16.11.18

Parem o mundo, que quero sair!

Por Joaquim Letria
Aqui há uns dias, eu e o José Luís Manso Preto trocámos amarguras da vida e juro que ainda hoje não sei quem de nós mais razões de queixas tem. Sei, sim, que perante tanta gente que por aí se lamuria, inclusivamente nas televisões, que todos os dias fazem chorar as pedras das calçadas, nós dois somos homens felizes e divertidos, capazes de rirmos das desgraças que nos incomodam.
E foi nesse desfiar dos nossos rosários e na acumulação do que não gostamos que prometemos um ao outro não ave marias nem padres nossos pelas nossas almas,  mas sim nos entregarmos, daqui para a frente, a comer do bom e do bonito, a beber do melhor, a rirmos a bandeiras despregadas dos nossos inimigos e dos descarados que sem vergonha na cara infernizam este nosso querido povo e a convivermos mais com os nossos amigos e amigas para quem nunca temos o tempo merecido que chegue.
Foi uma receita fácil. Despedimo-nos felizes e julgo que ainda hoje ele está de acordo com a prescrição e segue à risca, tal como eu, aquilo que havíamos combinado para nosso bem e para o daqueles que nos rodeiam.
Digamos que aquilo que as cidades, os países, os continentes, o mundo no seu conjunto nos oferecem não é bom e raramente agradável, pelo que, desta vez, a solução, julgamos nós, não é como nas nossas juventudes, quando saíamos a espadeirar para mudar o mundo, mas sim agarrarmos naquilo e naqueles com quem hoje estamos bem e criarmos pequenos círculos de amizade e de prazer onde ficamos bem connosco e com os nossos. Os outros, os de fora, que façam o favor de terem paciência.
A vida está perigosa e desagradável, tendo-se tornado um tempo breve e mal frequentado. Portanto, sem nos armarmos em bichos de seda, criemos e habitemos os nossos casulos e demos vida aos nossos sonhos difíceis de realizar.
O mundo está tão feio e o sofrimento sem redenção que por ele se espalha é tão horroroso e avassalador que me faz lembrar uma daquelas grandes frases que ficam para sempre e que, há uns anos, o cartoonista argentino Quino pôs na boca da azougada Mafalda:
— Parem o Mundo, que quero saír!
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15.11.18

Sobre greves de trabalhadores e arruaças de militantes políticos


Por C. Barroco Esperança
Não há democracia sem direito à greve, mas há greves sem democracia, e recordo-me da coragem de quem as organizou e dirigiu com a consciência dos riscos e a abnegação de quem enfrentou a repressão, quando todos arriscavam a perseguição, o desemprego e a prisão.
Hoje, a greve é um direito que os democratas não discutem, mas, sendo a legitimidade inquestionável para todos os trabalhadores, de onde estão excluídos os membros dos órgãos de soberania, cuja agenda política deve ser escrutinada pelos cidadãos, podem ser justas ou não, viáveis ou irrealistas, merecedoras de apoio ou objeto de reprovação.
Não será por acaso que alguns sindicatos andam a reboque de Ordens cujos bastonários têm agenda partidária e fazem desses organismos corporativos instrumento de promoção pessoal e, ultimamente, com chorudos vencimentos e obscenas regalias que acumulam com ordenados da função pública, estranha acumulação na ausência de funções.
Há greves oportunistas e injustas, greves que têm como objetivo principal a fragilização do Governo que tem procurado recuperar as carreiras extintas, os salários diminuídos e os direitos dos trabalhadores retirados, algumas vezes mais por radicalismo ideológico do que por racionalidade económica.
Compreende-se a impaciência, a ansiedade e a raiva de quem se viu tão maltratado, mas percebe-se mal que as dirijam de forma tão inflexível para quem tem procurado reparar injustiças e ir ao encontro de aspirações legítimas.
Os dirigentes sindicais a quem faltar discernimento para os limites em que devem atuar poderão ser responsabilizados pelo retrocesso dos direitos dos trabalhadores, que lhes cabe defender.
É frequente ver quem mais se opõe aos interesses dos trabalhadores a rejubilar com os prejuízos e anticorpos que as greves naturalmente provocam.
A História ensina-nos tanta coisa!

12.11.18

Pergunta de Algibeira


Que animal se esconde neste desenho?

