12.5.08

O fim dos erros

Por Joaquim Letria
O FILHO DUM AMIGO MEU percebeu logo as vantagens do novo acordo da língua portuguesa. Riu-se e decretou:
- O acordo é bestial. Vai deixar de haver erros. Eu sou a favor do acordo!
Foi a mais rápida e prática opinião acerca do novo acordo que tanta polémica tem gerado, ainda que quase nenhum debate sério, no âmbito dos Ministérios da Cultura e da Educação, tenha tido lugar para avaliar da justeza e interesse deste acordo para Portugal.
O Brasil, que é quem melhor trata a Língua Portuguesa, está pacientemente à espera de assinar o acordo. Os africanos, que oficialmente falam a nossa língua, estão caladinhos, moita-carrasco, sem que se saiba se o vão subscrever, ou não. Esta posição deixa, aliás, o acordo reduzido a um protocolo luso-brasileiro, ainda que firmado no âmbito da CPLP, com o objectivo político de termos um idioma unificado.
Quando este acordo estiver em vigor, o grande vencedor será Jorge Coelho, não só porque os contratos da Mota-Engil em Angola passam a ser redigidos à luz do acordo, mas também, e sobretudo, porque poucos hão-de (ou hãode? Ou ão de?) saber como se escreve, e acabarão por preferirem o há-dem da escolha do ex-ministro de Guterres, embora desconhecendo se se escreve assim, ou antes ádem ou adem.
O Português será um idioma que se passa a escrever como der mais jeito e que, de todas as maneiras, está bem. Razão tem, de facto, o miúdo que é filho dum amigo meu. Vai deixar de haver erros…
O que vai ser do Português depois do acordo, pouco interessa. Em Portugal, cada vez mais se fala e escreve inglês ou espanhol em detrimento da nossa língua. E se as pessoas e os povos vão continuar a apanhar o comboio e o trem, a ir de ónibus e de autocarro, de papa bicha ou de bus, para quê uma língua única só para todos podermos dizer e escrever lóbi, óbi, dossiê, robô? Uma coisa é certa: muito nos vamos entreter à volta de receção, recessão ou recepção (que os brasileiros não largarão o “p” para distinguirem a recessão económica da recepção da recepcionista)...
As línguas que mais se falam no mundo são as que mais variantes apresentam e cujos filólogos e Governos jamais pensaram em unificar. Atente-se no castelhano e nas suas 20 variantes, da Argentina à Venezuela, passando por mais duas para o espanhol de Espanha – as variantes moderna e tradicional. Vejamos o inglês, com 18 variantes, da Austrália ao Zimbabwe, incluindo o do Reino Unido e dos Estados Unidos. O francês tem 15 variantes, da Bélgica e Suiça às Índias Ocidentais, passando pelo Mónaco, Costa do Marfim, Senegal e Mali. O árabe tem 16 variantes registadas. O alemão afirma cinco variantes, tantas como o chinês. O servo-croata tem quatro.
Tínhamos que ser nós a confundir a política com a língua e a querer esta unificação à força, a qual antecederá a dominação inevitável pelos brasileiros da língua que lhes deixámos como instrumento da sua unidade nacional e com a qual se projectarão no mundo inteiro, falando uma língua muito bela que deixará no canto mais ocidental da península ibérica um dialecto, com raiz latina, do qual nasceu.

«Mais Alentejo» – Mai 08

NOTA: O Sorumbático oferecerá dois livros (um de um autor português e outro de um autor brasileiro) ao autor do melhor comentário que venha a ser feito a esta crónica até às 20h da próxima quinta-feira, 15 de Maio. A lista dos títulos (de entre os quais o vencedor poderá, depois, escolher os que pretende) será indicada em breve.

Etiquetas:

11.5.08

Do Arquivo Humor Antigo - Ano de 1934 - 31

Futebol

Por António Barreto
IMAGINO QUE UM GRANDE NÚMERO de concidadãos tenha uma ideia clara sobre os problemas do futebol que ocuparam a crónica da semana. Terá ou não havido corrupção de árbitros? Houve coacção com ou sem resultados? Foram efectivamente pagas “luvas”, presentes” e “favores sexuais” e tiveram realmente consequências nos estádios? Houve ou não clubes beneficiados com estes gestos ilícitos? Há provas de actos e de tentativas de corrupção? Depois de ler jornais, ouvido rádio e visto televisão, percebi que quase toda a gente que se exprime sobre o assunto sabe exactamente o que se passou. Confesso que não tenho a mínima ideia. Reparo, todavia, que os campos estão divididos e extremados: conforme a origem, o local de residência, as preferências clubísticas e os círculos sociais, as pessoas dão ou retiram razão à Liga de Clubes, à Federação, aos clubes em concreto e a cada um dos dirigentes e árbitros. Os argumentos de uns e de outros são fortes, plausíveis e simétricos. As denúncias de interferências externas, como a política, os negócios, os clubes rivais e outros interesses merecem igualmente crédito. As acusações feitas a alguns dirigentes de clube, que se consideram intocáveis, são pesadas e credíveis. O argumento de que há perseguições, contra os clubes do Norte, por parte dos interesses de Lisboa, da Federação e da política, tem pés para andar. De qualquer maneira, se vier a demonstrar-se que as provas são sólidas e os castigos justos, podemos quase regozijar-nos com este feito histórico. Quase. Na verdade, o caso deixa gosto amargo. Os processos de justiça, como é habitual, demoraram anos. E, graças aos recursos e apelos, estão longe de acabar. Por outro lado, este vendaval punitivo sobre o futebol e sobre o Porto não esconde o facto de parecer haver várias justiças. Nem os clubes de Lisboa estão sob o mesmo escrutínio. Nem na política e nas actividades económicas se encontra semelhante severidade. O “Apito” dá resultados, mas o “Furacão” fica-se pela estratosfera. E algumas decisões políticas sobre os grandes concursos nem sequer foram examinadas.
O FUTEBOL CLUBE DO PORTO está a pagar. Começou, há vinte ou trinta anos, por ser um intruso. Apenas tolerado. Depois, transformou-se no clube dominante. O seu perene presidente teve os comportamentos que se lhe conhecem: inteligente, competente, autoritário, organizado, irascível e déspota. Como qualquer cacique político, assentou os pés em terreno sólido: apoio popular, estabilidade da sua organização, bons resultados e uma arrogância dominadora sem quebra. Sem esquecer uma intransigência absoluta e o uso de uma permanente retórica destinada a lembrar, todas as semanas, que o Porto e o seu clube têm inimigos. Ora, não é admissível que um clube da segunda cidade e do Norte provinciano exerça uma hegemonia quase sem falhas. Tarde ou cedo, o Porto haveria de pagar. Ainda por cima, o clube de futebol venceu onde a cidade e a região perderam. A seguir ao 25 de Abril, notou-se um acréscimo do poder político e económico do Porto. Dali vinham os empresários, os exportadores que garantiam a sobrevivência do país, os eleitores que permitiam que a democracia vingasse, a Igreja e a sua reserva moral, as tradições, os grandes caciques locais e as novas iniciativas económicas e empresariais. No Porto, nasciam bancos e grupos económicos. No Norte, trabalhava-se. No Norte, produzia-se. E no Norte cresceu a ideia de que àquela força era necessário acrescentar poder político. Durante uns anos, pareceu que era verdade. Depois, gradualmente, o Norte perdeu. O Porto perdeu. Menos o Futebol Clube do Porto, que ganhou. Até que ponto as vitórias do futebol toldaram o espírito dos seus dirigentes, permitindo-lhes acreditar na sua impunidade e na ideia de que tudo é permitido quando se ganha?
HÁ ALGUNS MESES, havia um programa que a RTP exibia fora de horas num dos canais de cabo. Creio que era na RTPN. Chamava-se “A Liga dos Últimos”. Para quem não viu, trata-se de um programa especial e insólito: segue e faz reportagem dos clubes de futebol das divisões inferiores e distritais. Em vez das glórias internacionais, das transferências de milhões de contos por jogador, das ligas europeias milionárias e das grandes querelas futebolísticas nacionais, tínhamos o “Portugal profundo” e o “verdadeiro povo” dos domingos. O “conceito” é simples: os pobres e os humildes também têm direito. O futebol não é apenas um desporto de ricos e milionários, de urbanos e classes médias, ou de gente bonita que faz as capas das revistas. Não. O futebol é também do povo. Por isso se mostra o povo. Campos de terra batida, jogadores com quarenta anos e barriga proeminente, clubes carregados de dívidas e destreza desportista mais ou menos nula. Jogos de nenhum interesse e de estética duvidosa. Os desafios desenrolam-se por entre enorme gritaria, piadas da plateia e berraria de toda a gente. Por esse programa passam clubes que nunca ganham um desafio, que estão em vésperas de desistir e que por vezes têm dificuldades em alinhar o número adequado de jogadores. Clubes que vão falir pois não têm dinheiro para pagar os balneários ou a electricidade. Clubes que pertencem à dona de um bar ou ao patrão de uma empresa de mudanças com duas camionetas. Não sei por que carga de água, o programa é hoje de “culto”. Os urbanos gostam e deliciam-se. Dizem-se ali boçalidades cruas. Toda a gente bebe cerveja a mais. Aquelas brincadeiras de bairro ou de aldeia aspiram agora ao momento de glória que lhes é trazido pelo facto de os novos dirigentes da RTP terem passado o programa para a RTP1, às 21.00 horas de sexta-feira. Pega directamente no telejornal, precede o concurso diário. Continuam as graçolas brejeiras de mau gosto. Os palavrões disfarçados. As ordinarices mais rascas. Reina o machismo mais soez que se pode imaginar. Muita gente é filmada deliberadamente para parecer “feia, porca e má”.
Poderia pensar-se que o programa faz parte da nova “grelha” da RTP, da sua estratégia e das suas novas concepções que preconizam uma televisão popular e divertida, em poucas palavras, uma “televisão para todos”, um “verdadeiro serviço público”. O que resulta é, além de paradoxal, confrangedor. Não apenas intelectualmente, mas sobretudo social e moralmente. É uma hora de autêntico desprezo social pelos aldeões, pelos provincianos, pelos pobres, pelos gordos, pelos mais velhos, pelos ignorantes e pelos analfabetos. Que, aliás, se oferecem em espectáculo de escárnio. É uma espécie de “racismo social”: coitados, tão estúpidos, mas praticam futebol! São tão puros! Tão autênticos!
«Retrato da Semana» - «Público» de 11 Mai 08

Etiquetas:

COMO HABITUALMENTE, será premiado (com um livro infanto-juvenil, dado que o problema é fácil) o primeiro leitor que apresentar a resolução deste 'enigma' mas - atenção! - só a partir das 10h30m do dia 12 de Maio. A resolução deverá ser apresentada sob a forma algébrica; nada de respostas por tentativas nem justificações a posteriori!
Actualização: Helena deu a resposta certa e nos termos exigidos. Pede-se-lhe, pois, que nas próximas 48h escreva para sorumbatico@iol.pt indicando morada para envio do prémio.

Etiquetas: ,

A paciência e a prosa

Por Nuno Brederode Santos
AGORA SOZINHO EM CASA, tenho o mundo a meus pés. E sei bem quanto este poder absoluto é capaz de corromper: em regra, ele induz uma enorme sonolência, que me embrulha nesse imenso durante que é o interim do berço à cova. Hoje, como tantas vezes, é o caso. Eu bem queria escapar ao que os media consagram, mas o seu cerco é um abraço de jibóia: para escrever, não posso sair, e, não saindo, sou escravo deles.
É isso que me envolve, muito mais do que seria desejável, nos problemas da direita portuguesa - um cosmos de filigrana que enche e conforta o imaginário de Agostinho Branquinho ou Rui Gomes da Silva (hoje afinal divididos, vá-se lá saber porquê). Desde há meses que as tragédias íntimas do PSD quase monopolizam a negregada agenda mediática, no que eles devem considerar um pendor intolerável. Não há pessoa, nem facto, nem ideia, que consiga disputar-lhe o palco do nosso quotidiano. Na versão casmurra, que provavelmente eu sou, do senso comum, a coisa não tem sido bom negócio para eles: o País sensível eriça-se e enregela perante a superprodução de um filme-catástrofe que nos assola do pequeno-almoço até à ceia.
Eu nem queria interferir. Há por aí muitos conservadores de boa cepa, sólidos e bem-humorados. E democratas-cristãos da melhor raiz da Europa do pós-guerra. E neoliberais que sabem comer como por cá aprenderam, com garfo e faca em simultâneo. Nem precisamos de os procurar, na imprensa ou na blogosfera - basta a vida social comum. Não deixo morrer a esperança de que esses ponham tino e ordem na bagunça. Contento-me com observar de fora o desenrolar da coisa. Por ora, tudo se vai decidir entre aqueles que querem jogar o jogo do regime na observância das regras que o regulam e os que querem ganhar o jogo do regime na ideia de lhe fixarem depois as regras. Entre a política que se faz na urna de voto, no hemiciclo do Parlamento e na intervenção de cada cidadão no dia-a-dia e aquela que se resolve e esgota nas varandas de Perón e na manipulação da multidão contra a consciência individual do cidadão. Querem direita? É escolher entre Merkel e Junkers ou Sarkozy e Berlusconi.
Não me ocupo da ambiguidade que de há muito o PSD traz consigo. Importa é que ele mesmo esteja decidido a escolher. E aí não há neutralidade, porque a escolha deles é importante para o sistema em que vivemos. A desistência de Menezes e a inconsistência do sonho nacional de Jardim parecem reduzir o segundo pólo a Santana Lopes. Santana gosta de si, o que nem é criticável, porque está nos limites de legítima defesa de alguém que até é socialmente afável. É um pintainho amarelo, com a amargura de não ser o Kalimero. Quer-se causa, início e fim. Quando pisca os olhos, afirma e crê que houve um apagão universal. E é um homem com pressa. Por natureza, mais do que filosofia. Pensa que, por longa que seja a vida, sem pressa ninguém tem tempo. E não cura de saber do tempo que a pressa esbanja. Por isso, não escolhe as oportunidades, aceita-as (quando não as inventa) conforme o acaso as traz. Quer voltar, no flamejante kitsch de uma cerimónia de Óscares, como vítima de gente que afastou e de Jorge Sampaio (que até deixou de contar nesse episódio, logo que o eleitorado tão avassaladoramente lhe subscreveu a decisão).
Mas Santana é o pai da prole que o partido hoje é. Do grupo parlamentar e, senão dos autarcas, pelo menos do método que os fez nascer. E é isso que os seus apoiantes querem, acima de tudo, defender. Mas é isso também que move contra ele muitos mais (infelizmente divididos entre duas candidaturas). Porque é isso que, acima de tudo, eles pretendem resolver. Um propósito sem grandeza? Essa agora! A astronomia visa o alto mas muito dela resolve-se no chão. Aqui mesmo, entre os nossos pés. Temos muito tempo para sair à liça a confrontar Passos Coelho com o realismo do seu cardápio neoliberal e o que pensamos do seu futuro. Ou a sacrificada Manuela Ferreira Leite com o seu pragmatismo tecnocrático e o que pensamos do seu passado. Porque, nessa altura, já só estará em causa o normal, sereno e, contudo, entusiasmante contencioso das ideias.
«DN» de 11 Mai 08

Etiquetas:

10.5.08

Do Arquivo Humor Antigo - Ano de 1934 - 30

O Insucesso

Por João Paulo Guerra
Uma organização não governamental britânica descobriu que Portugal tem uma democracia das de pior qualidade da Europa.
DÁ PARA ACREDITAR. Pelos termos da avaliação, em Portugal regista-se quase nulos empenho e participação popular na solução democrática dos problemas. Sem dúvida e não será apenas em função do maior ou menor autoritarismo do poder: é porque os portugueses foram educados, primeiro no temor da política e na reverência em relação ao poder, depois no culto do sucesso individual e no espírito de competição desenfreada. E assim, em Portugal, democracia é cada um ultrapassar e embasbacar o parceiro, endividar-se, ter um automóvel em estado novo que o leve a passear ao centro comercial mais próximo enquanto o mundo e o país agonizam em termos ambientais, se vergam à ditadura da finança e enfrentam agora até mesmo a ameaça da fome.
Nem sequer para os aspectos formais da democracia os portugueses estão particularmente motivados. Votar de quatro em quatro anos tornou-se uma cerimónia sem grande eficácia num quadro político de alterne entre dois partidos sensivelmente iguais. Houve tempo em que se admitia que o PS poderia ser muito semelhante ao PSD mas mais sensível e actuante quanto aos aspectos sociais. Mas isso era o PS da idade do Ferro. De maneira que votar é para um crescente número de portugueses uma maneira de escolher quem vai repartir o bolo, sendo que ao eleitorado só chegam as migalhas.
Pelos padrões da organização britânica, boas mesmo são as democracias nórdicas de países que praticam o protestantismo. Quem manda aos portugueses nascerem no sul, num país beato, depois de séculos de Inquisição, décadas de Salazarismo e lustres de “democracia de sucesso”?
«DE» de 6 Maio 08 - c.a.a.
-
NOTA (CMR): João Paulo Guerra é um dos vários autores convidados deste blogue que autorizam a transcrição dos seus textos - as iniciais "c.a.a." significam "com autorização do autor". Esta crónica estava para não ser afixada mas, no seguimento do post anterior, acaba por vir a propósito: quando JPG escreve «...em Portugal regista-se quase nulos empenho e participação popular na solução democrática dos problemas», só dá vontade de comentar (como a prima do Solnado): «Pois...».

Etiquetas:

8 de Maio de 2008
«Quando, já há bastante tempo, apareceram na imprensa fotos semelhantes a estas (acompanhadas dos correspondentes protestos), pensei - ingenuamente - que alguém, responsável, se envergonharia e trataria do assunto. Nada disso! E como, no que toca a reparar esta desgraça, aqui ninguém mexe, a situação piora de dia para dia. Não me esquecei disso quando, daqui a uns meses, vierem pedir o meu o voto...» - Comentário de um munícipe de (...) que há muito perdeu as ilusões.
*
Será enviado um exemplar do livro «Aqui ninguém mexe» (de Christian Neels, Ed. da Temas e Debates) ao primeiro leitor que fizer uma de duas coisas:
Ou identificar o local onde estas fotografias foram tiradas ou comentar o que elas testemunham recorrendo a - no máximo - 10 palavras.
Na segunda opção, expressões como 'pouca-vergonha', 'má-fé', 'tropa-fandanga' etc. contam como uma só palavra; mas 'súcia-de-incompetentes' conta como três.
Actualização-1: a resposta certa foi dada às 16h36m.
Actualização-2: o passatempo continua, com um prémio adicional a atribuir ao primeiro leitor que, a partir das 17h30m, comentar as imagens nos moldes atrás indicados; ou seja: recorrendo a um máximo de 10 palavras. Tendo em conta que se trata de uma zona que, suponho, está ao cuidado do vereador José Sá Fernandes, o prémio será um exemplar do livro «O Fado de José», de Chantal Crétois - embora, na realidade, o que está em causa seja o fado dos munícipes...
Actualização-3: com o comentário das 18h54m terminou a 2ª e última parte do passatempo.

Etiquetas: ,

9.5.08

Do Arquivo Humor Antigo - Ano de 1934 - 29

Carta é antiga e o Portugal é o de sempre

Por Ferreira Fernandes
ALMEIDA RODRIGUES, polícia, é o novo patrão da PJ. Por isso, Baltasar Pinto, o n.º 2, demitiu-se: "Sou procurador-geral adjunto com dez anos de cargo e por uma questão de estatuto não podia ficar."
Um procurador sob um simples polícia? Que horror, o estatuto arrepela-se todo! Portugal foi sempre assim, de castas, com raros a oporem-se.
Um dia, o duque do Cadaval (procuradoríssimo-geral, pois era o corregedor-mor) tratou por tu o polícia Pina Manique (simples corregedor). Pina Manique escreveu ao duque, dizendo que se ele o tratou assim por ser de nascimento humilde, então, "caguei para mim que nada valho." Mas, prosseguiu Pina Manique, se foi por causa do cargo menor que ocupava, então, "caguei para o cargo."
E, rematou Pina Manique, caso não fosse uma ou outra razão, que o duque lhe dissesse, pois ele queria saber "se devo ou não cagar para V. Ex.ª".
Com gosto emprestarei a carta ao polícia que manda hoje na PJ, para ele a enviar a quem de direito.
«DN» de 9 Mai 08 - c.a.a.; imagem de Pina Manique obtida [aqui]

Etiquetas:

Os agás mudos são uma gaita

VIA-SE, PERFEITAMENTE, que estava a pensar enquanto esmagava meticulosamente a ponta do cigarro no cinzeiro apinhado de beatas e cinza solta. Depois, com vagar, levantou para mim os olhos míopes e, sentencioso, disse, definitivo:
- Os agás mudos são uma gaita!
Agradeci e saí, acabrunhado, depois de ouvir a sentença a que recorrera, como mulher atraiçoada que recorre a quiromante estabelecida. Tinha-me recordado de procurar este amigo, velho revisor solitário e silencioso de letra de imprensa, classe que muito prezo e respeito, depois da minha última crónica. Durante anos conhecera-o num jornal em que trabalhei, lendo prosa avulsa de dezenas de homens e mulheres, entre a qual muita por mim produzida, e sempre mantivéramos, no decorrer dos tempos, vigorosas e interessantes discussões sobre sintaxe e semântica. Depois de me reler em letra de forma, quedei suspeitoso e intrigado, concluindo que algo de estranho se abatera sobre o que escrevo nestas crónicas, nas últimas semanas, a ponto de me sentir vítima de maldição faraónica.
Reli, uma vez mais, o que escrevera e, de reflexão em reflexão, envergonhado, confirmei a presença sistemática, ostensiva, mesmo ofensiva, de todos aqueles agás. Geralmente, agás fora de onde devem estar não fazem mal, porque são mudos e nunca aspirados na língua portuguesa, e desde que não combinados com outras consoantes que os costumam acompanhar são facilmente atribuíveis a erros tipográficos e o leitor não se preocupa com eles. Quando o leitor dá por eles diz. «Olha um agá mal acompanhado.» E, nas letras como em tudo, as companhias têm muita influência. Mas aqueles agás eram decididamente contra mim, porque deixariam seguramente no espírito de qualquer leitor a ideia de que entre mim e a gramática existe um conflito insanável, o que, em boa verdade, não corresponde aos factos, tanto quanto me é dado julgar.
Quero eu dizer, para me explicar melhor: todos aqueles agás se tinham ardilosamente perfilado atrás da vogal «O» da palavra «ouve», que correspondia naquele caso ao imperativo do verbo que traduz o acto de sentir as vibrações do tímpano captadas pelo ouvido externo, e que descodifica os sons em vocabulário para ser lido pelo cérebro.
Como se compreende, o resultado foi o mais grosseiro que se pode imaginar - a percepção auditiva ficou confundida com o pretérito perfeito do acto de ter ou do facto de existir, o que, além de confundir o leitor, atribui inadmissível ignorância ao autor.
E as suspeitas sobre a intenção criminosa ou da rogação de uma praga avolumaram-se quando, tudo bem conferido, não havia dúvida de que um único daqueles extemporâneos agás não estivesse perfilado atrás daquela mesma palavra com a qual se pretendia representar um vício de linguagem de um personagem ali caricaturado através desse próprio tique de oralidade.
Tirei de cuidados e fui ver um amigo que tenho na Judiciária, na esperança de que me poderia ajudar a deslindar o mistério. Desenganou-me: colegas que percebessem de letras só os que lidavam com cheques carecas e letras protestadas e eu agradeci e saí melancólico, por entre máquinas de escrever e cabo-verdianos a serem ouvidos em auto que eram traduções literais do crioulo para português-de-às-folhas-tantas. Mesmo assim, recomendou-me que arranjasse um detective particular.
Fiquei cá fora, encostado a um balcão, saboreando uma cerveja à pressão e matutando em tudo isto. Detective particular para língua só um linguista e não me ocorreu de repente nenhum que desse explicações. Foi por isso que recorri ao velho revisor, já reformado, mas um sólido investigador apoiado numa experiente brigada de prontuários.
E como bom polícia da língua, que passou a vida a meter as letras no seu sítio, perguntou-me:
- E o móbil? Quem ganha com este crime?
- Quem quiser desacreditar o autor - respondi-lhe.
- Homem, não tens acordo que te valha.
Foi este desabafo que me lançou uma pista. Precipitei-me para a dominical página das crónicas e reli com atenção redobrada o meu companheiro lisboeta. E logo, nas suas primeiras linhas, lá estava, despudorada, a palavra «excrever», que como sabe se soletra «escrever».
Também ele era atingido por esta maldição do erro tipográfico, que só atinge oficiais deste ofício, sem prejuízo para qualquer explorador de arcas perdidas.
E então o mistério ficou deslindado.
Semanas atrás, o meu amigo Bastos lançou o mais belo e lancinante apelo a favor da língua portuguesa, desde que pharmácia passou a farmácia, ao escrever contra o malfadado acordo «não me tirem, o p de Baptista». Com esta mania da solidariedade e de alinhar com os velhos amigos, logo eu, pumba, noutro periódico, me atirei como gato ao bofe ao linguicídio anunciado.
É a nossa perdição. Daqui para a frente só nos espera o morticínio. Expliquei tudo isto ao meu amigo revisor. Disse que sim com a cabeça, fumando em silêncio, para concluir, subitamente:
- Já assisti a muitos casos como este.
Explicou-me, então, que a maldição dos burocratas da língua só é igual às maldições de todos os outros burocratas. Num caso como noutros, são eles, burocratas, quem se encarrega de nos pôr pimenta na língua.
- Então, eu... – tartamudeei.
- Tu estás lixado. Os agás mudos são uma gaita.
Lisboa, 1987
-
NOTA (CMR) - Esta crónica vem no seguimento de uma outra, já aqui afixada, intitulada «O caçador de cabeças».

Etiquetas:

8.5.08

O SEMPRE ATENTO Luís Bonito propõe aos leitores do Sorumbático o seguinte problema:
Vamos supor que a Terra é uma esfera perfeita e que colocamos um fio a toda a volta do Equador, sem deixar folga. Em seguida, imagine-se esse fio acrescentado de um metro, e novamente colocado à latitude 0º, mas distribuindo a folga uniformemente, a toda a volta. Pergunta-se: de entre os animais que adiante se indicam, quais conseguiriam passar por baixo do fio, sem lhe tocar - uma formiga, um rato, um elefante?
A resposta, a afixar em comentário (mas apenas a partir das 12h00m de 9 de Maio) deverá ser acompanhada de uma justificação matemática, mas sem recurso ao valor do perímetro do equador terrestre (que, por sinal, é cerca de 40.075 km) - até porque, como se verá, a resposta é independente do planeta considerado. Dado que o problema é muito simples, o prémio (a atribuir ao primeiro leitor que der a resposta certa) será o livro infanto-juvenil cuja capa aqui se vê - e que foi escolhido devido a uma associação de ideias: é que a linha do Equador atravessa o estuário do Amazonas.
Actualização: o passatempo foi ganho por Luís Bonifácio, a quem o prémio já foi enviado.

Etiquetas: ,

Terra de cegos

Por Joaquim Letria
DISSERAM-ME QUE O BASTONÁRIO da Ordem dos Médicos anda tão contrariado por os portugueses serem operados em Cuba que disse que era propaganda política. O cavalheiro, ainda por cima, é oftalmologista, embora nunca o ouvíssemos falar dos portugueses não serem operados. Cuba é que o preocupou.
Os portugueses sempre tiveram de procurar oftalmologistas competentes. Sempre foi assim. Os que podiam menos, iam mais perto: a Santarém, ao Dr. Puga. Os de mais posses, fugiam a sete pés de Portugal e iam para Barcelona.
Foi sempre assim. O resto encomendava-se ao Senhor e entregava-se aos cuidados do Instituto Câmara Pestana. Mais recentemente, iam tratar-se a bordo dum navio russo que acostava no Algarve. O senhor bastonário sabe isto tudo melhor do que nós.
Isto foi sempre um povo a quem não deixaram nunca abrir muito os olhos. Mas outra coisa o senhor bastonário também já devia saber: nos nossos dias, em terra de cegos, quem tem olho já não é rei…
«24 horas» de 6 Mai o8

Etiquetas:

DADO QUE O TEMA "significado das palavras" parece ser caro a grande parte dos leitores, propõe-se um passatempo-relâmpago relacionado com este título de uma notícia que, pelos vistos, já é feita com copy/paste de uns anos para os outros.
A cada um dos três primeiros leitores que comentem o que em cima se lê recorrendo a uma única palavra, será enviada uma pequena brochura de palavras-cruzadas. Trata-se de um prémio meramente simbólico, é claro...
Actualização: os livritos foram ganhos por Renato B., Fátima André e R. da Cunha e já lhes foram enviados.

Etiquetas: ,

O salário, a felicidade e o futuro…

Por C. Barroco Esperança
OS PORTUGUESES com a mentalidade de novos-ricos, que em duas décadas viram duplicar o salário médio (desde 1986 a 2004 passou de 360 euros por mês para 730), não se preocupam com o agravamento das desigualdades sociais, apenas lhes importa a fatia de que podem apropriar-se.
Ninguém pensa retribuir o que recebeu com o ensino e assistência médica gratuitos, um subsídio colectivo para benefício individual.
Os sindicatos perdem força, com óbvio prejuízo para os trabalhadores, e parecem mais interessados em proteger os que se encontram nos níveis mais elevados de remuneração, alheados do fosso salarial entre trabalhadores e entre estes e a legião de desempregados, do que em lutar pelos mais fracos.
Quem se interessa apenas consigo acaba por encontrar quem venha a interessar-se por si. Os excluídos não tardarão a reagir às obscenas diferenças remuneratórias que os separam dos que, na maior parte dos casos, não têm maior preparação académica ou técnica, nem maior capacidade de trabalho.
Os mesmos para quem a necessidade de equilibrar as contas públicas não passa de uma obsessão burguesa, numa espécie de defesa dos caloteiros, talvez se arrependam da sua própria insensatez se acaso ainda viverem para pagar os juros.
O barril de petróleo atinge diariamente novos máximos e não se dispensa o automóvel, nem que o autocarro pare à porta. Os alimentos, transformados em combustíveis, entram em alta, rarefazem-se e ameaçam a sobrevivência de milhões de pessoas.
Ao ritmo a que crescem os problemas não tardará que, mesmo os mais néscios, acordem do torpor em que se acham, uns para renunciarem ao que lhes sobra, outros a exigirem o que lhes faz falta, todos à procura da sobrevivência.
Poucos se dão conta do valor inestimável da água, do ar, dos alimentos e da energia. Por enquanto só os pobres.
Em breve os órgãos de comunicação social, que têm ignorado o drama da falta de água com que se debate Barcelona, aqui no país vizinho, irão assustar-nos com os níveis das albufeiras, a discussão sobre os riscos ecológicos dos transvazes e a gigantesca rede de transportes para abastecer cinco milhões de pessoas sequiosas da grande metrópole.
Então, todos nos daremos conta de que não vivemos sós e de que a solidariedade não é uma virtude, é apenas um acto de bom senso para defendermos a própria sobrevivência.

Etiquetas:

Luz - III

Fotografias de António Barreto

Clicar na imagem para a ampliar
Colombo. Eis a nova catedral. A do consumo. Com deuses pagãos, Neptuno ao centro, ladeado de golfinhos, os novos anjos. As pessoas deslocam-se em todas as direcções, para os lados, para cima, para baixo. Querem comprar. (2006).

Etiquetas:

7.5.08

NO SEGUIMENTO do anunciado no post anterior (e tendo-se verificado a condição lá referida), o Sorumbático oferecerá um exemplar deste livro ao primeiro leitor que, a partir das 10h00m de quinta-feira, dia 8 de Maio, afixar aqui um comentário onde conste a expressão «naturalizar o insucesso» - mas num momento tal que o conjunto hora/minuto dê noves-fora-nada (como, p. ex., 10h08m).
NOTA: Como é possível que seja necessário fazer algumas tentativas, cada leitor poderá concorrer quantas vezes quiser (podendo fazê-lo com o mesmo texto, se assim o entender).
Actualização: o passatempo terminou com a afixação do comentário de Luís Bonito, às 10h35m, que satisfaz as duas condições exigidas.

Etiquetas: ,

SE BEM PERCEBO o que leio nesta notícia, o senhor secretário de Estado-adjunto da Educação usa o verbo naturalizar com o sentido de tornar natural (normal, banal, corriqueiro, - e portanto compreensível, aceitável).
Se dois ou mais leitores me acompanharem na perplexidade, proporei um passatempo cujo prémio será um exemplar do livro «Gente famosa continua a dar pontapés na gramática», de Lauro Portugal. Caso contrário, façam de conta que já aqui não está quem falou.
Actualização (23h30m): ver post seguinte.

Etiquetas:

POR SUGESTÃO DO AUTOR, a editora Occidentalis oferece um exemplar da presente obra ao primeiro leitor que, em comentário, complete a seguinte frase com os nomes das duas cidades indicadas com "(...)":
«No sábado, 10 de Maio de 2008, e no domingo, 11, Antunes Ferreira estará nas Bertrand dos Dolce Vita de (...) e do (...) para apresentação da obra e sessões de autógrafos».
Actualização (17h54m): a resposta certa foi dada por Afonso Reis Cabral, a quem o livro já foi enviado.

Etiquetas: , ,

Náusea

Por Helena Matos
ATÉ AO APARECIMENTO de Josef Fritzl a questão nunca se me colocara. Não, não me estou a referir ao cativeiro em que manteve a filha – um acontecimento tão hediondo quanto imprevisível – mas sim ao facto de os crimes de natureza sexual com elevadas taxas de reincidência serem apagados definitivamente do registo criminal. Acreditava eu, e creio que muitos milhões de outros portugueses, que esse apagamento não era total. Vivia portanto na ilusão que sendo um adquirido civilizacional que o registo criminal não pode infamar pela vida fora quem cumpriu a sua pena isso implicaria que seriam salvaguardadas algumas situações futuras, por exemplo a possibilidade de alguém que foi condenado por violação dum menor pretender candidatar-se a ser pai adoptivo. Acabei de perceber que não é assim. Mas voltemos ao princípio.
Quando o mundo monstruoso do senhor Fritzl se abriu diante dos nossos olhos percebeu-se que este homem, apesar de ter sido condenado por violação, pudera adoptar os netos – ou melhor dizendo os filhos-netos – pela simples e prosaica razão de que a legislação austríaca prevê que os delitos sexuais sejam apagados do registo criminal quinze anos no máximo após o cumprimento da pena e assim, de cadastro limpo, se apresentou Josef Fritzl diante da segurança social que lhe atribuiu a tutela dos netos.
E em Portugal como se procede nesta matéria? Alguém que tenha sido condenado por violação ou abuso sexual dum menor poderá adoptar uma criança? A minha ronda de perguntas começou no fim da passada semana. Aqueles que, como eu, não estudaram Direito, respondiam-me: “Não é possível! Tu estás doida”. Enfim, eu ia argumentando que também me parecia não ser possível mas que na Áustria era e que, neste domínio, o que nós temos como razoável está longe de ser assim considerado pelos especialistas. Como esquecer, por exemplo, que, no ano passado, em França, a investigação à violação e assassínio dum menino de cinco anos levou a que se constatasse que um psiquiatra dos serviços prisionais receitara Viagra ao autor do crime? Este era um violador reincidente que, pouco tempo antes deste sair da prisão, comunicou ao médico em questão que tinha problemas de erecção.
Contudo e apesar de tudo, ainda foi com cepticismo que parti para a leitura do decreto 57/98 que trata do registo criminal. Este estabelece que são canceladas do registo criminal «as decisões que tenham aplicado pena principal ou medida de segurança, decorridos 5, 7 ou 10 anos sobre a extinção da pena ou medida de segurança, se a sua duração tiver sido inferior a 5 anos, entre 5 e 8 anos, ou superior a 8 anos, respectivamente, e desde que, entretanto, não tenha ocorrido nova condenação por crime;»
Tendo em conta as subtilezas deste tipo de linguagem pedi ajuda a quem de Direito ou seja a quem o estudou. Rapidamente me diziam que só podiam responder sim às seguintes perguntas: Pode concluir-se que os violadores ou pedófilos que tenham cumprido penas inferiores a 5 ou 8 anos ficam com o cadastro limpo entre 5 a dez anos depois do cumprimento da pena? E caso isto aconteça esse apagamento do registo criminal é total e irreversível? Por exemplo, caso pretendam adoptar uma criança ou trabalhar numa escola quinze anos depois esses dados já não constam do registo criminal desde que, entretanto, não tenha ocorrido nova condenação por crime?
Mesmo assim tive dificuldade em acreditar que isto fosse possível. Repetia para mim mesma que, pelo menos nos casos de adopção, certamente que existia a possibilidade de a segurança social ter acesso a uma informação diferenciada daquela que se presta, por exemplo, para tirar licença de caça. E assim resolvi contactar a Procuradoria Geral da República. A resposta chegou rápida e concisa: «Pode, de facto, dizer-se que decorridos os prazos de 5/7/10 anos sobre a extinção da pena, a condenação deixa de constar no registo criminal, não sendo passível de conhecimento para qualquer efeito. O cancelamento é definitivo (salvo se houver, entretanto, outra condenação). O regime do artigo 15.º da Lei 57/98 tem natureza genérica, não sendo excluídos quaisquer tipos de crime (nem outro regime especial existe para crimes como os referidos na questão).» Os crimes referidos na questão que coloquei à PGR eram concretamente a violação e a pedofilia. Finalmente dou-me por vencida: violadores e abusadores podem adoptar crianças em Portugal. É nestes dias que entendo melhor o significado da palavra náusea.
«Público» de 6 Mai 08 - c.a.a.

Etiquetas:

Etiquetas:

A endireita o sítio

Por Baptista-Bastos
TUDO PARECE INDICAR que a dr.ª Manuela Ferreira Leite será a próxima dirigente máxima do PSD. Mas, também, que não conseguirá apaziguar a gataria infrene, representativa de interesses e favores, que se acolheu no partido, e à qual a respeitável senhora designa, piedosamente, de "interclasses". A candidata, com incansável melancolia, declarou que nesse molde formara Sá Carneiro o então PPD. A caução será conveniente, mas a história não é bem essa. A agremiação procede de um almofariz onde se misturaram um vago antifascismo de retiro, um republicanismo de tertúlia, o velho liberalismo do Norte e um diligente sortido de padres. Podíamos revolver céu e terra que nunca descobriríamos o mais leve resquício de ideologia no PPD, uma lacónica doutrina social, a não ser vagas noções de defesa dos desafortunados e a alegação de uma liberdade cautelar.
Sá Carneiro cedo percebeu a avaria. O partido não era socialista, não era social-democrata, não era demo-cristão. A Internacional Socialista recusou a sua inclusão, mas foi esfuziantemente recebido no Partido Popular Europeu, da sagrada família das direitas. Às páginas tantas, cansado de enfrentar a intriga permanente e de tentar acalmar a avidez dos "barões", de que fora progenitor, Sá Carneiro bateu com a porta. Pretendia voltar e "regenerar" a coisa, tornando-a, pelo menos, consistente. É a partir daí, e adicionando-se o facto de ter morrido jovem, que o seu discurso foi transformado em dogma e a sua figura em idolatria. Mas era um homem tenaz, de temperamento autoritário, convencido de que a História esperava dele gloriosos feitos. Conheci-o razoavelmente e apreciava-lhe a forma, o impulso inteligente e a curiosidade activa. Estou em crer que o encontro com Snu Abecasis foi decisivo no seu desenvolvimento intelectual e político. "Abriu-lhe o coração e revelou-lhe o mundo", disse Natália Correia.
Reconhecera que, não existindo ideologicamente, o PSD era uma imponderabilidade. Temos assistido, ao longo dos anos, à funesta decadência do partido, vogando no incerto oceano das contingências. Manuela Ferreira Leite, ex-ministra da Educação e das Finanças, cujos méritos são muito discutíveis, aparece como a "endireita o sítio". Em termos políticos é uma ficção. Os que a apoiam, sem compreender que o mundo mudou, somente auspiciam que a senhora consiga juntar os cacos. Para quê? O PSD move-se numa insuficiência de realidade e existe nos limites do dizível: é um partido desamparado e sem emenda.
NO MOMENTO: Marcelo Rebelo de Sousa insiste em dizer "há meses atrás" e "precaridade" em vez de precariedade, associando-se a outros políticos, jornalistas e pivôs, que mantêm o mesmo espinoteante tolejo e acrescentam-lhe "competividade" em vez de competitividade.
«DN» de 7 Mai 08

Etiquetas:

6.5.08

NO SEGUIMENTO do que se diz no post anterior, será enviado um exemplar do livro «A Matemática das Coisas» (oferta da Gradiva) ao primeiro leitor que, em comentário, apresentar a solução deste facílimo problema, mas - atenção! - respeitando o seguinte:
A resposta deverá incluir a respectiva justificação algébrica e só poderá ser dada a partir das 10h00m de 7 de Maio, quarta-feira. A hora a considerar será a que o Blogger atribuir. Uma resposta que, eventualmente, seja afixada às 10h00m já será válida.
*
Actualização: houve vários leitores a afixar a resposta certa, sendo Luís Bonito o primeiro deles e, portanto, o vencedor do passatempo. Obrigado a todos!

Etiquetas: ,

DEPOIS DE TER LIDO, numa noite (e 'de um fôlego', como sói dizer-se) , mais este saboroso livro do Nuno Crato, não resisti a 'anunciá-lo' aqui, pois bem merece a divulgação.
Contactei também a Gradiva, que se disponibilizou para oferecer um exemplar a um leitor do Sorumbático segundo o critério que melhor entendêssemos - o que está mesmo a pedir um passatempo em torno de um problema de matemática simples, a afixar muito em breve.
Entretanto, aqui fica o prefácio da obra:
*
«Quando digo que sou matemático, as pessoas brincam comigo e perguntam-me se as posso ajudar a manter a conta bancária equilibrada; quando digo que me engano muito nas contas, pensam que devo ser um matemático medíocre».
Quem assim se queixava era Paul Halmos, mas a frase pode ser atribuída a muitos outros matemáticos, pois quase todos os que se dedicam a esta actividade se lamentam das incompreensões do público. Na realidade, há muita gente que não sabe o que fazem os matemáticos.
A matemática, no entanto, atravessa o nosso dia-a-dia. O século XX não teria sido, como foi, o século mais revolucionário da história da ciência sem os extraordinários desenvolvimentos obtidos na matemática. Os computadores não teriam sido possíveis sem a lógica binária, a teoria dos grupos e o conceito matemático de informação. Os nossos telefones não funcionariam se não tivessem existido o estudo estatístico de sinais e os algoritmos de digitalização e compressão de dados. Os semáforos automáticos não seriam eficazes sem os desenvolvimentos de uma área da matemática aplicada designada por investigação operacional.
No entanto, ao mesmo tempo que se torna cada vez mais decisiva para as nossas vidas, a matemática é considerada, por vezes, uma ciência hermética e tecnicista, em que poucos se aventuram. E a ignorância de alguma gente culta na história da matemática e nos conceitos da matemática moderna é surpreendente. Se pedirmos a um intelectual que nos diga dois ou três nomes decisivos da filosofia do século XX, poucos haverá que não dêem uma resposta imediata.
Se pedirmos a pessoas minimamente cultas que designem dois ou três grandes compositores do nosso século, poucas hesitarão, tal como poucas terão dificuldade em nomear meia dúzia de correntes artísticas modernas, do cubismo ao minimalismo. Façamos a mesma pergunta, mas referindo-nos a temas matemáticos. Pouca gente saberá quem foi Hilbert e o que foi a escola formalista, ou a importância que Kolmogorov e von Neumann tiveram no estudo das probabilidades.
Neste livro contam-se histórias matemáticas. Há poucas fórmulas, muitos exemplos e muitas aplicações. A matemática é uma ciência fascinante, fundamental para a nossa história e omnipresente no nosso dia-a-dia. As obras de Picasso e as transacções bancárias via Internet, o número das portas das casas e o papel A4, os mapas modernos e a derrota de Hitler só foram possíveis graças a ela. As suas aplicações aparecem onde menos se suspeita. As histórias matemáticas são histórias de sucesso.
Nuno Crato

Etiquetas:

«Acontece...» - Passatempo com prémio

Por Carlos Pinto Coelho

Famosa obra em talha na sacristia de um dos mais importantes monumentos de Portugal.
Pergunta-se: de que monumento se trata?
NOTA: esta fotografia, como todas as outras aqui afixadas em posts com o título genérico «Acontece...», é da autoria de CPC.
Actualização: o passatempo foi ganho por Ferreira, a quem já foi enviado o livro que, entretanto, escolheu.

Etiquetas: ,

Matemática sem laranjas

Por Nuno Crato

AS NOTÍCIAS QUE NOS CHEGAM dos estudos científicos sobre a educação têm vindo a contradizer muitos lugares comuns, incluindo muitos ainda hoje disseminados, paradoxalmente, em nome dos «estudos de educação». Sobrevaloriza-se, por exemplo, a importância dos exemplos concretos na aprendizagem da matemática. Afirma-se que é preciso começar com exemplos de laranjas ou pizas, que tudo deve partir de situações concretas, que a abstracção só deve vir depois, e apenas de forma natural e não imposta.
Estas ideias encontram algum eco, naturalmente. Muitos pais e professores estão preocupados com o ensino. Reconhecem nos jovens dificuldade em apreender conceitos matemáticos. Vêem que muitos são capazes de resolver alguns problemas de papel e lápis, mas têm dificuldade em aplicar os seus conhecimentos em situações concretas — parece que se esquecem do que aprenderam. Não fazem pois aquilo que em psicologia cognitiva se chama «transferência».
Estas preocupações são legítimas, claro. Mas a corrente pedagógica construtivista têm acentuado estes problemas, que são reais, muitas vezes concluindo, erradamente, que todo o ensino deve ser feito em contexto.
Um importante estudo publicado na semana passada na «Science» (320, p. 454) fez uma comparação controlada da capacidade de transferência de conceitos algébricos em estudantes ensinados de três maneiras diferentes: apenas com exemplos concretos, com exemplos concretos e com estudo abstracto e apenas com estudo abstracto. Os estudantes que melhor foram capazes de aplicar os novos conhecimentos a novas situações concretas reais foram os últimos.
Surpreendente? Às vezes as laranjas fazem esquecer a matemática.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 3 Mai 08

Etiquetas:

5.5.08

Balanço de um debate público

Por A. M. Galopim de Carvalho
COMO DIRECTOR QUE FUI, durante vinte anos, do Museu Nacional de História Natural; como docente da Faculdade de Ciências de Lisboa, entre 1961 e 2001, tendo por local de trabalho as suas instalações, de onde nunca saí, nem na sequência do incêndio de 1978; e, sobretudo, como cidadão, cumpre-me tornar público o balanço que faço da situação levantada pelo concurso de ideias, visando a reorganização urbanística do conjunto Parque Mayer, Jardim Botânico, Edifícios da Politécnica e Área Envolvente, aberto pela Câmara Municipal, em estreita colaboração com a Universidade de Lisboa.
Concluídas as três sessões do debate público (7, 14 e 21 de Abril), decorridas no auditório Manuel Valadares, na Politécnica. Estas sessões, muito concorridas e participadas, e muitíssimo bem conduzidas, pelo Dr. Miguel Lobo Antunes, da Culturgest, e pelo arquitecto Manuel Salgado, vereador da CML permitiram um larga troca de ideias que, certamente, os projectistas vão tomar em consideração, na fase que se seguirá a esta, agora concluída. É de justiça felicitar a Câmara e a Universidade pelo facto de terem pretendido auscultar a opinião de todos os interessados, e foram muitos, que ali acorreram. Limitando-me aos espaços da Politécnica e do Jardim Botânico (o Parque Mayer tem quem fale por ele), constatei o grande protagonismo da autarquia, sempre representada, e bem, ao mais alto nível, em contraste com o notório apagamento da outra parte interessada no problema em debate, o que não deixou de me causar estranheza e algum desencanto.
No final dos debates o arquitecto Manuel Salgado, entre outras considerações fez saber que aguardava, até ao fim da semana, um documento da Universidade, no qual constarão as condições da sua anuência a este megaprojecto. Espero que os responsáveis, com poder de decisão neste processo, tenham em atenção as vozes que se fizeram ouvir neste debate, em especial, as dos que aqui viveram ou estão a viver o melhor das suas vidas profissionais.
23 de Abril de 2008 - Texto não publicado na CS, mas distribuído entre os trabalhadores dos Museus sedeados na Politécnica.

Etiquetas:

1934
TAL COMO O ÁLBUM «Tintim no Congo», este é o género de coisas que, hoje, ninguém publicaria sem pensar duas vezes - por serem consideradas politicamente incorrectas. No entanto, e precisamente pelo seu valor documental, aqui fica.
No blogue Humor Antigo encontram-se algumas outras, semelhantes, todas da primeira metade do século passado. São traduções de publicações estrangeiras, numa época em que histórias e anedotas de teor paternalista/racista eram aceites com naturalidade - pelo menos pelo público a que se destinavam.

4.5.08

A arte da irrelevância

Por António Barreto
“BOA NOITE, ZÉ”. Este “Zé” também pode ser Manuel, Clara, António, Ana, Júlio, Judite, Rodrigo ou Alberta... É a maneira como os “enviados” ou “correspondentes” dos serviços de informação das televisões entram “em directo” nos boletins noticiosos. Dirigem-se directamente ao locutor de serviço e esforçam-se por dar à notícia um ar simultaneamente familiar, informal e tenso. Qualquer dos canais serve de exemplo. Começou por ser uma moda, acabou por se transformar num padrão. Os canais de televisão amam os directos. Dá mais proximidade. É mais instantâneo. É mais genuíno. Desastre ou festa, conferência de imprensa ou surto de meningite, tempestade ou atentado terrorista: desde que possível, o enviado ou correspondente faz um directo. Quando calha, há mesmo diálogo com o “pivot” do telejornal. Frequentemente, segue-se (ou antecede) “uma peça” previamente gravada, sobre o mesmo assunto, pelo mesmo enviado, não sendo aliás certo que haja diferenças ou evolução entre “a peça” e “o directo”. No meio das notícias, em “directo real” ou “directo gravado”, aí vem o correspondente no Líbano, em Timor Leste ou na praia da Luz... Chegam a fazer-se “directos” para que o correspondente, depois de repetir o “Boa noite Zé”, afirme que “ainda” não se sabe o que aconteceu...
Os “directos” são, em geral, de má qualidade. Os melhores profissionais tentam fazer trabalho decente, mas a maioria traz o que tem ou lhe encomendam: emoções, sensação de ineditismo e a certeza de que “está em cima do acontecimento”. Mas, naturalmente, gaguejam, hesitam e exprimem-se mal. Pedem licença para interromper pessoas que estão a fazer o seu trabalho ou que fazem a sua vida e disparam perguntas. As respostas são, em maioria, irrelevantes, nada adiantam à notícia ou ao esclarecimento. Há alguns meses, quando a tensão ia alta com o caso da menina inglesa desaparecida, chegámos a ouvir uma “enviada” dizer, em directo pois claro, que nesse dia não tinha acontecido nada e que a “monotonia” só tinha sido quebrada por um grupo de “motards” que viera mostrar a sua solidariedade. Quase todos os dias vemos “directos” deste género: ainda não se sabem os resultados, as pessoas por quem se espera ainda não chegaram, o julgamento ainda não acabou ou o senhor que está a ser interrogado pela polícia ainda não saiu.
Muitos dos enviados tentam mostrar, pela transpiração, pelos trajes ou pelo ambiente em redor, que estão em situação escaldante: se forem ouvidos choros, gritos, tiros ou explosões, tanto melhor. Quando se trata de conferências de imprensa, em especial feitas por políticos, mas os gestores também começam a aprender, o “directo” marca as horas, as pessoas submetem-se aos ditames do “enviado” e da estação de televisão. Após algumas frases ditas pelo interessado, o “enviado” retoma o microfone e faz um resumo do que já se ouviu. Ouve-se este por cima do conferencista. Quem está na sala deve aliás ouvir os dois, quantas vezes o repórter mais alto do que o conferencista.
Os “casos dramáticos” e as “tragédias humanas” são os preferidos. Suicídio, crime passional, acidente de automóvel, rapto de criança, assalto a banco ou desastre natural são momentos excelentes para os “directos”. Mas um caso de tifo numa aldeia, uma intoxicação alimentar, mesmo benigna, numa escola ou um incêndio de pneus velhos num pardieiro também vêm a jeito. Os boletins de notícias tentam começar sempre por aí. Só depois surgem as notícias de interesse geral, os factos políticos, o desporto e, eventualmente, as notícias internacionais. Durante o boletim, quando é possível, a anteceder ou suceder ao espaço publicitário, entram novos casos humanos, aliás, prévia e repetidamente anunciados com tons de sensação. Como os serviços noticiosos duram uma hora na RTP e mais ainda nos outros canais, é necessário encher, “meter chouriços” como se diz no meio, entrevistar espontâneos, ouvir o povo e pôr emoções no ar. Todos nos lembramos do desastre de Castelo de Paiva que foi o momento crucial de fundação do novo estilo, que já rondava pelas televisões, mas que ainda não tinha o estatuto de pérola profissional. Foi nessa altura que vimos “enviados” a tentar fazer chorar parentes das vítimas ou simples testemunhas e quase agredi-los de microfone em riste. Esta última semana em que todos os canais comemoraram (é o caso de dizer...) o primeiro aniversário do desaparecimento da criança da praia da Luz, uma coincidência pôs logo em agitação as redacções: uma menina de Valpaços teria desaparecido em Matosinhos. As “brigadas” do “directo” apresentaram-se logo ao serviço. Para sua infelicidade, a menina apareceu pouco tempo depois. Foi uma frustração!
Os serviços de notícias dos três canais ditos “generalistas”, sem excepção, são cada vez mais divertimento e espectáculo e cada vez menos informação. Desapareceram os comentários inteligentes e informados. Foram-se os especialistas que podem ajudar a compreender. Acabou o recurso a documentação e arquivo que permita colocar os factos em contexto e percebê-los melhor. A explicação serena e fundamentada foi abolida. As notícias internacionais, quando há, foram resumidas a rumores e resumos incompreensíveis, a não ser que se trate de terrorismo, pedofilia ou grande desastre. As notícias deixaram de ter o tempo necessário de reflexão. Os jornalistas fazem cada vez menos a “edição” das “peças”, das imagens e das reportagens dos “enviados” e “metem os brutos”, isto é, põem no ar as sequências em bruto, tal como chegaram dos “enviados” ou das agências.
O “directo” é o maior incentivo à preguiça que se conhece. Dispensa trabalho e reflexão. Não precisa de inteligência ou estudo. É o que existe de melhor como veículo de emoções, até de histerismo. É finalmente o factor de mutação da notícia em espectáculo. É a autorização para não pensar nem investigar. É a troca deliberada, feita pelos editores e pelos jornalistas, de reflexão, do estudo, da investigação e da edição, todo este trabalho que deveriam ser os pergaminhos do jornalismo, pela aparência do imediato, do espectáculo, da concorrência entre canais e do despacho. É o reino das emoções em directo, o contrário mesmo do que deveria ser o bom jornalismo. O “directo” não é a causa primeira, mas é o instrumento de degradação da televisão. É, sobretudo, a destruição da informação e da inteligência.
«Retrato da Semana» - «Público» de 4 Mai 08

Etiquetas:

Do Arquivo Humor Antigo - Ano de 1934 - 27

Um acidente de percurso

Por Nuno Brederode Santos
A SONDAGEM DO EXPRESSO (e SIC/RR/Eurosondagem) veio revelar a parte visível do preço político que Cavaco Silva pagou pelas escolhas políticas que fez na sua recente viagem à Madeira. Um preço alto, que momentaneamente o colocou claramente abaixo do resultado eleitoral que o levou às funções que desempenha. Durante essa viagem, recorde-se, aceitou não ir à Assembleia Legislativa, preferiu deixar passar sem reparo a classificação de "bando de loucos" que Jardim dedicou a toda a oposição parlamentar, recebeu esses partidos no hotel onde se instalou e nada quis ver ou visitar senão aquilo que lhe foi proposto pelas autoridades locais. Enfim, ainda branqueou tudo isto com um último discurso, estrita e desmesuradamente elogioso.
Foi, obviamente, uma escolha (mesmo que a não tenha desejado assim). Uma escolha que devotos e aliados procuraram justificar, sem sucesso, com três ordens de invocações.