17.8.17

Trump e a Coreia do Norte

Por C. Barroco Esperança
A sobriedade, esse esforço intelectual que se exige na razão direta das responsabilidades que se exercem e dos efeitos que as palavras e ações irrefletidas podem provocar, não é apanágio do atual Presidente dos EUA.
Que o biltre coreano, narcisista e megalómano, sujeite o seu povo a uma tragédia e seja indiferente aos riscos que as suas ameaças, para consumo interno, possam provocar, é um hábito na obscura ditadura que o domínio nuclear tornou perigosa.

Que o PR da nação mais poderosa do Planeta sofra dos mesmos defeitos, transforma o medo em terror, a incerteza em horror e a imponderabilidade em ameaça global.
A Coreia do Norte é um perigo, não só por si, mas pelo apoio que a China e a Rússia lhe podem dar por interesse geoestratégico. Trump menosprezou o silêncio diplomático que as duas grandes potências militares guardaram e, quando ouviu a China a pronunciar-se sobre uma eventual ação dos EUA contra a Coreia do Norte, fez a retirada de sendeiro e… elevou as ameaças (apenas) se o invadir os EUA ou os seus aliados. E foram países pouco recomendáveis, mas com governantes adultos, a Rússia e a China, a advertirem Kim e Trump para não se meterem em aventuras.
Quando devia ter esperado o resultado da difícil mediação da ONU, que obteve o apoio da Rússia e da China para as sanções propostas pelos EUA, fez ameaças inoportunas ao esquizofrénico ditador coreano, colocou-o ao seu nível, e deu-lhe palco para exibição da sua megalomania. Só tornou mais difícil a solução do problema, porque a imponderação excluiu Trump da solução e transformou-o em problema. Esticada a corda, começa a não haver espaço para recuo e é improvável que haja guerras nucleares regionais.
Não há impérios eternos e a última coisa de que o Planeta precisava era da incoerência e da insensatez do imperador néscio que, em cada dia torna o mundo mais vulnerável, e o seu país mais suspeito de trocar por negócios a ética e o direito.
Ponte EuropaSorumbático

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13.8.17

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Casamento em São Petersburgo – É, nesta maravilhosa cidade, uma intensa actividade de qualquer dia, mas sobretudo de fim-de-semana: casar e fotografar. Nos jardins, nos palácios, diante das catedrais, à beira do rio Neva, junto à fortaleza Pedro e Paulo ou perto do Hermitage: qualquer sítio de prestígio e beleza é bom para fotografar os noivos. O gesto é tão importante que a sessão de pose pode demorar umas largas horas e exigir mudança de roupa e de maquilhagem. Até porque depois se fará um álbum vistoso a distribuir ou vender aos convidados. Por isso, quando se observa uma destas sessões de fotografia, não se vê mais ninguém, nem sequer parentes próximos. O mistério é simples: as fotografias fazem-se uns dias antes. No dia da boda, não dava mesmo jeito nenhum fazer esperar os convidados umas horas!

DN, 13 de Agosto de 2017

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Sem emenda - Cem anos. Tantos anos!

Por António Barreto
Com a chegada dos dias santos de Setembro a Novembro, começam as comemorações. Na Praça Vermelha, em Moscovo, com pouco lustro e ainda menos entusiasmo. Na Praça Kim il Sung, em Pyonyang, com aprumo e disciplina. Na Praça da Revolução, em Habana, com rum e saudades de Fidel. Na Quinta da Atalaia, na Festa do “Avante”, com música e bifanas. E pouco mais. A Grande Revolução Russa está à beira de desaparecer das agendas do presente. O Comunismo, seu principal herdeiro, deixou rastos de dor, nunca se saberá se mais ou menos do que o nazismo.

O século XX ficará talvez na história como o mais sangrento. Duas guerras mundiais, uma dúzia de guerras coloniais, dezenas de guerras regionais, ainda mais guerras civis e algumas centenas de milhões de mortos por violência política. A técnica de extermínio foi elevada a cumes nunca vistos, no Goulag soviético, nos campos nazis e na revolução cultural chinesa, sem falar nas execuções sistemáticas do Ruanda e do Camboja, entre muitas outras. Foi neste século que se generalizou a tortura e se inaugurou a guerra biológica e química, assim como a explosão de bombas atómicas. Foi este o século em que os alvos deixaram de ser essencialmente militares e passaram a ser civis. De Londres a Estalinegrado e Dresden e de Pnom Pen a Alepo a Mossul, a geografia do horror de massas deixa poucas esperanças e nenhumas dúvidas.

Também é verdade que foi neste século que uma centena e meia de países adquiriram a sua independência, que o capitalismo dominante se comprometeu com a democracia, que os direitos do homem fizeram caminho, que o racismo como sistema recuou e que o desenvolvimento científico, económico e social mais progrediu. Sim. Neste balanço do século, o melhor vai para a ciência, a democracia e talvez a cultura. Mas o horror foi muito e nunca visto antes.