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11.11.18

O LIVRINHO MÁGICO

Estava eu, há muitos anos, sem ter notícias do meu amigo Miguel quando, para minha grande surpresa, vim a saber que se tinha transformado num empresário de sucesso no ramo da informática!
E vim a sabê-lo por acaso, ao folhear uma revista da especialidade que lhe dedicava uma entrevista de página inteira (e com chamada de capa!), encimada com um título de arromba: “O empresário do ano”.
Ora, não sendo essa a minha área profissional, preparava-me para uma leitura ligeira do texto quando me apercebi de que ele, para além de falar de ‘bits’ e ‘bytes’, discorrera, e com inteiro à-vontade, sobre inúmeros outros temas, bem mais interessantes do que computadores e afins.
A certa altura, e como não podia deixar de ser, o entrevistador lançou-lhe a pergunta “A que deve o seu sucesso?”, que ele certamente já esperava. Imaginei-o, então, a recostar-se na cadeira que se via nas fotos e, depois de ter sorrido enigmaticamente, a responder, com o seu ar bonacheirão:
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— O meu caro amigo deve estar à espera que eu lhe diga “trabalho, espírito empreendedor, gosto pelo risco”, etc. Seria verdade, claro, mas isso toda a gente lhe diria, mesmo que fosse mentira. Quanto a mim, confesso que houve tudo isso... mas um pouco mais: ao longo de todos estes anos, tenho recebido um auxílio precioso de um ‘hardware’ muito conhecido mas pouco valorizado em Portugal: chama-se  LIVRO DE RECLAMAÇÕES. Sim, é verdade. Ainda ele não era obrigatório, e já eu o disponibilizava em todas as minhas lojas. E pode escrever que é até a coisa mais preciosa que nelas tenho.
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Percebia-se que, com isso, desorientara o interlocutor, porventura habituado a perguntas/respostas “chapa 3”; mas o certo é que este foi suficientemente inteligente para não deixar fugir o tema, o que também agradou ao Miguel, que prosseguiu:
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— Obviamente que nos esforçamos para que os clientes saiam satisfeitos das nossas lojas. Não nos interessa muito o ‘cliente de um dia só’, porque a informática está permanentemente a exigir renovação de ‘hardware’ e ‘software’. Mas é inevitável que haja clientes insatisfeitos, e esses dividem-se em dois grupos: os que voltam e os que não voltam. Parece conversa de La Palice, mas olhe que não é. Pense bem: “um cliente que reclama é um cliente que quer voltar”. Está insatisfeito com isto ou aquilo, quer que lhe dêmos atenção, quer que corrijamos qualquer coisa que correu mal, mas quer VOLTAR. Ao invés, o cliente insatisfeito e que NEM SEQUER RECLAMA é um cliente perdido. Mesmo que pague sem refilar, em seguida vira costas, sai porta-fora... e não volta.
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Curiosamente, tantos anos passados sobre essa entrevista, volto a lembrar-me dessas palavras — esqueci-me de tudo quanto se referia a ‘pixels’ e vírus, mas retive essa parte. E nem podia ser de outra forma porque, quando abordo criticamente a realidade desta cidade, deparo-me quase sempre, com pessoas que, desprovidas de cultura cívica e democrática, comentam, com azedume, que “criticar é dizer mal”. Coitadas!, na sua ignorância, não sabem que criticar é, entre outras coisas, estudar, analisar e comparar, pelo que só se critica aquilo de que se gosta; obviamente, desconhecem o velho provérbio “Quem ama cuida”, e põem-se a jeito para a carapuça de que “Só os medíocres estão sempre satisfeitos”.
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Resta dizer que, há dias, escrevi ao Miguel pedindo-lhe autorização para contar o que atrás se lê. Acedeu de bom grado, e terminou oferecendo-me um outro provérbio (“é para a troca”): «Se corrigires um sábio, ele ficará mais sábio. Se corrigires um idiota, ele ficará teu inimigo».

A quem o diz, amigo Miguel!

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10.11.18

CONSTITUIÇÃO E ESTRUTURA DA TERRA (1)

Por A. M. Galopim de Carvalho
À semelhança de uma cereja, que tem pele, polpa e caroço, o nosso planeta tem crosta, manto e núcleo

CROSTA
Separada do manto pela descontinuidade Mohorovocic, a crosta, representa a “camada” mais externa (a “pele”) da Terra.
Não é uniforme em toda a sua extensão. Reconhece-se-lhe uma crosta continental, com densidade média de 2.7, e uma crosta oceânica, com densidade média de 2,9. Corresponde a menos de 1% do volume do planeta e a valor ainda menor da respectiva massa. 
Muito diferentes entre si, a crosta continentalconstitui o essencial dos continentes, com uma espessura média de 35 km (valore que podem atingir os 70 e 80 Km sob as grandes cadeias montanhosas, com é o caso dos Himalaias) e uma composição sílico-aluminosa, com franco predomínio de rochas de composição granítica, incluindo os gnaisses. As rochas sedimentares, também elas presentes (e exclusivas) na crosta continental, representam uma minoria na sua constituição.
Esta crosta ocupa cerca de 45% da superfície da Terra e 77% do volume total da crosta.
crosta oceânica, sílico-magnesiana, forma o substrato das bacias oceânicas, com uma espessura variável entre 3 e 15 km (com um valor médio da ordem de 5 a 7 km) na qual predominam as rochas de natureza basáltica e gabróica, além de outras resultantes do metamorfismo destas (em especial metamorfismo hidrotermal) como são, por exemplo, os serpentinitos. Além dos fundos das bacias oceânicas, esta outra crosta, que totaliza cerca de 55% da superfície da Terra e apenas 17% do volume total da crosta terrestre, compreende as ilhas vulcânicas que não são mais do que emergências dessa mesma crosta, correspondentes a aparelhos vulcânicos edificados a partir desses fundos. 
A diferença de densidades (2,9 – 2,7 = 0,2), aparentemente mínima, entre os dois principais tipos de crosta constitui um dos factores mais importantes na dinâmica superficial do planeta, como acontece nas fronteiras de aproximação entre placas continentais e oceânicas onde estas, mais densas, mergulham, no geral, sob as outras, menos densas.

Notas:
 (ou Mohorovicic) – Trata-se de uma fronteira química Descontinuidade Mohoe mineralógica com evidentes reflexos nos comportamentos dos respectivos materiais, face às solicitações mecânicas, como são o
Gabróica– referente a gabro, rocha plutónica, granular grosseira, melanocrata (escura) essencialmente constituída por uma plagioclase cálcica (labradorite e anortite) e por uma piroxena (augite ou hiperstena). Tem o basalto por equivalente vulcânico e o dolerito por equivalente hipabissal. O nome, proposto em 1786, radica no latim gaber,que significa macio.
Gabro
Metamorfismo hidrotermal– metamorfismo produzido numa dada rocha por acção de soluções aquosas quentes que nela penetram e circulam, particularmente importante nas rochas do substrato oceânico
Serpentinito– rocha metamórfica essencialmente formada por minerais (filossilicatos de magnésio) do grupo da serpentina, resultantes da metamorfismo de rochas ultrabásicas magnesianas. 

