30.10.14

Momento zen de quarta_ 29_10_2014

Por C. Barroco Esperança
O inefável João César das Neves (JCN), na última homilia, «Exterminador Implacável», foi buscar um dos pecados mortais – o orgulho –, considerado por Evágrio Pôntico, um monge escritor e asceta do séc. IV, era vulgar, como muito ruim. 
 JCN não refere o autor pio nem o método usado para medir o orgulho e a sua gravidade relativa, mas segue-o na severidade que atribui a tão grave pecado, capaz de despachar a alma do orgulhoso, em grande velocidade, para as profundezas do Inferno. (...)
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29.10.14

Humor negro?

Sobre fobias que atacam coisas boas

Por Ferreira Fernandes
As coisas más fartam-se de nos ensinar coisas. Graças às guerras sabemos geografia, de Donetsk a Kobani, como nunca teríamos imaginado e com os ataques de clowns em França descobrimos o que é coulrofobia, o medo de palhaços. Que os palhaços podem meter medo já sabíamos desde a boca rasgada do Joker, no Batman, ou desde o romance de horror It, sobre um palhaço que vive nos esgotos de uma cidadezinha americana e mata crianças... Ainda não sabemos é se já havia coulrofobia antes do escritor Stephen King ter ido por aí ou Jack Nicholson ter decidido ser mais uma vez excelente. Um dia, se calhar, vamos descobrir que existe o pânico do sexo, um medo que bem poderia chamar-se teresoguilhermofobia, uma fobia que talvez seja antiga mas que o mau gosto da madrinha e os seus acólitos da Casa dos Segredos têm aprimorado como ninguém. A questão é: nem as coisas boas, como palhaços e sexo, podem dizer-se imunes a gente que estrague tudo. Hoje em dia, há crianças e adultos no Sul de França cujo maior receio é encontrarem na garagem um nariz vermelho, tal como em muita cama portuguesa o pesadelo é ser assaltado pela ideia duma metralhadora falante a instigar coitados à canzana. Sobre se o medo de palhaços é para continuar, não sei. Sobre a outra fobia de que falei, também não. Receio é que esta última traga mais outra: a anatidaefobia, o medo de ser observado por patos. De facto, o número de patos a querer ver aquilo é de meter medo.
«DN» de 29 Out 14

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Curiosidades do (M/F) - 4

27.10.14

A nossa bandeira e os trapos deles

Por Ferreira Fernandes 
Há dias, um casal de turistas - ela de niqab, só uma frincha para os olhos - estava na primeira fila da Ópera de Paris, na Bastilha. Cantava-se La Traviata, de Verdi. "La traviata" é Violetta, uma cortesã apaixonada pelo jovem burguês Alfredo, que também a ama. Sofrem pressões familiares e ela, para o proteger, afasta-se e morre tuberculosa. Um dramalhão? Certo, mas sobre a liberdade (no caso, de amar) que até uma mulher de má vida tem direito. Em 1853, quando estreou a ópera, Verdi escrevia a um amigo: "Ela é livre, ela ama, como eu, uma vida solitária que a livra de toda a obrigação..." Falava da sua criação, de Violetta? Não. Verdi falava da mulher com quem vivia, Giuseppina Strepponi, uma mulher livre, já com dois filhos, e com quem o compositor irá acabar os seus dias. La Traviata é um monumento da humanidade, beleza imensa mas também, só por existir, uma ópera que combate preconceitos e injustiças que são tenazes contra as mulheres. No fim do primeiro ato, naquela La Traviata, na Bastilha, os membros do coro viram o insulto que tapava a mulher do niqab. Alguns recusaram cantar - e o casal foi expulso (há uma lei francesa que proíbe o niqab em público). Isto é, houve dois lados. O costume é só o do niqab, com a sua propaganda - trapos ostensivos - da submissão da mulher. Por uma vez, uma cidade europeia entendeu que tem uma luta política e pública a travar. Os direitos iguais da mulher são a maior das nossas bandeiras. «DN» de 27 Out 14

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26.10.14

Luz - Bar Negresco em Roma, Itália.

Clicar na imagem para a ampliar 
Creio que o mais importante Negresco que existe é um hotel de Nice, famoso há mais de cem anos, fotografado e filmado milhares de vezes. O hotel fica na reputada Promenade des Anglais, com vista para o Mediterrâneo. O nome vem de um senhor romeno que foi director do casino de Nice e que, tendo ficado milionário, mandou construir o hotel e baptizou-o do seu nome. Para além do original, mas com exactamente o mesmo nome, há hotéis e bares um pouco por todo o lado, no Sul de França, em Paris, em Espanha e em Itália. Sei que em Lisboa também há ou houve um restaurante. O Negresco desta imagem é um bar simpático e sem pretensões, mas com toalha branca na esplanada, o que não é pouco. A alegria da fotografia é evidentemente a figura de um padre, provavelmente um monsenhor. O chapéu podia ser de monsenhor! Será pelo uniforme, será pela batina, mas a verdade é que os padres são particularmente fotogénicos. Também pode ser porque, com excepção dos templos, os padres parecem sempre deslocados no mundo: as raparigas, os bares, o comércio, os carros, os restaurantes, o cinema, o luxo, a moda, os prazeres da Terra, as várias formas de pecado… tudo parece estar fora do alcance dos sacerdotes e estes parecem sempre excêntricos e insólitos. Apesar de sabermos que nada do que acima foi enumerado lhes seja estranho… (2001)

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25.10.14

UM MONUMENTO À GEODIVERSIDADE E À BIODIVERSIDADE DOS AÇORES

Por A. M. Galopim de Carvalho
*
ACABA de ser editada pelo Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA), sob a direcção de Victor Hugo Forjaz, Professor Catedrático Jubilado da Universidade dos Açores, a obra de que se reproduz a capa.
Ilha do Pico, numa gravura de 1819
Em formato A4 deitado, com capa em cartão, com 400 páginas profusamente ilustradas, a cores, regista, em capítulos individualizados: a Geologia, a Zoologia e a Botânica da ilha mais recente e a mais enigmática do arquipélago açoriano, acompanhados por um preâmbulo histórico-geográfico-climatológico.

Os autores do livro são vulcanólogos, biólogos, climatologistas, cartógrafos e técnicos de geologia.

A obra, ao preço de 22,00€, pode ser adquirida na sede da OVGA, Av. Vulcanológica, nº 5, Atalhada, Lagoa – São Miguel.

ou pedida pelo telefone 962 414 877
ou por E-mail vforjazovga@gmail.com
Não é comum ver a totalidade do vulcão do Pico.
As mais das vezes esconde-se atrás das nuvens.

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O menu dos disparates

Por Antunes Ferreira

Para não fugir à normalidade, esta semana política foi recheada de confusões feitas pelos diversos membros do (des)Governo & arredores. Nos campos da Educação, da Justiça, da Fiscalidade e dos Estrangeiros continuou o regabofe do na manhã de hoje dizes sim, ao meio-dia, talvez e ao jantar, não. Lembro aqui um anúncio radiofónico da minha infância. “De manhã, à tarde e à ceia coma carne de baleia”. Pelo menos tinha uma constante: comer carne de baleia; porém, hoje, à ceia pode ser que sim, pode ser que não e talvez corresponda ao quem sabe levante o braço?

Com o expresso apoio de Coelho, o ministro Crato fez um excelente trabalho na abertura do ano lectivo e na colocação dos professores. Não pode haver dúvidas de que assim foi, tal a convicção posta pelo nosso primeiro na sua afirmação. Curiosamente, dias depois, o ministro da (des)Educação veio prometer que até ao fim deste mês de Outubro algumas falhas iam ser remendadas, quer-se dizer, resolvidas. Tome-se o caso dum professor cujo nome é Rui Pinto Monteiro, tem 36 anos de idade, está a dar aulas em Biscoitos, na Ilha Terceira, nos Açores, e pede ao Ministério da Educação e Ciência (MEC) que faça o favor de o retirar das listas de colocação de professores. 

Segundo o Público, que tem acompanhado o caso, o docente já tinha sido colocado em 75 escolas (obviamente diferentes) mas, ao fim da última quinta-feira os avisos por mail oriundos da DGAE, a Direcção Geral da Administração Escolar,  já tinham chegado às 97 colocações. “Bati o recorde” foi o comentário que fez ao quotidiano. E que seria se a abertura do ano escolar não tivesse corrido tão bem?

Na (in)Justiça continua a saga da plataforma CITIUS.  Seis dias depois de a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, ter assegurado que o sistema informático dos tribunais de primeira instância voltara ao “pleno funcionamento”, vários presidentes de comarcas desmentem o regresso à normalidade. E ontem o Sindicato dos Funcionários Judiciais calcula que existam 500 mil processos fora do famigerado CITIUS, segundo um inquérito realizado,na segunda-feira, a mais de 130 oficiais de justiça.

Nos Negócios Estrangeiros surgiu mais uma trapalhada do ministro sénior Rui Machete. Desta feita em declarações à Rádio Renascença, disse que havia algumas portuguesas que tinham embarcado na tragédia do “Estado Islâmico” queriam voltar a Portugal por estarem desiludidas com os jihadismo. Aqui d’el rei bradou a oposição, a segurança do país pode ter sigo perigosamente afectada. Machete, depois de um Conselho de Ministros onde se terão passado cenas para adultos, veio olimpicamente dizer que não via o motivo para tanta agitação: ele não mencionara nomes e por isso não incorrera em qualquer falta que pudesse pôr em perigo a segurança do país.

Houve logo que recordasse o caso das declarações do mais velho ministro do ainda (des)Governo em relação a Angola, pedindo desculpa dos casos de justiça que decorriam em Portugal contra cidadãos angolanos. Resultado, o presidente José Eduardo dos Santos (que não é flor que se cheire e está no topo da lista dos chefes de Estado africanos mais ricos) suspendeu sine dia uma cimeira que estava combinada ao nível de presidentes,

Finalmente o maior embrulho do (des)Governo nesta semana foi resultante das afirmações de Coelho sobre a tal “cláusula de salvaguarda” para determinados contribuintes que São Bento vai colocar na Reforma do IRS. Face a isso, e apesar de declarações de toda a gente do Ministério das Finanças (entenda-se todos os responsáveis, incluindo naturalmente o Sr. Núncio e a Dr.ª Maria Luís), a guerra continua acesa com uma simples interrogação à cabeça: afinal, pago ou não pago?

Mas o que foi mais estranho foram os comentários do fiscalista Rui Duarte Morais, (que liderou a comissão para a reforma do IRS), ter vindo lamentar que a discussão em torno das propostas de alteração no IRS esteja centrada em saber se um contribuinte vai pagar mais ou menos no próximo ano. Quando se propõem medidas fiscais para beneficiar as famílias com filhos, disse, é claro que haverá um agravamento para quem não os tem. Para ele, não ver isso é “mascarar” o óbvio. E a solução prometida pelo Governo para – através de uma cláusula de salvaguarda – não prejudicar os contribuintes sem filhos poderá pôr em causa a simplificação do imposto, um dos objectivos da própria reforma.

O menu dos disparates (des)governamentais está na mesa. Bom proveito, depois de consumado e consumido, obviamente.

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24.10.14

A realidade nas prateleiras de brinquedos

Por Ferreira Fernandes 
A série televisiva Breaking Bad (Rutura Total) passa-se no Novo México seco, duro e magnífico, como a série. O professor de Química Walter White, ao saber ter cancro, torna-se produtor de drogas (metanfetaminas) para deixar alguma coisa à família. Arregimenta um ex-aluno, Jesse, e é um dealer infeliz, numa história muito premiada. Um dia destes, uma mãe da Florida entrou numa loja de brinquedos Toys "R" Us e, em estantes com Barbies, viu também bonecos de Walter e Jesse com batas e máscaras de laboratório clandestino, com armas e sacolas, para os dólares do tráfico ou para os comprimidos ilegais... A mãe protestou, fez-se uma petição e o comediante Conan O"Brien, que tem um programa diário de TV, ironizou: "Se eu vivo na Florida e quero que os meus filhos tenham contacto com vendedores de droga, deixo-os brincar na rua, não os levo a uma loja de brinquedos..." A Toys "R" Us, cadeia de lojas legal, não querendo passar por cadeia com bandidos dentro, tirou os alucinados bonecos das suas prateleiras. Por falar em laboratório, esta história confirma as experiências contraditórias a que somos sujeitos. A mesma sociedade que tenta criar uma bolha protetora à volta das crianças (proíbe canções como Atirei o Pau ao Gato ou expurga os livros de Mark Twain dos seus termos antigos), estende-lhes brinquedos com o pior que a rua tem. Podem fazer--se várias teorias sobre isso. Mas nenhuma ensina mais do que saber que é assim e assim vai ser.
«DN» de 24 Out 14

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Curiosidades do (M/F) - 3

Mobiliário "M/F"? Quererá dizer "Muito Feio"?

23.10.14

Matar conseguem mas a suicidar falham sempre

Por Ferreira Fernandes
Vi ontem que um jornal fez com o homem que matou a mulher um daqueles "sobe e desce" com setinhas. O homem, engenheiro e de Soure (digo isto porque, sendo tantos os homens que matam as mulheres, se não damos minúcias, perdemo-nos), além da mulher, matou uma filha de 16 anos e feriu outra, de 13. As setas são úteis para se entender rapidinho se é mau ou bom o que um sujeito fez. Por exemplo, o ministro poupou: seta para cima. O guarda-redes deu um frango: seta para baixo. As opiniões são controversas, difíceis de pesar. São como os interruptores, umas vezes para cima, outras para baixo. Um homem que mata a mulher e uma filha, e fere outra, e tudo com várias facas, três ou quatro, porque iam-se partindo, esse sujeito, pois, foi colocado pelo jornal sob a dúvida: sobe ou desce? Desce, o jornal pô-lo a descer. Acho que foi uma decisão acertada. Outra coisa eu não esperaria de um jornal que narra estas coisas do quotidiano ordinário com cuidadas análises psicanalíticas: o homem tinha "pouca autoestima". No fim do artigo fui informado de que ele "depois de matar a família teve intenção de se suicidar mas não conseguiu." É sempre assim... Eu, que sou um bruto e dou pouca atenção às tais análises, já aqui propus numa que se fizesse uma campanha nacional para se inverter o método: explicar aos homens do meu país que devem, primeiro, suicidar-se, e só depois tentar matar as mulheres. Ah, se eu soubesse explicar isso com setinhas... 
«DN» de 23 Out 14

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Curiosidades do (M/F) - 2

Para que não haja dúvidas provocadas pelo "M/F", o 3.º anúncio indica que quer 2 meninas...

Passos Coelho e as eleições legislativas

Por C. Barroco Esperança
Pedro Passos Coelho, alegado primeiro-ministro, cargo de que usufrui as prerrogativas e benefícios, incapaz de autocrítica, ameaçou o país com a recusa de antecipar as eleições legislativas, assustando os portugueses com mais um ano a rebolar-se no exaurido pote. 
Não estão em causa os prazos constitucionais, mas as instituições, a agonia do regime e a decadência ética do Governo que fez de Portugal um laboratório de experiências mal sucedidas, com o caos na Justiça, a Educação e Ciência em colapso e a desconfiança nos governantes igual à que Passos Coelho adicionou com as peripécias da Tecnoforma. (...)
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22.10.14

As metáforas de Passos e chorar por mais

Por Ferreira Fernandes 
Antes das últimas eleições legislativas, em janeiro de 2011, Passos Coelho disse dos seus: "O PSD não está cheio de vontade de ir ao pote." Ontem, à espera das próximas eleições, Passos Coelho falou dos outros, "os que olham agora gulosamente para as eleições". Assinale-se a coerência lambareira da análise. Vamos a caminho de quatro anos e o pensamento do primeiro-ministro não sai da papila gustativa. A política externa? "Hummm, crepes Suzette..." E quanto à Defesa? "Brigadeiros, claro." E a dívida pública, senhor primeiro-ministro? "De comer e chorar por mais!" Não é que eu não goste, gosto. Mas não é a ideia que tenho de debate eleitoral, ver qual o político que mais passa a língua pelos lábios. Preferia que a política pusesse sobre a mesa mais ideias e menos sobremesas. Além de que, com a má fama que o açúcar começa a ter na política da Saúde, eu não entendo a insistência de Passos Coelho em ser acusado do aumento da diabetes. Ontem, frase completa usada para repetir a que já se vai tornando habitual política de faca e garfo era contra aqueles que "sabem alimentar-se da desgraça e que olham gulosamente para as eleições". Como veem, é uma preocupação com o dar ao dente própria de um país subalimentado. Já enjoa. A única justificação que vejo é a de lembrar que nem todo o setor bancário está em crise. O Banco Alimentar contra a Fome tem em Passos Coelho um propagandista incansável.
«DN» de 22 Out 14

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Curiosidades do (M/F) - 1

20.10.14

Enquanto o lobo não vem

Por Ferreira Fernandes 
Ontem, o El País tinha uma página sobre a enfermeira que está quase curada do ébola. Falando do marido dela, também isolado mas sem ter sido infetado pelo vírus, o jornal madrileno fez este destaque: "O trauma sofrido causará um stress - diz um psiquiatra". Ontem, também, o DN publicou uma página sobre um português que, suspeito de ter ébola (rebate falso), foi fechado durante duas horas numa sala do Hospital Francisco Xavier onde nem tinha uma cadeira. Os povos felizes (dos quais se diz que não têm História), são assim, têm a oportunidade de se assustar com tangentes. Não é que não tenham histórias, têm-nas. Ter sido isolado, mesmo só por precaução, e ter a mulher com ébola, mesmo que em recuperação, é traumatizante; febril e ter sido colocado numa sala hospitalar sem uma cadeira, é duro. Mas pertencem à categoria dos dramas que se ultrapassam. Não são tragédias, coisas definitivas de más. Esperemos ficar só por dramas e não cair nas tragédias. Mas era bom, entretanto, sabermos que estas, as tragédias, existem. Basta ver fotos da Libéria e da Serra Leoa. É a dimensão delas que nos leva a pensar que nos dramas de Madrid e de Lisboa, no isolamento de dias do marido da enfermeira e no isolamento de duas horas do português há um bom sinal. Significa que já há quem saiba que há, mesmo, o perigo de tragédias. Alguns já sabem. Mas saberemos todos que há tragédia quando os jornais não dedicarem uma página nem ao stress nem à falta de cadeira.
«DN» de 20 Out 14

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19.10.14

Convite

UM PLANETA ROCHOSO

Por A. M. Galopim de Carvalho
A NOSSA TERRA, um dos quatro planetas rochosos ou telúricos do Sistema Solar, tem nas rochas os seus principais constituintes. O estudo destes “documentos” naturais é, pois, tema central da geologia. 
As rochas a que temos acesso directo representam uma pequeníssima mas importante parcela das resultantes da respectiva diferenciação e, à semelhança da água, do ar e dos seres vivos, são o resultado de imensas transformações, numa vasta e complexa rede de interacções ocorridas ao longo dos cerca de 4670 milhões de anos da sua história, plena de energia interna (sob a forma de calor) a que se adiciona toda a que lhe chega através da radiação solar. Como escreveu, em 1998, o malogrado Prof. Maurice Mattauer (1928-2009), “as rochas nascem, vivem e morrem. Como nós, elas têm uma idade e uma história”. (...)
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17.10.14

2,60 € por mês e o Pai Natal

Por Antunes Ferreira
DE ACORDO com o famigerado OE 2015 parece que as pensões mínimas são aumentadas. Mais: dizem-me que o aumento é de € 2,60 por mês. Quantia mais do que substancial. A titular da pasta das Finanças Maria Luís Albuquerque disse até que: "muitas famílias vão ter mais poder de compra" graças ao novo Orçamento. É obra.
O ar altivo e aristocrático da governanta, digo, governante e a sua impassibilidade permitiram-lhe afirmar esta barbaridade perante as câmaras televisivas. C’os diabos 2,60 € por mês sempre são 2,60 € mensais. Imagine-se o que certamente se irá verificar; com uma actualização de 2,60 € mensais,  desde as grandes superfícies até às PME soltarão, quero crer, um suspiro de alívio; isto estava mal, mas agora e que se vão deitar foguetes pelo aumento do poder de compra que está na directa proporção do aumento das vendas.
Mas, deixemo-nos de ironias, aliás estúpidas e inoportunas: o aumento é vergonhoso, mas também é aviltante. Já não basta um cidadão andar a morrer de fome, a estender a mão à caridade, a rebuscar nos caixotes de lixo em busca de algo que ainda se possa comer, e ainda vêm despudoradamente estes (des)governantes criminosos gozar com ele.
Porque, disso não haja dúvidas estes 2,60 € de aumento mensal são um escarro de face dupla. A quem o recebe e os que o “dão”. Já se sabe que não há respeito pelos mais desfavorecidos; já se sabe que os pobres são pobres até morrer; já se sabe que os ricos são os detentores do poder e que o antigo $ comandava  a vida e agora o € também o faz. Mas, pelo menos haja vergonha nas caras dos que dizem que nos governam e, afinal, apenas (des)governam.
Em 1874, Tomás Ribeiro, na sua obra “D. Jaime” utilizou pela primeira vez a expressão Jardim à beira-mar plantado. Há frases que ficam na História pela positiva; outras que que primam historicamente pela negativa. Foi Stefan Zweig quem criou o Brasil, país do futuro, que funcionou como um anátema para o país irmão. A partir daí os brasileiros tentaram esforçadamente dizer que a sua terra era o país do presente.
Neste país – mesmo que seja à beira-mar plantado – a hora é da desmoralização, do sofrimento, da crise, da austeridade, mas também da autoridade. Faz-se um Orçamento do Estado, o primeiro depois da funesta troika, mas segue-se o caminho traçado pela trindade amaldiçoada, UE, BCE e FMI. Isto quer dizer que do pouco de “autonomia” que nos restava tirou-se tudo. A política financeira do Estado desenha-se em Bruxelas, ou mais propriamente, em Berlim.
O primeiro-ministro (?) afirmou, aparentemente convicto que este não era o Orçamento eleitoral, referindo-se às legislativas que estão por aí a rebentar. Assim sendo, porquê a aparente diminuição de impostos (onde? Quando? Como?), porquê a devolução de roubos feitos aos funcionários públicos (agora trabalhadores da Função Pública, para ser politicamente correcto), porquê promessas em que ninguém já acredita, porquê a ressurreição do Pai Natal?
Todos os Executivos perante a eminência de eleições entram pelo caminho da facilidade (e não da felicidade), das benesses, das concessões. Nas urnas (que são a demonstração pública embora secretas da Democracia) joga-se normalmente e em Liberdade quem ficará com o poder. Não é novidade dizê-lo, o Amigo Bana não se envergonharia de o afirmar. Para ganhar o poleiro, entra-se na via do vale-tudo, da desonra, do opróbrio, da desilusão, em suma. Ou seja, prostituem-se as eleições.

Mas dar aos pobres, aos desgraçados, aos esfomeados um aumento de 2,60 € mensais é, além de tudo o mais, um descaramento. No entanto, por esse país fora, em especial nas aldeias do interior, ainda há quem vá nos 2,60 € por mês. Como ainda há quem acredite no Pai Natal. 

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16.10.14

Mal-aventurados os que não têm ferrão, só incitam

Por Ferreira Fernandes
O zângão não trabalha, como a abelha operária, nem tem ferrão como ela para se defender. Só lá está para fecundar. Fica assim explicada a tradução: em inglês, zângão é drone. Para fecundar chatices, picar cizânia, parar um jogo de futebol nos Balcãs, nada como um zângão a arrastar uma bandeira de nostálgicos da "Grande Albânia", sobretudo se for num estádio de nostálgicos da "Grande Sérvia". Como todos que não têm ferrão nem trabalham, o drone que interrompeu, na quarta, o Sérvia-Albânia é perigoso. Acirra incêndios que não pode controlar. Eu vi kosovares albaneses a mostrar-me a foto da casa que deixaram para trás quando atravessaram a fronteira e ouvi um sérvio num convento a abarrotar de refugiados a implorar-me para ir buscar o irmão incapacitado que deixara em Pec, cidade abandonada. Não gosto de quem manipula aviõezinhos brincando com isto. Fazia sentido a primeira versão que apareceu do incidente: seria Edi Rama, irmão do primeiro-ministro albanês, Olsi Rama, a manipular o drone, sentado na tribuna de honra do estádio. Como Olsi vai a Belgrado em visita de estado para a semana, parecia-me lógico, caso o irmão quisesse resolver um problema de herança. Sabe-se, desde há exatamente um século, como certos estudantes sérvios recebem as visitas de estado. Mas não se confirmou nem a responsabilidade de Edi, nem o contencioso de heranças entre os irmãos. Resta a estupidez, simples. É ainda mais perigosa.
«DN» de 16 Out 14

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Religiões e democracia

Por C. Barroco Esperança
Todas as religiões se consideram as únicas verdadeiras, tal como o seu deus. Cada uma considera falsas todas as outras e o deus de cada uma delas e, provavelmente, todas têm razão. Os ateus só consideram falsa mais uma religião e um deus mais. Em certa medida todos somos ateus. 
E somo-lo, não apenas na aceção grega, em que um ateu era o que acreditava nos deuses de uma cidade diferente, mas também na aceção atual, na descrença num ente superior imaginário, e, ainda, em relação a Zeus, a Shiva, ao Boi Ápis e à multidão que aguarda, nas páginas da mitologia, os deuses atuais. (...)
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15.10.14

Amanhã é sempre quando as coisas boas acontecem

Por Ferreira Fernandes 
O Citius atrapalhou-se mas, ontem, reanimou--se depois de ter desmaiado durante 44 dias (valor em linguagem judiciária correspondendo a 90 minutos mais cinco de prolongamento). Que aconteceu? Quaresma rasgou pela direita, centrou e Cristiano Ronaldo sentenciou. Mais cinco segundos e iam os processos todos para o maneta... 
O défice neste ano vai para 4,8 por cento - e upa, upa, quando for acrescentado todo o buraco do BPN e a fossa de Mindanau do BES - mas, ontem, o primeiro-ministro Passos Coelho anunciou um défice de 2,7 por cento para 2015. Que aconteceu? Quaresma rasgou pelo corredor, assistiu CR7, que acabou em lucro... 
As aulas começaram há um mês, falhou um algoritmo, milhares de alunos ficaram algo sem ritmo nem professores mas, ontem, o ministro Nuno Crato declarou: "Não vamos fazer experimentalismos na preparação do próximo ano letivo." Que aconteceu? Quaresma foi por ali fora, serviu Cristiano e este deu a lição do costume mesmo em cima da sineta do fim da aula... 
Temos assim que as coisas estão a compor-se. Às vezes parece tudo paradinho ou, pior, malparado, mas eis que nos últimos segundos tudo se resolve. Uma corrida. Um centro feliz. Uma cabeça maravilhosa. Pelo menos no futebol pode ser assim. Na gestão do país as coisas são um pouco diferentes: prognósticos felizes só antes do fim do jogo.
 «DN» de 15 Out 14

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14.10.14

Personificações

Por Helena Matos
Tema do meu artigo de hoje (*) no Observador
Mais de quatro mil pessoas já morreram no recente surto de ébola. Não se sabe quantas mais morrerão. Alguém fez uma vigília por eles? O combate ao ébola está a levantar questões éticas decorrentes das proibições de deslocação para populações inteiras ou da necessidade de recorrer a tratamentos experimentais sem que se cumpram os procedimentos habituais. Quantos textos de reflexão já se leram sobre estas situações? 
Digamos que já não seria mau se estes humanos tivessem conseguido provocar uma onda de simpatia similar à gerada pela cadela de Teresa Romero, a auxiliar de enfermagem espanhola contaminada com ébola. Excalibur, assim se chamava a cadela, foi abatida por ordem das autoridades sanitárias, pois poderia ter contraído ébola. No passado sábado foram convocadas manifestações em 24 localidades de Espanha para mostrar indignação pelo destino de Excalibur. A operação de retirada da cadela da casa onde se encontrava transformou-se num circo, com os manifestantes tentando por vários meios que o animal não fosse levado. – A relação que mantemos com os animais, e sobretudo a relação que o mundo mediático mantém com os animais, é cada vez mais de sofá. Sofá no sentido urbano mas também psicanalítico do termo.
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(*) 12 Out 14

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Palavras por não haver nada a dizer

Por Ferreira Fernandes 
Extraordinária discussão. O banco público Caixa Geral de Depósitos teve de meter dinheiro na solução para o descalabro do BES. Quando o Novo Banco for vendido, se o for por menos do que os bancos lá meteram - e assim vai ser - haverá perdas para a CGD. Se calhar era essa a única solução, sou um boi a olhar para o palácio do Novo Banco. O que quero é ruminar o fluxo das palavras que nos vão dando. Então, quando apresentou a sua solução, aligeirando os problemas que ainda não tinham chegado (quem sabe se não aparecia entretanto um milagre?...), o Governo disse que não haveria "qualquer risco" para os contribuintes. Entretanto, não chegou o milagre. E as palavras foram mudando. 
Há dias, a ministra das Finanças admitiu que a CGD pode perder dinheiro com o Novo Banco. Oposição e jornais concluíram que sim, afinal iria haver custos para os contribuintes. Mas a ministra, depois de anunciar a pancada inevitável, não assumiu que os contribuintes sempre perderiam. 
A seguir, Passos Coelho confirmou a perda prevista para a CGD e abriu mais uma portinha: "Nesse sentido, de forma indireta pode haver algum prejuízo." Mas, reparem, nunca o sujeito, "contribuinte", está junto à ação, "vai perder". 
Ontem, esse jogo de claro-escuro foi iluminado por uma lição de Finanças de Cavaco Silva. Definiu a CGD e a sua atividade mercantil e nós, nada a ver. Às vezes a luz ofusca, e é essa a intenção. Quem me dera a explicação simples: paguem e calem-se
.«DN» de 14 Out 14

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13.10.14

Entrevista ao «DN» de 10 Out 14

Por António Barreto
P: Passámos o período de resgate a ouvir dizer que o que se estava a operar não era apenas uma transformação económica, mas também uma transformação cultural e que o português médio iria sair da crise diferente. Isso aconteceu?  
R: É muito cedo para avaliar os efeitos e consequências do tratamento de choque da troika. E o tratamento ainda não acabou. Estou convencido de que vamos ter mais um, dois ou três anos, ou quatro ou cinco, em que será necessário, por outros meios, manter uma tensão grande sobre os níveis de endividamento, despesa, investimento público e finanças públicas.  
Portanto, os resultados verdadeiros só serão conhecidos mais tarde. Por outro lado, tudo o que diz respeito às mentalidades e costumes são as últimas coisas que mudam numa sociedade. Demora muito tempo. É mais fácil assinar um cheque para comprar um carro do que mudar os comportamento e as mentalidades. Quando um político não sabe o que há de dizer, diz logo que o que é preciso é mudar as mentalidades. Isso, em geral, quer dizer que não faz a mínima ideia do que é que está a falar nem o que vai fazer. Vivemos, nestes três anos, uma grande crise de necessidade. As pessoas perderam empregos, rendimentos, casa, as condições de vida que tinham e a ideia, que alguns defendem, de que se começou a ter consumos mais racionais, que se vai ver o que é a pegada ecológica, se se está a prejudicar as gerações futuras, isso, para já, são devaneios.  (...)
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Em tempos de peste não se limpam armas

Por Ferreira Fernandes
Enfim, uma vacina contra o ébola! Não, ainda não é daquelas que se injetam ou engolem e imunizam da doença. É só uma vacina tipo pequeno passo que começa a lavar-nos a cabeça do folclore com que esta possível catástrofe tem sido tratada. A Serra Leoa recebeu 750 soldados e centenas de voluntários médicos e enfermeiros britânicos. Na sexta-feira passada, o Departamento de Saúde e o Ministério de Defesa da Grã-Bretanha informaram esses militares e pessoal de saúde que não têm garantido avião de volta se contraírem a doença. Como noticiou o jornal The Daily Telegraph, os infetados serão tratados em hospitais locais e só serão repatriados "caso a caso". No combate a doenças é essencial a prevenção, certo? Pois aí estão os mais interessados devidamente prevenidos! Os povos iludidos podem ter um ministro aldrabão que, prometendo manter os lugares dos professores, diz, primeiro, "mantêm-se" e, dias depois, desdiz: "Eu não disse manter-se-ão." O problema de colocação dos professores portugueses é um resfriado que ainda admite truques de tempos verbais. Já o ébola não vai lá com gramática ardilosa. Daí o governo britânico ter sido claro e não prometer mais do que pode. Se ainda não é a cura da doença, é um cuidado primário de saúde mental notável: quando se deixa para trás soldados e enfermeiros (e há alturas, ao que parece, que tem de ser), compreendemos quão desproporcionadas são as manifestações por um pobre cão.
«DN» de 13 Out 14

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12.10.14

Apontamentos de Lagos

Os 'posts' dedicados especificamente a Lagos (e que aqui se costumavam colocar com o título Apontamentos de Lagos, passam a ser afixados, de preferência, em CIDADANIA DE LAGOS: 
https://www.facebook.com/cidadanialagos

Luz - Nova vista dos balcões do Liceu, a Ópera de Barcelona

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Já aqui tivemos outra imagem do Liceu, uma das grandes salas de Ópera da Europa. É só mais uma… (2012).

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CALCRETO, um calcário gerado ao nível do solo

Por A. M. Galopim de Carvalho
COM CEM ANOS de uso, o termo calcrete (calcreto na versão portuguesa), proposto por G. H. Lamplugh (1902), só nas últimas décadas começou a figurar na nossa terminologia geológica. Próprios de certos ambientes morfoclimáticos caracterizados por uma certa subaridez (precipitação abaixo dos 500 mm/a), estas crostas, ligadas à actividade pedológica, resultam de acumulação de carbonato de cálcio ao longo de extensões superficiais maiores ou menores. Os calcretos variam bastante em espessura, desde algumas dezenas de metros, na Austrália, África do Sul, Novo México (EUA), a alguns metros no sul e sudeste ibérico (3 a 5 m em Portugal, no Algarve). (...)
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11.10.14

Num país de leis-da-treta...

10.10.14

Mentiroso e coxo

Por Antunes Ferreira

JÁ SE SABIA que Passos Coelho era um mentiroso, que frequentemente dava o dito por não dito, que pela manhã a questão era branca, à hora de almoço preta e pelo jantar cinzenta. Mas também já se sabia – e sabe – que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.  E igualmente se sabia que os ministros do seu (des)Governo lhe seguiam as pegadas e que por isso se tinham transformado em troca-tintas. Para ser mais correcto eles sempre o haviam sido, mas nos últimos tempos têm abusado.

Quando rebentaram o escândalo e a trafulhice do GES, Coelho meteu-se nas encolhas e mandou Carlos Costa assumir publicamente o desvario daí resultante. E o governador do Banco de Portugal obedeceu à ordem do patrão e fez a figura caricata frente às câmaras televisivas. E ele, Passos, manteve-se olimpicamente a banhos na costa algarvia. Vendo bem a enorme fraude financeira, a ministra Maria Luís só viria dar a cara (timidamente e empurrada) a tentar explicar o inexplicável. E como nos contos de fadas todos viviam enlevados e felizes.

Os cidadãos contribuintes não pagariam um cêntimo pelo descalabro e nem pensar pela divisão do BES em good bank e bad bank. Aliás o próprio Cavaco afirmara que o banco era sólido e que se podia investir nele; o mesmo aconteceu com Passos Coelho, o que não admirou dada a consonância e a cumplicidade entre os dois membros do partido laranja. Fizeram mesmo o marketing da instituição. Que não deve ter sido pago por Ricardo Salgado, mas nunca se sabe.

Os partidos oposicionistas não gostaram que lhes tivessem tentado enfiar o barrete. E desde logo afirmaram que seriam os contribuintes que haveriam de pagar a factura. A resposta do chefe do (des)Governo veio a público com altivez , pundonor e veemência: que os Portugueses estivessem descansados, casos como do BNP jamais se repetiriam. Acabara a rebaldaria. Porque agora lá estava ele, Coelho, pra lhes garantir que no BES ninguém pagaria.

Estavam as coisas neste pé (um tanto adormecidas) e surgiu o famigerado caso da Tecnoforma. Coelho titubeou. Primeiro não se lembrava de ter recebido qualquer quantia; depois foi ao Parlamento onde meteu os pés pela mãos e o seu comparsa de Belém comentou que, pelo que tinha chegado ao seu conhecimento, Passos respondera a todas as perguntas não deixando margem para dúvidas. Nunca tal se vira: o alegado Presidente da República submetia-se ao primeiro-ministro…

Mas pensando bem no assunto saltou-me a recordação: nos tempos da ditadura salazarenta passava-se quase a mesma ocorrência. O presidente do Conselho escolhia o Chefe de Estado e mandava nele tranquilamente porque o mais alto magistrado da Nação era uma figura decorativa, era a Rainha do Reino Unido, mas com calças. Raio de comparação; para o que me havia de dar…

Porém, eis que ao arrepio do que havia dito convictamente, Coelho   admitiu na passada quarta-feira que a solução encontrada para o BES podia implicar encargos para os contribuintes, devido à participação da CGD no fundo de resolução, mas voltou a considerar que a opção tomada foi a melhor possível.

"Na medida em que existe um banco público que participa desse fundo [de resolução] e dessa responsabilidade, claro que esse banco [Caixa Geral de Depósitos], tal como os outros privados, suportará eventuais perdas. Nesse sentido, de forma indirecta pode haver algum prejuízo", afirmou Passos na Itália.

Também a ministra Maria Luís Albuquerque, admitiu no Parlamento que os bancos participantes no Fundo de Resolução que detém o Novo Banco (que ficou com os activos considerados não problemáticos do BES) podem vir a ter de assumir perdas, caso da Caixa Geral de Depósitos, pelo que no limite os contribuintes poderão ser a chamados a pagar parte da intervenção no BES.

Mau, mas então em que ficamos? Pagamos ou não pagamos? Pelo andar da carruagem, vamos mesmo pagar. Esta estória sinistra fez-me recordar a lenda dos patos. Ruy Barbosa figura inultrapassável na História e Cultura do Brasil, ao chegar a casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe: “Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.” E o ladrão, confuso, diz: “Dotô, eu levo ou deixo os pato?"

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Apontamentos de Lagos

De saudar as intervenções da PT no sentido de melhorar o aspecto de cabos 'mal-amanhados'. Vê-se em cima o antes, e em baixo o depois (no seguimento de uma sugestão de intervenção enviada para a empresa por "um lacobrigense" interessado nestas coisas...

9.10.14

O vírus de não aguentarmos vírus nenhum

Por Ferreira Fernandes 
Dois missionários espanhóis, com ébola, são repatriados de África, internados no Hospital Carlos III, o centro de referência em Madrid para aquela doença, e morrem, o último a 26 de setembro. Portanto não foi ciclone que caiu sobre Madrid mas ação concertada e com tempo. Teresa, uma auxiliar de enfermagem, teve contacto, tal como 30 outros colegas, com os dois doentes. Não trago para aqui os equipamentos e procedimentos, deixo isso para os epidemiologistas. O que me interessa, aqui, é que Teresa foi limpar no dia 26 o quarto do segundo doente falecido e a 27 entrou de férias (e os colegas foram à sua vida). Ela foi a entrevistas de emprego, esteve com amigos, vizinhos e marido, foi depilar-se à cabeleireira, por ter febre chamou uma ambulância para o hospital do bairro, foi recebida nas urgências e a ambulância foi à sua vida buscar mais doentes de luxação no ombro. Onze dias na grande cidade, com o vírus de uma peste para a qual não se conhece a cura... Até voltar para de onde não devia ter saído, o Hospital Carlos III. 
A questão qual é? É esta: o pessoal dos Médicos sem Fronteiras, em África, depois do último dia de contacto com um doente de ébola, passa 21 dias isolado e só depois sai da zona de quarentena. A Europa não está preparada para guerra nenhuma e, naturalmente, para esta também não. Os do topo talvez não saibam mandar. Mas há mais grave. Todos já esquecemos esta condição: há coisas que têm de ser.
«DN» de 9 Out 14

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Apontamentos de...

Ai que saudades de Lisboa!

PSD – A golpada e a barrela

Por C. Barroco Esperança
O PSD, assustado com a aversão que Passos Coelho e Cavaco Silva despertam, acordou para as eleições diretas, sem pensar que é Governo e que o próximo Congresso, previsto para fevereiro de 2016, precisa de um congresso extraordinário para alterar os estatutos. 
Compreende-se a ansiedade para limpar o passado, a decadência ética, política e cívica de que o partido é culpado e a ansiedade para trocar de líder. Não esconde a catastrófica governação, a incompetência, os atropelos à Constituição, mas pode ocultar a central de intoxicação que levou Passos Coelho ao poder, as mentiras nas redes sociais, as calúnias e intrigas que levaram o jotinha da Tecnoforma a PM. (...)
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8.10.14

Os pinta-paredes

Lagos - Idem, desta vez num viaduto com paredes degradadas.

Os pinta-paredes

Uma nota de humor numa casa degradada.

Um cão vivo não vale a hipótese de um homem morto

Por Ferreira Fernandes 
Um Todd qualquer da Carolina do Sul escreveu no Twitter que, em caso de aldeia infetada com ébola, arrasa-se com napalm. Estes casos (não falo de ébola, mas dos Todd) tratavam-se com o efeito profilático do par de bofetadas mas isso caiu em desuso. Mas a crise do ébola também tem o mérito de nos darmos a conhecer melhor. Ontem, nos comentários dos jornais El Mundo e El País, o assunto mais badalado era a sorte do cão da enfermeira infetada. O marido dela fez uma denúncia pública por as autoridades sanitárias de Madrid quererem sacrificar o animal. Dito isso, o dono exclamou: "Será que também me vão sacrificar a mim?" Segundo o tal Todd, sim, era o que lhe aconteceria - mas a opinião do americano maluco é muito minoritária. Já a opinião de que a vida do cão deveria ser tratada com igual obrigação que temos para com a vida dos homens teve muitos adeptos. Disseram centenas de comentários que há que defender a vida do cão mesmo à custa da hipótese de infetar pessoas. A confusão do dono, traçando uma igualdade de valor entre a sua vida e a do seu cão, é compreensível, afinal a incúria do hospital está a fazê-lo passar horrores. Já tanta gente a pensar o mesmo espanta. Espero, sinceramente, que essa gente continue a pensar assim. Será sinal de que a crise do ébola passou. Pois, caso ela aperte, estou a ver essa gente a aproximar-se mais da tese do Todd do que continuar tão amante de cães, custe o que custar.
«DN» de 8 Out 14

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Ponto final

Por Baptista-Bastos

Durante sete anos, às quartas-feiras, publiquei no Diário de Notícias, a convite expresso de João Marcelino, uma crítica de costumes e hábitos. Foram sete anos excelentes, de trabalho entendido como tal, e de uma estima comum que se converteu em amizade. Marcelino é um jornalista com os princípios marcantes de outro tempo, de integridade a toda a prova e de uma cortesia e camaradagem que se perdeu quando as palavras foram substituídas por números, e quem dirigia foi trocado por porta-vozes estipendiados. Como a personagem de Sartre, "je suis irrécuperable" na certeza das minhas convicções sem certezas absolutas. Vivo, ainda hoje, sob o fascínio das palavras e do seu poder subversivo. João Marcelino pertencia, e pertence, a essa estirpe de jornalistas conhecedora de que só as palavras aproximam os homens e nos ensinam da sua imperfeita grandeza. Ele e a sua equipa fizeram de um jornal cinzento, pusilânime e obediente um empreendimento cultural honrado e limpo. Honro-me de ter participado no projecto a que já não pertenço por motivos a que sou alheio.
Fui posto fora, mas não das palavras. Vou com elas, velhas amantes, para aonde haja um jornal que as queira e admita a indignação e a cólera como elementos de afecto, e sinais de esperança, de coragem e de tenacidade. Nunca João Marcelino admitiu recados nem aceitou encomendas enviesadas tendentes a amenizar o texto, portanto as ideias, do seu colaborador. Nos tempos que correm, o que em outros anteriores seria normal é, agora, virtude e coragem. Estou-lhe grato pela rectidão de carácter, tantas vezes demonstrada.
Claro que também tive o suporte de milhares de leitores. O número foi crescendo na medida em que eles percebiam que o autor não envilecera com a idade nem amolecera as indignações com o peso e as ameaças da época sombria. Na edição digital do DN, as minhas crónicas chegaram a obter 15 mil visualizações, dezenas de impressões e de envios. Admiti, tola soberba!, que havia quem encontrasse nas palavras semanais uma ração de esperança, um apelo à não desistência e um aceno de confiança na força interior de cada um. Apenas relato, não lamurio. Mas não posso calar o que me parece um acto absurdo, somente justificado pelas ascensões de novos poderes. Porém, esses novos poderes são, eles próprios, transitórios pela natureza das suas mediocridades e pelo oportunismo das suas evidências.
As palavras, meus dilectos, nunca são uma memória a fundo perdido. A pátria está um pouco exausta de tanta vilania, mas não soçobra porque há quem não queira. Se me aceitarem, estou entre esses. Não quero nem posso pôr um derradeiro ponto final no texto sem o dedicar a todos os que fizeram do Diário de Notícias o jornal que tem sido. E aos leitores que o ajudaram a ser.
«DN» de 8 Out 14

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COZIDO DE ENTRECOSTO, CHISPE E ENCHIDOS COM GRELOS DE NABO

Por A. M. Galopim de Carvalho
Cozido de entrecosto, chispe e enchidos com grelos de nabo foi a especialidade com que o Tristão e a mulher, dois viseenses e donos de uma pequena tasca nos arredores da capital, nos quiseram obsequiar, a mim e a mais três amigos, no dia em que fizeram vinte e cinco anos de casados. Prato forte, com demasiada gordura, a degustar de tempos a tempos, numa evocação à glória do porco alentejano e à Mãe-Natureza que o criou.
- Foi um quarto de século de trabalho quase sem descanso, ela na cozinha e eu atrás do balcão e a servir às mesas. – Dizia o marido, feliz da vida, enquanto nos punha na mesa os talheres ao lado dos pratos de “Cavalinho”, da antiga fabrica de Sacavém.
- Embora pequena, esta casa dá muito trabalho. - Disse eu, num tom de quem aprecia o bom serviço que este simpático casal presta à sua habitual e muita clientela.
 
- De manhã à noite! E só se descansa ao Domingo. Eu, sim, mas ela, não. Eu ia e vou à bola, seja aqui em Lisboa ou noutro sítio qualquer. Ela, coitada, fica a fazer tudo o que uma boa dona de casa tem de fazer durante a semana. Vá lá que não temos filhos. Mas quem vai à praça, todos os dias, sou eu. Todas as manhãs, às sete horas, já estou na Ribeira. 
 - Cheira bem! – exclamei quando Tristão se aproximou com as travessas fumegantes, bem ao alto, uma em cada mão.  
- E aqui têm, as carnes já cortadas, numa travessa, e os legumes, na outra.  
Envolto nos aromas que rapidamente encheram a pequena sala, foi salivando que servi o primeiro dos meus companheiros. 
– É tão simples como isto. – Dizia agora o Tristão, aproximando-se com uma garrafa de Colares tinto, de 1968, de um lote que tinha guardado para certas ocasiões. – Cozo as carnes com duas cebolas grandes cortadas a meio, uma cabeça de alhos, só descascada por fora e sem a desmanchar, muito pouco sal e uma boa porção de grãos de pimenta preta. Cozidas as carnes tiro-as para fora e enfio lá dentro os grelos, quanto mais “reimosos” melhor, as batatas e os nabos. O chouriço, a morcela e a farinheira, aprendi consigo, são cozidos à parte. Não há dúvida que deixam um gosto a fumeiro que estraga o paladar desta especialidade. A minha mulher gosta de pôr cenoura mas eu não. Acho que adoça e tira aquele “amarujar” muito especial dos grelos. E agora, bom proveito.

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7.10.14

A via virgem está por vezes prenhe de diabinhos

Por Ferreira Fernandes 
Aécio Neves passou toda a campanha atrás de Marina Silva e muitos já o viam com a segunda volta tapada. Até o seu coordenador, quando Marina parecia um cometa ascendente, alvitrou que seria melhor bandear para ela. Mas isso é jogo de político. O Brasil tem uma expressão, "partido fisiológico", para definir aqueles que fazem alianças com o diabo logo que lhes garantam mais postos e influência - a expressão está certa, pois Fisiologia trata das funções vitais (como comer). Que os comensais tenham forte jogo de cintura, entende-se. Mas foi interessante ver que alguns importantes jornais se comportaram de forma semelhante, apesar de poderem pensar para lá da gamela. Foi caso da revista Veja que quando julgou ver Aécio tremido fez campanha por Marina. Ora, se há uma miríade de partidos brasileiros, eles juntam-se à volta do PSDB e do PT, grosso modo, direita e esquerda, agora representados por Aécio e Dilma (em 20 anos, o sexto duelo PSDB-PT nas presidenciais). Marina Silva é uma política isolada e ziguezagueante, que só foi para PSB porque meses antes falhara o partido que ela tentou formar. A base mais firme de Marina é a sua ligação a seitas evangélicas (os outros dois grupos PSDB e PT também têm essa ligação, mas são mais sólidos para suportar a pressão ultra-conservadora delas). Apoiar Marina era cair numa absurda aposta de olhos fechados. Felizmente, os eleitores souberam ter mais tento que os gurus jornalísticos.
«DN» de 7 Out 14

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6.10.14

Os pinta-paredes

O que aqui se vê é um dos muitos murais de Lagos e, se calhar, não é a primeira vez que o mostro. A novidade está na intervenção do gatafunhador que, não querendo ficar atrás, aproveitou um cantinho em branco para mostrar a sua arte...

Quem muito dá bocas fica debaixo de olho

Por Ferreira Fernandes 
Marinho e Pinto tem daquelas coisas que, num país de cágados, me faz gostar dele: dá bocas. Marinho e Pinto tem daquelas coisas que, em quem dá bocas, me põe de pé atrás em relação a ele: é desbocado. Estamos apresentados: gosto dele pela condição rara e essa condição faz-me desconfiar dele. Em agosto, ele disse: "Verifiquei uma coisa que não sabia antes: o Parlamento Europeu não tem utilidade, é um faz-de-conta, não manda nada." Dois meses e meio antes, ele pediu-me o voto para uma coisa que não tem utilidade, é faz-de-conta e não manda nada... Só um desbocado viria arrasar uma função para a qual tentou desinquietar-me, e que em meros dois meses e meio viu a perfeita inutilidade. Outro deputado, cágado, perante o ato por si cometido - que só pode ser de vígaro ou de ingénuo - calar-se-ia. Marinho e Pinto, não. Dá bocas. Por isso gosto dele. Mas, lá está, também mais desconfio. Fui ver e vi que desde agosto, mês da iluminação, Marinho e Pinto continua a ganhar um ordenado por fazer de conta num lugar inativo! Ontem, fiquei contente por saber que ele procura alternativa a esse ócio remunerado: criou um novo partido, o PDR. Boa, o desbocado vai voltar a ter uma tribuna onde trabalhar. E, de facto, já desbocou: "Vou fazer o striptease que outros se recusam a fazer. Não tenho nada a esconder em relação ao chorudo salário [de eurodeputado] que me pagam." Perdão, o que se lhe pede não é striptease, é despir-se desse ordenado.

«DN» de 6 Out 14

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5.10.14

Luz - Outra vista de Bogotá, Colômbia

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Esta imagem completa a anterior e dá-lhe todo o sentido. Foi igualmente tirada a partir do último andar do Museu da Esmeralda. A sobreposição dos tempos diversos é mais nítida. Noto também a proximidade da montanha verde contra a qual a cidade cresceu. (2013)

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No lançamento de um novo livro de Galopim de Carvalho

Por José Barata Moura
§ 1. Intróito.
AGRADEÇO ao António Marcos a generosa lembrança de me ter convidado para falar[1] no lançamento deste seu livro. Penso que a invitação foi feita tão-só em nome de uma amizade antiga. Porque, no que toca a credenciais de competência, o meu balanço costumado poderá ser atrevido, mas apresenta-se como irremediavelmente deficitário na conta. No exercício orçamental da faladura de hoje, terei certamente de viver acima das minhas possibilidades. (O desconto na folha de pagamentos já está a ser processado). (...)
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4.10.14

Apontamentos de Lagos

Aqui ficam imagens de um mural, feito num viaduto perto da praia da D. Ana. Em baixo: aspecto da outra parede do viaduto.

Moedas e a Inovação…

Por Antunes Ferreira 
CADA VEZ estou convencido que a vergonha é coisa que caiu em desuso pelos ditos políticos portugueses. Dia após dia os exemplos vão avolumando-se e o povo ignaro assista a este festival de mentiras e despudor que é apresentado em todos locais, nomeadamente em feiras, circos e fantoches de rua, com o que antes era a ganapada que os aplaudia e hoje somos nós, os Portugueses, que os aturamos e, por vezes, até os aplaudimos. Já ninguém, ou quase, que encolhe os ombros e amocha quotidianamente.
Quando Álvaro Vaz de Almada, conde de Avranches, no final da batalha de Alfarrobeira, já não conseguia resistir aos seus adversários e via perto a morte, bradou “É fartar, vilanagem”, mal sabia que esse seu grito se transformaria numa forma de crítica desesperada numa ocasião em que as pessoas já não podem mais com quem quer que seja, ou numa ocasião em que estão fartas de tudo e de todos e desenganadas. Neste momento que se vive no nosso país o grito é, mais e mais, justificado: É fartar, vilanagem!
Carlos Moedas, ex-secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro (?) Passos Coelho, assumiu na terça-feira de manhã na sua audição no Parlamento Europeu, em Bruxelas, que discordou “muitas vezes” com a política da troika, mas mostrou capacidade de resposta, uma característica que considera importante como futuro comissário de Investigação, Ciência e Inovação. Isto porque, no seu entender o pais “precisava de mostrar credibilidade na Europa”.
E disse mais: “Estive durante três anos a ajudar no programa de ajustamento que foi muito difícil, foram sacrifícios enormes, sempre reconheci a dureza e o sacrifício do programa. Portugal estava num momento em que precisava de mostrar a sua credibilidade àqueles que deram dinheiro”, defendeu, na resposta à eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias.
E se por acaso, longe vá o agouro, uma nova crise se apresentar, espera que a resposta política consista antes no investimento na ciência e inovação. No entanto, Carlos Moedas defende que o seu trabalho passado demonstrou a capacidade de resposta. “Sou uma pessoa que apresenta resultados e no Horizonte 2020 [o próximo programa europeu de financiamento da ciência] é importante ter uma pessoa que apresenta resultados.”
Tem o seu interesse verificar que um dos executantes mais empenhados na aplicação aos Portugueses do diktat da troika, com a enorme violência que é conhecida venha agora que até discordou dessa receita malfadada. É bem o exemplo de não ter vergonha na cara. Quando a dupla Passos e Gaspar se travestiu em Passos e Maria Luís aplicou a nós, os Portugueses, a subida dos impostos, os cortes nas pensões, até aos mais desprotegidos, renegando o contrato com elas assinado e deitando às urtigas a afirmação de que o Estado é pessoa de bem (era), Moedas lá estava acirradamente a implementar o desvario.
Agora, no Parlamento Europeu que o examinou saiu-se com esta mentira, o desavergonhado. Após três horas de questões ao futuro comissário que deverá ficar responsável pela pasta da Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Zorrinho, do PS, que é membro efectivo da comissão de Indústria, Investigação e Energia, comentou que Moedas "estava bastante preparado e teve uma prestação claramente positiva". Mas, também disse que a grande questão é saber se Moedas será mais leal às ideais do presidente eleito da CE, Juncker, que fez do investimento uma das suas grandes "bandeiras", ou à linha do Governo português de Passos Coelho.
"Quase imagino o que vai ser o dia-a-dia de Carlos Moedas nos próximos tempos: de manhã receberá um telefonema de Jean-Claude Juncker a dizer «investe, investe, investe»; ao fim da tarde, Passos Coelho, que tem assento no Conselho e não tem feito nada para aumentar o investimento nesta área, vai telefonar a dizer «corta, corta, corta»", zombou Zorrinho, que ainda acrescentou que fica à espera de saber "de que lado estará" o antigo secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro nas suas funções como comissário.
Marisa Matias, do BE e João Ferreira afinaram pelo mesmo diapasão, naturalmente com algumas diferenças não substantivas. Ou seja Moedas está bem preparado para quê? Dispõe de 80 mil milhões até 2020 para apoiar, implementar e desenvolver as políticas de inovação, ciência e Inovação. Ao contrário do que fez enquanto membro do (des)Governo de Passos & Portas, agora na Europa vai gastar o que “desgastou” em Portugal. Será ele capaz de o fazer? Como nos primórdios da televisão neste país triste e desgraçado, se dizia “O programa segue dentro de momentos” e isso representava umas horas de ecrã negro como a noite mais negra, há que esperar pelos resultados do preparado mas desavergonhado Carlos Moedas. Até lá, benza-o a Senhora do Agrela, que não há santa como ela.

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São Francisco pregando o mural aos pássaros

Por Ferreira Fernandes
Banksy pinta paredes e o meu vizinho toca trompete. Quer dizer, o meu vizinho anda a aprender a tocar trompete, e às três da manhã. Eu até às três da manhã era capaz de desculpar o Chet Baker, se ele quisesse voltar e ser meu vizinho. Os pinta-paredes são insuportáveis. Contra eles eu até admitia que voltasse o pouco higiénico hábito de esvaziar os bacios pelas janelas. Os pinta-paredes do Bairro Alto, por exemplo, era o que mereciam: "Lá vai água!", janela aberta, bacio virado e o grito só depois, apanhando os imbecis dos pinta-paredes desprevenidos. Todos? Não Banksy, que é o Chet Baker dos pinta-paredes. Como Chet Baker era o Banksy dos trompetistas. Que pena ele, que morreu há tantos anos e nunca frequentou o meu bairro, já não poder acordar-me às três da manhã. Felizmente, ainda há Banksy, ouvi falar de um mural dele em Clacton-on-Sea.
Em Clacton-on-Sea, em outubro, faz dez graus e chove - morrinha, como é costume no Essex, Inglaterra, mas sempre pingos que escorrem pela gola da gabardina -, com oceano cinzento em frente e um porto (Harwich) ao lado. É preciso querer muito lá ir, para ir. Eu ia. Por causa do mural. Eu conto (podendo só trair, porque a genialidade de Banksy é sempre traída): de um lado um grupo de cinco pombos cinzentos, do outro uma andorinha de peito verde. Todas pousam num fio que é sugerido pela separação das pedras, porque Banksy, como sabem, é um artista urbano, um pinta-paredes dos bons, perdão, o pinta-paredes bom. Perdão, ótimo. Aquilo que ele pinta atira-nos à cara. Uma parede dói. O que arde faz bem.
O grupo tem cartazes e os pombos parecem angry birds, pelo olhar franzido. Confirma-se com o que dizem os três cartazes. Um diz: "Os imigrantes não são bem-vindos." Outro diz: "Voltem para África." E o último: "Não toquem nas nossas minhocas." As letras são pintadas de cinzento, o que torna mais duro e agressivo o que dizem porque o cinzento não grita, diz com brutalidade calma. Os cinco pombos jogam em casa, pombos são sedentários. Os de Clacton-on-Sea são certamente de Clacton-on-Sea há várias gerações. Os Columba livia, como os pombos de Clacton-on-Sea, são uma espécie que veio do Sul da Ásia mas os atuais de Clacton-on-Sea já se esqueceram, são locais e pronto. Por isso olham zangados para o intruso, a andorinha.
Conheço muitos tipos de andorinhas, andorinha-da-rocha, andorinhão-negro e a minha andorinha-de-rabadilha-cinzenta que ocupava os beirais dos velhos sobrados da cidade da minha infância. Não conheço nenhuma andorinha de peito verde, suspeito que é liberdade do artista. Mas a mensagem é clara, o rabo bifurcado do passarito mostra que Banksy quer mesmo que seja vista como andorinha. Pássaro errante, viajante, imigrante. Hoje vou ver um amigo, preto como as asas de uma andorinha, filho de uma muxiluanda, negra da ilha de Luanda, e vou velá-lo à Basílica da Estrela, Lisboa, Europa. "Lembras-te das andorinhas, João?", certamente tivemos essa conversa. E ele: "Se lembro, irmão. À volta das torres da Sé, ao fim da tarde..." - conversa de gente de outros pousos, como as andorinhas.
Afinal, não cheguei a ir a Clacton-on-Sea, o mural veio ter comigo, apareceu nos jornais. Quando o vi, ri-me. Lembrou-me uma piada antiga, de Coluche, um francês de frases assassinas servindo um coração generoso. Dizia assim, a piada: "Esses portugueses que vêm roubar o pão da boca dos nossos árabes..." Sempre pensei que era assim que se devia atacar o racismo. Levando os racistas até à tolice de onde eles nunca saíram. Julguei, então, que a piada de Coluche era a arma mais eficaz contra o racismo. Depois de ver o mural de Banksy, achei que este ainda era melhor, era São Francisco de Assis pregando, um falar aos pássaros.
Um falar tão necessário que aconteceu que à câmara de Clacton-on-Sea chegaram protestos contra o mural de Banksy, considerando-o racista. E a câmara, como está em vésperas de eleições, marrou como uma barata tonta. Marrou, porque foi assim, violenta: apagou o mural. Como uma barata tonta, porque é imagem que não precisa de explicação, nem para baratas tontas. Os pombos locais, peito emproado, são afinal mais importantes do que nem eles suspeitavam: podem apagar a inteligência. E os tolitos com boas intenções são os idiotas úteis dos pombos emproados. A andorinha verde é a única que sobreviveu ao mural. Voou, porque o natural das andorinhas é ir daqui para ali. 
«DN» de 4 Out 14

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