer esquecer a indisciplina.
Foi um verdadeiro marginal. Podia ter ganhado dinheiro, nunca o fez. Podia ter exercido cargos políticos, nunca aceitou. Podia ter acedido a posições importantes, nunca o quis.
Conseguia fazer o mais difícil: poder e saber dizer não e sim.
-
Texto também publicado no Observador.

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8.2.15

Luz - Palácio de Carlos V, Alhambra, Andaluzia, Espanha

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Pátio interior do palácio. Carlos V (que também é conhecido pelo nome de Carlos I) queria estar perto ou na colina do Alhambra e mandou construir este palácio. Antes dele, já os Reis católicos tinham mandado arranjar alguns aposentos reais a seu gosto no Alhambra. Mas a ideia ou a solução não agradaram a Carlos V, que não se contentou com nada menos do que um palácio novo. Aqui viveu um tempo, logo depois de seu casamento com Isabel de Portugal, no século XVI. Desde os anos 1950, é a sede do Museu de Belas Artes de Granada. Este pátio interior, de forma circular, parece ser um raro exemplo da arquitectura renascentista. Diz quem sabe que esta forma anuncia mesmo o início da arquitectura maneirista. Nota: Há cerca de mês e meio, publiquei aqui uma imagem de uma fachada exterior de um palácio no Alhambra, sem no entanto o ter identificado. Sei agora, após breve investigação, que é a fachada lateral deste mesmo Palácio de carlos V. (2008)

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2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS


Por A. M. Galopim de Carvalho
FALANDO DOS SOLOS (3)
FALA-SE MUITO (e ainda bem) de aquecimento global, de poluição do ar e das águas, mas pouco se ouve acerca da degradação ou da destruição dos solos, cada vez mais exauridos e retraídos em consequência do crescimento da população e da expansão dos espaços urbanos e das múltiplas estruturas da sociedade do presente (aeroportos, autoestradas e outras). (...)
Texto integral [aqui]

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5.2.15

‘PRIX DE LA LITTERATURE GASTRONOMIQUE 2014’


 
Jerónimo H. Coelho
Por A. M. Galopim de Carvalho
A ACADEMIA Portuguesa de Gastronomia acaba de divulgar a atribuição do “Prix de la Littérature Gastronomique” recentemente conferido, em Paris, pela Académie Internationale de la Gastronomie, ao fotógrafo português Jerónimo Heitor Coelho, pelo seu último livro, COMER EM ÉVORA, das edições Visual Factory.
Alvo de merecidas distinções por parte da Associação de Fotógrafos Profissionais e da Qualified European Photographer, que lhe conferiu o grau de Mestre Fotógrafo (Master QEP), em 2010, o galardoado, de reconhecida craveira na arte e na tecnologia fotográficas, focou esta sua obra na gastronomia da “cidade museu”. De invulgar excelência no discurso e, em especial, nas imagens, o livro agora premiado está a revelar-se um dos de maior impacto na valorização deste nosso património cultural que orgulhosamente conservamos, a par do histórico, do arquitectónico, do artesanal e do único e inconfundível cante alentejano, também ele recentemente distinguido como Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO.

Sendo a gastronomia «um discurso sobre o prazer da mesa», como afirmou Alfredo Saramago, “COMER EM ÉVORA” é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o prazer da mesa e dos olhos, tal a fidelidade e qualidade das imagens que ilustram esta obra de referência da gastronomia alentejana que faz, igualmente, jus ao profissionalismo do autor.
É uma subida honra para mim ter prefaciado este livro com o texto que pode ler  [aqui]

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A Grécia e a União Europeia

Por C. Barroco Esperança
O novo Governo grego, o «sonho de crianças», como um estouvado e inimputável PM lhe chamou na sua abissal ignorância, e subserviência ainda maior aos poderosos, tem um problema com a União Europeia, mas esta tem um problema maior com a Grécia.
Há vários países cuja dívida jamais poderá ser saldada nas condições atuais e nem todos os governos suportam ver 20% dos seus cidadãos em confrangedora miséria e no maior desespero. Surpreende, mesmo em governantes a quem as madraças juvenis facultaram um curso tardio, quiçá por equivalência política, que não tenham aprendido no 4.º ano de escolaridade que um total é 100%, que o superavit de alguns países exige o défice de outros, que o capitalismo, descontadas virtudes conhecidas, tem intrínsecas maldades a corroê-lo e a atirar os povos para o desespero, a revolta e a revolução, sendo esta última a única situação em que os poderosos podem sair prejudicados.
A Grécia não é a causa do beco em que a União Europeia (UE) aparece mergulhada, é a consequência gravosa de a última ter deixado substituir políticos por contabilistas e, por fim, ter permitido aos incapazes e oportunistas o assalto às alavancas do poder.
A Grécia foi espoliada, desprezada e humilhada. Cansou-se e é fácil destruí-la. Hoje não é preciso enviar exércitos, basta deixá-la morrer à fome, mas, tal como sucede com uma infeção que não é tratada, é o corpo todo que se contagia e engana-se quem considera a cirurgia solução, esquecendo as metástases que alastraram para os órgãos nobres da UE, isto é, para os bancos dos países ricos que exageraram nos juros e perderão o capital.
A vitória do Syriza foi a vitória da democracia grega e não o regresso dos coronéis ao poder. Demonizar a decisão eleitoral de um povo é ter da democracia uma leve ideia e da vontade popular uma visão míope. Só mesmo um filho da troika a pode contestar.
A Grécia, berço da democracia e da civilização em que nos revemos, pode ter abreviado o fim desta época histórica da Europa mas não cabe a Alexis Tsipras a responsabilidade do fracasso. Ele apenas se limitou a perguntar à UE se há salvação.
É fácil esmagar o Syriza e satisfazer a obsessão de muitos. Impossível é, depois, insistir no sonho de uma Europa comum e na preservação da paz e da democracia. Adivinha-se facilmente onde despontarão as primeiras ditaduras.

Ponte Europa / Sorumbático

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2.2.15

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS - FALANDO DOS SOLOS (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho
GRANDE AMIGO pessoal do Prof. Orlando Ribeiro, o seu colega parisiense Pierre Birot, professor no Institut de Géographie de Paris, visitava frequentemente o nosso país a fim de aqui proceder a trabalhos de campo em colaboração com o seu colega português. Ainda como finalista de geologia, na Faculdade de Ciências de Lisboa, e a convite do Prof. Orlando, tive o privilégio de os acompanhar numa excursão de vários dias à chamada Bacia do Mondego, na região de Coimbra, uma experiência riquíssima que, estou certo, abriu o caminho ao que foi a minha opção no âmbito das Ciências da Terra - a dialéctica possível de estabelecer entre a geomorfologia e a sedimentologia ou, mais especificamente, entre a erosão e a sedimentação. Nesta excursão, as geografias física e humana e a geologia interligaram-se num todo multidisciplinar, harmonioso e atraente, fruto do muito saber dos dois notáveis geógrafos e ilustres humanistas.(...)
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1.2.15

Luz - Terreiro do Paço, Lisboa

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Esta imagem foi feita a partir do alto do arco da Rua Augusta que agora está acessível e cuja visita recomendo. O Terreiro do Paço só era visível de uma certa altura (com alguma proximidade, sem o excesso do, por exemplo, do castelo de São Jorge) se fôssemos aos gabinetes do segundo andar dos ministérios, o que, naturalmente, não está ao alcance de toda a gente. Talvez dentro de algum tempo, com as novas utilizações de que se ouve falar (antiquários, galerias, alfarrabistas, etc.), seja possível ver esta bela praça de uma certa distância. Para já, fiquemo-nos, e muito bem, com o arco da Rua Augusta. O Terreiro do Paço (que também se chama Praça do Comércio e a que os ingleses chamaram, durante muito tempo a “Praça do Cavalo Preto”) é seguramente uma das mais belas praças do mundo. Desprezada e mal utilizada durante décadas, com carros e estacionamentos, está hoje arranjada. Em muitos aspectos, ficou melhor. As esplanadas tornam a coisa viva. A ausência de estacionamento e a proibição parcial de circulação foram melhoramentos indiscutíveis. Noutros, não. O solo não me parece ter sido o mais bem escolhido, dado que a clareza excessiva, em tempos de Verão e de Sol intenso, ferem a vista. Ainda sobra, num canto perto do torreão poente, uma dúzia de estacionamentos inadmissíveis para os senhores ministros e os senhores secretários de Estado. Faltam evidentemente árvores, o que o Terreiro já teve a toda a volta e de que há testemunhos fotográficos. E as arcadas foram poluídas com cartazes publicitários e logótipos de anúncios referentes aos restaurantes e comércios que ali se encontram agora. De qualquer modo, o balanço global é bom. Até a limpeza da estátua de D José foi bem, apesar dos que dizem que estas coisas com “patine” deveriam ficar sempre… com patine… (2014)