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9.11.18

A Desgraça de Voltaire

Por Joaquim Letria
Foi Voltaire quem disse que, para o escritor, a maior desgraça era ter de se confrontar com o julgamento dos imbecis. Escreveu ele que isso o afectava mais do que ser invejado pelos colegas, ser vítima das intrigas, ser desprezado pelos poderosos.
Pior ainda o fazia sentir esse julgamento quando partia de alguém em que o fanatismo se unia à estupidez.
Creio que este juízo se deve ao facto de no tempo de Voltaire nem todos os estúpidos eram fanáticos nem todos os fanáticos eram estúpidos.
Hoje, ambos os predicados são indissociáveis: não há fanático que não seja estúpido nem estúpido que não seja fanático.
No que eu não acredito é na infelicidade de Voltaire diante das opiniões dos imbecis, dos fanáticos e dos fanáticos imbecis.
É evidente que seria preferível não existirem semelhantes seres. Mas já que existem penso que Voltaire não seria excepção à regra que se aplica a todos que se expõem ao público.
Custa-me acreditar que ele resistisse ao prazer de extorquir aos imbecis fanáticos e aos fanáticos imbecis o prazer libertado pela raiva destes e pelas frustrações daqueles que faziam o doce favor de o detestarem.
Oh Voltaire, meu amigo, não me digas que isso não te dava um gozo especial. Tenho a certeza que dava! Pelo menos eu por mim falo.
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8.11.18

Irlanda despenaliza a blasfémia

Por C. Barroco Esperança

A blasfémia ou é um crime contra o que não existe ou uma forma de censura contra a liberdade de expressão. O ‘crime’, uma herança medieval, persiste em numerosos países civilizados, Áustria, Canadá, Itália, Alemanha, Chéquia, Grécia, Irlanda, Espanha, Malta, Polónia, Reino Unido, Montenegro, San Marino e outros de duvidoso índice de democraticidade, Turquia e Cazaquistão, sem referir países onde o fascismo islâmico mostra a natureza totalitária através da sharia.
Quer assuma a forma de insulto ou a mera negação de um dogma, a sua criminalização é sempre uma forma de impedir a crítica aos preconceitos de quem se julga com direito e força para a impedir. A crítica ao deus dos outros é o direito que a inteligência impõe, enquanto ao próprio é a ofensa que só a morte repara.
Dizer que Maomé violava crianças, pois casou com uma de seis anos cuja consumação ocorreu aos nove, é blasfémia contra o Islão, e uma evidência que os crentes confirmam e perpetuam no seu piedoso desprezo pela mulher e compra de crianças para casamento.
As recusas de dogmas, alguns bem recentes e tão idiotas como a virgindade de Maria ou a infalibilidade papal, são blasfémias que enfurecem fundamentalistas, especialmente os membros do Opus Dei. O último dogma inventado data de 1950.  Foi o da Assunção de Maria, cujo corpo subiu ao Céu, fique lá isso onde ficar, certamente em sítio alto, pois, de outro modo, o corpo que foi procurar a alma, desceria em vez de subir.
Que as religiões criem verdades absolutas, inquestionáveis, é um direito seu, tal como a vergonha de as verem questionadas e reduzidas ao ridículo, mas é intolerável que as queiram impor e, sobretudo, punir quem as enjeite.
Apesar da religiosidade de muitos crentes, há entre eles tradições blasfemas que tocam as raias da obscenidade. Espanhóis dos meios rurais ameaçam fazer à hóstia e à Virgem o que um ateu, por educação, é incapaz. No entanto, as mais deliciosas blasfémias são as dos italianos, sobretudo no sul do País, que aliam o maior respeito ao clero, à máfia, à liturgia e aos dogmas, com as mais divertidas expressões de afronta ao Divino.
Na Irlanda, ainda há poucos anos uma reserva do catolicismo jurássico, no referendo do último sábado de outubro, quase 65% dos eleitores votaram a eliminação de tão arcaico delito da Constituição, decisão que abolirá o anacronismo.
A votação é tão relevante que mereceu um comunicado de Harlem Désir, representante para a Liberdade de Imprensa da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) a felicitar o povo irlandês por “um passo positivo para a liberdade de expressão” e a fazer apelo aos 16 países da OSCE, onde a blasfémia continua a ser um delito, para seguirem o exemplo de Irlanda, porque esse tipo de leis “são incompatíveis com as normas internacionais sobre liberdade de expressão”.
Desacreditada a Igreja católica autóctone por numerosos escândalos e crimes graves, a liberdade de expressão deu um salto enorme na Irlanda. Em poucos anos, o País tornou-se uma democracia onde a saúde reprodutiva da mulher, o divórcio e a educação sexual deixou de se submeter à vontade do clero e aos preconceitos da tradição.



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6.11.18

Pergunta de Algibeira

JAZIDA COM PEGADAS DE DINOSSÁURIOS DE CARENQUE

Por A. M. Galopim de Carvalho
Para vergonha do “Instituto de Conservação da Natureza”, a jazida com pegadas de dinossáurios Pego Longo (Carenque) que, há 21 anos,  por solicitação minha, em nome  do Museu Nacional de História Natural, classificou como MONUMENTO NATURAL (Dec. Nº 19/97, de 5 de Maio), encontra-se no mais confrangedor abandono, convertida, de novo, em vazadouro clandestino  e densamente invadido pela vegetação autóctone, mais parecendo uma selva conspurcada por lixo.
Diz o diploma legal que criou este Instituto (agora também, ilogicamente, dito “das Florestas”), que é de sua competência zelar pela  protecção e conservação dos Monumentos Naturais que oficialmente classifica. 
Uma vergonha!
Esquecidas também dos poderes local (a autarquia sintrense) e central, as pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque), em fase acelerada de destruição, estão bem vivas na mente de todos os que, como eu, sabem do que estão a falar, ou seja, os geólogos, docentes e investigadores nacionais nesta área científica e todos os especialistas internacionais que aqui acorreram, das Américas à China e à Mongólia, sem esquecer, claro, os nossos vizinhos da Europa. Estão, ainda, no coração de todos os que respeitam os valores da Natureza.


A luta pela defesa desta jazida paleontológica, que ficou conhecida por “Batalha de Carenque”, remonta a 1986, (há 32 anos, portanto) quando dois finalistas da Licenciatura em Geologia da Facldade de Ciências de Lisboa, Carlos Coke e Paulo Branquinho, meus ex-alunos, descobriram um vasto conjunto de pegadas de dinossáurios no fundo de uma pedreira abandonada, na altura a ser usada como vazadouro de entulhos e lixeira clandestina, em Pego Longo, concelho de Sintra, na vizinhança imediata de Carenque. 
Esta importante jazida paleontológica corresponde a uma superfície rochosa com cerca de duas centenas de pegadas, de onde sobressai, pela sua excepcional importância, um trilho com 132 metros de comprimento, no troço visível, formado por marcas subcirculares, com 50 a 60cm de diâmetro, atribuídas a um dinossáurio bípede. Além deste, considerado na altura o mais longo trilho contínuo da Europa, identificaram-se, na mesma superfície, pegadas tridáctilas atribuíveis a carnívoros (terópodes), parte delas igualmente organizadas em trilhos. O chão que suporta estas pegadas corresponde ao topo de uma delgada camada de calcário do Cretácico (com cerca de 92 milhões de anos), com 10 a 15cm de espessura, levemente basculada para Sul. Muito fracturada (à escala centimétrica), esta camada assenta sobre uma outra, bem mais espessa, de natureza argilosa, condições que dão grande fragilidade a esta camada e, portanto, a esta jazida.
Para além das consequências inevitáveis de degradação decorrentes do uso deste enorme buraco como vazadouro, fui alertado, em Maio de 1992, para o facto de o traçado da então projectada Circular Regional Exterior de Lisboa (CREL) vir a destruir a maior parte do trilho principal, precisamente no seu troço mais interessante. Louvavelmente, a Brisa, empresa interessada neste processo, apercebeu-se do valor patrimonial em causa, mantendo-se em consonância com o Museu Nacional de História Natural na procura de soluções que corrigissem uma tal situação, não desejável.
Após uma longa batalha, de que a comunicação social de então deu ampla divulgação, a abertura dos túneis de Carenque foi, finalmente, a solução aceite pelo governo, representando para as finanças públicas um esforço acrescido, na ordem de um milhão e seiscentos mil contos (8 milhões de euros), merecedor de aplauso. Dois anos e meio depois, a 9 de Setembro de 1995, o então Primeiro-Ministro Cavaco Silva inaugurava a CREL, tendo tido a atenção de me incluir na comitiva que com ele percorreu os túneis de Carenque sob as pegadas de dinossáurios que tanta tinta têm feito correr. Terminava, assim, uma primeira batalha entre os cifrões e a cultura científica, de que esta, em boa hora, saiu vitoriosa. 
Mas a guerra não ficou ganha. Há, ainda, como todos sabemos, uma última batalha que é imperioso e urgente ganhar. Ganhá-la passa pela conveniente musealização do sítio, cujo projecto de arquitectura, “Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque)”, da autoria do Arqº. Mário Moutinho, aprovado pela Câmara de Sintra em 2001 (sob a presidência de Edite Estrela), aguarda há 17 (dezassete) anos o necessário cabimento de verba.  
Desde então, com a queda da presidência do PS para o PSD, nada mais foi feito. Simpático, acolhedor e, até amistoso no modo como sempre me recebeu, Fernando Seara nada fez pela salvaguarda deste importante geomonumento. Idêntico tratamento recebi, mais recentemente, de Basílio Horta, mas, infelizmente, tudo continua nos esquecimento. O desinteresse destes senhores pela cultura científica é evidente e lamentável. 
A concretização deste projecto não necessita ser encarada em bloco. Pode ser faseada no tempo, começando pelas peças mais urgentes e atractivas. Não é compreensível ter-se dispendido tanto dinheiro na abertura dos túneis, para salvaguarda da jazida, e não viabilizar, agora, o financiamento necessário à conclusão da obra prevista e tirar dela os dividendos culturais e pedagógicos que é lícito esperar como potencial pólo de atracção turística.

Passados 32 anos sobre a sua descoberta, o trânsito automóvel flui normalmente sob um raro e valioso património, lamentavelmente deixado ao abandono. Entretanto, a jazida degrada-se sob a vigência de uma administração cega, surda e muda, indiferente aos milhões já ali investidos, não obstante a obra em falta representar muito pouco face à cifra já gasta com a abertura dos túneis.
E quando, em nome dos euros, se argumenta contra este empreendimento, podemos responder com o enorme potencial turístico desta jazida. A topografia do terreno permite uma boa adaptação do local aos fins em vista, dispondo do lado SW de um pequeno relevo (residual da exploração da pedreira) adaptável, por excelência, a miradouro, de onde se pode observar, de um só golpe de vista e no conjunto, toda a camada – uma imensa laje pejada de pegadas – levemente basculada no sentido do local do observador, numa panorâmica de justificada e invulgar grandiosidade. Em acréscimo deste significativo potencial está o facto de a jazida se situar na vizinhança de uma grande metrópole e numa região de intensa procura turística (Sintra, Queluz, Belas) e, ainda, o de ser servida por duas importantes rodovias, a via rápida Lisboa-Sintra (IC-19), por Queluz, e a Circular Regional Externa de Lisboa (CREL-A9) que a torna acessível pelo nó de Belas e, no futuro, mais comodamente, pelo nó de Colaride.
O reconhecimento desta jazida como valioso e excepcional relíquia geológica e paleontológica, à escala internacional, é hoje um dado adquirido. Assim e tendo em conta a condição privilegiada da região sintrense e a sua classificação, pela UNESCO, como Património Mundial, justifica-se todo o envolvimento que possa surgir, por parte das administrações local e central, nesta realização, que transcende não só as fronteiras da autarquia, como também as do País.
Todos sabemos que os dinossáurios constituem um tema de enorme atracção entre o público e que qualquer iniciativa neste domínio da paleontologia está votada ao sucesso. Nesta realidade, a Jazida de Pego Longo, convenientemente adaptada a uma oferta de turismo da natureza, de grande qualidade e suficientemente bem equipada e promovida, garante total rentabilidade a todo o investimento que ali se queira fazer. 
Pela minha parte, continuo a oferecer, graciosamente (como sempre fiz), o meu trabalho na concretização deste projecto. Como cidadão profundamente envolvido nesta causa, sinto-me no dever e no direito de nela voltar a insistir. Esquecidas dos poderes local e central, as pegadas de dinossáurios de Carenque estão bem vivas na mente de todos os que, como eu, sabem do que estão a falar, ou seja, os geólogos, docentes e investigadores nacionais nesta área científica e todos os especialistas internacionais que aqui acorreram, das Américas à China e à Mongólia, sem esquecer, claro, os nossos vizinhos da Europa. Estão, ainda, no coração de todos os que respeitam os valores da Natureza.
Lembrando a sessão de dia 11 de Fevereiro de 1993, no Parlamento, sob a presidência do, para mim, saudoso Prof. Barbosa de Melo, na qual foi votada, por unanimidade (coisa rara), a recomendação ao executivo, no sentido da salvaguarda desta jazida paleontológica, apelo, uma vez mais, ao governo e à autarquia sintrense que reúnam vontades e interesses a fim de que se não perca este valioso património tão antigo quanto cento e doze mil vezes a História de Portugal. 

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3.11.18

COM O PRESIDENTE MANUEL DE ARRIAGA NO FAROL DA PONTA DOS CAPELINHOS -

Por A. M. Galopim de Carvalho
1ª Parte (do livro em preparação “Conversas com os Primeiros Presidentes da República”) 
Na imponência dos seus 20 metros de altura, planta octogonal em alvenaria, com cunhais e cornija em cantaria à vista, o Farol da Ponta dos Capelinhos, dando caminho à navegação desde 1 de Agosto de 1903, em que foi inaugurado, ao tempo do Rei D. Carlos, até 29 de Setembro de 1957, dia em que se “apagou”, na sequência da erupção vulcânica ocorrida no mar ali, mesmo, à sua frente. 
Junto ao farol, desde então desactivado, foi inaugurado, em 2008, o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, com propósitos pedagógicos e científicos, para o que dispõe de um conjunto de equipamentos visando dar destaque aquela erupção e à geologia do arquipélago, com noções de vulcanologia, exposição de rochas e minerais e elementos sobre a história dos faróis açorianos. Pode subir-se ao topo do farol e, foi aí, numa bela manhã de Maio, estando sozinho a olhar o que resta da ilha ali edificada há meio século, que me defrontei com a aparição do Dr. Manuel de Arriaga personagem que, de imediato, reconheci pela memória que tenho da sua imagem no histórico cartaz comemorativo da sua eleição, em 1911, como primeiro Presidente da República.
A área de erupção está classificada como paisagem protegida de elevado interesse geológico e biológico e integra a Rede Natura 2000.
À semelhança do que me acontecera com os nossos reis, este simpático gentleman, de barbicha branca a descer do queixo, vestido à melhor moda da aristocracia do seu tempo, olhando-me nos olhos, começou por dizer: (...)
.
Texto integral [AQUI]

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2.11.18

AS FÉRIAS SINDICAIS NA PSP

Por Joaquim Letria
Dirigir a PSP nunca seria fácil, mas com a falta de efectivos e com o número de dirigentes sindicais, coitados dos intendentes, superintendentes e comissários que têm de governar aquele barco.
É verdade que os polícias ganham mal, não lhes pagam as horas extra, têm de comprar o fardamento, devem-lhe os serviços gratificados, trabalham em esquadras vergonhosas que os obrigam a ir urinar ao café e muito pouca gente reconhece o papel importantíssimo que desempenham no apoio à população e na segurança pública. Mas hoje já têm um comando de profissionais bem preparados e já não têm de se sujeitar aos desmandos duma boa parte de oficiais lateiros do exército que iam para a Polícia para ganhar mais. Logo, os polícias poderiam organizar-se melhor num ou dois sindicatos fortes.
Em vez disso, a PSP tem 16 sindicatos que, segundo a Direcção Nacional da PSP, ocupam legalmente o total de 3680 dirigentes e delegados que por direito expresso na lei goza mais de 36 mil dias de folgas sindicais num só ano, como aconteceu em 2017. Cada um tem direito a uma folga sindical por semana, que redunda em mais 32 dias de férias por ano, e por isso há sindicatos (como o dos polícias do Porto) que têm 24 associados, todos eles dirigentes e mais 12 delegados que deste modo usufruem deste turismo sindical. O Sindicato Livre tem 74% de associados que são dirigentes e a OSP tem 70 %. A primeira organização sindical dos polícias – ainda hoje respeitada – é a ASPP que conta com 7392 associados e existe desde 2002. Mas hoje é apenas mais um no meio de outros 15 sindicatos.
A ASPP lamenta que ao fim de 20 anos de luta, polícias e políticos estejam a destruir o sindicalismo da PSP que começou por ser proibido e se prestigiou com actividade e reivindicações muito difíceis de conseguir.
A ASPP atribui a esta proliferação de turismo sindical que infesta a PSP a causa das dificuldades de administrar os seus recursos humanos. Mas, principalmente, responsabiliza os políticos em geral e o PS e PSD em particular por manifestarem um desinteresse inadmissível que se arrasta há anos. A alteração da lei que permite esta rebaldaria necessita de dois terços do parlamento e em São Bento, como sabemos, aquela gente anda ocupada demais para se dedicar a este assunto.
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1.11.18

O estridente regresso do fascismo

Por C. Barroco Esperança
O Brasil é apenas uma peça mais no trágico regresso do fascismo cuja popularidade, na década de 30 do século passado, foi universal. No Brasil, a vitória largamente anunciada e prevista, depois do golpe contra Dilma, executado com a cumplicidade dos partidos de direita e de juízes militantes, sem que as democracias reagissem, só dois cenários seriam possíveis, a vitória de um Bolsonaro ou de um golpe militar.
Perante a eventual vitória de Lula da Silva, não restava aos golpistas outra solução que não fosse a rápida acusação, julgamento e prisão do candidato pelo ministeriável juiz Sérgio Moro.

Imprevisível foi a votação dos brasileiros residentes em Portugal, cuja instrução e clima de liberdade, pareciam incompatíveis com a descomunal votação em Bolsonaro.
O ex-capitão da ditadura, misógino, homofóbico, racista e xenófobo, partidário da pena de morte e da tortura, junta-se a Duterte, Trump e Erdogan, quando, na Europa, a deriva fascista atinge proporções colossais e no continente americano só resta imune o Canadá.
O Brexit acontece no país com maiores e mais antigas tradições democráticas mundiais, por um desvio nacionalista que ameaça tornar inviável a União Europeia, precária a paz, frágeis as fronteiras, e em risco as democracias e a civilização de que são guardiãs.
Hungria, Polónia e Itália são os casos mais graves que atingem a Europa, e não há um só país onde o fascismo não surja impetuoso com populistas a procurar a sua vitória.
Trágico, até no aspeto simbólico, é o renascimento da extrema-direita na Alemanha, na sua arrepiante escalada, com o partido social-democrata (SPD) a desparecer e o partido democrata-cristão (CDU), um baluarte da democracia, a definhar perante a exuberância da extrema-direita.
O partido da extrema-direita ‘Alternativa para a Alemanha’ (AfD), entrou no corrente mês de outubro, em eleições regionais, sucessivamente nos parlamentos da Baviera e Hesse, alcançando a presença em todos os parlamentos regionais da Alemanha.

A comunicação de que a Sr.ª Merkel não se recandidatará em 2021, é o anúncio da saída de cena da última grande estadista europeia e da maior referência democrática do PPE, a voz que impede desvios de direita do agrupamento europeu de partidos conservadores e democrata-cristãos.
Não faltam, sequer, ataques a sinagogas, o antissemitismo a causar arrepios, sem medo ou memória de Nuremberga. Os ingredientes de uma catástrofe apocalíptica já estão aí.
Urge revisitar a História, regressar um século e refletir sobre as duas décadas posteriores a 1918, e evitar uma conjuntura para o ‘Quarto Reich’ e a Terceira Guerra Mundial, esta com um Eixo mais poderoso do que os Aliados dispostos a defender a democracia.
Desta vez, pode não sobrar ninguém para celebrar a vitória.
Ponte Europa / Sorumbático

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27.10.18


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Um Messias para o Brasil

Por Antunes Ferreira
Jair Messias Bolsonaro nas presidenciais brasileiras é como a pescada: antes de o ser já o era. O voto electrónico vai ser uma confirmação do que vêm dizendo as diversas sondagens: a percentagem que vai alcançar sobre o candidato do PT Fernando Haddad será significativa e com isso o partido de Lula da Silva ficará com uma minoria preocupante pois a votação que deverá obter não será única mas sim pela soma dos votantes que não querem a extrema-direita protagonizada pelo ex-capitão cuja presença só por si já é ameaçadora.
Bem pode recordar-se que Hitler chegou ao poder através de eleições e delas resultou o abjecto e criminoso regime que foi o nazismo. Tudo indica que no caso brasileiro tal citação é chover sobre o molhado. Nem a fraudulenta e maciça utilização da aplicação WhatsApp por apoiantes milionários sobretudo empresas do candidato conotado com o fascismo à qual o povo não parece ter dado grande importância.   
O Brasil sofre dum trauma que adquiriu quando durante a II Guerra Mundial Stefan Zweig foge da Europa ensanguentada pelo nazi-fascismo onde viria a escrever o ensaio em 1942 Brasil, um país do Futuro. Nunca os brasileiros se conseguiram livrar desse verdadeiro anátema, pois a partir de então nunca mais o maior país da América do Sul foi do Presente
Há ainda que te em consideração que a sociedade brasileira é multicultural e multirracial sendo que a percentagem de pretos e mestiços (mulatos ou pardos) ultrapassa já os 50 por cento. São eles um dos alvos preferenciais desse novo Messias – que inclusive leva o mesmo nome – que se propõe “abatê-los” bem como aos homossexuais, às lésbicas e sobretudo as “vermelhos”. É caso para dizer que Jair Bolsonaro quer salvar (?) o Brasil mesmo que este não queira ser salvo…
As propostas do candidato da extrema-direita são extremamente agressivas. A sua foto brandindo uma espingarda-metralhadora anda por toda a parte. Haddad não parece ter hipótese, porque, diz Bolsonaro, ele é um Lula trasvestido. Ou seja, anda a enganar o país, a ludibriar os brasileiros. Votar nele e votar no Diabo, no Mal, no Inferno, no regresso ao passado do roubo, do crime e principalmente da mais desenfreada corrupção.
Em 1951 a Empresa Nacional de Publicidade que edita o “Diário de Notícias” dá a luz uma obra monumental da autoria de Armando de Aguiar jornalista daquele quotidiano intitulada O Mundo que os Portugueses Criaram com o beneplácito e o apoio de Oliveira Salazar. Nela o autor dá um significativo destaque ao caso do Brasil acentuando a enorme componente portuguesa na população brasileira. E não diz na raça pois que não existe uma raça brasileira de tal modo a população é miscigenada.
O que mais impressiona para quem tenta avaliarde forao que está a acontecer nas campanhas e nas eleições brasileiras, e em especial naquelas que vão dar um novo inquilino para o Palácio do Planalto em Brasília, é que muitos que agora são ameaçados por Bolsonaro Votam nele.

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26.10.18


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Militares Ontem, Bolsonaro Hoje

Por Joaquim Letria
Há 50 anos vivi no Brasil, para onde fora enviado pela Associated Press, como reforço do escritório de São Paulo, e ali pude assistir à imposição do Acto Institucional 5 (AI5) que foi a tomada do poder pela Ditadura Militar.
Recordo-me como se fosse hoje. Eu estava em Olinda, entrevistando D. Helder Câmara, e recebi no meu hotel no Recife uma mensagem de Nova York a avisar-me do que se passava. Apanhei o primeiro avião que saiu para São Paulo onde encontrei os tanques na rua e os militares espalhados pela maior e mais importante cidade do País, situação que ocupou todos os jornalistas americanos, brasileiros e este vosso português que ali ocupavam o movimentado escritório da AP na Rua do Marechal Quedinho.
Começou assim um dos períodos mais negros da História do Brasil, com o desencadear de prisões arbitrárias, sequestros e mortes, situação que se prolongaria ao longo de 17 anos. Lembro-me que quatro dias depois de ter aterrado em São Paulo proveniente do Recife recebi guia de marcha para ir para Brasília, então a jovem capital daquele fascinante País para me encontrar com os mais destacados políticos dos principais partidos, muitos deles ainda atordoados pela rapidez, eficácia e violência da intervenção dos militares que suspendiam todos os direitos cívicos e humanos impondo uma das mais brutais ditaduras de que há memória no século XX.
Os militares não haviam perdido tempo, desencadeando uma guerra negra com violentas explosões, assaltos a bancos, roubo de explosivos de pedreiras e brutais assassínios todos estes actos executados de modo a poderem ser atribuídos à esquerda. Hoje, há confissões e documentos que comprovam  a veracidade destes actos terem sido desencadeados de modo a servirem para a preparação e justificação do golpe.
Os atentados, assassínios e assaltos foram executados por um grupo de paramilitares cuja maioria era originária da chamada Força Pública, na verdade um ramo da Polícia Militar que executou 16 atentados à bomba, assaltos diários a bancos, execuções sumárias e roubos de explosivos de pedreiras, tudo isto sob o comando dum tal Aladino, criminoso impiedoso, cujo papel é hoje conhecido ao pormenor em documentos e autos que entretanto foram libertados.
Tendo vivido tudo isto, quando vejo um candidato à Presidência como Bolsonaro colocar-se numa posição que pode valer a vitória de eleições democráticas fico com uma grande mágoa porque o povo brasileiro não merece sofrer mais para além de tudo o que já sofreu. Os responsáveis por isto são os partidos de esquerda que se descredibilizaram e a vulnerabilidade da população à propaganda selvagem dum louco que pode arrastar grande parte dela para a prática duma violência e dum clima de medo que já devia ter desaparecido para sempre.
Publicado no Minho Digital

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25.10.18

Manuel Monteiro e o provável regresso ao CDS

Por C. Barroco Esperança

Há um namoro pegado com o CDS do dissidente que saiu pela direita e criou um novo partido – PND –, ressentido por ter sido afastado pelo seu criador, Paulo Portas, que o removeu quando lhe aprouve. O fracasso da dissidência levou-o a bater à porta da casa de onde saiu.
Segundo a comunicação social, deu aulas em conjunto com a Dr.ª Cristas na ‘Tendência Esperança em Movimento’, onde Manuel Monteiro quer “contribuir para o crescimento do CDS”, com Cristas.
Manuel Monteiro falou sobre o futuro de Portugal, e Cristas encerrou. No fundo, ambos gostariam de encerrar o futuro e regressar ao passado. É a aspiração de quem não tem memória, de quem ao desafio do futuro responde com a nostalgia do passado.
Manuel Monteiro é a versão urbana de Nuno Melo, mas rivaliza com ele e a Dr.ª Cristas no azedume à mais leve tendência social-democrata, para não falar nos acessos de raiva contra a esquerda, disfarçados em voz melíflua de sacristia.
Não havendo ainda condições para um partido neofascista há quem procure transformar a direita que existe na que deseja. Já. Os ventos correm de feição, e o regresso à década de trinta do século passado pode demorar quatro décadas a deixar oscilar o pêndulo para o lado da democracia. Compensa investir no retrocesso.
A democracia não é eterna, sobretudo quando minguam democratas. Na Europa, onde, dos escombros da guerra emergiram as democracias, há agora uma pulsão suicida de pendor reacionário.
Atualmente, quanto mais à direita a direita se coloca, mais entusiasmo desperta.
Ponte Europa / Sorumbático

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24.10.18

A propósito dos 3 que fugiram do Tribunal...

Um GRANDE arquivo, para quem gosta destas velhas anedotas ilustradas: humorantigo.blogspot.com (Esta é do «Almanaque Bertrand» de 1932)

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A propósito do famigerado "Beijinho ao avô"...

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23.10.18

Pergunta de Algibeira

Sabe-se que o Cabo da Boa Esperança (inicialmente baptizado de "Cabo das Tormentas") foi dobrado em 1488 por Bartolomeu Dias.
Mas ele disse que foi em 1487, e manteve sempre essa afirmação.
Porquê?

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20.10.18

Os robertos de Tancos

Por Antunes Ferreira
Uma opera buffa não conseguiria ser pior do que o famigerado caso do desaparecimento-aparecimento das armas de Tancos. Nem sequer uma tenda derobertos se poderia assemelhar ao folhetim estapafúrdio que pôs de rastos o Exército português. Pelo menos na minha meninice quando os saltimbancos armavam nos passeios as quatro varas sobre as quais estendiam os panos atrás dos quais moviam as marionetas rudimentares os putos que nós eramos divertíamo-nos com a algaraviada das personagens e pagámos os cinco tostões que era o preço que podíamos dar pelo espectáculo.
A instituição castrense não pode ser uma brincadeira e este tristíssimo caso infelizmente tem todas as características disso. Perante ele o público – ou seja os cidadãos –  parece estar a assistir a um filme cómico sem Charlot mas com militares e uns quantos civis todos no palco como diria o José Estebes “tudo à molhada e fé em Deus”. Só que aqui não se tratou do “Bamos lá, cambada”; bem pelo contrário foi uma encenação que devastou uma instituição cuja seriedade e galhardia não pode ser posta em causa. E foi.
Cada dia que passa vai acrescentando novos pormenores a este complicadíssimo assunto e agravando o que já era e é gravíssimo. As cabeças que já rolaram não servem de atenuante muito menos de exemplo. Um qualquer exército tem forçosamente que respeitar o princípio da hierarquia. É ela que está na base da sua organização. Subvertê-la é por si só um crime. Vão longe os sovietes de soldados e marinheiros da revolução russa de 1917 e viu-se o que isso deu. Não se pode repetir uma experiência tão amarga, ainda que se tentasse em vários países que isso acontecesse.
Este mirabolante toma lá dá cá de armamento veio acrescentar ao início do descrédito do Exército com o que acontecera no curso de comandos em 2016 com a morte dos soldados Hugo Abreu e Dylan da Silva um  preocupante criticismo da população sobre os militares. Não posso falar e ódio porque seria demasiado, mas quando a dúvida se instala tudo pode vir a acontecer.
Eu próprio estive nas fileiras como oficial miliciano cinco anos dezoito dias e umas quantas horas por motivos políticos.  Chamaram-me comunista, embora o não fosse (e se o fora não me cairiam os parentas na lama…) mas, por incrível que pareça foi oficial da PJM, a Polícia Judiciária Militar – que não tinha nada que ver com esta que agora está na merda.
Por isso me custa assistir a este episódio degradante. Na tropa aprendi uma série de virtudes e também de maldades. Não enjeito esse longo período em que tive que comandar homens e levá-los quem sabia se até à morte. Um morreu-me em plena mata nos meus braços. É experiência que não desejo a ninguém. Fiz amigos e entendi o que quer dizer solidariedade. 
O que está a acontecer é impossível – mas está a acontecer.  

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19.10.18

Ninguém é a voz dos pobres

Por Joaquim Letria
Esta é a minha crónica número 50 para o Minho Digital. Todas as semanas sem falhar. Mais meia dúzia e cumpro um ano a dizer coisas para os meus amigos do Alto Minho e não só. E não vou festejar esta crónica número 50, antes pelo contrário, eis-me aqui falando de impostos que muitos prefeririam que eu não lhos lembrasse por constituírem algo muito caro aos portugueses. Literalmente…
Devo confessar que não é pagar impostos que me penaliza. O que me custa é ver onde eles vão parar, como são desbaratados e como tanta felicidade que podiam ajudar a construir é tão impunemente desperdiçada.
O governo do Sócrates deixou-nos com o tutano à mostra e o anterior a este apertou-nos por todos os lados para alegria da troika e empenho dos ministros Gaspar e Maria Luís Albuquerque, que bem singraram na vida, quer olhando-nos do FMI, quer  trabalhando  em parte time e parte certa numa financeira bem agradecida.
Agora, vemos a receita aumentar graças aos impostos indirectos, que os directos António Costa prometeu baixar e pelo menos nisso está a cumprir. O problema é que os impostos indirectos são aqueles que os pobres pagam porque os directos são estipulados ao nível dos rendimentos. Embora o nosso imposto possa ser injusto, ele está focado no que a gente ganha, enquanto nós todos pagamos o indirecto sempre que compramos qualquer coisa.
Os ricos sempre souberam fugir dos impostos directos e os pobres pagavam-nos por não conseguirem fugir. Mas os impostos indirectos são ainda mais injustos. Esta solução é contra a justiça social porque são os impostos que somos levados a pagar sem darmos por isso.
Mas a esquerda não se queixa disso. Ela está cada vez mais centrada nas grandes multinacionais, mas também agarrada pelos sindicatos e pela função pública e pensionistas porque estes são os seus eleitores que lhe importa tratar bem para as eleições seguintes. Em Portugal os pobres e os imigrantes não têm voz, os chamados partidos de esquerda não os deixam falar e a Igreja anda distraída com outras coisas.
Portugal continua a ser o País mais desigual da Europa e também ninguém fala nisso. A história do salário mínimo é uma falácia. Ninguém que trabalhe no Estado recebe abaixo do salário mínimo. Logo, o aumento deste pouco ou nada custa ao Estado. Quem tem de subir os salários mínimos são as empresas. Verdade que muitas destas pagam miseravelmente, mas também muitas micro e pequenas empresas não aguentam esse aumento. E se estas tiverem de fechar as portas atiram com mais gente para o desemprego.
Ao se dizer que se deseja justiça e que se é a favor dos mais pobres pode estar-se a agravar ainda mais a situação dos mais necessitados. Muito cuidado com isso e não julguem – políticos e sindicatos – que o povo não percebe o que se passa. Topam-vos a milhas.
Publicado no Minho Digital

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18.10.18

O capitalismo, a justiça e a liberdade

Por C. Barroco Esperança

O capitalismo descobriu a liberdade, mas desinteressou-se da justiça e da igualdade. Há avanços que só o capitalismo permitiu, mas há retrocessos da liberdade que são fruto da genética capitalista. O fascismo é filho natural do capitalismo.
Um modelo condenado a crises cíclicas, e a superá-las através de guerras, consegue pela força a sobrevivência, indiferente ao sofrimento que produz, aos anticorpos que cria e ao desespero que gera nos pobres de que precisa para se perpetuar.
As empresas visam naturalmente o lucro, o que não parece errado, mas é a amoralidade que as torna cúmplices do sistema de que são filhas. Não interessa se o seu produto é ou não tóxico, basta que seja legal ou que esteja omisso no código penal.
O bando de Chicago, onde pontificou Milton Friedemann, influenciou de tal modo esta fase do capitalismo, graças à devoção dos seus devotos Reagan e Thatcher, que o deixou à solta, tendo como aliado João Paulo II, papa reacionário cuja santidade, em vida, era o apanágio da profissão e estado civil, e, depois de morto, um brinde do marketing pio.
A derrota dos mineiros ingleses na sua reivindicação justa, nem todas são, abandonados por outros trabalhadores e pelas centrais sindicais, alterou profundamente a correlação de forças a favor dos empreendedores, como ora se designam os detentores dos meios de produção. A vitória da Sr.ª Thatcher foi a derrota dos trabalhadores à escala global.
Mal se imaginaria então que, uma geração depois, o novo salto dialético seria dado por Trump, May e uma quantidade enorme de pequenos títeres que chegam ao poder por via democrática, sem o mais leve respeito por direitos dos trabalhadores nem, sequer, pelos direitos humanos.
Estamos a assistir ao assalto ao poder por uma horda de fascistas que, país após país, já transformaram as democracias em autocracias de vocação totalitária, com o domínio das redes sociais da Internet, da comunicação social tradicional e o apoio que a insegurança dos povos lhes confia.
São pessimistas as previsões do futuro onde a expansão do modelo chinês, sob a égide do líder do partido, dito comunista, promove um despudorado capitalismo e a extinção das liberdades que moldaram a cultura europeia e a sua civilização ora ameaçada.
Depois do fracasso do comunismo, e da implosão, o capitalismo esgotou-se e é urgente encontrar um novo paradigma.
Ponte Europa / Sorumbático

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