27.1.21

Os "vacinados prioritários"


QUANDO se soube que os citrinos evitavam as mortes por escorbuto (funcionando, de certa forma, como vacina...), o capitão Cook decidiu distribuir limões pela tripulação.

No entanto, e prevendo que os marinheiros os recusassem (porventura por serem ácidos e desagradáveis), Cook decretou que só os oficiais teriam direito a eles.
Como previra, a tripulação revoltou-se, exigiu-os... e “venceu”... — ficando assim resolvido o problema com os possíveis “negacionistas” ainda antes de ter começado!

HÁ UMA outra versão da história, segundo a qual os marinheiros se revoltaram por duas vezes: a primeira, quando os mandaram comer os limões, e a segunda quando lhos recusaram.

MAS, para o caso, saber qual é a versão certa não é o mais importante. O que é importante é ver o que sucede quando questões como as da saúde são entregues a pessoas inteligentes e com capacidade de liderança e — claro — de previsão.

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23.1.21

Grande Angular - Paradoxos e disparates

Por António Barreto

O boletim de voto desta eleição presidencial vai transformar-se numa raridade documental, uma peça única na história política do mundo. Quase vale a pena ir buscar o boletim, não votar e trazer para casa tão singular espécie! O dito objecto tem oito nomes, oito fotografias e apenas sete candidatos! Como de costume, a logística, o procedimento administrativo e a regra jurídica levaram a melhor sobre a inteligência, a clareza e a sensatez. Houve tempo para rever, mas não se corrigiu. Sabia-se que estava estragado, mas não se reparou. Preferiu-se enganar, desnortear eleitores desatentos e encenar uma comédia bufa para salvar uma honra burocrática. Se houvesse um grupo de advogados atrevidos, teríamos talvez um processo de impugnação destas eleições! Felizmente, não vivemos na América…

Mais uma vez, um “dia de reflexão”! Novamente, dois dias em que não se pode falar de política, escrever sobre politica ou conversar publicamente sobre política. É talvez o dia mais político na vida de uma democracia, o dia de eleições! É seguramente o dia de mais intensas discussões políticas, de expressão de mais sólidos argumentos e de maior necessidade de informação e confronto, o dia em que vamos às urnas! Pois bem, em nome de princípios obsoletos, de regras despóticas, de medos covardes e de receios infantis, é nesses dois dias que não se pode falar, discutir, escrever, ler, ouvir e ver política e políticos! Nem realizar ou publicar sondagens, evidentemente. Não há maior atestado de menoridade passado aos portugueses.

A expressão “dia de reflexão” é duplamente ofensiva e idiota. Por um lado, pressupõe que todos os outros dias não são de reflexão! Por outro, implica que a reflexão dispensa conversa e leitura, exige mesmo silêncio e olhos fechados.

Uma tentativa de esclarecimento, junto da Comissão Nacional de Eleições, não resultou. Tratava-se de saber se a reflexão, o silêncio e a reserva se aplicavam apenas a matérias “presidenciais” ou se envolvia toda a política. Era necessário saber se os partidos com candidatos presidenciais tinham um tratamento diferente dos partidos sem candidatos. E se todas as questões políticas de que os candidatos falaram durante a campanha estavam abrangidas pela lei do silêncio… Ninguém aclarou tão fundadas dúvidas.

A campanha eleitoral foi miserável. De conteúdo, de forma, de assistência, de clareza de argumentos, de confrontos de ideias e de personalidades… Todos os assuntos actuais e urgentes (pandemia, educação, saúde e emprego, por exemplo) estavam fora da ordem do dia e dos debates, a não ser por evidente ardil demagógico. Ao mesmo tempo, a maior parte dos candidatos falavam justamente disso, das matérias que não dependem do Chefe de Estado. Foram reuniões macambúzias de candidatos taciturnos!

Rituais, entusiasmo, vivacidade, liberdade de movimentos, acesso aos meios digitais, facilidade de acompanhamento pela NET e interesse por uma campanha deste género: em qualquer destes tópicos, a campanha foi um desastre. Não serviu para nada. As hipóteses de tratar destas dificuldades eram todas, como se deve, proibidas. Alterar o dia das eleições? Não se pode, nem por uma questão de vida ou de morte. Permitir que os cidadãos votem durante três ou quatro dias? Nem pensar, é ilegal. Alterar a lei das eleições? Só depois de alterar a Constituição. Rever a Constituição, mesmo por causa de uma emergência nacional? Proibido! Recorrer a métodos excepcionais por motivos excepcionais? Interdito pela lei. Tudo previsto na lei, tudo previsto na Constituição, tudo preferivelmente proibido, tudo preparado pela melhor casta de portugueses, a dos advogados que se ocupam de política! Feliz o país que tão bons juristas tem! 

A votação antecipada ou em mobilidade foi mal organizada. Foram filas de espera de horas, ao frio e ao ar livre. Houve poucas mesas de voto, poucas salas, poucos locais e poucos dias de eleição, um só, neste caso. Houve muita gente que se deslocou e, depois de espera, se retirou.

A votação por correspondência, prevista há anos, experimentada em dezenas de países, não foi suficientemente utilizada, nem devidamente preparada. Há décadas em estudo, o voto digital, presencial ou não, continua a ser pouco ou nada utilizado.

Parece que apenas se verificou progresso e eficácia nalguns casos de voto a domicílio de pessoas infectadas devidamente registadas e previamente anunciadas. Salve!

Em reflexo de populismo barato e idiota, o Chefe de Estado, o Primeiro-ministro e o Presidente do Parlamento não foram vacinados, nem sequer considerados prioritários. Num país onde reina a cunha e o privilégio, falta coragem, por sentimento de culpa, para tomar decisões acertadas que impliquem diferença e distinção.

Dois autarcas, um de Reguengos de Monsaraz e outro de Arcos de Valdevez, arranjaram maneira de serem vacinados ao arrepio de todos os critérios, prioridades e regras! Invocaram, um, a sua qualidade de presidente de uma fundação, outro, uma sobra de vacinas! Os excessos provocam sempre as excepções ilícitas.

De acordo com o Ministério da Educação, os professores das escolas públicas estão proibidos de manter em aberto seminários, aulas por ZOOM, grupos de diálogo sobre assuntos escolares e discussões sobre matérias escolares.

Segundo o Ministério da Educação, os colégios privados estão proibidos de manter aulas, mesmo informais, pela INTERNET. Ou de organizar formas improvisadas de telescola da exclusiva responsabilidade de cada escola. Tal como os professores estão proibidos de manter e desenvolver, pela NET ou por telemóvel, conversas com os seus alunos, organizar actualizações, dar explicações e realizar debates.

De acordo com o Ministério da Saúde, os médicos, enfermeiros e outros profissionais dos hospitais e clínicas privadas não foram nem serão tratados e vacinados de modo igual aos médicos, enfermeiros e profissionais dos hospitais públicos.

Ao fim de um mês de vacinação, os centros de saúde não estão prevenidos nem ainda sabem o que os espera, não começaram a preparar-se para as tarefas mais difíceis, dos idosos, dos doentes prioritários e dos casos especiais. Quem se dirige a um Centro de Saúde fica sem resposta. Quem deseja saber em que grau de prioridade ou em que escala se encontra, fica ignorante. Os funcionários dos Centros de Saúde estão dependentes de uma estrutura muito centralizada, que se compreende, mas burocrática, o que não se aceita. Silenciosos, recatados, seguramente envergonhados, médicos, enfermeiros e funcionários dos Centros de Saúde respondem, a quem se lhes dirige: “Ainda não sabemos”.

