28.5.20

A banalização do mal e o adormecimento das consciências

Por C. B. Esperança 

A jornalista Hannah Arendt acompanhou, em Israel, o julgamento de Adolfo Eichmann e, quer o carrasco nazi fosse ou não o homem comum que a jornalista viu nele, intuiu a tragédia da “banalidade do mal”, expressão que usou no livro que, a seguir, escreveu, “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, onde diagnostica a origem dos totalitarismos.
A expressão é hoje frequente, porque as consequências são devastadoras e repetitivas, e está longe de provocar a reflexão que devia. A democracia tem descurado a sua defesa, mesmo quando a Constituição a protege sem ambiguidades.
O advento de partidos neofascistas é hoje evidente, na Europa e no Mundo, e Portugal não foge à regra, apesar de a CRP os proibir.
O Tribunal Constitucional errou ao legalizar o ‘Partido Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC)’, onde aparece a sigla referente a ‘Portugal pró-Vida’, permitindo o nome, por serem ilegais as referências confessionais. Fê-lo, aliás, contrariando a sua própria jurisprudência.
Já no caso do Chega é difícil dizer que errou. É fácil apresentar um programa aceitável constitucionalmente e ter uma prática delituosa, incompatível com a CRP, a decência e a salubridade política.
No primeiro caso foi uma decisão infeliz, mas sem riscos; no segundo foi uma decisão legítima, mas perigosa. Ser reacionário não é crime; ser fascista, é. A ideologia fascista, em si, é um mero anacronismo, mas a sua práxis é delituosa. O aparecimento de um partido que defende abertamente a subversão democrática, que promove o racismo e incita ao crime cai sob a alçada legal, mas sabemos como é frouxa a democracia a defender-se dos adversários. É, aliás, o único regime que os permite.
O partido nazi/fascista, que goza de amplas cumplicidades nos média, nas redes sociais e em nostálgicos da ditadura, vai-se infiltrando nas forças policiais, militares e sindicais, e normaliza o que, ainda há pouco, raros ousavam verbalizar. É o guarda-chuva aberto a marginais, terroristas ideológicos, membros de seitas e outros indivíduos de mau porte.
As semelhanças com o ambiente dos Anos Trinta do século passado causam perplexidade e calafrios. A publicidade concedida ao Chega e a displicência com que é tratado, como se fosse um partido democrático, amedrontam os que sofreram a ditadura.
Falar do mal é dar-lhe publicidade, mas ignorá-lo é deixá-lo à solta a envenenar os que esqueceram a mais longa ditadura europeia e suportaram 13 longos e dolorosos anos de guerra colonial.
A tragédia da pandemia não faz mais do que adensar receios de novos totalitarismos, como aconteceu com a gripe espanhola, há um século. E os totalitarismos podem ser de natureza antagónica.

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27.5.20

No "Correio de Lagos" de Mai 20

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26.5.20

CLASSIFICAÇÃO DAS ROCHAS

Por A. M. Galopim de Carvalho
Toda a gente sabe que classificar é separar por classes, mas nem todos sabem que  as mais antigas classificações das rochas, à semelhança das dos seres vivos, eram designadas por Sistemas (do grego “systema”, que significa reunião de diversos objectos num só corpo, grupo ou conjunto) e, assim, classificar é o mesmo do que sistematizar e classificação é sinónimo de sistematização. 
Nesta óptica, a expressão classificação sistemática é uma redundância desnecessária que, não obstante, se lê frequentemente.
Cada disciplina tem o seu tipo de classificação. Em biologia e também em paleontologia fala-se de DomínioReinoFiloClasseOrdemFamíliaGénero e Espécie. Em geologia, por força da própria natureza dos “objectos” (rochas), este tipo de classificação não tem cabimento.
Por exemplo, no seu célebre Natursystem des Mineralreichs, Karl von Lineu (1707-1778) tentou, sem êxito, adaptar aos minerais e às rochas os seus critérios que tão bem se têm mantido na sistemática e nomenclatura biológicas. Segundo ele, o arenito pertencia à classe “Petrae” (pedras), à ordem “Agregata” e ao género “Arena” (areia), no qual distinguia várias espécies, como, por exemplo, “Arena riparia” (areia fluvial). Acontece, porém, que o conceito de espécie, tal como o entendemos para os seres vivos e, até, para os minerais, não tem aplicação nas rochas, face às quais se fala, sim, de tipos e não de espécies
Sem esquecer as abordagens divulgadas por Avicena, Agricola e muitos outros, ao longo da Idade Média, o século XVIII foi pródigo na procura de classificações dos produtos do “Reino Mineral”. Minerais e rochas figuravam ainda, lado a lado, nas várias propostas de arrumo.
Além da de Lineu, ficaram na história das ciências da Terra as classificações do século XVIII de Bromel (1730), Woltersdorf (que introduziu o uso do termo rocha nas classificações), Lehman (1759), Cronstedt (1771), que usou o termo latino sax, para referenciar as rochas, Werner (1774), Vallerio (1778) e Daubenton (1784). Além destas, distinguiu-se a classificação do sueco, Torbern Olof Bergman (1735-1784), químico e mineralogista de grande prestígio. No seu Manual do Mineralógico ou Esboço do Reino Mineral (1782), traduzido para português em 1799, as rochas a que chamamos sedimentares estão repartidas por algumas das classes em que foram divididos os objectos do “Reino Mineral”. Entre as “Terras”, distinguia: “terra calcária”, “terra argilosa” (barros) e “terra quartzosa” (areias siliciosas). Os “Sais” incluíam a “pedra de platre” ou “cal vitriolada” (gesso) e o sal-gema, entre outros. Nesta classificação falava-se, ainda, em “pedras simples”, entre as quais, calcários, xistos argilosos, sílex e outras rochas homogéneas à vista desarmada; e em “pedras compostas”, onde figuravam conglomerados e brechas, consideradas não cristalinas, a par de outras ditas cristalinas, como os granitos e os gnaisses; finalmente, sob a designação de “substâncias inflamáveis”, considerava os “combustíveis fósseis” (expressão que ainda hoje se mantém), que incluíam, entre outros, os carvões, o petróleo, e o âmbar (succinum).
Em 1823 foram publicadas, na Universidade de Coimbra, as Tábuas Mineralógicas, da autoria do lente Manuel José Barjona (1758-1831), obra inspirada no Sistema de Vallerio. Nesta altura, em que se não separavam os minerais das rochas, estas tábuas consideram os produtos do “Reino Mineral” distribuídos em cinco classes: “Terras”, “Pedras”, “Sais”, “Sulfuretos e Betumes” e “Metais e Semimetais”. Falava-se então de “pedras argilosas” (argilas, barros, ocres, xistos e margas) e de “pedras salinas” (calcários e gesso), de “sal-gema” e de “combustíveis não metálicos” (petróleo, carvão e betume). É interessante notar que estas propostas classificativas conservavam, ainda, uma forte influência do saber medieval. Com efeito, Avicena, na viragem do séc. X para o XI, no seu tratado sobre as pedras, De Lapidibus, já distinguia “terras”, “pedras” e “sais”.
Nota: O conceito que então se tinha de “terra” era o de materiais (minerais ou rochas) decompostos e ou desagregados pelos agentes atmosféricos, de aspecto mais ou menos pulverulento ou arenoso. É nesta óptica que os franceses chamam “terre” (e os ingleses “earth”) ao barro e que nós, com toda a propriedade, chamamos terra à fracção mineral, desagregada, do solo e, até, ao próprio solo.

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25.5.20

No "Correio de Lagos" de Mai 20

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24.5.20

Grande Angular - Esquerda! Direita! Volver!

Por António Barreto
Vinte anos são poucos para qualificar um século. Mas não se pode negar que o XXI começou mal! As duas primeiras décadas são aflitivas. No mundo inteiro.
Logo no inicio, as Torres de Nova Iorque. A partir daí, o terrorismo islâmico instalou-se. E quase inspirou outros que se seguiram. A invasão do Iraque foi exemplo de desastre. Na Líbia e na Síria, as guerras atingiram inimagináveis graus de violência. As democracias árabes, esperança precoce, transformaram-se rapidamente em desastres autoritários. As guerras de drones, conduzidas pelas nações mais poderosas, sobretudo pelos Estados Unidos, trouxeram uma nova arma de que a humanidade não se vai orgulhar.
As alterações climáticas marcaram o planeta, muitas das suas consequências são já irremediáveis. Perante elas, a incapacidade humana é a mais evidente realidade. Alguns desastres ditos “naturais” deixaram recordações perenes. O furacão Katrina de Orleães mostrou a vulnerabilidade do país mais rico do mundo. O Tsunami asiático revelou a amplitude possível da devastação. Os piores incêndios florestais da história da humanidade queimaram a Califórnia, a Amazónia e a Austrália, assim como a Grécia e Portugal. As piores secas e as mais severas inundações ficaram na memória de gente. 
As crises financeiras abalaram o mundo. Gigantescas falcatruas revelaram a infinita capacidade criminosa do dinheiro. As crises das dívidas soberanas diminuíram a força das entidades políticas. A UE exibiu a sua debilidade política. As migrações ilegais em massa e a procura de refúgio político na Europa e na América serviram para revelar desumanidade e impotência. A desigualdade social atingiu graus inesperados, assim como o crescimento obsceno de fortunas em poucas mãos.
A crise (comercial, financeira e política) entre os Estados Unidos e a China ameaça o mundo inteiro e não dá sinais de ter um termo à vista. Consolidou-se o fiasco definitivo do socialismo e do comunismo, apenas sobrando, desse modelo político, um país, a China, que produziu a aliança improvável entre dois absolutos, o da ditadura política e o do capitalismo desenfreado. As ameaças à democracia chegam-nos de todos os lados, de quase toda a África e de grande parte da Ásia, dos Estados Unidos, do Brasil, da Venezuela e da Hungria. É crescente a perda de importância da nobre Europa e da sua União, em plena decadência política, como todos os fidalgos. 
Em Portugal, fomos poupados a muitas desgraças, como seja, até agora, o terrorismo. Mas tivemos também a nossa quota-parte. Incêndios florestais como nunca se tinham visto. Vinte anos de crescimento económico quase zero. Partilhámos, até com excesso, as crises financeiras e de austeridade. Conhecemos a maior trapaça financeira da história do país. E talvez o mais corrupto governo de sempre.
A pandemia sanitária e a profunda crise económica e social que se vai seguir exigem excepcionais esforços de convergência. E até de patriotismo, conceito em desuso. Nenhum partido sozinho será capaz de resolver o que é necessário. A esquerda, sozinha, não tem soluções em liberdade. E talvez não tenha também para o investimento e o desenvolvimento. Por sua vez, a direita, sozinha, não tem soluções para a protecção social e a justiça. E talvez também não tenha para a liberdade.
E, no entanto, quando se pensa que as soluções políticas podem vir do esforço conjugado de várias forças, logo cai o Carmo e a Trindade! Bloco central não! A esquerda sozinha é que é boa. A direita sozinha é que é boa. Para a cultura política nacional, tudo o que não seja puramente esquerda ou direita cai mal. O “centrão”, o bloco da corrupção, o caldeirão central… Todas essas soluções são malditas!
Ora, em democracia, já tivemos uma dúzia de anos de governos de direita sozinha, assim como outros tantos de esquerda sozinha. Também tivemos outros anos de um só partido ou de misturas. Uma coisa é certa: não há regras nem padrões. Já houve bloco central e governos de um só partido e governos só de esquerda e só de direita. Ninguém, nenhuma solução monopolizou o erro, o disparate ou fragilidade. As várias soluções mostraram tudo aquilo de que foram capazes: trabalho patriótico, crescimento, liberdade e honestidade… e o seu contrário! Não é possível dizer que o bloco central é necessariamente corrupto ou que a esquerda e a direita sozinhas são a instabilidade e a violação da liberdade.
Foi com governos de uma só cor que se assistiu aos desastres financeiros, às políticas de austeridade, a alguns dos piores episódios de corrupção e ao desenvolvimento da porta giratória entre o governo e os interesses. A destruição do sistema bancário e do que sobrava do capitalismo português foi metodicamente levada a cabo pela esquerda e pela direita, ora aliadas, ora a governar sozinhas.
Não se percebe por que razão é tão difícil encontrar soluções governativas de maioria alargada, sem união nacional. Tantos países, na Europa, tiveram de recorrer a essa solução e a maior parte não se arrepende. Dói ver a enorme atracção que tantos revelam pelos desastres dos outros, mesmo sendo os desastres do país! É tentador pedir boleia à desgraça das instituições e do povo para criar um salvador, pessoa ou partido. A direita pede um novo clima ético, uma nova atitude patriótica e a refundação da pátria, se preciso for. A esquerda reclama novos modelos sociais e políticos, uma democracia alternativa e um novo sistema político! Todos aspiram a aproveitar o desastre! Era bom pensar que, se desastre houver, muitos deles são capazes de naufragar também. Como é possível imaginar que a salvação, a liberdade ou o desenvolvimento nascem de milhões de precários e desempregados, de milhares de mortos e infectados, de falências e fraudes sem fim?
Quem havia de dizer que, nas esquerdas e nas direitas, encontraríamos um dia reminiscências das teorias de Schumpeter sobre a destruição criadora do capitalismo? Aflige ver a exigência de novos modelos de sociedade, de economia, de consumo e de Estado e acreditar que esses modelos, ou lá o que forem, estão à espreita de uma oportunidade para vingar por cima dos escombros da sociedade actual. Por cima do capitalismo e da democracia actuais, e até, ironia maior, por cima do esquerdismo actual.
A esquerda sozinha não consegue resolver os próximos anos. A direita sozinha também não. Muito menos um só partido. Não custa reconhecer o inevitável. Mesmo quando este não nos agrade. Eis por que prever e prevenir são actividades nobres. Eis por que preparar-se é um dever.
Público, 24.5.2020

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No "Correio de Lagos" de Mai 20

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22.5.20

Sem Pão nem Circo

Por Joaquim Letria
Não me parece estar a prestar-se grande atenção às dificuldades extremas que muitos  milhares de portugueses estão já  a viver em consequência da pandemia.
As pessoas ligam a números e estatísticas mas esquecem-se de traduzir esses números e variáveis, como agora também é moda dizer, em pessoas de carne e osso, em velhos solitários, em crianças subnutridas, em trabalhadores desempregados, em comerciantes sem comércio, em inquilinos sem dinheiro, em senhorios sem rendas, em lojistas sem lojas, em fábricas fechadas, em pessoas com fome, muitas das quais trabalhando, nem que seja em parte time ou permanecendo em regime de “lay-off”.
O Banco Contra a Fome fez saber que está a receber mais de mil pedidos de géneros por dia para gente com extrema necessidade e a Presidente do Banco esclareceu que os mais de mil pedidos diários não correspondem ao mesmo número de pessoas. A maior parte dos pedidos são feitos por instituições e há num único pedido, por vezes, quantidades destinadas a asilos, paróquias, lares, escolas, que esmolam cada um quantidades superiores às necessárias a um mínimo de 150 pessoas.
Os políticos são fraquinhos e andam noutra. A gente vê-os preocupados com os fundos, com a sorte do Centeno, com as discussões europeias, os 850 milhões de mais dinheiro público para um banco privado sem conhecimento do Primeiro Ministro e antes que façam uma auditoria a esse banco. Também ficamos admirados com as cabecinhas pensadoras que estudam o distanciamento social nas creches e nas praias, proíbem as visitas aos lares de velhos ou mexem na vida dos jogadores do futebol que desejam que regresse mesmo à porta fechada. Depois há o entretenimento dos totoCOVID 19, com os seus mortos, cuidados intensivos, recuperados, infectados, por idades, regiões, províncias, países e continentes.
Para além da miséria que a maioria não vê e outros não querem ver, mas que está aí, há outras duas misérias ainda mais dolorosas: a miséria escondida e a miséria envergonhada. Não sei se cabem nestas duas categorias a situação dos circos e a das bandas de música. Há mais de 30 pequenos circos fechados, espalhados pelo país, sem dinheiro para pagarem despesas e enfrentando a má vontade da maioria das autarquias, sem que lhes perdoem taxas e impostos de veículos pesados parados, que pagam tanto ao Estado como os camiões das transportadoras. Também dezenas de bandas de música, que através do país substituem muitas vezes o Estado, no ensino e formação profissional de músicos, constituindo mini—conservatórios, real alfobre de talentos que vemos despontar em Portugal e no estrangeiro, estão na mais difícil situação sem que lhes chegue uma merecida e possível ajuda, nem uma palavra sequer.
A pouco e pouco vamos ficando sem pão nem circo…
Publicado no Minho Digital

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21.5.20

Os bancos e a economia

Por C. B. Esperança
Sei pouco de tudo e ainda menos de macroeconomia. A microeconomia, gestão de bens próprios, fui-a compreendendo empiricamente, mas não faria um voto consciente se não refletisse nas opções que os vários partidos me propõem, incluindo o campo económico.
Aprendi alguma coisa sobre finanças em 1973, por experiência própria. Em março tinha 80 mil escudos disponíveis e, como ia entrar com excelente remuneração, no início de abril, na multinacional onde acabaria a minha vida ativa, decidi converter as economias em ações de empresas cotadas na Bolsa de Lisboa.
Era solteiro, não precisava do dinheiro, e deixei-as ficar. Em fins de agosto, de regresso das férias em Itália e Jugoslávia, fui passar a última semana com os meus pais, e pensei vendê-las. Valiam duzentos e muitos contos, à cotação de 1 de setembro, altura em que regressei ao trabalho. Por esse valor podia ter comprado um T-3 novo em Coimbra. Não o fiz e, nesse mês, a subida do barril do petróleo de US$ 10 para 20 dólares levou ao encerramento da Bolsa e acabei por perder a totalidade das economias.
Conto este episódio, que a direita gosta de atribuir ao 25 de Abril, porque aprendi então que eram voláteis os valores mobiliários, como, aliás, os imobiliários e a própria vida. Serve também para refletir sobre a recente encenação da alegada obrigação de os bancos ajudarem os contribuintes, porque estes já os ajudaram no passado. E a saga continua.
Rui Rio referiu a obrigação e Marcelo coreografou a reunião por videoconferência com banqueiros, isto é, CEOs dos bancos, finda a qual garantiu aos portugueses que estavam empenhados nessa ajuda, promessa que, a ter sido feita, não podia ser cumprida.
Não entendo como os bancos, penalizados nos seus ativos financeiros, podem estar em condições de injetar dinheiro na economia. Aliás, por muito que custe aceitar, são os banqueiros quem mais dinheiro perde nas atuais circunstâncias. Basta lembrar a falência do banco Lehman Brothers, a crise financeira que provocou e a tragédia que se seguiu nos países de economias mais débeis.
Apesar de alguns economistas afirmarem o contrário, tenho por adquirido que a falência de um banco arrasta outros, efeito dominó, e atrai vampiros à espera dos cadáveres. No sistema capitalista, único que existe, os bancos são os órgãos do aparelho circulatório da economia e não podem falir. Quanto à propriedade, é outro assunto. De Gaulle estatizou alguns e, mais tarde, lamentou não os ter nacionalizado a todos.
A experiência ensinou-me que as ações de bancos, construtoras, seguradoras, empresas de comunicações ou outras, não valiam um centavo após a falência.
Estou convicto de que uma Europa mais pobre não pode ressarcir os prejuízos, mesmo os países mais ricos. Prevejo que a desvalorização da moeda, a subida de impostos ou a redução efetiva de vencimentos e pensões seja inevitável. Só assim se compreendem as resistências de alguns países ricos à generosa proposta de Merkel e Macron.
Se não tivéssemos o euro, como moeda, há muito estariam depreciadas as remunerações dos trabalhadores e, sobretudo, as pensões. Lembro-me da excelente pensão do meu pai (1971) e da modéstia a que estava reduzida quando faleceu (1997).
E, se não integrássemos a União Europeia, era provável termos já perdido a democracia.
Ponte EuropaSorumbático

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18.5.20

No "Correio de Lagos" de Abr 20

Este país não é para velhos - (*)
I — HÁ UNS ANOS, Miguel Esteves Cardoso, numa das suas saborosas crónicas, comentava o facto de os portugueses gastarem tanto tempo a NÃO LER, referindo-se àqueles que dizem que é assim porque “não têm tempo”, mesmo quando tempo é coisa que não lhes falta. Ao escrever isso, MEC talvez estivesse a pensar na Inglaterra, que conhece bem, e que se caracterizava por estar cheia de gente a ler livros e jornais — nomeadamente nos transportes públicos — ao contrário do que por cá sucedia, fosse em que circunstâncias fosse.
Pois bem, “tempo para ler” é coisa que agora não escasseia, e muito menos sugestões de obras relacionadas com o drama que vivemos; e como o tema incontornável é o Coronavírus, não podem deixar de vir à colação as que abordam aquilo que, dantes, mais se lhe assemelhava: a PESTE. 
Nessa linha, e para referir apenas três clássicos, aí temos o “Decameron” (de Boccaccio), “A Máscara da Morte Vermelha” (de Poe) e, claro, “A Peste” (de Camus); no entanto, o “Ensaio Sobre a Cegueira” (de Saramago) e “O Amor em Tempos de Cólera” (de Garcia Marquez) também não ficam mal no rol, para já não falar n’ “A Ameaça de Andrómeda”, de Michael Crichton, cuja “personagem principal” é, precisamente, um vírus de origem desconhecida. 
Obviamente, muitas outras obras se poderiam aqui citar, com diferentes níveis de qualidade e verosimilhança, mas permitam-me que refira uma que, talvez por não ser de ficção, é extremamente certeira: trata-se de “O Gene Egoísta”, de R. Dawkins, que expõe uma verdade incómoda: todos os seres vivos (sejam eles animais ou plantas, bactérias ou seres humanos) têm, como primeira prioridade, a sua sobrevivência, o que os leva, em caso de perigo iminente, a passar por cima de tudo e de todos, num exercício cego de «cada um por si», que despreza a lógica e a solidariedade, numa pulsão a que não escapam, sequer, os seres mais racionais das sociedades desenvolvidas.
Claro que, relacionados com o EGOÍSMO, há o MEDO e o PÂNICO, mas trata-se de mecanismos biológicos de sobrevivência, ancestrais e automáticos, que permitem a segregação da adrenalina necessária para a luta ou a fuga — e é por isso que são tão ineficazes os apelos de “Tenham calma!” quando dirigidos a quem está a ser confrontado com um perigo desconhecido e invisível, como sucede com o que, por estes dias, nos atormenta.

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II — ENTRETANTO, por esse mundo fora, quase todos os responsáveis políticos foram “apanhados com as calças na mão”, reagindo tarde e mal, mas, mesmo assim, melhor do que aqueles que preferiram comportar-se como a avestruz, ficando estes ao abrigo de qualquer comentário, por manifesta escassez de adjectivos apropriados. Mas os ”simplesmente distraídos” também não têm desculpa, pois não faltaram, nos últimos tempos, avisos bem fundamentados acerca do que aí podia vir, de que se destacou, pela sua clareza e impacto mediático, a proclamação de Bill Gates em 2015, em que ele previu, com uma lucidez que hoje nos faz arrepiar, TUDO o que agora está a acontecer. De facto, numa sua “TED Talk” (disponível no YouTube), está lá TUDO: TUDO aquilo que hoje nos apoquenta foi lá dito, previsto e explicado em todos os seus aspectos: o vírus-assassino, a sua rápida propagação (global e exponencial), os meios de o combater, a indispensável prevenção local e colaboração internacional, os custos em dinheiro e em vidas (do que se fizer e do que não se fizer)... tendo sempre, como pano de fundo, a proverbial incapacidade de previsão e incompetência dos políticos incapazes de perceber a realidade, mesmo quando o inimigo, tal como no conto de Poe que atrás refiro, já lhes entrou em casa.
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(*) – Título de um romance de Cormac McCarthy, adaptado ao cinema pelos irmãos Coen.
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No “Correio de Lagos” de Abril 2020

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17.5.20

Grande Angular - Justo furor

Por António Barreto
Algures para os lados de Peniche, uma menina, Valentina, foi assassinada. Tudo leva a crer que os autores tenham sido o seu pai e madrasta. Com irmãos espectadores. Com pancadaria, sofrimento, tortura e encenação escabrosa. Não falta quem reclame justiça privada para castigar aquelas bestas. Nem quem considere que é o momento chegado para restaurar a pena de morte para certos casos, como o assassinato de crianças. Há quem prefira a prisão perpétua. É sempre assim: perante um excesso de violência e de crueldade, logo aparece o excesso de vingança. Ódio com ódio se paga. É o pior que se pode fazer. Basta que se aplique a lei actual e que se proíba a redução. Poder-se-á aumentar a duração da pena? Talvez. Tudo o resto, prisão perpétua, pena de morte e justiça por mãos próprias, é do domínio da vingança, da raiva e não da justiça. 
Há um justo furor, uma revolta contra a violência e a maldade de um adulto, de um pai, de uma mãe ou de um marido, que chegam a este ponto de desumanidade. Fúria contra os que vieram primeiro dizer que se tratava de bons vizinhos, para depois os quererem linchar. Fúria também contra os serviços de protecção de menores e contra os que deviam ter responsabilidades. Fala-se de crianças sinalizadas, mas esquecidas. Diz-se que já havia ficheiros constituídos. Que havia… 
Sinalizados assassinados não faltam. Já não é o primeiro caso. Nem o segundo. Ora crianças. Ora velhos. Ora doentes. Ora mulheres. Sinalizados assassinos também não faltam. À solta. O Estado é só incompetente? Burocrático? Não tem leis que cheguem? Não tem pessoal? Não tem equipamentos? Será que há problemas de carreira? Tudo parece ser possível. Mas uma coisa é certa: num país como o nosso onde é tão fácil pedir ao Estado dinheiros e regalias, empregos e benesses, há receio de pedir ao Estado que proteja as crianças, as mulheres, os doentes e os velhos.
Estamos mais uma vez diante de dilemas. Neste caso, os do papel do Estado e dos serviços de protecção. Pode o Estado retirar membros de uma família para os proteger? Pode retirar crianças aos pais? Tem o dever de esconder mulheres? Pode guardar idosos? Não estamos mais uma vez a pensar que o Estado resolve, que o Estado é justo, que o Estado é ama, padrinho e mãe?
O que tem piores consequências? Meter o Estado dentro de casa? Trazer para dentro das famílias as leis, os assistentes sociais, os serviços de protecção, os juízes, os psicólogos e a polícia, retirar crianças e jovens menores aos pais, colocá-los em instituições, violar as tradições familiares, fazer tábua rasa de velhos hábitos, ignorar que dentro de casa os pais são os reis, mas tentar salvar a vida ou a integridade física de crianças? Ou deixar as famílias resolver os seus problemas, permitir que os conflitos se tratem dentro de quatro paredes, não violar a intimidade e não contribuir para que se destrua ainda mais a família e o seu meio de cultura, afecto e cuidado? E se a intervenção do Estado foi excessiva e não se justificava? E se a protecção do Estado foi mal calculada e não chegou a horas? O que é mais grave? Educar crianças em meio institucional, dando o flanco aos abusos conhecidos e às organizações de exploração sexual e laboral? Ou deixar educar crianças em ambientes violentos, disfuncionais e perigosos, mas familiares?
Verdade é que há qualquer coisa que não está certa com as instituições de protecção às crianças e com serviços que devem protecção aos fracos, aos idosos, aos deficientes e aos internados em lares. Ou aos hóspedes temporários de hostels de imigrantes. Há qualquer coisa errada com as crianças “sinalizadas” e que acabam por ser assassinadas ou abusadas. Ou com as mulheres “sinalizadas” e que os maridos matam ou sovam. Ou com os velhos “sinalizados” e que os bandidos ou os presumíveis herdeiros espancam e roubam. Ou com os candidatos a refugiados que conseguem entrar no país, são “sinalizados” e depositados aos cinco e aos dez por quarto em pousadas geridas por negreiros, com o silêncio ou a cumplicidade de serviços públicos.
Veja-se o que se tem passado com os lares no decurso da presente pandemia. Velhos quase a monte, residências sobrelotadas, taxas de contágio absurdas e contaminados às dúzias. Onde está o Estado? Onde estão os serviços de protecção? Será que se trata de mais uma discussão ideológica sobre o papel do Estado? Será que se pensa que não se pode retirar crianças à família, porque a família é sagrada? Porque os pais e as mães naturais são sagrados? Será que se acredita sempre mais na palavra do pai porque é pai, da mãe porque é mãe? Mesmo quando são bêbedos, bandidos e criminosos? O Estado tem receio da Igreja que considera sagrada a família? O Estado entende que só em última instancia é que se pode e deve intervir, quando é certo que a última instancia é quase sempre tarde de mais. Quantas vezes se ouve dizer que a criança estava sinalizada, que o velho estava identificado, que a doente estava referenciada e que a mulher estava registada? E quantas vezes se ouve dizer que estes todos, mortos, estavam sinalizados?
Os números são cruéis. Nas duas últimas décadas, pelo menos trinta crianças assassinadas. Milhares de mulheres batidas e violadas em casa e no espaço público. Trinta mulheres assassinadas por ano. Centenas de velhos feridos ou mortos em casa. Os serviços de protecção, as polícias, os magistrados, os assistentes sociais e as autarquias estão mal preparados para prevenir. Provavelmente mal equipados. Seguramente sem meios. Mas sobretudo mal formados, parece. Na verdade, a ideologia da família, à luz da lei, da Igreja e dos costumes, faz com que se deixem os mais fracos abandonados. A família é capaz de tudo, do melhor e do pior. Mas é sabido que a maior parte dos crimes contra as crianças, os velhos e as mulheres ocorrem em “ambiente familiar”. E que a grande maioria dos crimes de abuso sexual têm igualmente a família como cenário e decoração.
O que é preciso de crueldade e de falta de humanidade, para espancar, matar e esconder uma criança de nove anos? O que é preciso de barbaridade para deixar os velhos literalmente amontoados a morrer, sem dignidade, sem serviços de inspecção e sem protecção da autarquia, do Estado ou seja de quem for? O que é preciso de selvajaria para espancar uma mulher, a sua mulher, a mãe dos seus filhos até a matar ou deixar desfigurada? O que é preciso de brutalidade e de grosseria para espancar ou matar os velhos indefesos e doentes! Estes crimes não têm desculpa, nem perdão. Nem atenuantes, sejam eles a miséria, a ignorância, as origens, o desespero, o álcool ou a droga…
Público, 17.5.2020

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PERGUNTA DE ALGIBEIRA (Cont.)

16.5.20

PERGUNTA DE ALGIBEIRA

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Há aqui qualquer coisa que merece reparo. O que é?

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15.5.20

TRATAM TODOS MAL E DEPOIS CHAMAM-LHES HERÓIS

Por Joaquim Letria 
Nunca pensei que a minha última crónica neste jornal acerca de médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de saúde pudesse despertar as reacções contraditórias que despertou. Há anos que defendo os profissionais de saúde. Por isso, se me dão licença, vou continuar. E se outros argumentos não tivesse, tenho um indesmentível.
Por mais duma vez salvaram-me a vida em hospitais públicos, sem saberem quem eu era nem eu saber em que mãos me metiam, quem me curava, quem de madrugada vinha ver como eu estava e ajudar-me, fosse em quartos, fosse em enfermaria. E isto não se paga, mas reconhece-se.
Nunca é demais recordar o número de anos que um médico ou um enfermeiro especialista têm de estudar para terem uma formação idónea e de confiança. Ninguém ignora os anos necessários até alcançarem uma experiência prática suficiente em qualquer das especialidades. Tudo isto deixou de ser reconhecido há décadas em grande parte como consequência do bloqueio político da progressão  das carreiras, muito em particular no caso dos profissionais hospitalares.
A verdade é que a formação e experiência de todos eles é cada vez mais completa e melhor, na proporção inversa do reconhecimento das profissões de saúde que são premiadas com salários cada vez piores, assim como os benefícios secundários lhes são negados ou progressivamente reduzidos.
Curiosamente, apesar deste desgaste injusto que acompanha a dureza dos horários, das condições de trabalho e das situações clínicas, não encontramos os profissionais de saúde desmotivados ao ponto em que deviam estar, sabendo também eles que nem os sindicatos lhes servem para grande coisa. No fundo, são os doentes que dão sentido à sua vida e preenchem o seu dia a dia, ao mesmo tempo que os expõem às injustiças de que são vítimas. 
E se se investiga a origem dos fundos de solidariedade duma greve, como vergonhosamente aconteceu com os enfermeiros, saiba-se que também os médicos são fiscalizados ao enriquecerem a sua formação, cada vez mais complexa e dispendiosa. Eles têm de prestar contas por cada uma das acções de formação, suportadas quer pela indústria farmacêutica, quer pelos produtores de novos dispositivos médicos, e para as quais nem o Estado nem as estruturas hospitalares contribuem com um único euro.
No fundo, nestes últimos 20 anos, não houve a menor vontade política de dignificar estes funcionários do Estado, verdadeira alma do Serviço Nacional de Saúde, nem eles próprios lutaram o suficiente devido à sua real preocupação em não descuidar os doentes, apesar das condições verdadeiramente penosas que lhes são impostas.   
E agora, mesmo continuando a recusar-lhes o reconhecimento de terem uma profissão de risco, chamam-lhes heróis…
Publicado no Minho Digital

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14.5.20

No "Correio de Lagos" de Abr 20

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A Liberdade de expressão e os seus limites

Por C. B. Esperança
Quando se volatilizam direitos inalienáveis, não por regresso à ditadura ou por reflexo do estado de emergência, mas por medo do vírus que provocou a maior catástrofe das nossas vidas, urge refletir sobre os direitos que restam e a forma de readquirir os que suspendemos.
Apesar do equilíbrio precário entre deveres e direitos não podemos aceitar que o adágio popular “o meu direito termina onde começa o do outro” se converta em axioma. Basta a reprovação social para levar a constrangimentos inaceitáveis.
A moral é a ciência dos costumes e não um princípio universal para todas as épocas e culturas. As únicas restrições aceitáveis são as que o Código Penal de uma democracia impõe. Há divergências entre o crime e a moral. O adultério, v.g., é, na minha opinião, imoral, mas não é crime, e não esqueçamos que crimes como o incesto, a escravatura ou a tortura foram legais e considerados morais. Até a antropofagia! Ainda hoje, há países onde o adultério feminino e a homossexualidade são crimes graves, e a pedofilia, sob os auspícios do matrimónio, é legítima. Homens de 50 anos podem comprar e desposar crianças de 9 anos!
Se o facto de ferirmos preconceitos, convicções ou normas morais, individuais ou de grupo, limita o direito de expressão, privamo-nos dele. Sabemos que a defesa de uma ideologia fere quem perfilha a contrária, a defesa do clube desportivo ofende adeptos do clube adversário, a carne de porco e o álcool horrorizam mais de 20% da Humanidade, a defesa dos Direitos Humanos é abominada por metade dos homens, etc., etc.
Há um crime de sabor medieval que persiste no Código Penal português com pena ‘até um ano de prisão’, a blasfémia, sabendo-se que é blasfémia considerar os sacramentos placebo e inútil a liturgia, como já foi blasfémia defender o movimento de rotação da Terra ou a evolução das espécies. Felizmente, a jurisprudência portuguesa privilegia a liberdade de expressão.
Quem persuade islamitas a aceitarem direitos iguais para homens e mulheres ou hindus a abolirem a divisão em castas, a dessacralizar as vacas e a aceitarem que a viúva não se desonra por não se deixar cremar com o defunto ou por voltar a casar?
A homofobia, o racismo, a xenofobia e a misoginia já foram virtudes, hoje são crimes.
Quem explica aos judeus ultraortodoxos que o porco ou a beleza feminina não ofendem o deus deles e a muitos cristãos que os transplantes não são blasfemos?
Defendo o direito de injuriar o ateísmo, a social-democracia e a República, valores que perfilho, e o de satirizar as crenças, a monarquia e quaisquer outros modelos políticos, económicos ou religiosos. É o direito a combater ideias que defendo, não o de molestar pessoas que as perfilhem.
A defesa dos mortos, por mais criminosos que tivessem sido em vida, ou das tradições, por mais abjetas que sejam, é uma forma de condicionar o espírito crítico, de defender o imobilismo e castrar o livre-pensamento.
Sem direito ao contraditório, não há liberdade de expressão. Sem neutralidade do Estado, não há liberdade religiosa ou política.

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12.5.20

No "Correio de Lagos" de Abr 20

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11.5.20

A HISTÓRIA ENSINOU-NOS QUE QUEM FAZ A LÍNGUA É QUEM A FALA E ESCREVE

Por A. M. Galopim de Carvalho
Para o geógrafo ou para o geólogo o termo “arriba” designa os escarpados menos ou mais elevados, próprios de margens de rios muito encaixados (p. ex. no vale do Douro Internacional) ou de litorais catamórficos (forma erudita de dizer que estão expostos à erosão das vagas), observáveis em grandes extensões da Costa Vicentina ou nos Cabos Espichel, da Roca e Mondego.
Podemos encontrar este mesmo conceito referido pelo termo “falésia”. Acontece que ambos os termos podem ser lidos tanto em textos científicos como em outros pedagógicos, de divulgação ou de ficção.
Arriba e falésia são duas maneiras de dizer a mesma coisa. Arriba é uma palavra antiga que fomos buscar ao latim “ripa”. Falésia é um aportuguesamento relativamente recente da palavra francesa “falaise”. Autores há que, numa atitude purista da língua, repudiam este último termo, apodando-o de francesismo desnecessário.
O meu professor Carlos Teixeira (1910-1982), grande referência no engrandecimento e valorização da Geologia em Portugal, senhor de uma linguagem escrita sem intenções ou preocupações de estilo literário, mas impecavelmente correcta, repudiava liminarmente o vocábulo “falésia” e riscava-o, nos muitos textos dos seus alunos e colaboradores, entre os quais me contei, que pacientemente lia e corrigia, ensinando-nos a escrever em bom português.
Também o professor Orlando Ribeiro, geógrafo e humanista de craveira internacional, senhor de muitos saberes, que expunha numa linguagem falada e escrita de invulgar correcção e beleza, não raras vezes poética, que marcou a minha maneira de encarar as ciências da Terra, a um tempo, naturalista e cultural, rejeitava, igualmente, o termo “falésia”.
Acontece, porém, que na toponímia oficial, a par de designações como “Arribas do Douro”, no Parque Natural do mesmo nome, no distrito de Bragança, e “Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica”, conhecemos as de “Aldeia da Falésia” e “Praia da Falésia”, no Algarve.
Uma atitude idêntica destes mestres tinha lugar face aos vocábulos “barranco” e “ravina”, duas formas de referir os sulcos menos ou mais profundos escavados pelas enxurradas pluviais nas cabeceiras dos cursos de água. O mesmo se passando com os termos derivados “abarrancado” ou “ravinado” e “abarrancamento” ou “ravinamento”.
De origem pré-romana, barranco (ou barroca) é palavra popular autóctone adoptada no vocabulário geográfico e geológico. À semelhança de falésia, ravina entrou-nos por aportuguesamento do francês “ravin”, num testemunho da francofonia que foi tónica no nosso meio académico nos anos que antecederam o último quartel do século XX.
Neste período áureo da penetração da inteligência gaulesa na nossa vida cultural e científica, em particular no ensino superior e na investigação científica, a língua de Molière dominava nos compêndios e manuais de estudo. Porém, os anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) deram hegemonia ao inglês, situação que se tem vindo a acentuar com a globalização de múltiplos sectores da actividade dos povos deste planeta já referido por alguns por “aldeia global”. No léxico geológico assisti à invasão de vocábulos como riple, rifte, silte, gnaisse, grauvaque, loess, intertidal, e muitos outros, por aportuguesamento de termos anglo-saxónicos e, por falta de termos nacionais, à adopção pura e simples de termos estrangeiros, como “horst”, “graben”, “iceberg”, “tsunami”, “terra rossa”, “raña”, “palygorskite”, entre muitos outros.
Praticamente, todos os dias a nossa língua vê o seu léxico aumentado por via dos progressos científicos e tecnológicos. Eu próprio criei, em 1988, o neologismo “exomuseu” incluído na expressão “Exomuseu da Natureza”, designação ainda não oficial de uma estrutura museológica dispersa no território nacional, constituída por vários pólos situados onde quer que ocorram elementos considerados de interesse em termos de património natural, fazendo parte de um conjunto coordenado a partir de um ou mais centros com competências científica e pedagógica adequadas (uma Universidade, um Município, uma Fundação). Não constando ainda dos dicionários, o termo “exomuseu” existe nos protocolos assinados entre o Museu Nacional de História Natural e diversas autarquias.
A miscigenação cultural decorrente da facilidade e rapidez das comunicações na sociedade cada vez mais mundializada é outra via para o dito aumento.
Não prescindimos hoje de palavras da nossa vida corrente como, por exemplo, “evoluir”, “implementar” e “controlar”. E que dizer de “clicar” e outros termos hoje habituais na sociedade das novíssimas tecnologias e da informática?

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No "Correio de Lagos" de Abr 20

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10.5.20

Grande Angular - Nós e eles

Por António Barreto
A pressão ilegal de emigrantes e refugiados tem deixado a Europa em transe. Há Europeus apavorados. Outros em fúria e com ganas de esfolar. Outros ainda com vontade de fechar fronteiras. E outros paralisados.
A pressão, muitas vezes racista, de grupos anti-racistas, sobretudo brancos e africanos, tem contribuído para provocar reacções xenófobas.
O comportamento irresponsável de certas esquerdas, na tentativa de exacerbar a luta entre etnias, faz o que pode para abrir uma questão racial.
Para completar o quadro, a pandemia despertou todos os imagináveis sentimentos xenófobos, na convicção de que as fronteiras fechadas são os melhores antídotos contra a proliferação do vírus.
Por enquanto, em Portugal, o clima não é ameaçador. Alguns grupos de esquerda, em luta contra o sistema democrático, fazem-se mal ouvir. Umas tantas associações anti-racistas esforçam-se, por enquanto sem grande êxito, por azedar o espaço público. Outros grupos, à direita, provocam as minorias numa tentativa, por enquanto frustre, de glorificar o nacionalismo.
É verdade que há vozes que incomodam, mas não parece haver perigo iminente. Por isso são de admirar as reacções às opiniões do deputado André Ventura. A importância destas é inversamente proporcional ao alarido que provocam. O senhor disse umas tolices sobre Ciganos e o mundo político caiu-lhe em cima. Que vem aí o fascismo. Que é necessário reagir e mobilizar (antigamente dizia-se “avisar a malta”), antes que sejam milhões a dizer o mesmo.
É tão estranho! A democracia portuguesa está assim tão frágil que não permite que haja uns tantos tolos racistas e umas dúzias de xenófobos? É outra vez a história de um prurido provocar a maré-cheia? Estará assim Portugal tão fraco que uma palpitação irracional ameaça as liberdades e a decência? É que… se assim for, estamos mesmo mal!
Necessitamos de políticas sobre as migrações, os refugiados, os negreiros da hotelaria, o narcotráfico e a violência contra as mulheres… Mas não necessitamos de políticas dirigidas aos Ciganos, aos Muçulmanos, aos Africanos ou aos Chineses… Uma das manifestações mais odiosas do racismo é a que identifica defeitos com grupos étnicos. É nesse momento que, em vez de lutar contra o crime, se passa a lutar contra um grupo. É tão criminoso lutar, em Portugal, contra o “banditismo cigano” como contra o “racismo branco”. Contra a “corrupção angolana” como contra o “nepotismo português”. Contra o “terrorismo árabe” como contra a “máfia ucraniana”. Mas contra qualquer daqueles crimes, sem designação de etnia, sim, com certeza.
Há ciganos que recusam a integração, não pagam impostos e roubam? Há. Como brancos europeus. E árabes também. Todos merecem o mesmo tratamento. Há brasileiros que vivem do proxenetismo e do lenocínio? Negros também. Ciganos, brancos, espanhóis e portugueses também. Todos merecem o mesmo tratamento. O racismo russo ou indiano não é melhor nem pior do que o americano ou francês. E o de direita não é mais perigoso do que o de esquerda.
Como é evidente, existem problemas, não com todos, mas com alguns Ciganos, por causa de comportamentos peculiares. Como existem com alguns Muçulmanos, Indianos, Chineses, Brasileiros, Cabo-verdianos e muitos Portugueses (até porque há mais…). Existem problemas quando grupos cultivam crenças e têm costumes contrários aos que as leis permitem, como por exemplo bater nas mulheres, nos velhos e nas crianças, praticar a excisão e a fibulação, vender crianças para casamento e outras variedades conhecidas. Existem ainda problemas com alguns Portugueses, mas também com Angolanos, Russos, Chineses, Paquistaneses e Espanhóis envolvidos em negócios menos claros, em actos de favoritismo, corrupção, desvios de dinheiros e fuga ao fisco. Todos estes comportamentos exigem acção das polícias, da Justiça e de outras entidades defensoras dos direitos humanos, mas não exigem tratamento étnico especializado, que é o traço do racismo e do preconceito. Que é o que o deputado André Ventura gosta de fazer, no Parlamento e na televisão, com a notável experiência que adquiriu num das áreas humanas mais favoráveis ao preconceito, à corrupção e à violência: o futebol!
O preconceito, a xenofobia e o racismo: eis alguns dos defeitos mais baixos da humanidade. As suas manifestações voltam com enorme facilidade. São da autoria de muita gente. São reacções de pessoas fracas de espírito. É gente que usa um dispositivo odioso, o da generalização. Culpa sempre os outros por qualquer coisa. Atribui aos outros as responsabilidades por tudo quanto corre mal. Considera que eliminar, proibir, calar e expulsar os outros são soluções para os seus problemas.
O Diabo está nas generalizações. De género conhecido: os Portugueses são racistas. Os Judeus são usurários, os Negros preguiçosos, os Árabes ladrões, os Muçulmanos terroristas, os Ingleses piratas, os Holandeses maricas, os Ciganos vendedores de droga e os Alemães nazis. E poderia continuar até ao infinito: os Indianos desconfiados, os Romenos vigaristas, os Chineses canibais, os Americanos atrasados mentais. Quanto aos Espanhóis… estamos conversados…
Muito curiosa é a reacção de gente oportunista de alto calibre. Já há quem faça apelos contra o fascismo, quem estabeleça paralelos com a pior escumalha deste mundo. Mas sempre com um fito: aproveitar politicamente. Lutar contra a direita, que culpam de fascista e de nazi. Lutar contra os brancos, os europeus, os cristãos, os democratas… Como se o racismo e a xenofobia fossem necessariamente de direita. Recordo o que dizia Jorge Almeida Fernandes há mais de vinte anos: “Um anti-semita não é necessariamente um nazi”! É exactamente o que se pode dizer hoje de qualquer forma de racismo, de preconceito religioso e de xenofobia: há disso nas direitas e nas esquerdas, entre ricos e pobres, no meio dos brancos e dos negros e em círculos cristãos ou muçulmanos.
É verdade que há hoje factores de sobra que convidam ao irracional. A democracia está em crise. A Europa também. A política não tem muito boa reputação. A corrupção vinga. As crises das migrações e dos falsos refugiados ameaçam a estabilidade europeia. Os Europeus e os democratas têm dificuldade em assumir uma posição simultaneamente liberal e de firmeza, isto é, que aceite o princípio da legalidade e do controlo das migrações. A pandemia em curso veio agravar tudo: para muitos, fechar as fronteiras foi a solução. O preconceito não é a melhor resposta. Não é sequer uma resposta.
Público, 10.5.2020

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9.5.20

No "Correio de Lagos" de Abr 20

Recentemente, fomos informados que os caixotes do lixo da Sulo iriam ficar com as tampas abertas para que não seja necessário pegar-se no respectivo punho, correndo o risco de contágio, e evitando que as pessoas, com medo disso, coloquem o lixo no chão. Tudo bem, parece ser uma medida acertada (pelo menos temporariamente), e que, com maioria de razão, seria de estender aos ecopontos subterrâneos, nomeadamente os de papel, vidro e embalagens, cujo conteúdo, por natureza, não é demasiado “porco”. 
Quanto a este último aspecto, já não se poderá dizer o mesmo dos que se destinam aos RSU (o lixo indiferenciado), mas enfim... se forem esvaziados rapidamente, estarão nas mesmas condições que os caixotes verdes, até porque oferecem mais garantias de salubridade. 
Assim sendo, e pelo menos durante a actual crise, vamos aqui suspender as referências aos contentores sem tampa, só esperando que os responsáveis por essa situação não venham gabar-se de que são tão geniais que até souberam PREVER os actuais problemas.

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8.5.20

HERÓIS, APLAUSOS E RECONHECIMENTO

Por Joaquim Letria
Desde que começámos a ver-nos aflitos e a morrer como tordos passámos a chamar heróis aos profissionais de saúde.
Mas eu acho que eles são simplesmente médicos, enfermeiras, técnicos, auxiliares, bombeiros, maqueiros e administrativos a fazerem, com maior sacrifício e grande competência, o que faziam até aqui, mas agora em condições mais dramáticas, difíceis e perigosas, com os mesmos salários vergonhosos e vendo continuar a ser-lhes recusada a dignidade que as suas profissões merecem, mesmo quando nos salvam a vida colocando em risco a sua própria saúde e existência.
Entre os que vão para as janelas bater-lhes palmas e tocar cornetas estão, possivelmente, muitos dos que ainda há pouco os insultavam, se manifestavam contra o pedido de aumentos, a exigência de condições de trabalho e o merecimento do reconhecimento de carreiras que continuam por existir de forma a lhes prestar justiça ao estudo, aos estágios, ao estudo permanente e à sensibilidade requeridas pela dureza das suas profissões.
Claro que não vou ao ponto de pensar que entre os que hoje os aplaudem também estão aqueles que até batiam nos médicos e enfermeiras, nem que foi a ministra da saúde a mandar não lhes aumentar 0,3% os salários, ao contrário de todos os restantes funcionários públicos, nem isto aconteceu por maior falta de consideração…
As mesmas enfermeiras e enfermeiros que hoje aplaudimos ainda há pouco eram humilhados na sua dignidade e até inspecções financeiras lhes foram montadas para criarem suspeitas infundadas sobre a origem dos fundos angariados por solidariedade para se manterem numa greve que, ao contrário do que os políticos diziam, teve a preocupação de não pôr em risco vidas humanas.
Milhares de enfermeiras, enfermeiros, médicos, técnicos de diagnóstico e investigadores de ciências biomédicas ajudam hoje a sustentar serviços nacionais de saúde estrangeiros, como o britânico e o francês, enquanto muitos outros estão espalhados pelas Américas do Norte e do Sul, pelo Oriente e por África, para onde tiveram de ir trabalhar quando o seu país não lhes deu emprego ou, muito simplesmente, os políticos tiveram o descaramento de lhes dizer para emigrarem. 
Acho bem que lhes chamemos heróis, que os reconheçamos e os animemos aplaudindo o seu trabalho, porque eles merecem que os tratemos assim. Mas talvez eles também gostassem que, juntamente com os aplausos, nos juntássemos todos a eles para exigirmos que lhes seja conferida a qualificação de profissão de risco, a qual também os médicos há décadas pedem, sem que nenhum dos burocratas dos que até hoje nos tem governado tenha tido a decência de lhes conceder.
Publicado no Minho Digital

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7.5.20

O futuro é cada vez mais incerto

Por C. B. Esperança
Parto de um truísmo banal para discorrer sobre os tempos que aí vêm, ameaçadores dos mais elementares direitos humanos e repletos de dúvidas, dívidas e medos.

Não estou certo de que o neoliberalismo tenha os dias contados e, muito menos, de que surja uma sociedade mais igualitária e solidária. Este período de confinamento, longe de estimular a solidariedade, tornou-nos mais rudes, agressivos e egoístas.
A promessa de que o Mundo, gravemente empobrecido e arruinado, poderá regressar ao padrão de consumo e bem-estar anterior, é a semente de uma ilusão que convém aos que procuram manter as desigualdades que a riqueza acentuou.
Não será difícil adivinhar uma regressão na esperança de vida, até há pouco inesperada, como se as árvores crescessem até ao céu e a imortalidade chegasse com a substituição de peças para o corpo humano e sucessivas plantações de novos neurónios no cérebro.
A esta pandemia, cujo fim se ignora, outra surgirá, e a inteligência artificial parece mais lenta do que a adquirida por agentes patogénicos, vírus e bactérias.
O único planeta de que dispomos já não aguentava os maus-tratos a que era submetido e o nosso futuro vai confrontar-se com a contaminação dos mares, o aquecimento global, a demografia, cuja implosão está longe de garantida, a falta de água, oxigénio, ozono e bens de primeira necessidade.
O trabalho será um bem cada vez mais escasso e a ansiedade e o desespero são motores de revolta e de aceitação de regimes totalitários.
A democracia liberal já hoje, através de eleições, se vê tomada por déspotas e narcisistas sem escrúpulos, dos EUA ao Brasil, da Hungria às Filipinas, da Polónia à Turquia. Que sucederá se os povos abdicarem dos seus direitos e liberdades e postergarem os direitos humanos?
Os ataques indiscriminados aos políticos e o ódio à democracia representativa, a única que garante um módico de racionalidade e liberdades, alimentam soluções messiânicas e autoritarismos que julgávamos erradicados.
Vai ser difícil conciliar a continuidade das sociedades livres com mínimos de bem-estar individual, no clima de depressão económica, aviltamento de valores e o indiferentismo perante as ditaduras, que ora se vive.

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