9.3.21

No "Correio de Lagos" de Fev 21 .

O texto seguinte (bem como as imagens que o acompanham) foi-nos enviado pelo leitor António Xavier, a quem muito agradecemos, e a quem aproveitamos para felicitar pela esperança que demonstra em que as correcções venham, um dia, a ser feitas...

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«As placas toponímicas que figuram nas imagens apenas distam 50 metros uma da outra e evocam a mesma personalidade lacobrigense, o juiz José António Ferreira Brak-Lamy, dando nome a duas diferentes artérias (uma rua e uma travessa) da cidade de Lagos. À excepção óbvia deste último facto, o contraste entre ambas é tal que, desde logo, se torna evidente a ausência de um critério uniforme na sua elaboração, quer na identificação do vulto em questão quer na indicação dos respectivos dados biográficos. Poderíamos aproveitá-las até para lançar um passatempo e desafiar os leitores a descobrir as suas diferenças… Porém, a surpresa é ainda maior quando numa delas descortinamos algumas inesperadas imprecisões. Tal é precisamente a circunstância da placa denominativa da travessa, que aponta o ano de 1781 como sendo a data de nascimento do mencionado juiz; e que, além disso, em lugar da sua data de óbito, tem inscrito um estranho e enigmático ponto de interrogação, o que naturalmente suscita também a nossa curiosidade e interrogação. Semelhante inscrição, aliás, tem correspondência com a informação publicada na obra “Vultos na Toponímia de Lagos”, da autoria de Silvestre Ferro, editada pela Câmara Municipal de Lagos, na qual provavelmente se terá baseado a própria Comissão Municipal de Toponímia. Todavia, se recorrermos às fontes de base, por natureza mais fidedignas, designadamente aos fundos documentais depositados nos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, passíveis de consulta através da respectiva plataforma electrónica, poderemos concluir que o referido juiz nasceu, afinal, no ano de 1780 (a 18 de Julho), conforme assentamento no livro de registo de baptismos de Lagos, freguesia de São Sebastião (1775-1782); e que o mesmo faleceu no ano de 1847 (a 21 de Maio), conforme assentamento no livro de registo de óbitos de Lisboa, freguesia das Mercês (1847-1867). Feita a observação, caberá aos competentes órgãos municipais a responsabilidade de providenciar a rectificação de tais lapsos».

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7.3.21

No "Correio de Lagos" de Fev 21

 

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6.3.21

Grande Angular - As direitas

Por António Barreto

Tal como com as esquerdas, também há várias direitas. A democrática e a não democrática. No essencial, o que as separa é a democracia. Para uma, mesmo valores para si importantes como a propriedade, a religião e a nação, devem articular-se com a democracia e esta deve respeitar a liberdade. Para a outra, democracia e a liberdade individual são princípios residuais ou dispensáveis.

Interessante e perturbador é o facto de certas diferenças entre tendências de direita reproduzirem diferenças entre esquerdas e direitas. A direita trata da pobreza com a caridade, mas mais humanidade e cuidado. A esquerda trata da pobreza com as leis e a igualdade, mas sem humanidade. A esquerda diz que a cultura e as ideias são suas. Nem sempre é verdade, mas há aí qualquer coisa. São bens mais acessíveis. A direita é mais de interesses. São bens mais seguros.

Não é a autoridade que distingue a esquerda da direita. Mas sim as duas esquerdas, uma da outra, e as duas direitas, uma da outra. A firme autoridade do Estado, com essa designação ou a de Partido, é apanágio dos radicais, da direita ou da esquerda. Ao patrocinado da propriedade e do sangue, próprio da direita, a esquerda opõe o nepotismo de partido. A esquerda defende a igualdade, a direita e eficiência.

Entre os grandes valores e princípios da direita, contam-se a nação, a ordem, a família, a desigualdade natural e a hierarquia social. Como se sabe, tudo isto separa direita de esquerda. Além disso, há valores que podem ou não ser respeitados pelas direitas: a religião, Deus e o trabalho.

Estas crenças fazem com que as direitas sejam complacentes com a pobreza, o nepotismo, o nacionalismo e a xenofobia. Nenhum destes atributos é absolutamente exclusivo das direitas, mas são aqui mais frequentes. E podem ter semelhanças com as esquerdas radicais, igualmente praticantes do nepotismo, do nacionalismo e de formas de xenofobia.

A liberdade individual e o Estado são outros factores que separam as direitas. Para uns, o liberalismo económico, político e cultural é de rigor. Para outros, a autoridade do Estado vem à cabeça.

Nas últimas décadas da monarquia constitucional, durante a República e ao longo da ditadura do Estado Novo, nunca a direita preferiu o liberalismo, nunca a direita deixou de venerar o Estado e o seu papel na economia e na administração. Depois do 25 de Abril, todos os motivos eram bons para reforçar o papel do Estado, cujo peso se justificava para lutar contra o comunismo. Mas, quando se tratou de reprivatizar as empresas, uma espécie de vento liberal parecia soprar na política.

Em Portugal, a direita liberal está extraordinariamente ausente. Sempre esteve. As razões são muitas, desde o papel do Estado, passando pelo analfabetismo e pelo catolicismo, até à pobreza e à desigualdade. Se procurarmos, durante os últimos séculos, rastos de liberalismo, encontraremos pouca coisa. E mesmo os “liberais” do século XIX, os das “guerras liberais”, como ficaram conhecidas as guerras civis, não brilhavam pelo seu culto das ideias liberais.

Assim é que a direita salazarista se gabou de ser anti-liberal e anti-democrática, com simpatias pelos Alemães e sem qualquer apego pelos Aliados. Podia não ser nazi ou fascista de gema, mas desprezava as democracias anglo-saxónicas. O nacionalismo da direita impedia-a de acarinhar a ideia de ver alemães, italianos e espanhóis em Portugal. Mas eram estes, seguramente, os preferidos no grande conflito mundial.

Em Portugal, onde tudo parece diferente, uma parte importante da direita diz-se social-democrata. O que é pelo menos estranho. E a democracia cristã garante que não é bem isso, mas sim social cristã. E a extrema-direita tem vergonha de dizer que é salazarista. O mais curioso é o facto de o PSD se dizer social-democrata. O essencial da direita anda por ali. Mas há por lá uns tantos social-democratas e uns poucos liberais. São genuínos, mas não fazem com que o partido o seja. Aquele partido tem de tudo, mas tem sido historicamente um travão ao crescimento da extrema-direita, mas esse papel, tão benfazejo, parece agora esgotar-se. O PSD está hoje mais disponível a conviver ou coexistir com a extrema-direita do que a barrar-lhe o caminho.