Público, 23.1.2021

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22.1.21

PORTUGAL A PRESIDIR À EUROPA

Por Joaquim Letria

Portugal assumiu a presidência europeia no passado dia 1 de Janeiro. Brexit resolvido e bloqueio húngaro e polaco ultrapassado, a presidência portuguesa herdou o arranque do Quadro Financeiro Plurianual (2021-27).

A vacinação já foi aprovada como parte central da agenda da presidência portuguesa. ”Assumir uma vacinação justa e uma eficácia  global e comprovada, será a grande prioridade europeia neste próximo semestre", conforme sintetizou o primeiro ministro Costa.

As reuniões sectoriais dos ministros dos 27 estão a ser preparadas tendo em atenção a sua realização presencial embora tudo esteja preparado para caso o COVID assim obrigue se possam fazer por vídeo conferência .

A presidência alemã que precedeu a portuguesa foi muito condicionada por restrições desse tipo, assim como a própria passagem de testemunho foi ensombrada por esse factor. Em comparação com a Alemanha, Portugal tem hoje mais do dobro de casos e de mortes por milhão de habitantes.

Costa definiu outras prioridades a somar às referidas. A recuperação económica, os direitos sociais, e o reforço da autonomia estratégica. A Europa deve apresentar-se aberta ao mundo e Portugal deve ser uma plataforma giratória de articulação com outros continentes e aprofundar as relações com África, com o Indo-Pacífico, especialmente a Índia, e as ligações transatlânticas, em especial com as Américas sem descurar também as migrações.

Biden tomará posse a 20 de Janeiro, três semanas depois de Portugal assumir o semestre europeu, mas se essa coincidência der origem a uma cimeira EU-EUA, esta deverá acontecer em Bruxelas sob a égide de Charles Michel, presidente do Conselho Europeu.

Publicado no Minho Digital


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21.1.21

“A democracia é preciosa e frágil” (Joe Biden, no discurso de posse)

Por C. B. Esperança

Dois dias depois de o PR brasileiro, abrutalhado e mitómano, que tinha como referência Donald Trump, ter dito que “Quem decide se povo vive em democracia ou ditadura são as forças armadas”, as democracias liberais respiraram de alívio, depois da mais insólita tomada de posse do novo presidente americano.

Não é entusiasmo que desperta, é a confiança em Joe Biden para respeitar os resultados em novas eleições, sem tentar falsificar os resultados, denegrir as instituições ou incitar um golpe de Estado, à semelhança de países tribais.

O mundo viveu incrédulo e receoso o mandato de Donald Trump, um desmiolado PR, mitómano e narcisista, indiferente aos danos à reputação dos EUA, incitando ditaduras. Acabou a perdoar os crimes de amigos e familiares quando viu no Partido Republicano, moldado à sua imagem, defensores da Constituição que ele jurou e traiu.  

Ontem foi mais um dia na vida de Joe Biden e um dia novo para a democracia, segundo as regras que os americanos decidiram, sem direito a traí-las. Até Mike Pence, dedicado Vice de Trump, acabou por abandonar o golpista insolente, que era o exemplo de todos os aspirantes a ditadores, na Europa e em outros continentes.

Se os EUA não julgarem e condenarem o inspirador do ataque ao Capitólio, perderão o respeito que as suas instituições merecem, melhores do que o comportamento de vários presidentes que fomentaram guerras noutros países.

A derrota de Trump e a indecorosa reação talvez desanimem os candidatos a ditadores que, por via democrática, chegam ao poder. Por isso é tão decisiva a sua condenação e, se possível, a anulação dos perdões concedidos, nos últimos dias, aos seus cúmplices.

O 46.º Presidente dos EUA tomou posse, entrincheirado no Capitólio, entre barricadas e vedações para impediam um novo ataque, numa cerimónia cuja segurança mobilizou 25 mil militares fortemente armados, e escrutinados pelos serviços secretos, antes de serem enviados para Washington.

Com o Metro fechado, a circulação interdita, uma cerimónia sem público, por razões de segurança e devido à pandemia, sem o luzidio desfile nem baile tradicional, a esperança venceu o medo, e a democracia derrotou o golpismo.

O simbolismo da presença de Clinton, Obama e Bush e o convívio entre eles, foi, além de protocolar, a condenação política pública e plena de Donald Trump.

Não há notícias falsas, há factos e mentiras, como deixou claro o novo PR numa alusão ao antecessor. Agora tem a árdua senda de restaurar a confiança, a dignidade ultrajada e o respeito pelos tratados internacionais, que não podem ficar ao arbítrio de um malfeitor que ganhe eleições e ponha a democracia em perigo.

Urge ‘consertar’ as relações internacionais no concerto das nações. O tratado de Paris, as relações com a ONU e a OMS e o tratado nuclear com a Síria serão o primeiro teste à capacidade da nova presidência americana, onde a promissora vice-presidente, Kamala Harris, merece um lugar de destaque e de esperança para a democracia.

Joe Biden e Kamala Harris merecem felicitações e um voto de confiança. 

Ponte Europa Sorumbático 



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19.1.21

“Nova Costa d’ Oiro” de Janeiro 2021

SE PERGUNTAMOS a um investidor estrangeiro porque é que hesita em meter o seu dinheiro em Portugal, ele certamente referirá a burocracia, a lentidão da Justiça, a corrupção... e por aí fora, numa enumeração de obstáculos que o Estado se esmera em criar. Claro que a gravidade dessas limitações depende do que estiver em causa, mas eu estou a pensar, agora, na campanha de vacinação contra a Covid-19, que obrigará a um esforço inaudito para gerir quantidades gigantescas de informação e de meios, envolvendo MILHÕES de pessoas: e não fico nada tranquilo ao pensar que, durante todo esse processo, as nossas vidas estarão dependentes da eficácia de um Estado que é tão bom a inventar problemas quanto é péssimo a oferecer soluções — para exemplificar os que eu escolhi três pequenas rábulas “caseiras”.

*

I — QUANDO, em tempos, me mudei para Lagos e requeri a isenção de IMI a que tinha direito, vim a saber que fora recusada porque a casa constava, nas Finanças, como sendo numa determinada urbanização, enquanto eu indicara o nome da rua que se via nas placas toponímicas — uma descoordenação que eu até poderia relevar se, em seguida, não tivesse de ser eu a deslocar-me à CML para pedir uma certidão dessa equivalência! E o pior foi quando se aproximou a data-limite para pagar o imposto, o que me obrigou a voltar lá para PEDIR que apressassem “o processo” — e a resposta foi que não se podia fazer nada, e até poderia demorar 90 dias! Sucedeu que, nutrindo eu uma profunda aversão à burocracia, já antes tinha encomendado a uma solicitadora que tratasse de tudo o que pudesse — e foi ela que, si lá como!, conseguiu obter o certificado em tempo útil.

 

II — EM JUNHO de 2019, ao passar à porta da nossa Conservatória, enchi-me de coragem e decidi renovar o Cartão de Cidadão. Pois, apesar de não haver qualquer alteração em relação ao anterior, fui brindado com uma espera de seis horas até ser atendido, acrescidas de três quando o fui levantar — porque, entre outros absurdos cujos detalhes aqui omito, o envio para casa não era possível. Quando, por fim, me apanhei com o cartãozinho na mão, fiz questão de perguntar se “eles” também passavam por esse inferno, o que me valeu uma resposta bem esclarecedora: «Claro que não!».


III — TODA a gente sabe que a factura electrónica é algo que só tem vantagens, quer para quem a emite, quer para quem a recebe e, obviamente, é nesse formato que eu recebo as facturas do gás, da electricidade e das telecomunicações, bem assim como as comunicações de bancos, companhias de seguros e tudo o mais... com uma gloriosa excepção: a factura do SMAS de Lagos, que continua a chegar-me em papel! Sim, trata-se de um absurdo que remonta a Outubro de 2019, quando recebi em casa um folheto anunciando que essa possibilidade já estava disponível, para o que me eram oferecidas nada menos do que quatro formas para a passar à prática. Optei pela segunda, e esperei... Até hoje! Claro que o ‘e-mail’ foi recebido, mas ainda ninguém aprendeu, lá nos serviços, que é da mais elementar ‘netiqueta’ acusar a recepção das mensagens — e que, caso alguma coisa não esteja bem, o remetente deverá ser informado disso.

*

NESTES, como em muitos outros casos semelhantes, houve sempre quem me aconselhasse a reclamar — sugestão muito louvável, mas vinda de quem nunca o fez contra serviços públicos pois, quanto a mim, conto pelos dedos de uma mão os casos em que as minhas reclamações foram atendidas. Aliás, e quando o que está em causa é a burocracia de um Estado arrogante, o melhor a fazer é recordar Jô Soares que, encolhendo os ombros, nos lembrava que «Burocrata tem de viver...».

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18.1.21

UMA REFLEXÃO EM TORNO DO AFECTO


Por A. M. Galopim de Carvalho

afectopalavra que fomos buscar ao latim “affectus”, afigura-se-me como um sentimento marcado por uma natural, espontânea e notada dose de ternura na relação com o outro, que tanto pode ser uma pessoa, um animal ou, mesmo, um objecto.

No seu último livro “Sentir & Saber”, editado em Novembro do passado ano, António Damásio, de que ainda só li algumas passagens, numa entrevista que deu a José Cabrita da Silva, do jornal I (mas que irei ler com toda a atenção, como fiz com alguns dos seus anteriores livros), veio reforçar uma convicção muito enraizada em mim, segundo a qual o afecto é fundamental em todos os domínios da nossa vida em sociedade.

Damásio diz que as “capacidades afectivas são fundamentais porque são as primeiras”. São, diz ele, “os alicerces da nossa mente, daquilo que é o nosso ser”. E acrescenta que “é sobre essas capacidades que se vão colocar as capacidades cognitivas”. 

“Esse “Penso, logo existo”, de Descartes, - continua o autor a dizer - é profundamente erróneo, porque vem de uma ideia de que aquilo que é o ser humano e aquilo que é mais valorizável no ser humano é o pensamento, mas um pensamento concebido no nível cognitivo puro”. Contrapõe a seguir, dizendo que “o fundamental, o alicerce de tudo isto, é aquilo que tem a ver com o nosso próprio corpo, com a vida que está a manifestar-se no nosso próprio corpo, e cujo estado (bom ou mau) é transmitido através do sentimento. Para Damásio, “as capacidades afetivas têm sido sistematicamente menosprezadas pela nossa cultura, pelo melhor da nossa cultura, não apenas hoje, mas na cultura filosófica tradicional”. Há 25 anos, em O Erro de Descartes, já o autor denunciava “a sobrevalorização das capacidades cognitivas puras, em detrimento das capacidades afectivas”.

Para o autor de “Sentir & Saber”, o fundamental é que se perceba que aquilo que é ser humano não é redutível aos aspetos cognitivos da mente. Pelo contrário. É preciso alicerçar essa mente no que é fisiológico, naquilo que é a vida, naquilo que é o corpo. Não é dizer que somos só corpo, isso seria um disparate. O que não se pode é tentar perceber o que é o ser humano sem perceber o corpo, a fisiologia, e a expressão dessa fisiologia nos sentimentos.

Para este neurocientista “aquilo que é a nossa vida, aquilo que é a nossa história e a nossa identidade, não é puramente cognitivo. É cognitivo misturado com o afecto. A vários níveis”. 

Estas sábias palavras de quem há, décadas, estuda a anatomia do cérebro e a sua relação com os fenómenos da consciência, vêm ao encontro de uma convicção muito enraizada em mim e que posso expressar, servindo-me, em parte, das suas palavras, dizendo que aquilo que foi e ainda é fundamental no meu trabalho e no meu pensamento tem a ver com a mistura do que é afectivo com o que é puramente racional. 

Tenho plena consciência de todos os êxitos no muito trabalho que desenvolvi, para além do empenho e da persistência que neles coloquei, foram ditados, sobretudo, pela afectividade que sempre caracterizaram o meu relacionamento com as pessoas, quaisquer que sejam as suas posições no tecido social, dos Presidentes da República ao mais humilde dos cidadãos, dos ministros aos contínuos dos ministérios, dos patrões aos assalariados, dos generais e almirantes aos soldados e marinheiros.

Na árdua e prolongada luta que travei pela salvaguarda da jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque), tive oportunidade de me relacionar intensamente com a comunicação social escrita, falada e televisionada. Nesse relacionamento fiz tantos apoiantes e amigos quantos os media com quem privei, em número de algumas dezenas, entre os seniores mais prestigiados e influentes e os mais simples e apagados estagiários que, com o passar dos anos, se fizeram respeitados profissionais. Percorri os corredores do Poder e, sem nunca me afastar das causas que abracei e pelas quais me bati e dei a cara, fiz amigos e estabeleci relações de muita simpatia com alguns ministros e, o que sempre foi muito importante, com os chefes de gabinete e com as respectivas senhoras secretárias. Outro tanto aconteceu no universo da Assembleia da República, independentemente das filiações partidárias, dos líderes das diferentes bancadas parlamentares aos deputados de todos os partidos. Tem sido assim nas muitas Câmaras Municipais, à margem das respectivas cores políticas, com as quais iniciei e tenho mantido estreita cooperação, sempre a título gracioso, nunca remunerado (pro bono), condição essencial que sempre garantiu e garante a minha não dependência desse outro poder e me não inibe de exercer livremente o meu juízo crítico e de procurar levar a bom termo os projectos em que me tenho envolvido. Criar pontes de afecto com presidentes ou directores e funcionários, dos mais categorizados aos mais humildes, nas mais variadas instituições públicas e privadas com as quais tive de me relacionar, profissionalmente ou apenas como cidadão, agilizou grandemente todo o trabalho que desenvolvi numa fase da minha vida em que estive ligado ao Museu Nacional de História Natural. Devo dizer, em abono da verdade, que sem o suporte institucional deste museu e sem o apoio de alguns dos seus funcionários eu não teria tido nem a voz nem a visibilidade que os “media” me deram. Nas duas décadas em que tive responsabilidades na Universidade de Lisboa e, em particular, no Museu Nacional de História Natural, de que fui director, beneficiei, da estima e do afecto dos quatro reitores que nos tutelaram nesses anos, nomeadamente os Profs. Rosado Fernandes, Meira Soares, Barata Moura e Sampaio da Nóvoa.

Na Faculdade de Ciências, onde exerci a docência entre 1961 e 2001, ano em que me jubilei, a vida correu-me bem. Pode dizer-se que tive uma carreira sem dificuldades de maior, que me permitiu viver em paz comigo, com os colegas e com a instituição, num ambiente de grande afectividade e simpatia. Foi prova deste viver a numerosa assistência, nunca vista (cerca de 800 pessoas, entre amigos, colegas, alunos e ex-alunos), à minha última lição, “Geologia e Cidadania”, em 30 de Maio de 2001, no grande auditório da Faculdade. Afectividade influenciou, certamente, as muitas distinções e honrarias de que fui e ainda sou alvo.

É verdade que, praticamente, tudo o que experimentei a fazer ou fiz, foi feito com amor, algumas vezes com paixão. Foi assim em criança, em que, brincando, fui aprendiz atento de muitas artes. Como estudante, só fui bom aluno com os professores com quem estabeleci relações de afecto. Com os outros fui sofrível ou, mesmo, mau.

Como professor que fui durante quatro décadas pude confirmar que a relação de afecto entre o aluno e o professor constitui uma componente fundamental para o sucesso escolar. Como divulgador de conhecimento que também fui durante esse mesmo período, mais os vinte anos que se seguiram à jubilação, diz quem me ouve ou lê, que as minhas palavras tocam a afectividade e que, muitas vezes, têm sabor de poemas. E eu sei que é verdade, posto que, ainda hoje, as minhas madrugadas são trocas de afectos com os meus quase 19 000 leitores, aqui no Facebook, nos bloques em que participo e nos livros que, entretanto, escrevi.

 

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17.1.21

“Nova Costa d’ Oiro” de Dezembro 2020




O ARANHIÇO CHINÊS
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HÁ UNS anos, depois de ter comprado, numa “loja de chineses”, um “aranhiço” para fixar um prato na parede, entrei numa outra — de ferragens —, onde o patrão, com a confiança que lhe davam os muitos anos de convivência comigo, olhou para o que eu levava na mão e quis saber onde é que o tinha adquirido. Depois, no seguimento da minha resposta, subiu a um pequeno escadote, puxou para si uma velha caixa de cartão, e, dando-se ares de prestidigitador, tirou de dentro dela um outro “aranhiço”, que em seguida colocou sobre o balcão, a par do meu, mostrando como eram quase irmãos gémeos, sendo o meu feito na China, e o dele em Portugal.

E estava a sair-se muito bem desse pequeno espectáculo até que eu coloquei a factura da compra do meu “aranhiço” ao lado da etiqueta com o preço (bem superior...) do seu. Portanto, se a ideia dele era condenar “quem dá dinheiro àqueles gajos”, o exemplo foi infeliz, pois não se pode exigir que os consumidores (de uma forma geral, entenda-se) comprem produtos mais caros sem nada que o justifique, nomeadamente em termos de qualidade.

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CLARO que o problema era — e é... — sério, pois está relacionado com a sobrevivência, e o que esse amigo simbolizava era a luta desigual do pequeno comércio e da indústria nacionais ameaçados pelas grandes empresas. Mas a sua limitada visão do mundo nunca lhe permitiria perceber que não é vendendo as mesmas coisas que os outros vendem (e ainda por cima mais caro) que o problema se resolve, por muita “proximidade & simpatia” que se ofereça aos clientes. 

E fica aqui bem um parêntesis, para lembrar aos mais distraídos que o problema das compras ao estrangeiro vai muito para além dos chineses, pois todos conhecemos casos de organismos do Estado que importam produtos e equipamentos que bem podiam ser comprados em Portugal, dado que também por cá se fabricam — até de melhor qualidade, e por preços mais baixos —, procedimento lamentável, mas de que me dispenso de dar exemplos, não só porque só não os vê quem não quer, como também porque o espaço de que disponho é limitado.

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A UMA escala maior, o que países como o nosso têm de fazer é produzir DIFERENTE e com QUALIDADE internacional, criando postos de trabalho e valor-acrescentado em níveis significativos — e, nos últimos anos, é o Turismo que aparece com destaque nessa frente de luta, valendo, num ano normal, 14% do nosso PIB, um valor que é bem superior, se apenas considerarmos o Algarve. 

Mas o pior é quando não se vislumbra, nos responsáveis políticos, um visão de longo-prazo, como sucede (e dificilmente se arranjaria hoje melhor  exemplo!) com o problema da ESCASSEZ DE ÁGUA no Algarve: no ano passado, não se falava de outra coisa, e muito bem; mas este ano, pelo menos até à data em que escrevo, tudo se passa como se o problema já estivesse resolvido ou em vias disso!

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ORA, e como, hoje em dia, a PANDEMIA é assunto incontornável, não resisto a associar esse tema ao da INCAPACIDADE DE PREVISÃO dos governos, tendo escolhido, para documentar — por contraste — uma imagem que mostra um gigantesco armazém secreto (de entre os muitos que os “frugais” finlandeses mantém desde os tempos da Guerra-Fria), com tudo o que é básico para enfrentar uma emergência. 

Sim, àqueles “forretas” não falta nada, talvez porque, em vez de atirarem milhares de milhões para cima de empresas e bancos duvidosos, os gastam em máscaras, luvas, batas, material médico, medicamentos, geradores eléctricos, combustível, alimentos, etc. — uma atitude bem simétrica dos que apenas alternam lamentos de Calimero com palavreado ao nível da chinela — como “sovina” e “repugnante” —, protagonizando uma bizarra variante da fábula da cigarra e da formiga, pois tem a originalidade de pôr esta a invectivar aquela.

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Carlos Medina Ribeiro

Revista “Nova Costa d’ Oiro” de Dezembro 2020

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16.1.21

Grande Angular - Cidadão do mundo não é cidadão

Por António Barreto

São múltiplos os elogios feitos à excelência da cidadania global. A luta contra a pandemia reforça as exigências de colaboração internacional. As alterações climáticas constituem uma ameaça global que obriga, sem dúvida, a uma resposta global. Parece que as migrações de multidões de trabalhadores, de fugidos e de perseguidos, também necessitam de respostas coordenadas entre governos. Novos surtos de miséria e fome, sobretudo em África, pedem por acção global. A crise económica mundial, em resultado da pandemia, impõe planos conjuntos, como é o caso da Europa, sem o que tão cedo não se encontrarão soluções pacíficas. O desmesurado império das empresas de redes sociais, de petróleos, de serviços e de comunicação força a uma cooperação entre povos, de modo a definir respostas globais a ameaças globais. O colossal poderio das grandes fortunas e das instituições que condicionam as finanças do mundo não pode ser regulado a não ser com sistemas internacionais, talvez globais. Como global deve ser o esforço de combate às cada vez maiores empresas e rackets dos armamentos, da droga e outras actividades ilegais. Finalmente, para travar e derrotar as mais terríveis formas de terrorismo contemporâneo, parece ser necessário recorrer à cooperação internacional.

Novas liberdades e novos direitos fazem luz sobre novos problemas para os quais parece não haver resposta cabal nos planos tradicionais das regiões, das autarquias e dos Estados. A livre escolha de género coloca em crise as ideias estabelecidas nos Estados. A total liberdade de deslocação contraria frontalmente as determinações soberanas dos Estados. A ideia de que existe uma cidadania supra-nacional, a começar por uma cidadania europeia, tem feito caminho e já revelou as insuficiências das eleições nacionais, da responsabilidade política e da prestação de contas aos parlamentos.

A globalização pode oferecer numerosas vantagens. A acção concertada dos Estados e dos povos pode fornecer meios de combate às mais temíveis ameaças globais. Mas a verdade é que os direitos fundamentais dos cidadãos, as liberdades, a segurança pessoal, a justiça e a solidariedade na doença e na velhice pertencem ao quadro local, regional e nacional. A autonomia pessoal, a independência e os direitos de escolha política dependem dos quadros autárquicos e nacionais, conforme os conhecemos.

Os homens e as mulheres procuram bem-estar, segurança e liberdade nos seus grupos de referência, de pertença e de identidade. Há dois mil anos que se conhece a reflexão dos filósofos sobre a tendência gregária das pessoas. Família, grupo, associação, comunidade, tribo, culto, país, Estado e nação… A história da humanidade é, em parte, a história destes agrupamentos e das suas glórias. Como também, claro, das suas derrotas e dos seus desastres. Guerras e ditaduras, conquista e exploração, fomes e perseguições estão no rol da história dos grupos e das identidades. Mas a actual corrente contra o tribalismo e o nacionalismo é a mais ilusória das modas de pensamento. Nunca as liberdades e os direitos dos cidadãos foram defendidos por entidades globais ou abstractas instituições supranacionais. Sempre na história a justiça foi feita e defendida por instituições com identidade autárquica ou nacional.

O essencial da cidadania reside no vínculo de direitos e deveres que ligam cada pessoa à sociedade e à cidade, à região e ao Estado. Não há direitos de cidadania com a globalização. Se quero defender a minha vida, a minha segurança, a minha liberdade e os meus direitos, é à justiça do meu país que me dirijo. É aos meus representantes na autarquia ou no Estado que vou pedir ajuda. São eles que me defendem em caso de necessidade e doença, de agressão ou opressão.

É verdade que o pior do nacionalismo, da exploração social ou racial e da guerra ou da perseguição tem muitas vezes como quadro os Estados e as tribos. Foi sempre assim, na história. Nada é perfeito ou virtuoso. Mas uma coisa é certa: nunca uma entidade global defendeu a justiça e as liberdades dos cidadãos. As Nações Unidas dão muitas vezes ajuda, contribuem para a colecção de recursos. Sim. Com certeza. Mas, em última análise, junto dos cidadãos, nas aldeias e nas cidades, nas empresas e nas instituições, são os Estados nacionais que assumem o papel decisivo.

Além das convenções políticas, são os Estados nacionais, as autarquias, as formas de agrupamento humano e as famílias que representam a herança cultural e enriquecem as formas de solidariedade. Eu recorro a quem conheço e quem partilha a minha história: em poucas palavras, a quem reconheço e me reconhece.

É perigosa a ideia de que se pode ser cidadão do mundo, moda recente que serve para as servidões e a uniformidade. Aí começa o totalitarismo. É ameaçadora a ideia de que as fronteiras, os Estados, as nações, as línguas e as identidades são quinquilharias ou trapos. Essas ideias fazem parte do arsenal do despotismo. São instrumentos de opressão dos chefes sobre os cidadãos. Dos patrões sobre os trabalhadores. Dos sacerdotes sobre os crentes. De uma etnia sobre outra.

Quem se quer defender e proteger da injustiça e da violência recorre às instituições democráticas, representativas e reconhecidas. Os homens e as mulheres do nosso tempo e de sempre procuram segurança, solidariedade e identidade junto de quem reconhecem ou junto de aqueles a quem conferiram direitos e representação.

Uma das mais sérias causas da crise da Europa (e do renascer dos reflexos do nacionalismo) reside justamente na ideia, muito em voga, de que a virtude está na cidadania global, naqueles que se consideram cidadãos do mundo. Não há pior engano. A liberdade e a democracia têm geografia. E alimentam as diferenças e as livres escolhas. Quem garante melhor a minha liberdade? A União ou o Estado português? Quem protege a minha liberdade? A União ou as polícias, os magistrados e os tribunais portugueses? Por piores que sejam as minhas opiniões sobre as instituições nacionais, estas são sempre, para defender os meus direitos, melhores do que as instâncias tecnocráticas, apátridas e virtuosas. Com certeza que as Nações Unidas, a União Europeia, a NATO e outras instâncias internacionais servem os propósitos comuns de grande parte da humanidade. São muitas vezes indispensáveis. Mas são os Estados, os povos e as nações que as utilizam e lhes dão vida. 

            Cidadão do mundo não é cidadão de parte alguma.

Público, 16.1.2021

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15.1.21

SENHORAS E SENHORES: NEM PÃO NEM CIRCO

Por Joaquim Letria

Quando eu era criança, o meu avô Joaquim levava-me sempre ao circo. Não só me levava às estreias dos grandes circos internacionais que actuavam no Coliseu dos Recreios, do Sr. Covões, como voltava a levar-me sempre que o repertório ou elencos dos circos mudavam.

Eu adorava o Coliseu, com arena circular para os circos ou em formato de espectáculo com palco a dominar a sala, face ao camarote presidencial, onde assisti a récitas populares das óperas que na mesma semana o São Carlos apresentava com grandes figuras do bel canto.

Havia milhares de crianças a assistir ao circo e nas férias grandes, nas praias onde se passavam as férias, também aí sempre apareciam versões menores dessas companhias ou elencos de circos muito modestos que animavam as nossas noites.

Hoje, as crianças não têm circo, nem nesta quadra de ano novo que engloba o Natal, período vital para a sobrevivência das companhias de circo. Nas TVS também desapareceram os circos do Soleil (falido) e o de Monte Carlo (incapacitado de se reunir e viajar) por causa da pandemia, e sem público não há artistas que sobrevivam do seu trabalho profissional, muitos deles deitando mão a trabalhos e biscates que lhes permitam não deixarem os filhos passarem fome.

A Associação Portuguesa de Empresários e Artistas de Circo ( APEAC) procura defender os profissionais e os espectáculos de qualquer modo. Mas nunca houve uma ajuda do Estado para esta gente. Em 2017 foi  aprovada uma lei que só apoia os artistas de rua e o “circo contemporâneo”, e nunca esta ministra da Cultura recebeu alguém que representasse os profissionais do circo tradicional.

Victor Hugo Cardinali criou o maior circo de Portugal, reconhecido no País e no estrangeiro. Para ficarmos com uma ideia das dificuldades, ele mantém num terreno em Pegões a numerosa família, 25 camiões que transportam o feno, o estrume, a serradura, o único leão que lhe resta, dois elefantes que fazem parte da família há 30 anos, os cãezinhos, cavalos, camelos, bancadas e até casas de banho. Todos os dias esta gente treina, os trapezistas, os  malabaristas, os acrobatas, os palhaços, os artistas que ensinam os animais. Muita desta gente sobrevive hoje agarrada a outras coisas: ajudantes de cozinha, choferes, mulheres de limpeza, caixas de supermercados, etc.. Mas ninguém converte a sua tristeza em queixumes.  Simplesmente fazem-se à vida.

90 por cento dos 30 circos existentes em Portugal não abriram sequer as bilheteiras este ano. Sem uma única ajuda do governo nem das autarquias, eles pagam Segurança Social, IVA, IUC para coisa nenhuma. Só a circulação de cada camião custa 700 Euros.

Tenho a impressão que aqueles a quem andamos a pagar os ordenados para o governo os pôr no ministério da Cultura não sabem nada do que isto é, e são uns tristes que nunca foram ao circo. Neste momento, em Portugal, há um único circo a trabalhar em Braga e outro na Madeira, que regressará ao continente agora, neste princípio de ano.

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14.1.21

USA – O assalto ao Capitólio

 Por C. B. Esperança

Após a Revolução de Abril, Francisco Pereira de Moura teve dificuldade a explicar o que era o fascismo, numa sessão de esclarecimento, em Trás-os-Montes. Faltou-lhe o eloquente exemplo do assalto ao Capitólio, em que bastava socorrer-se do filme dos acontecimentos e dizer, «é aquilo».

Quem viu a horda dos neonazis, admiravelmente caracterizada no aspeto e na condução dos atores do filme, com guião escrito por um desvairado, na Casa Branca, não precisa de palavras. Bastam as imagens.

Um louco não é inevitavelmente burro e o agitador que envenenou os selvagens durante quatro anos, que os acirrou então e teleconduziu, procurava, como aconteceu, no assalto ao santuário da democracia, a ridicularização das instituições e a manutenção do poder.

Hoje, apesar de sobressaltos que podem ainda acontecer, com os ratos a abandonarem o barco da sedição, o neonazi ainda presidente dos EUA, já não é o chefe, é o coveiro de um império que prenuncia o advento de outro, assustador, que nasceu numa ditadura.

A fragilidade das democracias liberais, cuja supremacia moral e civilizacional é clara, torna-se mais débil com os êxitos na economia e no combate à pandemia por regimes autocráticos onde não há direitos individuais e é temerária a aspiração à liberdade.

Os EUA devem aos países democráticos a reparação dos danos causados, a reposição da esperança e a restituição da confiança nos tratados assinados.

A liberdade e a confiança perdem-se num só dia, e levam anos, muitos anos, a restaurar. A imagem violenta da horda racista, acéfala e telecomandada pelo ódio, há de perdurar como metáfora do ataque aos valores democráticos.

Ver a casa da democracia, onde estavam os 100 senadores e os 435 membros da Câmara dos Representantes, incluindo a líder, n.º 2 na linha de sucessão, invadida por vândalos, alguns armados, foi um crime tão grave que a complacência com o mandante seria mais um golpe contra a democracia.

Os próprios juízes do Supremo, os nomeados por Trump, perderam legitimidade moral para defenderem os direitos, liberdades e garantias que só a limpidez de eleições livres confere.

O assalto ao Capitólio foi o pior filme que vi e o mais assustador a que assisti em direto.

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10.1.21

DESTRUA-SE !


VENDO o mapa do Mediterrâneo, percebe-se claramente que era inevitável que Cartago e Roma se envolvessem, mais cedo ou mais tarde, numa guerra de morte pelo domínio do “Mare Nostrum” — o que veio a suceder nas três Guerras Púnicas, que terminaram com a aniquilação da cidade africana por Cipião Emiliano em 146 a.C., tal como exigia Catão, o Velho, que terminava sempre os seus discursos apelando à destruição da cidade rival com o seu famoso «Delenda est Carthago». 

Ora, e apesar de já terem passado umas boas seis décadas, lembro-me, como se fosse hoje, do filme “Aníbal e os Elefantes” (cuja acção decorria durante a segunda das referidas guerras), que muito incentivou o meu estudo desses acontecimentos quando chegou a sua altura na cadeira de História, e que, mais tarde, me fez ler e reler “Salambô” (de Flaubert), e tudo o mais que encontrei acerca da civilização púnica. 

 

IMAGINE-SE, pois, o meu entusiasmo, quando, muitos anos mais tarde, fui mandado a Tunis, a capital da Tunísia, a dois passos da cidade de Aníbal, e vendo passar à porta do hotel autocarros com destino “Cartago”! Eu bem sabia que a cidade havia sido arrasada, mas não ao ponto de — como muitos me diziam — não haver lá nada para ver. Até porque, nessas coisas, sinto sempre a magia de “estar no local onde sucedeu isto e aquilo”, não me importando, portanto, que não houvesse muralhas nem palácios em pé. 

E estaria tudo muito bem, se o trabalho não se interpusesse entre o desejo e a realidade, pelo que acabei por apenas saltar do aeroporto para o hotel, deste para o escritório, do escritório para a obra... e fazer o caminho inverso até Carnaxide.

Ora, e tendo em conta que cartagineses e romanos também andaram muito tempo por aqui, pela nossa terra, compreende-se que eu tenha sido vítima de várias associações de ideias, desta feita provocadas pelo derrube da chaminé lacobrigense de que tanto se tem falado.

 

Reconheço que pode parecer confuso, mas eu explico:

 

QUANDO, pela primeira vez, entrei na sala de reuniões da delegação tunisina da empresa em que eu trabalhava, reparei que os presentes, ao sentarem-se, deixavam vaga a cadeira mais confortável — uma magnífica poltrona rotativa, reclinável e com rodinhas — e concluí, sem perguntar, que devia ser para mim pois, além de eu ser o mais velho dos presentes, estava ali como representante da casa-mãe.
Mas, afinal, não era por isso que o cadeirão estava vago, como vim a perceber quando nele me sentei: é que o chão era ligeiramente inclinado e, se não me agarrasse à mesa, acabava a deslizar pela sala fora, fazendo uma figura muito pouco consentânea com as minhas funções! 

No entanto, fosse por boa educação, por ausência de senso-de-humor, ou porque já estivessem habituados a esses “deslizes”, ninguém se riu, e limitaram-se a explicar-me o que se passava: a casa fazia parte de uma urbanização construída em solo pantanoso, que fora abatendo ao longo dos anos, e já se tinham habituado a viver com isso. Sim, devia ser um terreno semelhante àquele onde, até há pouco, existia a chaminé que, no seguimento de uma acção devidamente autorizada, foi aumentar a entropia do Universo.

 

E AQUI, também por associação de ideias, entram os paquidermes de Aníbal, devido à metáfora do “elefante em loja de porcelanas” e ao facto de o filme ter passado no Cinema Monumental — essa joia de Lisboa que também sumiu, da noite para o dia, às mãos do camartelo do presidente da CML, o Eng.º Abecassis que, ao menos nesse aspecto, não enganara ninguém pois, oportunamente já prometera “deixar a cidade irreconhecível”!

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9.1.21

Grande Angular - Perceber

Por António Barreto

Foi uma semana inesperada e de consequências desconhecidas. Foi um dia intenso de emoções. Ainda não se sabe muito bem como reagirão, no futuro, a opinião e os cidadãos. Aos acontecimentos inéditos correspondem sempre sentimentos singulares. O Capitólio tomado de assalto, mal protegido e defendido com balas reais, é imagem inesquecível. Avistar uns labregos desalinhados nos gabinetes dos mais altos responsáveis políticos parlamentares, assim como hordas de selvagens a tomar conta das salas de sessões, deixa recordações para o resto da vida. Ver a polícia incapaz de defender a instituição, sem saber como reagir, recorrer a armas verdadeiras com balas a sério, cria uma sensação de vulnerabilidade insólita. Se a mais pujante democracia do mundo revela esta fragilidade, que pensar de todos os outros parlamentos e de todas as outras instituições que asseguram a democracia por esse mundo fora? Como sentir força e segurança, num tempo em que a democracia perde espaço ou recua na maior parte dos continentes, se soubermos que os outros são ainda mais frágeis e inseguros?

Como perceber o que se passou? Como compreender as circunstâncias e os factos ocorridos esta semana na capital do país mais rico e poderoso do mundo? O mais fácil é concluir que a tentativa de “golpe” falhou. E afirmar, com vaidade e sentimento de superioridade, que o presidente Trump é um fascista, autoritário e narcisista como raramente se vê na história política, eventualmente comparável a Nero, Calígula, Hitler ou Gaddafi. Que é um manipulador demagogo, grosseiro e exibicionista de raro calibre. Que a personagem literária mais parecida com ele será talvez o Rei Ubu. Que se trata do mais evidente exemplo de capitalista, especulador, adepto da supremacia branca, racista, xenófobo e machista. Que agiu sempre na defesa dos seus interesses e da sua fortuna, da sua estranha família, dos seus obedientes amigos e de todos quantos se dispusessem a festejá-lo. Que tocou a corda sensível de tantos americanos com saudades da sua hegemonia, de tantos machistas, racistas e xenófobos, de tantos capitalistas que detestam os impostos e de tantos americanos cansados de perder ou não ganhar no Vietname, no Líbano, no Irão, no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria ou na Venezuela. Tudo isto poder ser verdade, mas não chega para compreender.

Não impressiona o facto de ver que muitos ricos desejem ficar mais ricos, que muitos brancos queiram ser mais brancos, que muitos machistas não desistam de o ser, que os autoritários tudo façam para continuar a sê-lo e que muitos fanáticos das armas ambicionem ter ainda mais armas. Também não é novidade ver que há gente que despreza os pobres, esquece os velhos, detesta os doentes, é indiferente aos desempregados, repele os deficientes, condena os sem-abrigo, odeia as mulheres e abomina as minorias. Nada disso basta para perceber Trump. Nada disso responde às verdadeiras e incómodas perguntas. Como foi possível que um personagem como este tivesse sido eleito presidente dos Estados Unidos? Como se compreende que uma das diplomacias mais competentes, a defesa mais eficiente, um dos serviços de informação mais capazes, a administração fiscal mais poderosa e o sistema universitário mais avançado do mundo tenham permitido, suportado, apoiado, obedecido e convivido com esta figura extravagante?

Como foi possível? Como compreender que dezenas e dezenas de milhões de pessoas tenham eleito este senhor, tenham votado neste homem e na sua política, apoiem a sua acção, considerem (como ele próprio diz) que foi o melhor presidente da América, aceitem que foi a mais gloriosa presidência da história e estivessem dispostos a renovar o mandato, o que quase conseguiram? São todos estúpidos? São todos capitalistas paranóicos e narcisistas? São todos racistas, machistas e xenófobos? Se a resposta for afirmativa, temos um problema muito sério: são perto de cem milhões, foram maioria, são quase maioria, podem voltar a ser, fazem parte da democracia americana e mundial. Se a resposta for negativa, o que é mais provável, então temos piores problemas. Como foi possível? E como se pode evitar que seja novamente possível?

Esse é o verdadeiro problema. Gente como esta, programas como este e políticas como esta só são possíveis, em democracia, porque os democratas deixam, porque a democracia tem tantos ou mais defeitos, porque os democratas e as esquerdas se transformam em figuras detestáveis de arrogância e suficiência. Porque os democratas decretam e protegem os seus privilégios e nunca se esquecem de defender os seus.

Trump e outros como ele são possíveis porque os democratas-cristãos, os socialistas e os sociais-democratas estão disponíveis para fechar o regime político, diminuir as liberdades públicas, defender os funcionários de Estado, proteger as minorias amigas, aumentar infinitamente os impostos, coarctar a iniciativa privada, oprimir a liberdade económica e empresarial e desprezar os reflexos de grande parte da população relativamente a problemas de cultura, religião e comportamento. Não! Não são as virtudes da democracia e das esquerdas e dos social-democratas e dos democratas-cristãos que fazem os Trump e os seus piores regimes. São os seus defeitos, os seus erros e a sua crescente miopia.

As esquerdas democráticas que não se libertam das amarras estalinistas. Os democratas que permitem a corrupção. Os políticos que protegem os políticos e seus funcionários. A democracia que defende os privilegiados e permite a desigualdade. É incapaz de realizar a justiça e deixa correr a corrupção. Protege os amigos e persegue os adversários. Ataca a educação privada, a fim de evitar a comparação. Cerca a saúde privada, por que receia o paralelismo. Aumenta sistematicamente os impostos. Acarinha a função pública, em detrimento dos trabalhadores das empresas privadas. Deixa correr os off shores na convicção de que os seus beneficiários apoiarão um dia a democracia. Privilegia sempre os negócios escuros, os capitalistas instantâneos, os especuladores, os vendedores de empresas e os compradores de favores. Recusa e combate a igualdade de direitos e deveres entre público e privado, nas leis laborais, na educação e na saúde.

Não são os democratas que fazem os fascistas, os comunistas, os terroristas, os arrogantes, os populistas… Mas são os seus erros, os seus defeitos e os seus vícios que inevitavelmente conduzem à destruição da democracia. Como se sabe há muito, esta cai por dentro, não por via de assalto exterior.

Trump faz parte do mundo que nós criámos. Fomos nós que o fizemos.

Público, 9.1.2021

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8.1.21

O GANHO DAS VACINAS CONTRA O COVID

Por Joaquim Letria

As empresas biotecnológicas deverão sair com lucros no final da vacinação global contra o COVID 19, abandonando os prejuízos que os seus enormes investimentos na investigação provocaram. Já as grandes farmacêuticas e as gigantes da indústria verão os seus lucros diluírem-se nas suas dimensões e na extensão do negócio.

O comportamento nas bolsas dos pequenos e grandes laboratórios mostra que a Moderna valorizou acima dos 400 por cento desde Março, mas a Johnson & Johnson, que em 2020 deverá apresentar o maior lucro do sector a nível global, não foi além dos 9,1%.

O futuro mercado de vacinas contra a pandemia do COVID 19 deverá valer mais de  10 mil milhões de  dólares por ano nos países desenvolvidos( cerca de 8,3 mil milhões de Euros). Por outro lado, ignora-se ainda a duração da imunidade ao novo coronavírus e acresce que no caso da Pfizer são necessárias duas tomas de vacinas com intervalo de três semanas.   

Um facto é indesmentível: todo este sector deu tudo por tudo a ponto de conseguir  que em menos dum ano se iniciasse a vacinação no Reino Unido numa parceria entre a Pfizer e a BioNtech, poucos dias depois de Russos e Chineses terem começado a vacinar as suas populações e enviado as suas vacinas para muitos países do Terceiro Mundo.

Recorde-se que no Ocidente a investigação, descoberta e desenvolvimento das vacinas tiveram um investimento público e de iniciativas filantrópicas num total de 4512 milhões de Euros.

Todavia,  os lucros poderão não ser tão espectaculares como muita gente especula, uma vez que as margens poderão ser limitadas devido aos apoios de Estados e de instituições internacionais.

Conforme os especialistas admitem, a investigação das farmacêuticas e o desenvolvimento de novos cuidados médicos com menor custo, com a participação da tecnologia, será um importante aspecto que não deixará de atrair mais investimentos para este sector vital para a saúde pública mundial.

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No "Correio de Lagos" de Dez 20



 

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7.1.21

O CDS de Francisco Rodrigues dos Santos

 Por C. B. Esperança

O CDS, partido criado por Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa, fará falta no espetro político nacional. A sucessiva viragem à direita atingiu o auge no consulado de Manuel Monteiro, que delapidou o património dos fundadores e acabou por sair para o sonho de um partido extremista quando ainda estavam vivas as memórias da ditadura, indiferente à integração democrática dos salazaristas feita pelo CDS.

Foi a vertigem reacionária que levou o Partido Popular Europeu (PPE) a expulsá-lo do seu seio onde regressaria, a pedido de Durão Barroso, para lhe devolver idoneidade para a coligação indispensável para ser primeiro-ministro.

Depois foi a criatividade de Paulo Portas a manter artificialmente um partido exonerado de valores, através da participação no poder. Tornou-se um partido vazio de ideias, sem rumo e sem tino, a viver de ruído e de figuras conhecidas. 

Provavelmente nada resta da matriz conservadora e democrata-cristã, dos estatutos e do programa da sua fundação. É num deserto de propostas e de ideologia que o eleitorado que via no CDS o partido mais próximo do salazarismo o abandona por ver num partido marginal, de extrema-direita, sem complexos, o regresso nostálgico da ditadura que traz de brinde o racismo e um bando de marginais que contestam os alicerces da democracia liberal e da civilização europeia.

Ao simulacro da direita civilizada, o seu eleitorado prefere a trauliteira, a que defende a pena de morte, a castração de violadores e de mulheres que interrompam a gravidez, a que nega o humanismo cristão de que o CDS empunhava a bandeira.

Francisco Rodrigues dos Santos não tem um partido, recebeu a presidência da comissão liquidatária de uma agremiação de porte duvidoso, com o eleitorado a preferir um antro de ódio e preconceitos, na fúria da vingança antidemocrática, ruminada durante 46 anos.

Na desolação de um desastre anunciado, o líder do CDS acusa a sondagem da Aximage, que dá ao CDS 0,3% das intenções de voto, de ser “de alfaiate, feita à medida de quem manda”, e que a empresa de sondagens “devia corar de vergonha”.

Os desempregados do CDS, a viverem a última e pungente legislatura, já sem espaço e sem ilusões, irão oferecer-se ao PSD, os que recusam a violência racista e xenófoba, ou a engrossar as hostes de um partido fascista dos anos Trinta do século passado, e de que a Europa se esqueceu.

O CDS, conservador e democrata-cristão, tinha o espaço próprio que extremistas como Manuel Monteiro e Nuno Melo se encarregaram de estreitar.

E vai fazer falta.

Ponte Europa / Sorumbático   

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6.1.21

No "Correio de Lagos" de Dez 20

 

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5.1.21

16.º ANIVERSÁRIO DO "SORUMBÁTICO"

Completam-se hoje 16 anos desde que este blogue começou a ser publicado. 
Até hoje foram afixados 16103 'posts', sendo o número de vistas dos últimos dias o indicado no gráfico seguinte:
A pouco e pouco, devido ao falecimento de vários dos seus contribuidores (Carlos Pinto Coelho, Nuno Brederode dos Santos, J.L. Saldanha Sanches, Pedro Barroso e Baptista Bastos), e ao afastamento de outros, só aqui publicam Galopim de Carvalho, Joaquim Letria, C. Barroco Esperança e António Barreto — a quem agradeço e felicito pela sua teimosia em manter vivo este espaço, que já viu melhores dias...

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4.1.21

No "Correio de Lagos" de Dez 20

 

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3.1.21

No "Correio de Lagos" de Dez 20

 

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2.1.21

Grande Angular - Metamorfoses

 Por António Barreto

Adormecer português e acordar europeu! Apagar a luz como cidadão e abrir as janelas como presidente! Acabar o ano com uma grande Europa e começar o novo com uma mais pequena! Parecem pequenas mudanças, de forma ou de símbolo. Mas são sinais de profundas transformações em curso.

A pandemia ocupa o mundo, é natural. O novo presidente americano prepara-se para chamar as atenções, é normal. O presidente Trump arranja-se cuidadosamente para sair com inesperado ruído, já sabemos. Sem sucessor, a principal líder europeia, Ângela Merkel, faz as suas malas e deixa uma União sem centro de gravidade ou sem cabeça, como é conhecido. Os países mais pobres do mundo vivem aflitos sem serviços de saúde, com poucos médicos e sem dinheiro para comprar e distribuir vacinas, não é novidade. A democracia a recuar em quase todos os continentes, é sabido. A China a crescer, é notório. Tão importantes, mas menos visíveis, são os movimentos tectónicos que se pressentem na Europa. Assim como as transformações na sociedade portuguesa, quase imperceptíveis, que exigem atenção.

No meio disto, a nova presidência europeia, a assumir por Portugal desde hoje, mais parece fait divers. Em certo sentido, é. As presidências da União são uma rotina. Boas, por serem rotina. Todos os países, quando chega a sua vez, querem ter agendas, elaborar dossiers, deixar a sua marca, criar plataformas, abrir debates, fazer reformas, projectar a Europa no mundo… É natural. É bom que assim seja. Mesmo quando é inútil. O que interessa a Portugal é que o país está lá, que se cumprem regras e que se tenta consolidar um passado recente. Ainda por cima, numa altura em que se descobriu que a Europa, depois de crescer, também podia diminuir. E que os europeus podiam levianamente despedir os ingleses, tal como estes eram capazes do enorme disparate de dispensar os europeus.

Três semanas antes de eleger o presidente português, os portugueses e os europeus receberam um novo presidente europeu. O sistema rotativo é muito interessante, pouco democrático e totalmente ineficaz. É de certa maneira um sinal de fraqueza da Europa. Esta nunca soube fazer da diversidade a sua força e o seu carácter. Em vez disso, procura instrumentos supletivos de unidade e liderança que não são mais do que remendos. O que não impede que, por vezes, atrás desta cenografia, se levem a cabo feitos maiores. A vacinação coincidente de todos os países europeus, após planeamento colectivo, fez mais pela União Europeia do que uma “presidência activa” ou uma dúzia de grandes reformas e debates.

A presidência portuguesa nada nos vai trazer de novo ou importante, a não ser isso mesmo, acontecer. A rotina é um dos grandes méritos da democracia. Das três presidências portuguesas que antecederam a actual sobraram uma “Estratégia de Lisboa”, um “Tratado de Lisboa”, duas cimeiras Europa África, uma reforma da PAC… Mas a verdade é que, com a excepção de alguns episódios desvairados com países menos rigorosos, de todas as presidências sobram sempre feitos, reformas e avanços. A “maquinaria europeia” está muito bem preparada para tratar das rotinas, o que inclui os dramas das lendárias negociações nocturnas e as conciliações de madrugada.

Os quatro presidentes portugueses da Europa foram, por esta ordem, Cavaco Silva, António Guterres, José Sócrates e agora António Costa. Os presidentes da República eram Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa. Cavaco Silva esqueceu-se de Mário Soares durante a primeira presidência. António Guterres marginalizou Jorge Sampaio na segunda. José Sócrates ignorou Cavaco Silva na terceira. Ainda não se sabe o que fará António Costa com Marcelo Rebelo de Sousa. São os mistérios do semipresidencialismo.

Muito mais importante do que estes episódios, cujo carácter imprescindível reside na sua rotina, é a mudança em curso na sociedade. Os países estão a ficar menos nacionais, mais cosmopolitas, menos europeus e mais mestiços. Toda a gente pensa isso, mas é difícil preparar instituições e regras. Há muitas décadas, quando o Governador do Congo se queixava da falta de franceses para desenvolver a colónia, o General De Gaulle retorquiu: “Meu Caro Governador, você é um Burguês! O futuro é mestiço!”. No caso europeu actual, a mestiçagem começa pelas nacionalidades europeias e espalha-se depois pelas africanas, mediterrânicas, árabes, turcas, indianas e outras. Estas misturas são explosivas, como já se percebeu. Tanto por causa das reacções dos brancos europeus e cristão, como devido aos comportamentos dos imigrantes e refugiados. Há xenofobia e racismo dos dois lados.

Mas essas não são as únicas ameaças. Outra tão importante como essas é a da geografia da liberdade. Até nova ordem, o regime democrático tem uma natureza territorial indelével. Não há soberania popular nem representantes, sem comunidades ou distritos eleitorais com base regional. Não há democracia nem parlamento sem eleitorados e sem limites geográficos. A ideia de que pode haver uma “democracia universal”, “mundial”, “global” ou “planetária” é infantil. Aliás, curiosamente, os grandes poderes globais e “galácticos” da ficção científica são sempre impérios e equiparados, ditaduras e regimes totalitários. A União Europeia, que já foi longe de mais, tem de rever as suas estruturas democráticas, os seus processos eleitorais, as suas comunidades locais e nacionais. Sem o que nunca conseguirá definir os contornos da sua democracia, nem estancar os impulsos nacionalistas.

Outra ameaça é a da destruição das bases culturais da democracia. Tanto a tradição como a mestiçagem exigem comunidades de cultura. Olhe-se bem para o mapa da democracia no mundo. É difícil encontrar exemplos de democracias sem uma qualquer tradição cultural, sem comunidade de herança e sem identidade histórica. O falhanço, talvez sem excepção, das tentativas de exportação da democracia deveria dar-nos ensinamentos para ajudar a tratar da Europa. Actualmente, o recuo da democracia no mundo deve-se muito à ausência de comunidade e de tradição, ao cosmopolitismo sem fronteiras nem identidade. Assim como à criação de poderes políticos desligados das instituições e das comunidades ou bases eleitorais. Os Estados da Oceânia e da Eurásia (G. Orwell), tal como os reinos dos Elóis e dos Morlocks (H. G. Wells), não têm bases eleitorais nem geografia. Os países europeus, se querem manter-se democráticos, não podem perder as suas.

Público, 2.1.2021

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