23.11.14

Luz - Tourém, Trás-os-Montes

Clicar na imagem para a ampliar 
Aldeia perto da fronteira entre Portugal e Espanha. Fronteira, aliás, praticamente inexistente hoje. Não longe de Montalegre e do Gerez. Por ali andei, há quase quarenta anos. Esta formidável debulhadora deveria ser o símbolo de maior modernidade e de mais avançada tecnologia existente na aldeia. O cereal que se debulha aqui é centeio, típico de solos pobres, de climas frios e de cultivo em sequeiro. Ao fundo da eira, quase imperceptíveis, podem-se identificar um ou dois espigueiros, aqueles “armazéns” de granito e madeira que protegiam o cereal, o grão, às vezes uns utensílios ou produtos da horta. Protegiam-se das chuvas, dos fungos e dos ratos. Ainda há gente a viver em Tourém. Mas cada vez menos. E jovens, poucos.(1980)

Etiquetas:

22.11.14

Dos Dourados ao BES

Por Antunes Ferreira

ZANGAM-SE as comadres, dizem-se as verdades. O ditado precisa de adaptação aos dias de hoje e basta um ponto de interrogação no seu final para a coisa estar feita; Zangam-se as comadres, dizem-se as verdades?
A comissão de inquérito parlamentar sobre os infelizes Vistos Gold ainda vai ter de suar as estopinhas durante muito tempo, quiçá a legislatura não chegue. O que, sendo lamentável, não é difícil. Marcelo Caetano dizia nas suas aulas, ouvi-o eu, que em Portugal quando se nomeia uma comissão é muito raro ela chegar ao fim e muito menos a conclusões definitivas. Tinha razão o herdeiro do dr. Salazar? Parece-me que sim, ainda que me tenha chumbado em Direito Administrativo…
Até à data (escrevo na sexta-feira, 21) há uns quantos suspeitos de desonestidade e sobretudo corrupção – activa e/ou passiva – aliadas a trocas de influências, manejos políticos, e quejandos, em prisão preventiva; mais precisamente cinco. São pessoas importantes, actores e decisores políticos a um nível muito alto. A Polícia Judiciária fez (e faz) buscas domiciliárias, a locais de trabalho, a tudo cheira mal. Nunca as mãos lhe doam.
Mas tem-se debatido com circunstâncias indescritíveis, como por exemplo computadores de suspeitos absolutamente “limpos” cuja “limpeza” fora mandada fazer por outros suspeitos, aparentemente nos “termos da lei” expressão utilizada mas com muitos sentidos. São considerados “normais”, mas com vírgulas a mais, o que resulta em buracos por entre os quais se foge sinuosamente, mas sempre explicado na base das disposições “nos termos da lei”
Todos sabemos que a corrente parte sempre pelo elo mais fraco; no caso dos sinistros Vistos Dourados, ela quebrou-se por elos mais fortes. Ou, pelo menos, por gente que acreditava que vivia nos cornos da Lua, que se considerava insuspeita de qualquer pecado. Mas, quando a ponta do icebergue apareceu foi o princípio de um afundamento impossível. Ter-se-ão esquecido do caso Titanic, ou nem sequer sabiam dele.
Deste imbróglio parecia não poder-se escapar. Fazia sentido recordar o labirinto de Creta em que reinava o Minotauro que comia todos os que o tentavam eliminar. Julgava-se o misto de corpo de homem e cabeça de touro que era impossível vencê-lo; mas um dia apareceu o herói Teseu que, superando o que Dédalo construíra, eliminou o Monstro. Acabara o impossível…
Porém a comissão de inquérito decidiu ouvir o cidadão que trouxera os Dourados para Portugal, o seja Paulo Portas, que, curiosa coincidência, também é vice- Presidente do Conse,…, perdão, vice primeiro-ministro deste (des)Governo; poderia perfeitamente não ter lá ido, mas num verdadeiro rasgo de urbanidade, solidariedade e patriotismo foi declarar que sim, que os desgraçados Vistos eram muito importantes para trazer investimentos em Portugal.
Se acabassem com eles, os “investidores” iriam “investir” para outros países que também os concedem e acabava-se o investimento para o progresso e desenvolvimento do país e para salvar a construção civil que estava de rastos. Quando ao progresso e desenvolvimento do país estávamos (e estamos) conversados. Já no que respeita à construção civil são outros quinhentos mal réis.

Na verdade os “investidores” dourados vêm comprar a um belo preço imóveis. Dizem que o fazem para lavar dinheiro sujo, desde chineses até angolanos com ucranianos e quiçá russos à mistura. Mas não há provas em “termos legais”. Boa maneira de desenvolver Portugal e alavancar o seu progresso técnico, tecnológico e mais, nos domínios da ciência, da indústria, da agricultura e do berlinde às três covas, principalmente este que é altamente deficitário entre nós.
Lê-se, ouve-se e vê-se o que os órgãos de comunicação benignamente nos ofereceram – pagos – e começa a descobrir-se que os Vistos Gold são uma panaceia universal, no mínimo para Portugal. Nós, os portugueses, andávamos (quase) todos enganados sobre o valor e a bondade deles. Ainda [está para] durar a trabalheira atribuída à comissão parlamentar de inquérito. Só em audições espera-se [que] demorem tanto – ou mais – do que a que [teve] a tarefa de investigar a gigantesca fraude do Espírito Santo (não me refiro ao da Santíssima Trindade) que é quase Deus pois está por toda a parte como um polvo tsunâmico com montanhas de tentáculos.
Há quem lhe chame Hidra, por mor das muitas cabeças que fazem parte dele, mas de uma maneira ou doutra está para durar até às calendas – se a PJ deixar ou se deixarem a PJ continuar. A investigar.

Etiquetas:

20.11.14

O Governo e os vistos dourados

Por C. Barroco Esperança
Enquanto Cavaco Silva faz de morto e Passos Coelho de primeiro-ministro, o Governo desintegra-se. Os ministros da Justiça, Educação e Negócios Estrangeiros arrastam-se num barco que perdeu as velas e o leme, à espera que lhe indique o rumo a luz de que o faroleiro não sabe onde fica o interruptor.
A demissão de Miguel Macedo, cuja permanência política era insustentável, o que só o PM não percebia, permitiu um exercício de rara bondade, de sequazes e adversários, a incensar o desapego ao poder e a clarividência do político. Até Soares e Sócrates, num ataque de bonomia, fizeram coro no panegírico ao defunto ministro das polícias (...)
Texto integral [aqui]

Etiquetas:

18.11.14

Deveres de Consciência

Por Pedro Barroso
...se um simples cidadão vulgaris lineus fizer um degrau, uma janela, uma serventia; se dever uma prestação à Segurança Social, uma mensalidade ao Banco, uma letra do carro; se pisar um risco numa ultrapassagem, atravessar fora da passadeira, cuspir no chão, insultar o governo, o fiscal de finanças; se não tiver as licenças em dia, o boletim preenchido, provisão na conta. 
Se. Não acabaria mais. 
O cidadão é multado, extorquido, esquartejado, perseguido, preso, condenado, chateado, incomodado. 
Percebi. 
Para a próxima, retiro 5000 milhões - o que quer que isso seja, meu deus...- e terei direito uma prestigiosa e colunável Comissão de Inquérito, dúvidas do Banco de Portugal sobre quando intervir e o que fazer, muitos milhões cautelosamente guardados na Suiça ( talvez em Bensafrim, Odelouca, Portelosa do Semicúpio... ). A coisa vai demorar.
Falo ao Oliveira e Costa, que ele sabe do assunto e anda por aí. Mas atenção. Ponho um ar distante e pesaroso. Declaro que fui derrotado pela crise em luta heróica pelo Bem comum. Pela economia nacional. Talvez me ergam uma estátua um dia. Faça-se justiça, claro. Investigue-se - darei toda a minha colaboração. Por minha honra. 
Puxarei de uma cadeira e esperarei sentado. Fumo um charuto caro, bebo um scotch de trinta anos, um porto de cinquenta. Dou uns passeios em jacto privado. Apetece-me ir jantar a Paris, fazer compras, ver os amigos. 
Vou preparando a defesa, ocultando papeladas, apagando factos. Sorrio para mim mesmo, senhorial, devagar. Uso Armani e fragrâncias parfum made para mim. Tudo baratíssimo. Muito acessível. Visto camisas por medida. Seda natural que sou alérgico a porcarias.
Vou à ópera amanhã, sou uma pessoa de bom gosto - aprecio Verdi. 
Talvez  encontre um cidadão menor pelo caminho, mendigando. 
Ver se não me esqueço de lhe dar uma moeda.

Etiquetas:

16.11.14

Luz - S. Petersburgo, Rússia

Clicar na imagem para a ampliar
A primeira vez que tinha estado nesta cidade fora nos anos sessenta. Nem a cidade, nem eu, éramos iguais ao que somos hoje. S. Petersburgo chamava-se então Leninegrado (depois de já ter sido Petrogrado por uns poucos anos), do nome de Lenine, o revolucionário russo, depois chefe do partido comunista da União Soviética, o fundador e primeiro ditador daquele país (tal como havia Estalinegrado, de Estaline, o segundo ditador). Nessa altura, era impensável ver um militar russo, ou soviético, sentado num banco no meio da rua ou de um jardim, com uma lata de cerveja no chão, ao lado de um jovem de T-shirt e mangas à cava, talvez também militar. S Petersburgo, maravilhosa cidade, voltou a ter o nome que tinha desde a origem (foi aliás o Czar Pedro que a fundou no início do século XVIII). Estes dois jovens estão sentados num banco público dos jardins em frente à catedral de Santo Isaac e perto de hotéis famosos, o Astoria e o Angleterre, onde pernoitaram, desde há cem anos, todos os importantes deste mundo, capitalistas ou comunistas, russos ou americanos, militares, políticos e escritores. A catedral de Santo Isaac, acima referida, tem uma história curiosa. Após a revolução, os comunistas decidiram que aquele local deveria ser encerrado ao culto e às trevas. Assim fizeram e transformaram-na, pouco depois, num “Templo do Conhecimento”, apetrechado de um “Pêndulo de Foucault”. O Museu ficou a chamar-se “Museu da História da Religião e do Ateísmo”. Agora, perdeu a vertente “ateísmo” e ganha gradualmente a sua vocação religiosa. (2010)

Etiquetas:

DOMÍNIOS MORFOSSEDIMENTARES DE TRANSIÇÃO NA INTERFACE TERRA–MAR (3)

Por A. M. Galopim de Carvalho
Estuários 
OS ESTUÁRIOS são corpos de água localizados em reentrâncias da costa, coincidentes com as desembocaduras dos rios, nas quais a água do mar penetra e circula segundo um esquema que, em cada caso, se estabelece entre o regime do rio e as marés. É antiga e longa a discussão sobre o que é, exactamente, um estuário, sendo vários os critérios salientados pelos diferentes autores na sua definição. Todavia, uma característica comum a todos eles é a ocorrência de diluição da água do mar em água doce, de jusante para montante, o que não acontece nem nas lagunas nem nas fozes fluviais não estuarinas.(...)
Texto integral [aqui]

Etiquetas:

15.11.14

O marido (malcriado) da ministra



Por Antunes Ferreira

Tricas entre jornalistas, como entre outros membros de classes profissionais, são muito frequentes. Normalmente acabam em bem, mas há guerras entre o alecrim e a manjerona que dão que falar e prolongam-se ao longo do tempo. São inevitáveis, se há problemas entre eles, nós, em tempos dirimiam-se à pistola ou à espada, os famosos duelos. Hoje, porém, já ninguém sai à estacada para duelar. Uma boa polémica substituiu a utilização das armas.

No entanto, são raras as vezes em que um jornalista move uma acção contra outro – o que é válido também para uma ou outra – caindo no foro judicial, indo a tribunal, responder ao processo que foi levantado com o contraditório. De resto, com a (in)Justiça que hoje temos por cá, mesmo tendo em conta o famigerado Citius, as acções andam (?) a passos de tartaruga, se não mesmo de caranguejo, deixando passar o tempo para se alcançar a tão ansiada prescrição, o procedimento judicial é mais uma farsa.

Foi tempo em que figura da Justiça era uma dama vendada empunhando na mão direita uma espada e na esquerda uma balança. Neste país da treta, a pobre senhora perdeu a espada e na balança tão pesado é um do pratos  que o outro não consegue o desejado equilíbrio. No primeira cresce o dinheiro e a corrupção, o poder (?) mancomunado com a banca, o tráfico influências de braço dado com as drogas, a traficância mais criminosa, a venda (e compra) de armamento e a prostituição. E fico-me por aqui sob pena de enunciar uma velha lista telefónica que já deu o que tinha a dar.

Além disso a venda – se é que ainda existe – é uma falácia. Mesmo dando de barato que ela ainda tapa os olhos da Justiça, é transparente. Não quero dizer com este quadro que todos os intervenientes nos autos são os proprietários do descalabro  que antes enunciei , no prato mais pesado de uma balança não aferida. Generalizar seria impossível, porque continua a haver juízes, advogados, meirinhos, oficiais de diligências e administrativos que vêm tentando ter as coisas em dia e lutando contra o Citius, plataforma malvada. Penso que na maioria dos casos o profissionalismo, a isenção, a verticalidade, a equidade  vão sobrevivendo.

Vem tudo isto a propósito de uma peixeirada entre dois jornalistas, um dos quais marido de uma ministra. O caso é do conhecimento público, mas aqui o alinhavo. António Albuquerque, marido da ministra das Finanças e ex-jornalista do Diário Económico , foi alvo de um queixa no Ministério Público por ameaças e pressões a um jornalista do mesmo órgão da comunicação social.  Em causa está uma troca de mensagens em que António Albuquerque insulta e ameaça Filipe Alves por causa de um artigo de opinião publicado no jornal.

Na base da troca de sms estava um artigo, publicado na edição de 22 de Setembro do Diário Económico, com o título "O que acontece se o Novo Banco for vendido com prejuízo?", em que Filipe Alves questiona as eventuais consequências para os contribuintes da venda do Novo Banco.  Este passou a receber várias mensagens, que Albuquerque, o autor delas, confirmou ter sido o seu autor. Este saiu despropositadamente em defesa da sua dama Maria Luís Albuquerque, a ministra das Finanças.

Entre os “mimos” enviados por António Albuquerque destaco: “Tira a minha mulher da equação ou vou-te aos cornos” ou “Não sabes quem é que eu sou. Metes a minha mulher ao barulho e podes ter a certeza que vais parar ao hospital”. Alves ainda deu um prazo para Albuquerque lhe pedir desculpas da má e educação que usara;  António Albuquerque enviou uma carta ao jornalista a ameaçar com um processo por este ter descoberto a sua morada. Perante as perguntas que órgãos de informação lhe fizeram  Albuquerque confirmou ser o autor das mensagens e recusou pedir desculpas: “Antes ser condenado”.

Por isso Alves avançou com uma queixa junto do Ministério Público. E espera ver o que daí resulta na barra do tribunal, sede própria para a resolução desta estúpida questão. Mas, eu não espero pelo que quer que seja. Tenho a minha opinião – é melhor ter uma (que até pode estar errada) do que não ter nenhuma. Duvido que do caso saia um coelho (sem caixa alta); penso que poderá ser o mons parturiens. Mas também penso que o facto de ser marido da ministra das Finanças não o devia ilibar das ameaças e impropérios que se deu ao luxo de utilizar.

Porém estamos num país que se chama (ainda) Portugal em que os habitantes dele somos nós, os Portugueses, a quem falta energia e sobretudo coragem para afrontar o (des)Governo que nos agride todos os dias. Habituámo-nos a estar agachados perante o poder (?), perdemos a vergonha, copiando os desenvergonhados que saltam entre Belém e S. Bento, passando pelo Terreiro do Paço, pela 5 de Outubro e outros locais também mal-afamados.

Temos aquilo que quisemos quando depositámos os votos nas urnas (permitam-me a salvaguarda, eu não o fiz): Fomos enganados? Fomos. Mas o marido enganado é sempre o último a saber…

Com abortos destes nem escrevi sobre os casos da famigerada legionela ou dos vistos gold. Ficam porém guardados.

Etiquetas:

13.11.14

Trabalhos para casa (TPC) no país do mestre-escola

Por C. Barroco Esperança
Quando Portugal está para a legionela como a Serra Leoa, Libéria e Guiné para o ébola, emergiu de S. Bento o mestre-escola, num rali pelas adegas alentejanas, a mandar fazer trabalhos de casa aos políticos da oposição. 
 Surgiu desenvolto, a censurar gestores da PT, depois de atribuir ao PDG uma das mais altas condecorações do Estado; mandou estudar a Constituição a quem a compreende e defende; e insistiu que há de castigar o país, até ao último dia, com o seu Governo. (...)
Texto integral [aqui]

Etiquetas:

12.11.14

MAIS UM MONUMENTO À GEOLOGIA DOS AÇORES - Editado por Victor Hugo Forjaz



Por A. M. Galopim de Carvalho
DESTA VEZ é o Vulcão dos Capelinhos, na bela Ilha do Faial, surgido do mar perto da costa, no extremo ocidental da ilha, em 1957.
Victor Hugo Forjaz, Professor Catedrático Jubilado  da Universidade dos Açores, foi meu brilhante aluno na Faculdade de Ciências de Lisboa e, terminado curso, meu Assistente.
O editor desta colectânea de artigos versando a Geologia do Faial, em geral, e da sua história vulcânica, em particular, já nos habituou  a estas suas múltiplas,  extensas e valiosas obras.
Nesta agora dada à estampa, sobressaem, entre outros, estudos de geólogos e geógrafos de grande prestígio, com destaque para Frederico Machado, Orlando Ribeiro, Fernando Torre de Assunção, Custódio de Morais, Haroun Tazieff,  Raquel Soeiro de Brito, Correia da Cunha, Georges Zbyszewski,  Júlio Quintino e o próprio editor.
Com 823 páginas e dezenas de figuras (desenhos, esquemas e fotografias) este tem capa de cartão com 32x24x4,8 cm.  
O livro pode ser adquirido via e-mail  <vforjazovga@gmail.com> pelo preço de
12 euros mais portes, estes da ordem dos 10€, visto tratar-se de obra
subsidiada pelo Governo dos Açores e sem direito a lucros financeiros .

Etiquetas:

11.11.14

Autismo

Por Antunes Ferreira
NÃO GOSTO da troika; desta. Não gosto de nenhuma. Mas, por vezes até chego a concordar – muito a contragosto – com alguns procedimentos da “nossa” (?) Nesta última visita, só para ver como andavam e andam as coisas, os membros dela deram um raspanete no (des)Governo dos srs. Coelho, Portas, Crato, Cruz, Marilu et aliud. Que nas anteriores viagens a Lisboa tinham constatado que os membros dessa quadrilha (o termo é meu) eram muito competentes e muito bem mandados e comportados pois cumpriam as ordens que lhe davam, isto é, dava a sr.ª Merkel. Abreviando: que eram muito bons alunos, citação que lembra outros tempos no Cavaquistão.
Desta feita, porém, a roda tão bem oleada, desandou Ao longo de três anos em que todos eram muito amigos e muito abraços e muitos elogios, a visita na passada quarta-feira veio dar para o torto. Os inúmeros e consecutivos elogios, uns quantos “atenção” e recomendações, poucos, a troika a la portuguesa descobriu afinal que quando se ausentara as coisas tinham começado a derrapar, a descer um caminho inclinado, enfim a desandar. Acentue-se: com ela presente com regularidade, os Portugueses precisavam de fiscalização, quer dizer de chicote sem cenoura.
Daí concluiu o trio que em relação aos desafios que a economia portuguesa tem de ganhar, pelos vistos tinha. O (des)Governo abrandara a aceleração metera o travão (quase) a fundo e estava o caldo entornado. O BCE parece ter entrado mudo e saído calado. Mas o Fundo Monetário Internacional, FMI e a Comissão Europeia não se quedaram. Que porque assim, que porque assado, sem eles a mandar em Portugal o jogo não só não valia, nem sequer terminara empatado: era o princípio de uma cabazada isto para usar termos futebolísticos tão do agrado da lusa gente, que até tem o Cristiano Ronaldo e o José Mourinho
Esta foi a primeira de várias monitorizações pós programa que irão continuar a ser feitas até que Portugal pague a maior parte dos seus empréstimos: já se sabia, mas agora foi oficial. A galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha, ou seja, venham os euros que emprestaram acompanhados dos respectivos juros. E não demorem muito. A troika achou que, ao fim de seis meses fora do país, que Portugal já está a ir pelo caminho errado. Para eles, claro, os agiotas que dominam os idiotas que todos nós (ou quase) somos. Foi o prelúdio de umas orelhas de burro; e já não falo nas palmatoadas da menina dos cinco olhos.
Especifico. Washington e Bruxelas apontaram duas áreas em que em seu entender Portugal, ou seja o (des)Governo tem metido mais o pé na poça – o défice e as reformas estruturais. E ambos os pecados resultaram dos (des)governantes terem “deixado de se esforçar”. Mau Maria, a coisa estava mesmo a dar para o torto. E apontaram o caminho a (re)seguir para que os credores dos Portugueses vejam as suas notas a regressar aos respectivos lares, engordando-os, portanto. E nós a emagrecer dia após dia.
E os dois organismos foram apontando o que estava errado em especial no famigerado OE 2015. As previsões do (des)Governo português apontavam para um défice inexplicável. Logo na terça-feira a Comissão tinha avisado que o saldo negativo das contas públicas seria de 3,3% contra o que os (des)governantes apontavam: 2,7% que tinham sido prometidos pelo (des)Executivo (que conseguira alargar os 2,5% inicialmente acordados).
Foi uma verdadeira machadada. Mas faltava o pior; o FMI que fez uma análise semelhante disse que o tal sado negativo não seria de 3,3% mas sim 3,4%. Ora bolas: uma décima a mais ou a menos não é importante, são peanuts. E a ministra Marilu, impávida e serena de cara fechada como é seu hábito, manteve as contas a la portuguesa. Não disse, mas deve ter pensado que “eles” eram umas cavalgaduras e quem sabia da poda era ela. E ponto.
Ao invés da ministra das Finanças (?) os agora dois carrascos consideram que as derrapagens (des)governamentais, ainda por cima nas costas deles, resultaram principalmente do aumento do salário mínimo e de outras medidas que tinham sido tomadas por São Bento. O aumento, diz Bruxelas, “poderá tornar ainda mais difícil a transição para o mercado de trabalho para os grupos mais vulneráveis”; o FMI pinta o quadro com tintas mais negras: a decisão “vai tornar mais difícil para os trabalhadores não qualificados manter e encontrar novos empregos”.
Resumindo: de submissos e cumpridores passámos a despesistas desbragados. E no (des)Governo todos ignoram o recado e assobiam para o lado. No fundo a “receita” dos nossos credores é mais austeridade com a correspondente autoridade: Há quem chame ao procedimento dos que nos (des)governam autismo.

10.11.14

Curiosidades do (M/F) - 6

9.11.14

Luz - Jardim de um palácio na República Democrática Alemã

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem para a ampliar 
Posso errar e tenho dificuldade em encontrar fontes e vestígios, mas creio tratar-se dos jardins do palácio Sans Souci (ou Sanssouci), em Potsdam, perto de Berlim. O palácio, em estilo Rococó, foi mandado construir por Frederico, o Grande, em meados do século XVIII. Era a sua residência preferida, a tal ponto que exigiu ficar lá enterrado numa campa descaracterizada, coberta por uma laje simples, ao lado das campas onde, sem mais nem menos requintes, ele mandou enterrar os seus cães. Em cima do seu túmulo, há por vezes uma flor e geralmente umas batatas, ao que parece em homenagem ao facto de ter sido ele o seu introdutor na Prússia. Os jardins são monumentais, com árvores, repuxos, pérgulas, vinhas, ramadas e escadarias. Visitei-o durante o período comunista e voltei lá há poucos anos. Esta fotografia data da primeira viagem, ainda nos anos 60/70. Era um domingo, feriado para toda a gente, a começar pelos militares que assim se passeavam com as famílias. Num canto sossegado, as famílias de três militares russos, na altura dizia-se soviéticos, passeiam, convivem e fazem-se fotografar num ambiente de paz e calma. Como se sabe, nesses anos, a Alemanha de Leste estava militarmente ocupada pela União Soviética, enquanto os exércitos aliados dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França, ocupavam a Alemanha ocidental. (Ca. 1970)

Etiquetas:

DOMÍNIOS MORFOSSEDIMENTARES DE TRANSIÇÃO NA INTERFACE TERRA–MAR (2) (continuação)



Delta do Mekong, no Vietnam

Por A. M. Galopim de Carvalho
Entre as várias propostas de classificação dos deltas, merece referência a divulgada por Robert W. Galloway, em 1975. Com base num diagrama triangular, em cujos vértices situa a importância relativa do rio, das ondas e das marés na modelação da frente deltaica em progradação, o autor distingue, assim: (...)
Texto integral [aqui]

Etiquetas:

8.11.14

Curiosidades do (M/F) - 5

6.11.14

O PR e a condecoração a Durão Barroso

Por C. Barroco Esperança
Cavaco manteve o silêncio perante o drama dos portugueses desempregados e não disse uma palavra de censura durante sucessivos escândalos, desde a SLN/BPN ao GES/BES, talvez amargurado com a vergonha que atinge velhos amigos e correligionários. Com a funesta governação, de que é fiador e único sustentáculo, e com as inéditas disfunções institucionais, de que é suposto ser o guardião, finge-se morto ou em retiro espiritual no eremitério de Belém, para emergir do torpor na cerimónia de homenagem a Barroso. (...)
Texto integral [aqui]

Etiquetas:

5.11.14

O futuro dos meus netos

Por Maria Filomena Mónica

QUANDO OLHO o rosto melancólico da Rita, a alegria espontânea da Joana ou os olhos marotos do Miguel, dou por mim a imaginar se os tempos que os esperam serão melhores ou piores do que aqueles que conheci, eu, nascida em plena guerra mundial, num país tão pobre que nem dávamos pela fome a nosso lado, num mundo tão fechado que as aldeias nem precisavam de muralhas para encerrar os horizontes dos seus habitantes.

Os dias estão sombrios e é fácil entregarmo-nos às delícias da auto-flagelação. Mas não nos deveríamos orgulhar, nós, aqueles que nos entusiasmámos com a Revolução de 1974, do que legámos aos nossos filhos e netos? A liberdade política, a abertura do país à Europa e a redução da miséria não são coisas menores. É verdade que todos os dias me queixo, esquecendo que vim de uma noite tão escura que me parece irreal.

Não é popular dizê-lo, mas a minha geração devia orgulhar-se do que fez. Não custa imaginar que o desaparecimento de um Império, o fim de um regime autocrático e a existência de um partido comunista cujo estalinismo era único na Europa democrática pudessem ter conduzido a tumultos mais graves do aqueles a que assistimos. Hoje, ainda há corrupção, mas não mais do que nalguns países europeus; ainda há desigualdades sociais, mas nada que se compare à dos anos 1960; há partidos descredibilizados, mas não temos uma polícia política, nem uma censura, nem deportamos gente para o Tarrafal. As Universidades são más, mas não piores do que aquela que frequentei. O analfabetismo desapareceu e a taxa da mortalidade infantil colocou-nos num lugar de que nos podemos orgulhar. Portugal mudou e mudou para melhor.

Há dias, perguntei à minha fisioterapeuta, uma rapariga de 30 anos, se a avó dela, uma camponesa pobre de Viseu, teria sido mais ou menos feliz do que ela. Sem hesitar, disse-me: «Mais, e sabe porquê? Ela nunca saiu da aldeia onde nasceu, não tinha expectativas, contentava-se com o que a terra lhe dava; ora, eu quero doutorar-me, sei que posso ter uma vida melhor se voltar para a Suíça, onde fiz o ensino secundário até o meu pai, que para ali emigrara como pedreiro, ter tido um acidente.» Sorrindo, acrescentou: «Sim, eu quero subir na vida e é por isso que sofro mais do que a minha avó».

Muito poderia ter sido feito de forma mais justa e eficiente, mas isso não nos deve levar a menosprezar o que conseguimos, de que há a destacar o Serviço Nacional de Saúde, que salvou da morte a minha neta Joana, que acompanhou a minha mãe até aos últimos dias e que agora se ocupa de mim. É importante lembrar isto num momento em que tudo, à nossa, e à minha, volta parece ruir. Não podemos cruzar os braços, desistindo de tentar fazer mais e melhor.

Ao pensar que posso não viver muitos mais anos, quero acreditar que o futuro não será menos doce só porque parti. Os meus netos ficarão por cá, guardiões, segundo espero, dos valores em que acredito e nos quais foram criados. O futuro é deles. E é por consideração por eles que, embora existam razões, não me entrego ao pessimismo. Tenho a certeza de que cada um à sua maneira saberão escolher o seu caminho.
«Expresso» de 1 Nov 14

Etiquetas:

3.11.14

E o plural de "artesão" é...

Oiçam, jornalistas: não se faz

Por Ferreira Fernandes 
O destaque dizia: "Estava sozinho num estado deplorável" - [diz] testemunha." É verdade e é mentira, como se vê nas duas páginas abertas do jornal. José não estava sozinho, estava acompanhado por canalhas que se aproveitaram dele inconsciente para o filmar. O facto imoral - não se abusa de um homem inconsciente - estava demonstrado pela indignidade do jornal que espalhava seis fotos do desacordado José, retiradas do vídeo. Testemunha não era quem falou - testemunha, pessoa que atesta a verdade de um facto, foram todos os leitores com o jornal nas mãos. Testemunha não era, como diz o jornal, "um dos rapazes que partilhou com Zeca uma das últimas noites de excessos, antes do ator decidir internar-se numa clínica de desintoxicação". Esse rapaz é só um chantagista que foi vender as imagens ao jornal, hipótese um, ou um tolo que em nome do sacrossanto direito de todos sabermos tudo foi dá-las ao jornal, hipótese dois. Hipótese dois que o jornal sugere, ilibando o rapaz da venda porca, mas não o iliba a si próprio, jornal, de meter nojo. Deplorável, enfim, não é a palavra certa. Deplorar é respeitar a fraqueza, e não o fizeram com José. Não sei quem ele é, além do que o jornal apresentou: um ator de telenovelas que anda perdido e se internou numa clínica de desintoxicação. As páginas, e não foram só aquelas duas, que o jornal dedicou àquele homem, de quem não ignora a aflição e o grito de socorro, não se fazem. Não se fazem, ponto.
«DN» de 3 Nov 14

Etiquetas: ,

2.11.14

Luz - Fátima

Fotografias de António Barreto- APPh

Clicar na imagem para a ampliar 
Dias antes de uma peregrinação, quando o santuário e a alameda da Cova da Iria estavam quase desertos. Fátima é uma verdadeira tentação para um fotógrafo. Em todos os seus estados, com peregrinos ou sem eles, com o comércio dos vendilhões ou as velas e os círios das promessas, à noite ou de madrugada, com sol em brasa ou sob fria chuva… Fátima é local de grande fotogenia. E não é de certeza pela beleza natural, que não é muita. Ou mesmo nenhuma. Esta fotografia data ainda dos tempos anteriores à nova catedral e todo o local era mais despojado. Estas duas irmãs criam uma impressão estranha. Zanga? Polémica? Ralhete? Indicação de percurso? Direcção de caminho? Instrução? É difícil imaginar o que uma diz à outra, mas a pose da primeira revela uma autoridade e uma energia mais forte do que a redondeza da outra. (1994)

Etiquetas:

DOMÍNIOS MORFOSSEDIMENTARES DE TRANSIÇÃO NA INTERFACE TERRA–MAR (1)

Por A. M. Galopim de Carvalho
Introdução 
Entidades morfossedimentares por excelência, deltas, estuários e lagunas são, na grande maioria, formas e ambientes químicos, hidrodinâmicos e ecológicos situados na fronteira ou na transição dos meios continental e marinho. Neles se fazem sentir, simultaneamente, as acções químicas, físicas (sobretudo dinâmicas) e biológicas destes dois meios. Deltas e estuários representam, em geral, duas situações opostas na dialéctica que, na foz de muitos rios, se estabelece entre a sedimentação e a erosão.(...)
Texto integral [aqui]

Etiquetas:

1.11.14

O ovo ou a galinha?

Por Antunes Ferreira 
E, DE REPENTE, os noticiários laçaram uma bomba: o substituto de Steve Jobs saíra do armário. O CEO da Apple, desde que o “patrão” Jobs decidira abandonar o cargo, foi e é Tim Cook. Com êxitos na condução do gigante da informática ele, que já fizera um percurso profissionalmente impecável e rápido na empresa, assumira normalmente o posto mais importante dela. Muito se falava dele face aos resultados da Apple que indiciavam que Jobs fora bem sucedido quando o indicara para seu sucessor. Mas também se insinuava que a sua opção sexual tinha a ver com homens. 
Finalmente num artigo que publicou nesta semana, Tim Cook assumiu a sua homossexualidade, garantindo que sê-lo foi uma das maiores dádivas que Deus lhe deu. Pertencer a uma minoria deu-lhe "a pele de um rinoceronte" contra o preconceito e a adversidade. Isto quer dizer que embora muito se fale de igualdade sexual entre os parceiros de um relação, mesmo nos Estados Unidos o preconceito sobre a matéria ainda tem muita força. 
Cook ainda disse mais: "Embora eu nunca tenha negado a minha sexualidade, eu também nunca a reconheci publicamente, até agora. Deixem-me ser claro: orgulho-me de ser gay, e considero ser gay uma dos maiores dádivas que Deus me deu". O texto dado à estampa correu o Mundo, nomeadamente através da via informática. Pelos vistos a globalização também está na liberdade sexual… Com os meios informatizados as notícias estão na casa de cada um que utiliza o computador. 
Mas, os restantes meios da informação social não quiseram deixar de difundir a notícia explosiva. Nunca me esqueço daquilo que na minha primeira experiência jornalística como profissional, mais precisamente no “Diário Ilustrado” (que hoje pouca gente sabe o que foi) no primeiro dia na Redacção, o falecido Victor da Cunha Rêgo veio ter comigo. “Ouve lá, ó semiputo, nunca te esqueças do que te vou dizer.
Era o tempo em que os subordinados se dirigiam aos superiores tratando-os por Senhor. E que a condição sine qua non do Sindicato dos Jornalistas para se entrar na profissão era saber ler e escrever. Sem saudosismos piegas, tenho a certeza que a conditio devia continuar. Cunha Rêgo disse-me – o que nunca mais esqueci – “a notícia não é quando um cão morde num homem, mas sim quando um homem morde num cão…”
Tudo isto me entrou pela massa cinzenta quando li o escrito por Tim Cook; Em Portugal, por mais que se diga o contrário, ainda somos puritanos, as mais das vezes falsos, mas somos. E perante as afirmações do actual CEO da Apple, nos EUA, as coisas também subsistem. A chegada dos Peregrinos, que depois passaram a ser chamados Founding Fathers, os Pais da Pátria, trouxe embrulhado na Bíblia o puritanismo. 
Daí que no nosso país as reacções foram a demonstração da frase que se tornou calina entre os heterodoxos: “não tenha nada contra os homens que se deitam com outros homens… desde que não seja comigo…” Os órgãos da comunicação social descobriram a mina que Cook havia colocado, e praticamente nenhum aplaudiu o texto assinado pelo autor. Mas ainda há alguns que não se limitaram a embarcar no barco geral e do texto que se tornou viral.
Entre eles o “Expresso” foi ouvir Isabel Fiadeiro Adveirta, a vice-presidente da ILGA, a Intervenção Lésbica, Gay. Bissexual e Transgénero) que afirmou que “ao contrário do que acontece em países como Espanha, Itália ou França, Portugal nunca teve um ministro ou um destacado responsável político a assumir publicamente a sua homossexualidade” e que “mesmo a nível de deputados, houve apenas um caso, o do antropólogo Miguel Vale Almeida, cuja eleição pelo PS esteve associada à defesa da legalização do casamento gay”. E quanto a políticos e grandes empresários? A dirigente da ILGA não se coibiu: ” a este nível, o receio não estará relacionado com despedimento mas com o medo de que o facto de revelar publicamente a sua orientação sexual os impeça de virem a aceder a determinados cargos.” 
 Não sou defensor do homossexualismo, ninguém me mandatou para o ser, mas não gosto do exibicionismo. As manifestações homossexuais têm todo o direito de serem organizadas e de desfilarem ostentando dísticos a favor dessa orientação sexual. A Liberdade também é isto e a Democracia igualmente. Mas, pergunto-me se é necessário fazer tais exibições. Já se imaginou uma manifestação de heterossexuais para defenderem a sua prática? Já aconteceu.
E ainda se pode pôr a eterna questão: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Etiquetas:

30.10.14

Momento zen de quarta_ 29_10_2014

Por C. Barroco Esperança
O inefável João César das Neves (JCN), na última homilia, «Exterminador Implacável», foi buscar um dos pecados mortais – o orgulho –, considerado por Evágrio Pôntico, um monge escritor e asceta do séc. IV, era vulgar, como muito ruim. 
 JCN não refere o autor pio nem o método usado para medir o orgulho e a sua gravidade relativa, mas segue-o na severidade que atribui a tão grave pecado, capaz de despachar a alma do orgulhoso, em grande velocidade, para as profundezas do Inferno. (...)
Texto integral [aqui]

Etiquetas:

29.10.14

Humor negro?

Sobre fobias que atacam coisas boas

Por Ferreira Fernandes
As coisas más fartam-se de nos ensinar coisas. Graças às guerras sabemos geografia, de Donetsk a Kobani, como nunca teríamos imaginado e com os ataques de clowns em França descobrimos o que é coulrofobia, o medo de palhaços. Que os palhaços podem meter medo já sabíamos desde a boca rasgada do Joker, no Batman, ou desde o romance de horror It, sobre um palhaço que vive nos esgotos de uma cidadezinha americana e mata crianças... Ainda não sabemos é se já havia coulrofobia antes do escritor Stephen King ter ido por aí ou Jack Nicholson ter decidido ser mais uma vez excelente. Um dia, se calhar, vamos descobrir que existe o pânico do sexo, um medo que bem poderia chamar-se teresoguilhermofobia, uma fobia que talvez seja antiga mas que o mau gosto da madrinha e os seus acólitos da Casa dos Segredos têm aprimorado como ninguém. A questão é: nem as coisas boas, como palhaços e sexo, podem dizer-se imunes a gente que estrague tudo. Hoje em dia, há crianças e adultos no Sul de França cujo maior receio é encontrarem na garagem um nariz vermelho, tal como em muita cama portuguesa o pesadelo é ser assaltado pela ideia duma metralhadora falante a instigar coitados à canzana. Sobre se o medo de palhaços é para continuar, não sei. Sobre a outra fobia de que falei, também não. Receio é que esta última traga mais outra: a anatidaefobia, o medo de ser observado por patos. De facto, o número de patos a querer ver aquilo é de meter medo.
«DN» de 29 Out 14

Etiquetas: ,

Curiosidades do (M/F) - 4

27.10.14

A nossa bandeira e os trapos deles

Por Ferreira Fernandes 
Há dias, um casal de turistas - ela de niqab, só uma frincha para os olhos - estava na primeira fila da Ópera de Paris, na Bastilha. Cantava-se La Traviata, de Verdi. "La traviata" é Violetta, uma cortesã apaixonada pelo jovem burguês Alfredo, que também a ama. Sofrem pressões familiares e ela, para o proteger, afasta-se e morre tuberculosa. Um dramalhão? Certo, mas sobre a liberdade (no caso, de amar) que até uma mulher de má vida tem direito. Em 1853, quando estreou a ópera, Verdi escrevia a um amigo: "Ela é livre, ela ama, como eu, uma vida solitária que a livra de toda a obrigação..." Falava da sua criação, de Violetta? Não. Verdi falava da mulher com quem vivia, Giuseppina Strepponi, uma mulher livre, já com dois filhos, e com quem o compositor irá acabar os seus dias. La Traviata é um monumento da humanidade, beleza imensa mas também, só por existir, uma ópera que combate preconceitos e injustiças que são tenazes contra as mulheres. No fim do primeiro ato, naquela La Traviata, na Bastilha, os membros do coro viram o insulto que tapava a mulher do niqab. Alguns recusaram cantar - e o casal foi expulso (há uma lei francesa que proíbe o niqab em público). Isto é, houve dois lados. O costume é só o do niqab, com a sua propaganda - trapos ostensivos - da submissão da mulher. Por uma vez, uma cidade europeia entendeu que tem uma luta política e pública a travar. Os direitos iguais da mulher são a maior das nossas bandeiras. «DN» de 27 Out 14

Etiquetas: ,

26.10.14

Luz - Bar Negresco em Roma, Itália.

Clicar na imagem para a ampliar 
Creio que o mais importante Negresco que existe é um hotel de Nice, famoso há mais de cem anos, fotografado e filmado milhares de vezes. O hotel fica na reputada Promenade des Anglais, com vista para o Mediterrâneo. O nome vem de um senhor romeno que foi director do casino de Nice e que, tendo ficado milionário, mandou construir o hotel e baptizou-o do seu nome. Para além do original, mas com exactamente o mesmo nome, há hotéis e bares um pouco por todo o lado, no Sul de França, em Paris, em Espanha e em Itália. Sei que em Lisboa também há ou houve um restaurante. O Negresco desta imagem é um bar simpático e sem pretensões, mas com toalha branca na esplanada, o que não é pouco. A alegria da fotografia é evidentemente a figura de um padre, provavelmente um monsenhor. O chapéu podia ser de monsenhor! Será pelo uniforme, será pela batina, mas a verdade é que os padres são particularmente fotogénicos. Também pode ser porque, com excepção dos templos, os padres parecem sempre deslocados no mundo: as raparigas, os bares, o comércio, os carros, os restaurantes, o cinema, o luxo, a moda, os prazeres da Terra, as várias formas de pecado… tudo parece estar fora do alcance dos sacerdotes e estes parecem sempre excêntricos e insólitos. Apesar de sabermos que nada do que acima foi enumerado lhes seja estranho… (2001)

Etiquetas:

25.10.14

UM MONUMENTO À GEODIVERSIDADE E À BIODIVERSIDADE DOS AÇORES

Por A. M. Galopim de Carvalho
*
ACABA de ser editada pelo Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA), sob a direcção de Victor Hugo Forjaz, Professor Catedrático Jubilado da Universidade dos Açores, a obra de que se reproduz a capa.
Ilha do Pico, numa gravura de 1819
Em formato A4 deitado, com capa em cartão, com 400 páginas profusamente ilustradas, a cores, regista, em capítulos individualizados: a Geologia, a Zoologia e a Botânica da ilha mais recente e a mais enigmática do arquipélago açoriano, acompanhados por um preâmbulo histórico-geográfico-climatológico.

Os autores do livro são vulcanólogos, biólogos, climatologistas, cartógrafos e técnicos de geologia.

A obra, ao preço de 22,00€, pode ser adquirida na sede da OVGA, Av. Vulcanológica, nº 5, Atalhada, Lagoa – São Miguel.

ou pedida pelo telefone 962 414 877
ou por E-mail vforjazovga@gmail.com
Não é comum ver a totalidade do vulcão do Pico.
As mais das vezes esconde-se atrás das nuvens.

Etiquetas:

Etiquetas: ,

O menu dos disparates

Por Antunes Ferreira

Para não fugir à normalidade, esta semana política foi recheada de confusões feitas pelos diversos membros do (des)Governo & arredores. Nos campos da Educação, da Justiça, da Fiscalidade e dos Estrangeiros continuou o regabofe do na manhã de hoje dizes sim, ao meio-dia, talvez e ao jantar, não. Lembro aqui um anúncio radiofónico da minha infância. “De manhã, à tarde e à ceia coma carne de baleia”. Pelo menos tinha uma constante: comer carne de baleia; porém, hoje, à ceia pode ser que sim, pode ser que não e talvez corresponda ao quem sabe levante o braço?

Com o expresso apoio de Coelho, o ministro Crato fez um excelente trabalho na abertura do ano lectivo e na colocação dos professores. Não pode haver dúvidas de que assim foi, tal a convicção posta pelo nosso primeiro na sua afirmação. Curiosamente, dias depois, o ministro da (des)Educação veio prometer que até ao fim deste mês de Outubro algumas falhas iam ser remendadas, quer-se dizer, resolvidas. Tome-se o caso dum professor cujo nome é Rui Pinto Monteiro, tem 36 anos de idade, está a dar aulas em Biscoitos, na Ilha Terceira, nos Açores, e pede ao Ministério da Educação e Ciência (MEC) que faça o favor de o retirar das listas de colocação de professores. 

Segundo o Público, que tem acompanhado o caso, o docente já tinha sido colocado em 75 escolas (obviamente diferentes) mas, ao fim da última quinta-feira os avisos por mail oriundos da DGAE, a Direcção Geral da Administração Escolar,  já tinham chegado às 97 colocações. “Bati o recorde” foi o comentário que fez ao quotidiano. E que seria se a abertura do ano escolar não tivesse corrido tão bem?

Na (in)Justiça continua a saga da plataforma CITIUS.  Seis dias depois de a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, ter assegurado que o sistema informático dos tribunais de primeira instância voltara ao “pleno funcionamento”, vários presidentes de comarcas desmentem o regresso à normalidade. E ontem o Sindicato dos Funcionários Judiciais calcula que existam 500 mil processos fora do famigerado CITIUS, segundo um inquérito realizado,na segunda-feira, a mais de 130 oficiais de justiça.

Nos Negócios Estrangeiros surgiu mais uma trapalhada do ministro sénior Rui Machete. Desta feita em declarações à Rádio Renascença, disse que havia algumas portuguesas que tinham embarcado na tragédia do “Estado Islâmico” queriam voltar a Portugal por estarem desiludidas com os jihadismo. Aqui d’el rei bradou a oposição, a segurança do país pode ter sigo perigosamente afectada. Machete, depois de um Conselho de Ministros onde se terão passado cenas para adultos, veio olimpicamente dizer que não via o motivo para tanta agitação: ele não mencionara nomes e por isso não incorrera em qualquer falta que pudesse pôr em perigo a segurança do país.

Houve logo que recordasse o caso das declarações do mais velho ministro do ainda (des)Governo em relação a Angola, pedindo desculpa dos casos de justiça que decorriam em Portugal contra cidadãos angolanos. Resultado, o presidente José Eduardo dos Santos (que não é flor que se cheire e está no topo da lista dos chefes de Estado africanos mais ricos) suspendeu sine dia uma cimeira que estava combinada ao nível de presidentes,

Finalmente o maior embrulho do (des)Governo nesta semana foi resultante das afirmações de Coelho sobre a tal “cláusula de salvaguarda” para determinados contribuintes que São Bento vai colocar na Reforma do IRS. Face a isso, e apesar de declarações de toda a gente do Ministério das Finanças (entenda-se todos os responsáveis, incluindo naturalmente o Sr. Núncio e a Dr.ª Maria Luís), a guerra continua acesa com uma simples interrogação à cabeça: afinal, pago ou não pago?

Mas o que foi mais estranho foram os comentários do fiscalista Rui Duarte Morais, (que liderou a comissão para a reforma do IRS), ter vindo lamentar que a discussão em torno das propostas de alteração no IRS esteja centrada em saber se um contribuinte vai pagar mais ou menos no próximo ano. Quando se propõem medidas fiscais para beneficiar as famílias com filhos, disse, é claro que haverá um agravamento para quem não os tem. Para ele, não ver isso é “mascarar” o óbvio. E a solução prometida pelo Governo para – através de uma cláusula de salvaguarda – não prejudicar os contribuintes sem filhos poderá pôr em causa a simplificação do imposto, um dos objectivos da própria reforma.

O menu dos disparates (des)governamentais está na mesa. Bom proveito, depois de consumado e consumido, obviamente.

Etiquetas:

24.10.14

A realidade nas prateleiras de brinquedos

Por Ferreira Fernandes 
A série televisiva Breaking Bad (Rutura Total) passa-se no Novo México seco, duro e magnífico, como a série. O professor de Química Walter White, ao saber ter cancro, torna-se produtor de drogas (metanfetaminas) para deixar alguma coisa à família. Arregimenta um ex-aluno, Jesse, e é um dealer infeliz, numa história muito premiada. Um dia destes, uma mãe da Florida entrou numa loja de brinquedos Toys "R" Us e, em estantes com Barbies, viu também bonecos de Walter e Jesse com batas e máscaras de laboratório clandestino, com armas e sacolas, para os dólares do tráfico ou para os comprimidos ilegais... A mãe protestou, fez-se uma petição e o comediante Conan O"Brien, que tem um programa diário de TV, ironizou: "Se eu vivo na Florida e quero que os meus filhos tenham contacto com vendedores de droga, deixo-os brincar na rua, não os levo a uma loja de brinquedos..." A Toys "R" Us, cadeia de lojas legal, não querendo passar por cadeia com bandidos dentro, tirou os alucinados bonecos das suas prateleiras. Por falar em laboratório, esta história confirma as experiências contraditórias a que somos sujeitos. A mesma sociedade que tenta criar uma bolha protetora à volta das crianças (proíbe canções como Atirei o Pau ao Gato ou expurga os livros de Mark Twain dos seus termos antigos), estende-lhes brinquedos com o pior que a rua tem. Podem fazer--se várias teorias sobre isso. Mas nenhuma ensina mais do que saber que é assim e assim vai ser.
«DN» de 24 Out 14

Etiquetas: ,

Curiosidades do (M/F) - 3

Mobiliário "M/F"? Quererá dizer "Muito Feio"?

23.10.14

Matar conseguem mas a suicidar falham sempre

Por Ferreira Fernandes
Vi ontem que um jornal fez com o homem que matou a mulher um daqueles "sobe e desce" com setinhas. O homem, engenheiro e de Soure (digo isto porque, sendo tantos os homens que matam as mulheres, se não damos minúcias, perdemo-nos), além da mulher, matou uma filha de 16 anos e feriu outra, de 13. As setas são úteis para se entender rapidinho se é mau ou bom o que um sujeito fez. Por exemplo, o ministro poupou: seta para cima. O guarda-redes deu um frango: seta para baixo. As opiniões são controversas, difíceis de pesar. São como os interruptores, umas vezes para cima, outras para baixo. Um homem que mata a mulher e uma filha, e fere outra, e tudo com várias facas, três ou quatro, porque iam-se partindo, esse sujeito, pois, foi colocado pelo jornal sob a dúvida: sobe ou desce? Desce, o jornal pô-lo a descer. Acho que foi uma decisão acertada. Outra coisa eu não esperaria de um jornal que narra estas coisas do quotidiano ordinário com cuidadas análises psicanalíticas: o homem tinha "pouca autoestima". No fim do artigo fui informado de que ele "depois de matar a família teve intenção de se suicidar mas não conseguiu." É sempre assim... Eu, que sou um bruto e dou pouca atenção às tais análises, já aqui propus numa que se fizesse uma campanha nacional para se inverter o método: explicar aos homens do meu país que devem, primeiro, suicidar-se, e só depois tentar matar as mulheres. Ah, se eu soubesse explicar isso com setinhas... 
«DN» de 23 Out 14

Etiquetas: ,

Curiosidades do (M/F) - 2

Para que não haja dúvidas provocadas pelo "M/F", o 3.º anúncio indica que quer 2 meninas...

Passos Coelho e as eleições legislativas

Por C. Barroco Esperança
Pedro Passos Coelho, alegado primeiro-ministro, cargo de que usufrui as prerrogativas e benefícios, incapaz de autocrítica, ameaçou o país com a recusa de antecipar as eleições legislativas, assustando os portugueses com mais um ano a rebolar-se no exaurido pote. 
Não estão em causa os prazos constitucionais, mas as instituições, a agonia do regime e a decadência ética do Governo que fez de Portugal um laboratório de experiências mal sucedidas, com o caos na Justiça, a Educação e Ciência em colapso e a desconfiança nos governantes igual à que Passos Coelho adicionou com as peripécias da Tecnoforma. (...)
Texto integral [aqui]

Etiquetas:

22.10.14

As metáforas de Passos e chorar por mais

Por Ferreira Fernandes 
Antes das últimas eleições legislativas, em janeiro de 2011, Passos Coelho disse dos seus: "O PSD não está cheio de vontade de ir ao pote." Ontem, à espera das próximas eleições, Passos Coelho falou dos outros, "os que olham agora gulosamente para as eleições". Assinale-se a coerência lambareira da análise. Vamos a caminho de quatro anos e o pensamento do primeiro-ministro não sai da papila gustativa. A política externa? "Hummm, crepes Suzette..." E quanto à Defesa? "Brigadeiros, claro." E a dívida pública, senhor primeiro-ministro? "De comer e chorar por mais!" Não é que eu não goste, gosto. Mas não é a ideia que tenho de debate eleitoral, ver qual o político que mais passa a língua pelos lábios. Preferia que a política pusesse sobre a mesa mais ideias e menos sobremesas. Além de que, com a má fama que o açúcar começa a ter na política da Saúde, eu não entendo a insistência de Passos Coelho em ser acusado do aumento da diabetes. Ontem, frase completa usada para repetir a que já se vai tornando habitual política de faca e garfo era contra aqueles que "sabem alimentar-se da desgraça e que olham gulosamente para as eleições". Como veem, é uma preocupação com o dar ao dente própria de um país subalimentado. Já enjoa. A única justificação que vejo é a de lembrar que nem todo o setor bancário está em crise. O Banco Alimentar contra a Fome tem em Passos Coelho um propagandista incansável.
«DN» de 22 Out 14

Etiquetas: ,

Curiosidades do (M/F) - 1

20.10.14

Enquanto o lobo não vem

Por Ferreira Fernandes 
Ontem, o El País tinha uma página sobre a enfermeira que está quase curada do ébola. Falando do marido dela, também isolado mas sem ter sido infetado pelo vírus, o jornal madrileno fez este destaque: "O trauma sofrido causará um stress - diz um psiquiatra". Ontem, também, o DN publicou uma página sobre um português que, suspeito de ter ébola (rebate falso), foi fechado durante duas horas numa sala do Hospital Francisco Xavier onde nem tinha uma cadeira. Os povos felizes (dos quais se diz que não têm História), são assim, têm a oportunidade de se assustar com tangentes. Não é que não tenham histórias, têm-nas. Ter sido isolado, mesmo só por precaução, e ter a mulher com ébola, mesmo que em recuperação, é traumatizante; febril e ter sido colocado numa sala hospitalar sem uma cadeira, é duro. Mas pertencem à categoria dos dramas que se ultrapassam. Não são tragédias, coisas definitivas de más. Esperemos ficar só por dramas e não cair nas tragédias. Mas era bom, entretanto, sabermos que estas, as tragédias, existem. Basta ver fotos da Libéria e da Serra Leoa. É a dimensão delas que nos leva a pensar que nos dramas de Madrid e de Lisboa, no isolamento de dias do marido da enfermeira e no isolamento de duas horas do português há um bom sinal. Significa que já há quem saiba que há, mesmo, o perigo de tragédias. Alguns já sabem. Mas saberemos todos que há tragédia quando os jornais não dedicarem uma página nem ao stress nem à falta de cadeira.
«DN» de 20 Out 14

Etiquetas: ,