19.11.17

Sem Emenda - As Minhas Fotografias


À beira Tejo, do alto do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa – No estuário do Tejo, há alguns marcos de nobreza e memória. A Torre de Belém é o mais formidável. O Cais das Colunas tem admiradores, é um dos locais privilegiados para as “selfies”. A Central Tejo é edifício atraente. Entre os contemporâneos, podem citar-se a Torre de Controlo de Pedrouços, assim como a Fundação Champalimaud, o MAAT e o Terminal de Cruzeiros. Vamos ver como se comportam no futuro, o que deles dirão as novas gerações. Apesar da estética muito discutível, o Padrão dos Descobrimentos é um dos mais conhecidos. Foi construído em 1940 para a Exposição do Mundo Português. Mas era tudo de gesso e cal. Foi reconstruído a sério, em pedra e betão, em 1960. O acesso público ao terraço, onde foi feita esta fotografia, só é possível a partir dos anos 1980. Lá em baixo, o passeio à beira rio é de uma serenidade inesquecível. Ouvem-se as gaivotas e as vozes das pessoas a falar todas as línguas do mundo.

DN, 19 de Novembro de 2017

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Sem emenda - Estado a mais, Estado a menos

Por António Barreto
A luta entre liberais e dirigistas é antiga. Em Portugal, a tradição é a de Estado a mais: nos Descobrimentos, na colonização, na industrialização, na República, no corporativismo, na revolução e na democracia.
Há, em geral, Estado a mais nas leis e nas regras. Mas há Estado a menos na prática e na acção.
Há Estado a mais na Administração central, nos privilégios da Função Pública, nos regulamentos urbanísticos, nas condições de investimento, na lei laboral, na concertação social, na burocracia e nos procedimentos judiciários.
Há Estado a menos na segurança, na defesa, na protecção pessoal, nas emergências, nas cirurgias, na luta contra os desastres, na protecção do património e na fiscalização de actividades financeiras.
Mas esta polémica esconde um aspecto crucial. Muitas vezes, o Estado, a mais ou a menos, é ignorante. O desenvolvimento do capitalismo, da indústria e dos serviços, assim como do comércio internacional e da integração europeia, não foi acompanhado pelo reforço das capacidades científicas e técnicas do Estado. Este prefere recorrer aos privados, a escritórios, a agências e a consultores. Subcontratação é a palavra-chave. Hoje, a Administração Pública não tem capacidade de planear ou seguir a maior parte das coisas que faz ou deixa fazer. Episódios como o dos aeroportos de Lisboa, da Ota, do Montijo ou de Alcochete, nunca teriam ocorrido se a Administração não estivesse esvaziada de conhecimento. As hesitações, a falta de clareza em temas como o comboio de grande velocidade, os terminais marítimos, a rede ferroviária, o campus da Justiça, a construção das grandes pontes, os parques industriais e grande parte das auto-estradas construídas em sistema de parceria (PPP) não dariam tanto desperdício, se o Estado não estivesse refém dos interesses económicos ou partidários. E talvez a eficiência e a segurança fossem superiores se o Estado, ao autorizar ou investir, estivesse dotado de capacidade técnica tão independente quanto possível, mas sobretudo conhecida, o que é uma notável fonte de independência.
Os recentes fogos servem para demonstrar esta aparente dualidade. Houve Estado a mais na fixação de um calendário de incêndios, na tentativa de dirigir a informação, na inexistência de entidades civis ou locais, no monopólio de funções, na inércia dos grandes dispositivos reféns de empresas e interesses e no esvaziamento de competências das autarquias.
Houve Estado a menos na previsão, na informação, na acção de emergência e na disponibilidade de sapadores profissionais; na falta de divulgação dos dados conhecidos e que definiam a ameaça; na incompetência técnica de tantos serviços, na falta de formação profissional dos bombeiros e na ausência de dispositivos céleres de emergência humana.
Haverá Estado a mais se as Forças Armadas forem enviadas para os incêndios sem missão legal, sem meios, sem equipamento, sem aprendizagem e sem formação adequada. Mas há seguramente Estado a menos, com a impossibilidade de intervenção por parte das Forças Armadas, que não estão devidamente preparadas, treinadas e equipadas.
Este governo portou-se mal em todas as frentes, até às mais simples tarefas de distribuição de água, pão e agasalho a quem precisava no dia seguinte. Foi incapaz na previsão e incompetente na coordenação. A desorganização, a ignorância, a falta de interesse e a insuficiência de conhecimentos são deste governo. Mas também são, em boa parte, do governo anterior e do governo de antes do anterior. E dos de antes desses. Isto é, do Estado, que perde em tudo o que importa a todos e que cresce em tudo o que interessa a alguns.
O problema parece ser mais do Estado do que do governo. É verdade. Mas isso não desculpa o actual governo. Pelo contrário, só o responsabiliza. E revela com mais nitidez a sua incompetência.
DN, 19 de Novembro de 2017

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Colaboração adicional no CORREIO DE LAGOS deste mês

Além de toda a pág. 2 (dedicada a problemas da Cidade), o Correio de Lagos dá-me ainda este espaço para divulgação de curiosidades diversas.

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Uma desgraça chamada seca

Por Antunes Ferreira
Já não bastavam os terríveis incêndios florestais, a seca também assola o nosso país.
A água como é sabido é um bem essencial para Portugal. Quase todos os autarcas têm tomado medidas. O Governo também as tem. Mas António Costa não pode mandar chover. Por todo o Mundo a água era tema controverso Tome-se por exemplo as Colinas de Golan s Montes Golan. Elas  são o centro da discórdia nas relações entre Israel e a Síria. As montanhas, que hoje delimitam a fronteira norte israelita, foram ocupadas durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Telavive anexou-as em 1981.
 Consideradas militarmente estratégicas, por mor da sua altitude, as colinas também são de grande importância devido às suas fontes de água, isso numa região que sofre anualmente com a seca. De acordo com uma informação dada nessa altura pela BBC, estima-se que cerca de um terço da água que abastece Israel nos dias de hoje é proveniente de Golan.
 O município de Nelas declarou, ontem o estado de emergência devido à seca, anunciou o autarca José Borges da Silva, em entrevista à TSF. Segundo o presidente da Câmara de Nelas, a região atravessa uma "situação de calamidade" devido à falta de água, que deve ser combatida "com medidas imediatas e sem olhar a custos", depois dos incêndios que atingiram fortemente a zona centro do país, associados ao tempo seco que tem afectado Portugal. Uma das primeiras medidas foi desactivar as piscinas municipais de Nelas, que se encontram vazias devido ao racionamento de água. José Borges Silva falou mesmo num "racionamento de guerra" relativamente à água, lembrando que há, pelo menos, mil postos de trabalho que dependem da água.
Por isso as medidas adoptadas pelo Governo e pelas autarquias têm vindo a ser informadas com seriedade, apoiadas pelo Instituto Português do Mar e Ambiente, aumentando a sua classificação até se chegar à “calamidade”. As imagens que se veem todos os dias nas televisões com a terra gretada pela ausência da chuva dão aos cidadãos um desalento, uma tristeza e uma desmoralização que são de bradar aos céus; aos céus que praticamente durante o ano de 2017 não deixam cair umas pingas de água.
Todo o país está preocupado pela falta da chuva. 
Uma oração pela chuva e consequentemente pela seca foi proposta pelo Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente, que foi empregada pelos sacerdotes cristãos, aquando da celebração da missa.”Deus do universo, em quem vivemos, nos movemos e existimos, concedei-nos a chuva necessária, para que, ajudados pelos bens da terra, aspiremos com mais confiança aos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.” São com estas as palavras que D. Manuel Clemente promove a ideia afirmando ainda no comunicado que uma iniciativa deste género não é assim tão invulgar, já que “O Missal Romano inclui orações por necessidades de vária ordem, também no que à natureza se refere”.
O sentido da oração, explicou o Cardeal-Patriarca em comunicado, surge num contexto de “prolongada seca, que muito afeta o ambiente e as culturas. Os incêndios foram extremamente gravosos, com grande número de vítimas mortais e de feridos, além de muitos danos materiais e prejuízos económicos e sociais, que é urgente colmatar. Toda a solidariedade é devida a quem sofreu, toda a intervenção estatal e social é absolutamente prioritária”. É neste sentido que surgiu este apelo para que a oração seja adicionada às homilias.
À tempestade vem a seguir a bonança; oxalá tudo de componha com a vinda da chuva. A esperança é sempre a última a morrer.

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18.11.17

Curiosidades

A 1ª foto é do Pinterest. 
A 2ª é de Lagos, que tirei em tempos...

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17.11.17

SAUDADES DO KUNG FU

Por Joaquim Letria
O  Kung Fu teve muitos adeptos em Portugal. As salas de “reprise”, os piolhos e outros cinemas do género viveram décadas desses festivais de pancadaria que criaram uma galeria de monstros sagrados que vão desde o Bruce Lee ao Jean Claude Van Damme, passando pelo Chuck Norris, todos eles sob o olhar paternal de John Woo, o homem que conferiu dignidade às fitas “made in Hong Kong”.
Uma vez mais foi Hollywood – e não Hong Kong – a meter na cabeça dos jovens de então o sonho das artes marciais do Oriente. Poucos esqueceram os gestos de David Carradine, hermético como uma marmita, a calcorrear desarmado o Oeste americano à procura dum irmão desaparecido.
Carradine não usava os invitáveis revólveres Smith & Weston nem a espingarda de repetição Winchester, não bebia uísque dum trago nem calçava botas com esporas. Nós lá nos íamos inteirando das causas da atitude sofredora, paciente e contida, tudo aprendido e originário de Shao Lin, um templo chinês destinado à formação de jovens guerreiros que um primo do José Sócrates frequentou antes de se naturalizar brasileiro e fugir para Angola.
O pequeno Gafanhoto, como carinhosamente lhe chamava o seu mestre, aprendera ali a partir o pescoço do mais pintado, sempre com o uso exclusivo das mãos e dos pés, apenas em legítima defesa e em casos de força maior. Todos esperávamos aquele momento em que Carradine deixava qualquer rufião zonzo ou inconsciente, tudo isto numa década sem insegurança nas ruas nem guerra colonial e sem que o mestre Koboyashi  tivesse cá chegado para ensinar aos cívicos a arte do judo e do jiujutse.
Naquela época quase sem bullying nas escolas, os mais franzinos sentiam-se vingados e deitavam-se a sonhar com aqueles episódios da TV a preto e branco, desejando construir à palmada um mundo mais justo e uma sociedade mais fraterna.O  Kung Fu despertava o desdém dos bem pensantes, mas muita criança débil imaginou-se invulnerável, sem precisar dum revolver à Dirty Harry, para dizer àqueles que os brutalizavam no recreio “Bate-me para alegrares o meu dia!”
Aquele foi o tempo em que as crianças mais frágeis deixaram de fazer xixi na cama e tiveram ocasião de sonhar que poderiam enfrentar os brutamontes e todos aqueles que se valiam do físico, do dinheiro, da influência e do poder. Hoje já não é assim. O menino fraco voltou a fazer xixi na cama e caso se arme em esperto leva uma carga de porrada para não ser parvo e pensar que pode contribuir para um mundo com alguma justiça.
Publicado no Minho Digital

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16.11.17

Apontamentos de Lagos

Será possível anunciar um serviço (e em lugar de destaque, à entrada da cidade) e, em seguida, multar quem o usa?
Sim, em Lagos isso é possível — sucedeu ao meu filho recentemente...
O mais espantoso é que, nesta terra, ninguém protesta.

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A alma, essa desconhecida

Por C. Barroco Esperança

A alma é um furúnculo etéreo que infeta o corpo dos crentes. É um vírus que sobrevive à morte do hospedeiro e migra para a morada perpétua que os clérigos lhe destinam.
A alma é um bem mobiliário sujeito a imposto canónico e que, à semelhança das ações de empresas, hoje também desmaterializadas, exige taxa de ‘gestão da carteira celestial’.
No mercado mobiliário as ações são transmissíveis e negociáveis. Representam avos do capital social das empresas. A sua clonagem é criminosa e leva o autor à prisão, exceto quando o Vaticano está envolvido e nega a sua extradição, como sucedeu ao arcebispo Marcinkus, que JP2 protegeu, após a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano.
Quanto à alma, há suspeitas de haver um número ilimitado em armazém, o que exaspera os clérigos, intermediários do negócio, com o planeamento familiar. Não se sabe bem se a alma vai no sémen, está no óvulo ou surge depois da cópula, um ato indecente para tão precioso e imaculado bem.
Os almófilos andam de joelhos e põem-se de rastos sem saber se a alma se esconde nas mitocôndrias, nas membranas celulares, no retículo endoplasmático ou no núcleo e nos cromossomas, sem nunca admitirem que seja o produto de reações enzimáticas.
Ignoram se já tem algum valor no ovo, no embrião em fase de mórula ou no blastocito. Juram que aparece no princípio, sem saberem bem quando e onde está o alfa, ou quando surge Deus a espreitar pelo buraco da fechadura e a lançar aos fluidos a alma que escapa ao entusiasmo de quem ama.
Após o aparecimento dos rudimentos da crista neural, só às 12 semanas o processo de gestação dá origem ao feto e falta provar que a alma, embora medíocre, se encontra nos anencéfalos, ou seja de qualidade a que resulta de violação ou incesto.
A alma é um produto da religião destilado por sacerdotes no alambique da fé, através de um processo alquímico.

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15.11.17

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Em 2002 a UNESCO instituiu o Dia Mundial da Filosofia, no propósito de promover a reflexão sobre os acontecimentos actuais, fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz. Desde então este dia é celebrado em todo o mundo na terceira quinta-feira do mês de Novembro, que este ano terá lugar amanhã, dia 16.
Tudo o que aqui se pretende promover está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. Mas a verdade é que continuamos a ser um povo em que ainda são muitos os desinteressados pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e em que muitos militantes e a maioria dos simpatizantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias.
A Revolução de Abril, escancarou não só as portas, como os portões e as janelas, ao conhecimento nos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas vivemos 43 anos, praticamente, de costas voltadas para estes valores, entretidos com futebol, lutas entre os aparelhos partidários, e três televisões, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós, que “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da incultura em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo, sem ter aproveitado o prazer de saber e com isso ter participado numa sociedade melhor.
Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja “munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”, a verdade é que (só falo da experiência que tive) são muitos os rapazes e as raparigas, que pouco ou nada leram, que chegam à universidade falhos de todas as culturas, sem saberem escrever português.
Os teóricos que aconselham os governos pretendem (ilusoriamente e estou em crer que sem convicção) que o jovem, cumprida a escolaridade obrigatória, “seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”, mas basta ver a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para constatar a falência deste nobre propósito.
Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a “colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”. Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem.
É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si gente realmente capaz de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino, a começar nos programas, passando pelo negócio dos livros e outros manuais adoptados e, a terminar, na conveniente formação e necessária dignificação dos professores e em tudo mais que lhes diga respeito, como seja, por exemplo, a libertação de todas as tarefas alheias à sua real missão de ensinar. 

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