17.1.20

A sério que vos parece bem!?

Por Joaquim Letria
Parece-me que há quem não se importe que deixemos de ser  uma nação para passarmos a ser  um sítio. O ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, que ainda não percebi o que faz no Governo para além de dizer que o lítio é o melhor que há, que é urgente demolir o prédio Coutinho e que as vítimas dos incêndios estão todos a progredir na vida, teve agora a brilhante ideia de mudar de sítio as aldeias do vale do Mondego para resolver o problema das cheias.
É bom que se recorde que estas cheias decorreram do rebentamento dum dique, que nem sequer manutenção tem, e que o dique nasceu da necessidade de conter as águas fluviais e suportar as descargas duma barragem agora vendida aos estrangeiros, depois de terem desviado o curso natural do rio.
Acho uma ideia peregrina aquela de deitar abaixo aldeias ou afundá-las como em Ribeiro de Pena e construí-las noutro sítio mais conveniente à correcção dos erros políticos e de engenharia. Sem importar as vidas, as memórias, as famílias, a paisagem e a História.
Já tivemos esse exemplo com a aldeia da Luz, que foi afundada no Alqueva, dizia-se então que era para irrigar o Alentejo e afinal de contas é para explorar o turismo, dizermos à boca cheia que temos o “maior lago artificial da Europa” e irmos admirar os espanhóis a cultivarem os olivais e as vinhas que eram nossas e vermos os alentejanos a serem gradualmente substituídos por milhares de nepaleses, tailandeses e hindus explorados em trabalho escravo.
Devem estar ainda recordados que já também tivemos outro governo da mesma cor que mandou as nossas mulheres irem parir a Espanha. Não havia obstetrícia, faltavam ginecologistas e portanto façam o favor de ir a Badajoz, ao Hospital Infanta Cristina, que lá resolvem-lhes o problema.
O mais grave desta história toda é vermos que quem assim pensa e é capaz de obrigar os outros a mergulharem em asneiras deste quilate não reconhece nada do que pertence ao bom senso. Não pensou, ou não se importa que no cartão de identidade um português passe a ter naturalidade de Badajoz, Espanha, e se alguém disser que é de Formozelha, concelho de Montemor o Velho, distrito de Coimbra, é duma aldeia que já não existe porque foi arrasada para deixar passar o rio desviado do seu curso.
Eu não quero dizer mal desta gente. Mas a sério que tudo isto a vós vos parece bem!?
Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

16.1.20

Crónica – Memórias da juventude

Por C. Barroco Esperança
Quando em 1961, ido da Guarda, fui colocado no Bairro dos Penedos Altos, na Covilhã, logo surgiram convites habitualmente destinados aos professores.O primeiro, com tratamento de V. Ex.ª, que me faria duvidar do destinatário, não fora a coincidência do nome, foi recusado. E os seguintes. Não me interessavam e eram pouco recomendáveis as origens.Em abril de 1963 o Papa João XXIII tinha publicado uma encíclica destinada não só aos fregueses, mas a todos os homens de boa vontade, as mulheres não mereciam referência. Recebi o convite para um colóquio, tal como as 15 docentes daquela escola onde era eu o único homem, com alusão ao tema a discutir, a Encíclica PACEM IN TERRIS.Dessa vez, por razões que o Diabo explicará, compareci à hora e no local que o convite, subscrito por um padre S. J., indicava. Um padre, culto e comunicativo, dissertou sobre a encíclica, em termos encomiásticos, e pôs o tema à discussão.
Retivera que o Papa pedia aos países ricos que ajudassem os países pobres e, logo que tomei a palavra, perguntei se tal pedido era ingenuidade papal ou hipocrisia, sabendo-se que os ricos só ajudariam os pobres se obtivessem vantagens.
Foi urbana a resposta do padre preletor que contestou a minha afirmação, mas a plateia foi insensível e inamistosa. Havia de me acontecer muitas outras vezes na vida.
Só não esperava ser chamado uma vez mais, por ordem do tenente Gaspar, ao comando da PSP, para me dar conselhos durante a noite, devia sofrer de insónias, e só terminar a caridosa prédica às cinco ou seis horas da madrugada com o habitual conselho, V. Ex.ª, este era o tratamento para todos os cidadãos da Oposição ao regime, está a prejudicar o seu futuro, o senhor Dr. Raposo de Moura, que muito prezo, é companhia que prejudica V. Ex.ª, tenha uma boa noite.
Não tardou que de Castelo Branco viesse um agente da Pide a ouvir o Delegado Escolar e outros professores da confiança deles, a meu respeito, pois o padre Morgadinho, irmão de um agente, comunicara que havia na Covilhã “um professor novo, atrevido, com cara de idiota, que precisa de ser vigiado”.
Já tinha sido provido como professor efetivo na Lourinhã, e desgostou-me o padre Morgadinho a chamar-me ‘novo’, já com vinte anos e a terminar o segundo ano de docência.
Aliás, a Pide vigiava-me há dois anos e o execrável governador civil da Guarda andava inquieto, comigo e com a minha mãe. O governador, Mário Bento Soares, de tanto odiar o honrado homónimo da oposição, não permitia que o tratassem por Dr. Mário Soares. Deixou cair o apelido paterno e assumiu para todos os efeitos o nome de Mário Bento.

Ponte EuropaSorumbático

Etiquetas:

13.1.20

Pergunta de Algibeira

O que têm em comum estas duas fotos?

Etiquetas: ,

12.1.20

Grande Angular - Todos os anos, pelo Inverno…

Por António Barreto
De farpelas negras, esvoaçam por esta altura. Falam, aplaudem e sorriem… São os Magistrados judiciais e do ministério público. Os membros dos Conselhos Superiores. Os advogados, sua Ordem e seu Bastonário. Os presidentes dos Supremos e outros tribunais superiores. A Procuradora geral da República. Os representantes das Relações. Os magistrados do Tribunal Constitucional, especial entre todos. Os dirigentes dos sindicatos e das associações de magistrados, estes tão estranhos corpos no meio de órgãos de soberania. É a abertura do ano judicial, cerimónia muito peculiar. Tem Presidente da República e Presidente do Parlamento. Tem Ministra da Justiça. Ao contrário de outros anos, não teve Primeiro-ministro, ausência incompreensível, pesada de significado, não se percebe bem porquê, mas deve haver caso. Tem Cardeal, Generais, comandantes das Polícias, Inspectores e Directores. É a fina-flor da Justiça, da Segurança, da paz nas ruas e da ordem no espaço público. Normalmente, a cerimónia decorre nos salões do Supremo, no Terreiro do Paço, mas este ano, por motivos de obras, foi deslocada para o Palácio da Ajuda.
Os assistentes, muitos enfarpelados também, reúnem-se com antecedência. O ambiente é solene e cerimonioso. Chega o cortejo. Começa a sessão. A liturgia da abertura do ano judicial é o local por excelência para a “culpa circular”: todos apontam para os outros e se isentam de responsabilidades. A culpa B, que denuncia C, que responsabiliza C, que acusa D… Por vezes fazem-no com elegância, outras com truculentos desabafos. Este ano, a cortesia foi a regra. Quando assim é, culpa-se o sistema, o maior responsável por tudo o que não funciona.
Todos querem reformas, reclamam melhores leis, pedem mais meios, exigem mais recursos humanos e reivindicam mais celeridade, recato, respeito e confiança. Mas, este aparente consenso não resiste à análise. Na verdade, os recursos e os meios de que cada um fala são diferentes. Mais juízes, mais procuradores, mais oficiais de justiça… Mas também vencimentos, promoções, pessoal técnico, despesas de deslocação, equipamento de informação, bases de dados e contratação de serviços especializados … E ainda subsídios de compensação, descontos para a Caixa Geral de Aposentações e isenção de IRS. Uns olham para os meios materiais, outros para os meios técnicos, outros ainda para os meios humanos. Não faltam os que querem os gabinetes de apoio aos juízes. Finalmente, muitos preferem referir-se aos meios materiais e humanos das estruturas de investigação e das polícias em especial. Não! Não há consenso. Cada um pede o que quer e lhe falta, o que é natural. A verdade é que temos ali, durante uma longa e transpirada cerimónia, a maior assembleia de reivindicações de toda a sociedade portuguesa. Só que a cortesia ritual e os bons modos fazem com que em nada se pareça com uma assembleia da CGTP, uma reunião de camionistas ou um piquete de estivadores. Não se parecem com eles, mas exigem mais do que eles.
Não há razões para não acreditarmos em pessoas tão qualificadas e responsáveis. Está ali a nata da sociedade, a elite do Estado e o que de mais prestigiado tem a Administração Pública. Quer isto dizer que não se pode sequer imaginar que um dos representantes esteja a mentir ou a enganar. Só dizem verdades. Mesmo se verdades parciais e interessadas. Mas sempre verdades. É verdade que faltam pessoas e meios. Que as leis são em geral mal feitas. Que existe interferência política onde não deve haver. Que a rivalidade entre os grandes corpos da Justiça (magistrados, procuradores, advogados, oficiais e polícias) é responsável por uma boa parte da sua má reputação. Que um número excessivo de “mega processos” atrasa a justiça, dá mau nome aos magistrados e cria má reputação. Que a produtividade dos tribunais é reduzida, mesmo se os últimos vinte anos têm mostrado uma melhoria. Que a justiça é socialmente injusta. Que os códigos processuais estão desactualizados. Que existe a “justiça dos mais fortes”, o que se revela no facto de aquela ser bondosa para os que mais são ou mais têm. Que os prazos e os processos favorecem escandalosamente o governo, os políticos e os poderosos. Que são deficientes as condições físicas de funcionamento dos tribunais e ineficientes as redes de comunicação. Que continua a vigorar o desprezo pelos mecanismos de segredo de justiça. Que há uma enorme passividade parlamentar relativamente à justiça.
Esta última deficiência é das mais gritantes e, ao mesmo tempo, das menos referidas. Na verdade, muito depende do Parlamento, a começar pelas leis e pelos códigos. O Parlamento tem vastíssimas competências, muitas delas exclusivas, desde a definição de crimes e de penas, à nomeação de magistrados para os órgãos superiores, passando pelos estatutos dos tribunais. O Parlamento esconde-se atrás da independência dos juízes e da autonomia dos tribunais, assim como da iniciativa do governo, para justificar a sua indolência e a sua passividade.
Alguns discursos, na cerimónia de abertura, sublinharam os melhoramentos do sistema de justiça. Em certos casos, têm razão. Os números de processos entrados, findos e transitados mostram uma evolução positiva. Isto é, nos tribunais comuns, parece que a tendência é de progresso: o número de resoluções é superior ao de entradas. Isto apesar de o número de magistrados judiciais estar estagnado há dez anos e o de procuradores em diminuição durante o mesmo período. Numa breve observação europeia, o número de magistrados por habitante é razoável, a meio da tabela.
O problema é evidentemente o dos crimes e processos de corrupção, de criminalidade financeira e económica ou que envolvem nomes pesados da sociedade, da economia e da política.
Como se pode ver com o estado actual do “caso de Tancos”. O Primeiro-ministro e o governo não perceberam que a sua reacção e a sua posição relativamente a este caso só os prejudicam a si próprios. O comportamento do Primeiro-ministro foi culposo e envergonhado. Mostrou desconforto e mácula, além de receio de escrutínio público.
Por sua vez, o Presidente da Assembleia da República percebeu que lhe era difícil isentar os parlamentares de culpas e sobretudo sentiu-se pouco à vontade para criticar os juízes, numa altura em que os processos que visam os políticos são mais do que muitos. Numa intervenção excêntrica e de rara imaginação, denunciou “as presunções de regeneração justicialista”, acusou “um certo clima anti-parlamentar” e defendeu a Assembleia da República que, aliás, ninguém acusou!
Público, 12.1.2020

Etiquetas:

Apontamentos de Sintra

Há quem diga que "Talento é a arte de simplificar". Seja verdade ou não, isto parece ser a "Arte de complicar"!
(Av. Heliodoro Salgado, Sintra)

Etiquetas: ,

10.1.20

Uma comovente história de amor

Por Joaquim Letria
A mulher do presidente do banco Caixa Agrícola recebia uma subvenção de dois mil e picos euros só para estar ao lado do marido, apoiando-o moral e animicamente, enquanto ele galhardamente desempenhava o seu papel de banqueiro.
Licínio Pina não só explicou isto como justificou a subvenção com o facto de necessitar da companhia e acompanhamento da mulher no seu dia a dia. E justificou que teria apresentado esta exigência no dia em que foi convidado para o cargo que desempenha. A D. Maria da Ascensão Pina, que era professora de profissão, sacrificou-se assim a continuar a ser o ai Jesus do Engenheiro Pina, mandando os dilectos alunos às urtigas. Uma coisa destas não se faz de ânimo leve, daí a subvençãozinha de dois mil e tantos euros para compensar a D. Maria da Ascensão do sacrifício.
Tudo isto andou bem até alguém ter informado o Banco de Portugal do que se estava a passar. O Engº Licínio disse que isso eram boatos e cartas anónimas e chegou mesmo a dizer aos jornais que o interrogaram que nada disso era verdade e que a D. Maria da Ascensão era uma abnegada professora. Mas alguém que percebe de contas foi ver melhor e então o Engº Licínio passou a dizer que, afinal, sim senhor: precisava da mulher junto dele, mas a subvenção que a Caixa agrícola lhe pagava era retirada do seu salário bruto.
Mas a questão não ficou esclarecida por um simples pormenor: é que o vencimento do Engº Pina, no desempenho daquela função, era de trezentos e muitos mil euros por ano quando começou. E depois o Engº Pina  passou a receber quatrocentos e muitos mil euros por ano donde retirará o diminuto estipêndio para a D. Maria da Ascensão.
Creio que S. Exa. O Presidente da República, tão justamente preocupado com a injustiça da situação dos curadores, que bem merecem ser compensados pelo seu real sacrifício, ficará animado com este exemplo. Não é que a D. Maria da Ascensão tenha de dar os comprimidos, limpar o rabinho e mudar as fraldas do Engº Licínio. Mas decerto que faz muito por ele e pelo sistema bancário.
Enfim, o que as más línguas não conseguem destruir, por pior que digam deste casal de mão dada, é esta comovente história de amor.
Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

9.1.20

Apontamentos de Sintra

Embora um pouco afastados da realidade geográfica, o "N" e o "S" até se entendem. 
Mas as outras duas letras (O e P) que jeito é que têm?! "Oriente" e "Poente"?! Francamente, não sei... 
(Está no pátio de uma casa já antiga, em Sintra, junto ao Mercado da Estefânia).

Etiquetas: ,

A guerra EUA/ Irão

Por C. Barroco Esperança
O assassinato ordenado por Trump, contra o general sírio Qasem Soleimani, chefe da Força Revolucionária da Guarda Quds do Irão, em Bagdad, demonstrou a insânia de um demente e a arrogância de um déspota. A posterior ameaça de destruir o rico património histórico da civilização persa, ameaça de que já recuou, revela a sua indigência cultural e a indiferença perante mais um crime previsto nas leis internacionais.
A execução do importante general e de mais oito pessoas, no país ocupado pelos EUA, a convite das autoridades locais, foi um crime para aliviar a pressão do “impeachment”, em apreciação, que os seus ataques reiterados à legalidade e à ética exigiram.
Este crime é uma afronta à legalidade internacional de alguém, com um poderio brutal, capaz de tudo para garantir a reeleição e a impunidade à sua conduta. A transferência da embaixada de Telavive para Jerusalém foi uma provocação gratuita aos muçulmanos, ao arrepio dos países tradicionalmente aliados dos EUA, e só serviu para acirrar ódios e aumentar a tensão na região.
Nesta altura não se podem esquecer os nomes sinistros de Bush, Blair, Aznar e Barroso na invasão do Iraque, invasão criminosa que agravou os problemas do Médio Oriente e pôs o mundo em progressivo sobressalto, sem que o TPI os possa julgar.
Que o Irão é uma teocracia, abjeta como todas as teocracias, uma ditadura fascista como a Arábia Saudita, do Eixo do Bem, ninguém duvida. Que o Islão político é quase tão perigoso como Trump é evidente, mas ninguém, até hoje, tinha ido tão longe no desafio a leis internacionais e desprezo pelos tratados que o próprio país assinou, como os EUA de Trump.
Como danos colaterais há o reforço dos grupos terroristas islâmicos e a iminência de um desastre global com uma guerra que, se começar, pode não deixar ninguém para contar.
Não se esperava de um presidente americano, apesar dos vários e graves desvarios após a guerra de 1939/45, que houvesse um Trump que atraiçoasse os tratados assinados, que se atribuísse o direito de negar vistos a participantes na ONU, como se fosse refém do país em cujo território tem a sede, e que decidisse guerras em nome da NATO sem a anuência dos seus aliados.
Enfim, a barbárie já começou. O futuro do mundo é cada vez mais incerto e reduzido. A atitude da Rússia e da China são decisivas. A chantagem de Trump sobre a UE já se faz sentir e a comunicação social já está a ser submetida aos seus interesses.
A opinião pública mundial hesita entre o medo, a angústia e a revolta.

Etiquetas:

7.1.20

«Think globally, act locally» - (*)

«Boas intenções com má informação é a receita certa para o desastre» 
(Michael Crichton)

I - Recentemente, Veneza, sofreu mais uma das habituais inundações, desta vez de um valor recorde. “A culpa é do aquecimento global!” — sentenciou logo o pessoal do “pronto a pensar”. Talvez seja, mas, entretanto, continuarão a chegar à cidade os seus 30 milhões de turistas, muitos deles vindos em gigantescos navios de cruzeiro — dois dos quais, em menos de um ano, se “estamparam” contra terra-firme. Claro que não foram esses monstros que provocaram ESTA inundação, mas o certo é que não dão saúde nenhuma à cidade, afectando a terra, o mar e o ar de um ecossistema extremamente frágil. Mas o longo-prazo não preocupa os decisores e, felizmente para eles, as “alterações climáticas” têm as costas largas.

II – Aliás, e no que respeita ao Clima, as pessoas dividem-se entre as que NUNCA se preocuparam, as que SEMPRE se preocuparam, e as que acordaram AGORA para o problema. E se as primeiras são perigosas, a últimas, com o fanatismo cego dos recém-convertidos, desacreditam aquilo que, de facto, é um grave problema da Humanidade. E as pessoas mais primárias, para quem o mundo é a preto-e-branco, acantonam-se também em ESQUERDA e DIREITA, com as primeiras a jurar que a Terra está a aquecer, e as outras a garantirem que não — como se os dois grandes poluidores mundiais (os EUA e a R. P. China) não estivessem, precisamente, em polos opostos dessas opções políticas!
.
III – Entretanto, o mundo ocidental tem andado entretido com uma adolescente sueca que se pode dar ao luxo de deixar de frequentar a escola para salvar o Planeta. Tudo bem, isso é lá com ela e com os respectivos pais, que têm posses para lhe oferecerem uma educação extra-escolar; e daí não vem mal ao mundo, desde que não contribua para difundir a ideia de que é isso que a juventude deve fazer, como o rapazinho que há dias dizia, entusiasmado com a sua “greve climática”: “Para quê estudar, se o Planeta vai acabar em 2030?”.
Não, meu amigo; para defenderes o Planeta, o caminho é exactamente o oposto: estudar, estudar muito, para não vires a ser como Santana Lopes que se GABOU na TV de não saber Física; nem como o cartunista que chora os — inexistentes! — pinguins do Alasca; nem como o jornalista que chamou CO2 ao vapor de água; nem como o que mostrou uma central nuclear, dando a entender que era o reactor nuclear de Sacavém — um brinquedo que caberia num T2; nem como Catarina Martins, para quem as barragens são prejudiciais porque, nelas, a água se evapora; nem como o “Jornal Económico”, que ainda este mês nos garantia que os “Habitantes do Tejo e Sado [estão] em risco de ficar debaixo de água” — quando esses HABITANTES são, tanto quanto se sabe, peixes e golfinhos... 
E mais exemplos não dou, devido à limitação de espaço, mas é por essas e por outras que considero CRIMINOSO o caminho de facilitismo que está a ser seguido em Portugal, agora com o fim das retenções até ao 9.º ano, o que se vai pagar muito caro — só que a conta virá quando os responsáveis pelo descalabro já por cá não andarem.
.
IV - Num filme cujo nome não recordo, a personagem principal é um pequeno-burguês que, fascinado com Allende, decide embarcar para o Chile a fim de participar na Revolução em curso. E a história termina com ele a correr, já atrasado para embarcar, furioso com uns quantos indivíduos que lhe estão a estorvar o caminho: por sinal, são operários franceses em luta, mas isso não lhe diz nada! Para ele, a Revolução é para fazer, sim, mas longe dali, com o mesmo espírito que leva muito boa gente a preocupar-se com a Amazónia, mas nem um pouco com as árvores da cidade onde mora. 
.
(*) – Neste contexto, pode dar-se a este velho ‘slogan’ o significado de “Pensa no Planeta, mas age sobre o que te rodeia”.

Etiquetas: ,

6.1.20

Ontem, 15.º Aniversário do "Sorumbático"

Etiquetas:

Grande Angular - Mais Governo, mais Estado

Por António Barreto
Orçamento! É a discussão dos dias presentes e das próximas semanas. É natural que assim seja. Trata-se do documento mais importante que a nossa assembleia legislativa aprova anualmente. Explícitas ou implícitas, estão ali as escolhas do governo, do Parlamento, dos partidos e, em certa medida, da população. As prioridades e as estratégias estão ali desenhadas, assim como as verdadeiras opções. Mesmo se os deputados e os jornalistas vão perder muito tempo com debates inúteis. Quem tiver tempo para ler, perceberá quem fica a ganhar e a perder. Poderá detectar os castigos e os favores. Conseguirá sentir a justiça e a injustiça das políticas públicas. Tudo está ali, para o melhor e o pior. O problema é que se vê mal. E nem sempre se percebe. Com tudo cortado às fatias e às rubricas, é difícil compreender o principal.
Pena é que a intriga seja o tema essencial. Há aliança ou não? À esquerda ou à direita? Cede-se um pouco aos pobres, para agradar ao Bloco, ou aos funcionários públicos, para contentar o PCP? Vamos ter estridência bloquista quanto baste, acidez comunista com fartura. Assim como a presunção dos pequenos partidos que vão falar como se tivessem 30% dos votos! Muito vai ser dito a propósito da desinteligência entre Costa e Centeno, tema relevante, mas não decisivo.
Apesar das contas certas e do possível excedente público, a verdade é que a principal característica deste orçamento é o do aumento do Estado e do Governo. Como há muitos anos acontece. Aliás, as negociações entre partidos têm apenas esse objectivo: gastar mais! Tanto a esquerda como a direita querem gastar mais. Na educação, na saúde, na função pública, nos vencimentos, nas pensões e na justiça: aumentar a despesa e o número de funcionários é a reivindicação.
Sem que se perceba, neste orçamento continua indigitado o caminho para a regionalização. Com as invenções de Costa e Cabrita, não se chama regionalização, chamar-se-á outra coisa qualquer. Talvez descentralização. Não se criarão regiões, mas entidades. Não se farão eleições, mas serão eleitos uns representantes para fazer companhia a uns nomeados: não serão uma coisa nem outra. Tudo será feito para evitar o veto do Presidente da República e para afastar a hipótese de referendo. Mas é este o mais intenso programa com o qual o PS pretende criar um Estado à sua imagem.
Com um palavreado onírico sobre a democracia de proximidade e a sustentabilidade autárquica, o que o governo e o PS propõem é simples. Aumentar o Estado. Aumentar os orçamentos públicos. Criar novas competências para a Administração. Duplicar competências e confundir funções entre o local, o autárquico, o regional e o nacional. Aumentar a despesa. Aumentar a dependência dos concelhos, das freguesias e das comunidades locais. Aumentar a dependência da sociedade civil e dos cidadãos. Na verdade, trata-se de dar mais um passo no alargamento da Administração Pública e do Estado e no enfraquecimento da sociedade civil.
A associação entre representantes com legitimidades diferentes, nomeados pelo governo, designados pela Administração, representantes de instituições públicas e privadas e finalmente eleitos, cria uma espécie de câmara corporativa na qual os cidadãos, as instituições livres, as organizações privadas e as associações ficam tuteladas. As autarquias, a meio caminho entre o Estado e a comunidade, ficam ainda mais amarradas à Administração Pública. Este processo de reforma alarga a malha do Estado. Trata-se de uma regionalização disfarçada que traz para dentro do Estado central as regiões e os municípios. É uma democracia de proximidade que submete os cidadãos ao Estado. Não se trata obviamente de aproximar a administração dos cidadãos, mas sim de incluir os cidadãos na administração. É a isto que se chama uma Administração Pública inclusa!
A leitura combinada dos projectos de regionalização, do programa de governo e do orçamento é luminosa porque permite ver as penumbras. Aonde está a ideia de libertar os cidadãos? Nem uma referência! Aonde estão antigos desejos dos libertários, dos social-democratas e da esquerdas democráticas? Ausentes! Ideias nobres que fizeram décadas de esperança desapareceram. Não se pensa em remover obstáculos à criatividade e à iniciativa dos cidadãos. Morreram os sonhos que alimentaram muita política, quando ser de esquerda era sobretudo ser livre e permitir a liberdade. Nunca substituir a liberdade.
As esquerdas trouxeram solidariedade. Eis uma ambição que prometia grandeza. Mas depressa se transformou em medonha: dar a liberdade, a igualdade e a criatividade! Organizar, orientar, conduzir e mobilizar os cidadãos! Dar-lhes um propósito e garantir a sua absoluta igualdade!
O Governo e seus grandes, médios e pequenos funcionários procuram obsessivamente definir estratégias nacionais, elaborar planos nacionais e construir programas nacionais para organizar a vida de todos. O Governo pretende até elaborar planos para promover Portugal como destino turístico LGBTIQ! O ideal deixou de ser a liberdade, para ser a integração. Tudo é Estado, nada é civil. Tudo é Administração, nada é cidadão.
Os casos aberrantes da Educação e da Saúde são excelentes exemplos. Ambos os sectores estão em crise, sobretudo a saúde. Há cada vez mais médicos e enfermeiros, há cada vez mais professores por aluno, há cada vez menos alunos, nada disso tem importância: o que os partidos do governo e acessórios querem são mais professores, mais médicos e mais enfermeiros, quando é evidente que o essencial é um problema de organização. Portugal é um dos países da Europa com mais médicos por habitante, mas continua a procurar-se mais médicos. Se o Serviço Nacional de Saúde tem um gravíssimo problema de organização, a resposta é vociferar contra a saúde privada! Apesar de haver funcionários a mais, o atendimento dos serviços públicos na segurança social, nos papéis de identidade, no registo de estrangeiros e nas autorizações e licenças é ineficiente, moroso e desigual. Graças às delícias da Internet e da administração digital, há cidadãos pobres, nacionais ou estrangeiros, que são enviados de Lisboa para os Açores ou do Porto para Faro, “a fim de serem recebidos mais depressa”.
O Leviatã, grande monstro marinho, dragão, serpente, demónio e devorador de cidadãos é o Estado forte que se constrói diante de nós. Dia após dia.
Público, 5.1.2020

Etiquetas:

4.1.20

No "Correio de Lagos" de Dez 19

Etiquetas: ,

3.1.20

Desejando as boas coisas uns aos outros

Por Joaquim Letria
Permitam-me que vos expresse os desejos de que tenham passado um feliz Natal, na companhia dos que mais amam, e vos deseje uma festiva entrada em 2020, ano que fique marcado pela realização dos vossos melhores desejos, pessoais e profissionais.
Nesta quadra do ano é tradicional que se fale e escreva de paz, amor, esperança e justiça. Desejamos tudo isso uns aos outros e ficamos com a consciência tranquila por mais um ano. Mas sabemos bem que, infelizmente, a realidade é outra e que pessoalmente somos incapazes de resolver estes problemas, ainda que mais pudéssemos fazer se juntos o exigíssemos daqueles a quem confiamos a governação.
Conheço a realidade de alguns países do hemisfério sul, vivi entre refugiados e deslocados, tenho gravados na minha memória, no interior do meu ser, os sorrisos das crianças sem comida, sem saúde, sem afectos, sem escola, sem saberem que não vão ter trabalho e ignorando que lhes roubaram uma vida inteira. E com esses sorrisos elas pedem-nos uma bola, um caderno, um lápis, um livro.
Nos campos de refugiados a vida é inimaginável, anos em tendas, na lama ou na poeira, na doença, ao calor e ao frio, comida das gamelas e amigos e familiares dispersos e sem destinos conhecidos. É assim nos campos do Sul da Europa, na América Latina, em África, no Médio Oriente.
Esta gente, meus queridos leitores, está, apesar de tudo, mais protegida do que todos os outros entregues a si próprios, fugitivos da guerra e da fome, prisioneiros do tráfico de seres humanos, à mercê de gente que lucra com a miséria alheia, que os mete em camiões frigoríficos, lhes aluga barcos que se viram, carregados com cem passageiros no lugar de 20, bebés entregues com amor a desconhecidos a quem se agradece que os levem para longe do inferno das guerras ou simplesmente da fome, sem ser, sequer, até um dia…
Peço-vos perdão por vos falar destas coisas num período tão feliz, esperançoso e alegre do ano para milhões de cristãos. Mas os outros, que aqui trouxe, podem não ser todos cristãos, mas também são milhões de pessoas.
Os responsáveis pelas Nações Unidas, pela União Europeia, pelos Estados Unidos e por outras nações mais e menos poderosas conhecem tudo isto em pormenor e confessam-se “muito preocupados e frustrados”. Mas pouco fazem para minorar as trágicas condições da existência destes milhões de seres humanos. As prioridades são sempre outras e dirigem-se àqueles que votam neles ou retribuem de outra forma, chegando-se ao ponto de se fazer preços e negociar acolhimentos, como acontece entre a Turquia e a Europa.
No dia em que tudo isto possa ter um fim à vista, decerto que a prazo mas com seriedade e confiança, teremos então “um feliz Natal e um ano novo muito próspero”. Até lá vamos desejando as boas coisas uns aos outros, entre amigos e familiares. Assim seja.
Publicado no "Minho Digital"

Etiquetas:

2.1.20

Notas Soltas – dezembro/2019

Por C. Barroco Esperança
Aquecimento Global – Até ao final do século a subida das águas submergirá as terras onde agora vivem 200 milhões de pessoas. Há governantes insensíveis e, até lá, muitos partilharão o desespero com os filhos e netos desses irresponsáveis. Só há um Planeta.

Rio de Janeiro – Até dezembro a polícia matou 1.546 pessoas, mais 18% do que em 2018. Bolsonaro quer militares nas ruas com ordem para matar. Finalmente, o terror das forças da ordem e o dos criminosos equilibra-se com a chegada a PR de um dos últimos. 

Caridadezinha – A Dr.ª Isabel Jonet, experiente profissional da caridade, comandou o peditório da campanha do Banco Alimentar contra a Fome, coadjuvada pelo PR, tendo recolhido muitas toneladas de alimentos. Estão de parabéns os pobrezinhos.

Greta Thunberg – A jovem sueca, com síndrome de Asperger, que a torna obsessiva e irritante, é uma referência mundial, eficaz a mobilizar multidões na defesa do Planeta, onde a vida está em perigo com as alterações climáticas e a agressão ao ambiente.

Saúde – Interesses privados, bastonários com vocação sindical e a comunicação social afeta fazem uma campanha demolidora contra o S.N.S., através do medo e desconfiança até conseguirem destruir a maior conquista democrática dos portugueses.

S.N.S. – Relatório da OCDE e da UE garante que os cuidados públicos assistenciais têm reduzido a mortalidade por causas evitáveis e tratáveis acima da média dos países da UE. O estudo da OCDE certifica o SNS Português como um dos melhores do mundo.

CDS – Quando a direita se aproxima da extrema-direita acaba a pensar como ela e, por fim, é absorvida. O afastamento da matriz conservadora e democrata-cristã de Freitas do Amaral e Amaro da Costa conduziu o partido para o beco onde o esperava o Chega.

América latina – A onda de contestação que ameaça o subcontinente recrudesce e tem um efeito dominó. No Equador, Colômbia, Chile e Bolívia os confrontos não param e as reivindicações assumem, por vezes, um carácter inorgânico, difícil de controlar.

Reino Unido – As eleições foram um xeque à União Europeia. Boris Johson teve uma vitória estrondosa, Jeremy Corbyn o que merecia. Ambos eram inimigos da UE, ganhou o mais genuíno. Perdemos todos, e falta saber se o que resta do Reino se mantém unido.

Maldivas – Se há um país em vias de desaparecimento, com a subida das águas do mar, este será o primeiro. Hoje é ainda o Paraíso dos ricos e destino de férias, amanhã será o cemitério dos pobres que não puderem fugir e dos deslocados da terra onde nasceram.

Geopolítica – Enquanto os EUA se remetem ao isolacionismo e aos negócios, alheios ao ambiente e ao futuro, a China é a potência que investe na tecnologia e diversifica os investimentos, num fulgurante crescimento científico e económico.  

Argélia – As eleições tiveram lugar no mesmo dia das do Reino Unido, mas apesar da proximidade, do interesse para a Europa e mundo árabe, e da agitação social que ali se verifica, a comunicação social portuguesa ignora o País e a sua efervescência política.

Madrid – A Cimeira do Clima da ONU fracassou o objetivo de regular os mercados de carbono. O débil resultado da COP25 alargou a distância entre os Governos e a ciência sobre a crise climática, dececionou o s-g da ONU e torna mais precária a vida na Terra.

Polónia – A reforma judicial que o partido nacionalista Lei e Justiça (PiS) quer aprovar no Parlamento é motivo de divergências entre Varsóvia e Bruxelas, nos últimos anos. A vocação totalitária do partido no poder não tolera a independência do poder judicial.

El Salvador – O veto absoluto ao aborto é violência de Estado contra a mulher. Penas de prisão até 50 anos, por abortos espontâneos, violações e interrupção de gravidez de risco, são a afronta que nega à mulher a dignidade e o seu direito à saúde reprodutiva.

União Europeia – A cumplicidade de Boris Johnson e Trump, de Trump e Putin, deste e Erdogan e o interesse de todos no apoio à extrema-direita e desagregação da UE, devia levar os europeus a ponderar as alianças e a redefinir os amigos.

Índia – A reeleição folgada do PM, Narendra Modi, deu-lhe confiança para aplicar um programa sectário de nacionalismo hindu, que trai a Constituição e a coexistência das comunidades religiosas, tendo por objetivo impedir a cidadania aos muçulmanos.

Antunes Varela – A homenagem, em Coimbra, ao jurista e docente universitário, com elogios da ministra da Justiça e, sobretudo, os calorosos encómios do presidente do STJ, foram um branqueamento da ditadura e a injusta reabilitação de um cúmplice.

Arábia Saudita – O príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, instigou a morte cruel do jornalista Jamal Khashoggi no consulado de Istambul. Perante o clamor mundial do crime, a teocracia islâmica condenou à morte cinco autores e prendeu 3.

Vaticano – O desvario das religiões e a onda nacionalista, têm levado a morte e o terror a várias regiões do Globo. O Papa Francisco é uma referência positiva de moderação e humanismo perante a turba desvairada e agressiva de prosélitos de numerosas crenças.

Ministro do Ambiente – Criticado por admitir a deslocação de aldeias, disse apenas o óbvio. Será cada vez mais difícil defender quem vive em zonas de perigo, num mundo onde 200 milhões de pessoas estão já em risco pela subida das águas do mar.

União Europeia – A saída do Reino Unido é um revés, mas a falta da federalização do seu espaço, com política comum em todos os domínios, é o risco que a vulnerabiliza na falta de harmonia, coerência e força militar dissuasora das ameaças externas.

IVG – A despenalização não contribuiu só para a autodeterminação sexual da mulher e melhoria da sua saúde reprodutiva. Ao contrário do que afirmavam os seus adversários, a interrupção a pedido da mulher caiu 28% desde 2011, e baniu as complicações.

Etiquetas:

1.1.20

No "Correio de Lagos" de Dez 19

Etiquetas: ,

30.12.19

No "Correio de Lagos" de Dez 19

Etiquetas: ,

29.12.19

Grande Angular - Democracia à flor da pele

Por António Barreto
tatuagem é uma forma de alteração do corpo sem utilidade médica. Outras formas incluem as escarificações (pequenas cicatrizes que provocam relevos na pele), piercings de toda a espécie (das “orelhas furadas” até intervenções em territórios inesperados…) e brandings feitos com ferro em brasa como se faz com o gado.
Muitos pensam que a tatuagem é moda recente das equipas de futebol, dos meios artísticos e dos bares da noite. Não é bem assim: as tatuagens são antiquíssimas, mais de dois ou três milhares de anos. Também se pensa que só certos grupos recorrem à tatuagem. Não é verdade: há exemplos de todos os grupos humanos, classes, religiões e as mais variadas profissões. Em cada momento, país ou comunidade, as tatuagens podem ter sido moda. Em finais do século XIX, quando as tatuagens eram sobretudo usadas por marinheiros, estivadores e reclusos, também havia nobres que, com recato, escondiam tais sinais. Os reis de Inglaterra Jorge V e Eduardo VII tinham, tal como o Kaiser Wilhelm II, o Czar Nicolau II ou o rei Afonso XIII. Mais tarde, até Winston Churchill (uma âncora de marinheiro) e a sua mãe (uma pulseira à volta do pulso) usavam. O tema já começa a ser motivo de estudo. A canónica revista “Brotéria” publicou um interessante artigo de Filipe d’Avillez que nos esclarece sobre a tatuagem na vida religiosa.
Houve tatuagens no Egipto, na Grécia, na China e entre Índios americanos. Em todos os continentes, os escravos podiam ser obrigados a usar argolas implantadas em certas partes do corpo, para já não falar dos ferros em brasa com o sinal do proprietário. Há menos de um século, os nazis alemães gravavam números nos braços dos Judeus. Há vestígios de tatuagens em todos os tempos, tribos e cultos, países e continentes. Já foram proibidas ou toleradas, elogiadas e invejadas. Hoje estão aí, em todas as classes sociais e quase todos os países.
Nas últimas décadas, as classes médias e altas apenas admitiam, publicamente, os piercings mais inofensivos, os das orelhas furadas. A partir dos anos 1960, as tatuagens começam a fazer o seu caminho. Os soldados portugueses, por exemplo, notabilizaram-se com um famoso “Amor de mãe”. Há bem pouco tempo, os tatuados eram soldados ou assassinos de certas convicções. Hoje são todos esses mais estudantes, artistas, gente bem das classes médias, celebridades da televisão e do folhetim, serviços de “escort”, profissionais da moda e da comunicação, premiados de Óscares, futebolistas milionários e bandas de música. As tatuagens alargam o seu âmbito social. Dançarinas de varão, transgressores sexuais de todas as obediências, desportistas de rugby, todos se juntam a esta fabulosa comunidade! Consta que já pelo menos uma dúzia de deputados e um ou dois governantes aderiram…
Nas vulgarmente chamadas classes médias e altas, a tatuagem espalha-se a um ritmo impressionante. Muitos gostam de mostrar que estão aí para as curvas. Como sempre, rebeldia e originalidade transformam-se em moda e depois em conformismo. O que há de mais curioso na recente moda das tatuagens é o modo de disseminação. O contágio vai de baixo para cima! Ao contrário do habitual. O chapéu, a maquilhagem, o tabaco, as drogas, o cinema, a música, os rituais gastronómicos e tantos outros comportamentos sempre se expandiram de cima para baixo, das classes altas para as médias, as pequenas burguesias, as classes trabalhadoras e rústicas, as classes desfavorecidas. Agora, em certos casos, o contágio vai das classes baixas para as altas! O ar drogado. A roupa rota. O rosto doentio. A tatuagem. E até um certo ar ordinário. Quando Versace foi assassinado, alguém referiu, no obituário, que o seu maior contributo para a moda tinha sido o de ensinar as prostitutas a vestirem-se como senhoras e as senhoras como prostitutas.
Quais as razões do êxito da tatuagem? Por que acolhem esta moda pessoas tão diversas? Espera-se pelo contributo dos antropólogos, psiquiatras e artistas que nos ajudem a perceber como a moda se difunde tão rapidamente. Por que há gente disposta a marcar na pele, com elevados dispêndios e enorme dor física, sinais perpétuos cuja eliminação futura, a ser possível, custa fortunas e provoca sofrimento? Por que motivo as pessoas se exibem desta modo? Por que se querem individualizar e acabam por ficar iguais com o golfinho, o “amor de mãe”, o coração florido?
Exibicionismo? Evidente. De si, das suas crenças e de aceitação de que é propriedade de alguém. Identidade e pertença a uma comunidade? Sim. Os mafiosos também se querem reconhecer. Como os Cruzados antigamente. Como os Yakuza japoneses, uma das piores comunidades de assassinos orgulhosamente tatuados. Individualidade? Também. Tal como a sensação ou a crença de que o que se mostra é mais importante do que o que se pensa! A convicção de que a imagem é mais importante do que o espírito.
A revolução do consumo de massas trouxe esta dimensão: a adopção pelas classes altas e médias de padrões, géneros, tiques e ícones das classes médias e baixas. E até de marginais e doentes. As classes ricas começam a apreciar os gostos e os sinais das classes populares! Calças rasgadas, roupa amarrotada e larga de mais; maquilhagem a sugerir doença, alcoolismo e consumo de droga. Parece haver um ar de aventura! Já ouvimos uma frase memorável de uma senhora das classes ricas garantir que durante as férias iam “brincar aos pobres”, porque mal se lavavam e vestiam! Já tivemos a moda das classes ilustradas descerem ao fim de semana às discotecas beberem mau álcool, frequentarem prostitutos e prostitutas, comerem pão com chouriço, “roçarem-se pelo povo” e frequentarem bares de má reputação. Povo e tavernas são “giríssimos”… 
Durante séculos, as classes viviam separadas. E separadas tinham as culturas e os modos. As classes mais baixas adoptavam comportamentos séculos depois dos mais abastados. Ou nunca, pois não viam, não sabiam. Até aos séculos XVIII e XIX, uma grande parte do povo nunca tinha visto roupas dos aristocratas, nem como se estes se mexiam e comportavam. A democracia, as eleições, os supermercados, o cinema, a televisão, as revistas e a internet mudaram isso tudo. Como dizia um professor há muitas décadas, “o espírito do capitalismo não é o de produzir meias de vidro muito caras apenas para a Rainha de Inglaterra! O espírito do capitalismo é de vender cada vez mais meias de vidro!”. 
A tatuagem é a grande vencedora da democracia, da sociedade de consumo e da igualdade!
Público, 29.12.2019

Etiquetas:

28.12.19

No "Correio de Lagos" de Dez 19

Na Primavera deste ano, a Rua Filarmónica 1.º de Maio foi notícia devido ao derrube de 35 árvores de grande porte, todas de enfiada e em tempo recorde. 
Não vamos agora voltar ao tema, mas recordamos que Portugal é um dos signatários dos Acordos de Paris de 2015/16, que implicam a redução das emissões de CO2, com metas severas já para 2020, cuja contabilização tem em conta as chamadas “emissões NEGATIVAS”. 
Essas “emissões NEGATIVAS” são as ABSORÇÕES, para as quais já existem, e há muitos milhões de anos, “máquinas” que o fazem gratuitamente ou com um custo mínimo, chamadas ÁRVORES. 
Isso leva-nos a SAUDAR a rearborização dessa rua, que esperamos se estenda à cidade toda, quanto mais não seja para vermos cumprir a promessa eleitoral, feita nas autárquicas de 2017, de plantar 1000 árvores por ano.

Etiquetas: ,

27.12.19

Maçonaria e Opus Dei – PAN, Teresa Leal Coelho e ASJP

Por C. Barroco Esperança
O PAN vai apresentar um projeto em que os titulares de cargos políticos e altos cargos públicos declarem a “filiação ou ligação a organizações ou associações de caráter discreto [como a Maçonaria e a Opus Dei] em sede de obrigações declarativas”. (Lusa, 14-12-2019)
Teresa Leal Coelho, vereadora do PSD, exige a quem exerce funções de poder “que se exponha na sua integralidade no que respeita aos compromissos e fidelidades a que está vinculado, através de um registo de interesses detalhado”. (Expresso, 21-12-2019)
A Associação Sindical de Juízes Portugueses (ASJP) aprovou, há cerca de uma década, um compromisso ético em que defendeu que “o juiz não deve integrar organizações que exijam aos aderentes a prestação de promessas de fidelidade ou que, pelo seu secretismo, não assegurem a plena transparência sobre a participação dos associados”.
O PAN, sem consistência ideológica, para além da defesa meritória dos animais, propõe apenas que quem queira declarar a sua pertença a uma associação “de carácter discreto” o possa fazer, como se estivesse vedado a alguém fazê-lo. Enfim, prova de existência!
Teresa Leal Coelho, com outras responsabilidades, depois de aludir ao contributo que a maçonaria prestou em ditadura, apesar de proibida, quer que cada membro declare a sua filiação em organizações legais (Maçonaria ou Opus Dei), surpreendendo que exclua as Igrejas e outras associações de carácter social, desportivo ou cultural.
A ASJP, que muitos temem mais do que o Opus Dei ou a Maçonaria, e sem que os seus associados se obriguem a declarar pertencer-lhe, quer que os membros das associações legais, ao contrário das dúvidas que levanta uma associação sindical de membros de um órgão da soberania, divulguem a sua inscrição.
O PAN, TLC e ASJP ignoram que o Estado não pode fazer tal pergunta e mostram que, tal como a ditadura, não respeitam a liberdade de consciência que o Art.º 141 da CRP garante.
Delirante foi a declaração do presidente da ASJP, Mouraz Lopes, em 2009, ao defender que “os juízes que pertencem à maçonaria devem comunicá-lo ao Conselho Superior da Magistratura e pedir escusa em causas que envolvam maçons”. Ignora-se como um juiz pode saber se o arguido é ou não maçon, estranha-se que apenas o mova a perseguição à maçonaria e teme-se que o sindicalista pense numa polícia para informar quem é maçon aos juízes maçons.
Urge desconfiar da falta de isenção de um juiz católico para julgar um arguido católico, de um sportinguista para mandar para a cadeia um pedófilo ou traficante do seu clube, de um budista para julgar outro, ou, pior, do risco que corre um muçulmano julgado por um juiz hindu, de um adepto do FCP a ser julgado por um benfiquista, ou de um juiz do Opus Dei a poder decidir sobre a liberdade de um maçon?
O O. D., legal e pouco recomendável, reagiu dizendo que a Maçonaria foi excomungada por um Papa, sendo pecado pertencer-lhe, e a Obra tinha aceitação papal e estava ao seu serviço, isto é, do Vaticano, uma potência estranha à UE, e ao abrigo da Concordata.
Enquanto passam por Lisboa elementos do ISIS, a orar com imensa devoção na mesquita, antes de se dirigirem à guerrilha islâmica, o PAN, a Dr.ª Teresa Leal e a ASJP estão preocupados com associações legais de que não há a menor suspeita de prosseguirem fins ilícitos ou perigosos.

Etiquetas:

Pouca Vergonha

Por Joaquim Letria
Imaginem os meus queridos leitores e leitoras que o nosso estimado director José Luís Manso Preto me telefonava ou escrevia a proibir-me de escrever aqui no Minho Digital a palavra “boa” ou alguma outra com o mesmo significado.
Ele pode fazê-lo, não creio que tal decisão, assim comunicada a um colaborador, seja censura. Agora, é sem dúvida um acto de policiamento da língua e de repressão da palavra. Posso não escrever “Boas Festas”, mas também não as posso substituir por “Bom Natal”. Sou obrigado a reformular a frase. Se o fizer, posso desejar um “Feliz Natal” ou “Festas Felizes” que é a mesma coisa por outras palavras. E tal coisa já seria permitida, não desrespeitando a democracia, embora violando a liberdade de expressão.
Fazer isto – que sugiro ao Director que o faça – tornaria o nosso acto de escrita muito mais interessante e a leitura do jornal muito mais excitante para o nosso respeitável público. Escrever e ler este jornal podia assim ser um jogo de grande entretenimento para quem o escreve e para quem o lê, para além das interessantes matérias que sempre publica.
O Director só tinha que anunciar no jornal “a palavra hoje proibida é vergonha”, por exemplo, depois de nos ter avisado antes de escrevermos. Quem violasse a ordem pagava uma multa e o total das multas podia converter-se num prémio a sortear pelos leitores. Como vêem, o Minho Digital ficava muito mais divertido.
Cheguei a esta ideia sem mérito próprio, apenas graças ao nosso querido Presidente da Assembleia da República, Dr. Ferro Rodrigues, que repreendeu o deputado do “Chega” André Ventura por este pronunciar demasiadas vezes, segundo o Presidente da Assembleia, a palavra “vergonha”. Pelo raspanete podemos concluir que “vergonha” é uma palavra que desagrada a Ferro Rodrigues e, no seu entender, não dignifica o Parlamento.
Não quer isto dizer mais do que aqui se regista. Seria abusivo considerar que Ferro Rodrigues não tem vergonha e que deseja que tal sentimento não… envergonhe o Parlamento. Na minha modesta opinião, o que Ferro apenas deseja é que André Ventura modere a linguagem e não contribua para que a Assembleia da República tenha mais do que aquilo que sempre teve, que foi… pouca vergonha.
Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

24.12.19

No "Correio de Lagos" de Dez 19

Há uns anos, a CML pôs em prática, com o apoio da EDP, um “Plano de Contenção Energética” cujo resultado mais visível consistiu em desligar cerca de 30% dos candeeiros públicos; mas Salgueiro Maia, talvez por ser figura pública, teve direito a um desconto de 50%, pelo que viu ser desligado um dos dois holofotes no monumento que a CML lhe erigiu no 30º aniversário da Revolução — ficou a ser iluminado apenas pela “esquerda”, o que, vendo bem, tem toda a lógica. 
Talvez tenha sido também por economia que se omitiram as inscrições 1944-1992, quer nas placas toponímicas (da rua com o seu nome), quer no próprio monumento. 
Quanto às coroas de flores, também deve ser por contenção que primam pela ausência, dando razão a quem diz: “Poupar nos tostões como se fossem milhões, para gastar milhões como se fossem tostões”. 

Etiquetas: ,