19.1.17

Apontamentos de Lagos (Rua Lançarote de Freitas)

A famosa buganvília, os já famosos caracóis a namorar e uma intervenção (a tiro de 'paintball') de quem quis, também, deixar marcas da sua "arte"...

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A liberdade de expressão e a pulsão censória

Por C. Barroco Esperança
Que a liberdade de expressão tenha limites, que o apelo ao crime e à violência, a calúnia e a difamação sejam criminalizadas, é hoje consensual em países democráticos, mas considerar como apelo à violência abrenunciar um morto, ou um vivo, sem o mais leve intuito de incentivar agressões, que só o vivo sofreria, é censura.
 Recordemos os facínoras que mataram os cartunistas do Charlie Hebdo. Estes tinham o direito e a coragem de publicar o que publicaram. Responsabilizar os jornalistas é punir as vítimas e desculpar os algozes. Só compra e lê o Charlie quem quer.
 Há na autocensura ou na limitação tolerada, à margem da lei, a interiorização dos tiques que a ditadura inseriu, à guisa de genes, até em democratas. Que fará nos que desprezam a liberdade e defendem que o respeitinho é muito bonito!?
 Pode dizer-se mal de Mário Soares? – Claro que pode. E de Moisés, Cristo, Maomé ou Buda? – Porque não? E de Mandela, Gandhi ou Luther King? – Claro que sim.
 Dizer que o Antigo Testamento é um manual terrorista ofende milhões de crentes, mas aceitar a sua xenofobia, o racismo, o esclavagismo, a misoginia, o incesto e outras crueldades, é defender a moral das tribos patriarcais da Idade do Bronze. Os cristãos ou não leram o A. T. ou afirmam que o que lá está escrito não significa o que escrito está.
 Há criminosos mortos, que nunca deviam ter nascido: Hitler, Estaline, Franco, Salazar, Pinochet, Mao, Pol Pot, Videla, Somoza, Tiso, Enver Hoxha e outros. Sou insensível às suscetibilidades de descendentes e sequazes órfãos. Ou execramos os pulhas ou alguém fará deles modelos. Só faltava haver punição por desrespeito a tão ruins defuntos!
 A moral, contrariamente ao que muitos pensam, não é universal e os deuses enganam-se mais do que os homens. Já se engordaram mulheres, em gaiolas, para consumo humano. Há quem abomine a música, a carne de porco, a nudez, a autodeterminação individual e o livre-pensamento. Há 152 anos, Pio IX publicou a ignóbil encíclica Quanta Cura (8/12/1864), acompanhada do famoso Syllabus errorum, o que não lhe tolheu a carreira da santidade ou impediu os seus sucessores de herdarem a infalibilidade papal e o mito da virgindade de Maria, dois dogmas tão desprezíveis como o seu antissemitismo.
 Urbano II, Estaline, Pio IX, Mao, Calvino, talibãs e cruzados não se podem comparar a democratas e humanistas.
E Deus, pode ser ofendido? Bem, se fizer prova da sua existência, o juiz deve relevar a importância do cargo, mas não deverá aceitar a queixa de um clérigo, por não ser parte nem exibir procuração.
 E se os que me leem me insultarem? Têm esse direito. O insulto não ofende o alvo, mas quem o profere. E a liberdade de expressão dos homens é superior à alegada vontade de qualquer deus.
 Ponte Europa / Sorumbático

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18.1.17

Ao contrário...

Ao contrário dos gatafunhos e dos autocolantes (uma verdadeira praga!), esta forma de expressão de arte urbana pode ser aceitável. 
Em Lagos, estes pequenos desenhos (feitos a stêncil) aparecem em locais degradados, e muitas vezes são feitos por autores famosos.

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16.1.17

Curiosidades M/F...

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"Liberdade de expressão"?

"É apenas um exercício de Liberdade de Expressão" - Foi com estas palavras que um leitor defendeu estas situações de vandalismo. E disse-o a sério, como se pôde confirmar no decorrer da discussão que se iniciou quando eu afixei a imagem de baixo na minha página Cidadania de Lagos, do Facebook.