O pior, pela dimensão, pela violência, pelo número de vítimas e pela duração, vai para o comunismo. Ou é partilhado com o nazismo. É seguramente um dos mistérios do século, ou antes, um dos problemas difíceis de resolver: por que razão ainda há comemorações? Por que motivos ainda há quem se intitule orgulhosamente comunista? O que faz com que o antifascista seja um herói e o anticomunista um selvagem? Como é possível que, ainda hoje, universidades, escritores, políticos, intelectuais, sindicalistas e trabalhadores aceitem que o comunismo tenha sido um avanço na história da humanidade?

A guerra civil, a execução de aristocratas e “russos brancos”, o assassinato de rivais, a eliminação de democratas, os massacres de milhões de camponeses, de judeus, de cossacos e de tártaros, o Goulag contra toda a gente, a perseguição de “cosmopolitas”, intelectuais e liberais, a censura, os trabalhos forçados, a fome programada e a destruição espiritual e física de todos os que não se submeteram são os pergaminhos de um dos mais tenebrosos sistemas políticos que a história conheceu. Mas os idiotas úteis continuam a dizer que o comunismo tinha desculpa, porque era em nome do povo! Que não foi assim tão mau, porque era contra o capitalismo. Que cumpriu a sua função, porque desenvolveu a Rússia!

As sociedades democráticas conseguiram compor com o capitalismo, que, com o tempo, se foi separando da ditadura. O que nunca aconteceu com o comunismo. Este e a ditadura associaram-se sempre, sem excepção. O convívio do comunismo com a democracia nunca aconteceu. Nem sequer na China, onde o comunismo conseguiu compor com o capitalismo, mas não com a democracia.

O fim do comunismo impressiona pela sua fragilidade (François Furet), pela rapidez com que desapareceu, pela maneira como ninguém veio ao seu socorro. O comunismo dependeu do regime soviético. Acabado este, acabou aquele. O que sobra hoje é um pequeno conjunto de caricaturas: a Coreia do Norte, Cuba e o PCP…

O que os exércitos não conquistaram, a Rússia, foi obtido pelo capitalismo. O que o nazismo não conseguiu, derrotar o comunismo e a União Soviética, foi alcançado pela liberdade e a democracia. É esse o aniversário a comemorar. Por muitos anos!

DN, 13 de Agosto de 2017

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10.8.17

Sem Emenda - As Minhas Fotografias


Volkswagen, com sua sombra, no asfalto de Brasília, em 1971 – Eram os anos da brasa da ditadura militar (que tinha começado em 1964). Brasília, mandada construir por Kubistchek, em 1956, ainda em democracia e inaugurada pelo mesmo em 1960, encontrava-se na sua primeira fase de desenvolvimento. Mas já os carochas abundavam pelas estradas e pelas cidades brasileiras. Iniciada no final dos anos 1950, a VW Brasil é uma das maiores subsidiárias daquela marca fora da Alemanha. Como em todos os outros países, a Volkswagen convive bem com qualquer regime político, democrático ou não. Começou as suas actividades ainda com Hitler no poder. É actualmente o primeiro produtor de automóveis do mundo e o maior de Portugal. O “carocha” é o quarto carro mais vendido de sempre. E o Golf o terceiro. E era, até há pouco, uma das marcas mais prestigiadas. O que parece estar a esboroar-se rapidamente. Por culpa própria.
DN, 6 de Agosto de 2017

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As religiões, os crentes e a intolerância

Por C. Barroco Esperança

Não lamentaria o fim das religiões, mas magoar-me-ia que um só crente, qualquer que fosse o seu deus, acabasse molestado. Considero as religiões, todas as religiões, falsas e prejudiciais, mas não imagino que a sua ausência tornasse os povos mais felizes e mais racionais os crentes.

Sendo o mundo o que é e as pessoas como são, porque são moldadas no berço e sofrem os constrangimentos das sociedades onde vivem, seria ótimo se houvesse um módico de racionalidade a suavizar o proselitismo que devora os crentes mais exaltados.

É ocioso referir a crueldade e sofrimento provocados por suicidas que morrem e matam a gritar que “deus é grande”, à espera do ror de virgens e de rios de mel doce que julgam à espera, depois da imolação insana.

O bando de cruzados mentirosos que agrediu o Iraque originou uma tragédia que devia arrepiar os cúmplices de Bush, Blair, Aznar e Barroso. A comunidade de cristãos de 4,5 milhões de crentes que, em 1950, vivia no Iraque, desde o século I d.C., está reduzida a cerca de 200 mil, com tendência a extinguir-se.

O protestantismo evangélico pretende o domínio dos aparelhos de Estado no continente americano e trava uma guerra impiedosa com o islamismo wahabista, pelo controlo de África, na região do Sahel. A violência sionista do judaísmo e o primarismo católico das Filipinas, onde jovens se crucificam na Páscoas cristã, não abrandam.


A atual deriva nacionalista do hinduísmo adicionou a xenofobia à divisão em castas e à humilhação das viúvas que voltaram a casar. Pretende o extermínio dos muçulmanos na Índia, o país das duas comunidades, e alimenta tensões com países vizinhos.

Quase desconhecida é a ferocidade do monge budista Ashin Wirathu, a face mais cruel do terrorismo budista, apelando à limpeza étnica dos 4% da população da Birmânia, que professa o islamismo, assim como a xenofobia manifestada no Sri Lanka ou o ódio entre conventos budistas e, dentro dos conventos, entre os seus monges.

A violência conventual da exótica teocracia monástica do Monte Athos cuja misoginia proíbe o acesso de mulheres e de quaisquer animais fêmeas, é a tendência universal das crenças que o medo da secularização e do livre-pensamento torna intolerantes e cruéis.

É este caldo de cultura que está à solta com a cumplicidade dos Estados que apregoam a separação do Estado e das Igrejas, mas, na prática, traem a laicidade e cortejam o clero, que exibe as vestes pias nas cerimónias seculares.


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6.8.17

Sem emenda - Deutschland

Por António Barreto
A Autoeuropa é, em Portugal, o primeiro exportador e o mais importante investimento industrial. Está em curso uma negociação difícil entre a Volkswagen e os seus trabalhadores, a fim de garantir a produção de um novo modelo, o que trará muito emprego e mais exportações. A Comissão de Trabalhadores chegou a um acordo com a administração alemã. Os sindicatos comunistas estão contra o acordo, contra a empresa e contra a Comissão de Trabalhadores que não controlam. Os sindicatos venceram uma votação. A Comissão demitiu-se, não se sabe se a pensar numa reeleição. O assunto merece atenção. Na verdade, tudo deve ser feito, com dignidade e equilíbrio, a fim manter e desenvolver a Autoeuropa.

No entanto, como disse Wolfgang Münchau, no DN, esta semana, a VW e a indústria automóvel alemã estão em perda de importância. A responsável por essa destruição não foi a concorrência que os alemães tão bem souberam derrotar durante décadas. Nem sequer foram os acordos ilegais e secretos entre construtores (VW, BMW, Mercedes, Audi…). Foi a trafulhice que os dirigentes da Volkswagen praticaram durante anos: uma das maiores falsificações da história da indústria!

A Alemanha, actualmente, não é de confiança. Foi, mas já não é. A impressão que tínhamos de uma Alemanha séria, de boas contas, trabalhadora e rigorosa desvanece-se gradualmente. Um dos valores da Alemanha no mundo, a qualidade dos seus produtos, ficou danificado. A sua superioridade perante os concorrentes está comprometida. Vão ser necessárias décadas para recuperar uma reputação perdida.

A primeira mácula contemporânea na reputação alemã foi a história de doações financeiras aos políticos e aos partidos nos tempos de Helmut Kohl. Os processos não foram concluídos, nunca se apurou a verdade e poucos foram punidos.

Depois, a manipulação das taxas da Euribor foi episódio desastrado para a reputação alemã. O assunto provocou desgaste nos meios financeiros e deixou muita gente em posição desconfortável, mas as autoridades alemãs e europeias fizeram o necessário para não levar as coisas até às últimas consequências.

A honestidade alemã foi ainda abalada pelos negócios dos submarinos, pelo menos com Portugal e Israel. Já hoje há evidência suficiente, incluindo judicial, para sabermos que não se trata apenas de boato. Para vender os submarinos, a Alemanha, com conhecimento oficial e participação privada, fez o que podia e não devia para corromper Estados, políticos e militares.

A seriedade e o rigor da indústria alemã foram destroçados com as fraudes automóveis da Volkswagen destinadas a enganar os clientes e as autoridades ambientais do mundo inteiro. Não foi acidente nem invenção fortuita de técnico atrevido: foi uma actuação premeditada e minuciosa destinada a defraudar toda a gente! Os fabricantes de automóveis destruíram a reputação e o prestígio alemães. As autoridades colaboraram e tentaram diminuir os custos, sem o conseguir. Aos países poderosos os fabricantes pagam milhões de indemnizações e multas. Nos Estados Unidos, pagaram 25.000 milhões de dólares e retomaram 500.000 veículos. Aos fracos e devedores (Portugal, por exemplo), os fabricantes limitam-se a reparar o “software”… 

A Alemanha soube fazer com que os Europeus pagassem grande parte dos custos da sua unificação. A Alemanha comunista foi admitida na União Europeia, sem aprovação pela União Europeia: foi assim porque foi assim, porque a Alemanha quis e a França deixou. A conversão do Deutsche mark comunista em Deutsche mark federal fez-se em termos paritários, o que foi em grande parte financiado pelos europeus, excluídos da decisão. Gostemos ou não, estes gestos foram políticos, revelaram força e influência, não foram feitos por meios ilegais. Agora, a Alemanha está a dar cabo de si própria!

DN, 6 de Agosto de 2017

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POEMA ECOLÓGICO (*)


“Amigo Chefe Seattle
Li a tua carta escrita em 1854 ao grande Chefe Branco de Washington.
Sou um homem de 1978 que vive, como tu previste, num mundo em decadência e destruição. Já não ouço o sussurrar do vento nem o diálogo nocturno das rãs nos charcos da selva. Já nem temos selva.
As flores murcham, as árvores agonizam, os pássaros fogem e os insectos deixam de zumbir. Sei que sou um homem enjaulado numa cidade, enquanto outrora tu vivias nas pradarias, lá onde bisontes e búfalos te alimentavam o corpo e a alma.
Os rios, para ti sagrados, são hoje para mim apenas uma miragem de infância. Neles, em vez de peixes a fazerem corridas e acrobacias, eu vejo o lixo da nossa civilização, os detritos deste mundo, as opulências mortas de uma humanidade que se afunda vertiginosamente na era do plástico.
Olho para as estrelas e o luar. Parecem mais distantes do que são, e os meus olhos, desabituados já de os observar, cansam-se facilmente. Não tenho, como tu tinhas, esse poder de olhar de frente o sol, de receber – sem me cegar – a sua luz e o seu calor.
As águias, vi uma ou outra, como se fossem já animais pré-históricos, aturdidos e se calhar confusos, sem perceberem o que fizemos desta Terra.
E o mar, esse, sobretudo o que vinha dantes banhar as nossas praias e namorar a areia branca, vem agora sujá-las, com o lixo que lhe deitaram dentro. Tem um ar triste, de um mendigo que, às vezes, se revolta e destrói as grandes construções dos nossos engenheiros.
Ah! Meu querido amigo selvagem! Como eu, que não vivi no teu tempo, nem nas tuas pradarias, tenho saudades da tua Terra sagrada!
Sabes, agora temos frutos maiores, calibrados, estudados, enxertados, fertilizados e envenenados. Não sabem a nada, nem à frescura do néctar da flor que os gerou, nem ao perfume de que tu falas.
A nossa sabedoria é outra. Transformámos tudo, progredimos, inventámos, criámos coisas que tu nem imaginas. Olha, substituímos o vento e o sol por uma coisa que se chama energia nuclear.
Sabes, é que nós precisamos de mais energia. Criámos tantas coisas, somos seres tão exigentes, que a energia da Natureza não chega para os semideuses que nós somos.
Desviámos rios, irrigámos as terras, morreram muitos peixes, passámos fome; porém, temos coisas que tu nem sequer podias imaginar.
Sabes o que é um arranha-céus com ar condicionado, elevadores que nos levam para cima e para baixo? Claro, não sabes. Tu não precisavas de morar para cima de ti próprio. Tinhas espaço e moravas para os lados.
Nós vivemos a correr; tu contemplavas. Contentavas-te com pouco. Não admira, tu eras selvagem. Nós, não, temos necessidade de mais, cada vez mais, cada vez mais!
É que nós não nos pertencemos. Pertencemos ao todo. Cada um é uma pequena peça que gira e roda sem saber porquê, e sem ter tempo para saber.
Tu tinhas espaço, tinhas tempo e tinhas-te a ti.
Como tu disseste, «Vocês morrerão afogados nos vossos próprios resíduos»”

Júlio Roberto (1929-2013) foi meu contemporâneo no Liceu. Na fase em que partilhei com ele e outros adolescentes com interesses intelectuais, ele era um curioso na biologia e na filosofia.
Professor, escritor, poeta, ecologista e editor (ITAU), foi conferencista em Portugal e no Estrangeiro, dissertando sobre a natureza, a qualidade de vida e o homem.

Convidado pelo Conselho da Europa para escrever um livro sobre os Direitos Humanos, aceitou o desafio, dando à estampa “Reconstruir o nosso mundo”, com ilustrações de Teresa Soller (ITAU, 1976), tido por um dos primeiros livros a alertar-nos para a destruição da biodiversidade pelo chamado progresso.
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(*) - de Júlio Roberto, 1978, uma deliciosa lição-análise sobre este nosso cada vez mais agredido Ambiente, pela ganância ilimitada do mundo dos cifrões está a conduzir para a destruição.

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