17.11.19

Grande Angular - Imigrantes

Por António Barreto
Já se percebeu que a imigração (incluindo todos os tipos possíveis: trabalhadores legais e ilegais, familiares de residentes, europeus, africanos, asiáticos, permanentes e temporários, refugiados e perseguidos) é um dos mais complexos factores de instabilidade na Europa, um dos mais sérios perigos para a paz e a estabilidade europeias e uma ameaça para a cultura e o desenvolvimento. Seja pelo que a imigração, em certas condições, pode trazer consigo. Seja pelas reacções de tantos europeus contra a imigração. Nenhum país europeu tem actualmente uma política mais ou menos consensual (pelo menos clara, durável e maioritária) relativamente à imigração, nem os países europeus se conseguem entender entre si para uma política comum. A imigração é um dos grandes factores de divisão nacional e da Europa.
A imigração em Portugal tem sido objecto de debates esporádicos, mas de conclusões erráticas, geralmente dominadas pelas questões políticas e europeias. Verdade é que Portugal não se pode orgulhar de ter uma política de imigração conhecida e estável. Navega ao sabor das primeiras páginas e das emoções das fotografias publicadas. Acompanhamos à distância o que se passa no Mediterrâneo (onde a Marinha portuguesa colabora com eficiência no patrulhamento daquele mar e no resgate de náufragos), sabemos das questões políticas que aquecem a Itália, a França, a Turquia e a Hungria e pouco mais. O país vai recebendo africanos e brasileiros, indianos e nepaleses, romenos e ucranianos, em quantidades incertas, em condições ainda mais confusas e com legalidade muito relativa.
Os últimos meses têm sido férteis em notícias demográficas. Ficámos a saber que a população portuguesa está a diminuir (além de envelhecer muito depressa). Que dentro de poucos anos voltaremos a ser menos de 10 milhões. Que o saldo natural (nascimentos menos óbitos) é negativo. Que a natalidade é muito baixa. Que o saldo migratório é positivo (entram mais imigrantes do que saem emigrantes). Que aumenta o número de estrangeiros que se naturalizam. E que continua elevado o número de emigrantes portugueses para o estrangeiro.
Há hoje, como revelam o Eurostat, o INE e o El Pais, suficiente evidência dos efeitos positivos da imigração para os países de acolhimento. A renovação demográfica contribui para o rejuvenescimento da população. A variedade da mestiçagem é um elemento positivo para a abertura das sociedades. A imigração está directamente ligada ao desenvolvimento social e económico e contribui para o aumento da produção, do rendimento e do crescimento, assim como para o reforço da segurança social.
Há estatísticas suficientes em toda a Europa que mostram como os imigrantes, em geral, deram um enorme contributo para o crescimento económico. Sem eles, muitos dos países europeus teriam crescido, desde os anos 1980, menos 20% a 30% do que realmente cresceram.
Há também, para os países de acolhimento, sinais de efeitos negativos da imigração. Agrava o descontrolo dos movimentos de população. Está muito ligada ao tráfico de mão-de-obra. Permite com frequência uma excessiva exploração salarial e laboral. Provoca reacções de recusa, assim como estimula o preconceito e o racismo de ambos os lados. É fonte de conflitos étnicos e religiosos. Favorece a coexistência conflituosa de dois ordenamentos jurídicos ou de duas legalidades rivais. Permite facilmente a criação de verdadeiros guetos. Encoraja o confronto violento de costumes contraditórios.
Há ainda experiência indiscutível noutros domínios. Os imigrantes, em Portugal e em toda a Europa, têm piores empregos, mais baixos salários, são mais precários, têm piores apartamentos e habitações, têm mais desemprego, menor formação profissional, menos educação e serviços de saúde em piores condições.
Necessitamos da imigração. É bom para renovar a população. Cultiva a mestiçagem, que é o nosso futuro, tal como afirmava De Gaulle. É bom para a variedade, a cultura e a economia. É bom para os direitos humanos e para a solidariedade. Nós ganhamos com a imigração. “Nós” somos os Europeus de origem ou naturalizados, de todas as cores, de várias crenças, residentes, eleitores e contribuintes. Há dados em toda a Europa que sustentam que os imigrantes não ficam com os “nossos” apartamentos, não casam com as “nossas” mulheres, não se apropriam dos melhores empregos, não têm mais subsídios sociais, não gastam em bares da noite os subsídios de desemprego…
Tudo leva a crer que, para evitar problemas graves, seja necessário controlar, tanto quanto possível, os fluxos migratórios; estabelecer quotas indicativas de imigrantes, segundo as origens e as profissões; ser extremamente firme na repressão à imigração ilegal e só tolerar a legal; castigar severamente todas as redes de tráfico de trabalhadores; reduzir à verdade a noção de refugiado político.
Parece impor-se a recusa da política de portas abertas, receita para enormes desastres políticos, como se vê em vários países europeus. Assim como a recusa da política da fortaleza fechada, prejudicial para a demografia, a economia, a cultura e os valores da liberdade.
Tentar controlar a imigração e manter a sua legalidade são acções das autoridades. Mas importa também, evidentemente, que as sociedades consigam contrariar a importação dos valores da violência e do fanatismo religioso, que se contam entre as piores ameaças da liberdade. O que significa também não importar o machismo, a submissão da mulher, o tráfico de mulheres menores e de crianças, a venda de mulheres e de jovens, o casamento compulsivo, o poder paternal com direito a uso de violência, a pena de morte, as penas de apedrejamento e amputação, os castigos públicos, as decapitações sumárias, a excisão, a infibulação, todas as formas de mutilação ritual, a escravatura sexual, o tráfico de prostitutas… 
Será Portugal, serão os países europeus e será a Europa capazes de evitar o fanatismo dos defensores da imigração e a intolerância dos inimigos dos imigrantes? Verdade é que já há no mundo democracias ameaçadas ou suspensas nas quais a questão das migrações é central. Não faltam a violência e os muros. Não é só entre os Estados Unidos e o México, entre Israel e a Cisjordânia, entre a Hungria e a Sérvia ou entre a Macedónia e a Grécia. É também na Polónia, na França, na Itália, na Turquia, na Rússia, no Brasil ou na Colômbia. Se não nos adiantamos, chegará também, um dia, a nossa vez!
Público, 17.11.2019

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15.11.19

Mar de Plástico

Por Joaquim Letria
Aqui há tempos vi no NETFLIX uma série muito interessante chamada “Mar de Plástico”. Passava-se no Sueste de Espanha e a história decorria num gigantesco emaranhado de plástico onde centenas de imigrantes, agricultores espanhóis e trabalhadores magrebinos produziam uma rica indústria agro-alimentar. Claro que a série não era biológica nem agrícola… era sobre assassínios em série e o tráfico humano que ali se acobertava e constituía o prato forte da corrupção, da justificação dos gangs, da presença duma máfia sérvia e da actividade das ONGS ambientalistas que ali se movimentavam. Um belo thriller que se via com agrado.
Mas porque estou eu a falar-vos agora disto?
Porque no outro dia atravessei parte do Alentejo de carro e verifiquei que no trajecto já eram imensas as estufas de plástico que encobrem parte da planície, montadas sobretudo por empresas espanholas que cada vez mandam mais nas nossas culturas. E aquilo que vi fez-me recordar a série da TV e ficar triste pelo que aqui vai acontecendo.
Então, porque vem isto a propósito?
Ora, porque acabei de saber que o nosso bem amado governo, antes de se entregar à finalização do negócio do lítio e de satisfazer os franceses com o aeródromo do Montijo, acaba de autorizar o aumento de 3600 para 4800 hectares de plantações em estufas, túneis elevados, túneis simples e estufins no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e na Costa Vicentina. O mar de plástico que ali já existe autorizado por estes nossos queridos governantes passa assim de 30% para 40%, ou seja: para quase 5 mil campos de futebol… Pelas contas feitas por técnicos independentes, a área ali coberta por plástico passa a ser a equivalente a metade do Concelho de Lisboa!
Claro que os ministérios do Ambiente e da Agricultura do nosso imenso governo irão explicar que isto se deve ao progresso e ao sucesso socialista. E obviamente procurarão disfarçar que esta agricultura é massiva em fertilizantes e pesticidas, destruidora da paisagem e incompatível com os objectivos dum parque natural, além de ser explorada em zona protegida.
O que nos vale é que estes nossos bem amados 70 ministros e secretários de Estado são todos climáticos e ambientalistas! Olhem se não fossem!
Publicado no Minho Digital

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14.11.19

O Liceu Nacional da Guarda – Crónica

Por C. Barroco Esperança

Aprendi cedo a palavra discurso, mas só conheci a substância e a forma profana no dia 1 de outubro de 1953, na abertura solene das aulas, numa encenação elogiosa para uns fulanos, todos homens!
Até aí, sem rádio na aldeia onde estudei até à 4.ª classe, jamais ouvira os discursos dos salazaristas, incluindo os do homem que a Providência enviara a Portugal, segundo a senhora de Fátima disse à Sr.ª Lúcia dos Santos, agora em trânsito para a santidade, e que a confidência epistolar do cardeal Cerejeira ao próprio, havia de tornar público.
Ouvira vários discursos sem saber que o eram, porque se designavam homilias, sermões ou pregações, discursos pios, da parenética e não da oratória profana.
Foi, pois, no dia já referido que, em rigoroso silêncio, ouvi vários discursos, embora não os distinguisse do principal, que um professor proferiu sob o epíteto de oração solene. Eu só conhecia as orações gramaticais, que qualificava com extraordinário à-vontade, e as orações pias que recitava, sem me enganar, na igreja e antes de adormecer.
Os discursos pareciam-se. Se a memória não me trai, começaram todos de modo igual, exceto o do Reitor, por não se referir a si próprio: senhor Governador Civil, senhor Presidente da Câmara, senhor representante de Sua Excelência Reverendíssima o Sr. Bispo da Guarda, Senhor Reitor, Excelentíssimas autoridades civis, militares e religiosas, senhores professores, alunos.

Apelando ainda à memória longínqua e desvanecida, penso que a encenação teve lugar às 15 horas, o que faz sentido, para não apressar a refeição de tão excelsas criaturas nem prejudicar a digestão que tais excelências mereciam.
Quando os oradores faziam pausa, para tomar fôlego, virar a página ou molhar os lábios com um gole de água, estava dado o sinal dos aplausos que ecoavam no espaço do R/C, o retângulo reservado às meninas, defendido dos alunos do sexo masculino por um risco que nenhum ousava pisar. Apenas a abertura das aulas, os atos culturais e os desportivos abriam a exceção.
Nesse dia, identificados pela farda, os contínuos, cujas funções, designação e categoria ignorava, ensinaram os alunos do 1.º ano a encontrar a pauta da turma, onde constavam os números e os nomes, e a dos horários das respetivas disciplinas.
Nos dias seguintes procuravam-se as papelarias do Sr. Casimiro e do Sr. Felisberto para comprar livros e outro o material escolar, e pedir impressos dos horários, para registar as aulas e a sua sequência nos dias da semana.
No dia 8 começaram as aulas. Os professores apresentaram-se e fizeram a chamada que, de futuro, passou a ser função do chefe de turma. Eram aulas de apresentação. Aprendi que os professores se chamavam Senhor Doutor Ezequiel Mendonça, Senhor Doutor Pacheco e Senhor Doutor Monteiro da Fonseca e que a professora, tal como a Senhora Dona Beatriz Salvador ou a Senhora Dona Lucília, se chamava Senhora Dona Elisa de Carvalho, o que fazia a distinção dos contínuos, que se chamavam Senhor Almeida, o chefe do pessoal menor, Senhor Cruz, Senhor Vitória, Senhora Celeste ou no caso de contínuas solteiras, Menina Fausta, por exemplo. Faltava o Doutor aos contínuos e às contínuas Dona.
O respeitinho era muito bonito e só os senhores padres, Senhor Padre Cabral, Senhor Padre Inácio ou Senhor Padre Melo, seguidos facultativamente por Vossa Reverência, tinham tratamento diferenciado.
As aulas começaram, com as chuvas cada vez mais intensas, até virem a neve e o gelo com os beirais dos telhados a susterem gigantescos pináculos invertidos de gelo, que pareciam estalactites, e as árvores da cidade a cobrirem-se de sincelo.
O liceu tinha aquecimento central uma semana por ano, enquanto durava o combustível. Acabada a verba e o conforto, ficavam gelados os irradiadores a vapor, com as salas à temperatura ambiente, e a água gelada na jarra da secretária, moldada num bloco sólido pela forma do recipiente.
Engadanhadas, as mãos deixavam cair a caneta para escrever os sumários ou responder às perguntas dos pontos escritos, respondidas em folhas de trinta centavos compradas ao senhor Ulisses na cantina; as frieiras corroíam as orelhas e o nariz; e o cieiro gretava os lábios que a manteiga de cacau aliviava, comprada ao Sr. Teixeira na Farmácia a que dava o nome. Cinquenta centavos adquiriam um duradouro pedaço de excelente odor e eficácia.
É difícil calcular as condições suportadas na cidade onde a água faltava, congelada nos canos. Era preciso trazê-la dos chafarizes onde ainda corria. Junto ao Hotel Turismo as casas não tinham saneamento, à semelhança de muitas outras no Torreão e no Bonfim.
No liceu respirava-se medo. O reitor metia medo, os contínuos policiavam os alunos, e as alunas eram ainda mais condicionadas, proibidas de usar calças, com a temperatura a descer a -6º ou -7º.
No início dos trimestres, a acrescentar ao preço das matrículas, no início do ano, 150$00 de propinas, multiplicados pelo número de filhos matriculados, pesavam no orçamento dos pais.
Os alunos ouviam o Zé Vilhena a mandar ler a um aluno o compêndio de História, esse manual de propaganda ideológica a que Zeca Afonso chamou o Evangelho Segundo São Matoso, e a dizer, a cada esgar, ‘sublinhai’, e nas chamadas a dizer “anda burro, diz o que está no livrinho, quem fez o livro sabia mais do que tu e do que eu”. Às vezes perguntava ‘qual é a besta que está a falar’, e logo respondia, ´quem está a falar sou eu’.
O António Pinto não acertava uma única experiência, sabotado pelos alunos enquanto a caderneta caía nas mãos do Fatela, sobrinho do padre da Meimoa, com cujo dinheiro da caixa das almas, jogávamos bilhar na Cristal e que alterava algumas notas. Arreliava-o a experiência falhada e a pergunta de alunos que lhe perguntavam se era verdade que nas curvas mandava a D. Céu a ver se vinha algum carro em sentido contrário. Nesse tempo havia muito respeito pelos professores.
O Pacheco marcava exercícios de surpresa para uma próxima quinta-feira e agarrava as orelhas de alguns alunos a dizer-lhes ‘cabecinha de burro, na quinta-feira, exercício de surpresa’, e não falhava o dia da surpresa que anunciava.
O Ramalho, que era uma exceção como bom professor, beato e frustrado, cultivava um amor platónico pela colega Libânia, e envelheceram sem que ele tivesse coragem de lhe dizer o que sentia ou ela de o ouvir. Hão de ter morrido celibatários.
Das aulas de Religião ficou-me o gosto pela leitura. O padre Cabral dizia-nos os livros que não devíamos ler. A maioria era estimulante e boa literatura. Não encontrei melhor critério do que o do padre José Maria Cabral, bastava ler os que desaconselhava e evitar os que recomendava. Aliás, o padre Pôpo, responsável pela Biblioteca Municipal, não negava um livro pedido, talvez afastado do múnus por causa da filha que se dizia ter.
Surpreende como éramos felizes em condições precárias, com a repressão e a vigilância a que éramos sujeitos, sobretudo às meninas. O uso de calças era-lhes proibido e no estio as meias continuavam obrigatórias, sob a vigilância de uma contínua. Quase tudo era proibido e parecia mal, que raio de mentalidade arcaica e provinciana, em casa, no liceu e na sociedade! O Mondego e a Cristal, o Monteneve era para os professores, eram os cafés onde só os rapazes entravam.
Parece paradoxal, mas sente-se imensa saudade desse tempo, os afetos explodem com as memórias, é avassaladora a ternura para com antigos colegas, e imensa a indulgência para com os censores de então. As condições precárias não nos afetaram, só se sentem quando há noção da falta. A repressão, essa, é o cimento de afetos que resistem ao tempo e nos conduzem ao lugar de onde partimos numa peregrinação afetiva que povoa os sonhos dos velhos que nos tornámos em busca da juventude que, na Guarda, dentro e fora do liceu, vivemos com a exuberância da idade e a turbulência das hormonas.
Ponte Europa / Sorumbático

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10.11.19

Grande Angular - Um Aeroporto e suas obras

Por António Barreto
As grandes obras são o “filet mignon” de certas políticas: a dos interesses e a que se julga acima da ciência. As grandes obras e os grandes equipamentos são em geral as jóias da coroa dos poderes autocráticos. Hitler, Estaline, Mao, Mussolini e até Franco e Salazar viviam momentos de rara volúpia diante das suas barragens e dos seus estádios. Eram deles os palácios da justiça, da cultura, dos trabalhadores ou do povo! E até democratas como Roosevelt e Mitterrand não deixaram de se sentir tentados pela epopeia da “obra pública”.
Na verdade, barragens, portos, linhas de caminho-de-ferro, aeroportos e redes de telecomunicações, de energia e de água, assim como aquisições especiais de fragatas, submarinos, aviões e locomotivas, são investimentos e obras que valem milhares de votos e milhões de euros. São obras que condicionam a economia e a sociedade durante décadas. Que criam emprego em quantidades inacreditáveis. Que dão lucros em volumes impensáveis. Que oferecem oportunidades para cunhas, empenhos, luvas, comissões e corrupção em valor inimaginável. As grandes obras condicionam a sociedade e a economia por largos anos: qualquer erro paga-se muito caro e pode ter consequências negativas nas vidas das pessoas e no endividamento de um país!
Um aeroporto novo de raiz, como o de Alcochete, ou grande desenvolvimento de estrutura anterior, como o de Montijo, têm profundos efeitos a longo prazo no futuro das populações, das áreas afectadas e até do país: pontes, viadutos, auto-estradas, linhas de comboio e de metropolitano, estruturas de cargas e descargas, oficinas de reparação e manutenção, instalações de serviços de grande porte, escritórios, hotelaria, segurança, estacionamentos, abastecimento, alimentação, etc. Um nunca mais acabar, com milhares de expropriações, muitos milhões na aquisição de terrenos, licenças de construção e urbanização e autorizações para edificação. Um aeroporto é uma cidade que condiciona as outras cidades, que determina uma parte do crescimento futuro, que tem efeitos negativos e positivos para milhões de pessoas e dezenas de anos! Percebe-se que são decisões difíceis e complexas, sem perfeição absoluta e que necessitam de muito estudo e muita inteligência! Mas não são estes factos ou estas exigências que justificam que uma decisão demore mais de cinquenta anos e que mude de local escolhido quatro vezes, como é o caso do futuro aeroporto de Lisboa!
Acrescente-se que, nos tempos contemporâneos, estas decisões são ainda mais difíceis. A democracia dá voz a toda a gente e a todas as opiniões, legítimas e ilegítimas, sérias e fantasiosas. Surgem todos os dias novos problemas, sobretudo os relativos à qualidade de vida, à ecologia e às alterações climáticas. Há seguramente contradições fundamentais entre criação de emprego, adequação do investimento público, oportunidades para investimento privado, segurança dos cidadãos, poluição sonora e do ar, destruição da flora e da fauna e desenvolvimento da economia em geral e do turismo em particular. Mas sabemos que não há decisões perfeitas e que um aeroporto terá sempre amigos, inimigos e adversários. Como tudo na vida.
Em democracia, não há aeroporto sem polémicas, interesses, lutas, protestos, devaneios tecnológicos, ameaças ambientalistas e horrores ecológicos. Não é difícil encontrar quem pense que os voos e os aviões têm os dias contados, que as pessoas não deveriam viajar e que o turismo necessita de um “numerus clausus”. Todos conhecemos quem entenda que deveríamos eliminar a poluição sonora, sobretudo a que resulta do sobrevoo de cidades e de zonas de habitação. Ainda recordamos batalhas e controvérsias em Heathrow, Frankfurt, Berlim ou Paris. Nos Estados Unidos, no Japão e no Brasil.
Mas em quase todas as controvérsias houve sempre ou quase sempre um momento em que os ânimos acalmaram, que se introduziu alguma racionalidade e se fizeram correcções aos projectos iniciais. E que se tomaram decisões e se fez obra. Foi nesses momentos que se sentiu que havia centros de competência e racionalidade, grupos de pessoas qualificadas e interessadas, empresas ou associações ou universidades isentas e independentes. Foi nesses momentos que se sentiu que, além dos trafulhas habituais, mau grado os pesos pesados dos interesses e do produto, havia também gente honesta e preparada!
Lamento dizer, mas, em Portugal e para o novo aeroporto de Lisboa, temos tudo, menos isso, honestidade e competência, isenção e independência. Se existem essas qualidades, não as vemos ou foram silenciadas. Ou a essas o governo não recorre.
O Estado continua a revelar a sua falta de capacidades intelectuais, técnicas e científicas, assim como a ausência de “ethos” isento e independente. Em tudo o que cheire a grande obra, o Estado aparece sempre e cada vez mais capturado, impotente e incompetente… 
Foi este Estado que, durante décadas e alternadamente, hesitou e decidiu, eliminou e escolheu Ota, Rio Frio, Alcochete e Montijo. Mas também Alverca e Sintra. E já agora Monte Real e Beja. Foi o Estado português, sucessivamente salazarista, marcelista, gonçalvista e democrático que, desde os anos sessenta, isto é, há cinquenta anos, vem pensando em construir um aeroporto desde sempre considerado urgente! E muda de opinião com a firmeza dos ignorantes e a certeza dos interesses. A perda de capacidade científica independente do Estado é uma das mais graves falhas das últimas décadas.
É frequente encontrarmos as mesmas pessoas, as mesmas universidades, as mesmas empresas, os mesmos bancos, os mesmos promotores e os mesmos especialistas em vários projectos e várias soluções. Há ministros e secretários de Estado que estavam em funções quando foram tomadas duas ou mesmo três decisões contraditórias. Também se conhecem profissionais, engenheiros, economistas, consultores e construtores que apoiaram decisões opostas, talvez até com os mesmos argumentos!
As esquerdas, auto-suficientes, exauriram o Estado competente, técnico e inteligente, para o transformar em agente político e já agora em sua coutada. As direitas, cúpidas, esvaziaram o Estado sabedor, capaz e independente, para entregar poderes e competências aos negócios e aos privados. O Estado, hoje, é alfobre de negócios, tapada dos partidos, autoritário como os ignorantes, convencido como os déspotas! E ao serviço da política mais barata, a dos interesses. Bonito serviço!
Público, 10.11.2019

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8.11.19

A Exportação da Violência

Por Joaquim Letria
Comícios, protestos e manifestações eclodiram por todo o mundo. Impostos, taxas excessivas, vida cara, corrupção, injustiças climáticas, desemprego e fome aumentam a fúria dos povos um pouco por todos os sítios. Mas como se espalharam essas formas de protestar pelo mundo fora?
Analisando as notícias das últimas semanas é fácil perceber que o mundo está envolvido em corrupção que enfurece os cidadãos.
No Líbano, incendiaram Beirute contra um aumento de 20 cêntimos nas chamadas telefónicas. Os chilenos puseram Santiago a ferro e fogo por causa dum aumento de 17 cêntimos nos preços dos transportes. As ruas do Equador encheram-se de lixo, destroços e entulho que serviram de armas de arremesso aos manifestantes contra a retirada dum subsídio dos combustíveis. Na Bolívia, La Paz foi cenário de violentos protestos contra uma não comprovada fraude eleitoral.
Na África Ocidental, a Libéria está em permanente agitação, a República Centro Africana é cenário de tiroteios constantes e o Sudão nunca deixa de estar a ferro e fogo. Na Guiné, uma mudança na duração dos mandados presidenciais provocou mortes sem fim, os Mexicanos manifestam-se contra os cartéis da droga que matam dezenas de cidadãos e polícias. Na Faixa de Gaza israelitas massacram jovens palestinianos e Hong Kong continua na confusão meses depois dos chineses terem tirado a extradição que o território exigia.
Barcelona não pára de protestar contra Madrid, os agricultores holandeses manifestam-se com os seus tractores e em França os “Coletes Amarelos”continuam, ao fim de meses, a exigirem nas ruas melhores salários e condições de trabalho.
As manifestações e a violência parecem ser contagiosas. Um estudo da Universidade do Arizona diz que o protesto é contagioso, com a acção colectiva no estrangeiro a estimular o aparecimento de reacções internas idênticas. O antigo diplomata chinês Wang Zhen escreveu no Beijing News que “o impacto desastroso duma Hong Kong caótica começou a influenciar o mundo ocidental”. O Governo chinês também diz que Hong Kong está a exportar violência.
O drama é que responder à violência com mais violência aumenta a violência, enquanto a passividade é um sinal de fraqueza. O antigo chefe da polícia de Madison, Wisconsin, aconselha a proximidade. “Juntem-se a eles, falem com eles e mantenham o contacto e a proximidade”. Para os especialistas experientes em comportamentos de multidões e violência esta é a melhor maneira de ter um bom resultado. Será?!
Publicado no Minho Digital

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7.11.19

Miguel Albuquerque e a grotesca imitação de A. J. Jardim

Por C. Barroco Esperança
O novo sátrapa pretende ser um novo Jardim, e não passa de medíocre avatar. O louvor do Governo Regional ao major-general Cardoso Perestrelo, afastado do Comando Operacional da Madeira pelo EMGFA, por ter mandado transportar, para um torneio de golfe, o canhão que um civil disparou, foi uma afronta à decisão da hierarquia militar do País.
A Madeira vive ainda do confronto com o Governo de Lisboa, que atura os desmandos dos sobas autóctones. O louvor, vindo de onde vem, é a pena acessória ao afastamento do militar que fez do material de guerra brinquedos para divertimento da elite local.
As exigências dos governantes da Madeira que não mudam de partido, nem na ditadura, que apoiaram, nem na democracia, que contestam, tornam-se intoleráveis.
O pomposamente designado XIII Governo Regional da Madeira faz exigências a Lisboa que o elementar bom senso devia obrigar a recusar. Os excessos autonómicos vacinaram o Continente contra a Regionalização e os sucessivos governos nacionais subjugaram-se aos desmandos insulares, dotados de uma faraónica máquina político-administrativa.
Os impostos recebidos nas Regiões Autónomas são aí retidos e os seus Orçamentos são participados em cerca de 40% pelo OE e subsídios da UE para regiões ultraperiféricas. Açores e Madeira não pagam as despesas com as forças militares, policiais e prisionais, nem com os Tribunais, e não participam nos encargos com organismos internacionais, ONU, NATO, representação externa do Estado ou para a própria UE de onde recebem uma fatia do seu orçamento.
O dever de solidariedade do País com todo o seu território, isto é, com todos os seus cidadãos, não se discute, mas acontece que a Madeira é já uma das regiões mais ricas do País, indiferente ao abandono a que o interior continental e as suas gentes são votados.
É fácil aumentar funcionários públicos, que o OE não contempla, quando os sucessivos défices excessivos são endossados ao Governo da República. Foi imoral o desrespeito à moralização imposta, impossibilitar a adição de vencimentos do Estado às reformas da Segurança Social, que obrigou Cavaco Silva a prescindir do vencimento de PR e a optar pelas reformas, mais substanciais, mas não impediu Jardim de receber o vencimento de Governador, equivalente a ministro, com a reforma de professor, no 7.º escalão.
O crescimento superior à média nacional que Miguel Albuquerque exige para a Madeira à custa dos desequilíbrios agravados nas Beiras, Alentejo e Trás-os-Montes é ultrajante. É a indiferença de quem quer manter o poder à custa dos privilégios que comprometem cada vez mais a equidade nacional.
O programa do XIII Governo Regional da Madeira é o caderno de encargos para o OE, cheio de ameaças e tiques autoritários, que morde a mão que perpetua o poder político do sátrapa local.
É altura de olhar para as zonas mais desfavorecidas e resistir à permanente chantagem da Madeira sem permitir a perpetuação do paraíso de governantes inimputáveis.

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6.11.19

No "Correio de Lagos" de Out 19

«Errar é humano, e humano é também evitar corrigir o erro» (R. Reycraft)

A foto que escolhi para ilustrar a crónica deste mês já é conhecida dos leitores mais atentos, pois foi publicada neste jornal, na secção “Buracos e Companhia”, há nove meses — tempo que é suficiente para gerar um ser humano, mas não para que os serviços “competentes” corrijam o que ela documenta. 
E escolhi esta (e não outra, das muitas possíveis) porque faz a transição perfeita entre Lawrence Peter, que foi tema da crónica do mês passado, e o seu contemporâneo Edward Murphy (1918-1990), como adiante veremos. 
Antes de mais, é curioso saber-se que O PRINCÍPIO DE PETER (“Numa organização hierarquizada cada elemento tenderá a ser promovido até atingir o seu Nível de Incompetência”) não foi escrito pelo próprio, mas sim por Raymond Hull, a partir dos apontamentos daquele: senhor de um grande senso de humor, Peter dizia que se sentia incompetente para escrever sobre a incompetência, pelo que delegou a tarefa em quem o poderia fazer melhor — decisão muito acertada, pois a obra foi um “best seller”. 
Peter, então, tendo-se fartado de ganhar dinheiro, resolveu voltar ao tema, desta vez pela sua mão, com A ANÁLISE DE PETER e O RECEITUÁRIO DE PETER, que, no entanto, são apenas sequelas — confirmando, com isso, que todos somos incompetentes, só que em coisas diferentes: pode ser-se um competente professor universitário e uma anedota como ministro... 
Ora, uma das curiosidades do Princípio de Peter é o facto, que o próprio autor salienta, de se tratar de um “princípio” e não de uma “lei”. 
Ou seja: se as pessoas envolvidas forem suficientemente inteligentes e informadas, será possível escaparem a essa perversa atracção — mas trata-se de excepções que apenas confirmam a regra. 
Diz também Peter que todas as organizações conseguem carregar consigo uma certa percentagem de incompetentes, limitando-se a segregar os super-competentes (porque colocam em causa os restantes trabalhadores) e os super-incompetentes (pois são letais para a organização). 
Mas não estou suficientemente a par da história de Lagos para confirmar o primeiro postulado (quantos responsáveis foram afastados, nos últimos anos, por serem demasiado bons?), e tenho sinceras dúvidas quanto ao segundo, como se pode ver por esta imagem que nos leva, então, a MURPHY e à sua famosa lei: “Qualquer coisa que pode correr mal irá correr mal”. 
Ao contrário de Peter, Murphy nunca ganhou um cêntimo com isso — o que é natural, tendo em conta que se tratou apenas de um desabafo (que alguém registou para a posteridade), no seguimento de um trabalho que ele, engenheiro aeroespacial, fez e que correu mal: uma determinada ficha, que só tinha DUAS POSIÇÕES possíveis, fora colocada na posição ERRADA, inutilizando todo o trabalho feito. 
Foi também o que sucedeu aqui (só havendo duas posições possíveis, o “artista” optou pela errada), o que nos faz voltar a Peter, com a constatação de que um incompetente nunca está só: para que esta aberração visse a luz dia, houve um outro incompetente que o colocou a fazer a tarefa, um terceiro que depois aprovou o trabalho, e muitos outros que, podendo e devendo corrigir o erro, o não fazem — desautorizando o consultor internacional que, salvo erro no famoso “Relatório Porter”, concluiu que “Os portugueses são muito bons a resolver os problemas que eles próprios criam”...
"Correio de Lagos" de Out 19

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3.11.19

Grande Angular - Famílias há muitas!

Por António Barreto
Durante a campanha eleitoral, um termo foi frequentemente utilizado, sempre em bom-tom e recolhendo os favores dos candidatos: família! Toda a gente se revê nela e reclama uma “política”. O problema curioso é que, conforme as pessoas e os partidos, se fala de coisas diferentes e de conceitos diversos. Dado que o assunto é delicado, todos preferem não qualificar. E assim se deixa correr o conceito mais vulgar, o de família nuclear clássica, cristã, legal, com coabitação de pais e filhos, por vezes uma terceira geração.
A popularidade do divórcio, a partir dos anos setenta, assim como o desenvolvimento de todas as formas de união, registadas ou não, com e sem coabitação, criaram situações que nos obrigam a ter cuidado quando falamos de famílias. Sobretudo na política, pois isso implica logo direitos e deveres, estatutos e impostos.
Um retrato muito rápido dá o seguinte. A população portuguesa está a diminuir. O crescimento natural cessou, depois estagnou e agora está em recuo. Os óbitos são mais do que os nascimentos. O saldo migratório é também negativo, isto é, mais emigrantes portugueses do que imigrantes estrangeiros. Vivemos, na década presente, um período complexo com os dois saldos negativos, o natural e o migratório.
A sociedade portuguesa envelhece. Por cada 100 jovens, já há 150 idosos! Em si, o envelhecimento é boa notícia, dado que significa saúde, água potável e melhor alimentação. Ao contrário do que se diz, envelhecer não é um problema, problema é a baixa natalidade! Ou morrer cedo! A má notícia é que o envelhecimento foi rápido de mais e Portugal tem uma das populações mais idosas do mundo. Ora, a sociedade parece não estar preparada para esse envelhecimento rápido: a idade de reforma, as pensões, os serviços de apoio, o envelhecimento activo, o acolhimento hospitalar e muitas outras realidades não estão preparadas.
Nesta situação demográfica, as famílias evoluíram. A dimensão diminuiu: 2,5 pessoas por família reduzida a duas gerações. A média do número de filhos é de menos de um por família! Aumentaram as famílias de uma só pessoa (perto de 1 milhão). Os casamentos católicos são hoje a minoria, foram superados pelos casamentos civis. E as uniões de facto ultrapassaram os casamentos. Os divórcios explodiram: quase 7 por cada 10 casamentos. Os filhos dentro do casamento foram superados pelos fora do casamento. Estes são 60% do total, dos quais um terço de mãe sozinha. A fecundidade fica-se por pouco mais de um filho por mulher em idade fértil, abaixo do patamar mínimo para que uma população se reproduza. Das 87 000 crianças nascidas num ano, apenas 37 000 nasceram de pai e mãe casados.
Em Portugal, haverá pouco mais de 4 milhões de famílias. Um milhão tem uma só pessoa. Um milhão de casais não tem filhos. Um milhão e meio são casais com filhos. E 500 000 são famílias monoparentais, isto é, quase sempre uma mãe com filhos. A dimensão média de uma família é de 2,5 pessoas. Com 6 pessoas ou mais, apenas existem 2%.
Por ano, efectuam-se cerca de 35 000 casamentos, dos quais quase mil entre pessoas do mesmo sexo. De todos os casamentos, apenas 11 000 são católicos. Mais de dois terços dos casamentos efectuados são apenas civis. Um quarto do total é de segundos casamentos. Cerca de um milhão de pessoas vive em “união de facto”, com ou sem coabitação. Ao mesmo tempo, realizam-se por ano 23 000 divórcios, o que faz com que haja 70 divórcios por 100 casamentos. Deste total, mais de metade é de pessoas que se tinham previamente casado pela Igreja.
Convém sublinhar vários factos. A mulher emancipa-se. O pai e a mãe estão ambos activos com emprego e em geral fora de casa. A escolaridade universal de 12 anos retira as crianças e os adolescentes de casa e do trabalho. Os pais têm cada vez menos interesse e tempo para a educação dos filhos, deixando às escolas esse papel de socialização. As famílias abandonaram as actividades agrícolas e industriais de proximidade e de comunidade, dedicam-se aos serviços, quase por definição dispersos. As famílias têm como concorrentes fortíssimos dispositivos: a escola, os professores, a televisão (cada vez menos), os computadores (cada vez mais), as máquinas de comunicação, as redes sociais e os grupos informais de jovens.
Muitas famílias refizeram-se de acordo com as migrações. Chegaram 150 000 famílias de origem estrangeira. Desenvolveu-se o pluralismo étnico, religioso e de costumes. A sociedade portuguesa ficou plural, a miscigenação desenvolveu-se pouco, mas a coexistência e a variedade sim. Dentro das famílias, as estruturas de poder e comportamento alteraram-se profundamente e, para o melhor e o pior, a “cultura jovem” condiciona o comportamento de toda a família.
As chamadas “novas famílias” abrangem realidades muito diferentes. Com e sem casamento. Com e sem filhos de um, dois ou mais casamentos. Uniões de facto com e sem coabitação. Monoparentais. Segundos e terceiros casamentos. Filhos de pais e mães diferentes. Sem coabitação necessária. Comunidades de residência com ou sem família. Do mesmo género masculino ou feminino, com ou sem casamento. Famílias de escolha e género de escolha. De várias religiões. Com e sem vínculo religioso. Famílias que se formam com novas formas e regras: pessoas do mesmo género, adopção como regra e várias formas de fecundação. Famílias de escolha e famílias sem relações de consanguinidade.
Toda esta variedade gera conceitos diversificados de chefe de família, de poder paternal, de cabeça de casal, de autoridade sobre os filhos, de papel na religião e na educação e de lugar dos anciãos. Também surgem conceitos diversos de ordem moral e jurídica, tais como os poderes de representar, de assumir a responsabilidade civil, de legar, de definir as profissões e de contratar os casamentos dos filhos. Sem falar nos hábitos e nos direitos de monogamia e poligamia.
Como sempre na história, a família está crise de mudança e transformação. Mas o mais interessante é a multiplicação de modelos de família, com implicações morais, religiosas, culturais, sociais e jurídicas. A variedade e o pluralismo podem ser sinais de progresso. Mas até onde pode ir a diversificação? Até à coexistência de várias religiões? Parece que sim. Vários costumes? Não há muitas dúvidas. Várias morais? Começa a ser complexo. Várias leis ou vários ordenamentos jurídicos? Aí já parece difícil. E, creio, impossível.
Público, 3.11.2019

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2.11.19

No "Correio de Lagos" de Out 19

NOTA: Este caso foi abordado no mesmo jornal quando fez 4 meses e quando fez 8! Agora, que já fez 12, está na mesma, à parte a papeleira, que alguém, atou, com uma corda, a um candeeiro!

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1.11.19

Estranhos Milagres de Fátima

Por Joaquim Letria
Há 45 anos, vivia Portugal o Processo Revolucionário em Curso (PREC), tive o descaramento de entrevistar o líder da extrema direita espanhola, o dirigente fascista Blas Piñar.
Como calculam, a esquerda festiva de Portugal quase me entregou à Inquisição e não perdoou nem se interessou em saber aquilo que eu buscava na referida entrevista: como encarava a extrema direita espanhola aquilo que estava a acontecer em Portugal, para mais num momento em que a Espanha ainda não tinha evoluído do Franquismo para uma via democrática, como aconteceria mais tarde com Adolfo Suarez.
Abocanhei Blas Piñar e não larguei mais: tinha de conseguir aquela entrevista que teria o maior interesse em Portugal e Espanha como se verificaria mais tarde. Mas se o homem e a sua entourage não diz que sim nem que não, eu não daria tréguas. É aí que recebo uma resposta dramática:
Blas Piñar diz-me que sim senhor, que me concede a entrevista para a RTP, mas esta terá de ser gravada no Santuário de Fátima que ele iria visitar, já na viagem de regresso a Espanha. Tentei que fosse antes, à saída de Lisboa, ou na fronteira de Portugal com Espanha, mas nada: o homem estava irredutível: ou em Fátima, ou nada. E assim parti com a minha equipa rumo a Fátima.
Entrevistei Blas Piñar, verdadeiramente um fascista de ideologia pura e dura, que me recebeu com um amplo abraço em plena esplanada do santuário, onde caminhando lentamente trocámos perguntas e respostas. Imagino que a entrevista não tenha sido destruída dos arquivos da RTP e por ela ainda se pode avaliar a sua importância política naquele momento.
A Juntar-se à  extrema esquerda em festa levei com a igreja toda em cima: o cardeal, que eu muito estimava, bispos, o colégio episcopal, o reitor do santuário, não houve católico condoído que não me mordesse as canelas durante semanas a fio. Tenho a impressão que só o cónego Melo, colega ideológico de Blas Piñar e grande amigo de muita gente da rede bombista, ficou comprometedoramente calado, ainda que rosnando promessas que eu deveria pagar.
Falo nisto agora porque depois deste episódio verificado há tanto tempo, Fátima, hoje em dia sem memória, serve de cenário para filmes duvidosos e para palco de reuniões magnas da extrema direita internacional, cuja segurança custou uma pipa de massa ao País, já que foi o Estado que assumiu a garantia do bem estar dos políticos e religiosos que se reuniram em Fátima, julgo eu que com a bênção de Nossa Senhora.
Publicado no Minho Digital

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31.10.19

Notas Soltas – outubro/2019

Por C. Barroco Esperança
Freitas do Amaral – Faleceu o grande jurista e último líder dos partidos que fizeram a Constituição do regime democrático que os capitães de Abril nos legaram. Conservador e democrata-cristão, foi o fundador do CDS, partido que se radicalizou e o maltratou.
PR – O funeral de Freitas do Amaral, ex-presidente da AG da ONU, evitou a Portugal a vergonha de ver Marcelo ajoelhado em Roma no dia emblemático do regime que dá o nome ao órgão a que preside. Prestou, assim, o seu último serviço ao País. 
Jurisprudência – O acórdão da Relação confirmou que parte substancial do terreno que a Selminho reclamava é propriedade municipal. Está de parabéns a Câmara, que ganhou a ação contra o seu presidente e família, proprietários da empresa usurpadora.
Lula da Silva – A Câmara de Paris, ao conceder o título de Cidadão Honorário ao ex-PR, em reconhecimento do seu combate à pobreza e à discriminação racial, censurou a sua prisão iníqua e o golpe de Estado do juiz Moro e de Temer contra Dilma.
Eleições legislativas – A campanha, agitada pela Justiça, ruído da imprensa de direita e redes sociais, sem rosto, não conseguiu alterações sensíveis nos resultados eleitorais. O PR beneficiará da ausência de uma maioria de esquerda coesa.
PCP – A persistente erosão do partido que sobreviveu à clandestinidade e à perseguição fascista, e que mais sofreu na luta contra a ditadura, não resistirá aos modelos em que se revê, e continua imprescindível aos equilíbrios necessários à democracia.
PSD – A derrota mitigada não dará descanso ao líder nem enfraquece os ódios internos e ambições da tralha cavaquista, que apoiava Passos Coelho e lhe disputou a liderança através de Santana Lopes, o Menino Guerreiro que deu os últimos suspiros fora do PSD. 
CDS – O retorno ao partido do táxi exige a escolha de novo condutor e uma opção entre a insistência na truculência reacionária de Nuno Melo e Assunção Cristas e o regresso à matriz fundadora, conservadora e civilizada, onde ainda se encontra Mesquita Nunes.
Novos Partidos – A chegada do Livre à AR é uma lufada de ar fresco, mas a do Chega e do IL são o fermento preocupante, respetivamente, do neoliberalismo amoral, com vastos recursos financeiros, e do fascismo, racista, xenófobo e trauliteiro.
PAN – O mais inapto, ignorante e incoerente dos líderes foi o maior vencedor eleitoral, depois de ter alterado os objetivos e acabado a meter no mesmo saco o CDS, o PCP e o Chega. Espera-se dos novos deputados ideias boas e inovadoras para a democracia.
BE – A manutenção do grupo parlamentar é a retribuição justa da combatividade e valia dos seus quadros, mas a perda de eleitorado e, sobretudo, a hostilidade da campanha ao PCP e PS, inimigos principais, deixou marcas pouco saudáveis para a futuro imediato.   
PS – A inegável vitória eleitoral não garante um governo estável na turbulência política europeia e mundial, a exigir coesão para enfrentar desafios internacionais e as eventuais ambições do PR. 
Marcelo – Foi o vencedor das eleições. A direita superou o terço dos deputados de que carece para intervir na revisão da CRP, o PS não tem a maioria absoluta que temeu e o tornaria irrelevante, agora livre para influenciar a futura geografia eleitoral.
Partidos extraparlamentares – Animaram o folclore eleitoral e remeteram ao silêncio os cromos inevitáveis e os egos insuflados de quem delapidou os últimos resquícios da respeitabilidade do passado e da de quem nunca a teve ou mereceu.
AR – A maior diversidade de partidos devia ser um enriquecimento do pluralismo, mas é a forma de aumentar a turbulência política e dificultar a formação de maiorias, tanto mais necessárias quanto mais incertos os tempos que se avizinham.
Cavaco Silva – Quem pensava que o homem que radicalizou o PSD e manteve intacto o ódio à esquerda, incluída a do nome do seu partido, à custa do qual singrou, enganou-se. Ódio velho não cansa. Foi rápido a pedir a cabeça de Rui Rio e a propor Maria Luís.
EUA – O sacrifício de 10 mil curdos que morreram a derrotar o ISIS de nada lhes valeu. Quando deixou de precisar deles, Trump traiu-os e entregou-os à violência dos turcos de Erdogan que logo iniciaram a perseguição.
Síria – O abandono dos curdos abre a porta às ambições russas, ao regresso à guerra e à imparável tragédia humanitária que estava estagnada. Por sua vez os 10 mil elementos do ISIS, prisioneiros dos curdos, tornar-se-ão o fermento para a reorganização terrorista.
Alemanha – O ataque a uma mesquita e a granada contra o cemitério judaico, quando a extrema-direita ressuscita por todo o mundo, remete-nos ao pesadelo do antissemitismo e à memória pungente de Hitler e do III Reich. 
Filipinas –  Rodrigo Duterte, na cerimónia oficial em Manila, encorajou o novo chefe da polícia da cidade de Bacolod, ten.-cor. Jovie Espenido, a matar suspeitos de tráfico de droga: “Tens permissão para matar todos”. Um PR louco eleito democraticamente!
Francisco Franco – A trasladação dos restos mortais do genocida, depois de uma longa batalha contra a família do ditador, os Tribunais, os falangistas e a Igreja espanhola, foi, no seu simbolismo, a primeira vitória contra o franquismo.  
Banco Central Europeu (BCE) – Mario Draghi, governador, terminou o mandato e vai deixar saudades. Poucos resistiriam tanto, tanto tempo e com tamanha competência, na defesa do euro e na ajuda para salvar o espaço europeu da desintegração.
Brasil – Tudo o que possa esperar-se da ética, incultura e impreparação de Bolsonaro, é previsível, mas se se confirmar a participação do agora PR no assassinato da vereadora carioca de esquerda Marielle Franco, o Estado tornou-se um lugar mal frequentado.  
Ponte Europa / Sorumbático

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28.10.19

No "Correio de Lagos" de Out 19

Há uma meia dúzia de anos divulgámos, num espaço dedicado a Lisboa, umas quantas situações de cabos de telecomunicações mal encaminhados. Imagine-se agora a nossa surpresa quando fomos contactados por alguém das infraestruturas da PT (agora MEO), perguntando-nos quais as suas localizações, para que fossem feitas as intervenções correctivas — o que, no seguimento da nossa resposta, sucedeu no dia imediato! E, se fosse só isso, já era bom e de saudar; mas houve mais, pois foi-nos pedido que passássemos a reportar essas e outras anomalias de responsabilidade da empresa, incluindo tampas de caixas-de-visita deterioradas, deficientemente empedradas ou mal recolocadas. 
Essa colaboração informal, com alguém que não conhecemos pessoalmente (e que sempre nos agradece!), tem abrangido locais tão inesperados como Lisboa, Sintra, Aveiro, Loulé e — obviamente — Lagos, como foi agora o caso, no passado dia 13 de Setembro, nesta Rua Gago Coutinho, a que voltaremos por outros motivos. 
("Correio de Lagos" de Out 19)

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Grande Angular - O perdão e o remorso

Por António Barreto
A moção aprovada há dias pelo Parlamento Europeu e apenas contrariada, ao que parece, por simpatizantes do comunismo e do fascismo, condena um e outro, quase os equipara, de ambos diz que massacraram milhões, o que é verdade, mas cuja equiparação é absolutamente inútil e patética. Sabe-se hoje que, sem contar as vítimas da guerra, o Nazismo alemão causou a morte de dez milhões de pessoas e o comunismo russo perto de vinte. Fazer um “ranking” destas mortandades é ridículo. Estabelecer qual deles é pior é obtuso. Ambos são hediondos, ponto final. Equipará-los é inculto. São muito diferentes nos seus propósitos, mas são ambos medonhos nos meios e nos resultados. Declarar que o capitalismo é muito pior, pois desde há trezentos anos já morreram, nas fábricas e na guerra, com a indústria e a escravatura, muitas centenas de milhões de pessoas, é ignorante. E também não nos ajuda a compreender o mundo, mas tão só a odiá-lo e a descrer da humanidade. Anunciar que são iguais é tão idiota quanto afirmar que são radicalmente diferentes.
Julgar e condenar ou absolver a história parece inútil. Mas não é. Há sempre uma “agenda oculta” e um propósito implícito. Aqueles que, hoje, em Portugal e no mundo, lutam para culpar os homens, os brancos, os adultos, os ocidentais, os cristãos, os ricos, os heterossexuais, os democratas, os capitalistas e os militares estão evidentemente a tentar criar uma ortodoxia, uma cultura predominante e, sobretudo, a construir um “credo” que permita condenar e proibir, assim como limitar a liberdade de expressão. Fazem-no com a mesma intolerância e o mesmo preconceito com que outros, há bem pouco tempo, desprezavam os negros, consideravam as mulheres inferiores, garantiam que os jovens eram estúpidos, que os pobres eram culpados da sua condição, que os homossexuais eram doentes, que os chineses cheiravam mal, que os árabes matavam e que os ciganos roubavam.
Julgar a história, condenar o passado e condicionar o pensamento: eis três objectivos dos virtuosos do presente. A discussão sobre o alegado Museu Salazar foi, à nossa escala, um tema que permitiu exibir os mesmos reflexos condicionados. As polémicas à volta do Museu dos Descobrimentos tiveram o mesmo sentido. Curiosamente, nestes dois casos, tal como no resto do mundo e para outras matérias, os intolerantes estão a levar a melhor.
Decretar que não houve massacre de Arménios perpetrado por Turcos, proibir que se diga que o Holocausto não foi assim tão mau como dizem, culpar os Judeus pela morte de Jesus Cristo, garantir que não houve na Polónia massacres de comunistas e de Judeus e negar que tenha existido o Gulag na União Soviética são gestos prepotentes, mas muito em voga. Proibir o estudo de Darwin revela estupidez, mas é o que se faz em várias latitudes. Substituir o estudo, o debate público e a liberdade de expressão pelo decreto-lei é atitude hoje louvada por muitos, sempre com intuito oportunista de estabelecimento de um poder autoritário.
Ao mesmo tempo que os decretos que definem o que foi e não foi na história, surgiu também, nas últimas décadas, o imperativo do pedido de perdão. Pessoas, povos, Estados, políticos e Igrejas pedem perdão. Pedem perdão por todos os males e por factos de há dez, cem ou mil anos. Reinterpretam a história, inventam culpados, identificam os maus e as vítimas e pedem perdão a quem lhes convém.
Papas já pediram perdão aos Judeus. Alemães também, mas por outras razões. Muitos europeus pediram perdão aos árabes, aos muçulmanos e aos negros pelo colonialismo e pela escravatura. Americanos pediram perdão aos Índios. Espanhóis pediram perdão aos Incas, aos Azetecas e aos Maias. Portugueses ainda não pediram perdão aos Africanos, aos Indianos e aos Índios, mas vai acontecer em breve. Já houve Portugueses que pediram perdão aos Judeus. Franceses pedem perdão aos africanos, aos árabes e aos vietnamitas. Há Ingleses que se preparam para pedir perdão ao mundo inteiro, dos Índios aos Indianos, dos Negros aos Muçulmanos.
Já se pede perdão aos negros pela escravatura, aos índios pela conquista, aos indianos pelas descobertas, aos chineses pelas guerras, aos mouros pelas expulsões e aos árabes pelos massacres. E também está nas cartas que se vai pedir perdão aos republicanos pela monarquia e aos socialistas e comunistas pelo Estado Novo.
Por que diabo hei-de pedir perdão aos escravos, aos Índios, aos Indianos, aos Egípcios, aos Judeus e aos Mouros? É que se as culpas não forem minhas, são objectivas e históricas. Se não foste tu, foram os teus avós. Ou tetravós. Se não foste tu, foram os cristãos. Ou os brancos. Ou os Portugueses. Ou os europeus. Ou quem quer que seja. Mas de uma coisa podes estar seguro: és culpado, deves ter remorsos, tens de pedir perdão e, eventualmente, pagar reparações, conceder privilégios, bater no peito, deixar passar à frente e recolher-te à tua insignificância dado que alguém, algures e em qualquer tempo, maltratou, roubou, oprimiu e torturou. Evidentemente, as culpas têm momentos históricos e objectos precisos. Hoje, por exemplo, pedir-se-á perdão aos negros africanos e aos muçulmanos (desde que não sejam ricos…), mas não aos retornados, aos repatriados, aos frades, aos monges, aos aristocratas e aos proprietários.
Decretar o bem e o mal, condenar a história com cem ou mil anos, culpar por lei acontecimentos históricos e pedir perdão por factos longínquos: é estúpido, mas é moda. Vai ser difícil afastar esta praga: estabelecida uma ortodoxia do pensamento, dura sempre anos. Pena é que o pluralismo e a liberdade fiquem a perder. Mas ganha a moda que é a de pedir perdão pelo que outros fizeram. Pedir perdão pelo que antepassados, não importa quão remotos, fizeram ou beneficiaram com o mal e o sofrimento de outros. Pedir perdão a escravos que serviram mestres, a negros usados pelos brancos, a soldados que obedeceram a oficiais, a trabalhadores explorados por patrões, a mulheres batidas pelos homens, a jovens frustrados por adultos, a judeus queimados por arianos, a árabes humilhados pelos cristãos, a alunos dominados por professores…
Aos espíritos intolerantes não interessa saber que a culpa, o castigo e o perdão se dirigem aos indivíduos, por vezes associações ou grupos, nunca povos ou etnias.
Fernão Lopes garante que Álvaro Pais disse ao Mestre de Avis que uma das receitas para se ser rei e exercer o poder consistia em “perdoar a quem nunca te fez mal”! Esta agora é uma nova versão: “peço perdão a quem nunca fiz mal”! 
Público, 27.10.2019

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