Também a religião tem papel importante na direita em geral e na portuguesa em particular. Até há pouco tempo, quando a Igreja era, sem hesitação, maioritária ou essencialmente de direita, o panorama estava claro. Jacobinos e republicanos à esquerda, católicos e monárquicos à direita. Mas a Igreja mudou. É hoje fácil encontrar, no seu seio, grupos, pensamentos e valores de esquerda. Em todo o caso, inspirações que a aproximam do mundo do trabalho e dos sindicatos, assim como do universo dos costumes mais permissivos, solidários e igualitários.

Estrangeiros, imigrantes e minorias sempre foram questão importante. Não é verdade que as direitas sejam claramente xenófobas e racistas, e que as esquerdas sejam solidárias e inclusivas, para utilizar termos tão em moda. Há xenofobia e racismo nos dois lados. Como há em cada lado políticas favoráveis e desfavoráveis à imigração. Mas também é verdade que é nas direitas que se encontram mais sensibilidades patrióticas, mais crentes na portugalidade, mais defensores da civilização cristã, mais oposição às políticas de abertura aos imigrantes e aos refugiados. Como é também nas direitas que é mais vincada a atitude favorável a uma integração “forte” dos imigrantes e estrangeiros, isto é, devem vir poucos e os que vêm devem adoptar valores e costumes portugueses. O “multiculturalismo” existe em todo o lado, mas é mais próprio das esquerdas e menos apreciado nas direitas.

Há ainda a questão do mérito. Uma das mais estranhas. Na verdade, tempo houve em que o mérito se opunha à família, ao sangue e à herança. Era o mérito de cada um que podia criar condições de igualdade de oportunidades. O mérito era um valor da democracia e até da esquerda. Curiosamente, o valor do mérito tem vindo a diminuir para a esquerda. E não se sabe se a crescer para a direita. Para as empresas, talvez. Para a política e a sociedade, menos.

A direita prefere o mercado, a concorrência e a iniciativa privada, mas recorre ao Estado sempre que precisa. O problema é que precisa muitas vezes. A direita é hoje menos rígida diante de certos valores, como sejam a permissividade sexual, a liberdade de género, a igualdade de sexos, o aborto, o divórcio ou a união de facto. Uma coisa é certa: o futuro da democracia depende tanto da esquerda como da direita. Se ambas souberem ser democráticas. E conseguirem derrotar os seus inimigos.

Público, 6.3.2021

 

 

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5.3.21

PATUÁ

Por Joaquim Letria

Venho hoje pôr-vos em cima da mesa uma modesta crónica que mais não pretende do que vos apontar à luz no fundo do túnel, vós que sois meus leitores da linha da frente, enfrentando as dificuldades que combateis com uma robusta decisão que vos dá a garantia que vos levará a implementar os objectivos de todos nós com inigualável resiliência.

O que digo no parágrafo anterior mais não significa do que “escrevo uma modesta crónica que poderá ajudar a encontrar a solução para aqueles que enfrentam a vida difícil por que passamos, enfrentando os problemas com a sólida decisão que garante atingirem os objectivos colectivos com uma resistência sem igual”.

Estes dois parágrafos podem significar a mesma coisa, ainda que escritos do modo diverso e utilizando palavras distintas, mas ambos com o mesmo propósito. Também um e outro poderiam ser redigidos de forma diferente e ainda assim quererem ter o mesmo significado.

Escrevo ambos com o propósito de vos mostrar como no primeiro utilizo termos e expressões que se vão transformando em lugares comuns. Hoje, se prestarem atenção, nos meios áudio visuais e na Imprensa escrita diz-se e escreve-se com toda a naturalidade estas palavras que não sendo novas se vão introduzindo e fixando num novo léxico que já ninguém estranha. Notem como usamos os termos de “em cima da mesa, de luz ao fundo do túnel, linha da frente, orçamentos de Estado robustos" e como implementamos e somos resilientes e servimo-nos de bordões como ”ainda assim”.

Dirão os de hoje que tal fenómeno é expectável, diriam os mais antigos como eu  que isto que está a acontecer seria de esperar. Não quero dizer que uns e outros não têm razão e que uma coisa e outra significam coisas diferentes, com uns a estarem certos e outros errados. Nada disso. As línguas têm vida própria e transformam-se e ganham formas diferentes daquelas que tinham à nascença. Essa é uma diferença fundamental entre as línguas vivas e as línguas mortas.

Reparem como os termos que cito acima estão no nosso uso. Alguns dicionários transmitem-nos dúvidas. Mas também essas serão uma questão de tempo. No Morais, implemento significa cumprimento de uma obrigação, de um contrato, implementar é promover, levar a efeito;  já resiliência não existe no Morais nem no Houaiss, que dão sim conta de resiliação (essa existe) com o verbo resilir, que significa arrepender-se, negar-se ao cumprimento de pacto ou contrato, invalidar, rescindir. Por outro lado, o Dicionário da Língua Portuguesa reconhece resiliência e implementar tal como os vemos serem utilizados hoje em dia.

Moral da História: vamo-nos entendendo assim, neste patuá (ou patois), antes de fugirmos  para a linguagem virtual que essa, qualquer dia, com tantas conferências de Imprensa, todos nós acabamos por falar tão  impecavelmente como qualquer surdo ou surdo-mudo.

Publicado no Minho Digital

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4.3.21

Os media, em geral, a RTP, em particular, e as notícias

 Por C. B. Esperança

É deprimente ouvir e ler opiniões disfarçadas de informação e, sobretudo, suportar mais de uma hora de noticiários, onde o relevo dos palpites dos néscios de ocasião rivalizam com os pareceres dos cientistas.

A exibição das desgraças, o gosto do terror e o tom de relato desportivo acompanham os noticiários. No aniversário do primeiro doente diagnosticado com a Covid-19, a RTP-1, no telejornal das 20H00, fez da data comemoração. José Rodrigues dos Santos exultava a indicar em gráficos os piores momentos, e gritava em apoteose: “fomos os piores do mundo”.

Tem faltado compostura na referência ao número de mortos e a internados nos cuidados intensivos, serenidade na informação e respeito pelos convidados especializados quando divergem do catastrofismo que o jornalista de turno deseja. 

Foi obscena a falta de pudor com que se exibiram doentes no interior de Urgências e nos corredores dos hospitais, onde faltava espaço para acudir a uma situação anómala e cabia sempre mais uma câmara de televisão a devassar a intimidade de quem sofria.   

É incrível a quantidade de ignorantes que censuram os serviços de Saúde e os seus mais destacados dirigentes, as desgraças que contam, as opiniões que emitem e os conselhos que deixam a um SNS que, apesar de tudo, tem resistido a tão rude prova. Não são as declarações dos especialistas que interessam, são os palpites dos alarmistas, depois de abrandar o terror e desespero que criaram aos utentes dos lares e aos familiares, agora que os riscos diminuíram e foram prioritários na vacinação. 

As notícias do mundo são parcas e esporádicas; desapareceu o drama humanitário dos refugiados afogados no Mediterrâneo; o genocídio efetuado no norte de Moçambique, por milícias islâmicas raramente é referido; até as guerras, que perduram, alheias à pandemia, deixaram de merecer atenção.

As boas notícias, que as há, ficam omissas ou passam despercebidas no espetáculo dos horrores. Recentemente, passou despercebida uma vitória notável da presidência portuguesa da União Europeia. Conseguiu-se, pela primeira vez, apoio de larga maioria de países para avançar com uma diretiva europeia. Pedro Siza Vieira obteve avanços no dossiê que prevê que “as grandes sociedades que operam no espaço europeu e que são cotadas publiquem, juntamente com os seus relatórios e contas, informação sobre o volume de impostos que pagam e também onde pagam”.

Este esbulho de países onde as multinacionais, incluindo algumas portuguesas, têm sede de conveniência, é um roubo que, segundo os dados de Bruxelas, custa aos países da UE cerca de 50 a 70 mil milhões de euros por ano.

A melhor e mais aliciante notícia da UE, onde Portugal foi decisivo e elogiado, passou despercebida, se é que foi referida nas televisões.

Há um gosto doentio em salientar desgraças e silenciar vitórias, talvez por masoquismo ou medo de suspeitas de cumplicidade com o poder, e a informação que nos servem é tóxica e intolerável. 

Ponte Europa / Sorumbático

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2.3.21

Na "Nova Costa de Oiro" de Fev 21

 

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No "Correio de Lagos" de Fev 21

 

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28.2.21

No "Correio de Lagos" de Fev 21

 

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27.2.21

Grande Angular - Ainda as duas esquerdas

Por António Barreto

Por vezes, as grandes crises são propícias às transformações. A actual pandemia é disso um bom exemplo. Aliás, mesmo antes de esta última se ter revelado, já havia sinais de que se preparava uma reconfiguração da política portuguesa. Havia sinais inconfundíveis. O declínio assustador da direita democrática e da democracia cristã. A decadência do centro social-democrata. A frenética ascensão da extrema-direita e do Chega. O imobilismo comunista. A deriva da esquerda radical não comunista. O desenvolvimento das tendências e das “sensibilidades” socialistas. E a proliferação de pequenos partidos.

O protagonismo do Presidente da República acrescentou uma nota consistente e um peso específico próprio com o qual teremos de contar durante os próximos anos. Na sociedade em geral, no mundo sindical, nos meios católicos, nos ambientes maçónicos, nos círculos profissionais e no universo intelectual, surgem fenómenos inéditos que não desmentem a descrença política e sugerem novas afirmações políticas.

Por enquanto, em Portugal, a pandemia tem favorecido o que está estabelecido, o statu quo e o poder do dia. E tem beneficiado os socialistas. Não se sabe por quanto tempo. Por isso, com a necessidade de aprovar três novos orçamentos, com a aproximação das eleições autárquicas e já com as legislativas (antecipadas ou não) no horizonte, a urgência de revisão política é total. Tanto nas esquerdas como nas direitas.

Estranhamente ou não, a esquerda é actualmente a mais importante força de estabilidade e de conservação política. Se pudesse, tudo ficava como está. Aos outros, na oposição, nas margens e nas extremas, compete o mais difícil: reconquistar, reorganizar, renovar e consolidar. Mas a esquerda sabe que, mantendo-se imóvel, fica dependente e pode perder os trunfos actuais. Por isso vamos, quase inevitavelmente, assistir a grandes movimentos políticos e doutrinários no universo esquerdista. E aqui surge, uma vez mais, a necessidade de clarificar as semelhanças e as diferenças entre as duas esquerdas.

Há muitos anos, mais de um século, as divisões dentro das esquerdas são conhecidas. Martov e Kerenski, por um lado, Lenine e Trotski ou Estaline, por outro, representam boa parte dessas diferenças. Que atingiram estados elevados de violência, como é sabido: o assassinato de milhares de socialistas pelos bolchevistas constitui ainda hoje inesquecível marco.

Antes e depois deles, na Rússia e alhures, as discussões dentro das esquerdas nunca foram suaves. Karl Kautsky e Eduard Berenstein protagonizaram visões moderadas do socialismo. Tal como Ebert, na Alemanha, Leon Blum, em França, ou os trabalhistas ingleses Attlee, Bevin e Bevan. Enquanto os comunistas desses países se constituíram depositários do poder soviético e da tradição autoritária e despótica da esquerda.

Em todas as esquerdas europeias, passando pelas alemãs, as suecas, as italianas e as espanholas, encontramos fenómenos semelhantes: desde a segunda metade do século XIX e até há bem pouco tempo, as separações dentro das esquerdas foram sempre um capítulo fundamental, muitas vezes violento, da história política europeia. Por exemplo, os confrontos entre as duas esquerdas, em plena guerra civil espanhola, ficaram para a história. Mais perto de nós e sem o carácter sangrento de outras paragens, o confronto entre socialistas e comunistas, ou entre Soares e Cunhal, transformou-se no mais sério contributo dos portugueses para a história política das esquerdas na Europa.

A associação do PS às esquerdas radicais (PCP e BE), no Parlamento e no governo, já criou uma situação inédita que dura há quase seis anos. Na crise actual, já se percebeu que as coisas não ficarão como estão ou como têm sido. E o que está em causa é muito importante. Juntam-se finalmente as esquerdas democráticas e as não democráticas? Separam-se de vez? A esquerda democrática consegue atrair e digerir as esquerdas não democráticas? Ou estas últimas obtém a vitória histórica de mudar e dominar os socialistas democráticos?

Os socialistas têm o benefício das opiniões e dos votos. Por enquanto. Fortemente identificados com a Europa e a democracia (e a Aliança Atlântica), mostram vantagem. Mas a sua vulnerabilidade diante dos negócios, dos grandes grupos económicos, da corrupção e do jacobinismo abre-lhe um flanco mais fraco. Tal como a sua dificuldade em combater a desigualdade e em alicerçar uma aliança durável com o mundo do trabalho. Dependentes das outras esquerdas, os socialistas, para ganhar, podem ter de vender alma e doutrina.

Na sua melhor tradição, os socialistas opõem-se aos métodos revolucionários, ao terrorismo, à violência, à colectivização, à destruição da iniciativa privada, à opressão da Igreja, ao monopólio do Estado na educação e na saúde, à aniquilação das Forças Armadas e a formas de governo não democráticas e não parlamentares. Mas também sabem que nas esquerdas há muito fortes tendências exactamente contrárias, com especial inclinação para destruir o mercado livre e a iniciativa privada, com um estranho afecto por formas “populares” de governo, com a obsessão do monopólio do Estado e com uma absoluta aversão pelo investimento privado. Estão ainda conscientes de que as esquerdas radicais têm uma concepção elástica dos direitos fundamentais, sobretudo dos direitos cívicos e políticos; assim como têm convicções condescendentes sobre a guerra civil e a luta das classes, a violência e o terrorismo (se este for de esquerda, das minorias, de tudo quanto é anti-capitalista ou anti-americano…) contrárias às tradições socialistas. Como é sabido que nas esquerdas vegeta uma grande complacência, quando não admiração, por formas de governo muito especiais, como sejam as do despotismo tropical latino-americano, as das ditaduras militares africanas e asiáticas, as das burocracias parasitárias africanas e árabes, as dos movimentos radicais muçulmanos e as dos separatistas europeus violentos.

Quando, há seis anos, António Costa decretou “o fim do tabu”, isto é, dispôs-se a governar em aliança com as esquerdas radicais, iniciou-se uma nova e interessante fase na política nacional: a colaboração entre as duas esquerdas. Na Europa, com o desaparecimento dos partidos comunistas e aparentados, já não se falava disso. Mas, em Portugal, quase sempre atrasado, iniciou-se essa colaboração. Por necessidade, claro, mais do que por convicção. Mas, sem esclarecimento, trata-se de colaboração passageira. Sem objectivos. Sem horizonte. Quer isto dizer que a hora das escolhas está a chegar.

Público, 27.2.202

 

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26.2.21

O GRANDE AMANHÃ

 Por Joaquim Letria

Um jornalista ocidental perguntou certa vez a Deng Xiao-ping quais, em seu entender, tinham sido os efeitos da Revolução Francesa sobre o pensamento europeu. O velho líder chinês respondeu:

— Ainda é cedo para o sabermos.

De uma crise como esta que vivemos actualmente não se sai sem um grande acordo social, no qual os principais interlocutores – empresários, trabalhadores e administração pública – cedam conscientemente nas suas posições de princípio até encontrarem um mínimo denominador comum que permita a recuperação, o bem estar e, por fim, o desenvolvimento.

Perdidos no meio de tanta teoria, sujeitos a tantos especialistas tombados sobre mapas e gráficos de tanta estatística, números frios e inertes, jaz o drama de muitos milhões de pessoas, verdadeira vala comum de sonhos desfeitos.

Muito pouca desta gente a quem pertencemos saberá o que é o PIB ou o défice comercial e quase ninguém será capaz de explicar o que é a balança de transacções correntes.

Sobrevive-se numa sociedade desprendida e sem solidariedade em que ninguém quer repartir o que há, de forma a que algo chegue para os que nada têm. Só um grande debate poderá levar-nos ao acordo necessário. Deixando cada um de fora as malas da demagogia, impõe-se a honestidade de remeter cada discurso para a crueldade dos factos.

O homem de hoje tem de se reconhecer provisório. Como dizia Karl Marx, diante de nós tudo se volatiliza, tudo o que é sólido se pulveriza no ar. Finitos como somos, reinventamo-nos sem cessar.

Este é um debate que devíamos travar com serenidade e a duas dimensões. A do dia a dia de hoje e a do grande amanhã.

Publicado no Minho Digital

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25.2.21

A pandemia e o equilíbrio emocional

 Por C. B. Esperança

A pandemia em curso remete-nos para a guerra colonial, quando o medo, a ansiedade e as saudades da família e dos amigos se fundiam numa amálgama de sentimentos que se agravavam, e perturbavam os mais sensíveis ou os que experimentavam maiores riscos.

Era vulgar, dia após dia, ver aumentar o número dos que sofriam pesadelos, gritavam e pediam a arma durante o sono e, acordados, diziam frases sem nexo ou remetiam-se ao mutismo. Eram designados por “apanhados pelo clima”, a forma de referir as alterações do comportamento.

A pandemia, ao contrário da guerra colonial, não tem um fim previsível e nem sequer se pode dizer que, depois dela, o perigo passa. A pandemia é a guerra sem quartel, contra um inimigo invisível, sem limite de tempo, e, na melhor das hipóteses, de conversão em epidemia. O fim do confinamento não é o termo de uma comissão na guerra colonial.

O apelo dramático de Guterres, para não se deixarem os países pobres sem vacinas, não é um mero apelo à solidariedade que lhes devemos, é um contributo para a nossa própria sobrevivência. O vírus não respeita fronteiras e é, talvez, na sua letalidade, uma tragédia democraticamente dirigida a ricos e pobres, países e pessoas.

Nota-se na reação das pessoas que conhecemos bem uma progressiva melancolia ou um desespero que aumenta a agressividade e nervosismo. A conduta dos média e das redes sociais tem sido nefasta na exploração do medo e exigência de respostas desconhecidas.  Esquecem-se as hesitações das mais credíveis organizações científicas mundiais e as dúvidas e contradições de epidemiologistas e infeciologistas consagrados.

Nunca tínhamos passado, a nível planetário, por situação tão dramática, por uma infeção tão contagiosa e letal. Não admira que o medo nos oprima, a ansiedade nos deprima e a falta de afetos, de contactos, sociais e físicos, nos perturbem. É dramático ver um perigo em cada filho, e como suspeitos os netos.

Vai ser difícil viver com medo e ansiedade, com afastamentos físicos, máscaras e receio do troco do café, do puxador da porta da rua, da mão amiga que deixou de se estender, dos beijos e abraços que nos enterneciam.

Há quem consiga digerir a situação com alguma bonomia, mas é difícil que se adaptem todos os que sentem o peso do confinamento, da abdicação das liberdades elementares e dos condicionalismos que vão persistir.

Quando a situação melhorar, há de melhorar, são de temer os comportamentos, exagero na recuperação do tempo perdido ou abulia pelo regresso à normalidade que há de vir, bem diferente, decerto, da que antecedeu a pandemia.

Na religião, na política, nos afetos e nas relações sociais e familiares haverá alterações pautadas por excessos numa crise existencial que a falta de empregos e de perspetivas exacerbará.

As feridas não dilaceram apenas as gerações que vivem o drama pungente da pandemia, hão de repercutir-se nas gerações que hã de vir.

Ponte Europa Sorumbático

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22.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21


Em relação
a João Cutileiro, não falta quem, melhor do que eu, diga o que tem de ser dito, pelo que me pareceu interessante uma abordagem diferente, mostrando como a sua obra é por vezes tratada na nossa cidade. Para isso, seleccionei cinco apontamentos que me parecem ser mais do que simples ‘fait-divers’, na medida em que documentam situações lamentáveis que bem poderiam ser evitadas.


I — QUANDO, em 2014, me deparei com o ‘ex-libris’ da cidade no estado que a primeira imagem mostra, fui pessoalmente à Junta de Freguesia para solicitar que se providenciasse a necessária limpeza, aproveitando para mostrar imagens de situações semelhantes, com destaque para um gigantesco ‘tag’ feito na muralha quinhentista, precisamente num dos seus panos mais visíveis.
Fui muito bem recebido e, no primeiro caso, a “desejada” limpeza do “Desejado” lá foi feita... ao fim de 40 dias. No entanto, como os ‘artistas do gatafunho’ não desarmam, em 2016 houve segunda vandalização, e ainda uma terceira em 2018 (cujas imagens aqui se omitem por falta de espaço), levando-me até a pensar se não se estaria perante algo como uma intervenção de arte BIENAL...
Quanto ao gatafunho da muralha, ele desapareceu também, embora dessa vez graças à acção do sol e da chuva — mas ambos os casos deram origem a uma proveitosa troca de ‘e-mails’ com a “Associação Socioprofissional dos Guardas-nocturnos de Lagos”, que me elucidou acerca da legislação feita para punir os autores dos grafitos selvagens, onde estão previstas coimas que — imagine-se! — podem ir até aos 25 mil euros.

II — OUTRA peça emblemática é o conhecido torso feminino que dialoga connosco deitado no pavimento da Rua da Porta de Portugal. Ora, sendo esta disposição uma opção do artista, facilmente se compreende que sirva aos cães para demarcarem o seu território, ou até de assento para passantes fatigados. Resta saber se a sua utilização como apoio de gradeamentos de obras (de preferência sinalizadas com o dístico “Lagos dos Descobrimentos”, como é o caso que a imagem mostra) também arrancaria um sorriso ao escultor. É possível que sim...

III — QUANTO à imagem do jovem a esvaziar a bexiga no painel “Alcácer Quibir”, a cena pode ser revoltante, mas nada tem de surpreendente pois, ali a dois passos, o recanto por baixo da Janela de D. Sebastião funciona há anos como WC público — com urina, fezes, grafitos e lixo. Aliás, já é proverbial a tolerância dos poderes públicos lacobrigenses para com tudo o que de degradante se passa nessa zona, pelo que é impossível, para quem estima a cidade, andar por aqueles lados sem ficar indignado — um assunto que, pela sua gravidade, não pode deixar de ser debatido nas eleições autárquicas que terão lugar ainda este ano.

IV — A FOTO seguinte mostra o sentido de oportunidade de alguém que aproveitou a imagem do painel intitulado “Lagos e o Mar” para colocar a personagem a adorar um anemómetro — aparelho que veio a ser retirado, porventura no seguimento de um “apontamento” publicado neste jornal.

V — JÁ AGORA, e vá lá saber-se porquê!, esse mesmo painel de MÁRMORES aparece referido, na placa de inauguração, como sendo de AZULEJOS — um mistério que nem o arquitecto coordenador do projecto me conseguiu esclarecer, no decorrer de uma proveitosa conversa que tivemos acerca de todo aquele espaço. Nesse seguimento, também se mostrou esperançado em que venha ali a ser colocada uma réplica da outra placa (que, na senda do que sucedeu ao velho coreto, há muito sumiu sem deixar rasto), onde constavam nada menos do que os nomes do Projectista, do Empreiteiro Geral e da Fiscalização! Claro que a pretensão é mais do que legítima, mas, se fosse comigo, aproveitava o murete onde ela esteve para esperar sentado.

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21.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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20.2.21

Grande Angular - Saudades da luta de classes

Por António Barreto

A pandemia e os seus efeitos, assim como os processos de combate, a organização dos serviços e a eficácia das medidas tomadas, ocupam os nossos dias, os jornais, as redes e o espaço público. É normal. Fala-se de mais e surgem multidões com uma competência médica e cientifica inesperada. Tanta gente tem tantas opiniões definitivas sobre estes assuntos! Mesmo nestas circunstâncias é razoável que o tema seja a principal preocupação de todos, pessoas, organizações e jornais. Ainda por cima, com a acumulação de incerteza, de ineficiência e de erros, é compreensível que quase não se discuta outra coisa.

Mesmo assim, vivemos tempos em que novas polémicas se instalam, desenvolvem e sobem de tom. Ou antes, velhos preconceitos e antigas irracionalidades renascem. Fascismo e antifascismo, racismo e anti-racismo, antigas rivalidades, estão de novo presentes. Mesmo estando hoje desadequados à sociedade portuguesa, absolutamente fora de tempo e questão, sendo indignos disfarces para outras lutas e infames pretextos para envenenar as relações sociais e políticas, estes dilemas ocupam o espaço que deveria ser de razão e liberdade. Há fascistas em Portugal? Certamente. De todas as condições. Há racistas em Portugal? Não há dúvidas. De todas as cores. Devem a democracia, a razão e a liberdade combater essas pessoas e esses valores? Seguramente e sem hesitação. Mas o que fazem os que se classificam como antifascistas e anti-racistas é tão nefasto à liberdade quanto os adversários. A peste não se combate com a cólera.

Quando as coisas correm mal, mesmo muito mal, o pior vem ao de cima. Os espectros que actualmente ameaçam a paz em Portugal, os vultos que rondam as ruas e os campos são as causas erradas. Não a pandemia, não a desigualdade, não a pobreza, não a incerteza económica e social, mas sim o fascismo e o antifascismo, o racismo e o anti-racismo.

Em tempos de crise, há quem culpe os estrangeiros. É sempre assim, há séculos. Doença ou greve, fuga de capital ou conspiração, terrorismo ou desordem, tudo vem com os estrangeiros. Porque eles tomam conta dos nossos empregos, casam com as nossas mulheres, ficam com os nossos homens, ocupam as nossas casas, trazem valores deles para as nossas escolas, não respeitam as nossas tradições nem as nossas leis. São estrangeiros e abusam da nossa hospitalidade. Aprenderam a viver à custa dos subsídios do Estado, não pagam impostos, só têm direitos, não querem ter deveres. Se não se sentem bem, deveriam ir-se embora. Para o seu país.

E depois há os que além de serem estrangeiros são negros, amarelos ou castanhos. Asiáticos ou ameríndios. Árabes ou chineses. Sem falar nos judeus e nos muçulmanos. São duplamente nocivos. Não respeitam as nossas tradições e querem impor as deles. Desprezam as nossas leis e querem forçar as suas regras. Com os seus deuses, as suas comidas, as suas famílias, as suas regras de casamento e educação, não fazem esforços para se integrar. Forjam casamentos contratados, vendem crianças e adolescentes, trocam pessoas por fortunas, tratam mal os animais, vivem fechados nas suas comunidades, só tratam dos seus e sujam o espaço público de todos e o nosso em particular. Oprimem os seus e não querem saber da democracia.

Somos nós os europeus verdadeiros, senhores de um passado, mestres da descoberta. Filhos e herdeiros de uma longa história, de uma velha tradição, não podemos deixar que nos destruam costumes, regras e crenças. Fomos generosos a ponto de deixar entrar estrangeiros, minorias, negros e árabes, mas eles não se querem integrar nem respeitar as nossas leis. Por isso temos de restaurar a nossa pátria, reconsiderar as nossas tradições e exigir respeito, sem o que terão de ir embora, até porque muitos vieram com mentira, não são refugiados, não são exilados e não são perseguidos. Uns procuram trabalho, outros nem sequer, entregam-se a actividades ilegais, a comércio ilícitos, conspurcam as ruas e as instituições. Não é verdade que somos todos iguais. Quem não está bem que se retire. Não sou racista. Até tenho amigos pretos.

É por isso que combatemos os “supremacistas” brancos. Nós, portugueses de outra etnia, imigrados, minoritários, africanos, estrangeiros, brancos solidários com as minorias e que denunciamos a superioridade dos brancos, dos antigos colonialistas, dos esclavagistas e dos nostálgicos do fascismo. São esses brancos que nos exploram, abusam das nossas mulheres, tentam vender-nos droga, não nos pagam a horas e quando pagam são salários de miséria. Não nos admitem nas suas escolas nem nos seus hospitais, não cuidam dos nossos velhos, pagam mal as pensões e quando as coisas não correm bem para eles, por causa deles, a primeira coisa que lhes ocorre é dizer-nos “vão-se embora”. Nem sequer percebem que muitos de nós, cada vez mais, nascemos aqui. Por isso, exigimos medidas contra os racistas, contra os que, no espaço público, alimentam o ódio contra os estrangeiros, querem restaurar as glórias do colonialismo, a força dos conquistadores, os direitos ilimitados dos brancos e dos poderosos sobre os trabalhadores. Exigimos que nos devolvam o património que nos roubaram durante séculos. E que a história seja expurgada do racismo e do colonialismo.

Estes confrontos envenenam a vida política portuguesa. Destroem a inteligência e o sentido de comunidade solidária. Estes episódios fazem-nos ter saudades da luta das classes! Dos tempos em que as lutas se desenrolavam à volta de questões políticas, económicas e sociais de grande importância e de relevo para a direcção de uma sociedade e para a afirmação de um poder! Dos debates em que estavam em causa o poder político, as relações entre o capital e o trabalho, a propriedade dos meios de produção e a repartição do produto e do rendimento. Dos combates em redor da organização do Estado, da defesa nacional, da paz e da guerra e da segurança colectiva. Saudades dos tempos em que se lutava por valores essenciais da política, do trabalho e do emprego, dos direitos dos trabalhadores e dos patrões, das obrigações e dos deveres de cada um e de todos! Saudades das lutas pelos serviços de saúde e de educação e pelos direitos e deveres dos idosos! Dos tempos em que a liberdade e a democracia estavam no centro das discussões e das lutas e não eram consideradas, como hoje, hábitos adquiridos e secundários ao lado da importância decisiva de símbolos, da memória e da culpa.

Público, 20.2.2021

 

19.2.21

LIMPAR A CABEÇA E FAZER O CORPO PAGAR

Por Joaquim Letria

Parece que foi ontem que eu saía às duas da manhã duma segunda sessão duma Revista do Parque Mayer, perfeitamente a tempo de encontrar cafés abertos com gente a conversar e a máquina dos expressos ainda ligada.

Depois dum café e de dois dedos de conversa, saltava-se gostosamente de cabaret em cabaret. Encontrávamos aí as habituais e os habituais, é verdade que se bebia bem mas ninguém picava os braços e os afectos, por um lado, e a luxúria por outro, entretinham-nos até bem dentro da madrugada, muitas vezes até de manhã.

Eu não era um desses fregueses de mercearia de bairro que, uma vez por semana, vive a aventura das grandes superfícies. Compartia com naturalidade essa promiscuidade das pequenas multidões com o gosto de desfrutar o prazer mais íntimo das pequenas lojas.

Nunca fui um incapacitado face à mais complicada adaptação de limpar a cabeça e fazer o corpo pagar o ócio, a aventura, o prazer, a dúvida e viver a vida. Era a nossa vingança da infelicidade da vida do pára-arranca, da tristeza, do abandono, das incertezas. E vai ser essa a nossa vingança daquilo que a vida nos inflige hoje, logo que a maioria de nós conserte a sua vida.

Já devem ter reparado que só muito raramente escrevo algo relacionado com a pandemia que tanto nos faz sofrer, mas recuso-me a cantar no coro de todos os que se substituem aos médicos, aos economistas, aos sociólogos, aos políticos, criando um ambiente que tanto faz sofrer, muitas vezes dizendo coisas sem fundamento mas que contribuem para a neurose e o sofrimento mental que tanta gente afecta.

Deixem os médicos e enfermeiros derrotarem a doença, os políticos fazerem o seu trabalho mesmo com algumas asneiras difíceis de aceitar que, essas sim, devem ser denunciadas, mas permitam que se pense noutras coisas, não nos imponham o lado mau de tudo o que temos de resolver no dia-a-dia das nossas vidas. E o pesadelo do futuro logo se verá.  Mais vale pensarmos assim do que submetermo-nos á monstruosa crueldade a que nos sujeitam sem nos deixarem outra saída que não seja não pensar em mais nada que não seja a desgraça desta situação.   

Transportar todo o passado livre e feliz para a nossa vida de hoje deixa-nos um mau gosto na boca e desenha-nos um sorriso triste na cara. Mas há que acreditar que tudo aquilo de que nos lembramos e os pequenos prazeres que ainda não se apagaram voltarão a ser possíveis e que ganharemos força e vontade para ajudar, estimular e conseguir levar até á vitória aqueles outros de todos nós que vão vencer este maldito tempo e que ultrapassarão as marcas mais graves que a doença nos vai deixar.

Publicado no Minho Digital

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18.2.21

A absolvição de Trump é uma tragédia para a democracia

Por C. B. Esperança

A absolvição no Senado, onde eram necessários 2/3 dos senadores para a condenação, foi trágica para a democracia.

Não bastaram quatro anos de pregação do ódio, de afronta às instituições democráticas, de rutura com acordos internacionais assinados pelo Estado americano e as tropelias do homem sem ética, sem coerência, sem sentido de Estado e em permanente conflito com a verdade.

Viu condenar os amigos na duvidosa eleição que o levou à presidência, por perjúrio na trama russa no resultado eleitoral, assistiu à permanente debandada dos seus mais fiéis servidores quando um módico de dignidade os assaltou e manteve-se cobarde e mitómano durante todo o mandato no persistente abuso dos poderes presidenciais e na obstinada manutenção no poder para desacreditar e destruir a democracia.

Perdidas as eleições fez tentativas grosseiras para se manter no poder, desde pressionar um governador para lhe inventar uns milhares de votos até ao falhado golpe de Estado no assalto ao capitólio, dirigido por ele através dos média e das redes sociais. Quis que a eleição ignorasse as urnas, primeiro por fraude, depois pelos tribunais. 

No Supremo nomeou 3 juízes vitalícios, dois deles de forma insólita, o primeiro porque o Partido Republicano impediu Obama de o nomear por estar a cerca de 1 ano do fim do mandato e a última quando ele próprio já estava em campanha eleitoral.     

A instigações do assalto ao Capitólio e as cinco mortes ficaram impunes por cobardia de senadores que perderam a dignidade com medo de com da vingança dos eleitores de Trump nas suas reeleições.

Trump acabou a indultar os crimes dos seus amigos e familiares e acabou ele próprio absolvido no Senado que manchou a sua dignidade e a das instituições democráticas dos EUA, num péssimo exemplo para o mundo.  

O Partido Republicano, hoje dominado por seitas e organizações de extrema-direita não foi sempre menos democrático do que o seu rival, era apenas mais liberal na economia. Hoje, tão mal frequentado, é cada vez menos recomendável.

Joe Biden, no curto espaço do seu mandato, tem cumprido de forma digna as promessas que fez, sendo-lhe difícil restaurar a autoridade moral perdida e a confiança dos países onde o Estado de Direito define as democracias.

Ponte Europa /  Sorumbático 

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17.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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16.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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15.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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14.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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13.2.21

Grande Angular - As duas esquerdas

Por António Barreto

Não é inevitável, mas tudo leva a crer que, dentro de poucos meses, se abra o debate sobre as alianças políticas. Dado o afastamento dos governos de iniciativa presidencial e de unidade nacional, as hipóteses são conhecidas: esquerda contra direita? Bloco central?

Com o que sabemos hoje, não será exagerado prever que a decisão pertencerá sobretudo à esquerda, ao PS em particular. É verdade que a pandemia tem provocado uma enorme erosão do governo, mas também é certo que a direita não parece beneficiar dessa evolução. Cumprida ou não a legislatura até ao fim, a mais importante decisão será a que diz respeito às esquerdas: unidas ou separadas?

Esquerdas sempre as houve, duas ou mais. O que as define e divide é o essencial da política, como a liberdade e a democracia. Nas questões sociais (saúde, educação, segurança social, trabalho…) pode haver diversidade, mas não separação definitiva. É a política que as divide, não o social nem a economia, muito menos a cultura. São poucos os critérios decisivos. A democracia e o respeito pelas regras democráticas vêm à cabeça. Estas constituem os principais elementos definidores da democracia: igualdade de estatuto e de direitos entre cidadãos; direito de voto em eleições periódicas e regulares; quem ganha eleições governa e respeita quem perde; garantia de liberdade de expressão; e instituições livres. Isto é o fundamental. As variantes adjectivas, democracia “cultural”, “social” ou “económica”, por exemplo, são outras coisas. Em geral, fantasias.

O entendimento da liberdade individual é outro critério. Quando a liberdade e a dignidade da pessoa humana começam no indivíduo, estamos numa esquerda. Quando a liberdade individual está submetida à “liberdade colectiva”, quando os “direitos individuais” dependem dos “direitos colectivos” e quando é o “colectivo” que determina a amplitude do “individual”, estamos noutra esquerda. Uma e outra são incompatíveis, a não ser com enorme dose de oportunismo.

O papel da iniciativa privada pode ser mais um critério. A esquerda democrática ou a social-democracia respeitam e dão uma larga margem à iniciativa privada. A esquerda radical, comunista, socialista e revolucionária, não lhe confere qualquer papel, tolera-a a contragosto ou elimina-a. 

Há uma esquerda que pretende controlar a iniciativa privada. Os socialistas e os sociais-democratas andam por aí. O princípio é simples: o poder político tem o primado sobre o poder económico. Há outra esquerda que quer simplesmente acabar com a iniciativa privada, a não ser que seja pequena, pobre e obediente. Os famosos “pequenos e médios” (agricultores, camponeses, comerciantes, industriais…) formam essa iniciativa privada tolerada e dependente.

Há uma esquerda que aceita a economia de mercado, o capitalismo, a livre empresa, os empresários e a iniciativa privada, mas entende que toda esta realidade deve ser compensada, contida, regulada ou equilibrada pela política e pelo Estado Social. Enquanto há uma outra esquerda que tem como objectivo último a destruição do capitalismo, da iniciativa privada, das empresas, das classes proprietárias, da banca, dos seguros e dos serviços privados de saúde e educação.

 

Costuma referir-se outros critérios como a igualdade social e económica, o papel do Estado, a centralização do poder, a regionalização e outros. Mas não são realmente conceitos que identificam ou distinguem. Revelam simplesmente a variedade programática das tendências. Por exemplo, a esquerda democrática, em Portugal, já foi centralista e adversária da regionalização; agora ainda é centralista, mas já é favorável à regionalização. Quanto à esquerda comunista, sempre foi fortemente centralizadora, mas também, paradoxalmente, defensora da regionalização.

Outros critérios importantes são a nação e a identidade nacional. Constituem distinção importante entre esquerda e direita, mas não muito para as duas esquerdas. Conforme os tempos e as necessidades, há nacionalismo, patriotismo e internacionalismo numa ou noutra esquerda, ou nas duas. Ou em nenhuma. A União Soviética, por exemplo, era ferozmente nacionalista e proclamadamente internacionalista.

Novo critério ainda, o da religião. Os republicanos, os maçónicos e os jacobinos, que frequentam com assiduidade o socialismo e a social-democracia, não gostam em geral da religião, receiam-na, utilizam-na quando lhes convém, adulam-na quando precisam, hostilizam-na quase sempre. Já os comunistas, conservadores como são, respeitam a religião enquanto estão na oposição. Se um dia chegam ao poder, perseguem-na.

Interessante é perceber que o que distingue as duas esquerdas não é o que separa a esquerda da direita. Com efeito, o papel do Estado, por exemplo, pode ser defendido com ferocidade por correntes da esquerda, mas também da direita. Os fascismos, o nazismo e as ditaduras ibéricas eram favoráveis ao papel dominante do Estado, tal como a esquerda radical, sempre, e a esquerda moderada por vezes. A regionalização também não é carácter distintivo: tem os favores de várias correntes de direita e várias de esquerda.

O que separa realmente as duas esquerdas é a liberdade e a democracia. É verdade que ambas dão mais importância à igualdade do que à liberdade. Ambas preferem o Estado e o poder político às empresas e ao poder económico. E ambas privilegiam o Estado como fornecedor dos serviços de educação e saúde. Mas há diferenças fundamentais entre as duas esquerdas: a liberdade individual e a democracia.

O PS parece ter renunciado definitivamente à ambição maioritária. O que quer dizer que a sua política de alianças passou a ser a pedra de toque. Aliança com o centro e a direita social-democrata ou democrata-cristão. Ou aliança com a esquerda radical, não democrática e revolucionária. Esta parece ser a mais provável. O que tem o mérito de obrigar a uma discussão séria sobre os limites dessa aliança, o seu objecto e o seu horizonte. 

Como é sabido, o Estado democrático é, para os comunistas e talvez também para o Bloco, etapa ou fase de transição. O que vem a seguir, mais ou menos socialista, mais ou menos comunista, mais ou menos ditadura do proletariado, mais ou menos democracia avançada, é uma grande incógnita. Que precisa urgentemente de esclarecimento. Em tudo o que é essencial, os direitos individuais, o Estado, a democracia, a defesa nacional e a propriedade, a separação entre as duas esquerdas é total, o obstáculo é intransponível. A não ser que uma abdique a favor da outra.

Público, 13.2.2021

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12.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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MEMÓRIAS E SAUDADES

Por Joaquim Letria

Esta coisa de viver meio confinado e com justas preocupações pela saúde de familiares e amigos leva-nos a fugir, de vez em quando e quase sem dar por isso, para memórias e saudades, algumas das quais são recordações distantes que regressam sem explicação.

Foi deste modo estranho que dei comigo a lembrar-me agora dos franceses a perorarem em Hanói, território da francofonia, com cabo-verdianos e guineenses a observarem aquela comunidade presunçosa de intelectuais, através da qual eu soubera que o meu amigo Emmanuel Dongala, um dos melhores escritores da língua francesa do século XX, encontrara os braços abertos de Philip Roth que o despachou para a paz do Bard College, em Massachusetts.

Foi aí, não muito longe de Boston, que Emmanuel passou a viver com um visto que o reconhecia como Professor Universitário Convidado. Ali, no meio do verde da relva e do vermelho escuro dos tijolos, deixando perder a vista atrás de irrequietos esquilos, Dongala voltou a ensinar Química e Literatura Africana de Língua francesa.

Dongala, que conhecia a minha paixão por Brazzavile, onde nos conhecêramos, dera-me notícias tristes sobre o estado daquela que outrora fora uma das mais bonitas, delicadas, acolhedoras e cosmopolitas capitais de África e que então fora reduzida “a escombros, só escombros, faz lembrar Berlim em 1945”, dissera-me ele. ”Dos milhares de livros da minha biblioteca não salvei muitos mais do que uma dúzia”, acrescentou, explicando que naquele tempo houvera cinco meses de combates com milhares de mortos pelas ruas e que ele e sua família se salvaram por mero acaso.

Conhecera Dongala pouco antes de ele ter ido a Paris apresentar o seu último livro, “Os Putos Nascem das Estrelas” onde conta a história do Congo. O escritor optara por apresentar essa narrativa através do olhar falsamente inocente duma criança.  O autor de “Uma espingarda na mão e um poema no bolso” não tinha intenções de saír de Massachusetts. Hoje perdi-o de vista, sei que continua por lá, mas tenho saudades daquele bom amigo com quem viajei por África. Oxalá tudo esteja bem com ele e que todos aqueles que puderem que o leiam.

Publicado no Minho Digital

11.2.21

A liberdade de expressão, a ética e os Médicos Pela Verdade

Por C. Barroco Esperança

Não sei como conciliar a defesa da liberdade de expressão, que passei a vida a defender, e a condenação de médicos que negam o interesse do uso generalizado de máscaras, dos testes da Covid-19, da gravidade da pandemia e lançam dúvidas sobre as vacinas.

grupo Médicos Pela Verdade suspendeu a participação nas redes sociais e o e-sítio em que exerciam a sua ação deletéria. Fizeram-no, acusando que vivemos em ditadura, que a liberdade de expressão é desrespeitada, que foram perseguidos, o que é provável, com a ameaça de que vão repensar a forma de divulgarem o que chamam ciência. Parecem virologistas da escola de infeciologia de Trump e da de epidemiologia de Bolsonaro. 

O alarme social que esse grupo de médicos provocou levou a Ordem a abrir processos disciplinares contra os seus membros. Espera-se que, no intervalo das entrevistas contra o Governo e, em especial, contra o ministério da Saúde, o Bastonário informe o país sobre o andamento do inquérito e, a seu tempo, sobre as conclusões e eventuais sanções disciplinares.

Se esses Médicos Pela Verdade fossem uma seita religiosa, um grupo de jogadores de bisca lambida ou de jogadores de chinquilho, sem exercerem medicina, nada haveria a opor, estavam ao mesmo nível do que juram que a Terra é plana e o Sol gira à sua volta.

Ora, os médicos devem respeitar “o estado da arte”, isto é, exercer segundo o que a arte médica, de acordo com os conhecimentos científicos, determina em cada momento. Não duvido do mediatismo que esperavam com a negação da realidade atual da ciência, mas já causaram graves danos ao combate à pandemia e à mortalidade.

Quem confia nos médicos, como deve e convém, ficou perplexo e foram devastadoras as consequências no aumento da ansiedade e do medo nas pessoas.  

Os referidos médicos não se limitaram a colocar as dúvidas entre especialistas, foram os divulgadores de mentiras, que o estatuto profissional tornou credíveis, para a população. 

É natural que a OM oculte os resultados do inquérito, que os que ora dizem ser vítimas de perseguição e sofrimento fiquem impunes, porque que as Ordens se substituíram aos sindicatos e os Bastonários se converteram em sindicalistas e militantes partidários, e a deontologia parece ter sido exonerada.

Está em causa a saúde dos portugueses e, se o Estado está tolhido pelas corporações, os cidadãos devem escrutinar as Ordens e exigir que cumpram as obrigações disciplinares.

Foto e link: Observador

Ponte Europa Sorumbático

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7.2.21

No "Correio de Lagos" de Jan 21

 

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Ainda pior!



Num comentário afixado no perfil de Carlos Fiolhais ficamos a saber que a manipulação ainda é pior do que a referida no 'post' anterior, pois os dados (3,21 e 3,44) são de dias diferentes!!!
Aqui ficam os correctos, na mesma escala manhosa.


Desonestidade pura, ou a falta de uma boa 4ª-classe?



O valor numérico indicado na barra da direita é 7% superior ao seu equivalente na da esquerda, mas o "grafista" arranjou uma escala manhosa que lhe permitiu converter os 7% num valor mais "conveniente"...
Aliás, na imagem de baixo até nem figura a escala!
*
ACTUALIZAÇÃO (7 Fev 21): o PS apagou esta vergonha da sua página.

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