20.10.17

Um pesadelo horrendo

Por Antunes Ferreira
Foi dum pesadelo, a depressão bipolar, que consegui sair e quase não acredito que bastou um clique para aparecer a recaída e outro clique para recomeçar a viver… Sejamos claros: durante quase um ano em Lisboa e Goa e de novo em Lisboa fui uma pedra de basalto sem ligar ao que se passava à minha volta, à minha família, às minhas Amigas e aos meus Amigos que sempre, mas sempre! me empurraram para um caminho ressuscitado. Nunca lhes poderei agradecer.
Mas mesmo assim faço-o do fundo do coração, sabendo que nada valho, intercalado com um muito obrigado. A vida é madrasta e não há rosas sem espinhos, nem semente semeada que dará em tempo oportuno o fruto da felicidade. Porém quase um ano não a consegui desatar de um silêncio desumano, marmóreo e tumular.
Donde quero uma vez mais sublinhar os resultados que consegui alcançar e chegar aos objectivos mais consentâneos e resumidos no que o povo diz – esta vida são dois. Contudo o ano horribilis durou pelas minhas contas 303 dias. Um tsunami bipolar é mais do que descer aos infernos sem saber que os podia deitar fora pela janela aberta da felicidade e da euforia que queria voltar a desfrutar.
Perdoem-se leitores este desabafo que é mais confissão; embora não tenham sido parte duma dor que senti na pele e na carne que não me era possível sair desse nevoeiro sem cavalo branco nem sebastião, sempre estiveram comigo nas horas mais más. Repito: a vida é madrasta e o contar dos dias desanimados e trucidados por mor de uma maleita indiscritível é uma vereda negra que nos amarga os meses ´perdidos dum calendário também perdido e lancinante.
Hoje fico-me por aqui na companhia duma Grande Mulher de nome Raquel que me acompanhou como sempre me acompanha nos dias mais ácidos duma doença que nos tira o amor à Vida. Depois no sábado virão os filhos e as filhas/noras e os netos e a neta que são para mim os melhores do Mundo. Do Mundo? Do universo sem buracos negros nem cassiopeias mas estrelas brilhantes que nos dão o alento para alcançar o objectivo mais ansiado - viver.

Etiquetas:

LÍNGUA FRANCA

Por Joaquim Letria
Deixámos de andar e de correr para passarmos a fazer “footing” ou “jogging”. Abandonámos a vela e a prancha para praticarmos “sailing”,”surfing” e “windsurfing”. Deixámos de andar ao sabor da maré em cima duma prancha para passarmos a fazer “planting”. Reunimo-nos em “meetings”, discutimos os nossos problemas em “brainstormings”, avaliamos o nosso conhecimento em “tests” escritos e orais, depois de termos abandonado os pontos ou as chamadas. 
Nas empresas, onde já não há trabalhadores mas sim colaboradores, deixámos de despedir gente e cortar nos custos para passarmos a fazer o “downsizing”. Parámos de recorrer a serviços externos ou a parcerias para nos dedicarmos ao “outsourcing”, trocámos as diferenças de nível pelo "super – in” “benchmarking”.
Aquilo que eu tanto gostava de fazer em Los Roques, Venezuela, ou no Cayo Largo, Cuba, e que era respirar por um tubo e ver por uns óculos de mergulho, passando horas seguidas a dar às barbatanas, a ver ou a filmar peixes às cores, às riscas ou às bolinhas, passou a ser uma actividade que dá pelo nome de “snorkling”.
“Snorkling” não é para qualquer um! Encontrei numa estreia uma dessas divas das nossas revistas cor de rosa com um bronze invejável. Julguei que viesse do Brasil, ou de África, mas disse-me que não senhor. Tinha estado com o seu PT (o nosso antigo treinador ou instrutor agora promovido a “Personal Trainer”) no Mar Vermelho, o qual, segundo me confidenciou, para fazer “snorkllng” não era alucinante, era “mega-super-alucinante!!” Com uma flauta de espumante na mão  atirou-me um beijo e  foi  conviver, quero dizer foi “wordlng” e “worlding” para o meio da refinada e elegante multidão.
Nessa mesma ocasião encontrei a filha dum amigo meu, muito mais pálida do que a mulher-rã, que não gostava de “snorkling” mas “era marada por diving”.
Nessa época eu andava muito ocupado com as minhas absorventes actividades de “counselling”“teaching”“travelling” e “writing”. Talvez por isso descuidara estas garoupas tão interessantes que iam às profundezas com os PTs para conhecerem o linguado do Mar Vermelho ou admirarem de perto o lingueirão do Mediterrâneo.
Por estes escassos e singelos exemplos, conclui-se que falar línguas é bacanaacojonanteswellfantastiquebarildo canecobué da fixe. No fundo, a tal língua portuguesa serve só para ser assassinada em acordos miseráveis que todos assinam mas ninguém pratica, a não ser para dar pontapés na gramática.
Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