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15.1.17

Sem emenda - A luta e a paz

Por António Barreto
É uma velha questão política, filosófica e até estética. A paz é mais importante do que a guerra, tal como a unidade e o diálogo são mais necessários do que a luta e o combate. Mas a luta e a guerra merecem mais admiração do que a paz. Há frases e momentos na nossa história cultural bem reveladores desta dualidade. Por exemplo, o dito de Brecht segundo o qual “é violento o rio que tudo arrasta consigo, mas ninguém se lembra de dizer que são violentas as margens que o apertam”. É uma espécie de emblema para a luta de classes e o combate permanente.
Aliás, são vários os hinos nacionais que, em vez de festejar a paz, o trabalho e a comunidade, glorificam o heroísmo bélico. O nosso louva a guerra e ordena cruamente que, “contra os canhões”, se deve “marchar, marchar”… É o resultado da inspiração francesa, sempre a mesma, da horrenda Marselhesa que promete que um dia “o sangue impuro” dos inimigos estrangeiros “encharque o nosso solo”!
De Mário Soares, nestes dias de homenagem, festejou-se a luta, raramente a paz. O combate, não o diálogo. É pena. Na verdade, o seu contributo para a paz foi o decisivo e o mais durável.
Os que alimentam esta obsessão pela luta garantem que com ela virá a libertação, a salvação, a dignidade e a liberdade… Mas esquecem evidentemente que a luta também dá guerra, violência, desordem, motim e morte de inocentes…

Vive-se em Portugal, há cerca de um ano, um agradável clima de paz social. Greves e perturbações diminuíram drasticamente com a tomada de posse deste governo. Foram desmobilizadas as brigadas de contestação espontânea e os grupos de arruaceiros que fizeram a vida negra a Passos Coelho e a Cavaco Silva. Eram poucos, mas eficientes. A cumplicidade das televisões, que necessitavam de material, era trunfo inestimável. O silêncio do PS, que esperava dividendos, ajudou à manutenção do clima de crispação.
Verdade seja dita que a situação económica e social, assim como a falta de perícia do governo, eram de molde a criar descontentamento. Mas já tínhamos vivido situações igualmente difíceis sem movimentos contestatários similares.
Passado pouco mais de um ano depois das eleições, a paz social é a regra. Os cuidados médicos ainda não melhoraram, mas a contestação é agora cordata. O funcionamento das escolas não é muito diferente, nem mais favorável ou eficaz, mas a controvérsia é agora afável. Os transportes públicos não conheceram uma evolução positiva, mas a perturbação no sector é inexistente. Em muitas áreas de altercação tradicional, como no universo dos precários, na Função Pública, nos portos ou nas universidades, vive-se pacificamente. Ainda bem. É melhor para o trabalho e a produção, para a qualidade de vida e a produtividade.

O Bloco tem grande influência nos meios de comunicação, na imprensa e nas televisões. E influencia os socialistas, sobretudo por razões culturais. Mas também por uma espécie de ciúme: os socialistas gostariam de parecer tão inteligentes quanto os bloquistas. Já o PCP tem indiscutível influência nos sindicatos e nas instituições públicas como os serviços de saúde e de educação, os funcionários, as magistraturas ou as polícias. Em conjunto com o PS e o governo, Bloco e PCP têm contribuído para criar um clima excepcional de paz social. O que é bom. Com ou sem crise, a paz social é sempre melhor do que a luta de classes, o conflito regional ou a guerra de religiões.
É possível que a política actual saia muito cara. Que os problemas aumentem. Que não haja condições para o investimento futuro. Que os défices piorem. Que as taxas de juro aumentem. Tudo isso é possível. Mas é melhor chegar lá em paz do que em guerra social, em piores condições para resolver os problemas. O “quanto pior, melhor” nunca teve bons efeitos. Nunca resultou. A não ser para pior.
DN, 15 de Janeiro de 2017

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Operárias têxteis em fabriqueta no Minho – Era assim, há uns anos, menos de dez. Sinceramente, não sei se ainda há destas “fábricas” que alimentavam outras empresas a custos baixos. Durante muito tempo, aquelas eram designadas por “fábricas de vão de escada”, sendo que a realidade era por vezes pior do que a lenda. Em condições muito deficientes de higiene, temperatura, luz e qualidade do ar, durante longos horários, estas mulheres cortavam tecidos importados deus sabe donde, da China ou do Bangladesh, e coziam as peças que outras empresas maiores ou até simples vendedores de feira compravam e revendiam. Os salários pagos eram irrisórios. Uma boa parte do têxtil português foi feita aqui. As grandes empresas, modernas e eficientes, foram as principais responsáveis pela exportação portuguesa durante décadas, mas, com elas, vieram também estes “satélites”. Se a crise dos últimos anos tivesse saneado o sector, nem tudo seriam más notícias…
DN, 15 de Janeiro de 2017

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13.1.17

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12.1.17

Estranhos valores!


O dia ainda não acabou, e já o Sorumbático bateu todos os valores anteriores de visitas diárias, com mais de 4 mil provenientes... da China!
Que explicação poderá haver para isso?

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O humor possível, há 100 anos, em plena Grande Guerra...


(Do meu blogue HUMOR ANTIGO)

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Relembrando...

Para quem gosta de curiosidades, charadas e anedotas ilustradas antigas, aqui deixo um endereço de um arquivo com mais de 1000, que eu em tempos fiz — tudo arquivado por ano de publicação:
www.humorantigo.blogspot.com

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A Índia, o hinduísmo e a laicidade

Por C. Barroco Esperança 
As religiões só aceitam a laicidade quando minoritárias. Quando se tornam hegemónicas logo recorrem ao lugar-comum revelador de hipocrisia e desfaçatez: “Não se pode tratar de modo igual o que é diferente”.
 Hoje, a separação das Igrejas e do Estado faz parte do ethos civilizacional do Ocidente e é a conquista ameaçada na dramática hipótese da extinção das democracias, receio que se sublinha. A vigilância cívica é uma exigência ética e condição de sobrevivência. Não há democracias perpétuas. Nada é eterno.
 Volto à laicidade, a forma que os Estados têm de garantir a neutralidade e de julgarem a demência prosélita de diversas religiões, insânia exacerbada com a globalização. Várias religiões receiam que outra – e única –, se imponha a nível planetário, ou que o ateísmo, o racionalismo, o ceticismo e o agnosticismo as releguem para o baú da mitologia.
 Os Estados democráticos, que devem defender igualmente os crentes e não crentes, com a obrigação de serem neutrais e se declararem incompetentes em matérias de fé, têm vindo a afrouxar, por razões eleitorais, a defesa da laicidade, e a cumpliciarem-se com a Igreja dominante, com trágicas consequências para os crentes das religiões minoritárias.
 É por isso que a jurisprudência da Índia é uma janela de esperança que se abre no maior país hindu, onde o sistema de castas, a discriminação insana das viúvas, e a violência do nacionalismo hinduísta representam um atentado aos direitos humanos. Em 2 de janeiro, deste ano, o Supremo Tribunal da Índia proibiu “qualquer campanha política baseada na religião, raça, idioma ou casta”. “A religião não pode ter nenhum papel no processo eleitoral porque os comícios são um exercício secular, assinalou o coletivo de juízes na sentença”, aprovada por 4 dos 7 membros.
 Esta vitória da laicidade foi o triunfo secular sobre a fé, a supremacia da razão sobre as vacas sagradas e da democracia sobre as crenças. E não se diga que a religião é ferida com a exemplar jurisprudência indiana.
 Fonte: LAICISMO.ORG · FUENTE: PRENSA LATINA · 2 ENERO, 2017
 Ponte Europa / Sorumbático

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10.1.17

Sem emenda - A Democracia, a Ditadura e o Divino

por António Barreto
Após cinquenta anos de desenvolvimento, de protecção social, de paz e de liberdade, o mundo ocidental entrou em crise. Economias e sistemas políticos não acertam. As populações não acreditam. As forças centrífugas fazem sentir o seu efeito. Em quase todos os países democráticos surgem perturbações e ameaças difíceis de conter. Na maior parte desses países, é fácil encontrar o preconceito como resposta ao preconceito. Ou o nacionalismo como reacção contra a liberdade e o cosmopolitismo. Meio século de esplendoroso progresso parece ameaçado.

Estamos a viver tempos difíceis. As democracias estão a falhar. São como aqueles motores de automóvel que, aos soluços, dão sinais de que alguma coisa, gasolina, velas ou carburador, está a falhar. As democracias têm tido enormes dificuldades em lidar com a fúria capitalista e a ganância financeira. Têm revelado fraqueza em tratar com as esquerdas revolucionárias. São débeis na reacção ao nacionalismo. Têm mostrado pusilanimidade em combater os grandes grupos económicos multinacionais. Não conseguem sobrepor-se à ditadura das sondagens, da publicidade e da propaganda. Têm tendência para deixar crescer as desigualdades sociais. Perdem o sentido de Estado e rendem-se facilmente ao mercado. São frágeis perante a demagogia das esquerdas e o populismo de toda a gente. Têm medo dos estrangeiros, dos refugiados e dos imigrantes. Têm receio de parecer racistas. Quase conseguem conviver com o terrorismo, sobretudo o reclamado pelas minorias. Encontram razões sociais, origens familiares e causas políticas para explicar, justificar e desculpar o crime, o terrorismo, a violência doméstica, o insucesso escolar e a falta de disciplina. Têm medo de parecer autoritários. As democracias deixam-se deslizar e não conseguem evitar a deriva da demagogia e do preconceito.

