28.7.14

Apontamentos de Lisboa

Diálogo que teve lugar esta manhã, algures nas avenidas novas, entre um morador e um varredor da CML que por ali andava a trabalhar:

- Bom dia. Pode dar-me uma informação?
- Diga.
- Preciso de deitar um colchão fora. O que é que tenho de fazer?
- Deixe-o aí na rua.
- Ponho-o aqui mesmo?! E não é preciso ligar para a Câmara, para o virem recolher?!
- Se quiser, pode ligar. Mas não é preciso. Depois, passa a carrinha e leva-o.

Fazer de Marcelo dano colateral

Por Ferreira Fernandes 
Eh lá, o tiro ao alvo a Ricardo Salgado já vai nos danos colaterais. Numa entrevista sobre a compra ou não da TAP, Miguel Pais do Amaral desvia a rota para aterrar no recentemente caído por terra Ricardo Salgado. Primeiro, Pais do Amaral passou por aeródromos secundários e falou dos ministros amigos do banqueiro que podiam prejudicar-se, agora, com a proximidade antiga ao pestífero. Mas logo se viu que não era esse o destino final: de que ministros fala?, perguntou-se-lhe. Mas Pais do Amaral desviou: "Não lhe vou dizer." Ele queria era chegar ao candidato presidencial Marcelo... Esse e a companheira, disse, eram "os melhores amigos do casal Salgado", a companheira "é administradora no grupo BES", e "o filho é funcionário da PT". Pronto, já entendemos, nesta cantiga de amigo e maldizer, Pais do Amaral não morre de amores por Marcelo, ai Deus i u é. Daí as duas frases extraordinárias que disse: "Obviamente que uma pessoa que é a melhor amiga de alguém, se esse alguém não sair bem, não tem quaisquer condições para ser candidato presidencial nem para alimentar essa candidatura" e, "neste caso, diz-me quem são os teus amigos, dir-te-ei quem és"! A ser assim, neste país tão pequeno e misturado em conhecimentos, corremos o risco de ficar sem candidatos presidenciais: quem está livre de um "amigo" incómodo? Daí a programas eleitorais em forma de repúdio "Vote em mim porque não sou amigo de Fulano!", é um passo. 
«DN» de 27 Jul 14

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27.7.14

Luz - Porto e cidade moderna, Cartagena de las Índias, Colômbia

Clicar na imagem para a ampliar
Tanto o porto como a cidade moderna pouco têm a ver com a velha e pitoresca cidade colonial, dos tempos doa pirataria, do ouro e da esmeralda! Esta vista, tirada do alto do forte principal da cidade, mostra isso mesmo. Mas também revela a desordem e o desequilíbrio. Não se pode dizer que haja muito bom urbanismo… (2013)

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TRABALHADOR-ESTUDANTE (1)

Por A. M. Galopim de Carvalho
PARTE do meu tempo como estudante de Geologia, em finais dos anos 50, trabalhei como vendedor de uma firma que representava máquinas registadoras e máquinas de escrever de marcas prestigiadas no mercado. Com um ordenado mensal de 500$00 (2,5 Euros), procuraria tirar, nas comissões, algo que compensasse tal magreza.

Iniciado e inexperiente neste tipo de comércio de porta em porta, foram mais os meses em que nada conseguia vender. Nos relatórios diários que tinha, por obrigação, de entregar no escritório da empresa, indicava as visitas e os contactos que fazia, os eventuais clientes, apontando os possíveis compradores. Na posse destes contactos, o meu superior hierárquico, sem que eu o soubesse, consumava as vendas.(...)
Texto integral [aqui]

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26.7.14

Como sabe bem ser tratado com respeito

Por Ferreira Fernandes 
O jornal francês Le Monde faz 70 anos em dezembro e, já neste verão, tem-nos apresentado uma série de textos sobre si próprio. Eles farão parte parte de um livro, a publicar em breve, sobre "a história do jornal, em tensão com os grandes acontecimentos que marcaram as últimas sete décadas". Sei o que significa aquela expressão "em tensão": respeito pelo leitor. O mundo é para os jornais, e não é preciso chamar-se Le Monde para isso, o seu ganha-pão: percorrem-no, tentam entendê-lo e apresentam-no ao leitor, que os sustenta. Como diz o slogan feliz da nossa TSF, aconteça isso ao fim do mundo ou ao fim da rua. Porque foi fundado numa França que precisava de reconquistar prestígio no fim da Segunda Guerra Mundial, Le Monde construiu uma rede de colaboradores nas mais longínquas capitais e várias gerações de europeus souberam de Pequim, Hanói e Cairo, quando por lá a história se revolvia, graças a Jean Lacouture, Jacques Amalric, Jean-Claude Pomonti... Ora, na referida série, Le Monde, ontem, contava-se não em glória, mas num erro (um crime, até) que cometeu no seu negócio (vender o mundo, recordo). Quando os Khmers Vermelhos tomaram o poder no Camboja, em 1975, o jornal escreveu como libertação o que viria a ser um genocídio. Ontem, sem autocomiseração, o jornal contou com nomes e frases duras o seu erro. Ao leitor, tratou-o como velho companheiro, a quem deve respeito, amor e dois euros todos os dias.
«DN» de 26 Jul 14

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Uma tormentosa dúvida

Por Helena Matos
Alguém sabe se no conceito de animal doméstico maltratado cabe uma pessoa desfazer-se através de equipamento adequado de um ser igual, parecido ou similar ao da foto? Dirão que o animalzinho não cabe no conceito de animal doméstico que agora a nossa AR alegadamente veio proteger. Desculpem mas cabe: o animal em causa mostrou uma obstinação imensa em tornar-se doméstico numa arrecadação dos meus conhecimentos. Mais quando convidado a sair com palavras, gritos e gesticulação obstinou em manter-se na humana companhia. Por fim há pessoas que têm esses animaizinhos como domésticos logo não se pode dizer que os bichinhos não são domésticos. Em resumo aqui temos a causa fracturante dos próximos anos: o conceito de animal doméstico não pode ser definido pelos seres humanos. Há lá animal que queira sem mais doméstico que uma ratazana? Devemos deixar os animais decidir se querem ser domésticos: os ratinhos, as ratazanas e as baratas querem ser domésticos. Logo devemos aceitá-los na sua verdadeira identidade.
Obs. Para quem não tenha dado por isso os deputados da nação acharam por bem  equiparar as associações zoófilas a organizações não-governamentais ambientais, dando-lhes o direito a constituírem-se assistentes em processos e dispensadas do pagamento de custas judiciais.  E de caminho o projecto de lei estabelece que “quem, sem motivo legítimo, infligir dor, sofrimento ou quaisquer outros maus-tratos físicos a um animal de companhia é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até 120 dias”.  Está aberta a caça ao primeiro arguido num processo desse.
Blasfémias.Net

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25.7.14

Sensuras que não tulero

Por Pedro Barroso
Se a deputada catarina marcelino, não sabe escrever - mais: faz erros ortográficos arrepiantes sempre que não liga o corrector automático!!!... - e é licenciada em Antropologia, deputada da nação etc ...então eu mereço ser, no mínimo, primeiro - ministro!
Hoje em dia chama-se hiperactivo à criança chata e impossível a quem, outrora se dava uma chapada para estar sossegada. Não serei obviamente a favor do castigo corporal mas o ensino degradou-se por indignidade e perseguição dos saberes mínimos exigíveis. Passam-se os alunos sem saber escrever português ou fazer contas elementares; e qualquer professor tem de explicar em múltipla papelada o porquê de uma reprovação, sempre que a queira aplicar.
A velha desculpa da dislexia é quase sempre a farisaica ocultação de uma descuidada impreparação e do analfabetismo mais elementar. Disléxico, aqui para nós, é o nosso lamentável acordo ortográfico, o que já bastaria...
Não faço ideia como trepou na universidade para ser licenciada e no aparelho partidário para ser deputada. Mas há uns mínimos tácitos que justificadamente esperamos/exigimos de quem nos representa ao mais alto nível político, publico e nacional.
Tenha dignidade e assuma a sua ignorância demitindo-se! Bem basta a parga de imbecis que nos governa, cheios de privilégios e prebendas para dar má imagem da classe politica.
Um deputado não pode, - simplesmente não pode - ser analfabeto! 
ps - escrevi o seu nome sem maiúsculas iniciais por dislexia momentânea que me atacou também...

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Apontamentos de Lisboa

Quem disse que a cidade tem falta de zonas verdes?

Sobre a ciência dos mercados

Por Ferreira Fernandes 
Há coisas que custam a engolir mas, pronto, tenho de aceitar. Eu já não tinha gostado da PJ a vasculhar os papéis nas minhas duas salas no Hotel Palácio, mas lá aceitei. Depois, quando o juiz me avisou de que ia interrogar-me no dia seguinte, levantei a sobrancelha, incomodado. Mas, pronto, tive de aceitar. Disse-lhe que lá estaria, o meu motorista haveria de me pôr no Campus de Justiça à hora marcada, mas ele respondeu que iriam à minha casa buscar-me. Que remédio, aceitei. De manhã, bem vi o ar pasmado da minha empregada, ao dizer: "Estão à porta dois polícias que perguntam pelo senhor doutor." Custou-me? Muito, mas aguentei. Percebi os sorrisinhos trocados entre o guarda e o motorista, mas pus cara de quem não viu. Chegado ao TIC, no corredor cruzei-me com olhares impertinentes dos beleguins, mas aguentei. No juiz topei o revanchismo dos sans-culottes, mas respondi a tudo, calmo. Na pausa de almoço contaram-me a histeria das rádios e televisões - "detido!", gritavam todos - e aguentei. Voltei ao interrogatório do Robespierre, aturei as perguntas, sofri a condição de arguido, tolerei as acusações, resignei-me à caução a pagar... Aceitei tudo! Mas há uma coisa que não admito. A mim, que fui estes anos todos o rosto do mercado de capitais, o epítome da bolsa de valores, não se devia ter feito este insulto: no dia em que fui detido, interrogado e constituído arguido, as ações do BES sobem?! 
«DN» de 25 Jul 14

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24.7.14

Não sabem…

Por Antunes Ferreira
Surrealista é o mínimo que pode chamar a uma nova (des)medida deste (des)Governo. Também se poderia classificá-la em termos mais duros, mas não vale a pena. Emendo. Ela também é inconcebível e quiçá autista. Pode ter passado sem grande estardalhaço, porque os órgãos da comunicação parece terem-na ignorado. Ou talvez estivessem ocupados com outros temas mais graves e complexos como o rescaldo da participação da velha (a terceira mais… idosa) equipa de Portugal na Copa 2014, ou a fraude criminosa de Ricardo Salgado e o seu famigerado polvo que “tentacula” o BES.
Mas a Rádio Renascença – honra lhe seja feita – pôs a nu mais uma alarvidade (des)governamental.  E o PTJORNAL pegou no assunto através de texto do jornalista João Miguel Ribeiro, de cujo texto transcrevo passos; se calhar deveria usar a caixa alta, mas toda a gente sabe infelizmente o nome do chefão do (des)Governo.
“O Ministério da Saúde está a abrir vagas em alguns serviços ou valências hospitalares que o próprio Governo pretende extinguir no quadro da reforma hospitalar. A denúncia parte do presidente da secção regional do Norte da Ordem dos Médicos, avança a Rádio Renascença.
 Em declarações à Renascença, José Miguel Guimarães denuncia a incompatibilidade nas vagas anunciadas pelo ministério: "A portaria 82/2014, que tem a ver com a reforma hospitalar, limita uma serie de valências nas especialidades médicas e cirúrgicas a alguns hospitais. Entretanto, o Governo publica um despacho que abre uma série de vagas para especialidades que, segundo esta portaria, vão encerrar".
 No centro hospitalar de Gaia-Espinho, por exemplo, 100% das vagas abrem em serviços na cardiologia pediátrica e cirurgia pediátrica, especialidades que vão deixar de existir. O mesmo se passa com a cirurgia vascular e cirurgia plástica reconstrutiva e estética, alerta José Miguel Guimarães. A solução, na leitura da Ordem dos Médicos, passa por rever a portaria que prevê a reforma hospitalar e manter os concursos.”
Finalmente despedi o Passos (ai se eu pudesse…), digo, despedi os passos e transcrevi toda a notícia que está bem feita. E tem o mérito de chamar os bois pelos nomes. Mas, que dizer deste aborto do Ministério da Saúde? Está tudo no texto. Porém, ela representa um facto digno de nota. É frequente um ministério entrar em rota de colisão com outro. Quando estive como assessor da ministro Sousa Franco, pude ver que isso acontecia na altura da elaboração do Orçamento do Estado (OE). O dinheiro não chega para tudo e para todos.
Mas no caso vertente a originalidade é evidente. A originalidade, o desconcerto, a imbecilidade, a irresponsabilidade tocam as raias da… indignação – e da interrogação. Será possível que isto aconteça? Desgraçadamente parece que sim. O ministro Paulo Macedo deve andar um tanto desatento ao que no seu ministério se passa. A greve dos médicos protestando contra a “lei da rolha” que ele pretendia impor deu-lhe água pela barba.
De tal maneira isso o preocupou que recuou. O bastonário da Ordem dos Médicos saudou na terça-feira o «recuo» do Ministério da Saúde na publicação do Código de Ética, sem alguns dos pontos que foram apontados como motivos da última greve dos médicos. José Manuel Silva considerou que, com a publicação em despacho da versão final do Código de Ética, cuja primeira versão levou os médicos a apelidá-lo de “lei da rolha”, o Ministério da Saúde “soube reconhecer as razões da Ordem dos Médicos e da própria sociedade que respondeu com grande veemência, em defesa da transparência do SNS”.
Porém, no caso vertente, a descoordenação brada aos céus. Se é que os céus têm algo a ver com esta cena anedótico-macabra. Dizem que o Cristo, do alto da cruz pediu: Pai perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem. E no Ministério da Saúde não sabem… 

Apontamentos de Lisboa

Junto ao Hotel Roma
Ontem, como sempre sucede nas manhãs de 4ª-feira, esta carrinha dedicou-se a arrancar mais umas quantas pedras numa caixa-de-visita - dando, ao mesmo tempo, 'cobertura moral' aos que destroem os pilaretes que protegem uma outra. Bem... pertence à Câmara Municipal de Lisboa, ao Departamento de Cultura (de cultura cívica, pelos vistos...), e está tudo dito.

Os tumultos antissemitas em França

Por C. Barroco Esperança 
É irrelevante que eu considere terroristas os dirigentes de Israel e da Faixa de Gaza, que me sinta dilacerado com a implacável lei de Talião aplicada nos territórios cuja origem das injustiças é diariamente evocada e objeto de tomadas de posição por todo o mundo. 
Não vale a pena recordar, a cada momento, o desacerto clamoroso da criação de Israel pela Inglaterra, URSS, EUA e pelos vencedores da Segunda Grande Guerra, em geral, que logo reconheceram o novo País, com a exceção , aliás pouco honrosa, do Vaticano. (...)
Texto integral [aqui]

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23.7.14

Douro - Rio, Gente e Vinho

Em meu nome e no da Editora Relógio d’Água, gostaria de anunciar a todos os interessados pelo Douro a publicação, dentro de poucas semanas, do meu livro “Douro – Rio, Gente e Vinho”. Trata-se de uma nova versão, corrigida, actualizada e muito aumentada, das edições de “Douro”, publicadas nos anos noventa e há muito esgotadas. Além dos acrescentos e dos novos capítulos sobre a história mais recente da região, incluí cerca de 230 fotografias, a maior parte inéditas e da minha autoria, mas também muitas outras de grandes fotógrafos que passaram pelo Douro desde meados do século XIX: Joseph James Forrester, George H. Moore, Emílio Biel, Alfred Fillon, Casa Alvão, Guedes de Oliveira e outros. A selecção fotográfica ficou a cargo de Angela Camila Castelo-Branco. A impressão foi da Guide – Artes Gráficas.

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Apontamentos de Lisboa

Av. 5 de Outubro (junto à Júlio Dinis)
Uma situação inqualificável é a de caleiras sem tampa, especialmente quando (como é o caso destas) estão assim há tempos infinitos - esperando que ali caia alguém cego ou que, simplesmente, veja mal. 
Em baixo vê-se o seguimento das de cima (que estiveram numa situação igual) e a exibição do desenrascanço do chico-esperto que resolveu o assunto... tapando-as com betão.

O horror e sobretudo como sair dele

Por Ferreira Fernandes 
A cidade Dresden foi arrasada em dois dias de 1945 e esse horror não faz uns, bons, os carbonizados cidadãos alemães, e os outros, maus, os aviadores americanos. Duplamente do lado errado (porque preso pelos alemães e porque sob as bombas dos seus compatriotas), o soldado americano Kurt Vonnegut nunca se esqueceu dos feridos e mortos que eram, dias ou horas antes, seus inimigos. Quando se tornou escritor, teve de recorrer à ficção científica, no romance Matadouro 5, para resolver consigo próprio o que vira. Sim, para bem dos homens é essencial essa compaixão, essa indignação. Por estes dias, vi jornalistas árabes a cair em soluços quando narram os horrores de Gaza. Redimem os homens. Mas apaziguar-me-ia mais ver jornalistas israelitas a exprimir os mesmos sentimentos perante a carnificina de que são vítimas, por estes dias, os palestinianos. E também gostaria de, já nem digo em vídeos do Hamas, ver jornalistas da Al Jazeera cair em soluços pela morte de um civil israelita. E esse, o choro do islâmico pelo islâmico, do israelita pelo islâmico e do islâmico pelo israelita, até nem seria pedir muito, é o patamar mínimo - ser contra os efeitos da guerra é o banal. O grandioso - sim, porque a história não é só o exato momento destes dias, há um passado e pretensos futuros - seria todos acharem que os dois lados têm o direito a estar ali. E isso, aos israelitas, há quem não reconheça, nem para início de conversa.
«DN» de 23 JUl 14

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Apontamentos de Lisboa

O calceteiro resolveu deslocar um dos triângulos rectângulos, formando um quadrado com outro. Tudo indica que ele andava a estudar o Teorema de Pitágoras, porventura nas Novas Oportunidades...

A sinistra relação das coisas

Por Baptista-Bastos
As coisas parecem indicar que, no próximo dia 23, a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), na cimeira de Timor, vai ter o seu requiem. Cabisbaixos e servis, os governos dos países que constituíam aquela vasta sociedade abandonaram os princípios, as normas e os valores morais dos fundadores e cederam aos grandes interesses dos negócios. As manobras de bastidores estavam, há anos, em movimento, e o que era uma ideia límpida e um conceito nítido de colaboração entre países de fala igual foi tripudiada friamente. A entrada da Guiné Equatorial, antiga colónia espanhola, cujos costumes, cultura, ideologia, política e comportamento são contrários, e até opostos, aos da comunidade, não é só absurda: possui as características de uma usurpação. Nem o facto de quem manda no país ser antidemocrático, ou ademocrático, como queiram, impediu o resto da comunidade de se opor ou sequer recalcitrar.
O capitalismo desconhece a história, as características, os padrões específicos das nações, nem isso está nos seus objectivos, mas tem de existir um contrapoder que permita a existência, simultânea, da soberania e do desenvolvimento económico, cultural e social. O que está em causa, com a inserção da Guiné Equatorial na CPLP é a imposição do axioma neoliberal, e dos abusos mais sintomáticos de uma violência sem paralelo nos nossos dias.
É lamentável que os países instituidores da comunidade não se tenham oposto a este enredo, que nada tem que ver com princípios de solidariedade e muito menos com relações de língua. De um modo mais simples, digamos que o capitalismo também neste caso sai vencedor, pela rendição, pela subserviência e pela nova categoria de negligência dos governos. Tem-se visto, um pouco por todo o mundo, a que conduz esta indiferença gelada, e às ameaças reais que pesam em todos. Parafraseando Sophia, nós sabemos, temos informações, assistimos ao caos, e não queremos assumir as responsabilidades de uma decisão.
Os tentáculos da ganância, a ausência de um ideal progressista que se lhe obste, continuam a desembocar em múltiplas incertezas. O espectro da guerra paira como endemia. A selvajaria dos conflitos locais só o é porque descuidamos da natureza do que oculta. O abatimento do avião da Malaysia Airlines não é, somente, uma ignomínia pavorosa: indica que o mundo actual não conhece limites, e está associado à assunção de um novo paradigma, que temos de combater com energia, porque a nossa sobrevivência ética está em questão. Como se lê n' Os Irmãos Karamazov, de Dostoievki, "se Deus não existe, tudo é permitido". Deus como acto moral, Deus como espessura e dignidade humanas. Não é abusivo estabelecer relações entre as coisas: todas elas estão ligadas e obedecem a leis muito próprias. 
«DN» de 23 Jul14

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22.7.14

A malta do "É igual ao litro"

Então "excepto" passou a "exceto" e "afecto" não passou a "afeto" porquê?

21.7.14

Estamos bem entregues!

Quando me disseram que esta senhorita era deputada, não acreditei. Mas fui verificar, e... BINGO!
Bem, talvez isso faça parte das quotas: se tem de haver uma certa percentagem de mulheres, se calhar também tem de haver uma de analfabetos/as.

Lisboa, Reino do Absurdo

Esta cena é recorrente, pois o egoísmo da malta do "estamos a trabalhar!" não conhece limites: o condutor da camioneta, apesar de ter lugares com fartura, pára no meio da rua, bloqueando-a completamente, e gerando um engarrafamento atrás de si.

Herdar Pode Fazer Mal à Saúde

Por Maria Filomena Mónica
EM 1988, em vésperas de morrer de um cancro na laringe, o meu pai aproveitou um dos raros momentos em que esteve comigo sozinho para me dizer, na voz rouca que agora era a sua, que o maior desgosto da sua vida era não me poder deixar nada. Sendo o primogénito, fora obrigado a tomar conta do negócio do meu avô – exportação de madeiras – para o qual não tinha nem jeito nem apetite. Nos finais da década de 1950, sem que ninguém tivesse dado por isso, a empresa estava arruinada. Tentou escondê-lo, primeiro, de si próprio, depois, da minha mãe – uma coisa impossível – e finalmente dos seus quatro filhos. A conversa comigo repetir-se-ia noutras ocasiões, tendo-lhe dito, com uma ternura de que me julgava incapaz que, em vez de isso me ser prejudicial, era uma bênção.
Sempre pensei que a herança faz mal às pessoas, crença que se foi solidificando com os anos. Claro que o dinheiro é importante, sobretudo por ser uma base de independência, mas tem de ser ganho, não caído do céu. Como vimos no recente caso de um conjunto de banqueiros aparentados, a riqueza contribui para nos apodrecer, para suscitar rivalidades entre irmãos e para destruir famílias. Um dos responsáveis é o Estado, que não admite a liberdade de testar. Não é a primeira vez, nem provavelmente a última, que me perguntam se não sinto um instinto maternal no que diz respeito ao património. Não, porque o meu pecúlio (reunido com o objectivo de pagar as enfermeiras que me irão tratar) é reduzido e por julgar que isso faria mal aos meus descendentes.
E se fosse muito rica, perguntam-me? Admito que deixaria um fundo aos meus netos para que pudessem ingressar numa boa Universidade estrangeira. E se restasse dinheiro nos cofres? Nesse caso, deixá-lo-ia a uma causa que merecesse o meu apoio. Não se trataria de fazer a proverbial caridadezinha, mas de contribuir para que o meu país desse oportunidade a quem a merece. Sei que frequentemente, por detrás da retórica meritocrática, se esconde a vaidade ou a embirração com os filhos. Não é o meu caso.
No mundo anglo-saxónico, a tradição de devolver à sociedade o que ela nos deu mantém-se. No século XIX, os casos mais paradigmáticos foram o de Andrew Carnegie (1835/1919) o qual, após ter constatado que, em geral, os herdeiros delapidavam o dinheiro de forma estúpida, optou por criar museus, fundações e bibliotecas, e o de John D. Rockfeller (1839/1937), o autor das frases inscritas na placa comemorativa do seu Centro em Nova Iorque. A tradição mantém-se, quer nos EUA, quer em Inglaterra. No último mês de Março, John Records, CEO e fundador da empresa ao.com, que vale 500 milhões de libras, declarou publicamente: «Os meus filhos não herdarão um tostão». Há outros casos de gente famosa – desde o casal Gates, donos da Microsoft, a Anita Roddick, fundadora da cadeia Body Shop, – que tencionam fazer o mesmo. O dinheiro herdado gera adolescentes retardados: não é isso o que desejo para os meus netos.
«Expresso»

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Ultimamente não tanto, mas não faltam casos em que máquinas ATM são assaltadas com a sua remoção pura e simples! Como é isso possível, quando até a mais simples máquina de venda de cigarros tem o que aqui se vê?!

É oficial: o mundo está perigoso

Por Ferreira Fernandes 
As guerras começam com boas explicações e depois é o diabo... O diabo é que ela é feita por homens. Não interessa se aqueles milicianos, rebeldes, o que quiserem, da Ucrânia Oriental têm boas razões, basta ouvi-los para lhes medir o perigo. Pela rádio, um informava: fora abatido um avião, julgavam que era militar mas era civil, os brinquedos e roupas assim diziam... "E os pilotos?", perguntava o chefe. De aviação civil, dizia o que já tinha dúvidas. "Espiões", rematou o que só tinha certezas. Homens de guerra, sem leis (pior, para gente com armas: sem regras). 
Disse alguém: "As guerras são importantes de mais para ficarem nas mãos de militares." Calculem agora o que é nas mãos de cães de guerra. A Ucrânia é geopolítica pura. País que fez história e impérios com outro, vizinho que de pátria comum passou a inimigo. Assunto para ser tratado, com pinças, nos gabinetes atapetados das chancelarias. Antigamente, para apressar e instigar, lançavam-se aventureiros para o campo - mata-se, incendeia--se, viola-se. Danos controlados. Agora, um punhado de aventureiros não chega à distância do tiro de mosquete, mas a 33 mil pés onde passa o mundo. Apetece dizer: que sorte! Só mísseis SA-11, de algumas dezenas de quilómetros de alcance. Que sorte, por enquanto! Ou vocês não sabem que a guerra continua e que outro armamento há para ali? Perceberam agora porque a Ucrânia não era assunto para ser acicatado? 
«DN» de 21 JUl 14

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20.7.14

Apontamentos de Lisboa

Habituámo-nos a ver, à beira das estradas portuguesas, lixeiras onde pontificam, invariavelmente, colchões e frigoríficos.
Pois essas prendas chegaram à cidade, mais concretamente às avenidas novas.
Neste caso, menos de 50 metros separam as duas cenas, com a particularidade de que o frigorífico está ali há cerca de uma semana, já esventrado e servindo de caixote do lixo.

Firmes com galheteiros moles com passageiros

Por Ferreira Fernandes 
Não vou discutir a bondade das diretivas, quero é sublinhar o cuidado extremoso da União Europeia com os seus cidadãos. Debruçam-se ao pormenor (tipificam os galheteiros), formam-nos a consciência ecológica (interditam estradas por onde passam musaranhos), fortificam-nos a compaixão (torcem o nariz à matança do porco) e denunciam o bronzear das bolas-de-berlim nas praias. Enfim, um cuidado de legislar até questões de caca: ainda no ano passado quiseram padronizar os autoclismos europeus - moeda única, uma só descarga - para que pelo menos de cócoras sejamos todos iguais do Minho à Vestefália. Repito, não julgo, só assinalo o cuidado. Ora, no dia seguinte ao abate do avião malaio, as companhias de aviação perguntaram à Eurocontrol, a agência de segurança do tráfego aéreo europeu (à qual a UE aderiu): "Podemos voar sobre a Ucrânia?", a Eurocontrol respondeu: "Todas as rotas fechadas são perigosas. Consideramos seguras as áreas não fechadas, mas a decisão de sobrevoar a Ucrânia só as companhias podem tomar..." Já vi musaranhos mais firmemente protegidos. Quando avião malaio passou na Ucrânia Oriental, a zona estava fechada só abaixo dos 32 mil pés e o avião ia 33 mil (cerca de 300 metros) acima - e deu no que deu. Eu esperava, habituado ao zelo que a UE me tem ensinado, que a diretiva fosse outra: "As companhias decidem o que quiserem, mas os administradores serão internados como malucos."
«DN» de 20 Jul 14

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Luz - Rua de Cartagena de las Índias, Colômbia

Fotografias de António Barreto- APPh
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Mais uma rua desta curiosa cidade da Colômbia. Por todas as razões possíveis, a cidade antiga exibe uma limpeza invejável. Como se pode ver por esta rua e pelo varredor que, cedo de manhã, trata dos pormenores… A cidade, além de receber enormes quantidades de turistas e de mostrar fabulosos vestígios dos tempos coloniais, das actividades da pirataria, do comércio de escravos e do tráfego de esmeraldas e ouro, é também “património da Humanidade”. E tem-se a impressão de que os seus cidadãos e as autoridades prezam o facto e esforçam-se por manter esse estatuto. (2003)

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19.7.14

Viva as bundas ditosas!

Por Ferreira Fernandes 
Morreu ontem, no Leblon, Rio de Janeiro, o escritor João Ubaldo Ribeiro, nascido na ilha da Itaparica, Bahia. O percurso geográfico acerta com o plano de vida. Um dos seus livros, A Casa dos Budas Ditosos, fala do pecado da luxúria, o que levou um nosso merceeiro a proibir o livro, apesar de expor em prateleiras produtos concupiscentes, como sabonetes e certos legumes. Ontem, um parceiro de juntar maravilhosamente palavras, Luis Fernando Verissimo, classificou Ubaldo de "o mais delicioso escritor brasileiro." Um poço de pecados, depois da luxúria, a gula que causava. E causava. Num romance com um título que só um amante ingénuo (e ele não era ingénuo, amantíssimo chegava) podia inventar, "Viva o Povo Brasileiro!", ele pôs em epígrafe, tabuleta a prevenir o que encontraria lá dentro: "Não existem factos, existem histórias." Nos anos 80, viveu em Lisboa, de onde mandava crónicas para o Brasil. Para verem como isso era no outro milénio, ele ia entregar as folhas, destinadas ao Rio, a tripulantes da companhia aérea Varig. Numa crónica, ele conta como encontrava colegas de letras brasileiras numa esquina, num quiosque, na rua da Betesga, em lugares lisboetas e ninguém lhe acenava. Numa estação de metro até viu passar um ator de telenovela, então famoso, José Lewgoy, conduzindo o comboio. Também não o cumprimentou. Os factos não existiram. Existia talvez uma história de saudade.
«DN» de 19 Jul 14

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Prefácio

Por A. M. Galopim de Carvalho 
PREFACIAR “COMER EM ÉVORA”, da autoria de Jerónimo Heitor Coelho, a um nível literário condizente com a superior qualidade da obra, foi uma tarefa de imensa dificuldade colocada a este curioso das letras e da gastronomia, que sou eu, profissional de outros saberes, onde as rochas, sendo pedras, ganham vida e fazem história. Mas o autor assim quis e eis o que me ocorreu escrever. (...) 
Texto integral [aqui]

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18.7.14

Como Enriquecer sem Risco

Por Maria Filomena Mónica
 PARA SE ENRIQUECER em Portugal não é preciso faro empresarial, inteligência ou trabalho. Basta conhecer alguém no governo ou nos partidos. Certamente que os leitores não estarão à espera que eu entenda os pormenores técnicos do processo de criação das PPP, mas julgo saber que foram criadas por Executivos em vésperas de eleições, envolvendo contratos favoráveis aos privados e lesivos do interesse dos contribuintes. Se não acredita, entretenha-se a ler os documentos oficiais e ainda o relatório da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. Em 2013, segundo o Correio da Manhã (11. 5. 2014), 19 ex-governantes usufruíram, em empresas cotadas, remunerações anuais que ascenderam a 3,6 milhões de euros. Como é óbvio, a passagem pelo governo foi uma plataforma para se chegar a melhor lugar. Em cima do carrossel estão sempre os mesmos.
Esta forma de obter vantagens não é diferente do que se passava com o velho contrato do tabaco. Durante séculos, este sector foi um exclusivo da Coroa. Por razões que não vêm ao caso, a certa altura, passou a ser entregue a particulares, através de arrendamentos, os quais tiveram sempre numerosos pretendentes. Isto não nos deve admirar, uma vez que a receita representava um dos mais seguros meios de acumular fortuna. A importância do contrato demonstra a fraqueza do capitalismo nacional: não era por fábricas, por minas ou por companhias de navegação que os portugueses se interessavam, mas por um sector arcaico e dependente do Estado.
Grande parte das mais luxuosas casas lisboetas pertenceu a famílias há muito ligadas ao tabaco. Vejam-se os sinais exteriores de riqueza: as casas de José Maria Eugénio de Almeida a S. Sebastião da Pedreira (actual Quartel General), os palácios do conde de Farrobo (actual IADE e a Quinta das Laranjeiras, hoje Jardim Zoológico e Ministério da Educação), a casa dos Pinto Bastos ao Chiado (hoje da Seguradora Mundial), o palácio do conde de Castro Guimarães em Cascais (hoje um museu), a mansão do conde de Burnay (hoje a sede do ISCP) e o palácio dos Marqueses da Praia (hoje a sede do PS). E ainda a quinta de Tomás Maria Bessone, na Penha Longa, a Quinta das Águias do 1.º Barão da Junqueira no bairro com este nome, o palácio de José Isidoro Guedes ao Campo Santana (Embaixada Alemã), o palácio dos Ulrichs na Cova da Moura, a casa de José Almeida Brandão e Sousa à Junqueira (Arquivo Histórico Ultramarino) e sobretudo a Praça do Príncipe Real, o sítio preferido por famílias ligadas ao negócio, com o seu palácio oriental, mandado construir por José Ribeiro da Cunha e, do outro lado, os palácios de João Paulo Cordeiro, do visconde de Penalva e do Barão de Santos. A lista demonstra o fausto em que os concessionários viviam.
O processo das PPP é parecido com a concessão do tabaco: o Estado escolhe quem, de entre os ricos, se tornará milionário. Só peço uma coisa: por favor, não me venham com a treta de que este governo é «neo-liberal». A troika não mudou o nosso carácter. O mercado continua a ser um fruto que não amadurece neste solo.                    
«Expresso»

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Dois voos para a coincidência tremenda

Por Ferreira Fernandes
Por uns dias ou num pouco provável mistério eterno, vai ficar sem se saber quem abateu o avião malaio na Ucrânia. Ontem, já se dava como mais ou menos certo que foi um míssil terra-ar. Mas de quem? O tal míssil apontaria, hipótese mais plausível, os secessionistas russos como culpados - são eles que utilizam aquelas armas porque os adversários ucranianos têm aviação militar e eles não. Mas essa lógica joga também contra si - afinal, estamos numa guerra e atirar as culpas para o inimigo é arma comum e eficaz. Ação deliberadamente criminosa de pró-russos ou de pró-Kiev são, pois, ambas credíveis, até porque as guerras civis (como esta, no fundo, é) são capazes de tudo. Mas, já numa maldade minimamente aceitável, a hipótese que menos chocaria a consciência universal (bastante amolecida, vemos telejornais todos os dias) seria um míssil lançado equivocadamente para o alvo errado. Isso tudo saber-se-á, talvez. Outra coisa é um avião da Malaysia Airlines, em março, desaparecer com 239 passageiros, no voo MH 370 - um mistério tremendo - e, cinco meses depois - coincidência também tremenda - outro avião da mesma companhia, voo MH 17, matar 295 passageiros. Ontem, alguém em Kuala Lumpur soube mostrar o estupor: "Não estamos preparados para isto tão cedo depois da tragédia do MH 370." Quem apertou o gatilho deveria ficar também com esta frase na consciência. Se a tivesse.
«DN» de 18 Jul 14

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O Avião abatido

Por Antunes Ferreira
A AIR MALASIA voltou a estar no primeiro plano das preocupações mundiais. Ainda não se conseguiu desatar o imbróglio do desaparecimento do Boeing 777, cujo desaparecimento misterioso parecia estar a pontos de terminar; pelo menos os órgãos da comunicação social aparentemente tinham deixado de interessar-se pela ocorrência para a qual foram surgindo teorias mais ou menos mirabolantes.
Mas, de repente as parangonas voltaram a utilizar o nome da companhia malaia. Outro Boeing 777 despenhou-se na Ucrânia causando a morte de 295 pessoas: 280 passageiros e 15 tripulantes. A região em que o caso aconteceu é palco duma verdadeira guerra civil, com o exército de Kiev a tentar recuperar território que os separatistas pró-russos ocupam, aparentemente com a ajuda de Moscovo.
Até aqui não registo qualquer novidade. Mas o busílis da questão é que tudo indica que a aeronave foi abatida por um míssil terra-ar. Os serviços secretos norte-americanos disseram não ter dúvidas disso e até o vice de Obama Joe Biden se pronunciou no mesmo sentido. O óbice reside no facto de até à data em que escrevo não se conseguira saber de onde teria sido lançado o míssil. 
Petro Poroshenko, o presidente da Ucrânia disse que os autores do crime eram os separatistas pró-Rússia. Vladimir Putin, por seu turno, declarou que os autores do crime eram os dirigentes ucranianos que tinham lançado uma ofensiva para recuperar a região cuja capital é Donestk, que está na posse dos rebeldes. É um jogo do empurra, que faz lembrar de imediato o que aconteceu em 20 de Abril de 1998 com o voo do avião da Korean Airlines KAL 902 que foi abatido pela aviação russa por ter “invadido” o espaço territorial do país, mais precisamente em Murmansk.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu de emergência para analisar o ocorrido. As rigorosas investigações que já foram determinadas, temo que resultem em nada o que é vulgar em tais situações. Mas, e se derem? Se condizerem à conclusão que foram os separatistas os autores do crime que lhe irá acontecer?
A resposta pode ser não linear e clara. Os interesses que se movem no terreno passam pelo gás russo e seu abastecimento à Europa ocidental. Singularmente, Obama e Merkel tinham acabado de dar a cara para serem aplicadas novas sanções à Rússia por causa de não se resolver a contenda bélica eu de desenrola naquela região. E o czar Putin já respondera que elas poderiam representar a prova de que as relações entre os Estados Unidos e a Rússia entraram definitivamente na fase mais delicada das últimas décadas.
A reacção do Presidente Putin constou de uma declaração invulgarmente dura, em que o chefe de Estado russo afirmou que o novo pacote de sanções vai levar as relações entre os dois países para "um beco sem saída". E surge também aqui o ditado que diz: nunca apontes um dedo a uma pessoa pois ficas com quatro virados parati… 
Tudo misturado dá um pot-pourri cujo desenvolvimento não posso antever; nem eu, nem muita gente mais. Salve-nos a Senhora da Agrela que não há santa como ela. Ainda que eu duvide da competência dela face a um tema tão bicudo. A Virgem de Fátima está afastada. Presumo que esteja cansada da trabalheira que teve aquando duma avaliação feita pela troika.
O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, atribuiu hoje à Ucrânia a responsabilidade pela queda do avião malaio que se despenhou no leste daquele ex-Estado soviético. “Não há dúvidas de que o país em cujo território essa terrível tragédia aconteceu tem a responsabilidade”, disse Putin, citado pela agência de notícias Ria Novosti. "Essa tragédia não teria acontecido se houvesse paz no país, se as operações militares não tivessem sido retomadas no sudeste da Ucrânia”, vincou Putin. Um Boeing 777 da Malaysia Airlines fazia a ligação entre Amesterdão e Kuala Lumpur com 295 pessoas a bordo e desapareceu dos radares da Ucrânia a uma altitude de 10.000 metros. O aparelho perdeu a comunicação com terra na região oriental de Donetsk, perto da cidade de Shaktarsk, e palco de combates entre forças governamentais ucranianas e rebeldes federalistas pró-russos.
Segundo responsáveis dos serviços secretos norte-americanos, o avião foi abatido por um míssil terra-ar de origem ainda desconhecida.

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17.7.14

Os pinta-paredes (106)

Lagos - Junto ao renovado Parque da Cidade (à direita, com a velha muralha) e a um grande parque de estacionamento gratuito (ao fundo), existem estes bancos. Como poderiam estes escapar à fúria dos gatafunhadores de serviço?!
(Há anos que este tontinho anda a escrever "Amo-te, Inês" (por sinal, sempre com erros) nos mais diversos sítios da cidade. A minha esperança é que casem depressa. Assim, ele já poderá gatafunhar as paredes da sala e do quarto lá de casa).

Estar pelos cabelos com estes malucos

Por Ferreira Fernandes 
Uma repórter do Times de Londres está em Akcakale, cidade turca na fronteira com a Síria. Do outro lado é outra cidade, Tel Abyad. A repórter foi a uma loja de Akcakale, para que o barbeiro, que fugiu da Síria, nos explicasse a região, da raiz à ponta dos cabelos. No tempo do regime de Bashar, que ainda continua firme em Damasco, a cara dos homens era escanhoada. Depois, começou a rebelião e o Exército Livre da Síria (ELS), a favor de um regime democrático, ocupou a região. O barbeiro sentiu na pele a guerra civil mas também no pelo dos clientes. Aumentavam as barbas, que eram tratadas com cuidado e passadas pelo secador. Mas nas barbas desses rebeldes mais suaves cresciam, entre alguns dos seus aliados, uma ala de barba rija de convicções, os radicais do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), que decretou um califado e expulsou o ELS. A linha política do atual poder em Tel Abyad, segundo o barbeiro, é longa: agarra-se a barba com dois punhos justapostos e têm de sobrar pelos. Com a vitória dos barbudos farfalhudos, os das barbas cuidadas fugiram para a vizinha turca. Entretanto, o EIIL prometeu perdão a quem regressasse. Então, na barbearia apareceram os do ELS, pedindo para raspar as caras. Achavam que, ao regressar, era mais seguro parecerem-se mais com o inimigo antigo comum do que com os aliados recentes. Sabe bem ver um folículo de inteligência entre tanta política sebácea.
«DN» de 17 Jul 14

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O Instituto para as Obras Religiosas (IOR), a máfia, os negócios e a santidade

Por C. Barroco Esperança
O Banco do Vaticano, conhecido pelo pseudónimo de IOR, foi criado pelo quase santo Pio XII, com o pretexto de guardar esmolas das caixas e de outros recipientes pios onde os donativos, de quem queria lavar a alma, chegavam em quantias avantajadas. Foi o papa Paulo VI, decidido a escapar ao cerco fiscal do Governo italiano, que exigiu “o pagamento de todos os lucros retroativos sobre investimentos, o que ultrapassava mil milhões de euros atuais”, que começou a expatriar grandes quantias de dinheiro do IOR. (...)
Texto integral [aqui]

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16.7.14

CML escolhe o caminho da facilidade

Em breve os lisboetas vão ser brindados com mais uma taxa. Desta vez o pretexto é o lixo, e o débito vai aparecer na conta da água. No entanto, e como se vê pela imagem de baixo, já existe uma coisa parecida para o lixo urbano (extensiva aos omnipresentes excrementos de cão), e por sinal bem justa.
A questão é a habitual: quantas destas coimas foram, até hoje, aplicadas?

Que fazer com Portugal?

Por Baptista-Bastos
A experiência e os indicadores demonstram que o conceito de democracia, tal como o sonhámos ou concebemos, foi substituído por outro paradigma. O "cansaço democrático" tem muito que ver com uma ideia de passadismo, com a perda do "objecto estimado" trocado pela pressa da ganância e pela ascensão precipitada e com escassos princípios de uma geração "da insignificância." A crise europeia dos partidos teria, inevitavelmente, de se reflectir, pelos motivos apontados, em Portugal e nas organizações políticas tradicionais.
O PS está cindido porque a própria natureza das suas estruturas, a ausência de uma ideologia "de esquerda", e o abandono das velhas bandeiras por dirigentes pouco ou nada interessados em combater o "sistema", conduziram a um estado cataléptico. O pobre António José Seguro tem dado uma ajuda a esta insalubridade, mas ele não é causa, é resultado, e manifesta módica fibra em alterar o que está. António Costa provém de outra leva, e a apreensão que provoca, na direita e adjacências, surge como uma espécie de pecado capital. O susto que tem causado é semelhante àquele que o PREC ateou nos esquemas tradicionais de poder. O que não é despiciendo, tendo em conta o amorfismo em que vivemos. Mas, tenham calma, as águas voltarão a estar quedas. Os sinais são esses.
O PSD, historicamente um aterrador saco de lacraus, está mais dividido do que aparenta. E a Dr.ª Manuela Ferreira Leite faz-nos, pontualmente, o diagnóstico da situação, e esclarece-nos, sem rebuço nem dubiedade, estarmos a ser governados por um bando de mentirosos e de ineptos sem perdão. Haja Deus e haja Freud!
O Bloco de Esquerda, agrupamento simpático mas fervorosamente desorientado, vai-se desfazendo aos poucochinhos. A "linha" Miguel Portas, que ninguém em seu perfeito juízo sabe rigorosamente o que seja, ganhou outra aliada, com a dissidência de Ana Drago do interessante agrupamento. Sequer se vislumbra ou se adivinha o que virá a seguir, mas a prever pelas declarações de Drago, veemente e severa, ou o Bloco se coliga com o PS, ou não será. Induz-se que a direcção bicéfala pretende aliar-se, isso sim, ao PCP, e as reuniões havidas entre dirigentes de ambos os partidos caucionam as apreensões dos representantes da "linha" Portas.
Está tudo a desconchavar-se, e as referências que tinham alimentado os sonhos, os combates e as esperanças de gerações e gerações foram varridas pela ausência de responsabilização dos "tempos novos". Estes, propagandeados como bonançosos, depois dos "ajustamentos", oferecem o vazio e a indiferença como sinónimos de tranquilidade. E não assinalam a razão fundamental do arquétipo: a perda das lógicas democráticas. É a uma nova tragédia o que estamos a assistir. 
«DN» de 16 Jul 14

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Os pinta-paredes (105)

Sim, Lisboa é de todos/as, incluindo quem a não estima... de todo.

Isto tem mesmo de ser investigado

Por Helena Matos 
Dois doentes morreram enquanto esperavam por uma intervenção no Hospital Santa Cruz, alegadamente por falta de dispositivos médicos devida a «limitações administrativas», denunciou hoje a Ordem dos Médicos, com base na denúncia de clínicos da unidade de saúde. A última vez que tivemos uma onda de indignação nacional nestas matérias – O inferno de uma doente com cancro deixada na escadaria de uma igreja - nada era o que parecia De qualquer modo o caso será sempre grave e precisa de ser investigado: se tiver acontecido nestes termos é gravíssimo, se se tratar de uma denúncia que depois se percebe não ter sido bem assim antes pelo contrário grave continua a ser. 
Blasfémias.Net

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15.7.14

E ainda falam de falta de supervisão

Por Ferreira Fernandes 
A belga Axelle Despiegelaere - apesar do nome, bela - assistia no Maracanã a um jogo. Às câmaras agradou a cara laroca, olhos verdes, boca marota e cabelos louros caindo do boné com chifres do diabo (à equipa belga chamam Os Diabos Vermelhos) e Axele apareceu nos ecrãs do estádio, e daí para o mundo. A L'Oréal propôs-lhe um contrato universal para modelo dos seus produtos de beleza. Até aqui, a descoberta de uma beleza, é só um processo antigo. Para não sair da nacionalidade, a belga e desconhecida Audrey Hepburn entrou num hotel de Paris, a escritora Colette encantou-se com a elegância e assim nasceu um ícone do cinema. Olheiros sempre houve mas a modernidade permite que as futuras vedetas, mesmo no fim do mundo, nos entrem agora pelos olhos dentro. Adiante, já famosa e com contrato, Axelle, de 17 anos, decidiu expor-se. Antigamente seria uma carta às amiguinhas. Hoje, legendas em fotos, no Facebook. Nas fotos de Axelle, sempre a boca marota mas também uma carabina de caça grossa, ela gosta de atirar em rinocerontes e onças. Escândalo no Facebook e rasgar de contrato pela L'Oréal. Por favor poupem-me comentários a malefícios da caça, isso é no consultório ao lado, só trago para aqui a contratação e queda da Axelle, numa semana, para lembrar que nos estão à coca, para o bem e para o mal. O patrocínio da L'Oréal estava errado, certo seria o de uma qualquer marca de câmaras de vigilância.
«DN» de 15 Jul 14

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Cada um sabe de si, mas será que "assustador" é um adjectivo bem escolhido para publicitar (e enaltecer...) um produto ou serviço?

Ainda as eleições europeias


 Por Maria Filomena Mónica
COMO PROMETERA a mim própria, anulei o voto, escrevendo no boletim as seguintes palavras: «Não voto em siglas». Sei perfeitamente o que fiz e as razões que a tal me levaram: os políticos voltaram-me as costas e eu paguei-lhes na mesma moeda. À ida para o local, cruzei-me com dois jovens. Um dizia para o outro: «Estás maluco? Se fui votar? Então, se não voto nos malandros que se sentam ali em S. Bento, muito menos o faria nos que se passeiam, de avião, entre Lisboa e Bruxelas». Notei que, pelas escadas do edifício designado para o efeito, subiam muitos eleitores, mais os idosos do que os jovens. À saída, encontrei duas velhotas. Uma saía, a outra entrava. Rindo-se, a primeira dizia à segunda: «Então, a vizinha lá vai votar?». A resposta veio célere: «Claro, trata-se de um dever».

À noite, constatou-se que os votos brancos e nulos tinham ascendido a 7, 49 %. Houve, por conseguinte, 245.338 cidadãos que se deram ao trabalho de sair de casa para dizer que não concordam com a organização da União Europeia. Na realidade, tal como está, aquela é uma quimera, ou seja, um projecto utópico que procura chegar ao seu fim sob uma autoridade disfarçada. É, no entanto, difícil resistir aos ditames de Bruxelas, especialmente em Portugal, onde os cidadãos ainda pensam que as ditaduras envolvem sempre, como a de Salazar, uma polícia política. O facto de o governo europeu se ter transformado numa burocracia não nos aflige tanto quanto a outros, porque sempre assim vivemos. Há ainda o facto de a Europa nos ter ajudado a construir auto-estradas, a reparar pontes e a reconstruir o património arquitectónico. Desde há muito que nos habituámos a ver, perto dos estaleiros, placards com estrelinhas em fundo azul. Há três anos, até na ilha das Flores, a parte mais ocidental da Europa, as encontrei.

 Portugal tem uma tradição autoritária que faz da integração na UE um factor mais aceitável do que noutros países. Uma coisa é nascer-se num país como a Inglaterra, no qual o liberalismo e a democracia são desde há muito respeitados, outra num país onde o clientelismo e o arbítrio tudo abafam. No primeiro caso, o euro-cepticismo faz sentido; no segundo, é de utilidade duvidosa. Não sendo dada a nostalgias patrióticas, não defendo o Estado-Nação, por o considerar uma entidade inerentemente superior a uma Federação, mas por julgar que, neste caso, o federalismo contribui para exacerbar sentimentos xenófonos. Finalmente, o projecto da UE depara-se com um problema: a ausência de uma cidadania europeia. Poucos indivíduos se vêem como europeus, como se vêem como portugueses, espanhóis ou franceses. Muitos foram e serão «europeus» enquanto Bruxelas lhe mandar dinheiro.

PS: A 5 de Maio último, saiu finalmente a portaria que regulamenta o testamento vital, um labirinto de 11 artigos de tal forma redigidos que provavelmente terá como resultado levar muitos cidadãos a desistir do intento.
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«Expresso»

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14.7.14

Recentemente, Ferreira Fernandes comentava o facto de a imprensa desportiva minimizar os 7-1 do Alemanha-Brasil.

Veja-se, hoje, o destaque dado à final do Mundial (comparado com o que é dado a outras notícias).

Os melhores MBA tiram-se nos relvados

Por Ferreira Fernandes 
Diz-me pouco a repetida citação de Albert Camus sobre futebol. Sim, o Nobel de Literatura e ex-guarda-redes do Racing de Argel disse: "O pouco que sei da moral aprendi-o nos campos de futebol." Mas não, essa não é maior frase filosófica sobre o assunto. A maior é: "Jogo para lutar contra a ideia de perder", de Éric Cantona, futebolista e bruto. Dito isto, o futebol não é o melhor terreno para tiradas profundas. O seu sucesso vem-lhe das regras simples e por isso é que o futebol é melhor como manual de vida. O grande Oscar Niemeyer concorreu para conceber o Maracanã, não o de ontem, renovado, mas o construído para o Mundial de 1950. Ele projetou-o belo mas sem conhecer bem para que serviria. Desenhou-o assimétrico, juntando quase todos os espectadores de um lado abrigado do sol, deixando o fronteiro quase vazio. O projeto exigia demasiado dinheiro e foi recusado, o que Niemeyer, mais tarde, depois de ouvir os amantes de futebol, entendeu que fora a decisão acertada: um estádio oblongo, esse, sim, repartindo os espectadores de forma uniforme, tal como são ainda quase todos, cria o clima de festa próprio do futebol. Eis, mais um ensinamento prático que aprendi graças ao futebol. Especialistas talentosíssimos mas desconhecendo a essência (bela palavra, quer dizer coração) do negócio (bela palavra, quer dizer falta de ócio) fazem asneira se não ouvem quem devem - os amantes da essência do negócio. 
«DN» de 14 Jul 14

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A malta do "é igual ao litro"

Falta qualquer coisa - e logo na 1ª linha...
O que é?

13.7.14

Apito final foi a consolação do jogo

Por Ferreira Fernandes 
Afinal, o nome, jogo de consolação, não foi mal apanhado. Só que aconteceu tarde, aos 95 minutos, com o apito final foi consolação, alívio, refrigério. Antes, foi mais jogo de expiação. No começo, quase geral, via-se nas olheiras, brasileiras e holandesas. Noites mal dormidas pelas asneiras cometidas nos jogos anteriores, nas meias-finais, que os lançou fora do jogo a sério que é o de hoje. Mais práticos, os holandeses - o escritor português Rentes de Carvalho, que vive com eles há décadas, descreve-os como aqueles que chocam de bicicleta, caem, levantam-se, pegam na bicicleta e vão à vida sem se cumprimentar nem xingar -, os holandeses, já que estavam ali, meteram golos e começaram ao minuto 2. Temeu-se: queres ver que nem é consolação nem jogo? Temeu-se que fosse treino, aquilo que no boxe se chama sparring - será que o Brasil passou a gostar de ser saco de pancada? Valeu-lhe que à falta de se jogar para nada, os holandeses perceberam que também jogavam contra pouco e descansaram. Todos perceberam, até o árbitro, argelino. Ali, em Mundial organizado pelo Brasil, um brasileiro é derrubado em falta na grande área e... recebe cartão amarelo. O Brasil anda a perder tudo, até o respeito de todos. Entretanto, todos os convocados brasileiros, menos dois guarda-redes, acabaram por jogar. Scolari pensa que é consolação. Não é, é cadastro. Aposta desportiva: Brasil não volta a querer organizar um Mundial neste século. 
«DN» de 13 Jul 14

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Luz - Vendedor de fruta, Cartagena de las Índias, Colômbia

Fotografias de António Barreto- APPh
 Clicar na imagem para a ampliar
Já aqui vimos vários vendedores de fruta e diversas ruas de Cartagena. A cidade colonial é uma atracção turística poderosa, recebendo visitantes das Américas do Sul e Norte, assim como europeus. Talvez por isso a cidade esteja muito limpa. E nela todos os clichés são verdadeiros: cores e cheiros tropicais; fruta, peixes e mariscos; vendedores ambulantes; rum, café, sumos de tudo e de mais qualquer coisa… Come-se e bebe-se na rua por todo o sítio… Música sempre presente… Roupa colorida… Calor… Humidade… Vento quente… (2003)

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ALTERAÇÃO DAS ROCHAS (5)

Por A. M. Galopim de Carvalho

Texto integral [aqui]

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12.7.14

Fazer "selfie" na largada de San Fermín

Por Ferreira Fernandes 
O argumento de autoridade foi dado no funeral de Mandela: se líderes políticos e até o poderoso Barack Obama podem fazer-se selfies durante uma cerimónia triste e oficial, porque não eu, em qualquer circunstância? Agora, nas largadas de San Fermín, já há quem corra nas ruas de Pamplona, olho na câmara, fotografando-se com as hastes pontiagudas do touro a morder--lhe as nádegas - o selfie suicida. Este é um argumento de coragem, capaz de tornar ainda mais viral esta atividade. O selfie é uma prática tola, há quase sempre alguém por perto disposto a fazer facilmente e melhor o que pretendemos fazer com dificuldade e desfocado. E é uma prática que vai mais longe do que o "ó pra mim!" do vaidoso - com o selfie ele abdica do interesse dos outros para se dedicar a ser o único espectador de si mesmo. A técnica limitada - no fundo, é só estender o braço e virar a objetiva para si - obriga a moda a procurar ideias cada vez mais insólitas. Ainda vamos ver o guarda-redes alemão Manuel Neuer a estender o braço esquerdo para melhor captar o voo da sua luva direita. Ou um marido a fazer selfie durante o ato como retaliação justa para a mulher que, na mesma ocasião, masca chiclete e lê a Nova Gente. E haverá mortos que, apostando no espasmo cadavérico, levam a câmara fotográfica para o velório: o braço a sair do caixão no selfie final causará um efeito comentadíssimo. Sobretudo se houver flash
«DN» 12 Jul 14

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11.7.14

Ainda a malta do "é igual ao litro"

Apontamentos de Lagos

Durante a maior parte do ano, ecopontos como este são mantidos em bom estado de limpeza. No Verão, porém, chegam os bárbaros à cidade... e a realidade passa a ser esta.

A malta do "é igual ao litro"

Enviado pelo leitor Luís Bonito

Sábio é aquele que se espanta

Por Ferreira Fernandes 
Na minha aldeia, frente à igreja há uma árvore em cujo tronco o homem do quiosque expõe os jornais. Os velhos da minha aldeia debicam as letras grossas da capa. Na quarta-feira senti--me transportado para o dia seguinte ao que o arquiduque Francisco Fernando foi assassinado em Sarajevo. A 29 de junho de 1914, os jornais de Lisboa traziam notícia discreta sobre aqueles dois tiros, sem entenderem que eles anunciavam a Guerra Mundial. Na quarta-feira, entre as capas dos jornais desportivos, uma proclamava "Andrade paga para vir", outra, "Lopetegui quer futebol rápido", e só uma enchia a primeira página com o assunto do dia anterior, que os velhos da minha aldeia comentavam. A notícia que daqui a 50 anos os netos dos velhos ainda hão de comentar: o Brasil levara 7-1 no seu Mundial. Dois em três jornais desportivos (e desportivo até é alcunha, são só de futebol) quase ignoravam a notícia espantosa. Esses jornais agarravam-se à sua mercearia - a clubite doméstica (Andrade vem jogar para o Benfica e Lopetegui é o novo treinador do FC Porto) - e secundarizavam o assunto popular e entusiasmante. Por ironia, todos os jornais generalistas davam destaque à goleada brasileira - mais libertos da obrigação de "especialistas" souberam ouvir o interesse das pessoas. Na minha aldeia, há uma árvore que bem lida é uma lição para os jornalistas: espantem-se quando for caso disso.
«DN» de 11 Jul 14

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10.7.14

No país do Simplex

"Loja do Cidadão" de Lagos

11 contra 11 e no fim 200 milhões choram

Por Ferreira Fernandes
O Brasil tinha um fantasma por exorcizar, aquela terrível tarde de 16 de julho de 1950, no Maracanã, quando o uruguaio Ghiggia, com o 1-2, calou um país inteiro. Pois, está feito, 1950 foi esquecido. Nunca mais nenhum brasileiro vai chorar esse dia antigo. Dirá até: bons tempos! Há pior que o silêncio ensurdecedor que, dizem, se abateu no Maracanazo. Pior são as palmas e os olés - das bancadas brasileiras contra a sua própria equipa, no estádio com nome superlativo, Mineirão. Como não? Em mineirinho não cabiam sete golos. Deve ser a isso que se chama sorriso amarelo canarinho. Em cidade chamada Belo Horizonte, quando o que se vê é cova de moribundo. Aliás, você não está vendo nada, está a chorar. Agora, sim, é momento disso, fazer o luto. Chorar agora é bom, para se redimir do chorar mariquinhas de há dias pela "pressão psicológica". Esta é indecente, amacia os atletas; as derrotas brutais, essas, talvez curem. Comecem por exercício simples: concedam que a seleção alemã é muito, muito melhor. É Miroslav Klose, magro e seco, roubando o recorde de maior marcador de sempre em Mundiais, jogando, nas barbas de Ronaldo, engravatado e fenomenalmente gordo, comentando. Quando as imagens saltam assim, permitam a alegoria tão atual, como golos germânicos em baliza brasileira, há que mudar. Voltem ao futebol alegre. Não garanto Copas com ele mas fica justificado o futebol brasileiro.
«DN» de 9 Jul 14
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Carta-aberta à criadagem 
Quando toca a alemães, a admiração só pode ser pelas virtudes coletivas. Rácicas até. Os admiradores das qualidades teutónicas reconhecem-se pelo boné. Este evidentemente tirado da cabeça, levado à altura do cinto e agarrado com ambas as mãos; o lento virar do boné entre as mãos e o inclinar respeitoso da cabeça completam a atitude correta do indígena. Ah, os alemães, que povo! O italiano Pirlo, por exemplo, é bom porque ele é genial ao colocar a bola onde quer, já o alemão Sami Khedira que cavalga o relvado como uma fome de anteontem faz isso porque traz no sangue as ganas dos Nibelungos. Sendo filho de tunisinos, não perguntem como. O português Cristiano Ronaldo investe como um bisonte porque se musculou quando foi para Manchester, já a inteligência de Mesut Ozil vem-lhe dos genes de Kant. Sendo o médio-ala filho de turcos, talvez seja porque o império otomano não foi derrotado às portas de Viena em 1683 como se julgava. O mexicano Ochoa agarra bolas porque se julga uma aranha de mil braços, já o alemão Miroslav Klose bate todos os recordes de golos nos Mundiais porque tem Wagner nas veias. Sendo ele de origem polaca, já sabem porquê - aquilo vem-lhe de algum alemão que por lá passou, e passaram muitos... Enfim, a Nationalmannschaft ganha porque a Alemanha é metódica, trabalhadora, de superior cultura e carácter. Aliás, nunca antes outro povo ganhou um Mundial. Dito isto, ponham o boné e podem ir à vida.
«DN» de 10 Jul 14 

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O tempo da morte


Por Antunes Ferreira

QUASE não acredito, mas aconteceu. Infelizmente. Em pouco mais de uma semana morreram dos jornalistas: Miguel Gaspar que trabalhou comigo no “Diário de Notícias” alguns anos e Rui Tovar, um homem que sabia “tudo” sobre o futebol e que tinha um ficheiro elaborado e actualizado cuidadosamente por ele próprio.

Miguel Gaspar entrou no quotidiano da Avenida da Liberdade já eu era chefe da Redacção. Culto, inteligente, trabalhador, bem depressa se destacou entre os camaradas. Estou a vê-lo sentado à sua secretária junto das janelas que dão para a Rodrigues Sampaio, Foi no nosso DN que conheceu e casou com a Leonor Figueiredo, uma jornalista de mão cheia.

Curiosamente quando nasceu o meu primeiro neto, o João, ao lado da Margarida estava a Leonor. Ambas tiveram o parto no mesmo dia e ambos se chamaram João. Foi uma coincidência que nunca mais nos largou e cimentou se possível reforçando a nossa Amizade.

Ainda mal refeito do desaparecimento do Miguel, surge a notícia da morte do Rui Tovar; com ele estabeleci um pacto quando fomos, mais alguns camaradas, à Polónia ver Portugal ganhar em Varsóvia com o público a gritar “só mais um, só mais um!” O intérprete que nos acompanhava, Adam Mieskowsky, traduziu-me a gritaria e acrescentou que o pessoal também clamava “que assim a Rússia não vai a Paris!” Era o Europeu que estava em jogo. Pois o Rui cumpriu, como sempre fazia, o combinado: cedeu-me o seu lugar na fila dos portugueses porque o “Diário de Notícias” tinha de ser escrito, impresso e etc. e a RTP – de que era o enviado especial – desenrascava-se mais facilmente.

Vai para dois meses, depois de eu ter regressado de Goa almocei com o Rui e fui com o Miguel (que já era director-adjunto do ”Público”) para recordarmos tempos passados e cortar na casaca de gente que hoje faz comunicação. Os erros gramaticais, as frases desconexas, o facilitismo e a mania das grandezas o que significa o “estrelato”… Mal sabíamos os três o desenlace que se verificaria tão rapidamente.

Não são tantos os anos em que nos conhecemos e em que ficámos Amigos. Era um tempo em que os jornalistas ainda vestiam a camisola dos órgãos onde trabalhavam. Era um tempo que, para além das naturais rivalidades, ao fim de serviços comuns, mas  obviamente para as respectivas Redacções e depois de realizados os textos, ia tomar-se um copo. Era um tempo em que a camaradagem sobrepunha-se às ordens recebidas, mas só após se ter cumprido o trabalho. Era o tempo em que não havia horários.

Custa-me escrever estas linhas. Possivelmente porque envelheci e este tempo não tem nada que ver com o tempo que era o nosso tempo. Possivelmente porque se foram dois jornalistas e dois Amigos. Possivelmente porque antevejo que o próximo tempo será o tempo em eu próprio desaparecerei.

Não tenho medo da morte, tenho sim da vida. A linha que separa uma da outra não é nenhuma. Não é uma tangente, é uma secante. Na geometria do tempo, ainda há tempo para reflectirmos e pensarmos que a única coisa que é insubstituível na vida é a morte. Mas também é o tempo das desilusões e das raivas. Porque neste tempo não se cumpriram as esperanças que tivemos e aconchegámos ao peito. Porque é o tempo em que as raivas se concentram naqueles que no poleiro não servem o País, pelo contrário, servem-se dele. Porque e finalmente é o tempo que em tão pouco tempo morreram dois jornalistas. E Amigos.

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