19.10.17

A esquerda e a mulher

Por C. Barroco Esperança
Surpreende como a Humanidade progrediu tanto, renunciando a metade de si própria, ao longo de milénios. Há quanto tempo poderia ter chegado onde se encontra, e como seria se a igualdade de género fosse, desde o início, um axioma?
Que raio de preconceito, que as várias religiões assimilaram, terá convencido uns brutos da pré-história de que a sua força física lhes permitia a prepotência sobre o sexo que os complementava e lhes assegurou a perpetuação da espécie?
Como é possível, ainda hoje, haver quem, nascido de pai e mãe, e tendo procriado filhos e filhas, reclame superioridade e admita discriminar progenitores ou descendentes, em função do sexo?
Sendo as coisas o que são e a evolução o que é, a mulher tem de ser muito melhor para poder competir com o homem. Foi talvez o estigma ancestral que a fez triunfar, pelo sacrifício e obstinação, em campos que o macho julgava privilégio seu. Foi assim que, da filosofia à ciência, da literatura à matemática, da política às artes, surgiu uma plêiade de mulheres que participam no avanço da Humanidade.
Longe de estar atingida ou consolidada a igualdade de género, parece irreversível, mas é útil a vigilância porque nada é eterno, e é mais fácil o retrocesso do que a progressão.
E por que raio havia de referir a mulher e a sua condição quando a intenção era falar da esquerda?
Bem, a esquerda é, na política, a mulher. Precisa de ser muito melhor do que a direita se pretender impor-se. Deve-se à esquerda o Renascimento, o Liberalismo, o Iluminismo, a República, a Laicidade e a Democracia, e é a direita que regressa sempre ao poder.
A direita é o macho tosco, que alicia trânsfugas, compra corruptos, avassala os meios de produção, submete os órgãos de comunicação e exerce a força. Tal como os camaleões, adapta-se ao ambiente e regressa ao poder depois de cada Revolução que a derruba.
Foram os progressistas que lutaram pelos Direitos Humanos, aboliram o esclavagismo e impuseram o ensino público para homens e mulheres, moldando a civilização europeia, mas são os herdeiros do fascismo, reciclados ou não, que ressurgem na Europa.
Em Portugal, são os herdeiros dos colonialistas, os ressentidos de Abril e os nostálgicos do salazarismo que, a cada tropeção da esquerda, real ou imaginário, reclamam o poder que julgam seu por um qualquer direito divino.
A esquerda tem de ser, na eficácia, generosidade e abnegação, a mulher que se impõe. pela superioridade ética e eficiência política, na vitória da inteligência contra a força. São delas a sabedoria, a força e a beleza de que o progresso e a justiça social carecem.

Etiquetas:

18.10.17

Apontamentos de Lagos - É mau demais!

Fotos de Luís Andrês
O "Correio de Lagos", que é único jornal da cidade (e onde colaboro), dedicou este mês uma página inteira ao escândalo da Ponta da Piedade, incluindo o parecer do Professor Galopim de Carvalho.
Entretanto, completamente cega e surda (e agora respaldada no reforço da maioria absoluta), a C. M. de Lagos continua como se nada fosse — depois de alargar caminhos com escavadoras, passou agora à fase da betonização!
Os lacobrigenses, com a sua proverbial apatia (que já permitiu, há 2 anos, a desfiguração total da Praia da D. Ana pelos mesmo actores), apenas têm o que merecem; mas, para o país, isto é mau demais!

Etiquetas: ,

INCÊNDIOS FLORESTAIS, O CLIMA NÃO EXPLICA TUDO

Por A. M. Galopim de Carvalho
Eu, António Marcos Galopim de Carvalho, com 86 anos de idade, professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa, nas Faculdades de Ciências e de Letras, ex director do Museu Nacional de História Natural (durante 20 anos), doutorado pelas Universidades de Paris e de Lisboa, autor de cerca de 300 títulos, entre artigos científicos, de divulgação e de opinião, de centenas de “posts” em Blogues e no Facebook, de 20 livros dirigidos aos ensinos secundário e superior e à divulgação científica e de 6 de ficção. Colaborador, sempre a título gracioso (e borla, como diz o povo), com dezenas de escolas, autarquias (de todas as cores políticas) e universidades, de todo o país, jornais e televisões.
Isto tudo, ao estilo de quem está a “puxar pelos galões” (que todos os que me conhecem e me leem, sabem que não puxo) para conferir algum peso ao desabafo de uma convicção muito minha, muito séria, como cidadão declaradamente independente dos aparelhos partidários.
O verão quente e extremamente seco que vivemos (as alterações climáticas estão a alertar-nos para tempos difíceis) justifica a dimensão e a intensidade dos incêndios florestais que tanta dor infligiram a tantas famílias e tantos prejuízos causaram à economia do país. Mas não explica o elevado número de focos de incêndio, nem locais diversos, detectados durante a noite, sem trovoadas secas nem fundos de garrafas de vidro ao sol. O calor e a secura propagam e alastram os fogos mas não os iniciam.
Os imensos e trágicos incêndios do passado fim-de-semana (falou-se em mais de 500), alguns iniciados de noite, afiguram-se-me como que um “aproveitar” os últimos dias deste verão que nos entrou Outono adentro (pois sabia-se que a chuva vinha aí) para dar continuidade a uma guerra surda contra o Governo legítimo cujos sucessos são, por demais, conhecidos cá dentro e lá fora.
Basta ler e ouvir os comentadores dos jornais e das televisões ao serviço dos poderosos, para perceber como esta tragédia nacional continua a ser utilizada por eles nesta guerra. E a verdade é que tem tirado algum proveito (não todo) desta estratégia. É notório que o governo está fragilizado. Também por culpa sua, diga-se, que, em minha opinião, não soube ou não quis “partir a loiça” na altura certa. Neste momento e com tamanha e bem orquestrada campanha contra a “Geringonça”, a sorte do Governo é que a mais do que fragilizada oposição não tem nada a propor aos portugueses. 

Etiquetas:

17.10.17

Colaboração no "Correio de Lagos" de Outubro de 2017

Etiquetas:

16.10.17

Apontamentos de Lagos


As fotos, tiradas da Praia do Pinhão, mostram o enorme muro artificial que a isola da Praia  de D. Ana. 
Deixo-as aqui para que nunca esqueçamos que quem teve esta ideia (e quem a apoiou) foram exactamente os mesmos que estão agora a brincar com a Ponta da Piedade: a Agência Portuguesa do Ambiente e a Câmara Municipal de Lagos.
Para encontrarmos que se lhes tenha oposto com firmeza, teremos de procurar entre associações ambientalistas e grupos políticos independentes.

Etiquetas:

15.10.17

Sem emenda - O regime já perdeu

Por António Barreto
É uma história sem fim feliz. Qualquer que seja o desenlace, ficaremos a perder. Portugal e o seu povo ficarão sempre a perder. Evidentemente, se Justiça for feita, poderemos sempre dizer que ressuscitámos, que a Justiça é a nossa Fénix. Se os culpados forem expostos e condenados e se as vítimas e os contribuintes forem pelo menos moralmente ressarcidos (nunca o serão financeiramente…), será possível dizer que, bem lá no fim, a Justiça prevaleceu. Se assim for, poderá também afirmar-se que será possível, depois do desastre, aprender com os erros. É uma consolação.
Mas ficaremos a saber que duas ou três (ou mais…) operações politicas e financeiras de assalto ao Estado, a algumas das melhores empresas portuguesas, aos recursos de milhões de depositantes, credores, accionistas e investidores se desenvolveram durante anos. O que aconteceu com a cumplicidade de um ou dois partidos políticos, com a participação activa de alguns dos “melhores” banqueiros portugueses, com a intervenção maliciosa de um governo, com a colaboração dolosa de vários gestores privados e públicos. Tudo isto perante a incapacidade ou falta de poderes das entidades fiscalizadoras, diante do silêncio das instituições e a coberto de uma comunicação social geralmente mal preparada e dependente. Vários bancos foram liquidados. Diversas empresas destruídas. Um grupo de insaciáveis sem escrúpulos tomou conta!
As instituições não tiveram poderes para intervir com firmeza e honestidade. As instituições, por responsabilidades objectivas ou subjectivas, não agiram quando deviam, não perceberam o que estava a acontecer. Umas não puderam, outras não quiseram.
Falhou a opinião pública, falhou a imprensa e falharam as instituições. Os governantes não falharam, porque eram cúmplices ou protagonistas. Mas o Parlamento falhou, porque não cumpriu os seus deveres. Nem quis saber. Os partidos não falharam, porque aproveitaram. Ou falharam, porque não perceberam.
Primeira hipótese: encontramo-nos diante de uma colossal operação de destruição de pessoas, partidos, governantes, empresas e bancos, a comando de concorrentes ocultos e de abomináveis forças de conspiração. Nessa versão, falham o regime, a democracia e a Justiça. Segunda hipótese: uma monumental operação de expropriação e assalto ao Estado, por parte de políticos, gestores e banqueiros, destruiu empresas e grupos, fez literalmente desaparecer dez a vinte milhares de milhões de euros. Nesta versão, falham o regime, a democracia, o sistema político, o Parlamento, as instituições e o capitalismo português.
Convêm não esquecer que não se sabe onde pairam cinco a dez mil milhões “desaparecidos”, mas que se encontram depositados a recato em contas de famílias, seus mandatários, cães e gatos. A que terão de se acrescentar cinco a oito milhares de milhões de outras histórias mal acabadas, como a do BPN. Convém ainda não esquecer que as actuações de políticos, banqueiros, bancários, gestores e empresários relativamente às PPP, aos SWAPS e aos golpes em quase todos os bancos portugueses estão fora da alçada deste processo Sócrates barra Salgado barra Espírito Santo barra PT.
Perdeu o regime e perdeu Portugal. Que ninguém pense que, com excepção do ladrão, alguém vai ganhar e que o fim será feliz. Não. Ou perde a economia, o mercado e a banca. Ou perde o mais importante partido político da democracia, o seu líder durante seis anos e o seu único Primeiro-ministro com maioria absoluta. Ou perde a democracia e o seu sistema político que conviveu com parasitas da política ou das finanças, deixou pulhas roubar o Estado e permitiu que velhacos roubassem depositantes, credores e accionistas de boa fé. Ou perde a democracia e o seu sistema de Justiça que não consegue organizar um serviço capaz de investigar eficazmente, arguir dentro de prazos decentes, julgar em tempo e dar sentenças a horas. Ou perde o regime cuja classe dirigente é incapaz de governar com honestidade e em democracia.
Ou perdemos tudo, que é o mais provável.
DN, 15 de Outubro de 2017

Etiquetas:

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Pinóquio, relapso mentiroso, quer ser gente a sério – Esta loja, em Florença, tem como principal herói o muito popular Pinóquio, criado nos finais do século XIX por mestre Geppetto, escultor, que fez um boneco de madeira com uma ambição: a de ser criança como as outras, de carne e osso. O autor foi Carlo Collodi, escritor e jornalista, famoso por esta sua criação. Pinóquio ficou conhecido na história por várias razões, a de pretender ser pessoa de verdade, a de querer subir na vida e a de mentir com arte e talento. Esta última característica foi tão marcante que se chegou, nas disciplinas filosóficas e psicológicas, a criar um “Paradoxo de Pinóquio” e uma “Síndrome de Pinóquio”. Um traço divertido e de efeitos morais consistia no nariz que crescia cada vez que mentia. Como em todos os mitos, a verosimilhança não é o mais forte. Na verdade, se este boneco era de famílias pobres e humildes, tem-se verificado que, entre as muitas variedades de mentirosos, também os há ricos e poderosos.

DN, 15 de Outubro de 2017

Etiquetas:

14.10.17

Pergunta de algibeira

Um conjunto 1 raquete + 1 bola custam €1,10.
Sabendo-se que a raquete custa mais 1 euro do que a bola, quanto custa a bola?

Etiquetas:

13.10.17

A BURRA DO BURRO DAS BERLENGAS

Por Joaquim Letria
Sou o único jornalista do mundo a ter entrevistado o rei das Berlengas, incarnado pelo meu amigo Mário Viegas no filme escrito, realizado e inventado pelo meu querido Artur Semedo. Numa tentativa de arrumações, topei hoje com uma velha “cassette” BetaCam em que esse filme -- onde eu desempenhava o papel dum intrépido e jovem repórter do Canal 6 da Zona Centro -- foi distribuído pelos clubes de vídeo que Deus tem.
A evolução tecnológica impede-me de momento de rever o filme, pois agora só tenho computadores e leitores de CDroms. Mas o interessante foi ter recordado algumas divertidas peripécias da rodagem desse filme, enquanto relia a capa ilustrada do VHS, e o meu espírito se ter fixado na memória dum episódio histórico que não tem nada a ver com aquilo que tinha em mãos.
Fiquei a pensar – a ponto de vo-la narrar agora –na história da burra do faroleiro das Berlengas que chegou a constituir um quebra-cabeças para as nossas gloriosas Forças Armadas, fundadoras da Aliança Atlântica, intervenientes na Bósnia Herzegovina, Kosovo, Mediterrâneo, Mar Egeu, Afeganistão, Mali, Líbano, Norte de Itália e Sul de Espanha.
Contou-me o saudoso almirante Souto Cruz, que fez o favor de ser meu amigo, com o humor contido, elegante e inteligente que o caracterizava ,aquele que terá sido o mais embaraçoso momento para ele, enquanto Chefe do Estado Maior da Armada, ele que viria a tornar-se Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, superintendendo ao Comando Conjunto dos Três Ramos e que temíveis assembleias da NATO enfrentara.
Aconteceu que à vasta secretária que o almirante ocupava no espaçoso gabinete da Avenida das Naus, no então Ministério da Marinha, chegara, acompanhada pelo devido despacho, uma petição do faroleiro das Berlengas e Farilhões solicitando que o respectivo comando procedesse à aquisição duma burra que fizesse companhia ao asno que assegurava o transporte do homem e víveres (com a mulher, em isolamento pelo período dum ano) e que a par de desbastar a erva com que se alimentava, em redor da casa e do farol, garantia as ligações através das escarpas e alcantarilhas que separavam o farol do embarcadouro. Bom de ver que se tratava dum burro estratégico…
A Marinha, que ainda hoje superintende a esse território da orla marítima, não pensara que um burro não é de pau…e vai daí, o pobre quadrúpede era frequentemente assaltado pelo desejo carnal e não havia brida, cabeção, rédea ou arreata que o contivesse e o faroleiro via-se grego para o apanhar nas suas fugas galopantes, desesperadas e solitárias, a zurrar pelas escarpas.
— Agora imagine você se eu despachasse “compre-se uma burra para o burro do faroleiro das Berlengas”— contava-me a rir Souto Cruz que, diplomata como era, lá arranjou maneira de satisfazer os apetites do burro sem se comprometer para sempre com um despacho ridículo. Embora este seja um assunto da mais alta esfera da Defesa Nacional, muito gostaria eu de saber o que fazem hoje os almirantes e como vai hoje a vida sexual do burro das Berlengas. É mais importante do que parece! Perguntem ao faroleiro…

Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

12.10.17

João César das Neves (JCN) – o 4.º pastorinho

Por C. Barroco Esperança
João César das Neves (JCN) consagrou a Deus, no último sábado, a habitual homilia do DN. O tema da prédica foi “A última hipótese”.
Cansado das asneiras políticas, voltou às religiosas, onde é mais hilariante. Não se pode excluir que as dores do cilício lhe provoquem visões do Divino, e é de crer que, só uma alucinação pia o pudesse ter inspirado a escrever: “Toda a humanidade acha que Deus deve estar muito ofendido.”
A facilidade com que exclui os ateus, racionalistas, céticos, agnósticos, enfim, todos os livres-pensadores, revela a visão totalitária do prosélito, mas é no humor que acaba por se distinguir como porta-voz do seu Deus.
O Deus de JCN é muito ofendido “com promoção aberta do aborto, eutanásia, adultério, homossexualidade, perversão, clonagem e manipulação embrionária”. Segundo JCN «a pergunta razoável, a única pergunta lógica perante este panorama é: “que devo fazer acerca disso?  Esta questão é urgente e implacável.”».
O devoto plumitivo diz que o que nos vale, até à “pequena minoria que não acredita na Sua existência (…) é Aquele a quem ofendemos ser paciente e compreensivo. Essa é precisamente a convicção de mais de metade da humanidade – cristãos, muçulmanos e judeus –, que acredita no Deus de Abraão.”.
A determinado passo da homilia, o catedrático de economia na madrassa de Palma de Cima, socorre-se da bibliografia: “Na Bíblia e no Alcorão são muitas as histórias dos tempos antigos em que o povo ofendeu fortemente a Deus, foi castigado severamente, mas, mesmo assim, tratado de forma muito mais benevolente do que merecia, sendo no final perdoado por Alguém que prefere sempre a misericórdia ao sacrifício.”
O vingativo Deus de JCN é parente afastado do Deus do Papa Francisco, mas o devoto prosélito, saído do Concílio de Trento, avisa, urbi et orbi:
“Na próxima sexta-feira passa o centenário de um acontecimento que é provavelmente a última hipótese da humanidade. O milagre do Sol, que aconteceu na Cova da Iria a 13 de Outubro de 1917, chamou instantaneamente a atenção de todo o mundo para a "mensagem de Fátima” onde, “A última coisa que a Aparição disse há cem anos foi: "Não ofendam mais a Nosso Senhor, que já está muito ofendido!" Isto é algo que, como vimos, toda a gente do planeta consegue entender. Todos, [e insiste] mesmo os que não acreditam n' Ele, sabem bem por que razão Deus deve estar ofendido.”
JCN, apesar dos delírios e do tortuoso raciocínio tem a terapêutica para a salvação. “Trata-se da primeira parte da mensagem de Fátima, a solução para esses males: rezar o terço todos os dias, fazer penitência pelos pecadores e consagrar-se ao Imaculado Coração de Maria.».
É fácil, é barato e dá milhões… de assoalhadas no Paraíso.
Bem-Aventurado o 4.º Pastorinho porque dele é o Reino do Céu!

Etiquetas:

11.10.17

OS “POLITICAMENTE CORRECTOS”

Por Joaquim Letria
Muito antes dos cristais fugirem dos meus ouvidos, roubando-me a paz e o equilíbrio, tinha o hábito saudável de fugir de casa naquele período da morrinhanha em que todos se queixam do regresso inconsolável das férias. Tinha eu, então, o hábito de praticar estadias fraternas, com bons amigos, calorosos vinhos, presunto único, angulas ilegais, gargalhadas explosivas e havanos ao preço de Espanha, mas puríssimos, de Vuelta Abajo, Cuba.
Como as noites, antes do mais, sempre me foram propícias ao belcanto, ao doce envolvimento dum concerto ou ao prazer duma boa peça de teatro e naquela época quer o West End londrino, quer a Broadway nova-iorquina não apresentavam ainda nada de novo ou prévio às minhas últimas deambulações, não hesitei em escolher Madrid como destino, cidade amiga prenhe de vida e de velhos amigos sempre bons de rever.
Comecei a comprar jornais e revistas para escolher com critério e fazer uma pré-programação a fim de telefonar para o Frederico, meu “bellcaptain” há mais de 40 anos , para ele me reservar o quarto do costume e me marcar os bilhetes dos espectáculos para as datas previstas, não fosse o Diabo tecê-las.
Foi nesse afã, que me despertou a curiosidade uma declaração dum grupo de vereadores de Madrid, na qual se pedia que fosse retirada de cena do “Teatro Español” a peça “El Guerrero del Antifaz” pelo seu conteúdo violento e racista e por ser anunciada pela “imagem dum cavaleiro cristão matando sarracenos”, pecado que ainda hoje estou em crer que os povos da Península nunca praticaram.
Descobri então uma crítica que me esclareceu que o enredo se passava entre as claques “Frente Atlético” e “Ultra Sulistas” que estão para o Atlético de Madrid e para o Real Madrid como a “Juve Leo” e os “No Name Boys” estão para o Sporting e para o Benfica. A peça era um musical, cheio de hinos, palavras de ordem que se escutam nos estádios, musical muito movimentado e que acabava com todos abraçados numa grande festa merengue.
O interessante desta história que recordo agora é o facto de tanto em Portugal como em Espanha os “politicamente correctos” emprenharem pelos ouvidos sem que quem mais barulho faz se dê ao trabalho de saber do que é que está a falar. Lêem de ouvido e ouvem de orelhas moucas. A companhia do “Teatro Español”, rindo-se a bom rir, responderia que não via razão para retirar uma peça destinada à juventude, depois de já ter levado à cena “As Mocidades de Cid” e “A Vingança de Dom Mendo”.
Aposto que ninguém dos “politicamente correctos” se deu ao trabalho de ir ver que peças eram estas, já que aquelas cabecinhas as deviam ignorar. Pelo im, pelo não, juntei em boa hora o “Teatro Español” à lista de bilhetes para o meu amigo Frederico me reservar. Ainda bem, porque me diverti muito com o espectáculo.

Publicado no Minho Digital

Etiquetas: