19.9.14

O que será um "não" de Londres a Madrid?

Desculpas de mau pagador

Por Antunes Ferreira
ESTA SEMANA entrámos na fase das desculpas dos (des)governantes. Na quarta-feira foi a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, que pediu desculpa pelos "transtornos" resultantes dos problemas detectados na plataforma informática Citius e garantiu que serão apuradas responsabilidades.
Paula Teixeira da Cruz disse "assumir integralmente a responsabilidade política" pelos "transtornos" registados na plataforma, mas negou que estes tivessem causado o "caos" nos tribunais. E garantiu que tinha recebido informações de que a 1 de Setembro, data da entrada em vigor do novo mapa judiciário, o Citius estaria em condições de funcionar em pleno.
Quanto às anomalias técnicas verificadas no Citius, a ministra assegurou que "haverá um processo de averiguações porque não há ninguém irresponsável" e que serão "apuradas as responsabilidades até ao limite", mas insistiu que "não houve qualquer caos" e que essa teoria só pode ter partido de pessoas que "são contra a reforma" ou que estão de "má fé".
Questionada sobre para quando o restabelecimento da normalidade da plataforma informática, a ministra não se comprometeu com qualquer data, afirmando, contudo, esperar que os problemas sejam resolvidos o mais breve possível.
Num país a sério e sério um governante que reconhecesse que um tal erro corresponderia à apresentação de um pedido de demissão. Porém em Portugal não é assim. Sobre a eventualidade de se demitir, a titular da pasta da Justiça disse que "tem sempre o lugar à disposição", mas que, "numa altura de dificuldades", a sua prioridade é "resolver os problemas" da plataforma.
Após as declarações da ministra, Rui Mateus Pereira, presidente do Instituto de Gestão Financeira e dos Equipamentos da Justiça (IGFEJ), disse ter sido ele a garantir a Paula Teixeira da Cruz que a 1 de Setembro o sistema estaria apto a funcionar. "O que se passa é que a plataforma com a sobrecarga de dados acabou por não corresponder às exigências", explicou. E adiantou que, além dos 3,5 milhões de processos que foram migrados para o Citius, houve 80 milhões de documentos e 120 mil milhões de actos processuais enviados para a plataforma.
De desculpas em desculpas por ordem regredidativa  de funções todos os intervenientes sacudiram a água dos respectivos capotes e de degrau em degrau ver-se-á que no fim da escala regressiva, quem se irá tramar será um “técnico” Mas, entretanto o presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais disse que os tribunais estão num situaçõ impossível devido aos problemas do Citius. Não querem chamar-lhe caos, chamem-lhe confusão, pandemónio, enfim.. E acrescentou eu era provável que a ministra não tivesse entrado num tribunal há quinze dias, porque, se o tivesse feito, veria a situação com que se confrontavam.

Por seu turno, o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, assumiu na tarde de quinta-feira que “houve uma incongruência”, “na harmonização da fórmula” com base na qual foram ordenados milhares de professores sem vínculo, que começaram a ser contratados pelas escolas na segunda-feira passada. “Peço desculpa aos pais, aos professores e ao país”, disse, na Assembleia da República, ao assumir o erro. Ao fim da tarde, soube-se que aceitou a demissão do director-geral da Administração Escolar, Mário Agostinho Pereira.
Em causa está a fórmula matemática utilizada pelo MEC para criar as várias listas de contratação, nas quais milhares de docentes estão ordenados por ordem decrescente. Nos restantes concursos a lista está ordenada com base na graduação profissional. Neste, designado por Bolsa de Contratação de Escola (BCE), a legislação determina que a classificação é feita com base na graduação profissional (com a ponderação de 50%) e na avaliação curricular.
O ministro, que falava na Assembleia da República num debate de actualidade agendado pelo PSD a propósito do arranque do ano lectivo, assumiu a existência de "um erro", com “implicações jurídicas”. E sublinhou que os deputados estavam a assistir “a uma coisa que não é comum na História, que é um ministro chegar ao parlamento e reconhecer a responsabilidade por uma não compatibilidade de escalas, e um ministro assumir que o assunto vai ser corrigido”, disse. O erro, explicou, "é um aspecto não apenas matemático ou aritmético, mas que tem implicações jurídicas, e que precisa de ser visto não só de um ponto de vista quantitativo e lógico, mas também à luz da legislação existente".
Por certo não se recordou dos casos Walter Rosa e Jorge Coelho que tiveram a hombridade de pedir a demissão face a casos que não sendo da sua responsabilidade objectiva, mas que aceiram como responsabilidade política; para não falar da ocorrência anedótica do ministro Manuel Pinho verificada na Assembleia da República; Pinho também se demitiu por mor do caso que ficou conhecido como caracol põe  os corninhos ao Sol. A uni-los uma característica comum: todos eles eram do Partido Socialista.
Cada um desculpa-se como pode; são as desculpas de mau pagador que neste caso é o (des)Governo que descredibiliza a afirmação que o Estado é pessoa séria deve pagar a quem deve. 

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18.9.14

A Escócia ganhou um grande discurso

Por Ferreira Fernandes 
Quem gosta de saber do mundo deveria reservar 13 minutos do seu tempo para ouvir o discurso de Gordon Brown, ontem, em Glasgow. Se calhar, o voto de hoje dos escoceses, a ser "sim" à independência, varrerá esse discurso, tal como Churchill foi apeado em 1945 depois de ter ganho a guerra; se o voto for "não", o discurso será lembrado como o momento-chave, aquele que decidiu a continuação do Reino Unido. Em qualquer dos casos, o discurso merece atenção futura, por tanto tempo quanto perdurar o interesse dos homens pelo exercício do bem falar dos políticos. Querendo estes convencer-nos, e na democracia é pela palavra que o fazem, então que o façam com estilo e paixão. Aconteceu ontem com o trabalhista Brown, na esteira do que algumas vezes aconteceu com o conservador Churchill. Como a política é utilitária, os grandes discursos merecem momentos decisivos. E os momentos decisivos e graves anseiam por políticos capazes de se mostrarem líderes. Pois bem, o momento crucial por que passa a Grã--Bretanha teve ontem quem o merecesse. Foi o escocês e ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown que falou como deve ser, no tom e na mensagem. Lembrou: "O que [os escoceses] conseguimos foi muito e não foi fora do Reino Unido, mas dentro do Reino Unido." E: "O que nós escoceses fizemos foi sem sacrificar na união a nossa identidade, cultura e tradição de escoceses." Vão partir? Seja, ficarão todos mais fracos, como os que escolhem mal. 
«DN» de 18 Set 14

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Terrae adquae Solis filiae

Por A. M. Galopim de Carvalho
Se não erro, a expressão latina Terrae adquae Solis filiae quer dizer “as filhas da Terra e do Sol”, uma maneira alegórica de referir as rochas sedimentares, cujo estudo atingiu níveis de especialização que justificaram o aparecimento de uma nova disciplina a que, em 1932, o sueco Hakon Adolph Wadell (1895-1962) deu o nome de Sedimentologia, Nesta visão alegórica, pode dizer-se que, fecundada pela radição solar indutora dos processos geológicos e biológicos próprios da sua capa externa, a mãe Terra dá nascimento a esta outra categoria das suas criações. Estas rochas trazem consigo, não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas e, muitas delas, ainda, a data do seu nascimento. Armazéns ou arquivos de vultuosa informação, o seu estudo tem-nos permitido conhecer grande parte das histórias da Terra e da Vida.(...)
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O GES, o BES, o BPN, o Banif, o BCP e as desgraças que nos esperam

Por C. Barroco Esperança
Rui Rio, para fazer prova de vida, afirmou nesta última terça-feira que era impagável a dívida portuguesa e inexequível o memorando de entendimento, salvo se o crescimento económico atingisse níveis absolutamente imprevisíveis.
Não é preciso um curso de economia para uma profecia ao alcance de um guarda-livros por correspondência. Só um Governo autista, com a missão de desmantelar o Estado, de modo a que nunca mais possa cumprir as suas funções sociais, é capaz de afirmar que o País está melhor, apesar de os portugueses estarem pior. (...)
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17.9.14

Sol & Sombra

Por José António Lima
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SOL
João Marques Vidal
Ficou evidente, com a leitura do acórdão e das sentenças do processo Face Oculta, que os juízes do Tribunal de Aveiro confirmaram no essencial a excelência da investigação judicial e da análise criminal que fora liderada por este procurador de Aveiro (agora à frente do DIAP de Coimbra) e pelo inspector da PJ Teófilo Santiago. Só faltou que tivessem a mesma comprovação e sequência judicial as certidões que então extraiu e incriminavam o primeiro-ministro da altura, José Sócrates. Mas a qualidade e a coragem da investigação do caso Face Oculta, face ao poder socrático então todo-poderoso, ficarão como momento alto da sua carreira.
Carlos Moedas
É obviamente uma pasta de segunda linha da Comissão Europeia a que lhe calhou em sorte no elenco Juncker (na qual terá mesmo que reportar a uma vice-presidente). Mas depois de 10 anos com a presidência de Barroso na Comissão seria sempre difícil a Portugal manter um estatuto de primeira grandeza. E a pasta da Investigação, Ciência e Inovação, além do tão falado superorçamento de 80 mil milhões, é uma oportunidade para o promissor ex-secretário de Estado Adjunto de Passos Coelho se tornar uma figura influente em Bruxelas.
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SOMBRA Paulo Bento
Ironicamente, quatro anos depois, é forçado a abandonar a liderança da Selecção quase nas mesmas circunstâncias que o seu antecessor Carlos Queiroz em 2010: logo após o começo desastrado de um grupo de apuramento para o Europeu. Entretanto, conseguiu duas qualificações sofridas de Portugal e os seus momentos altos foram chegar à meia-final do Euro-2012 e o inesquecível play-off com a Suécia (graças a uma enorme exibição de Ronaldo). O ponto mais baixo foi esta derrota impensável em casa com a Albânia. Mas o problema da Selecção reside mais na falta de qualidade da base de recrutamento de jogadores para a necessária renovação da equipa nacional do que nas capacidades deste ou doutro seleccionador.
Armando Vara
Com o seu amigo Sócrates no Governo subiu alto no mundo empresarial e financeiro, da CGD ao BCP. Mas nunca se livrou da imagem de ser mais um comissário político e um gestor de influências do que um administrador respeitado - e a sentença do processo Face Oculta só veio confirmar essa ideia.
«SOL» Set 14

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As primeiras reguadas

Por A. M. Galopim de Carvalho
A escola de São Mamede, em Évora, era húmida e gelada no Inverno. Muitas crianças descalças levavam um pedaço de cortiça para não porem os pezinhos no ladrilho. Era uma escola só para rapazes, pois nesse tempo havia separação de sexos nestes e noutros estabelecimentos de ensino. Nas escolas femininas só havia professoras, mas nas masculinas havia professoras e professores, alguns deles, mais do que elas, particularmente severos. Por não se saber a lição, errar uma conta, dar erros no ditado ou por qualquer violação da disciplina, apanhavam-se reguadas a sério, muitas vezes, meia dúzia em cada mão e, às vezes, mais. Foi interiorizando medos, não confessados, que dei entrada na Escola de São Mamede em 1940. Adeus bons tempos de menino a aprender as primeiras letras no carinho da mãe e no aconchego da casa, à braseira nos meses de inverno. (...)
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O pântano

Por Baptista-Bastos
Circula o rumor, astutamente organizado, de que António Guterres é um bom candidato à Presidência da República. Não o é. À menor contrariedade foge espavorido, como se viu quando perdeu as eleições municipais, e refugiou-se num chamado Alto Comissariado para os... Refugiados. É sempre assim: começa com um rumor, prossegue com um grupo de "notáveis" a apoiar, segue-se um abaixo-assinado, e as coisas vão rolando, a bel-prazer do contemplado.
Contrario, abertamente, esta estratégia, por muito ardilosa que os seus mentores a hajam congeminado. Guterres está longe de ser o homem que o momento exige. Carece de carácter, é um espírito flébil, pouco consistente e indeciso. Estou à vontade: votei nele, burlado pela paixão que, então, dizia "devorá-lo": a educação. Revelou-se habilidoso no uso do idioma, mas inútil, manietado e medroso como primeiro-ministro. Designou o País de "pântano", por não estar à altura das circunstâncias imprevistas. E demonstrou ser ressentido, rancoroso e vingativo, quando saneou Vasco Graça Moura das funções de comissário para as Comemorações dos Descobrimentos, porque o escritor criticava, publicamente, a política do Governo. Acontece que Graça Moura realizava um trabalho magnífico, a justificar o prémio e o elogio e não o olho da rua e a execração. Na altura, verberei a condenação absurda, injusta e muito pouco democrática, e deixei de apertar a mão ao saneador, que teve o descoco de afirmar que perdera a "confiança política" no saneado.
Conheci António Guterres no escritório de João Soares Louro, na Cinevoz, onde trabalhei uns meses. Ali se reuniam, periodicamente, alguns socialistas conspirativos, enquanto eu me divertia um pouco e devagar. Guterres usava um bigode hirsuto, pouco convincente e perlado de gotas de suor, que limpava com pressurosa persistência. Possuía aquela forma patusca de falar que ainda mantém, que me suscitava alguma ironia. "Ria, ria; mas ele ainda vai ser primeiro-ministro", comentava Soares Louro. Como revelei, acabei por votar nele, fui enganado, fiz o que tinha a fazer, não oculto um certo desdém que por ele embalo, e não encontro nenhuma virtude que o recomende à Presidência.
O rumor organizado que pretende propô-lo constitui uma manobra de interesses marcada por tudo menos pela vocação de servir o País. E o apagamento ao nome de Manuel Carvalho da Silva, um nome que surgiu com a evidência oposta à rotina e aos jogos tenebrosos de poder, é mais um sintoma das características sombrias dessa moscambilha.
A questão não reside no ardil: pior do que Cavaco é impossível. A questão é de honra, de decência - ou, se quiserem, de patriotismo. Portugal não é um pântano, e os portugueses não são degraus para ambições, essas, sim, pantanosas.
«DN» de 17 Set 14

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16.9.14

Pergunta de algibeira

Durante quantas noites Xerazade entreteve o sultão Xariar, contando (a ele e a Dinazarde) as histórias que vieram a ser conhecidas como «As 1001 Noites»?
Actualização: 
Curiosamente, a seguir à 236ª noite ainda há umas 3 dezenas de histórias, pelo menos na colectânea de Gallant.

Voltando ao calafrio nas costas

Por Ferreira Fernandes 
Parece bater sempre na mesma tecla, e é. Tenho o pescoço sensível e, sim, volto ao Estado Islâmico. Temos, então, o referendo na Escócia, na próxima quinta. O primeiro-ministro britânico David Cameron disse que a independência escocesa não seria um convite para tomar chá mas um "divórcio doloroso." E insistiu que o "sim" à independência seria um ato irreversível, seria "para todo o sempre." Reparo que Cameron não lembrou um dos factos deste referendo: a decisão sobre a unidade será tomada por uma só parte, os residentes na Escócia. Como eu já disse aqui, um português que não saiba quem foi Livingstone, nem queira saber, e viva em Edimburgo há três anos porque a empresa belga o lá colocou, pode votar. Já um inglês e um escocês que vivam em Londres não podem votar, apesar da decisão lhes dar a dor de perderem, a um a Escócia, a outro a Inglaterra, partes da sua vida, memória e cultura. Temos, pois, para voltarmos à imagem de Cameron, um divórcio litigioso em que a parte que decidiu partir é que decide unilateralmente, sem recorrer à arbitragem de um terceiro, um juiz, como prudentemente os casamentos de pessoas se deram para acabar o melhor possível. Quer dizer, a haver saída da Escócia, não haverá melhor possível. Será rutura de consequências incontroláveis e imprevisíveis, como foi o fim da URSS. Logo, o melhor exército europeu, o britânico, acaba. Logo, o meu pescoço está mais frágil. Como eu disse, volto à minha tecla.
«DN» de 16 Set 14

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15.9.14

Publicitando a privatização dos CTT?

Um erro é um erro e isso não é pouco

Por Ferreira Fernandes 
Há dias, na crónica "O caso da Rainha que se fechou em copas", citei uma frase de João Ferreira do Amaral, que escreve regularmente no blogue 31 da Armada. Para situar o autor, eu disse que João Ferreira do Amaral, em coautoria com Francisco Louçã, escrevera um livro sobre o euro, há pouco lançado. Depois, dediquei-me ao assunto, isto é, demonstrar que ao recusar dar opinião sobre o referendo da independência da Escócia a Rainha Isabel II não merecia ser felicitada como o era na citada frase ("Talvez não exista maior exemplo do que deve ser um chefe de Estado, sempre acima do jogo político...") Ora, há este porém: João Ferreira do Amaral do blogue não é João Ferreira do Amaral do livro. Já sabia que nos blogues era preciso contornar o escolho do pseudónimo, fiquei a saber do necessário cuidado com a homonímia. Mas esse é um problema meu, não dos leitores e, sobretudo, não é de quem viu atribuída a si uma frase que não era sua. Não foi o professor João Ferreira do Amaral, autor de A Solução Novo Escudo, que escreveu aquela frase. Logo, quaisquer que sejam as razões que me levaram ao erro, o essencial é que houve erro meu. O professor João Ferreira do Amaral foi, por mim, metido numa história com a qual não tinha nada que ver. Peço-lhe desculpa. 
Outro assunto, menor: Francisco Louçã escreveu um texto no Público, intitulado "Bastava um minuto de trabalho, caro Ferreira Fernandes". Louçã escusava de pôr "caro", ambos sabemos ser falso. 
«DN» de 15 Set 14

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14.9.14

Casa dos Segredos e Estado Islâmico

Por Ferreira Fernandes 
O Estado Islâmico está a tornar-se Casa dos Segredos. Não há dia em que um Fábio, de kalashnikov, e uma Ângela, dum só queriducho barbudo, não nos entrem em casa. Despertando a Teresa Guilherme que dorme em cada um, os jornalistas, por twitter, vão sabendo o essencial sobre a alentejana do deserto ou o rapaz de Tondela especialista de fogo de artifício. Ela levou ingredientes para cozinhar - na última ligação à casa mais famosa de Portugal soubemos que foi maionese, ketchup... Olha, o kechup é difícil de encontrar na Síria! Se calhar é porque lá não se usam efeitos especiais. Já o rapaz dos foguetes deu há meses uma festa feérica, das melhores da região (é sabido, lá fora os nossos emigrantes dão cartas). Não foi como o fogo de artifício maricas das Festas da Senhora do Alívio, pipocando às mijinhas. No Estado Islâmico o rebentar é só um instante mas ouve-se melhor. Em Tondela, apanham-se as canas; por lá são uma perna aqui, um baço ali... Espetáculo! Mas ficou por saber: e bacalhau? Têm saudades de bacalhau, os nossos portuguesitos do Estado Islâmico? Para a próxima ligação de twitter, há que sacar essa informação chave - Teresa Guilherme, a original, falhava lá ela isso. Outra crítica, na Casa dos Segredos, a original, espreita-se debaixo dos lençóis; nesta, nada sob o hijab. Estou mortinho por pedirem o meu voto: não quero que nenhum concorrente venha para casa mais cedo. Aliás, prefiro que não voltem nunca.
«DN» de 14 Set 14

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Luz - Porto e litoral urbano de Cartagena de las Índias, Colômbia.

Fotografias de António Barreto- APPh
Clicar na imagem para a ampliar 
Este porto de mar, com antigas tradições, é ainda um dos principais da América Latina. A cidade teve uma história tormentosa, atravessou mesmo períodos de total ruína, no meio de guerras independência. Neste porto, por entre as estruturas tecnológicas, os guindastes e os contentores, também se encontram barcos de recreio, muralhas e fortalezas com três ou quatro séculos e edifícios muito modernos. Estamos ainda muito longe dos portos especializados com separação de actividades (comércio, transporte, passageiros, habitação, turismo, lazer…). Talvez não seja muito “rentável” nem “competitivo”. Mas lá que tem mais graça… (2013)

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PEDRAS DISTO, DAQUILO E DE MAIS ALGUMA COISA (3)

Por A. M. Galopim de Carvalho
Conhecidas de um tempo antigo, em que, como se disse atrás, não se distinguiam os minerais das rochas, as pedras preciosas (diamante, safira, rubi, esmeralda e a pérola) e as que, comparativa e popularmente, se designavam por pedras semipreciosas (turmalinas, granadas, ametista, topázio e muitíssimas outras), são hoje, todas elas, referidas por pedras preciosas ou gemas. Gema é um termo que, na Antiguidade latina, Plínio, o Velho (23-79 d.C.) usou no mesmo sentido e que Camões lhe alude, no canto VII dos Lusíadas, sendo, ao que se julga, a primeira vez que, entre nós, a palavra foi usada neste contexto.
No domínio gemológico são várias as expressões comerciais. (...)
Texto integral [aqui]

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13.9.14

Bem a propósito da crónica anterior

(Uma boa sugestão de Nuno Rogeiro, no Facebook)

A atração fatal pelo pequenino

Por Ferreira Fernandes 
Foi um economista, E. F. Schumacher (1911-1977), britânico de origem alemã, que popularizou uma das frases que, dizem, mais influenciaram os tempos modernos: small is beautiful. A indústria informática com empresas tantas vezes nascidas em garagens ajudou a sustentar essa imagem romântica de minimalismo. Mas a verdade é que esse gosto pelo pequenino afogou-se num gigantismo que impressionou tanto mais quanto foi protagonizado por miúdos adolescentes (o Mark Zuckerberg do Facebook, o Larry Page do Google...) que num fogacho se tornaram potentados que fazem os Rockfeller de antigamente parecer pequenos burgueses. Então, o small is beautiful já era? Não, mudou de ramo. Foi para a política. A Bélgica, exemplo clássico, não suporta a sua vastidão, parta-se em dois! Já a Checoslováquia não aguentou nome tão comprido. Agora, dois médios países de um atarracado continente deram em sufocar na sua grandeza. A Grã-Bretanha acreditou que era mesmo grande, e está em vésperas de deixar ir a Escócia. A Espanha faz dois com a Catalunha (e amanhã fará três, e quatro...) Eu desde que ouvi os de Sendim, a meia dúzia de quilómetros de Miranda do Douro, garantindo que o seu sendinês não tem nada que ver com o mirandês, percebi: a atração pelo pequenino é fatal. Amanhã, os à volta da Europa mostrarão a estes indígenas como isso de ser pouco pode ser beautiful, mas é perigoso.
«DN» de 13 Set 14

12.9.14

Paulo Bento: quo vadis?

Por Antunes Ferreira
NA QUINTA-FEIRA passada a notícia do dia foi a rescisão “por mútuo acordo” do contrato que ligava Paulo Bento à Federação Portuguesa de Futebol, o que em termos menos codificados quis dizer que ele deixou de ser o seleccionador nacional. Para segundo lugar passaram a guerra na Ucrânia, os crimes hediondos dos jihadistas, a fundação de um novo partido por iniciativa de Marinho Pinto, os debates Costa-Seguro (ou Seguro-Costa para não ser considerado parcial) e mais que me dispenso de enumerar. Até as Notícias Google abrem com o divórcio no futebol nacional.

Aponta-se o novo timoneiro para a selecção que, depois do descalabro verificado na Copa do Mundo do Brasil, fez o pior resultado dos lusos, perdendo com a Albânia e em casa, mais precisamente em Aveiro. Uma vergonha nacional - disseram críticos da especialidade e outros que vieram comprovar a afirmação calina de que os portugueses são os melhores treinadores e experts em futebol no sofá.
Se algumas dúvidas houvesse sobre a importância do “Desporto Rei” (a que alguns chamam chuto na canela) no Mundo e por isso também em Portugal elas soçobrariam nesta ocasião. De resto, já no tempo salazarento o ditador de Santa Comba Dão percebeu que o futebol era o melhor derivativo para as enormes dificuldades e deficiências do Portugal da “Casa Portuguesa”. O povo que (quase) sempre tem razão disse sem meias tintas “pobretes mas alegretes”.
Este nosso país que era nesse sinistro período do “Estado Novo” (curiosamente hoje há um Novo Banco e isto resulta apenas da associação de vocábulos feita pelo autor do escrito) conhecido pela terra dos três F: Fátima, Futebol e Fado, não tem emenda. Se se fala de algum assunto, se se discute a propósito, se se engalfinham sujeitos tudo resulta do futebol. E se calhar alguns dos crimes de sacho ou machado não são tanto por ciúmes ou por diferenças de propriedades pelas quais passa o mesmo riacho. Vendo bem as coisas a futebolite também deverá contar como motivo para tais procedimentos.
Entretanto a curiosidade popular quanto ao famigerado caso BES/Novo Banco é mais centrada no facto do Cristiano Ronaldo ser a face da publicidade da cabeça do polvo de Ricardo Salgado. Fazendo jus ao que por aí corre, Judite de Sousa – honra feita pela força de mãe amargurada e pelo profissionalismo – na entrevista que fez ao Melhor Jogador do Mundo e da Europa pôs-lhe a questão a que o futebolista respondeu com habilidade.
Esse sim, esse foi um momento que deu motivos para se abordar com satisfação o futebol português. Com satisfação e orgulho diria eu. Toda a entrevista dividida em duas partes veio demonstrar que Judite de Sousa fez um tremendo esforço para um sorriso deslavado em alguns dos momentos mais engraçados. Mas também veio confirmar que o craque madeirense melhorou – e de que maneira – na forma de se expressar com um português muito aceitável num jogador de futebol. Por isso aplaudi os dois e dei-lhes os parabéns pela maneira com que se comportaram frente às câmaras televisivas.
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Creio que tenho alguma legitimidade para assim dizer. Quando o Cristiano Ronaldo veio da sua ilha para o Sporting, assisti à conversa/entrevista feita pelo António Castro chefe do “Desporto” do Diário de Notícias. O jovem metia as mãos pelos pés e vice-versa nas pretensas respostas (?) que dava ao jornalista. E para mim pensava que sendo considerado um jovem diamante futebolístico no modo de estar em campo, precisava de ser lapidado. E, pelos vistos, foi.
Mas, o relevo da comunicação social, na quinta-feira foi muito maior do que o concedido a uma entrevista que considero um dos bons momentos da televisão em Portugal. A saída de cena de Paulo Bento pela porta do cavalo teve uma repercussão muito maior. E a pergunta logo surgiu: Bento: quo vadis? No fundo, este pobre país tem hoje não três mas quatro F: Fátima, Futebol e Fado, a que se deve acrescentar Futuro. O que, como diz o Chico Buarque (e neste particular do último F) a coisa está preta.

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Uma grande história de amor

Por Ferreira Fernandes 
Eis uma história de amor destes dias. Um amor com história é sobre corações partidos, ou quase. Três ingleses de Westminster, Dave Cameron, Nick Clegg e Ed Miliband, cobrindo todo o arco britânico (um conservador, outro liberal e o terceiro trabalhista), unidos pela mesma amada, Escócia, partiram esta semana à procura dela. Estes modernos cavaleiros da Távola Redonda não iam nem para tirar a Excalibur da pedra, nem pelo sonho do Graal. Os tempos da glória e das conquistas eram passado, o que os movia era a paixão. Se cavaleiro os inspirasse, não seria o rei Artur, Galahad ou Perceval, os da espada, mas Sir Lancelote, o amante da rainha Guinevere. Ou, invertendo territórios, inspirava-os John Bull, o criado que sempre usou kilts, a saia escocesa das Terras Altas, e que consolou e amou a Rainha Vitória quando ela ficou viúva, e que praguejava nos palácios de Windsor e Balmoral, louco pela segurança da amada. Os nossos três cavaleiros, Dave, Nick e Ed, partiram para dizer o mesmo à sua Escócia: que a amavam perdidamente. Dave lembrou que Escócia não decidia agora como das outras vezes, "quando estava farta dos effing conservadores e dava-lhes um pontapé", simples protesto. Agora, se ela partia, deixava-os de "coração partido", e de vez. Por isso, Dave, tão bem educado e até é conservador, disse "dos effing [fodidos] conservadores", ousando praguejar como John Bull. É assim que a Grã-Bretanha é grã, e espero que continue grande.
«DN» de 12 Set 14

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11.9.14

O caso da Rainha que se fechou em copas

Por Ferreira Fernandes
João Ferreira do Amaral, que quer sair do euro com Francisco Louçã (escreveram juntos A Solução Novo Escudo), é monárquico. Se ele defende o tema monetário tropeçando como o faz com a Rainha Isabel II, Louçã vai ter de puxar sozinho pelo escudo. Isabel II, que é Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha, o que quer dizer, entre outros, da Escócia e da Inglaterra, avisou esta semana os políticos: não me metam no debate do referendo. No próximo dia 18, a Escócia vota "sim" ou "não" à independência. Isto é, decapita ou não a Grã-Bretanha. E sobre isso a Chefe do Estado, Isabel II, lava as mãos. Ferreira do Amaral maravilhou-se com a atitude: "Talvez não exista maior exemplo do que deve ser um chefe de Estado, sempre acima do jogo político..." Já houve tempo em que os monárquicos davam como mérito dos reis o de unir os povos. Isabel II encanta Ferreira do Amaral por se estar nas tintas para isso. O importante é que continue Rainha da Escócia e Rainha da Inglaterra. A monarquia britânica, se o referendo der para o torto, vai reciclar-se em nichos de mercado em vez de grandes empresas. Sorte a delas, monarquia e Isabel. E com a coroa sem estados de alma, "sempre acima do jogo político..." Sobre o novo escudo, não sei, mas esta nova monarquia não me convence. Assim como assim prefiro a velha, quando os reis para justificar o posto andavam à espadeirada. É certo que não era acima do jogo político, era mergulhado nele. 
«DN» de 11 Set 14

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Justiça, emoções e preconceitos

Por C. Barroco Esperança
O referendo é um instrumento democrático inquestionável, no campo dos princípios, e perigoso na sua aplicação. Imaginem-se os resultados de um referendo sobre o aumento de impostos ou sobre a pena de morte, este realizado na sequência de uma notícia sobre a violação, tortura e morte de uma criança por um tarado sexual.
Basta recordar como foi legitimada, em Portugal, a Constituição Política de 1933, para sermos atingidos por um arrepio, embora, no caso, as abstenções fossem votos a favor. (...)
Texto integral [aqui]

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10.9.14

Não vou discutir a baixa do IVA, não

Por Ferreira Fernandes
Há dias, saía eu do Hospital de Santa Maria para apanhar táxi, quando ouvi: "Olá, amigo!" De um carro estacionado, um jovem estendia-me a mão. "Há quanto tempo... Não me está a reconhecer...", disse ele. Continuei dubitativo. E ele, tirando o boné: "Está a ver? Sou a cara chapada do meu pai, você ia tanta vez lanchar com ele! O Pereira... Pereira da Silva, talvez o conhecesse como Silva. Já se lembra?" E eu: "Não me lembro. Bom-dia!"... Já fui mais rápido a reagir ao conto do vigário em fase preparatória. Um dia, no Leblon, íamos eu e a minha filha, ainda garota, felizes no primeiro dia dela no Rio. Um vendedor de lotaria deixou cair no passeio, de forma dissimulada, um bilhete de lotaria. A miúda ia apanhá-lo e devolver, quando a impedi. Chamei o dono, mostrei-lhe o bilhete e cortei o começo de conversa que já ia na oferta de alguma coisa pela minha simpatia... 
Sei porque me lembro disto agora, ouvi o debate, ontem, das primárias no PS. Ouvi Seguro a dizer: "E sabes porquê, António?" E dizer: "Naquele tempo havia solidariedade!" E: "O que fizeste ao PS?" Já aqui o disse: não gosto de Seguro. Não é por esta ou aquela linha política. E nem é por essa coisa que salta nos políticos quando falta, o carisma. É pela cara mesmo. O falso afeto. Isto é, por uma razão política maior. Se ele chegar a primeiro-ministro e encontrar o ministro alemão Schäuble, não quero vê-lo a debruçar-se e perguntar: "Então, como vão as perninhas?"
«DN» de 10 Set 14

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No Reino do Absurdo

Lagos - uma cidade onde os direitos dos peões não são espezinhados... porque nem sequer existem.

Portugal nebuloso

Por Baptista-Bastos
Os equívocos e as omissões parecem ter carta-de-alforria na sociedade portuguesa. Vive-se do aspecto, tudo aparentemente "natural", porque as nebulosas não são esclarecidas, e os comentadores que tinham obrigação de as clarificar não o fazem por incompetência, porque são estipendiados ou por medo. Se é preciso coragem para ser velho, como diz a Isaura, para ser velho em Portugal a coragem terá de ser dupla ou tripla.
Há pouco tempo, o Dr. Cavaco afirmou que não havia motivos para os clientes do BES terem sobressaltos. O vulcão já estava activo e, de certeza, muita gente sabia o que se passava no subsolo. O desmoronar do império financeiro foi, pelos vistos e ouvidos, um espanto para o Dr. Cavaco, cuja tranquila persuasão encaminhara milhares de portugueses para os abismos da desgraça.
Veio agora o pobre homem dizer à puridade que ninguém, nem Governo, nem os sábios com que se rodeia, nem o governador do Banco de Portugal, lhe chamara a atenção para o ruído vulcânico já pressentido. A inépcia do Dr. Cavaco, que, em certa ocasião, declarou não perder tempo a ler jornais, e raramente se enganava, tem, como testemunho histórico, a farsa em que vive e nos obriga a viver.
A sua ignorância, neste gravíssimo caso, e o silêncio ou as frases dúbias com que a ele se refere é mais um triste e nefasto episódio da tragédia portuguesa. Um Presidente deste género, um Governo tal assim, uma comunicação social que se perdeu em devaneios líricos, e que converteu em fazedores de opinião umas criaturas que não estão ali para explicar (como dizia o Chacrinha no Brasil) mas para complicar, deviam ser apontados à execração e alvitrados como delinquentes de lesa-pátria.
O País está de pantanas, já se fala abertamente no abandono do euro, e que o euro (com provas provadas) só beneficiou a Alemanha, e há por aí um ou dois grupos de lúgubres humoristas que gozam connosco tocados de leviana impunidade. Ridendo castigat mores (A rir castigamos os costumes) transformou-se numa cegada improvável e numa galhofa desprovida de sentido. Não é dilucidada a raiz oculta dos acontecimentos que nos afectam; as privatizações obedecem a critérios brumosos; surgem rios de dinheiro, de procedência calada para aquisição de empresas; poderosos escritórios de advogados envolvem-se nestes e em outros negócios - e nós somos colocados perante factos consumados, como rebanhos resignados e sem voto na matéria. A democracia de troca de favores funciona, e um pequeno grupo enche os bolsos de dinheiro, com a aquiescência de quem, na imprensa e nas televisões, capitula na missão de informar, explicar e combater. O País precisa, urgentemente, de uma barrela que expurgue as nódoas que o tornaram este amontoado de negócios sórdidos. 
«DN» de 10 Set 14

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9.9.14

E ele ainda exige benefício da dúvida

Por Ferreira Fernandes
Paulo Bento disse: "Se no final da primeira jornada colocamos já tudo em causa, não me parece que seja o melhor caminho." Mas não o disse na posição em que devia: escanhoando-se, frente ao espelho e com a vergonha dos profissionais que sabem ter falhado tanto. Patrão de uma equipa que a FIFA coloca em 11.º lugar do ranking mundial, Bento perdeu em casa com a Albânia, do 70.º lugar. Um ranking não é ciência exata, viu-se em Aveiro, mas também não tem a consistência de ovos-moles. Entre Portugal e a Albânia estão todos os adversários que nos tocam no apuramento para o Europeu 2016. Quer dizer, começámos por perder, e em casa, com os mais fracos. Por isso é legítimo que, logo na "primeira jornada", a crítica seja dura. E é cedo, sim, que se deve malhar porque perante o descalabro é necessário pôr "tudo em causa". Não foi só o resultado. Com bons e razoáveis jogadores, ele, em vez de uma equipa, fez uma tropa fandanga. Quando se perde com a Albânia, e em casa, o mínimo a esperar de um treinador é que diga: "Não me parece que seja o melhor caminho." Mas que o diga a si, não às críticas. Aliás, o mérito de se atacar cedo não devia ser preciso explicar a Paulo Bento, mestre de atacar até antecipadamente: ele ainda não tinha dado provas no Mundial e já assinara um contrato para o Europeu. Pior para ele e para nós, de incompetente comprovado vai a caminho de ser incompetente insistente.
«DN» de 9 Set 14

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Cada um sabe de si, mas...

Há algum tempo, um enólogo escrevia, no Expresso, acerca da importância dos rótulos na venda dos vinhos, nomeadamente quando o comprador escolhe um, de entre vários que desconhece.
No caso de cima, o rótulo (com a banda desenhada das personagens do Público) rodeia completamente a garrafa.
No entanto, dizem-me que o vinho tem sido um sucesso. Com tal nome e tal rótulo deve, então, ser muito bom!

8.9.14

A Europa está parva e é geral

Por Ferreira Fernandes
A pergunta, como em todos os referendos bem feitos, vai ao osso: "Deve a Escócia ser um país independente?" Nenhum chantilly para encher o olho, nenhuma palavra supérflua. Nem mas nem meio mas: sim ou não? Milhares de anos de misturas de povos como inevitavelmente aconteceu, porque se passou numa ilha, e pequena ilha, e três séculos de pátria comum, o Reino Unido da Grã-Bretanha, desde 1707... E agora (dia 18 de setembro), separa-se, como o trigo do joio: sim ou não? Muito antigas derrotas comuns (por exemplo, na Independência americana) e vitórias comuns (I e II Guerras Mundiais), um destino imperial feito junto, descobertas de máquinas e de ideias, literatura, desastres, sonhos e líderes partilhados. Tudo isso, passado, valores, história, famílias - inevitável forte identidade - depurado numa dicotomia: escoceses para um lado, os outros para outro. Um dos defensores do "sim" à independência, diz-me o jornal The Guardian, declarou que nada mais une a Inglaterra e a Escócia senão história e família. Senão? Não me parece coisa pouca. E ouso, eu que estou de fora, falar deste assunto porque salta-me a superficialidade com que o referendo é tratado. Eu, português, que por razões ocasionais da minha empresa residisse há três anos em Edimburgo, apesar de não saber quem são os Stuarts posso votar - cortar, sim ou não, no destino do Reino Unido -, mas um escocês a residir em Londres, não. A Europa está parva e é geral.
«DN» de 8 Set 14

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7.9.14

No Reino do Absurdo

Uma gatunice é uma gatunice

Por Ferreira Fernandes
O DN, jornal antigo, permite-me embrenhar em páginas amarelecidas e encadernadas (é um prazer o peso de notícias que juntam, sei lá, em 1903, o Nobel de Pierre e Maria Curie, e o elefante Topsy, eletrocutado numa experiência de Edison...) Reparei que há cem anos havia uma rubrica com um título bem apanhado: "Gatunices". Era sobre contos do vigário ou dedos jeitosos em bolsos alheios, por vezes com a foto espantada do gatuno. Ainda não fiz o balanço mas talvez seja possível atravessar uma década (num século que nos deu Alves dos Reis) sem a cara espantada de um banqueiro apanhado em "Gatunices". Mas estou grato ao polícia que apanhou o "mãozinhas" que roubou a viúva, o juiz que o julgou e o jornal que lhe fez a folha pública. Apesar de lamentar, claro, menor sanha com o ministro que enriqueceu com as latas de conservas podres enviadas aos soldados combatentes na Flandres. Em todo o caso, pena ter acabado a rubrica "Gatunices". Olhem, cabia lá a notícia sobre o atual caso Face Oculta. Sei quase nada sobre os intervenientes e a sua culpa mas por aquilo que um polícia mau e um jornalista ainda pior chamam modus operandi, acho que sim, é gatunice. É feio roubar e, ainda mais feio, bens públicos. Ainda bem que gatunos sejam apanhados e condenados. Há por aí uma discussão surda: de um lado, "os gatunos são deles!", e de outro, "nos gatunos deles, que são maiores, não tocam...", eu sei. Mas não entendo. Os gatunos nunca são meus.
«DN» de 7 Set 14

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Luz - Na estrada, perto de Pereira, a caminho da região cafeeira, Colômbia

Fotografias de António Barreto- APPh

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Ainda na estrada entre Pereira e a “finca cafetera” que fui visitar a umas dezenas de quilómetros da cidade grande. Aqui já é quase um centro comercial. Num espaço com poucos metros, há de tudo, vendas, cafés, refeições, muita cerveja, garagem, reparações do que for preciso… (2013).

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PEDRAS DISTO, DAQUILO E DE MAIS ALGUMA COISA (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho
Entre as pedras mais célebres destaca-se a pedra de Roseta, um fragmento de uma estela (do grego stela, que significa pedra erguida) egípcia, na qual foram gravados três parágrafos com o mesmo texto (um decreto promulgado em 196 a.C., na cidade de Mênfis). O primeiro, na parte superior, usa os hieróglifos do Egipto antigo; o seguinte, a meio, utiliza a escrita egípcia tardia, ou seja, o demótico; e, por baixo deste, o último está gravado em grego antigo. A pedra usada nesta relíquia é um ganodiorito, uma rocha afim do granito, encontrada em 1799, na cidade de Rashid (Roseta), no delta do Nilo. Tendo resistido ao tempo e às vicissitudes da história, permitiu decifrar os referidos hieróglifos e, a partir deles, conhecer boa parte de uma civilização milenária. Importante para os muçulmanos, a Pedra Negra é uma das relíquias mais sagradas do Islão. Para os seus seguidores, esta rocha escura, com cerca de 50 cm de diâmetro, exposta ao culto na Kaaba, em Meca, na Arábia, caiu do céu ao tempo de Adão e Eva. (...)
Texto integral [aqui]

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6.9.14

O Estado Islâmico e a bruxaria


Por Antunes Ferreira

O CHAMADO Estado Islâmico continua a demonstrar ser criminoso, oportunista e arrogante. As duas decapitações dos jornalistas norte-americanos, James Forley e Steven Sottloff e a possivelmente próxima de um outro trabalhador da comunicação social, desta feita um inglês, David Hains, tem motivado os comentários mais diversos sobre a barbárie em nome do Alcorão. Mas comentários, entre os lamentos e o nojo, não passam disso mesmo – comentários. Entretanto mais alguém foi decapitado: um soldado curdo.

Os fundamentalistas, que fizeram vídeos sobre as execuções, alertaram Obama que o faziam para retaliar a entrada da força aérea dos Estados Unidos que vem bombardeando as posições dos jihadistas. No vídeo do segundo assassinato, o executor afirmou que: "Estou de volta, Obama, e eu estou de volta por causa de tua política externa arrogante para com o Estado islâmico, por causa de tua insistência em prosseguir com os teus bombardeamentos em Amerli, Zumar Mosul, apesar de termos feito avisos sérios. Assim como os mísseis continuam a atacar o nosso povo, a nossa faca continuará a atacar o pescoço do teu povo."

Isto é intolerável, é execrando, é um atentado à liberdade e à democracia. Os criadores do novo Califado assassinam muçulmanos como eles, às centenas de cada vez, por os considerarem mancomunados com o imperialismo ianque ou porque são xiitas sendo que eles são sunitas radicais. Por isso as execuções criminosas também têm atingido muitos sunitas. Segundo testemunhas, as mulheres são violadas e assassinadas e, os homens enforcados. Os terroristas também fazem empalamentos, crucificações e desmembramentos.

No Ocidente as reacções efectivas têm sido poucas ou nenhumas. Obama tem demonstrado uma indecisão que, pelo menos, já levou a opinião pública norte-americana a chamar-lhe “maricas”. No Reino Unido Cameron tenha desesperadamente fazer “qualquer coisa” mas por enquanto o resultado é zero. Hollande preocupa-se mais com as declarações da antiga primeira-dama francesa, Valérie Trierweiler, que escreveu um livro sobre os anos em que viveu com ele, tentando dar à opinião pública a imagem correcta do homem com quem viveu e do político que governa a França. Os comentários não são bons nem para um lado nem para o outro e falam de uma "tragicomédia".

A União Europeia não sabe (pelo menos até agora) o que fazer perante a monstruosidade que o jihadistas continuam a praticar. De resto, a UE é cada vez mais uma montanha russa. Mas que vai perdendo as intenções com que Shuman e Monnet tinham quando avançaram para uma comunidade europeia. Montanha russa que cada vez mais vai descendo por plano inclinado e raramente tenta chegar ao cimo. Pode ser, infelizmente, o início do descalabro.  

Mas vejamos o perigo que a Europa corre. O Estado Islâmico compreenderia inicialmente os territórios da Síria e, pelo menos a parte sunita do Iraque. Porém a vontade declarada é mais abrangente. Segundo o desenho dos seus mapas, em cinco anos pretenderiam conquistar todo o norte de África, os Balcãs até à Áustria e Espanha e Portugal. Num continente que (ainda) é o nosso, de abdicação em abdicação, o avanço muçulmano não pode ser negado.  Na quinta-feira, 4 de Setembro, o grupo ameaçou destronar o presidente russo Vladimir Putin por apoiar o regime sírio.

E no entretanto continua a matança de xiitas, curdos, assírios, cristãos, arménios, yazidis, drusos, shabaks e mandeanos, alguns pouco conhecidos (ou mesmo desconhecidos) no mundo (ainda) ocidental. Ainda ontem na cidade de Mossul (ocupada) foi cortada a cabeça a mais sete iraquianos, incluídas três mulheres; acusados de… bruxaria. E se este continuar de braços cruzados à espera duma intervenção divina ela será por certo de Alá, cujo profeta é Maomé.

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Os malucos estão a abrir-nos os olhos (2)

Por Ferreira Fernandes 
Quando o verão começava, em junho, escrevi sobre uma boa notícia: desta vez tínhamos maus, maus. Os chanfrados que cortavam mãos e crucificavam na Síria eram como os seus sócios do Boko Haram, os radicais islâmicos nigerianos que raptam meninas para as vender ou fazê-las escravas sexuais - e diziam-no. Abençoados os maus que se julgam iluminados e prescindem de enganar os homens. Agora que o verão já vai para o fim e o Estado Islâmico vai no seu auge, vítimas de joelhos e carrascos atacando pescoços com facas pouco afiadas - e filmam e divulgam -, repito: estamos melhor do que antes. Os maus que fazem algum esforço para camuflar a sua maldade angariam idiotas úteis. Os maus, maus, não. Para as vítimas - das meninas nigerianas aos jornalistas degolados - é, claro, o horror. Mas com a clareza do horror esgotam-se as desculpas dos que se enrolam no radicalismo islâmico (enfim, sempre haverá idiotas ainda mais idiotas, mas já são cada vez menos úteis). David Cameron deu-se conta desta inesperada bondade do Estado Islâmico e permitiu-se dizer a palavra adequada sobre o que fazer com o radicalismo islâmico: aniquilar. Erradicar como o vírus do ébola, já é possível dizê-lo. É verdade que ainda só o disse em relação ao elo mais fraco: os chanfrados do Estado Islâmico. No dia em que se puder usar a palavra contra os mais perigosos, os imãs radicais que discursam livremente em Londres, ficaremos em dívida com os chanfrados. 
«DN» de 6 Set 14

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5.9.14

Os pinta-paredes

Este carro, abandonado, há já várias semanas, junto da praia de Porto de Mós, pertence (segundo diz a PSP) a uma empresa de aluguer de automóveis. 
Entretanto, e como ninguém o tira dali, já começou a ser grafitado. 
Alguém sabe como e com que tintas?
Actualização
A resposta certa já foi dada

A sopa de pedra e a ASAE

Por A. M. Galopim de Carvalho
HÁ DIAS, tomei conhecimento, através da televisão, que a ASAE proibiu o uso da pedra na terrina que leva à mesa a saborosa e suculenta sopa da dita, que se faz, e bem, em Almeirim. 
Terá esta autoridade as suas razões, que eu desconheço. Mas tendo em conta a natureza da pedra ali usada – um seixo de quartzito – não vejo qual o motivo da proibição. Praticamente inerte, do ponto de vista químico, à semelhança do vidro, de que, à falta de areia, é matéria-prima, esta pedra não representa qualquer risco para a saúde. Outro tanto não se pode dizer do vidrado da loiça de barro vermelho que ainda vai à mesa em alguns restaurantes. Por outro lado, o quartzito é bem mais tenaz do que a faiança, a porcelana ou o vidro, não havendo risco de quebrar e produzir esquírolas lesivas da integridade física dos clientes.(...)
Texto integral [aqui]

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4.9.14

Levando tampa no Reino do Absurdo

Recentemente, uma leitora do blogue Cidadania Lx queixou-se de que uma tampa dos ex-TLP (actualmente PT) não a deixava dormir, devido ao estrondo que faz quando os carros lhe passam por cima. 
Contactei a PT, e a resposta veio hoje. 
Vale a pena lê-la: 
*
« (...) Lamento, mas não foi possível cumprir o prazo de dia 1 de Setembro, porque, para realização do trabalho, necessitamos de reserva de estacionamento da EMEL. 
Para esse efeito, a EMEL exige licença de obra da CML. 
Embora tenhamos enviado o pedido de licença, no dia 20/08/2014 e tenhamos estado a insistir na urgência da sua emissão, a mesma ainda não nos chegou. 
Assim que estivermos na posse das devidas autorizações, faremos agendamento com a EMEL e a Policia Municipal. (...)»

Prémio Vingança maior que o Goncourt

Por Ferreira Fernandes
A rentrée literária em França começa hoje e com o prémio Vingança, servido frio por Valérie Trierweiler, jornalista de estilo fracote mas notável carreira: passou 18 meses no Palácio do Eliseu, protagonizando o essencial do até agora apagado lustro do Presidente François Hollande, seu ex-companheiro. O livro, Merci pour ce moment (merecia boa tradução: Obrigado por Este Bocadinho), tem uma extraordinária primeira edição de 200 mil exemplares. É um testemunho, dentro do popular género literário "confissões aos queres ser meu amigo", da conhecida editora Facebook. As Madame Bovary modernas já não precisam de Flaubert para se abrirem ao mundo. As páginas em pré-edição foram publicadas na revista Paris-Match e já se sabe que o casal presidencial andou de cócoras, no mármore do palácio, à cata dos soníferos que ela queria engolir e ele esconder dela quando se soube que François saía de capacete e lambreta para se encontrar com uma atriz. Aquele palácio já conhecera morte de presidente (Félix Faure, 1899) quando se debatia com uma amante mas nada se soube por testemunhos diretos (os jornais foram discretos sobre a causa da morte, e o mais longe foi um escrever: "De morte natural, ó quanto!"). Os tempos são outros e as vinganças eternas. Justas é que quase nunca: Valérie era jornalista do Paris-Match quando, ao fazer uma reportagem sobre a ministra Ségolène Royal, conheceu o marido desta, François Hollande.
«DN» de 4 St 14

A Europa e a insubstituível união europeia

Por C. Barroco Esperança 
Por muito que arrelie os meus amigos, estou menos distante da senhora Merkel do que de Putin, sou europeísta convicto e defensor do euro, defendo a democracia política e não demonizo os EUA, que ajudaram a Europa a libertar-se do nazismo e foram o seu guarda-chuva militar durante a guerra fria.
O que não compreendo nos que raramente têm dúvidas ou nunca se enganam, é a fé nas orientações partidárias, na intuição própria ou no que julgam politicamente correto. Não percebo como países que colaboraram na divisão da Jugoslávia a abominam na Ucrânia; como colaboraram no massacre da Sérvia para lhe amputarem o Kosovo e se enfurecem com o apoio russo às suas populações na Ucrânia; como persistem no apoio a uma das partes na Ucrânia, dividida e instável, e não têm opinião sobre a Catalunha e a Escócia, esta sem língua própria. (...)
Texto integral [aqui]

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3.9.14

A mistificação democrática

Por Baptista-Bastos
Um dos grandes projectos da República foi a instrução. Uma das prioridades deste Governo é a destruição da escola e a liquidação do ensino, através de todos os meios. Os professores são enxovalhados, e seis mil dentre eles não encontram ocupação. Fecham escolas sob a inacreditável afirmação de que os alunos são escassos, e há miúdos que são obrigados a percorrer dezenas e dezenas de quilómetros a fim de receber as primeiras letras. Tribunais fecham, e os técnicos afirmam que o facto acentua a desertificação do País e a sua decadência social e moral. Estas, as terríveis notícias das últimas horas, aplicadas a um povo que parece ter-se despojado das mais elementares noções de integridade.
João de Barros (1496-1570), o das Décadas, o linguista que escreveu a primeira Gramática da Língua Portuguesa, o sábio que morreu na miséria, como o seu contemporâneo Luís de Camões [1524(?)-1580], perseguido pela inveja e pela ignorância, escreveu um desabafo que define Portugal e as suas misérias: «País padrasto, Pátria madrasta.» A nossa história está repleta destas misérias sociais, políticas e éticas. Sophia, sobre Camões: «Vais ao Paço/pedir a tença/ e pedem-te paciência.» Quem manda odeia quem pensa, desdenha de quem cria, acossa o talento e rechina do génio.
O que está a acontecer, na nossa pobre terra, é a repetição das deformidades que nos têm marcado, desde a nascença. Agora, porém, o travo é muito mais amargo porque perpetrado com estudada ciência, e outrora apenas aplicado pela intuição, embora malevolamente. Os do mando financeiro desmoronam-se, na aparência, porém continuam a dar instruções, através de porta-vozes dissimulados. Só não vê quem não quer saber, só não escreve (nos jornais) quem tem a palavra sequestrada pelo estipêndio. O "sistema" garante a liberdade ao prevaricador, desde que este possua três milhões de euros.
Continuamos sem perceber o que é um banco "bom" e um banco "mau", como permanecemos sem conhecimento de onde provêm os milhões de milhões que vão colmatar os buracos do BES.
Sei muito bem que a democracia é um negócio entre poderes que fingem digladiar-se, e os enganos em que vivemos fazem parte destes jogos indecentes admitidos por todos aqueles que se sentam à mesa do Orçamento, ou por quem os admite com negligência culposa. A democracia é, acaso, o melhor dos regimes porque assim têm querido que pensemos. Um livro que, ocasionalmente, tenho citado, Pourquoi nous n"aimons pas la démocracia, de Myriam Révault d"Allonnes, é capaz de explicar a natureza do regime e as constantes das nossas decepções. Afinal, estamos a atribuir responsabilidades do caos - a quem?, e a quê? A Europa "democrática" é-o, de facto, ou trata-se de outro embuste e de outra mistificação? 
«DN» de 3 Set 14

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1.9.14

Muito nos conta, senhor vereador

Por Helena Matos 
Ao jornal "i" Sá Fernandes declara a propósito dos brasões: “Não iremos destruir nada, porque o tempo já se encarregou disso. Não iremos acabar com nada, porque há 20 anos que não existem ali brasões.” 
Ó almas santas, quer isso dizer que durante 20 anos os 130 jardineiros da CML mais as empresas privadas contratadas para cuidarem dos espaços verdes da cidade resolveram por sua conta e risco não tratar dos jardins da praça mais visitada da cidade? Ou resolveram não tratar de buxos e só cuidar das begónias? Ou só tratam de buxos com formas que lhes agradem? E ninguém na CML deu por isso? Ou foi a CML que resolveu que não se cuidasse daqueles buxos e determinava que rosas ao pé do marquês de Pombal sim senhor, mas os buxos do império nem vê-los e muito menos podá-los? 
Enfim a realidade é sempre supreendente. E na CML é mesmo um caso de literatura fantástica. 
Blasfemias.Net

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Cais...

A língua portuguesa é muito versátil! Veja-se como esta placa serve para indicar, ao mesmo tempo, o perigo de escorregar e o caminho para o embarcadouro...

31.8.14

Apontamentos de Lagos

De um banco de jardim espera-se que seja confortável - e, já agora, que tenha costas e um assento horizontal. 
Quem terá sido o arquitecto que inventou esta variedade (onde, evidentemente, nunca se viu ninguém sentado)?!

Luz - Arredores de Pereira, a caminho da montanha cafeeira, Colômbia

Clicar na imagem para a ampliar
As montanhas do “eje cafetero”, à volta de Pereira, são verdes como é difícil imaginar. Enquanto não chegávamos a uma “finca cafetera”, passámos por dezenas ou centenas de pequenas aldeias, casas dispersas, comerciantes de improviso, vendas e armazéns de estrada onde se tratava de tudo, comprar, vender, alugar ou servir… Esta casa é uma delas, com três homens, criança e cão. (2013).

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A CASA DA MINHA AVÓ

A. M. Galopim de Carvalho
A AVÓ ISABEL foi o meu primeiro contacto com uma pessoa, nesse tempo, considerada idosa, teria ela sessenta e poucos anos. A sua imagem está entre as minhas primeiras tomadas de consciência do mundo que me rodeava, tinha eu dois para três anos. Sempre de preto, dos sapatos ao lenço, como mandavam os usos que se vestissem as viúvas, a mãe da minha mãe foi a única, de entre os meus avós, com quem me foi dado conviver. O marido, o avô Vicente, que já não conheci, era oriundo da região de Alcanede, de uma família de curtidores de peles e, também ele, curtidor de profissão. Mãe de sete filhos, a todos criou, dentro dos condicionalismos do tempo e das suas limitadas posses.(...)
Texto integral [aqui]

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29.8.14

Publicidade enganosa

O bilhete-postal e a realidade
(Fotos do blogue Cidadania Lx)

Muita tabuleta ele vai ter de apagar

Por Ferreira Fernandes 
A Praça do Império tem brasões florais das ex-colónias no jardim. O vereador Sá Fernandes quer que sejam eliminados porque brasões de ex-colónias "estão ultrapassados". É um critério e está bem defendido: ex quer dizer estar ultrapassado. Mas brasões e tabuletas existem também para lembrar coisas que acabaram. Se vamos acabar com tudo que acabou, a Praça do Império vai na enxurrada, aliás como o seu autor, Cottinelli Telmo, que também tem praça. Outra: a Rua Cidade de Salazar, no Bairro das Colónias. Parece um buraco negro: já não há colónias, nem Salazar, nem Cidade de Salazar (hoje chama-se Ndalatando). O problema é que se vamos por aí também há argumentos para acabar com a Praça da Alegria. Mas se acabamos com coisas que acabaram ou que dizem coisas com que não gostamos hoje, caímos naquilo de o apetite vir com o comer. O Beco da Ré vira Beco da Arguida. O Beco do Carrasco parece morar em Estado Islâmico. O Beco das Beatas pode ser contestado nas duas versões, contra o tabaco e o proselitismo religioso. A Avenida da Igreja merece um ponto de ordem: qual? A Triste-Feia lembra uma cidadã a quem os rapazes de Alcântara lançavam "que focinho de porca!" - queremos mesmo lembrar isso? O Jardim das Pichas Murchas (em São Vicente de Fora) faz contrapropaganda a conhecido produto farmacêutico. A Travessa do Fala-Só é inaceitável em tempos democráticos. À Avenida Mouzinho de Albuquerque só pergunto: foi justo o que se fez a Gungunhana?
«DN» de 29 Ago 14

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28.8.14

Cuspindo na sopa

Devido à extraordinária beleza do local, a Ponta da Piedade (e o seu farol) constam em qualquer roteiro turístico. 
Pelo facto de ser o ponto mais ocidental do continente europeu, o mesmo sucede no Cabo da Roca.
Agora, veja-se como os poderes públicos tratam essas duas preciosidades.
NOTA: em relação ao segundo, ver mais [aqui].

A Sandoz e o negócio de diamantes em Coimbra (Crónica)

Por C. Barroco Esperança
No ano de 1976 já se tinham desvanecido os ecos da mais idiota e injusta das greves que o pequeno educador da classe operária, Chaves Alves, tinha conseguido fomentar numa multinacional cuja autogestão exigia – segundo disse à imprensa –, ávida de agitação e a que não faltavam declarações de idiotas úteis e provocadores convictos.
Ajudou-o na tarefa o Cabral da Costa, que tinha maior amor à greve do que à gramática, que maltratava, e que deu origem à dupla Chabral da Costa. Para gerir, havia máquinas de escrever, pastilhas, supositórios e xaropes, vindos da Suíça, onde o operariado jamais se solidarizou com a vanguarda Chabral. (...)
Texto integral [aqui]

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27.8.14

Museu do Quartzo

Monte de Santa Luzia – 3515 Viseu
Horário: Terça a Domingo 10h-12h | 14h-17h -Encerra Segundas

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Se calhar, isto anda tudo ligado...

Nas eleições do PS vale tudo menos tirar olhos?

Por José António Lima
Jorge Coelho bem avisava, há uma semana, o que se podia esperar das eleições internas no PS: «Vai ser uma campanha dura, não vai ser para andar aos abraços e a trocar elogios». O pessoal socialista escusava era de levar tão a peito essa dureza, numa campanha que tem sido uma sucessão de falcatruas, golpadas, fraudes, expulsões e toda a sorte de ilegalidades. No PS, neste confronto entre António José Seguro e António Costa, parece que vale tudo menos tirar olhos.
Se não vejamos. Em Braga, foram subitamente pagas as quotas, há anos em atraso, de 2.294 militantes (incluindo mortos, emigrantes e acamados) por alguém que gastou nessa zelosa tarefa mais de 123 mil euros (que não é quantia fácil de tirar do bolso com tanta generosidade). Face aos protestos de alguma vozes bracarenses, que pediram a investigação do caso e a suspensão do processo eleitoral, a direcção de António José Seguro não só desautorizou esses protestos e mandou prosseguir as eleições como recusou – pela voz do secretário nacional do PS, Miguel Laranjeiro – esclarecer quem tinha pago esses 123 mil euros… em nome do «sigilo bancário».
Em Coimbra, entretanto, também foi pedida a suspensão das eleições na distrital por os cadernos eleitorais estarem falsificados. Em 2011 foram inscritos como militantes centenas de pessoas com moradas e locais de trabalho falsos – falcatruas que foram denunciadas pela militante Cristina Martins, o que lhe valeu há meses a expulsão pela direcção nacional do PS. Manuel Alegre falou, então, de «delírio persecutório» e acrescentou que «os responsáveis por essas falsificações é que deveriam ser expulsos, e não ela». Agora é António Campos, militante n.º3 do PS, que diz que só resta «recorrer aos tribunais» e colocou uma providência cautelar para suspender as eleições de 6 de Setembro.
Assim vai o PS de António José Seguro, que continua a falar todos os dias de transparência, respeito pela legalidade e ética democrática. Vê-se.
Quando, em Braga, é uma figura com o currículo de Mesquita Machado a denunciar «irregularidades grosseiras» está tudo dito. O PS faz lembrar um filme de Scorsese: Tudo Bons Rapazes.
«SOL» Ago 14

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