20.7.18

Pequenas Notícias

Por Joaquim Letria
No outro dia ouvi um director de jornal dizer na TV que directores e editores não têm hoje tempo para “notícias pequenas”. Que me perdoe, mas não posso estar mais em desacordo. Compreendo o que quer dizer, mas esquece-se que desde sempre as noticias verdadeiramente importantes começam por ser publicadas em meia dúzia de linhas e, muitas vezes, em páginas secundárias.
É em meia dúzia de linhas que ficamos a saber indícios do que o crime organizado se prepara para fazer. É em pequenas notícias que descobrimos as cumplicidades e as grandes corrupções, é cruzando a leitura duma local com as declarações dum político ou as revelações discretas dum empresário que melhor sabemos em que mundo vivemos.
Recordo-me de há anos atrás, quando eu era um simples repórter e se falava do êxodo dos grandes lagos, haver uma notícia de duas linhas no Libération de Paris contra Kabila e o Guardian de Inglaterra falava em “movimentações dos herdeiros dos Katangueses refugiados em Angola”, enquanto o  Die Welt de Hamburgo dava conta da contratação de mercenários ingleses, americanos, belgas e croatas para combaterem pelos “rebeldes zairenses”.
Só mês e meio depois destas notícias os ingleses escreviam duas linhas referindo a ajuda de Savimbi a Mobutu, enquanto igualmente pequenas notícias falavam de “escalas técnicas” dos dois em Rabat. Então, a visita de Hassan II a Washington e a do príncipe herdeiro a Madrid não tiveram igualmente mais de quatro linhas. Vejam lá a importância daquelas pequenas notícias.
Não concordo com aquele director de jornal. As grandes notícias começam muito antes das coisas grandes acontecerem  e começam sempre por uma notícia pequena. As manchetes para vender são outro negócio, hoje em dia.
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19.7.18

Espanha – Pablo Casado, Franco e o PP

Por C. Barroco Esperança
O candidato mais reacionário dos que buscam suceder a Rajoy na liderança do PP é um digno herdeiro de Aznar, pétreo franquista ligado ao Opus Dei, pioneiro da decadência ética que atolou o partido na maior teia de corrupção dos partidos espanhóis, e mecenas da Fundação Franco, com dinheiros do Estado.
Pablo Casado merece ganhar o partido que Rajoy ainda procurou desviar do falangismo. É dissimulado e cínico. Afirma que não gastaria 1 € a exumar Franco, e que as famílias dos cerca de 100 mil desaparecidos em valas comuns, ‘assassinados pela ditadura’ (não usou estas palavras, mas foi a realidade), podem ser reclamados pelos familiares.
A trasladação do genocida Franco, do Vale dos Caídos, é o cumprimento da decisão que foi tomada por unanimidade parlamentar, por mais hipocrisia e vergonha com que o PP a tenha votado. Há aí muitos milhares de vítimas do franquismo em valas comuns, a que foi juntar-se o seu carrasco, com honras de Estado, guarda de honra, orações e missas solenes. Os mortos são indiferentes, mas os vivos que prematuramente os perderam não podem consentir tal infâmia.
A companhia do carrasco não é apenas uma ofensa à democracia, é uma homenagem ao fascismo que se perpetua e glorifica indefinidamente.
Pablo Casado fala da divisão dos espanhóis, como se a justiça pudesse consentir que um algoz permaneça símbolo do país e os crimes esquecidos. Tem a desfaçatez de dizer que “desde 1975 e 1978, qualquer familiar pode procurar os restos dos entes queridos com o apoio total” das autarquias, para os tirar das valas comuns, e acusa o Governo de Pedro Sánchez de “fraturar gravemente a sociedade” criando “questões desnecessárias" como a exumação dos restos do ditador e a ilegalização da sua Fundação. A justiça e a higiene cívica são irrelevantes para o avatar serôdio dos falangistas.
Imagine-se Hitler ou Mussolini a gozarem da mesma glória, ou o pérfido seminarista de Santa Comba a ter guarda de honra nos Jerónimos ou Pétain nos inválidos!
Um franquista nunca deixa de ser fascista, por mais que se dissimule. A Espanha corre o risco de ter no seu partido de direita democrática um líder com o coração na Falange e o pensamento no garrote, uma genuína tradição espanhola iniciada em 1820 e mantida por Franco, só abolida em 7 de julho de 1978, depois da morte do genocida.
Julgar o passado recente é um dever, para evitar a reincidência.

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18.7.18

Apontamentos de Lagos - No Reino do Absurdo

Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Jul 18 .

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13.7.18

Vamos pô-los a ler

Por Joaquim Letria
A imagem tem a responsabilidade de contribuir decisivamente para o declínio do interesse pela palavra, quer falada, quer escrita e lida. Neste mesmo mundo novo, instantâneo e visual, desenvolver a capacidade e o prazer da leitura e da conversa deveria ser uma imposição urgente.
Mitologias e histórias populares sobreviveram a muitas gerações e enriqueceram os séculos e até há bem pouco tempo a Bíblia era uma colorida fonte de experiência narrativa – Caim e Abel são personagens de um romance moderno.
A maioria das crianças de hoje apoia-se no filme, no vídeo, no tablet, no ipod e no iphone. A sua oferta pode ser inofensiva, mas transforma os receptores em sujeitos passivos. Se o tempo que hoje os jovens gastam frente a écrans fosse passado a ler, a população estaria melhor educada, mesmo se para tal se servisse dum kindle.
Ver uma história e assistir a um enredo, por muito que este ajuda a pensar, é um passatempo passivo. Ver uma história dramatizada é muito mais fácil do  que ler e indo inventando e descobrindo as personagens e a trama. A questão é que isto deixa para trás cada vez mais crianças que lêem mal e são incapazes de escrever correctamente.
Ler é essencial. Assim deve ser apresentada essa necessidade. Todos precisamos de histórias, de as ouvir, de as ler, de as desenvolver como faziam os antigos desde as cavernas do Paleolítico.
Que poderiam os pais e os professores fazer? Talvez criar um período diário de leitura obrigatória em silêncio, com a atenção presa e a concentração garantida, do qual se pudesse tirar prazer como se tira dos emails e sms.
Em tempos pensei que boas versões filmadas de livros apreciáveis estimulariam o desejo de ler e o prazer da leitura. Hoje, tenho dúvidas.
A ficção audiovisualizada está para a imaginação como os alimentos sem calorias estão para o estômago – substitui o apetite por verdadeiros alimentos. Mas seria muito bom que as crianças de hoje tivessem uma boa e racional alimentação de literatura e fizessem uma dieta bem equilibrada de leitura.

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12.7.18

A esquerda e a amnésia

Por C. Barroco Esperança

Quando o anterior Governo estava já em minoria na AR e o PR continuava a ser cúmplice para desmantelar o Estado, o país assistiu perplexo ao ressentimento e desespero da campanha de Belém, difundindo ameaças e instilando o medo, indiferente aos reflexos nos juros da dívida e à desconfiança internacional que provocava.
Foi o tempo em que um PR salazarista e o PM acidental entraram em desvario por não terem na AR o apoio necessário para manter o governo mais extremista que a democracia gerou.
É interessante verificar os tiques salazaristas de certa direita, que levam dirigentes partidários a considerarem aberrante e antidemocrático o governo suportado pelo PS, PCP, BE e PEV, sem que os partidos de esquerda tivessem alguma vez apelidado de antidemocráticas as coligações do PSD com o CDS, o PPM e outras irrelevâncias de origem duvidosa. Talvez se encontre aqui a forma de aferir o espírito democrático de cada partido, no respeito por todos os que emergem do voto popular.
Infelizmente, à curta memória do País junta-se o interesse eleitoral dos partidos que disputam as próximas eleições. Passada a ameaça da direita truculenta, que originou o atual Governo, já se digladiam entre si e perturbam a convergência que se revelou saudável para o País.
Numa altura em que a direita, apesar da forte campanha mediática, apoiada pelas associações patronais, bastonários e outras personalidades da sua área, não consegue derrubar o Governo, seria lamentável que os partidos que convergiram quando Cavaco e Passos Coelho ameaçavam subverter a democracia, desrespeitando a AR, se transformassem agora nos coveiros da mais rica e profícua experiência política das últimas quatro décadas.
A onda de agitação e de reivindicações sociais, algumas injustas, saídas de classes privilegiadas, perturbam o discernimento de partidos de esquerda e ajudam a direita, enquanto o Governo, incapaz de satisfazer as exigências e de proceder à consolidação orçamental a que é obrigado, abre espaço ao crescimento da direita. Todos parecem esquecer o governo anterior, e não se dão conta de que Rui Rio e Marcelo não são Passos Coelho e Cavaco. Destes já não há medo, o medo que levou à convergência dos vários partidos de esquerda.
É fácil imaginar o que vai suceder se não houver bom senso nos partidos que suportam o atual Governo, desde recriminações mútuas ao desalento do eleitorado apoiante. A abstenção será a primeira força a crescer e o desânimo afetará o eleitorado que se revê na solução em vigor.
A perceção dos eleitores da culpa de cada partido na eventual cisão da maioria que permitiu este governo decidirá o voto, mas não há ganhos que compensem o que o país perde.
Pela minha parte, apoiante entusiasta deste governo apoiado pelo PS, BE, PCP e PEV, e livre de compromissos partidários, sentir-me-ei traído.

Ponte Europa Sorumbático

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7.7.18

AINDA A DEGRADAÇÃO DO ENSINO EM PORTUGAL

Por A. M. Galopim de Carvalho
Começo por dizer que não estou só nesta afirmação. Há pouco mais de um ano, o Primeiro Ministro António Costa, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, disse, preto no branco: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”. 
Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada”, entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos civismo, cultura democrática e cultura humanística. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a Educação. E, aqui, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.
As muitas dezenas de comentários, desencadeados pelos meus escritos no Facebook sobre este tema, suscitaram um muito interessante debate, que me ajudou a consolidar a minha opinião sobre um grave problema que nos atinge e que urge enfrentar. 
É, pois, minha convicção que:
Como no antigamente, a par de bons, muito bons e excelentes professores, muitos deles desmotivados, há outros, francamente maus, instalados na confortável situação de emprego garantido até à reforma. 
A preparação científica e pedagógica dos professores não pode deixar de ser devida e profundamente avaliada, através de processos de avaliação a sério, criteriosamente regulados, por avaliadores devidamente credenciados.
Os sindicatos, nivelando, por igual, os bons e os maus professores, têm grande responsabilidade numa parte importante da degradação do nosso ensino público.
Os professores têm de saber muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos manuais de ensino. 
Os professores necessitam absolutamente de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm. É, pois, essencial libertá-los de todas as tarefas que não sejam as de ensinar.
É necessário e urgente repor, como inerência de cargo, a dignificação e o respeito pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar.
É necessário e urgente que a Escola recupere todas as competências fundamentais à disciplina, aqui entendida como a obrigatoriedade de respeitar as normas estabelecidas democraticamente, o que evita o autoritarismo, conferindo a autoridade a quem a deve ter.
É necessário e urgente rever toda a política dos manuais de ensino, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e revisores.
É preciso repensar a política de exames, a começar pela creditação científica e pedagógica dos professores escolhidos para conceber e redigir os questionários.
É necessário resolver o gravíssimo problema da colocação de professores, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias;
A remuneração dos professores tem de ser compatível com a sua superior importância na sociedade.
É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos titulares, como nas respectivas dotações orçamentais.
É urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver vontade e força política (despida de constrangimentos partidários), ao estilo de um “ACORDO DE REGIME”, capaz de promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial”, poderosa e, de há muito, instalada.

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6.7.18

UM BOM MOTIVO PARA IR A MADRID

Por Joaquim Letria
O Museu do Prado, em Madrid, voltou a expor a milhares dos seus visitantes “O triunfo da Morte”, obra prima de Pieter Bruegel o Velho, um óleo com perto de 500 anos.
Após delicadíssimos trabalhos de restauro levados a cabo ao longo de mais de um ano pelos especialistas do museu, o quadro recuperou a sua nitidez, a sua cor e o brilho originais. O que mais impressionou Maria Antónia Lopez foi encontrar as impressões digitais do autor, marcadas na fina película que cobria a obra original. A restauradora, que tratou da pintura centímetro a centímetro, confessou que encontrar-se com essa marca foi o que mais a comoveu e marcou neste trabalho.
Um dos objectivos foi recuperar a transparência do fumo nas diferentes intensidades, bem como mostrar o reflexo da torre na água que esteve oculto durante anos. A obra mostra a inexorável vitória da morte sobre todas as coisas e pessoas. Era a única que o Prado possuía deste pintor até em 2011 ter comprado o “Vinho da Festa de São Martinho”, peça que acompanha com a sua beleza  a obra prima agora recuperada e exposta a milhares de visitantes que ali acorrem diariamente. É um quadro duma qualidade excepcional dum pintor essencial na história da arte europeia, ao mesmo nível de El Bosco. A peça reúne uma mistura rara das tradições medievais com uma imaginação espantosa. ´Pieter Bruegel começou a pintar tarde, na sua vida, quando de uma assentada pintou cerca de 40 quadros com uma maestria excepcional.
Embora fosse um pintor de elite e ortodoxo,  Bruegel era independente e contava histórias do dia a dia. No “Triunfo da Morte” aparecem cenas como um esqueleto meditando sobre a morte dum pássaro que jaz diante duns peixes grandes que comem outros mais pequenos. Há uma aldeia arrasada, um juízo final e um batalhão de esqueletos que marcha para o inevitável.
A obra recuperou o tom original, de amarelos e ocres, azuis e vermelhos e matizes que haviam sido esbatidos por grosseiras operações anteriores. O quadro mostra as grandes preocupações medievais , especialmente com a presença maciça da morte. Por outro lado reflecte a tradição retórica da sátira o que faz dele um quadro muito divertido, justificando plenamente um pretexto para um salto a Madrid, acompanhado de viño de verano e umas orchatas e uma breve memória das zarzuelas.Tudo motivos válidos para fugirmos dos turiastas de Lisboa e do Porto, que são muito simpáticos e deixam cá muitos euros mas que parecem moscas.
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5.7.18

A Associação Sindical de Juízes (ASJP) e a democracia

Por C. Barroco Esperança
Quem viveu na ditadura fascista e recorda os Tribunais Plenários, uma extensão da Pide, com juízes escolhidos e venais que cruzaram incólumes a consolidação da democracia, não pode deixar de se regozijar com a independência dos Tribunais, sem a qual não há Estado de Direito.
Procedeu bem a democracia na independência que outorgou ao poder judicial e mal na forma como esqueceu os cúmplices da ditadura ou consentiu a exótica Associação Sindical de Juízes, que não passa de um mero sindicato para a defesa de interesses corporativos.
É tão injusto confundir os sindicalistas da ASJ com a maioria dos juízes como estender o labéu da infâmia dos titulares dos Tribunais Plenários aos honrados juízes desse tempo, quando um juiz, depois de percorrida a carreira do MP, começava com vencimento a Chefe de Repartição, um Desembargador era equiparado a diretor-geral, catedrático ou general de 3 estrelas, e um Conselheiro a oficial-general de 4 estrelas, Diretor do Laboratório Nacional de Energia Nuclear ou do LNEC.
Se o poder executivo subjuga os juízes, arruína o Estado de Direito, e se os juízes chantageiam o poder executivo, abdicam do respeito que lhes é devido e traem a democracia.
Não é lícito que o Governo constranja os juízes, mas não se lhe exija ou permita que ceda a chantagens. Cabe aos cidadãos julgar todos os órgãos da soberania, especialmente o único não submetido ao escrutínio eleitoral.
A recente notícia veiculada inicialmente pelo JN, através do jornalista Nelson Morais, de que os «Juízes ameaçam com greve inédita para exigir mais dinheiro», não é apenas o delírio perigoso de sindicalistas, é, na minha opinião, um atentado ao Estado de Direito, e uma perigosa deriva sindical de quem se sabe impune e despreza a opinião pública.
Para já, é importante saber se o vencimento dos juízes portugueses corresponde à média dos seus homólogos da UE, face ao PIB de cada país, bitola que devia ser usada para os servidores públicos, pagos por todos os cidadãos, desde o PR aos funcionários de mais modesta categoria.
Se, acaso, não estão negativamente discriminados, situação que seria urgente rever, qualquer cedência é uma ofensa a quem ganha salários mínimos ou se encontra na sua proximidade.
O novo Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, Manuel Soares, ao fazer uma ameaça que indigna os cidadãos a quem não cabe fazer justiça, mas que a exigem, sabe que a dignidade do cargo de quem diz representar, é incompatível com a postura que é apanágio dos sindicalistas, que arriscam o posto de trabalho dos associados e a retaliação patronal.
Sexta-feira, a AR apreciará o Estatuto dos Magistrados Judiciais, i.e., o estatuto remuneratório dos senhores juízes, sob ameaça de greve de membros de outro órgão de soberania, avisado de que «o Governo está a comprar uma guerra como nunca viu». A um leigo parece surreal a situação e de almocreve a advertência.
E se a AR não ceder? Os senhores juízes fazem greve, como ameaçam?
Perante tal despautério, é aceitável proceder à requisição civil dos juízes e encerrar a ASJP.

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4.7.18

Lagos na TVI (2 Jul 18)




Mais uma vez, o nosso amigo Joaquim Letria abordou problemas de Lagos — desta vez 3 casos relativamente graves, pois trata-se de equipamentos urbanos que, em 1960 e em 2009 sumiram sem deixar rasto:
Um coreto (!!!) mais de 1000 m2 de calçada portuguesa (padrão "Mar Largo") e uma boa centena de letras de metal (com a famosa frase de Fernando Pessoa).
Infelizmente, não consigo afixar aqui o link para o vídeo que, no entanto, pode ser visto em tvi.iol.pt, procurando o programa "A Tarde é Sua".

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1.7.18

AINDA A DEGRADAÇÃO DO NOSSO ENSINO (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho
A todos, e foram muitas dezenas, os que me honrarem com os seus comentários, apoiando, contraditando, sugerindo, emendando, acrescentando ou melhorando o meu texto de ontem (27.06.2018, no Facebook)  aqui fica, para os que tiverem interesse nisso, a nova versão do mesmo, reformulado com base nos referidos comentários
NOVA VERSÃO
Na minha capacidade de análise, que vale o que vale, o problema da degradação dos nossos ensinos básico e secundário reside, sobretudo, na classe política, onde, a par de gente capaz e honesta, se instalaram arranjistas e corruptos, como em todo o lado.
Como já escrevi, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 44 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada”, entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos civismo, cultura democrática e cultura humanística. Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à democracia está a Educação. E, aqui, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.
O mundial de futebol, a crise no Sporting, as buscas da PJ no Benfica e noutros clubes e, agora, em algumas autarquias, à falta de incêndios florestais, enchem os noticiários à exaustão. Parece que andamos esquecidos do gravíssimo problema subjacente à greve dos Professores, em curso, mas ele existe. É bem maia amplo e está latente. E nestes dias em que tudo efervesce neste sector da vida nacional, o  senhor Ministro da tutela (talvez com o argumento de que “carrega” com o fardo do desporto), foi a Moscovo, no passado dia 20, ver o Portugal-Marrocos e, cinco dias depois, a Saransk, assistir ao Portugal-Irão. Estou para ver se irá, de novo, à Rússia, no próximo Sábado, desta vez a Sochi,para presenciar o Portugal-Uruguai.
Os saberes acumulados ao longo de uma vida de muitos anos, sempre em contacto com o ensino a todos os níveis, a liberdade que me assiste como cidadão político consciente e não “amarrado” aos aparelhos dos partidos políticos e a lucidez que ainda julgo manter, permitem-me dizer ou voltar a dizer, “preto no branco”: 
1 - Tendo sido o Centro e a Direita a governarem-nos há mais de quarenta e dois anos, há que imputar a estes, os do chamado “arco do poder”, a maior parte da responsabilidade de uma tal degradação. A Esquerda só esteve no poder dois anos e dois meses (com os governos provisórios”), mas tem nos sindicatos valiosas correias de transmissão, pelo que também manda, e muito, nestes graus de ensino. Não podemos, pois, ignorar a sua responsabilidade neste grave problema que, se não for resolvido, irá DESTRUIR O FUTURO dos nossos filhos e netos.
2 – A SER VERDADE que a luta dos professores (em proporções nunca vistas) visa o cumprimento de uma promessa do governo, estou a 100% do lado de todos eles, dos bons, dos menos bons e dos maus. Todos! E isto apenas porque, também para mim, a “palavra dada, palavra honrada”, parafraseando o Primeiro Ministro. Insisto na expressão “a ser verdade” porque, nestes conflitos e como é sabido, cada uma das partes tem o seu discurso;
3 - A par de BONS, MUITO BONS E EXCELENTESprofessores, há outros, sem preparação suficiente, que fazem do ensino um emprego, não uma profissão e, muito menos, uma missão, e outros, ainda, francamente maus. 
4 - Os VERGONHOSOS RESULTADOS escolares em Portugal falam por si. E aos que me respondem, lembrando que alunos das nossas escolas marcam pontos lá fora, em competições internacionais (o que é um facto honroso e indesmentível), respondo dizendo que esses são alunos excepcionais, oriundos de famílias mais bem ou mais mal estruturadas, mas sempre preparados por muito bons professores. Ponto final;
5 - A sistemática RECUSA ÀS AVALIAÇÕES, por parte de muitos professores (os jornais têm falado em milhares), com o fortíssimo apoio dos sindicatos, face às diversas propostas feitas pelos diferentes governos, ao longo de mais de uma dezena de anos, é responsável pela permanência dos incompetentes à frente dos nossos filhos e netos. Não são os bons professores que temem ser avaliados, são os outros, e não são assim tão poucos;
6 – As avaliações que têm sido feitas bem como a escolha e a COMPETÊNCIA DOS AVALIADORES são temas a terem lugar numa verdadeira reflexão que urge fazer;
7 - Os sindicatos,NIVELANDO, POR IGUAL, os bons, os menos bons e os maus professores e, ao apoiarem os que se opõem às ditas avaliações, exigindo promoções automáticas ditadas pelo tempo de serviço,têm grande responsabilidade numa parte importante da degradação do ensino público;
8 - A tradicional e endémica FALTA DE VERBA atribuída à Educação é parte substancial desta mesma degradação;
9 - A “BALDA” que se estabeleceu nas Universidades, a seguir à revolução de 1974, com os “aptos”, as “passagens administrativas” e a interferência dos estudantes nas decisões pedagógicas, ao estilo de “cada cabeça um voto”,  também tem de ser tida em conta nesta reflexão;
10 - O NÍVEL SÓCIOCULTURAL de milhares de famílias carentes de tudo determina que a Escola obvie a esta realidade, chamando a si uma tarefa educativa complementar;
11 – Finalmente, a PREPARAÇÃO CIENTÍFICA E PEDAGÓGICA dos professores não pode deixar de ser devida e profundamente analisada.
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É minha convicção que: 

1- Os professores devem SABER MUITO MAIS do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos manuais de ensino. Para tal, os professores necessitam de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm;
2 - É necessário e urgente fomentar, como inerência de cargo, a DIGNIFICAÇÃO E O RESPEITO pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar;
3 – É essencial LIBERTÁ-LOS DAS TAREFAS que não sejam as de ensinar;
4 – Há que criar CURSOS DE ACTUALIZAÇÃO e de melhoria de conhecimentos e/ou outras acções com o mesmo propósito;
5 – É necessário e urgente que a Escola recupere todas as competênciasfundamentais à DISCIPLINA, aqui entendida como a obrigatoriedade de respeitar as normas estabelecidas democraticamente, o que evita o autoritarismo, conferindo a autoridade a quem a deve ter;
6 – É necessário e urgente rever toda a política dos MANUAIS DE ENSINO, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e revisores.
7 – É preciso repensar a POLÍTICA DE EXAMES, a começar pela creditação científica e pedagógica dos professores escolhidos para conceber e redigir os questionários.
8 – É necessário resolver o gravíssimo problema da COLOCAÇÃO DE PROFESSORES, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias;
9 - A REMUNERAÇÃO DOS PROFESSORES tem de ser compatível com a sua real importância na sociedade. Um professor universitário (que é avaliado, pelo menos, três vezes ao longo da carreira) não é nem mais nem menos importante do que um do ensino secundário ou do básico, a quem, no correspondente patamar, se exige idêntico rigor;
10 - É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na ESCOLHA DOS TITULARES, como nas respectivas dotações orçamentais.
11 - É urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver vontade e força política (despida de constrangimentos partidários), ao estilo de um “ACORDO DE REGIME”, capaz de promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial”, poderosa e, de há muito, instalada. 

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30.6.18

Apontamentos de Lagos

No Correio de Lagos deste mês

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29.6.18

Agradecer o pouco para merecer o muito

Por Joaquim Letria
O verbo merecer tem muita piada se pensarmos um pouco nele. Se se emprega dirigido a uma pessoa, significa que esta se converte em digna de um prémio ou de um castigo. Empregue referindo-se a uma coisa, que tenha um certo apreço ou estimação, há objectos que não merecem o que custam, só aquilo que valem.
Tempos atrás também se usava este verbo com o sentido de “conseguir ou alcançar algo que se intenta ou deseja, ou seja “lograr algo”, como “finalmente mereceu-o”!
Como verbo intransitivo, significa criar méritos, fazer boas acções, construir obras excelentes, ser digno de prémios. Na sua forma verbal pode igualmente significar “merecer o bem de alguém”, ou “ser credor da sua gratidão.”
Hoje, a juventude tem dificuldade em saber o que quer e vive pendurada dos “SmartPhones” em vez de contactar os outros directamente, receando um não, desprezando os demais e tendo medo dum rotundo fracasso nas suas ténues e díspares ambições.
Vêm estas reflexões a propósito duma expressão que é agora muito utilizada nos programas de famosos, pouco famosos e nada conhecidos que animam as TVs que vivem dessas especulações a que “alegadamente” (como eles dizem) se entregam. Por exemplo: ”Fulana de tal, depois da sua ruptura sentimental, sai agora  à noite com um novo namorado, porque merece ser feliz”.
“Fulano viu abrirem-se-lhe as portas do sucesso e foi convidado para uma série nova no Brasil, para onde parte já na próxima semana. Ficamos muito contentes, porque ele merece-o!” Isto deixa-me feliz por ver tanta gente recompensada por tão pouco e com quase nada. Assim se saiba agradecer o pouco para merecer o muito…
Mas deixa-me um travo amargo na boca ao recordar os nossos pais e nossos avós que tanto fizeram para nos dar algo e fazerem de nós alguma coisa, praticamente sem receberem nada em troca. E eles mereciam-no!
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28.6.18

A Europa e as migrações

Por C. Barroco Esperança

Nem os fenómenos migratórios são novos nem o racismo e a xenofobia são sentimentos recentes, muitas vezes dos imigrantes chegados há pouco, dos que facilmente esquecem como vieram, quando chegaram e de onde partiram.

A Europa foi sempre um espaço de encontro de povos, que deve à miscigenação a força da sua gente e ao caldo de culturas a fonte do progresso, tornando-se farol de esperança e destino sonhado de multidões em fuga, na luta pela sobrevivência.
A vaga de refugiados que a tem procurado não é excessiva e podia ser a garantia do seu rejuvenescimento, neste inverno demográfico que a atingiu. Aliás, muitos dos refugidos são produto das políticas predadoras de países europeus e de agressiva interferência em regimes de outras nações, em outros continentes, mas é difícil combater a rejeição que alastra nos países desta Europa onde nem a Senhora Merkel, a sua maior estadista deste século, consegue convencer o próprio país a não repetir o passado que devia assustá-lo.
Há erros graves cometidos, desde a anuência ao comunitarismo, em vez da exigência da integração cidadã, até à resignação à afronta ao ethos civilizacional da matriz europeia, herança do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa, e não resta espaço e tempo para o que era desejável. É urgente encontrar solução para o que é possível, numa síntese entre a vontade autóctone e a solidariedade que nos interpela.

Não podemos aceitar todos os que pretendem vir; nem copiar a Hungria, onde o apoio a qualquer refugiado passou a crime punível com prisão; nem abandonar os infelizes que nos procuram, e se afogam no Mediterrânio com os sonhos, as mulheres e as crianças.

Não podemos deixar que o medo nos vença, que a laicidade seja trocada pela cedência às religiões, que as escolas públicas sejam substituídas por madraças, e os desesperados se transformem em prosélitos e estes em inimigos. Não podemos ficar reféns do medo e pactuar com quem ameaça substituir o cosmopolitismo pelo comunitarismo, com o ódio como alimento, a crueldade como política e a construção de muros como desígnio.
 O exemplo mais indigno vem do presidente dos EUA, inculto e amoral, que separou dos pais os filhos, muitos já sem paradeiro conhecido, transformando crianças aterrorizadas em órfãos da Casa Branca. A vileza e a insensibilidade estão à altura do seu poder.
É essa suprema ignomínia que não podemos importar, é essa deriva fascista que não nos pode contaminar sob pena de renunciarmos à civilização que tem sido o traço comum entre a Europa e a América.

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24.6.18

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Pormenor da Porta de Ishtar, Babilónia – Esta porta chegou a ser, ainda na Antiguidade, uma das setes maravilhas do mundo (substituída mais tarde, nessa lista, pelo Farol de Alexandria). Foi mandada construir por Nabucodonosor seis séculos antes de Cristo. Havia gravuras desta Porta nos livros de escola e nas revistas de aventuras da minha adolescência. Em 1975, integrei uma comitiva portuguesa de visita oficial ao Iraque. Nessa altura, Saddam Hussein era apenas vice-presidente, mas já o homem forte do ditador al-Bakr. Num dia de repouso, pedi para visitar a Babilónia. Queria ver a famosa Porta. Era Inverno. Chovia. Estava frio. A chegada à Babilónia foi uma desilusão. Não havia Porta. Nem sequer ruínas decentes. Apenas lama e umas muralhas. Vim-me embora com a tristeza de um leitor do Tintim enganado. Dias depois, noutra viagem oficial, desta vez a Berlim, visito o Museu de Pérgamo, na ilha dos museus. De repente, depois do Altar, aparece, deslumbrante, uma enorme secção da Porta, de que este é apenas um pormenor! Parábola para o Ano Europeu do Património… 
DN, 24 de Junho de 2018

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Sem emenda - Igualdade e liberdade

Por António Barreto
Qual é o valor mais importante, a igualdade ou a liberdade? Faz sentido pensar que existe um valor superior? Apesar de estar no centro dos debates políticos e filosóficos há décadas ou séculos, a questão das relações entre liberdade e igualdade nunca foi resolvida.
A verdade é que em cada momento importante de legislação, de acção ou de confronto político, o peso de cada uma, igualdade ou liberdade, é reavaliado. A resolução de tal contenda não é de carácter científico. Não se trata de ciência exacta. A resolução é uma preferência política, doutrinária e cultural.
Para uns, a liberdade não faz sentido sem igualdade. Para que serve a liberdade a um desempregado, pobre, analfabeto e sem abrigo? Só depois de estabelecidas condições de igualdade social será possível usufruir da liberdade. Considerar que a liberdade é o valor essencial significa deixar correr as lutas sociais, os afrontamentos, a competição entre pessoas e classes e permitir que uns ganhem e outros percam, eventualmente que os que ganham o façam à custa dos que perdem.
Para outros, a igualdade é impossível, nem sequer aconselhável, dado que o mérito gera desigualdade e a condição natural das sociedades é a da diferença. Considerar que a igualdade é o valor primordial exige intervenção da autoridade e o estabelecimento de condições à liberdade, a fim de impedir que esta gere desigualdade. Aceitam a igualdade de oportunidades, à partida, ou a igualdade de condição, mas não a igualdade imposta pelo poder ou pela força.
Estas discussões são interessantes. Na verdade, alimentam os debates sobre políticas públicas. Muita gente, tanto à esquerda como à direita, admite facilmente que o sistema educativo universal e obrigatório foi concebido para criar, promover e fazer progredir a igualdade social. Errado. O sistema educativo universal e obrigatório foi feito para criar um Estado ou uma nação, ajudar ao estabelecimento do serviço militar e de defesa nacional e facilitar o desenvolvimento da indústria. Nesse sentido, foi concebido para fazer progredir toda a gente, promover os melhores, alargar a base de selecção dos mais capazes, fazer trabalhar toda a gente, obter o maior número possível de talentos e acalmar a desordem… No máximo, o sistema educativo faz progredir toda a gente ao mesmo tempo, mantendo a desigualdade de origem. No pior, o sistema educativo agrava as desigualdades, pois permite escolher os melhores que acabarão por ser recompensados. Os bons estudantes, os melhores técnicos e os mais qualificados saberão melhor defender-se e subir na vida. Os piores ficarão aquém. São estes os destinos dos sistemas de educação universal e obrigatória.
O mesmo se poderá dizer dos sistemas públicos de saúde. Não são feitos para promover a igualdade. São feitos para defender e desenvolver a saúde e a vida de toda a gente! No máximo, o sistema de saúde público e universal mantém as desigualdades sociais, apesar de melhorar a saúde de toda a gente. Pode todavia admitir-se que os serviços de saúde têm um efeito social interessante: são vitais para as classes desfavorecidas, enquanto as classes com mais meios teriam sempre a possibilidade de recorrer à saúde privada. Nesse sentido, a saúde pública, sem promover a igualdade, combate os efeitos da desigualdade. Mas, no essencial, a saúde pública cura a doença, não a desigualdade.
Os serviços públicos de saúde, educação e segurança social, assim como outros sistemas, muito especialmente o de Justiça, não são concebidos para promover a igualdade, mas sim para ajudar a generalizar oportunidades aos cidadãos. Depois, são as escolhas políticas que promovem ou não a desigualdade! Que promovem ou não a igualdade.
Com liberdade, a desigualdade pode crescer. Certo. Mas com liberdade, pode a desigualdade ser corrigida. Sem liberdade, não. Pelo contrário, com igualdade, pode a liberdade desaparecer. E nascer a tirania. Quem cede em liberdade para obter a igualdade está no caminho do despotismo. Tal via dificilmente abre a porta a reformas. Quem cede em igualdade a fim de obter a liberdade corre o risco da injustiça, mas não reprime quem luta pela justiça social. A igualdade não gera a liberdade. Mas a liberdade pode gerar a igualdade.
DN, 24 de Junho de 2018

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23.6.18

Apontamentos de Lagos

No CORREIO DE LAGOS deste mês

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Os pais “helicópteros”

Por Antunes Ferreira
Já tinha ouvido chamar aos pais muitos qualificativos mas esta é a primeira vez que vejo que também podem ser “helicópteros”. Leram bem – helicópteros, aquelas aeronaves que se sustentam nos ares graças a duas hélices uma estabilizadora e a outra propulsora, aliás desnecessária se torna explicar o significado da palavra, mas o que parece importante é, sim, tentar explicar a expressão “pais helicópteros”…
Ela pode ser encontrada num artigo da jornalista Carmen Garcia do El País aqui da nossa vizinha Espanha. Para melhor elucidação transcrevo a abertura do seu texto: 
“Meu amor, tome cuidado para não cair.” “Filhinho, coma o salame devagar para não se engasgar.” Frases desse tipo, em princípio inocentes, podem ser prejudiciais para as crianças da casa se usadas com frequência excessiva. Trata-se de uma atitude coloquialmente conhecida como paternidade-helicóptero, ou seja, aqueles pais e mães que sempre estão de olho nos seus filhos. Esse comportamento super protector pode ser muito nocivo para eles, segundo um novo estudo elaborado pela Universidade de Minnesota e publicado na revista “Development Psychology”.
Para os autores do estudo, um pai-helicóptero é aquele que está a controlar continuamente o seu filho, que lhe diz como deve brincar, como guardar as suas coisas, como agir, entre outras determinações. “Diante desse comportamento, e segundo os nossos resultados, as crianças reagem de maneira diferente. Algumas tornam-se desafiadoras com relação aos pais, outras simplesmente apáticas ou mostram-se muito frustradas.
Sou do tempo em que isto era impensável mas as coisas mudaram e hoje em dia no que toca à aprendizagem os métodos são bem diferentes. Ainda dei os primeiros passos na leitura pela Cartilha Maternal do João de Deus e também dos reflexos condicionados do Pavlov que partindo da experiência famosa que metia um cão, uma campainha e um naco de carne influenciou os métodos do ensino.
Até agora sempre pensei que havia pais bons, pais maus, pais presentes, pais ausentes, pais a quem se dia chamar pais e até pais incógnitos, infâmia que era permitida nos registos de nascimento e que felizmente foi riscada dos assentos das conservatórias.
É vulgar ouvir-se falar em mães galinhas as que também são super protectoras, quais galináceas que controlam os seus pintos e não os deixam pôr as patas em ramo verde e inseguro. 
Agora chegou a vez aos pais. Pensei que talvez pudessem ser classificados com pais galos. Mas, pelos vistos não. Os galos não migam prego nem estopa no cuidar dos pintos, usando uma palavra rasca querem que eles se lixem. Nem com um voo picado de um gavião esfomeado se preocupam. Nem mesmo sendo pais helicópteros que afinal são um fiasco: não voam.”.
Pais superprotetores, crianças que não sabem lidar com suas emoções. Esta é a premissa. E tem suas consequências.Costumam ser meninos e meninas que não controlam suas alterações de humor, suas emoções e seus sentimentos, e são mais fracos na hora de enfrentar os desafios de cada etapa do crescimento. “Isto é ruim. As crianças precisam de cuidadores que lhes sirvam de guia na hora de entender o que acontece com elas”, acrescentam os especialistas.
Segundo esses pesquisadores, os pais devem:
- Ser sensíveis às necessidades de seus filhos, reconhecendo quais são suas capacidades na hora de encarar diferentes situações.
- Orientar a criança, sem interferir nem solucionar o problema, para que ela consiga o objetivo a que se propõe, orientando-lhe que pode se virar sozinha, o que a levará a um melhor desenvolvimento da sua saúde mental e física e a melhores relações sociais e resultados escolares.
- Não limitar as oportunidades das crianças.
Ajudar seus filhos a controlarem suas emoções, conversando com eles sobre como entender seus sentimentos e explicando-lhes que os comportamentos podem resultar de certas emoções, assim como as consequências que as diferentes reações podem acarretar.
- Também podem ajudar seus filhos a identificar estratégias de confrontação positivas, como respirar fundo, ouvir música, colorir ou se retirar para um lugar tranquilo.
“Nossas conclusões salientam a importância de educar os pais, frequentemente bem intencionados, sobre o apoio à autonomia de seus filhos perante os desafios emocionais”, prosseguem os autores. “Também podem ser um bom exemplo para seus filhos. Por exemplo, eles podem usar estratégias de confrontação positivas, na hora de lutar com suas próprias emoções e comportamentos quando estão incomodados ou irritados”, concluem.
Para chegar a estes resultados, os pesquisadores analisaram durante oito anos 422 meninos e meninas de diferentes etnias e condições econômicas, fazendo avaliações em três ocasiões: aos 2, 5 e 10 anos de idade. Os dados surgiram da análise das interações entre pais e filhos, de relatórios de seus professores e de sua própria experiência narrada aos 10 anos. O teste consistia em que progenitores e crianças brincassem da mesma maneira como em casa. Segundo seus resultados, o controle excessivo na criação dos filhos quando a criançatinha dois anos estava associado a uma pior regulação emocional e de comportamento aos cinco. Ao contrário, quanto maior era a regulação emocional de uma criança aos cinco anos, menos provável era que tivesse problemas emocionais e maior a probabilidade de que tivesse melhores habilidades sociais e fosse mais produtivo na escola aos 10. Da mesma maneira, aos 10, as crianças com um melhor controle dos impulsos tinham menos probabilidades de sofrerem problemas emocionais e sociais e mais probabilidades de irem bem na escola.
Essas conclusões não são uma novidade. Pesquisas anteriores já apontavam as consequências negativas da superproteção das crianças. Uma delas, de 2016, concluía que “as crianças com pais intrusos e controladores, aqueles que pressionam muito os filhos a obterem boas notas, podem ser mais propensas a se tornarem altamente autocríticas, ansiosas e deprimidas”. E outra de 2017mostrava também que a paternidade-helicóptero era mais frequente com as meninas, “e que este comportamento podia ser prejudicial para sua capacidade de desenvolver mecanismos de confrontação efetivos para resolver conflitos e lidar com os fatores de estresse da vida cotidiana”.
“Efetivamente, os principais efeitos da superproteção são que não deixamos que os menores aprendam por si mesmos a resolver os problemas do seu dia a dia. Ao não desenvolverem tais habilidades, normalmente eles têm mais propensão a serem mais ansiosos e a terem mais dificuldades de regulação emocional”, explica por email o psicólogo espanhol Jesús Matos, mestre em Psicologia Clínica e da Saúde. “Se em lugar de fomentar a autonomia optamos pela superproteção”, prossegue, “estamos criando crianças muito dependentes, que irão sofrer mais na hora de enfrentar as dificuldades inerentes à vida, por não terem ninguém que as resolva.”
As chaves para a educação são o apoio e os limites, não a superproteção. “Tudo bem ajudarmos nossos filhos a resolverem certos problemas, mas sempre tentando envolvê-los na tarefa. Para que entendam que há uma relação entre esforço e recompensa. Desta maneira, pouco a pouco fomentamos sua autonomia. Obviamente, sempre é preciso levar em conta os perigos potenciais que podem aparecer, e se manter precavido contra eles. Uma boa maneira de proteger com controle é falar com outros pais e professores de crianças da mesma idade para estabelecer limites aproximados do que cada criança tem condições de enfrentar. Não podemos pretender que nossos filhos de quatro anos encarem problemas como os de 12”, argumenta o especialista.
Além de Matos são muitos os especialistas que enfatizam a importância fundamental de dar autonomia às crianças, permitindo que desenvolvam suas emoções e comportamentos de forma adequada. Há alguns meses, Eva Millet, autora do livro Hiperniños ¿Hijos Perfectos o Hipohijos? (“hipercrianças: filhos perfeitos ou hipofilhos?”) dizia a este jornal que“as hipercrianças são produto de uma hiperpaternidade na hora de criar e educar nossos pequenos, uma criação que lhes dá tudo, as protege de tudo e lhes indica como devem ser”. E enfatizava que, para ela, “a criação na atualidade é monstruosamente intensiva. A superproteção infantil produz crianças-altar, o que a transforma em hipocrianças, meninos e meninas que não sabem se defender, que não são autônomos, porque já recebem tudo pronto. Recebem tudo resolvido.”
BENEFÍCIOS DA AUTONOMIA INFANTIL
JESÚS MATOS, PSICÓLOGO E ESPECIALISTA EM PSICOLOGIA CLÍNICA E DA SAÚDE
Os principais benefícios são o aumento de autoestima das crianças, que assim se percebem como capazes de enfrentar situações. Isto por sua vez ajuda o menor a administrar com eficácia emoções como a ansiedade, o medo e a frustração. Porque cada vez vai adquirindo mais experiência em situações difíceis (sempre procurando que sejam adequadas à sua idade).

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22.6.18

MILAGRE, SABE-SE LÁ

Por Joaquim Letria
De há uns tempos para cá que ninguém fala, dá conta ou se maravilha com milagres. Muito menos se estes acontecem num fim de semana ou coincidem com os destemperos futebolísticos que tanto entretêm a nossa querida Comunicação Social. Foi o caso deste  que, tarde e a más horas, vos dou conta, penitenciando-me pelo atraso, embora hoje, estando eu longe dos media, me possam ser relevados os “deadlines” ultrapassados.
Então foi assim: no sábado em que o Real Madrid conquistou a sua 13ª liga dos Campeões da Europa, derrotando um Liverpool de choroso guarda-redes, muito infeliz nos lances de golo consentidos, uma refugiada procedente da Líbia deu à luz um robusto rapaz de dois quilos e oitocentos em pleno Mediterrâneo a quem pôs o nome de Milagre.
O Mundo a que o rapaz chegava encontrava-se concentrado no que acontecia no final da Champions, e assim continuaria até também ter de se preocupar com o futuro de Cristiano Ronaldo. Mas naquele momento em que Milagre dava os seus primeiros vagidos nós víamos comovidos o guarda-redes do Liverpool chorar enquanto pedia perdão aos adeptos que generosa e desportivamente lhe perdoavam, aplaudindo-o no estádio.
Entretanto, a bordo do “Aquarius” , o barco de busca e resgate da “SOS Mediterrâneo” onde a mãe acabava de parir, tudo decorria normalmente e todos festejavam o feliz desenlace, embora ninguém se preocupasse com o futuro da mãe e nascituro neste nosso estranho mundo. É evidente que também aqui o importante é o instante e o imediato, a vida pode esperar.
Imaginemos agora, em plena especulação, que esta criança vai ser um artista de valor mundial, um cientista com importantes descobertas para a humanidade, um matemático que descobre o teorema da verdade, o paradigma da justiça e consegue encontrar a verdadeira equação da felicidade!?
Sabe-se lá! Desconhecemos o verdadeiro desperdício de vida e de futuro nas crianças armazenadas em campos, exploradas na apanha do lixo, exploradas no tráfico humano, a morrerem de fome em África e vítimas da guerra um pouco por toda a parte. Diria que não sabemos nem queremos saber porque o que nos preocupa é a infelicidade do guarda-redes do Liverpool e o futuro do Cristiano Ronaldo. O resto, logo se vê.

Publicado no Minho Digital

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