Democratas começam a pensar que, se a democracia não é capaz de combater esses novos inimigos, talvez seja de imaginar soluções mais duras, nacionalistas de esquerda ou de direita, capazes de contrariar os estrangeiros, liquidar o mercado e eliminar a iniciativa privada. Uns procuram recorrer à religião e ao divino, sejam os cultos estabelecidos, sejam as novas seitas. Outros, pelo contrário, culpam o divino e procuram contrariar todo e qualquer contributo das religiões para a vida colectiva.

Dentro e fora da democracia, os esforços para casar governo e igreja, para ligar política e religião, sucedem e aumentam. Donald Trump não gosta de Darwin e já fez declarações arrepiantes sobre os fundamentos religiosos da família. Putin vai buscar os chefes da igreja ortodoxa cada vez que se vê atrapalhado. Enquanto o papa Francisco irrompe pelos territórios tradicionais da esquerda, as direitas europeias afastam-se da religião ou sonham com uma restauração tridentina. Na China, os poderes procuram de novo em Confúcio uma ajuda para o comunismo do dia. Noutros países asiáticos, tenta-se encontrar em Buda colaboração para combater os temores. Em Israel, em Gaza, em Teerão, em Riade, em Bagdade, em Manila e em Jacarta os Estados tentam conviver com a religião e convencer os fiéis. Na Turquia, Erdogan revê as relações do Estado com a religião. Noutros casos, a religião apodera-se das alavancas dos poderes políticos e militares.

Há ditadores que encontram fácil ligação com os deuses e as Igrejas. Outros que se lhes opõem ferozmente. Há igrejas que combinam bem com o poder político ditatorial. Outras que calam e consentem. Outras ainda que não consentem e são caladas.

Apesar da escravatura, mau grado a Inquisição, não obstante a contra-reforma e outras formas de cumplicidade das igrejas com o pior das políticas, os cristãos têm a seu crédito a fundamental separação entre Deus e César, entre a Igreja e o Estado e entre a Bíblia e a Constituição. Não é pouca coisa.

DN, 8 de Janeiro de 2017

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9.1.17

Sem Emenda - As Minhas Fotografias


Mustafa Kemal Atatürk nas ruas e nas paredes de Istambul – Há quase cem anos, Atatürk tomou o poder na Turquia. Foi o principal dos “Jovens turcos”, movimento de oficiais. Governou durante vinte anos e cuidou das sequelas do desmoronamento do império Otomano. Antes, tinha derrotado os aliados (entre os quais Churchill) em Galipoli, com o que adquiriu fama de herói. Depois de ter conquistado o poder, modernizou a Turquia, onde criou à força um Estado laico. Proclamou a República. Fez de Ancara a capital. Tentou o desenvolvimento económico. Combateu o comunismo e o fascismo. Estabeleceu uma Administração Pública ocidental. Substituiu a charia pelos códigos civil e penal europeus. Estimulou o nacionalismo moderno. Refez as forças armadas. Desencorajou as roupas tradicionais. Baniu o turbante, o fez e o véu. Substituiu o alfabeto árabe pelo latim com variações. Acabou com a lei seca e permitiu o álcool. Não ordenou os massacres de mais de um milhão de arménios (a partir de 1915), mas, depois de chegar ao poder, nos anos 1920, completou a limpeza étnica da Anatólia. Por toda a Turquia, são milhares os monumentos, as esculturas, as pinturas e as fotografias de Atatürk.
DN, 8 de Janeiro de 2017

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Um grande plebeu: Mário Soares

Por António Barreto
Morreu um homem extraordinário. Em todos os sentidos da palavra. Fora do habitual. Invulgar. Pouco frequente. Que causa admiração. Impressionante. E que merece respeito.
Foi excessivo em tudo, nas virtudes e nos defeitos. Nos acertos e nos erros. Mas, no essencial, na liberdade, na dele e na dos outros, foi justo, foi certeiro, foi inflexível.
Foi simultânea e sucessivamente amado, detestado, respeitado, temido e desprezado como poucos Portugueses do seu tempo.
Não lhe devemos um programa, que o não tinha. Nem uma estratégia, com que não perdia tempo. Muito menos uma visão do mundo ou do país, que não cultivava. Mas devemos-lhe uma formidável intuição, a certeza da liberdade, à qual tudo se submete.
Por estes dias, vão sobrar os elogios. Até dos seus adversários e inimigos. A crítica também, até dos seus amigos. Essa é a sua riqueza, a de um grande plebeu, de quem tudo conhecemos e que se fez a si próprio. E que nos ajudou, para o melhor e o pior, a ser o que somos.

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7.1.17

Curiosidade de mercearia

Esta curiosidade matemática traz consigo dois desafios interessantes:
O primeiro consiste em EXPLICÁ-LA.
O segundo tem a ver com as excepções. Ou seja: em que casos é que FALHA?


NOTA: O resultado não é bem "o ano em que você nasceu", mas apenas os dois últimos algarismos desse ano.

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6.1.17

Humor involuntário

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5.1.17

No 12.º Aniversário do "Sorumbático"

Por António Barreto
.Meu Caro Carlos!
Pelo aniversário do Sorumbático, um copo de vinho do Porto de 2004 e parabéns para si. Para os seus colaboradores. Para os seus leitores.

É possível que o Sorumbático seja hoje uma relíquia. Talvez uma sombra do que era ou já foi. O número de colaboradores foi reduzido, o número de leitores deve ter diminuído em proporções colossais. As pessoas escolheram novos meios de comunicação. Parece que as “redes”, com especial relevo para o FaceBook (e agora o Twitter do Senhor Trump…), estão a tomar o lugar destes bons velhos blogues que deram tanta satisfação e proporcionaram tão boa discussão durante os 10 a 15 anos de vida. Mas ainda hoje se mantém. O seu Sorumbático é um deles. Ainda há quem não fuja para as redes e quem goste de manter uma modalidade de expressão, de reflexão e de diálogo mais ponderada, menos nervosa, menos exibicionista, mais serena. As outras “redes” mais rápidas, mais sintéticas, chamam pela simplicidade, tantas vezes pelo anonimato, sempre pelo alargamento de audiências sem limites… Não creio que haja verdadeira melhoria! Não me parece que se trate de efeitos positivos do progresso. Ou talvez seja mais simples dizer que não creio que se trate de progresso. Ponto final!

De qualquer maneira, meu caro Carlos, meu Caro Sorumbático, parabéns e encorajamento para continuar. E agradeço-lhe do coração o Jacarandá que você tão amistosamente mantém!
.
Um grande abraço
AB

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Visitas até à manhã de hoje

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Os 12 Anos do "Sorumbático"

Durante mais de 3 anos (e 159 sábados ininterruptos) mantive, no semanário Expresso, uma pequena coluna, intitulada Carta Branca, em que comentava, com boa-disposição, a actualidade nacional e internacional em cerca de 1000 caracteres. Sempre tive total liberdade de temas e textos, e nunca ninguém mexeu, sequer, uma vírgula!
Ora sucedeu que, quando a coluna terminou (em 31 de Dezembro de 2004), eu tinha já escrito os 3 textos seguintes que, assim, ficaram sem destino.
Decidi, então, criar este blogue para os afixar, e a minha má-disposição ditou o respectivo nome: sorumbático, pois claro!
Logo de seguida, convidei o saudoso Carlos Pinto Coelho (que aqui afixava as suas crónicas de A Capital e as suas famosas fotos, às quais passou a associar passatempos com magníficos prémios — sempre livros que ele oferecia) e o Joaquim Letria, que contribuía com as suas saborosas crónicas (e, mais tarde com as suas Histórias Para Ler e Deitar Fora, que ainda guardo, em papel e em PDF).
Seguiu-se pouco depois o Nuno Crato (quase sempre com os seus textos de divulgação científica e curiosidades matemáticas), e foi assim, com esses quatro, que o Sorumbático se manteve durante algum tempo.
Depois, e a pouco e pouco, foram-se juntando muitos outros (umas três dezenas, entre efectivos e convidados), e o blogue é hoje aquilo que se pode ver.
Já foi mais participado e animado, sim, mas mantém-se um espaço de liberdade, cultura e troca de ideias — e, enquanto puder ser assim, cá estaremos!

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A laicidade e o islamismo político

Por C. Barroco Esperança
Entro em 2017 com a certeza reforçada de que o islamismo político e os valores liberais do Ocidente são incompatíveis. Desconheço, aliás, religiões que defendam as liberdades individuais, mas a repressão sobre o clero forçou-as a aceitar a separação do Estado, isto é, a laicidade, enquanto o Islão político combate o Estado de direito.
 A ilusão de que é a direita política que defende os valores civilizacionais, confundidos com a tradição que lhe foi imposta, cria uma perigosa confusão entre atitude liberal nos costumes, apanágio da civilização e herança da esquerda, e a opção liberal na economia.
 O Islão não tolera a música, a arte ou a felicidade, não aceita a igualdade de género nem prescinde da escravização da mulher, entre outras aberrações comuns aos monoteísmos, combatidas na civilização ocidental, após o longo processo renascentista, iluminista e da Revolução Francesa.
 A passagem do ano em Colónia, na Alemanha, foi este ano vigiada por forte dispositivo policial, para evitar a repetição das violações do ano anterior em que islamitas dementes foram os desvairados autores.
 O ano começou, aliás, com um ataque a uma discoteca, em Istambul, na Turquia, onde o Irmão Muçulmano Erdogan não pôde destruir ainda todo o legado de Atatürk. Trinta e nove mortos e 69 feridos foi o resultado da sanha de quem acredita no “beduíno amoral e analfabeto” como profeta, ali onde a Turquia deixa de ser Ásia e a Europa começa.
 Na Holanda, onde uma em cada três mesquitas é salafista, o Instituto Verwey-Jonker, especializado em sociologia, descreveu as regras dessas mesquitas. Estão na vanguarda da alienação sunita, o que levou Lodewijk Asscher, ministro dos Assuntos Sociais e líder social-democrata, a apelar aos pais holandeses para retirarem os filhos das aulas de Corão ministradas na mesquita salafista Al Fitrah, em Utrecht.
 As regras impostas nessas mesquitas, segundo o Instituto atrás referido, incluem «evitar muçulmanos moderados, rejeitar a música, o cinema, as excursões de tipo cultural, e a separação entre homens e mulheres. Esta última atinge professores, especialmente as professoras, na escola primaria, a quem não devem cumprimentar com o aperto de mão com que é hábito os alunos holandeses despedirem-se no fim de cada dia de aulas». (El País, ISABEL FERRER, Haia 27 dez. 2016)
 A defesa da laicidade e da civilização exige a interdição dos locais mal frequentados e o julgamento dos clérigos. Não são templos, são escolas terroristas, e a laicidade impõe a absoluta neutralidade do Estado em relação às religiões, sem as isentar do Código Penal.
 Ponte Europa / Sorumbático

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4.1.17

GRANITIZAÇÃO (algumas notas sobre a origem dos granitos)


Por A. M. Galopim de Carvalho

Já aqui o dissemos, o termo “granito” surgiu em 1596, criado pelo italiano Andrea Cesalpino (1519-1603), com base no latim granum, que significa grão, muito antes das primeiras propostas de explicação da respectiva génese, das quais merece destaque a do geólogo escocês James Hutton (1726-1797), lembrado como o pai da geologia moderna.

Uma vez que o granito (a rocha que toda a gente conhece e que todo aquele que foi mal ensinado se limita a dizer, sem saber o que diz, que é “feito de quartzo, feldspato e mica”) é francamente dominante entre as rochas descritas como plutónicas, a investigação científica levada a cabo neste domínio conduziu, naturalmente, à ideia de granitização, entendida como o conjunto dos processos que conduzem à génese dos vários tipos de granito e de todas as rochas que lhes são afins, habitualmente referidas por granitóides.
O finlandês Jakob Johannes Sederholm (1863-1934), interessado na geologia do Escudo Báltico, estudou um conjunto de rochas, do Pré-câmbrico local, caracterizadas por exibirem uma alternância de leitos finos de material granítico e metamórfico, a que deu o nome de migmatitos, e que explicou como sendo um processo ocorrente em profundidade, na crosta, marcado pela injecção de um fundido (a que deu o nome de migma) no seio de rochas metamórficas. Segundo ele, estas rochas metamórficas (em particular, filádios, micaxistos e gnaisses) e os próprios migmatitos, quando submetidos a temperaturas mais elevadas, acabam por fundir, originando um magma, num processo dito ultrametamórfico que designou, em 1907, por anatexia (do grego “anatêxis”, fusão), também conhecido por palingénese, termo que evoca o acto de renascer (do grego, “pálin”, novamente).

Mais tarde, o seu concidadão Pentti Elias Eskola (1883-1964) interessou-se particularmente pelas reacções no estado sólido (metassomáticas) e pelas, para ele, possíveis migrações iónicas na génese do granito. Criou e divulgou, em 1920, o conceito de “ichor” (o sangue dos deuses gregos), que imaginou como sendo uma nuvem de iões rica em sódio e potássio que, em profundidade, penetrava os poros das rochas por efeito da compressão orogénica, promovendo a granitização. Porém, a ideia do “ichor” acabou por morrer, dando lugar à anatexia. Ao granito dito metassomático, opôs-se o granito magmático.
Duas obras de síntese marcam o interesse pela geologia e petrologia das rochas graníticas, a meados do século XX. Uma, em França, “Géologie du Granite” (1946), de Eugàne Paul Raguin (1900-2001), professor da École Nationale des Ponts et Chaussées e da École des Mines de Paris, director do Serviço da Carta Geológica de França e presidente da Sociedade Francesa de Geoquímica. Outra, nos Estados Unidos, “Origine of Granite” (1948), de James Gilluly (1896-1980), conceitoado geólogo dos United States Geological Survey.

Cerca de duas décadas mais tarde, o conceituado geólogo e petrólogo inglês, Herbert Harold Read (1889-1970), distinguido com a presidência da Royal Society de Londres, propôs, na sua obra “Granites and Granites” (1965), um esquema no âmbito da orogénese, ou seja durante a formação de uma cadeia de montanhas, no qual estabeleceu relações espaciais e temporais para as várias ocorrências de granitóides conhecidas.
Do ponto de vista espacial, considerou, por um lado, os granitóides gerados em profundidade por anatexia na zona central de um orógeno, conservados na zona onde se formaram e caracterizados por apresentarem contactos difusos com as rochas envolventes. Além destes, que apelidou de autóctones, distinguiu os que ascenderam no interior da crosta, afastando-se da zona de origem, ascenderam e penetraram ou intruíram as rochas que lhes estavam por cima, qualificando-os de alóctones ou intrusivos. Read caracterizou estes últimos por apresentarem limites bem definidos face às rochas encaixantes com as quais geram auréolas de metamorfismo de contacto (corneanas), pelo que também os qualificou de circunscritos.
Do ponto de vista temporal, explanou os seus conceitos relativamente à cronologia de instalação dos granitos no decurso da respectiva formação da cadeia de montanhas, distinguindo (1) sinorogénicos ou sintectónicos, os que se formaram durante a orogénese; (2) tardiorogénicos ou tarditectónicos, os gerados no final desse evento; e (3) pós-orogénicos ou pós-tectónicos, os surgidos posteriormente a ele.
Além da granitização comum nas raízes dos orógenos antigos, evidenciada pela erosão, de que temos exemplos no soco varisco do nosso território, há ainda a considerar a granitização anorogénica, ocorrida em porções de crosta rígidas e estáveis (cratões e margens passivas), num processo magmático relacionado com fontes de calor pontuais (pontos quentes?) testemunhada por pequenos corpos intrusivos (subvulcânicos, intrusões hipabissais, como lacólitos e outras) como é, por exemplo, o maciço de Sintra.

Nos últimos anos, a compreensão das rochas graníticas e afins ganhou grande desenvolvimento, em consequência da procura de explicação das respectivas géneses à luz da tectónica de placas. O estudo da granitização prossegue actualmente mediante investigação intensiva, sobretudo, ao nível dos elementos-traço (oligoelementos) e das assinaturas isotópicas. Neste domínio, destacou-se, entre outros, o trabalho do norte-americano John DuNann Winter, exposto em “Principles of Igneous and Metamorphic Petrology”, editado em 2009.

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3.1.17

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Senhor descansa a caminho de Petra, Jordânia – Petra fica a poucas centenas de quilómetros de alguns dos locais mais perigosos do mundo: Síria, Iraque… E de cidades memoráveis pelas piores razões: Alepo, Palmira, Mossul… Nos caminhos que levam até à cidade encantada, não se ouve o barulho da guerra ou do terror. Mas toda a gente sabe que, ali ao lado, não há paz e só há medo. De repente, no meio do caminho, este senhor que nem calculo quem seja. Nabateu? Saudita? Jordano? Iraquiano? Não faço a mínima ideia. Só sei que o seu porte altivo e sereno, a descansar, entre duas caminhadas no esplendoroso sítio, é um conforto para quem pensa naquela região, nas chacinas de centenas de milhares de civis, nas cidades arrasadas, no terrorismo na sua mais primitiva forma e na destruição selvagem de património da humanidade com puros intuitos totalitários. Nestes dias de fim e de começo de ano, um facto novo faz história: uma trégua maior (será cumprida?) é assinada pela Rússia, pela Síria e pela Turquia, na ausência dos Estados Unidos e da Europa.
DN, 1 de Janeiro de 2017

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2.1.17

Sem emenda - Prova dos nove…

Por António Barreto
Era, há muitos, muitos anos, uma cantilena infantil apropriada a descobrir os mistérios dos números. Matrículas de automóveis e aniversários, por exemplo. Ou então, em vésperas de ano novo, tirava-se a prova dos nove. 2017? Dois mais um, três, mais sete, dez, noves fora um: é o primeiro, ganha tudo! Em 2016, noves fora nada: perde tudo! Em 2019, noves fora três: é a conta que Deus fez. Ou 2014, noves fora sete: quem não pode não promete! Batia sempre certo. Quase…

A prova dos nove, para Portugal de 2017, começa agora, hoje mesmo, primeiro de Janeiro. O ano vai ser especialmente difícil. Aliás, os clichés mais gastos são todos verdadeiros: “incerteza”, “ameaça”, “perigos” e “riscos”. Centenas de pessoas perguntadas pelos jornais e pelas televisões, optimistas e pessimistas, começam e concluem os seus testemunhos com as mesmas expressões.

Será Portugal capaz de combater a crise instalada e aparentemente adormecida? Poderão os dirigentes políticos e económicos encontrar soluções para os nós que parecem cegos? Quem observa e quem vê gosta de se entreter a prever a duração e a habilidade. É um passatempo divertido, mas inútil. Por maior que seja o jeito e a esperteza, enquanto não houver investimento e crescimento, tudo se manterá frágil e perigoso.

O pior de tudo é talvez o endividamento, o que vem de trás e o que não cessa de aumentar. É seguramente a maior chaga de que o país sofre. Apesar da tendência dominante para subestimar os efeitos do endividamento, a verdade é que este é tão nefasto quanto a falta de liberdade, o caos nas ruas, o desemprego ou a miséria. Com a agravante de ter feito de Portugal um pária dependente. Ainda hoje, é lamentável ver como grande parte dos dirigentes e até mesmo da população não considera a dívida realidade ameaçadora. Muitos Portugueses têm uma atitude como a do fidalgo arruinado, com gostos caros, poucos recursos e a impressão de que tudo lhe é devido. Muitos acham mesmo que não se deve pagar a dívida e que tal atitude é virtude soberana.

A verdadeira prova dos nove é a do investimento e do crescimento económico. Sem um e outro, não haverá bem-estar, nem equidade, nem menor desigualdade, nem mais justiça, nem melhor educação e mais saúde. A prova dos nove não será a dos subsídios, dos aumentos de pensões, de férias e feriados, da redução de horas de trabalho, do aumento de salários mínimos e médios, dos benefícios de saúde e de educação ou dos abonos sociais de toda a espécie. Se tudo isso, que é excelente, não resultar do crescimento económico, do investimento, do aumento da competitividade, da abertura de novas oportunidades comerciais e das melhorias na organização do trabalho, então tudo isso será demagogia de pouca duração. Será mesmo a antecâmara do desastre. Essa é a prova dos nove: o investimento, que gera crescimento, que produz desenvolvimento e que está na origem do progresso social. A prova dos nove deste governo não é a da sua duração nem a da solidez do seu apoio parlamentar. Não é difícil obter sustentação enquanto os três perceberem que os que caírem morrem. A prova também não é a dos resultados das múltiplas negociações e dos numerosos compromissos que, todas as semanas, o Governo tem de realizar com os partidos da esquerda parlamentar. É fácil negociar quando todos têm a ganhar e todos receiam o adversário. É fácil enquanto se pode assinar cheques. A verdadeira prova dos nove não será a do aumento da despesa, mas sim a da diminuição do endividamento.
A superstição da numerologia é favorável. 2017? Dois mais um, três, mais sete, dez, noves fora um: é o primeiro, ganha tudo! Se houver investimento… Se não, noves fora nada!

DN, 1 de Janeiro de 2017

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