10.12.17

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Judeu em oração, com chapéu, na esplanada do Muro das Lamentações – Este senhor usa um chapéu tradicional, um dos vários usados habitualmente, com relevo para a Kipá (solidéu) e o Shtreimel (em pele), os mais curiosos de todos. Jerusalém é um dos sítios mais carregados de história. Todas as variedades de cristãos, judeus e muçulmanos têm aqui os seus lugares sagrados. Além de outros, David, Salomão, Cristo e Maomé andaram por ali. Na cidade, com seis mil anos, há centenas de sinagogas, igrejas e mesquitas. Nada é simples, nada é fácil. Se há sítio no mundo onde há problemas sem solução, Jerusalém é um deles. Equilíbrio instável, paz provisória, tempo de espera… são estas as expressões que substituem as de paz, estabilidade ou solução. Há milhares de anos que é assim. A recente decisão do presidente Trump é estranha. É um governo estrangeiro que, de facto e não de direito, designa a capital de Israel! O gesto, criticado por quase todo o mundo, tem potencialidades para desencadear mais uma série interminável de acidentes e incidentes. Mais uma…
DN, 10 de Dezembro de 2017

Etiquetas:

Sem emenda - Como nas claques

Por António Barreto
A comparação já foi feita: o debate político parece-se cada vez mais com o futebol e respectivas claques. O que interessa é a cor e a camisola. O que conta é saber quem apoia e quem critica. Ou quem é apoiado e quem é condenado. O caso, o objectivo, a decisão, o programa, o valor e a ideia são de menor apreço e quase indiferentes. Importa, isso sim, é saber se é a favor ou contra o grupo, o chefe e o partido. Importa berrar e bramar, ameaçar e apoiar, vibrar de prazer ou rosnar de ódio, bajular ou agredir. Se os meus são criminosos, desculpam-se, porque a culpa é dos outros, batoteiros por definição.
Os meus têm valores. Os outros têm interesses. Os meus têm causas. Os outros têm bolsos. Os meus preocupam-se com o interesse nacional e o bem comum. Os outros só pensam nos seus grupos e nas suas corporações. Os meus são democratas, justos, racionais, eficientes, com causas, pergaminhos sociais, cultura e mérito. Os outros são candidatos a ditadores, oportunistas, mentirosos, prisioneiros dos lobbies e defensores de interesses ocultos. Se, entre os meus, já houve corruptos e aldrabões, esquecemo-nos facilmente. Os corruptos dos outros, por seu turno, são eternos.
Ouvir os socialistas falar hoje dos sociais-democratas e dos populares é ficar a conhecer um rosário de insultos e calúnias. Só comparável ao que se ouve aos sociais-democratas quando estes se exprimem sobre os socialistas; aos comunistas e aos bloquistas quando se referem aos partidos da direita; e a todos e cada um quando se exprimem sobre os outros. Um dos objectivos desta oratória consiste em explicar os saneamentos políticos e as nomeações dos amigos: os que vão sair são incompetentes, mentirosos e eventualmente corruptos. Os que entram, os meus, são exemplos de virtude e competência.
Outra dimensão de fino recorte intelectual é a da culpa. Não fui eu, foste tu! Não fomos nós, foram vocês! O vosso governo fez muito pior! A culpa é do governo anterior! As causas já vinham de trás! A pobreza e a miséria dos professores, a destruição do Serviço Nacional de Saúde, a imprevidência na protecção civil e a vulnerabilidade das instalações militares são da total responsabilidade do governo anterior. Assim como o aumento das desigualdades sociais. Ou o escândalo das energias renováveis. Tal como o anterior governo dizia. E o antes desse.
A este tom grave de acusação não corresponde depois acção judicial. Nem sequer demonstração pública das malfeitorias dos outros. Bem se pode esperar para saber mais sobre as famigeradas parcerias, as falências bancárias, as fugas de milhares de milhões, os offshores, a descapitalização fraudulenta, o mero roubo e os ajustes directos! Bem se pode esperar pela conclusão de processos de negligência na protecção civil!
Como o futebol, a política têm regras próprias e especiais. É permitido mentir, ameaçar, caluniar, roubar, corromper e não cumprir os contratos… E quando não é permitido, é tolerado. E se não é tolerado, o autor fica, em geral, impune. A verdade é que, como no futebol, o que os meus fazem é justo, o que os outros fazem é crime. Os meus podem “meter a mão”, quebrar os pés do adversário e faltar às regras, desde que o árbitro ou o juiz não vejam.
A grandeza deste debate e a qualidade destes termos são surpreendentes! A escola de oratória politica e parlamentar é hoje o comentário desportivo das televisões, horas a fio, diariamente, em todos os canais! O que criou o estilo político parlamentar foi a televisão, o futebol, a democracia directa dentro dos partidos e o sistema eleitoral. O que se diz, mente ou berra não se destina a ser ouvido pelos eleitores, mas sim pelos colegas de partido. São eles que decidirão se um deputado é fiel ao chefe e se é suficientemente agressivo contra os inimigos. Não parece que tão cedo haja condições para alterar este estado de coisas. A calúnia e o insulto têm uma função redentora: a de servir de biombo à falta de justiça.