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29.1.15

A liberdade e o Charlie Hebdo

Por C. Barroco Esperança
À medida que minguam os que afirmavam “Eu sou Charlie”, crescem os que o não são e nunca se conciliam com a liberdade e, muito menos, com o que consideram excessos. Frases como «a minha liberdade termina onde começa a dos outros» ou «liberdade, sim, mas sem ofensa», são formas dissimuladas de a limitar.
A liberdade está ligada à democracia, instituição recente e geograficamente limitada, e nem aí é consensual, mas bastaria o mar de sangue dos que se bateram por ela para que a sua defesa fosse uma obrigação cívica.
O direito à ofensa é dos mais difíceis de sustentar mas, mesmo esse, é um direito cujos limites cabe aos tribunais apreciar e não pode haver outras sanções para além das que as sentenças judiciais determinarem. A justiça popular é o simulacro da justiça, a vindicta que satisfaz o ódio e a transforma em vingança.
Todos sabemos como Maomé odiava o toucinho, a ponto de os seus seguidores sentirem como ofensa a simples presença da fotografia de um porco. Temos obrigação de discutir se as idiossincrasias dos outros devem limitar a nossa liberdade. Por que razão devemos respeitar quem encara o abandono da religião – a de cada um –, como suprema afronta, punível com a pena de morte? A descrença é tão respeitável como a crença, e o humor e a sátira, por mais cáusticos que sejam, não passam da crítica legítima de quem discorda.
Os criacionistas, protestantes evangélicos, obrigam alguns estados americanos a ensinar como ciência o mito criacionista de Adão e Eva a partir do barro na olaria divina. Exige o bom senso que sejam zurzidos pelo riso, achincalhados pela sátira, humilhados pelas caricaturas até aceitarem que Darwin tinha razão e a evolução das espécies é ciência e o alegado método de criação um mito.
Não é indiferente o sítio onde cada um exerce a sua liberdade e um livro ou um jornal só os lê quem quer. Se alguém se sente ofendido por um jornal que nunca leu, não é crente, é censor. Os cartunistas do Charlie não enviaram desenhos satíricos a cada crente e, no entanto, os terroristas procuraram-nos no local de trabalho para os assassinarem.
Deixem-me rir, enquanto choro por dentro, das doutrinas que entendem que uma mulher adúltera deve ser lapidada, que a mulher violada deve manter uma gravidez do selvagem que a agrediu, da decapitação de quem renega a religião do decapitador, das normas que impedem a igualdade de género e o direito à felicidade.  Rio de dor, a sangrar por dentro e com fratura exposta.
Os que hoje apelam à liberdade «sem ofensa» são herdeiros dos que viam nas vacinas a ofensa ao projeto divino, dos que pensavam que o Sol parava, por milagre, e que girava à volta da Terra, merecendo pagar com a vida a ofensa ao que estava escrito.
Geralmente, apela-se à tradição para evitar a evolução. Devia estarrecer-nos o tormento dos que lutaram contra a escravatura, contra as tradições que dividiam a Humanidade em classes, contra as que impediam o acesso da mulher ao mercado do trabalho e contra diversas formas de discriminação que continuam a existir, agora de forma mais subtil.
O riso e a sátira são armas de quem as troca por ideias. Os terroristas são alienados que recusam as ideias e o riso, de armas em punho.
Ponte Europa / Sorumbático

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28.1.15

Os Jihadistas



Por Maria Filomena Mónica
ANTEONTEM, o novo director do SIS declarou não estar Portugal imune ao terrorismo jihadista. Talvez, mas o que importa notar é que, ao contrário do que muitos pensam, a fé muçulmana não é um monólito. Quando falamos de jihadismo estamos a referir-nos a uma franja extremista que deseja conquistar o universo através do terrorismo, o que é facilitado pela presença nos países ocidentais de milhões de emigrantes que juram por Alá. Nos EUA, na Europa e na Austrália, o Islão é o segundo credo; em França, um em cada dez habitantes segue a doutrina de Maomé; em Inglaterra, a percentagem de pessoas que reza nas mesquitas é mais elevada do que a que frequenta as igrejas anglicanas.
A primeira jihad teve lugar em 630 D.C., quando Maomé conquistou Meca e garantiu aos fiéis que, um dia, viriam a ocupar as duas maiores cidades cristãs da época, Constantinopla e Roma. Enquanto tal não acontecia, os seus exércitos treinaram-se na conquista da Síria, Palestina, Egipto, Espanha, sul de Itália, parte do norte de África e Portugal. Como se sabe, em 732 D.C, seriam derrotados em Poitiers.
Há dois anos, fui a Paris. Em vez de visitar o Louvre, decidi ir até ao departamento 93, Seine St-Denis, um dos subúrbios mais pobres da capital. Ao lado da cidade grandiosa, limpa e bonita, vi prédios desumanos albergando imigrantes. Na década de 1860, surgira o círculo de vias rodoviárias que separa a cidade da banlieu. A desproporção é imensa: a cidade intra-muros terá 2 milhões de habitantes, enquanto a área metropolitana albergará 12 milhões. Foi na banlieu que, em grande parte, cresceram Cherif e Said Kouachi, os terroristas que mataram os redactores do Charlie Hebdo.
Ao lado deste tipo de jovens, existem outros, pertencentes à classe média, que igualmente cederam à tentação do extremismo. Na esteira de Edward Said, alguns intelectuais estabeleceram uma correlação positiva entre pobreza e terrorismo, o que os torna incapazes de compreender o que se passa. Olhe-se, por exemplo, o percurso de Ed Husain, por ele descrito em The Islamist, o livro onde nos conta os anos em que militou numa ala terrorista do Islão. Nascido e educado no East End londrino, numa família oriunda do Bangladesh, tinha uma vida confortável. Aos 16 anos, foi convidado por um amigo para se inscrever no YMO (Organização dos Jovens Muçulmanos), tendo aderido a um grupo cujo objectivo era a construção do Califado. Em 1995, abandonava a militância e registava a sua experiência.
Entre nós, também há intelectuais, como Boaventura de Sousa Santos, que argumentam que o ódio muçulmano provém da miséria. Não só a tese é redutora, como, ao contrário do que pensa, esta religião contém muitas seitas. Basta comparar o que há poucos anos o sheique al-´Arifi, o imã da mesquita frequentada pelos membros da Academia da Defesa saudita, afirmava - «Controlaremos a terra do Vaticano; Roma será nossa e introduziremos o Islão nesta cidade» - com o que o imã David Munir, da Mesquita Central de Lisboa, disse há pouco: «O Estado Islâmico é um bando de loucos».  
«Expresso» de 24 Jan 15 

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26.1.15

ARROZ DE MEXILHÕES E COGUMELOS DE COENTRADA


Por A. M. Galopim de Carvalho 
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 (Para dois adultos)
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1 chávena de chá  bem cheia de arroz carolino

1 saqueta de mexilhões frescos (como as que se compram nos supermercados)

1 lata pequena de cogumelos fatiados

1 caldo de marisco Knorr

0,5 dl de azeite

1 cebola

4 dentes de alho

1 folha de louro

1 bom molho de coentros picados

2 a 3 colheres de sopa de pimento vermelho cortado em cubinhos ou às tiras fininhas.

Piri piri facultativo

Corcuma  facultativo

Não necessita de sal
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Depois de bem limpos, abra os mexilhões ao natural num tacho tapado. Rejeite as cascas e reserve a água que libertam.

Num outro tacho ou no mesmo, depois de seco, faça o refogado (sem deixar queimar) com a cebola, os alhos, metade dos coentros picados, o louro e o piri piri.

Salteie o arroz e, a seguir, junte quatro chávenas de água (onde incluiu toda ou parte da água da cozedura dos mexilhões) e os caldos de marisco. Se necessário (e se for esse o seu gosto) vá acrescentando água de modo a deixar o arroz malandrinho.

No final da cozedura, junte os mexilhões, os cogumelos depois de escorridos e passados por água, o pimento vermelho e o resto dos coentros.
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Bom apetite e dias felizes!

25.1.15

Luz - Exposição de fotografias de rua, Barcelona

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Nas ruas e avenidas que levam à Praça da Catalunha, assim como às Ramblas, estava uma curiosa exposição de fotografias. Estas eram de boa qualidade, bem impressas, de grande formato e colocadas em “outdoors” (Creio que é assim que se lhes chama hoje… Há uns anos, pelo menos em Lisboa, chamávamos-lhes “bombocas”, por causa de um dos primeiros produtos que tinha recorrido a este truque publicitário…). A exposição tinha um fio condutor, ou um traço comum a todas as imagens: sendo provocatórias, as fotografias tinham como objectos pessoas, ângulos e formas pouco ou nada fotogénicos. Como é o caso desta senhora idosa, com rugas e celulite. A ideia era simples: destruir os conceitos datados, mercantis e convencionais que estabelecem os critérios do belo, da moda e do que é esteticamente valorizado. Não era inédito, nem excepcionalmente interessante. Mas era curioso, até pelo dispositivo: imagens misturadas com as pessoas e a publicidade, nas ruas, entre os transeuntes, obrigando-nos a parar um segundo para pensar. (2012)

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22.1.15

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS - FALANDO DOS SOLOS (1)



Por A. M. Galopim de Carvalho
Uma caminhada de dois séculos

ENTRETIDOS com outros temas e outras notícias mil vezes mais “interessantes”, os media deixam para trás a celebração de 2015 como Ano Internacional dos Solos, declarado na 68ª Sessão da Assembleia Geral da Nações Unidas, reunida em 2013. São muitos, mesmo entre os responsáveis da administrações, os que andam esquecidos de que estamos cada vez mais dependentes de um recurso fundamental à sobrevivência da humanidade neste nosso “Planeta Azul”. Só os media podem dar voz suficientemente alargada aos avisos dos pedólogos e de outros investigadores focados no conhecimento do solo. Infelizmente ainda são muitas as decisões que utilizam mal, degradam, ou mesmo, destroem este recurso natural a um tempo grandioso e frágil.  (...)
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A burka e a liberdade


O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) considerou em 20-01-2015 “legítima” a proibição do uso de véu integral em França, rejeitando um pedido de uma francesa que reivindicava o direito a usar o niqab ou a burqa.
 Parece um paradoxo que a decisão mereça o aplauso de quem defende as mais amplas liberdades e a censura dos que geralmente as negam, mas são os mais permissivos nos costumes que condenam o analfabetismo, a recusa de vacinas ou o uso da burka. Quanto a normas de higiene, a regras de saúde ou hábitos de educação, por exemplo, não devem permitir-se sistemas alternativos. Incoerência? A democracia proíbe e a teocracia impõe.
 Há, quanto à burka, um argumento irrefutável se for comparada aos capacetes, máscaras ou outros adereços que impeçam, por motivos de segurança, o reconhecimento de quem os usa. Basta esse fundamento para legitimar a decisão proibitiva do Estado.
 Mas vamos à sub-reptícia defesa da liberdade de religião, também apelidada de cultura. É natural que uma mulher criada numa sociedade ou família onde se incentive o uso, se sinta disponível para o aceitar ou defender, mas, por cada mulher a quem se recusa esse símbolo de humilhação, há milhares a quem é imposto, se a lei o não impedir. Os filhos de escravos adaptavam-se mal à liberdade e houve escravos que preferiam permanecer.
 Não se trata do conflito entre culturas diferentes, digladiam-se a civilização e a barbárie, a modernidade e o anacronismo, a igualdade de género e a submissão da mulher.
 Quem sustenta que não se pode satirizar uma religião, entende talvez que não se deva impedir o uso público da burka porque, depois, se persegue a excisão do clitóris, a seguir a lapidação de mulheres e, finalmente, se esvazia uma religião pacífica quando se impedir a amputação de membros, a decapitação de hereges e a venda de noivas.
 A situação é diferente quanto ao uso da palavra e da imagem. Se hoje proibimos uma revista satírica, amanhã condenamos a pornográfica, depois o filme que é ofensivo e, finalmente o livro. Voltamos à censura e reiniciamos as guerras que nos outorgaram a liberdade.
 A laicidade vai ganhando terreno. Lenta e penosamente.
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Ponte Europa / Sorumbático

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20.1.15

O QUE É A LUZ?

Por Carlos Fiolhais
Vale a pena, neste Ano Internacional da Luz, voltar a esta questão muito antiga. Ao longo da história, foram-lhe sendo dadas diferentes respostas. Para os atomistas gregos,  a luz era, como aliás tudo o resto, constituída por partículas. No início do século XVIII, o físico inglês Isaac Newton recuperou esta teoria, uma vez que ela permitia explicar, entre outros fenómenos ópticos, a propagação rectilínea da luz, a reflexão (embate da luz na superfície de um espelho) e refracção (desvio da luz ao passar de um meio para outro).

Contudo, um outro físico, o holandês seu contemporâneo Christian Huyghens, conseguia explicar os mesmos fenómenos usando ondas. Apesar do enorme prestígio de Newton, foi a teoria ondulatória que acabou por prevalecer no século XIX: logo no início desse século, uma famosa realizada pelo inglês Thomas Young, exibindo a interferência de luz que passa por duas fendas, só podia ser compreendida com a ajuda de ondas. Uma partícula nunca pode anular outra partícula, mas uma onda já pode anular outra onda. Assistiu-se então ao triunfo da teoria ondulatória, para a qual muito contribuiu uma memória de 1815 do francês Augustin-Jean Fresnel, sobre a difracção da luz (espalhamento quando sai de um pequeno orifício).

Se a luz é uma onda, o que é que está a vibrar? Há 150 anos, o escocês James Clerk Maxwell, ao juntar, na mesma descrição matemática, a electricidade e o magnetismo, foi o primeiro a propor que a luz era uma onda que resultava da vibração do campo electromagnético. O que é esse campo? Para explicar a força eléctrica e a magnética à distância tinha-se introduzido a noção de campo. Existe um campo magnético associado ao campo eléctrico e a luz mais não é do que a propagação de uma perturbação periódica desses dois campos, conjunto a que chamamos campo electromagnético. A velocidade da luz foi calculada a partir de propriedades eléctricas e magnéticas. Apesar de essa velocidade ser constante, podiam existir ondas com  comprimentos de onda muito diferentes. A luz visível corresponde a uma pequena “janela” no conjunto dos comprimentos de onda. Luz invisível, como a ultravioleta e a infravermelha, é tão luz como a luz visível, só diferindo desta por o comprimento de onda ser menor ou maior. Com a detecção instrumental de luz invisível, a onda parecia ter ganho à partícula!

Mas a luz reservava-nos surpresas. Em 1905 as partículas de luz voltaram quando o físico suíço Albert Einstein se viu obrigado a introduzir a noção de “pacote” de luz (fotão) para descrever o arranque de electrões de um metal por luz ultravioleta. Graças a Einstein Newton estava vingado… A energia do fotão dependia do comprimento de onda: havia fotões ultravioletas, infravermelhos, e, com uma energia intermédia, fotões azuis, verdes e vermelhos. Como conciliar a descrição ondulatória, que funciona bem em certas circunstâncias, e a descrição corpuscular, que funciona bem noutras? Uma estranha teoria – a teoria quântica – conseguiu fazê-lo, impondo-se como a moderna teoria da luz. A luz propaga-se no espaço como uma onda, mas pode ser produzida ou apanhada como partícula. Hoje em dia conseguimos emitir luz fotão a fotão, evidenciando o seu carácter corpuscular, mas, se colocarmos um obstáculo com duas fendas à frente dessa luz, verificaremos que ela passa pelas duas, como seria de esperar de uma onda. A experiência desafia o nosso senso comum. Quem diz que o mundo tem de estar de acordo com o nosso senso comum? 
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Texto saído na imprensa regional

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18.1.15

EROSÃO E SEDIMENTAÇÃO (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho
NAS REGIÕES temperadas e nas quentes, suficientemente pluviosas, dominam a erosão e o transporte fluviais. Quanto à sedimentação detrítica, uma parte fica temporariamente em terra, constituindo depósitos fluviais ou, eventualmente, depósitos em lagos. Outra parte (maioritariamente argilosa) continua em suspensão, a caminho do mar.

Nos ambientes frios, com abundante precipitação nival, como acontece nas latitudes polares e nas montanhas acima de determinadas altitudes, o gelo nos glaciares canalizados em vales é o principal agente modelador da paisagem.(...)
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Luz - A capital mundial do livro antigo, Hay-on-Wye, Inglaterra

Fotografias de António Barreto- APPh
 
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Já aqui trouxe, à “Luz” do Sorumbático e do Jacarandá, várias fotografias feitas em Hay-on-Wye. Nunca será demais recordar esta maravilhosa aldeia situada na fronteira entre o Norte de Inglaterra e o País de Gales. Fica de tal maneira a cavalo entre os dois países, que os habitantes se arrogam com facilidade a ideia de não pertencerem a nenhum dos dois ou mesmo de serem independentes. Há três ou quatro décadas que o senhor Booth (o mesmo que deu o nome a esta livraria, ou antiquário ou alfarrabista) deu início a uma espécie de movimento. Comprou casas, um castelo e o cinema, acabou por os transformar em alfarrabistas. A seguir a ele, dezenas de comerciantes, residentes, forasteiros, alfarrabistas das redondezas e toda a variedade de gente fizeram o mesmo: criaram livrarias, abriram as portas ao público e começaram a negociar em livros antigos. Depois dos livros vieram as gravuras, os mapas, as fotografias e uma infindável “memorabilia” relacionada com a edição, o livro e a gravura. Naquela aldeia, com escassas centenas de edifícios, há literalmente milhões de livros. Quase tudo que se procura pode encontrar-se lá. Ali adquiri livros raríssimos sobre a história de Portugal. Os seus livreiros compram em qualquer parte do mundo, para onde enviam encomendas com cuidado e prontidão. Colocaram a Internet do seu lado, fornecem a Amazon e outros vendedores “modernos” virtuais. A aldeia organiza o mais importante festival anual de literatura da Grã-Bretanha, assim como um dos mais importantes festivais de jazz. Nos “pubs” locais come-se e bebe-se deliciosamente. Quem lá for, nunca mais esquece. E volta. (1988)

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Malditos números económicos

Por Antunes Ferreira
QUANDO O ACTUAL (des)Governo anunciava que tudo ia correndo no nosso país sobre esferas cada vez mais oleadas, aparece um desmancha-prazeres a dizer que não é bem assim, antes pelo contrário. E, para cúmulo, o autor do “crime” é o mesmo e fá-lo há algum tempo. Antevejo que para Coelhos & Portas trata-se de minudências ocasionais, sem significado para a conjuntura que é sólida; mas, noutro registo, ela também assim era: os dois “actores” e o “compère” Cavaco garantiram a solidez do BES e foi o que se viu
Uma vez mais transcrevo notícia publicada na comunicação social, contrariando alguns que me lêem – e sem veleidades retóricas - ainda são bastantes. Tenho sido acusado de recorrer em demasia ao que se escreve e diz na maioria dos órgãos, em detrimento da exposição da minha opinião pessoal. No entanto, creio que citar as fontes possíveis e as que considero melhores é procedimento de que me não envergonho e que por isso julgo ter cabimento. Cito, pois, os dados divulgados pelo Banco de Portugal.
“A actividade económica em Portugal voltou a cair em Dezembro, descendo 0,9% em termos homólogos e mantendo-se em terreno negativo pelo quinto mês consecutivo, segundo indicadores divulgados hoje pelo Banco de Portugal (BdP).
De acordo com os Indicadores de Conjuntura hoje (sexta-feira) revelados pelo banco central, este valor é semelhante à descida registada em Novembro, mas a actividade económica vinha a desacelerar desde Janeiro, quando o indicador ainda estava em terreno positivo, fixando-se nos 1,1% de evolução favorável.
Em Agosto o indicador virou a tendência e passou para o negativo, então para -0,2%.
Os indicadores hoje divulgados dão conta também de uma ligeira diminuição no consumo privado, com o indicador coincidente a fixar-se nos 1,2% em Dezembro, contra os 1,5% do valor registado em Novembro.
No que se refere ao sentimento económico este sofreu uma ténue evolução positiva, de 102,3 pontos para 102,4 pontos(fim de citação)
Ora bem. No dia anterior, ainda que de forma rebuscada Luís Marques Mendes, a propósito da falta de aplicação do “estatuto remuneratório igual” veio informar no final do Conselho de Ministros que o “mais alto magistrado da Nação” (a expressão que aqui uso não e a do (des)governante, é minha ainda recordando amargamente os tempos salazarentos…Mas, pelo andar da carruagem…) ainda não o promulgara. Sejamos claros: o (des)Governo, que é bom, sacode a água do capote para cima do utente do palácio de Belém. Pelos vistos não é o só o Banco de Portugal que é um desmancha-prazeres; Cavaco também o é.
De supetão ocorre-me a famosa afirmação de C. Silva quando primeiro-ministro, a propósito da actuação do Tribunal de Contas então presidido por Sousa Franco: “força de bloqueio”. Na altura, eu trabalhava lá e posso dizer, sem receio de desmentidos, que a coisa foi recebida com bastantes sorrisos de comiseração e desdém. E o Presidente do tribunal não aparentou ter-se incomodado muito. Tão próximo como eu era dele, posso ainda garantir que foi assim.
Porém, voltando aos indicados de Conjuntura, reitero que não sou economista muito menos fiscalista, mas confesso que aprendi disso o q.b. com a minha passagem pela Faculdade pelo TdeC e pelo Ministério das Finanças. Donde, creio que a opinião que tenho não é de todo despicienda. Mas, tenho de acrescentar que a linguagem usada pelos especialistas destes dois ramos é normalmente um tanto hermética, (há, até, quem diga que é cabalística, mas não se deve ir tão longe…) logo difícil de compreender pelo cidadão comum.
Não é, felizmente, o caso. Os dados divulgados pelo Banco de Portugal são lineares – porque são numéricos e as percentagens que deles decorrem logicamente também o são. A não ser assim, poder-se-ia afirmar em tom popular que “a lógica é uma batata” e a ”a Economia é um saco de gatos… Um ano tem 12 meses, de acordo com o calendário por que nos regemos, isto é o gregoriano. E a ordem dos meses ´”curiosamente” sempre a mesma; o que quer dizer (mero exemplo…) que a Novembro segue-se Dezembro e logo surge Janeiro e por aí fora num círculo ininterrupto.
Portanto não é difícil fazer-se comparações entre os mesmos meses de anos diferentes partindo-se do mesmo princípio: a 2013 segue-se…2014 e a este… 2015. Ultrapassado este período humorístico, aliás digno do Monsieur de La Fontaine, é de fácil interpretação o divulgado pelo BdP: cinco meses consecutivos dos valores da actividade económica sempre em terreno negativo têm vindo a decair face aos números de 2013. Naturalmente em comparação com os homólogos de há dois anos. Mais uma mentira da “dupla maravilhosa” que chefia o (des)Governo, seguida pari passu pelo suposto PR. Os três heróis da fantasia referem-se indubitavelmente ao crescimento da Economia. Para isso (e desta feita segundo o Amigo Banana) teria de aumentar a actividade económica - e maldita diminui. Já não se pode confiar em nada. E nem em ninguém…

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16.1.15

SOPAS DE ALFACE COM QUEIJO E OVOS



(para 4 adultos)
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2 alfaces grandes
Dois nabos médios cortados em quartos de rodelas finas
1 dl de bom azeite
6 a 8 dentes de alho
1 bom molho de coentros
2 folhas de louro
4 ovos
2 queijos alentejanos de meia cura
500 g pão alentejano de dois ou tês dias
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NUM TACHO, com o fundo coberto de azeite, aloure os dentes de alho cortados às rodelas e as folhas de louro, a que junta, no fim, uma parte dos coentros picados. De seguida, junte as folhas de alface cortadas à mão, em bocados grandes, e tape, mantendo o lume brando. A alface vai vertendo a água suficiente para o cozinhado. Coza aí o queijo cortado às fatias grossas e escalfe os ovos. Se necessário, vá deitando água aos poucos, à medida do que deseje confecionar.

Se desejar servir como sopas de pão, acrescente água na medida exacta. Neste caso, o pão, às fatias, na quantidade desejada por cada um, é colocado no fundo do respectivo prato e, sobre ele, bem quente, esta preciosa confecção.
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Bom apetite e dias felizes.

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