DN, 10 de Dezembro de 2017

Etiquetas:

7.12.17

A difícil catarse da guerra colonial



Por C. Barroco Esperança
Quarenta e três anos depois da derrota política, militar e moral, Portugal não conseguiu fazer ainda a catarse da tragédia para que a ditadura nos arrastou, nem compreender que, após o fim dos outros impérios coloniais, era insustentável manter a mística de um país ‘do Minho a Timor’.
Juntam-se na mórbida nostalgia do “nosso Ultramar, infelizmente perdido”, a desolação de quem perdeu os bens de uma vida e a vida de familiares, os dramas de um regresso traumático, os saudosistas da ditadura, e quase 500 mil ex-militares que não aceitam que a guerra em que participaram fosse um crime, de um exército de ocupação contra povos coloniais. A síndrome de Estocolmo tornou-se o lenitivo para a dor de uma causa inútil, injusta e criminosa.
Poucos compreendem que o ato heroico do 25 de Abril foi o fim de uma descolonização que começou em Dadrá e Nagar-Aveli e continuou no ato demencial de incendiar o Forte de S. João Batista de Ajudá, para prosseguir em Goa, Damão e Diu, e acabar, fatal e tardiamente, em Angola, Moçambique e Guiné. Alguns nunca pensaram que Portugal era o único país que negava o direito dos povos coloniais à autodeterminação e que cada dia de guerra prolongava o sofrimento inútil e a perda de vidas, de quem lutava por uma causa justa e de quem era obrigado a opor-se-lhe.
José Vilhena, o caricaturista desassombrado e brilhante humorista, definiu um ‘patriota’ como ‘o que ama a sua pátria’, para logo acrescentar: “não confundir com nacionalista, que ama também a Pátria dos outros”.
Foi o nacionalismo fascista o responsável pelo atraso do nosso país e pela guerra levada aos países de outros, quando a moral, o direito e a comunidade internacional já tinham condenado o colonialismo.
Defender hoje o que já então era uma insana obsessão do salazarismo, que a cobardia de Marcelo Caetano prolongou, é um ato pouco abonatório dos defensores. Respeito os que creem na bondade da guerra colonial, bem como os que ainda peregrinam de camuflado, a agradecerem anualmente à Sr.ª de Fátima um milagre negado a 9.553 jovens, mortos, amputados ou paraplégicos, e aos incontáveis traumatizados de guerra. Crenças!
É tempo, dos que não se reveem no branqueamento do colonialismo, de testemunharem a guerra que transportam, e o que viram e souberam no teatro de guerra onde tombaram militares portugueses e guerrilheiros e familiares dos combatentes da independência dos seus povos.
A falsificação da história não honra os militares portugueses da minha geração, dignos de melhor causa, e que não mereciam os horrores que sofreram e infligiram.

Etiquetas: ,

6.12.17

DÉFICE NA EDUCAÇÃO

Por A. M. Galopim de Carvalho
No passado dia 3, o Primeiro Ministro, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, disse, preto no branco:
“De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
Dito, creio que, de improviso, o que está no pensamento de António Costa, veio ao encontro do que ando a dizer há muitos anos.
Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior, em todas as áreas do conhecimento, está ao nível do que caracteriza os países mais avançados, é confrangedor assistir à generalizada iliteracia dos portugueses, incluindo muitos dos nossos quadros superiores, intelectuais de serviço e políticos de profissão que, embora conhecedores dos domínios em que se movimentam, são falhos de outras culturas, em particular da científica, que a escola deveria dar mas não deu, como está implícito nas palavras do Primeiro Ministro. (...)
.
Texto integral [AQUI]

Etiquetas:

5.12.17

Máquinas de Costura

Destas, a imagem mais antiga é de 1850, mas há referências a máquinas de costura 20 anos antes.
Assim, a do cartaz é posterior, tal como o facto histórico associado, que não consegui identificar.

Etiquetas:

4.12.17

Alguém sabe explicar o significado político da imagem usada neste anúncio?

Etiquetas:

XXXI Feira Internacional de Minerais, Gemas e Fósseis

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC-ULisboa) organiza, de 7 a 10 de dezembro, a XXXI Feira Internacional de Minerais, Gemas e Fósseis, subordinada ao tema "MINERAIS DE LÍTIO".
Este evento, que constitui desde 1988, uma grande festa do MUHNAC-ULisboa e uma marca na vida cultural da cidade, reúne colecionadores e comerciantes de minerais, gemas e fósseis, oriundos de vários países da Europa, bem como um vasto público, representado por milhares de visitantes, que tem aqui uma oportunidade ímpar de adquirir ou simplesmente deleitar-se com a observação de exemplares únicos.
Paralelamente à Feira, terá lugar um programa complementar  de conferências e atividades
de divulgação cultural e científica, destinada a jovens e adultos. Conheça o programa de atividades aqui.
Horário
7 de dezembro - das 13h00 às 20h00
8 e 9 de dezembro - 10h00 às 20h00
10 de dezembro - 10h00 às 18h00
ENTRADA LIVRE
Mais informações em www.museus.ulisboa.pt


Serviço de Comunicação e Imagem

MUHNAC_Vertical_positivo 
1250-102 Lisboa
Tel: 213 921 810 | Ext. 35210

Etiquetas:

3.12.17

Sem emenda - Um Te Deum laico e republicano

Por António Barreto
Te Deum é a designação de um hino que faz parte da Liturgia das Horas da Igreja Católica. É a forma abreviada de Te Deum Laudamus, Louvamos-te, Ó Deus! O momento apropriado para cantar este hino é o final de Dezembro, quando os fiéis agradecem as benesses recebidas durante o ano decorrido. É também inspiração para músicos que cultivaram o género: Purcell, Charpentier, Mozart, Haydn, Bruckner e outros compuseram, com este título, obras-primas festejadas por crentes e não crentes.
Hoje, as coisas tomam outras formas. Dispensa-se o génio musical. Retira-se o Deus fora de moda. Antecipa-se a cerimónia para o início do novo ano fiscal. Coloca-se em cena o objecto do louvor. Rodeia-se o sujeito de uma corte bem apessoada, que até pode ser um Conselho de Ministros, em vez dos tradicionais querubins. Adjudicam-se os procedimentos a uma Agência de Imagem. Contrata-se uma Universidade “a fim de credibilizar” o exercício, segundo as palavras dos protagonistas.
Seleccionaram-se umas dezenas de figurantes por amostra calibrada, a quem se pagam deslocações, bebidas, um snack e um per diem de ajudas de custo (150 euros, segundo testemunhos). Solicita-se a um sacerdote que se ocupe do ritual. Os figurantes agem como se de um coro grego se tratasse, mas em intervenções sucessivas, não em coral clássico. Às perguntas inteligentes dos figurantes, o solista responde com desenvoltura. A fim de mostrar o espírito de equipa, vários membros da Corte são chamados a participar.
Vozes incómodas fizeram reparos. Foi-lhes dito de imediato que “no ano passado também houve”. A quem referisse que já é a segunda vez que isto se faz, foi esclarecido que o anterior governo também tinha feito algo de parecido na televisão. Aos que estranharam a inclinação dos socialistas, de Costa e de Sócrates, para a propaganda, foi garantido que as direitas, Cavaco Silva, Santana Lopes e Passos Coelho, também o faziam.
É preciso má vontade para comparar esta liturgia honesta à propaganda das direitas! Na verdade, enquanto estas tudo fazem para enganar os cidadãos, as esquerdas apenas se limitam a ouvir o povo, escutar as pessoas, tentar perceber o seu pensamento e entender os anseios profundos da população. Só com muita má fé se pode imaginar que este governo queira fazer qualquer coisa que não seja uma genuína e honrada tentativa de ouvir e de sentir o pulsar dos Portugueses, as suas críticas e as suas sugestões! 
Aqueles vinte ministros não eram os patrões dos funcionários presentes no coro litúrgico e em nada intimidavam os que, livremente, pretendiam fazer perguntas: eram coadjuvantes competentes, prontos a ouvir e esclarecer. Aquela Universidade e aqueles académicos eram dedicados à ciência e à cultura, não estavam ali para obter reconhecimento e fama junto de quem decide os orçamentos. Aquela Agência de imagem desempenhou as suas funções de modo isento e com profissionalismo.
O que ali se passou não foi medíocre. Não foi armadilha, nem manipulação. Não foi a transformação da informação em publicidade empacotada. A quermesse de Aveiro é boa e genuína. É uma encenação patriótica e plural. A melhor prova de que é coisa boa reside no facto de, no ano anterior, se ter feito igual. E de dois anos antes, na televisão, organizada pelo governo da direita de Passos Coelho, ter havido coisa parecida!
Os cidadãos que ali se deslocaram prestaram um serviço ao país, dispuseram-se a representar os restantes Portugueses que não puderam estar todos presentes, deram ao governo dados autênticos, entre eleições, sobre o estado da nação. Fizeram-no de modo mais verdadeiro do que as sondagens que não permitem esta consulta de proximidade. Melhor do que o focus group a seguir aos incêndios, este Grupo é uma auscultação em comunhão. É o próprio de um governo para as pessoas, não para os números.

DN, 3 de Dezembro de 2017

Etiquetas:

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Par de namorados, com telemóvel, na Cidade Proibida, Pequim – Em poucas semanas de visita à China, das quais uma na capital, foi este o único par de namorados que vi exibindo na rua um gesto de ternura, partilhada aliás com o telemóvel que era seguramente um objecto de interessada comunhão. Ao que parece, os Chineses não gostam de liberdades excessivas, do Google e de manifestações de sentimentos na rua! Talvez a Cidade Proibida tenha inspirado estes dois jovens… O Palácio que ocupa esta cidade tem seis séculos de existência. Já esteve degradado várias vezes, mas sempre recupera e renasce. É o maior palácio do mundo, uma verdadeira cidade! Consta que tem 9.999 divisões, mas parece que a prova nunca foi feita! Era daqui que o Imperador governava a China, o Império e, julgava ele, o mundo.

DN, 3 de Dezembro de 2017

Etiquetas:

2.12.17

DESILUDA-SE A DIREITA, ESTE GOVERNO ESTÁ PARA DURAR


Por A. M. Galopim de Carvalho
Já vai algum tempo que  não me meto na política nacional.
Sempre que o faço, sujeito-me a comentários discordante dos dois lados do leque partidário, o que é respeitável e bom, revelado de uma liberdade, apreciada, sobretudo, pela minha geração, que sentiu na carne falta dela. Devo dizer que, pura e simplesmente, bloqueei os autores dos comentários desrespeitadores da boa educação.
Eis, pois, o que hoje me ocorre dizer sobre a situação política nacional., depois de uma madrugada a preparar os textos que  coloquei nesta minha página do FB.
“Como nos aviões que, ao ganharem altitude, atravessam a espessa cobertura de nuvens e atingem o esplendor do céu e da luz, acabámos de sair desta escuridão em que, com excepção de uns tantos privilegiados, fomos levados a viver.” Escrevi, em finais de 2015, quando, caiu o governo de Passos Coelho, conduzido sem qualquer sensibilidade social, em submissão a uma União Europeia cada vez mais afastada dos princípios que a fundaram, e sob a conivência do então mais alto magistrado da Nação. Escrevi, ainda que tenho esperança que o governo agora presidido por António Costa vingue e desminta os maus presságios que uns, hábil e interesseiramente, e outros, convicta, alienada e ingenuamente, anunciam.
Respirámos de alívio com o fim de uma governação de má memória que conduziu os nossos destinos entre 2011 e 2015, nos asfixiou e empobreceu, destruindo muitas das nossas valências económicas, a par de escândalos de corrupção descarada e impune e do aumento do número e da riqueza dos ricos. De então para cá assistimos ao ressurgimento da economia e à redução do flagelo de desemprego e ao estancar da emigração de uma juventude que a democratização do ensino qualificou a níveis nunca antes conseguidos.
Alienados pela máquina do poder e ainda marcados por receios antigos, foram muitos os portugueses que não ousam questionar um governo que lhes mentiu, os desprezou e maltratou. Porém, os legítimos representantes da maioria dos portugueses puseram fim a um pesadelo de quatro longos anos. Vitoriosa nas urnas mas sem maioria para governar, esta direita viu o seu programa reprovado no Parlamento,
António Costa e os partidos à sua esquerda que, não obstante as grandes e respeitáveis divergências ideológicas, continuam a dar-lhe o inteligente e sábio apoio, têm sabido manter compostura democrática face aos ataques soezes que não cessaram de lhe serem dirigidos. António Costa, o PCP, o BE e o PEV sabem bem que a direita não perdoa e que, ajudada pela forças que bem conhecem cá dentro e lá fora, têm tentado e vão continuar a tentar o possível e o impossível para derrubar o governo e minar os entendimentos conseguidos.      Foi, por exemplo, no ano passado, a onda amarela, por ocasião do anúncio dos cortes de financiamento aos colégios privados, Foi, este ano, a vergonhosa, consertada e descarada oposição ao governo e ao primeiro ministro face ao drama e à tragédia dos fogos florestais, cujo número, intensidade e extensão permitiram, a muitos, suspeitarem terem sido o resultado de uma acção organizada. Foi o “roubo” de material de guerra em Tancos e o imediato aproveitamento político por parte da oposição. Foram as análises e recomendações (as “palavras duras”, como alguns se lhes referiram) do Presidente da República, quanto a mim necessárias e certeiros, que a direita aproveitou, fazendo dele um aliado, na luta política que a democracia, felizmente, consente. Mas enganou-se. Marcelo tem outros objectivos que não são difíceis de adivinhar e que eu, quase diria, outras certezas. Foi o caso da Legionella pneumophila e das mesmas vozes que logo se fizeram ouvir. Só falta acusarem o ministro Luis Capoulas Santos pela seca extrema que está a afectar gravemente a nossas agricultura e pecuária, e a Ministra Ana Paula Vitorino, pelo mau estado do barco que naufragou ao largo da Figueira da Foz e pela morte de quatro malogrados pescadores.

Todos sabemos que os tempos que se avizinham continuarão a ser difíceis mas, comprovadamente melhores do que os vividos entre 2011 e 2015. Não queremos voltar para trás. Estamos a viver com menos dificuldades e esperança de melhores dias, com um governo que nos respeita e nos tem vindo a restituir a dignidade.

Etiquetas:

1.12.17

NARRATIVA DE VIAGEM E ENCONTROS PELO MINHO COM PERCURSO DETERMINADO MAS SEM FIM À VISTA

Por Joaquim Letria

Esta semana, faço uma interrupção voluntária de… aridez de comentar as ideias de terceiros e de contar as histórias dos outros, a que semanalmente aqui me dedico, Em vez disso, relato-vos uma breve, súbita e inesperada incursão pelo Alto Minho e pela Galiza, difícil de esquecer por tão agradável ter sido.
Foi já a meio da semana que recebi guia de marcha da Direcção do “Minho Digital” para me apresentar no seu território, preparado, sem recalcitrar, a fim de pernoitar no RINOTERRA HOTEL, na freguesia de Seixas, em Caminha e pronto para o que desse e viesse.
Após três vôos rasantes pela Freguesia de Seixas, com o Rio Minho a espreguiçar-se ao lado e o monumento de Santa Tecla a rir-se para mim na margem espanhola, descobri o RINOTERRA HOTEL e, após me certificar do acerto do local, toquei à campainha duma casa senhorial para ver o seu portão de ferro abrir-se silenciosamente e uma jovem morena e bem parecida, Liliana Cunha de seu nome, me dizer que estavam  à nossa espera.
Os vôos rasantes só se explicam pelo facto da Junta de Freguesia e poderes autárquicos de Caminha quererem manter no anonimato um dos melhores hotéis de charme da Europa, que por acaso é este e fica em Seixas, Caminha, Alto Minho.

Porquê? Não sei. É um mistério que faz com que a simples placa com o nome RINOTERRA HOTEL seja uma indicação quase confidencial, escondida entre arbustos,  como se não se entendesse que a qualidade ímpar do local é apreciada e mantida  apenas na esfera  restrita da exclusividade dos que contam, por  ser conhecida somente através duma criptografia quase secreta a que José Luís Manso Preto me deu acesso.
Liliana mostrou-nos onde guardar a bagagem no quarto, uma bela suite com sala ao lado e chão aquecido com os requintes e os pormenores que já observáramos no salão – as figurinhas de biscuit em nichos delicados, gravuras e boa pintura, máscaras do carnaval de Veneza, a beleza da ourivesaria, das rendas e linhos de bordados minhotos , o espaço,  conforto e gosto do mobiliário, livros e revistas em prateleiras acolhedoras—uma  casa de banho quente e confortável. Que pena termos de mudar de roupa e saír…
Foi precisamente à saída, preparávamo-nos para o encontro aprazado com o Director do Minho Digital, que surgiu Angela Martinez, sorridente, loira e comunicativa. Não, muito obrigado mas não queríamos o “chá das 5”. Iamos sair. Sem perda de tempo surge-nos a chef Ana Guimarães, uma jovem cozinheira licenciada em Design de Moda cuja excelência na cozinha justifica a troca do estirador e das tesouras pelos tachos e panelas, e cuja dimensão comprovaríamos no jantar do dia seguinte. Ficámos a saber que ali não há menu. Há apenas conversa rápida: ”Carne ou peixe?!E como gosta? Sim senhor, deixe connosco”.
E saímos. Só na manhã seguinte experimentaríamos o gosto delicado dos pequenos crepes recheados de queijo derretido com amoras, o “porridge” com as compotas de “kiwi” e de “physalis” a adoçarem-nos a boca para todo o sempre e um café e chá e leite de verdade. Repetiria aquele pequeno-almoço pelo resto da minha vida…
No lusco-fusco do crepúsculo divisámos o vulto de um casal e a singela silhueta do Director  do Minho Digital, jornalista José Luis Manso Preto, dos maiores jornalistas de Portugal – em todos os sentidos –paladino da luta  ao narcotráfico e por isso mesmo uma figura estimável e reconhecida em Portugal e Espanha.
 Com poucas palavras seguimos no seu “sedan” para Cardielos onde o seu amigo Sr. José nos aguardava com o seu restaurante “SABORES” fechado ao público  e uma posta mirandesa e um cabrito assado só para nós, regados a brancos e tintos, verdes e maduros.
O casal revelava-se finalmente à luz eléctrica de Cardielos. Uma senhora de superior beleza e inteligência de seu nome Mercedes e ele, o afortunado e simpático marido, D. Eduardo de Céspedes, empresário catalão de nascimento, galego de adopção, residentes em Vigo, ambos  cidadãos e viajantes do Mundo.
Juntar-se-ia ao grupo – eu, minha mulher, José Luis Manso Preto, Sr. José de Cardielos, Mercedes e Eduardo de Céspedes, mais um outro par, ambos provenientes de Viana do Castelo  para tomar café connosco– ela, jovem irrequieta e de boa alma, Sofia Maciel, ele João Carvalho, 2º Comandante dos Bombeiros Municipais de Viana do Castelo. Ela, angariara, reunira e distribuíra centenas de litros de azeite e toneladas de alimentos às vítimas dos incêndios de Pedrogão, ele trabalhara ali todas as férias a ajudar vítimas do fogo, depois de ali ter combatido as chamas, ambos heróis de Viana.
Trocámos muitas histórias, experiências,  memórias,  riso e amizade àquela mesa.  Foi já no regresso a Seixas que recebemos outra incumbência: ir, no dia seguinte, almoçar a Oia, uma vila piscatória na Galiza, a 17 quilómetros de Seixas e do RINOTERRA HOTEL. Deveríamos procurar a CASA HENRIQUETA e falar com  Esteban. A meio da manhã apanhámos o “ferry”. Dez minutos de travessia e estávamos na Galiza. Cedo demais para almoçar, para mais à hora espanhola. Fomos a Tui, a da assinatura da paz que dura até hoje. Regressámos por Vila Nova de Cerveira e A Guarda, logo Oia, o mar a espumar nas rochas, o cheiro a maresia que encontraríamos na santola e no robalo que Esteban nos preparara. A nossa incumbência era comer e regressar a tempo do jantar de despedida no RINOTERRA HOTEL.
 E como foi bom, aquele jantar, a tábua de queijos, o bacalhau com broa de milho que Ana Guimarães preparara! Depois, de manhã, já a meter a mala no carro, conhecemos o proprietário deste feliz hotel : Ilya Serbin, um russo de  corpo bem feito por muitas horas de ginásio, de apurada aparência, calção irrepreensível  e botas de montar imaculadas, de calf castanho, os bíceps a rebentarem as mangas da T-shirt.  Educado, deu para fazermos em pé um rápido tour de horizonte, falar de Putin e eu lhe confessar a minha admiração pelo modo como este estadista vai conduzindo a Rússia  no concerto das nações. Percebi no Sr. Serbin algumas dúvidas inteligentes. Conversar sobre a Rússia, a Europa e o Mundo só poderá ser da próxima vez que eu vá a Seixas ou Ilya Serbin se digne a visitar a Verdizela.
No regresso, por alturas de Cacia, onde fui expressamente comer um bife no churrasco num restaurante de retornados da Venezuela, a minha mulher perguntou-me:
— Afinal, o que fomos fazer ao Minho?!
Respondi:
— Muita coisa! Conhecer o Paraíso escondido que é o RINOTERRA HOTEL em Seixas,  o RESTAURANTE SABORES em Cardielos, a CASA HENRIQUETA em Oia, descobrir gente muito interessante de que o Minho está cheio, encontrar uma verdadeira riqueza. Achas pouco?!
.
NOTA: Ver fotos adicionais [AQUI]
Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

30.11.17

Linguagem e ideologia


Quem se considera democrata não pode condescender com o uso de palavras que, de tão habituais, deixaram de merecer reparo. As palavras tanto servem para exprimir ideias e narrar factos como para ocultar as primeiras e desvirtuar os últimos, ao serviço de uma ideologia.
A condescendência com a designação de Guerra do Ultramar, como referência à Guerra Colonial, ou antigo regime, em substituição de ditadura fascista, revela uma desatenção à reescrita da História. Quem as usa não é inocente, e quem as tolera torna-se cúmplice. É um artifício semântico para branquear a guerra criminosa que a ditadura impôs.
Ultimamente começaram a homenagear-se os “Heróis do Ultramar”, sob a militância da Liga dos Antigos Combatentes e a cumplicidade de sucessivos ministros da Defesa. Não há heróis do ultramar, há vítimas da guerra colonial. Seria, aliás, injusto que nos 14 anos de sofrimento imposto a 510.134 militares portugueses se excluíssem da guerra inútil as vítimas do outro lado, que se bateram pela libertação dos seus povos, e cujo número se ignora. Todos fomos vítimas do mesmo desvario, da demência fascista da ditadura.
Se acaso anuíssemos à retórica fascista, que Portugal ia do Minho a Timor, não teríamos lutado na ‘guerra do Ultramar’, mas numa guerra civil. Partilho o respeito que merece a geração sacrificada com 7.481 mortos, 1.852 amputados, 220 paraplégicos e um número incontável dos que continuam a sangrar por dentro e a dormir em sobressalto.
Houve atos de generosidade, coragem e humanismo na guerra colonial, incluindo os de quem não tinha formação para questionar a guerra e julgava defender a civilização cristã e ocidental, proclamada pela ditadura e corroborada pelo cardeal Cerejeira.
Também houve essas virtudes em soldados de todas as guerras, nas mais criminosas ou infamantes, e não podem ser celebrados heróis nos países derrotados. Portugal também acabou derrotado, “orgulhosamente só”, ou pior, acompanhado dos governos racistas da África do Sul e da Rodésia, como únicos aliados.
Foi a falta de consciência democrática que permitiu a Cavaco Silva dar pensões a pides, condecorar com a Medalha de Comportamento Exemplar do Comandante do Corpo de Fuzileiros de grau Ouro, já em 2010, Alpoim Calvão, que, após o 25 de Abril, liderou o terrorismo fascista, e reintegrar no ativo e elevar a CEMGFA o gen. Soares Carneiro, o candidato do PSD/CDS a PR, derrotado por Eanes, tendo no seu passado o comando do sinistro Campo de S. Nicolau, em Angola.
Quando adormecem os democratas, despertam os fascistas. Na Alemanha já entraram no Parlamento os que exaltam o heroísmo dos militares nazis, durante a guerra.

Etiquetas:

29.11.17

PRIMÓRDIOS DA FILOSOFIA


Por A. M. Galopim de Carvalho
Com boa vontade, podemos admitir que a filosofia interessa a todos. Tanto podem falar dela os académicos, numa linguagem elitista, só a eles acessível, mas hermética para o cidadão comum, como nós, numa exigência mais modesta, ao nível da chamada divulgação.
Todos somos filósofos sempre que procuramos saber ou investigar algo, seja o que for. Tudo é sabedoria, pelo que tudo é filosofia. Mas o conceito académico de filosofia é algo mais profundo, a tratar por quem ganhou estatuto para tal. É uma sabedoria vasta e complexa, com uma longa história, que abarca a universalidade do conhecimento, que o questiona, explora e, tantas vezes, vai à frente dele.
Como filósofo que sou, no estrito sentido de gostar de saber coisas, não resisto a “meter o nariz e espreitar” este maravilhoso domínio do génio humano. Que perdoem os muitos que tratam por tu o discurso filosófico. Não é para eles que escrevo. A eles peço, sim, que me corrijam onde eventualmente possa errar ou ser menos claro ou incompleto. Escrevo para os que não tiveram oportunidade de contactar com os temas que habitualmente divulgo e que, todos os dias esperam estes meus despretensiosos escritos (...)
Texto integral [AQUI]

Etiquetas:

26.11.17

Sem emenda - Os escravos em Portugal: Um Memorial

Por António Barreto
Excelente ideia a da construção de um memorial situado à beira Tejo, entre a Ribeira das Naus e o Campo das Cebolas, locais onde, segundo consta, o tráfico de escravos tinha assento. Não se sabe se a proposta, feita por uma associação, será aprovada e concretizada. Nem qual será a sua forma ou configuração. Mas a ideia é boa. Sobretudo se for mais do que um memorial passivo e inerte. Se for um museu, um local de reflexão ou um centro de referência. Várias instituições desse género, nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Holanda, em Angola e no Senegal, mostram como se pode fazer. Genocídios, holocaustos, massacres, autos-de-fé, deportações violentas, assassinatos em massa, Goulag, campos de concentração e outras formas de exercício de poder e violência devem ser estudados. Para que não se esqueça. Espera-se, aliás, que esta iniciativa tenha melhor sorte do que um projecto de lei de criação de um Museu dos Descobrimentos, a construir na Cordoaria, apresentado há mais de trinta anos e, infelizmente, nunca realizado.
O tráfico de escravos e a escravatura foram, à luz do que somos hoje, fenómenos horrendos que a humanidade conheceu, durante séculos e em quase todas as latitudes. Da Índia à China, do Egipto à Mesopotâmia, de Roma a Berlim, de Lisboa ao Rio de Janeiro e da Costa do Marfim aos Estados Unidos. Centenas de milhões de escravos foram vendidos, comprados e transportados entre continentes e em várias direcções, conforme as geografias. Para estes fluxos de mercadoria humana, Portugal também contribuiu de modo significativo, com especial incidência no tráfico estabelecido entre África e as Américas. Terá mesmo sido, no Atlântico e durante três ou quatro séculos, um dos seus protagonistas e principais beneficiários.
Em poucas palavras, a escravatura e o tráfico de escravos marcaram tempos e povos. Ainda hoje, em certos países africanos ou muçulmanos, há práticas, legais ou não, equiparadas à escravatura. Provavelmente, foi a África o continente que forneceu mais escravos. Segundo os valores morais contemporâneos, o tráfico está mesmo entre os piores traços da evolução da humanidade. Juntamente com os trabalhos forçados, a tortura, o assassinato, o genocídio e a conquista, a escravatura foi mais um capítulo da história que o progresso combateu durante décadas e para o qual foi conseguindo remédios, interdições, castigos e sobretudo condenação moral e jurídica.
O processo histórico foi tal, até ao presente, que a escravatura se encontra erradicada em grande parte do mundo. Na maior parte do mundo, talvez seja possível afirmar. A libertação dos escravos, a abolição da escravatura e a emancipação dos servos e escravos transformaram-se mesmo em objectivos centrais dos defensores do progresso e do melhoramento dos povos. A abolição da escravatura está a par de outros grandes movimentos da humanidade como os direitos humanos e a igualdade. Tal como a democracia, a cidadania e a liberdade religiosa, a escravatura e a respectiva abolição merecem um memorial.
Se for, evidentemente, um memorial que explique, que dê contexto e enquadramento, que informe, que nos ajude a compreender. Não um memorial que se limite a condenar os negreiros e os Portugueses… Não um memorial de autoflagelação que, por razões de oportunismo histórico e demagogia política, pretenda afirmar que o colonialismo dos Portugueses foi mais cruel do que o dos outros, que o racismo dos Portugueses é pior do que o dos outros, que a escravatura dos Portugueses foi mais hedionda do que a dos outros, que a escravatura organizada pelos europeus e pelos brancos foi mais dolorosa do que a dos Árabes, dos Chineses, dos Indianos ou dos Africanos… 
E também não um memorial que, conforme sugerido por alguns proponentes, terá de ser feito por artistas africanos ou descendentes de africanos… Isso é racismo! Puro e simples!

DN, 26 de Novembro de 2017

Etiquetas: