24.10.14

A realidade nas prateleiras de brinquedos

Por Ferreira Fernandes 
A série televisiva Breaking Bad (Rutura Total) passa-se no Novo México seco, duro e magnífico, como a série. O professor de Química Walter White, ao saber ter cancro, torna-se produtor de drogas (metanfetaminas) para deixar alguma coisa à família. Arregimenta um ex-aluno, Jesse, e é um dealer infeliz, numa história muito premiada. Um dia destes, uma mãe da Florida entrou numa loja de brinquedos Toys "R" Us e, em estantes com Barbies, viu também bonecos de Walter e Jesse com batas e máscaras de laboratório clandestino, com armas e sacolas, para os dólares do tráfico ou para os comprimidos ilegais... A mãe protestou, fez-se uma petição e o comediante Conan O"Brien, que tem um programa diário de TV, ironizou: "Se eu vivo na Florida e quero que os meus filhos tenham contacto com vendedores de droga, deixo-os brincar na rua, não os levo a uma loja de brinquedos..." A Toys "R" Us, cadeia de lojas legal, não querendo passar por cadeia com bandidos dentro, tirou os alucinados bonecos das suas prateleiras. Por falar em laboratório, esta história confirma as experiências contraditórias a que somos sujeitos. A mesma sociedade que tenta criar uma bolha protetora à volta das crianças (proíbe canções como Atirei o Pau ao Gato ou expurga os livros de Mark Twain dos seus termos antigos), estende-lhes brinquedos com o pior que a rua tem. Podem fazer--se várias teorias sobre isso. Mas nenhuma ensina mais do que saber que é assim e assim vai ser.
«DN» de 24 Out 14

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Curiosidades do (M/F) - 3

Mobiliário "M/F"? Quererá dizer "Muito Feio"?

23.10.14

Matar conseguem mas a suicidar falham sempre

Por Ferreira Fernandes
Vi ontem que um jornal fez com o homem que matou a mulher um daqueles "sobe e desce" com setinhas. O homem, engenheiro e de Soure (digo isto porque, sendo tantos os homens que matam as mulheres, se não damos minúcias, perdemo-nos), além da mulher, matou uma filha de 16 anos e feriu outra, de 13. As setas são úteis para se entender rapidinho se é mau ou bom o que um sujeito fez. Por exemplo, o ministro poupou: seta para cima. O guarda-redes deu um frango: seta para baixo. As opiniões são controversas, difíceis de pesar. São como os interruptores, umas vezes para cima, outras para baixo. Um homem que mata a mulher e uma filha, e fere outra, e tudo com várias facas, três ou quatro, porque iam-se partindo, esse sujeito, pois, foi colocado pelo jornal sob a dúvida: sobe ou desce? Desce, o jornal pô-lo a descer. Acho que foi uma decisão acertada. Outra coisa eu não esperaria de um jornal que narra estas coisas do quotidiano ordinário com cuidadas análises psicanalíticas: o homem tinha "pouca autoestima". No fim do artigo fui informado de que ele "depois de matar a família teve intenção de se suicidar mas não conseguiu." É sempre assim... Eu, que sou um bruto e dou pouca atenção às tais análises, já aqui propus numa que se fizesse uma campanha nacional para se inverter o método: explicar aos homens do meu país que devem, primeiro, suicidar-se, e só depois tentar matar as mulheres. Ah, se eu soubesse explicar isso com setinhas... 
«DN» de 23 Out 14

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Curiosidades do (M/F) - 2

Para que não haja dúvidas provocadas pelo "M/F", o 3.º anúncio indica que quer 2 meninas...

Passos Coelho e as eleições legislativas

Por C. Barroco Esperança
Pedro Passos Coelho, alegado primeiro-ministro, cargo de que usufrui as prerrogativas e benefícios, incapaz de autocrítica, ameaçou o país com a recusa de antecipar as eleições legislativas, assustando os portugueses com mais um ano a rebolar-se no exaurido pote. 
Não estão em causa os prazos constitucionais, mas as instituições, a agonia do regime e a decadência ética do Governo que fez de Portugal um laboratório de experiências mal sucedidas, com o caos na Justiça, a Educação e Ciência em colapso e a desconfiança nos governantes igual à que Passos Coelho adicionou com as peripécias da Tecnoforma. (...)
Texto integral [aqui]

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22.10.14

As metáforas de Passos e chorar por mais

Por Ferreira Fernandes 
Antes das últimas eleições legislativas, em janeiro de 2011, Passos Coelho disse dos seus: "O PSD não está cheio de vontade de ir ao pote." Ontem, à espera das próximas eleições, Passos Coelho falou dos outros, "os que olham agora gulosamente para as eleições". Assinale-se a coerência lambareira da análise. Vamos a caminho de quatro anos e o pensamento do primeiro-ministro não sai da papila gustativa. A política externa? "Hummm, crepes Suzette..." E quanto à Defesa? "Brigadeiros, claro." E a dívida pública, senhor primeiro-ministro? "De comer e chorar por mais!" Não é que eu não goste, gosto. Mas não é a ideia que tenho de debate eleitoral, ver qual o político que mais passa a língua pelos lábios. Preferia que a política pusesse sobre a mesa mais ideias e menos sobremesas. Além de que, com a má fama que o açúcar começa a ter na política da Saúde, eu não entendo a insistência de Passos Coelho em ser acusado do aumento da diabetes. Ontem, frase completa usada para repetir a que já se vai tornando habitual política de faca e garfo era contra aqueles que "sabem alimentar-se da desgraça e que olham gulosamente para as eleições". Como veem, é uma preocupação com o dar ao dente própria de um país subalimentado. Já enjoa. A única justificação que vejo é a de lembrar que nem todo o setor bancário está em crise. O Banco Alimentar contra a Fome tem em Passos Coelho um propagandista incansável.
«DN» de 22 Out 14

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Curiosidades do (M/F) - 1

20.10.14

Enquanto o lobo não vem

Por Ferreira Fernandes 
Ontem, o El País tinha uma página sobre a enfermeira que está quase curada do ébola. Falando do marido dela, também isolado mas sem ter sido infetado pelo vírus, o jornal madrileno fez este destaque: "O trauma sofrido causará um stress - diz um psiquiatra". Ontem, também, o DN publicou uma página sobre um português que, suspeito de ter ébola (rebate falso), foi fechado durante duas horas numa sala do Hospital Francisco Xavier onde nem tinha uma cadeira. Os povos felizes (dos quais se diz que não têm História), são assim, têm a oportunidade de se assustar com tangentes. Não é que não tenham histórias, têm-nas. Ter sido isolado, mesmo só por precaução, e ter a mulher com ébola, mesmo que em recuperação, é traumatizante; febril e ter sido colocado numa sala hospitalar sem uma cadeira, é duro. Mas pertencem à categoria dos dramas que se ultrapassam. Não são tragédias, coisas definitivas de más. Esperemos ficar só por dramas e não cair nas tragédias. Mas era bom, entretanto, sabermos que estas, as tragédias, existem. Basta ver fotos da Libéria e da Serra Leoa. É a dimensão delas que nos leva a pensar que nos dramas de Madrid e de Lisboa, no isolamento de dias do marido da enfermeira e no isolamento de duas horas do português há um bom sinal. Significa que já há quem saiba que há, mesmo, o perigo de tragédias. Alguns já sabem. Mas saberemos todos que há tragédia quando os jornais não dedicarem uma página nem ao stress nem à falta de cadeira.
«DN» de 20 Out 14

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19.10.14

Convite

UM PLANETA ROCHOSO

Por A. M. Galopim de Carvalho
A NOSSA TERRA, um dos quatro planetas rochosos ou telúricos do Sistema Solar, tem nas rochas os seus principais constituintes. O estudo destes “documentos” naturais é, pois, tema central da geologia. 
As rochas a que temos acesso directo representam uma pequeníssima mas importante parcela das resultantes da respectiva diferenciação e, à semelhança da água, do ar e dos seres vivos, são o resultado de imensas transformações, numa vasta e complexa rede de interacções ocorridas ao longo dos cerca de 4670 milhões de anos da sua história, plena de energia interna (sob a forma de calor) a que se adiciona toda a que lhe chega através da radiação solar. Como escreveu, em 1998, o malogrado Prof. Maurice Mattauer (1928-2009), “as rochas nascem, vivem e morrem. Como nós, elas têm uma idade e uma história”. (...)
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17.10.14

2,60 € por mês e o Pai Natal

Por Antunes Ferreira
DE ACORDO com o famigerado OE 2015 parece que as pensões mínimas são aumentadas. Mais: dizem-me que o aumento é de € 2,60 por mês. Quantia mais do que substancial. A titular da pasta das Finanças Maria Luís Albuquerque disse até que: "muitas famílias vão ter mais poder de compra" graças ao novo Orçamento. É obra.
O ar altivo e aristocrático da governanta, digo, governante e a sua impassibilidade permitiram-lhe afirmar esta barbaridade perante as câmaras televisivas. C’os diabos 2,60 € por mês sempre são 2,60 € mensais. Imagine-se o que certamente se irá verificar; com uma actualização de 2,60 € mensais,  desde as grandes superfícies até às PME soltarão, quero crer, um suspiro de alívio; isto estava mal, mas agora e que se vão deitar foguetes pelo aumento do poder de compra que está na directa proporção do aumento das vendas.
Mas, deixemo-nos de ironias, aliás estúpidas e inoportunas: o aumento é vergonhoso, mas também é aviltante. Já não basta um cidadão andar a morrer de fome, a estender a mão à caridade, a rebuscar nos caixotes de lixo em busca de algo que ainda se possa comer, e ainda vêm despudoradamente estes (des)governantes criminosos gozar com ele.
Porque, disso não haja dúvidas estes 2,60 € de aumento mensal são um escarro de face dupla. A quem o recebe e os que o “dão”. Já se sabe que não há respeito pelos mais desfavorecidos; já se sabe que os pobres são pobres até morrer; já se sabe que os ricos são os detentores do poder e que o antigo $ comandava  a vida e agora o € também o faz. Mas, pelo menos haja vergonha nas caras dos que dizem que nos governam e, afinal, apenas (des)governam.
Em 1874, Tomás Ribeiro, na sua obra “D. Jaime” utilizou pela primeira vez a expressão Jardim à beira-mar plantado. Há frases que ficam na História pela positiva; outras que que primam historicamente pela negativa. Foi Stefan Zweig quem criou o Brasil, país do futuro, que funcionou como um anátema para o país irmão. A partir daí os brasileiros tentaram esforçadamente dizer que a sua terra era o país do presente.
Neste país – mesmo que seja à beira-mar plantado – a hora é da desmoralização, do sofrimento, da crise, da austeridade, mas também da autoridade. Faz-se um Orçamento do Estado, o primeiro depois da funesta troika, mas segue-se o caminho traçado pela trindade amaldiçoada, UE, BCE e FMI. Isto quer dizer que do pouco de “autonomia” que nos restava tirou-se tudo. A política financeira do Estado desenha-se em Bruxelas, ou mais propriamente, em Berlim.
O primeiro-ministro (?) afirmou, aparentemente convicto que este não era o Orçamento eleitoral, referindo-se às legislativas que estão por aí a rebentar. Assim sendo, porquê a aparente diminuição de impostos (onde? Quando? Como?), porquê a devolução de roubos feitos aos funcionários públicos (agora trabalhadores da Função Pública, para ser politicamente correcto), porquê promessas em que ninguém já acredita, porquê a ressurreição do Pai Natal?
Todos os Executivos perante a eminência de eleições entram pelo caminho da facilidade (e não da felicidade), das benesses, das concessões. Nas urnas (que são a demonstração pública embora secretas da Democracia) joga-se normalmente e em Liberdade quem ficará com o poder. Não é novidade dizê-lo, o Amigo Bana não se envergonharia de o afirmar. Para ganhar o poleiro, entra-se na via do vale-tudo, da desonra, do opróbrio, da desilusão, em suma. Ou seja, prostituem-se as eleições.

Mas dar aos pobres, aos desgraçados, aos esfomeados um aumento de 2,60 € mensais é, além de tudo o mais, um descaramento. No entanto, por esse país fora, em especial nas aldeias do interior, ainda há quem vá nos 2,60 € por mês. Como ainda há quem acredite no Pai Natal. 

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16.10.14

Mal-aventurados os que não têm ferrão, só incitam

Por Ferreira Fernandes
O zângão não trabalha, como a abelha operária, nem tem ferrão como ela para se defender. Só lá está para fecundar. Fica assim explicada a tradução: em inglês, zângão é drone. Para fecundar chatices, picar cizânia, parar um jogo de futebol nos Balcãs, nada como um zângão a arrastar uma bandeira de nostálgicos da "Grande Albânia", sobretudo se for num estádio de nostálgicos da "Grande Sérvia". Como todos que não têm ferrão nem trabalham, o drone que interrompeu, na quarta, o Sérvia-Albânia é perigoso. Acirra incêndios que não pode controlar. Eu vi kosovares albaneses a mostrar-me a foto da casa que deixaram para trás quando atravessaram a fronteira e ouvi um sérvio num convento a abarrotar de refugiados a implorar-me para ir buscar o irmão incapacitado que deixara em Pec, cidade abandonada. Não gosto de quem manipula aviõezinhos brincando com isto. Fazia sentido a primeira versão que apareceu do incidente: seria Edi Rama, irmão do primeiro-ministro albanês, Olsi Rama, a manipular o drone, sentado na tribuna de honra do estádio. Como Olsi vai a Belgrado em visita de estado para a semana, parecia-me lógico, caso o irmão quisesse resolver um problema de herança. Sabe-se, desde há exatamente um século, como certos estudantes sérvios recebem as visitas de estado. Mas não se confirmou nem a responsabilidade de Edi, nem o contencioso de heranças entre os irmãos. Resta a estupidez, simples. É ainda mais perigosa.
«DN» de 16 Out 14

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Religiões e democracia

Por C. Barroco Esperança
Todas as religiões se consideram as únicas verdadeiras, tal como o seu deus. Cada uma considera falsas todas as outras e o deus de cada uma delas e, provavelmente, todas têm razão. Os ateus só consideram falsa mais uma religião e um deus mais. Em certa medida todos somos ateus. 
E somo-lo, não apenas na aceção grega, em que um ateu era o que acreditava nos deuses de uma cidade diferente, mas também na aceção atual, na descrença num ente superior imaginário, e, ainda, em relação a Zeus, a Shiva, ao Boi Ápis e à multidão que aguarda, nas páginas da mitologia, os deuses atuais. (...)
Texto integral [aqui]

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15.10.14

Amanhã é sempre quando as coisas boas acontecem

Por Ferreira Fernandes 
O Citius atrapalhou-se mas, ontem, reanimou--se depois de ter desmaiado durante 44 dias (valor em linguagem judiciária correspondendo a 90 minutos mais cinco de prolongamento). Que aconteceu? Quaresma rasgou pela direita, centrou e Cristiano Ronaldo sentenciou. Mais cinco segundos e iam os processos todos para o maneta... 
O défice neste ano vai para 4,8 por cento - e upa, upa, quando for acrescentado todo o buraco do BPN e a fossa de Mindanau do BES - mas, ontem, o primeiro-ministro Passos Coelho anunciou um défice de 2,7 por cento para 2015. Que aconteceu? Quaresma rasgou pelo corredor, assistiu CR7, que acabou em lucro... 
As aulas começaram há um mês, falhou um algoritmo, milhares de alunos ficaram algo sem ritmo nem professores mas, ontem, o ministro Nuno Crato declarou: "Não vamos fazer experimentalismos na preparação do próximo ano letivo." Que aconteceu? Quaresma foi por ali fora, serviu Cristiano e este deu a lição do costume mesmo em cima da sineta do fim da aula... 
Temos assim que as coisas estão a compor-se. Às vezes parece tudo paradinho ou, pior, malparado, mas eis que nos últimos segundos tudo se resolve. Uma corrida. Um centro feliz. Uma cabeça maravilhosa. Pelo menos no futebol pode ser assim. Na gestão do país as coisas são um pouco diferentes: prognósticos felizes só antes do fim do jogo.
 «DN» de 15 Out 14

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14.10.14

Personificações

Por Helena Matos
Tema do meu artigo de hoje (*) no Observador
Mais de quatro mil pessoas já morreram no recente surto de ébola. Não se sabe quantas mais morrerão. Alguém fez uma vigília por eles? O combate ao ébola está a levantar questões éticas decorrentes das proibições de deslocação para populações inteiras ou da necessidade de recorrer a tratamentos experimentais sem que se cumpram os procedimentos habituais. Quantos textos de reflexão já se leram sobre estas situações? 
Digamos que já não seria mau se estes humanos tivessem conseguido provocar uma onda de simpatia similar à gerada pela cadela de Teresa Romero, a auxiliar de enfermagem espanhola contaminada com ébola. Excalibur, assim se chamava a cadela, foi abatida por ordem das autoridades sanitárias, pois poderia ter contraído ébola. No passado sábado foram convocadas manifestações em 24 localidades de Espanha para mostrar indignação pelo destino de Excalibur. A operação de retirada da cadela da casa onde se encontrava transformou-se num circo, com os manifestantes tentando por vários meios que o animal não fosse levado. – A relação que mantemos com os animais, e sobretudo a relação que o mundo mediático mantém com os animais, é cada vez mais de sofá. Sofá no sentido urbano mas também psicanalítico do termo.
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(*) 12 Out 14

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Palavras por não haver nada a dizer

Por Ferreira Fernandes 
Extraordinária discussão. O banco público Caixa Geral de Depósitos teve de meter dinheiro na solução para o descalabro do BES. Quando o Novo Banco for vendido, se o for por menos do que os bancos lá meteram - e assim vai ser - haverá perdas para a CGD. Se calhar era essa a única solução, sou um boi a olhar para o palácio do Novo Banco. O que quero é ruminar o fluxo das palavras que nos vão dando. Então, quando apresentou a sua solução, aligeirando os problemas que ainda não tinham chegado (quem sabe se não aparecia entretanto um milagre?...), o Governo disse que não haveria "qualquer risco" para os contribuintes. Entretanto, não chegou o milagre. E as palavras foram mudando. 
Há dias, a ministra das Finanças admitiu que a CGD pode perder dinheiro com o Novo Banco. Oposição e jornais concluíram que sim, afinal iria haver custos para os contribuintes. Mas a ministra, depois de anunciar a pancada inevitável, não assumiu que os contribuintes sempre perderiam. 
A seguir, Passos Coelho confirmou a perda prevista para a CGD e abriu mais uma portinha: "Nesse sentido, de forma indireta pode haver algum prejuízo." Mas, reparem, nunca o sujeito, "contribuinte", está junto à ação, "vai perder". 
Ontem, esse jogo de claro-escuro foi iluminado por uma lição de Finanças de Cavaco Silva. Definiu a CGD e a sua atividade mercantil e nós, nada a ver. Às vezes a luz ofusca, e é essa a intenção. Quem me dera a explicação simples: paguem e calem-se
.«DN» de 14 Out 14

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13.10.14

Entrevista ao «DN» de 10 Out 14

Por António Barreto
P: Passámos o período de resgate a ouvir dizer que o que se estava a operar não era apenas uma transformação económica, mas também uma transformação cultural e que o português médio iria sair da crise diferente. Isso aconteceu?  
R: É muito cedo para avaliar os efeitos e consequências do tratamento de choque da troika. E o tratamento ainda não acabou. Estou convencido de que vamos ter mais um, dois ou três anos, ou quatro ou cinco, em que será necessário, por outros meios, manter uma tensão grande sobre os níveis de endividamento, despesa, investimento público e finanças públicas.  
Portanto, os resultados verdadeiros só serão conhecidos mais tarde. Por outro lado, tudo o que diz respeito às mentalidades e costumes são as últimas coisas que mudam numa sociedade. Demora muito tempo. É mais fácil assinar um cheque para comprar um carro do que mudar os comportamento e as mentalidades. Quando um político não sabe o que há de dizer, diz logo que o que é preciso é mudar as mentalidades. Isso, em geral, quer dizer que não faz a mínima ideia do que é que está a falar nem o que vai fazer. Vivemos, nestes três anos, uma grande crise de necessidade. As pessoas perderam empregos, rendimentos, casa, as condições de vida que tinham e a ideia, que alguns defendem, de que se começou a ter consumos mais racionais, que se vai ver o que é a pegada ecológica, se se está a prejudicar as gerações futuras, isso, para já, são devaneios.  (...)
Texto integral [aqui]

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Em tempos de peste não se limpam armas

Por Ferreira Fernandes
Enfim, uma vacina contra o ébola! Não, ainda não é daquelas que se injetam ou engolem e imunizam da doença. É só uma vacina tipo pequeno passo que começa a lavar-nos a cabeça do folclore com que esta possível catástrofe tem sido tratada. A Serra Leoa recebeu 750 soldados e centenas de voluntários médicos e enfermeiros britânicos. Na sexta-feira passada, o Departamento de Saúde e o Ministério de Defesa da Grã-Bretanha informaram esses militares e pessoal de saúde que não têm garantido avião de volta se contraírem a doença. Como noticiou o jornal The Daily Telegraph, os infetados serão tratados em hospitais locais e só serão repatriados "caso a caso". No combate a doenças é essencial a prevenção, certo? Pois aí estão os mais interessados devidamente prevenidos! Os povos iludidos podem ter um ministro aldrabão que, prometendo manter os lugares dos professores, diz, primeiro, "mantêm-se" e, dias depois, desdiz: "Eu não disse manter-se-ão." O problema de colocação dos professores portugueses é um resfriado que ainda admite truques de tempos verbais. Já o ébola não vai lá com gramática ardilosa. Daí o governo britânico ter sido claro e não prometer mais do que pode. Se ainda não é a cura da doença, é um cuidado primário de saúde mental notável: quando se deixa para trás soldados e enfermeiros (e há alturas, ao que parece, que tem de ser), compreendemos quão desproporcionadas são as manifestações por um pobre cão.
«DN» de 13 Out 14

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12.10.14

Apontamentos de Lagos

Os 'posts' dedicados especificamente a Lagos (e que aqui se costumavam colocar com o título Apontamentos de Lagos, passam a ser afixados, de preferência, em CIDADANIA DE LAGOS: 
https://www.facebook.com/cidadanialagos

Luz - Nova vista dos balcões do Liceu, a Ópera de Barcelona

Clicar na imagem para a ampliar
Já aqui tivemos outra imagem do Liceu, uma das grandes salas de Ópera da Europa. É só mais uma… (2012).

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CALCRETO, um calcário gerado ao nível do solo

Por A. M. Galopim de Carvalho
COM CEM ANOS de uso, o termo calcrete (calcreto na versão portuguesa), proposto por G. H. Lamplugh (1902), só nas últimas décadas começou a figurar na nossa terminologia geológica. Próprios de certos ambientes morfoclimáticos caracterizados por uma certa subaridez (precipitação abaixo dos 500 mm/a), estas crostas, ligadas à actividade pedológica, resultam de acumulação de carbonato de cálcio ao longo de extensões superficiais maiores ou menores. Os calcretos variam bastante em espessura, desde algumas dezenas de metros, na Austrália, África do Sul, Novo México (EUA), a alguns metros no sul e sudeste ibérico (3 a 5 m em Portugal, no Algarve). (...)
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11.10.14

Num país de leis-da-treta...

10.10.14

Mentiroso e coxo

Por Antunes Ferreira

JÁ SE SABIA que Passos Coelho era um mentiroso, que frequentemente dava o dito por não dito, que pela manhã a questão era branca, à hora de almoço preta e pelo jantar cinzenta. Mas também já se sabia – e sabe – que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.  E igualmente se sabia que os ministros do seu (des)Governo lhe seguiam as pegadas e que por isso se tinham transformado em troca-tintas. Para ser mais correcto eles sempre o haviam sido, mas nos últimos tempos têm abusado.

Quando rebentaram o escândalo e a trafulhice do GES, Coelho meteu-se nas encolhas e mandou Carlos Costa assumir publicamente o desvario daí resultante. E o governador do Banco de Portugal obedeceu à ordem do patrão e fez a figura caricata frente às câmaras televisivas. E ele, Passos, manteve-se olimpicamente a banhos na costa algarvia. Vendo bem a enorme fraude financeira, a ministra Maria Luís só viria dar a cara (timidamente e empurrada) a tentar explicar o inexplicável. E como nos contos de fadas todos viviam enlevados e felizes.

Os cidadãos contribuintes não pagariam um cêntimo pelo descalabro e nem pensar pela divisão do BES em good bank e bad bank. Aliás o próprio Cavaco afirmara que o banco era sólido e que se podia investir nele; o mesmo aconteceu com Passos Coelho, o que não admirou dada a consonância e a cumplicidade entre os dois membros do partido laranja. Fizeram mesmo o marketing da instituição. Que não deve ter sido pago por Ricardo Salgado, mas nunca se sabe.

Os partidos oposicionistas não gostaram que lhes tivessem tentado enfiar o barrete. E desde logo afirmaram que seriam os contribuintes que haveriam de pagar a factura. A resposta do chefe do (des)Governo veio a público com altivez , pundonor e veemência: que os Portugueses estivessem descansados, casos como do BNP jamais se repetiriam. Acabara a rebaldaria. Porque agora lá estava ele, Coelho, pra lhes garantir que no BES ninguém pagaria.

Estavam as coisas neste pé (um tanto adormecidas) e surgiu o famigerado caso da Tecnoforma. Coelho titubeou. Primeiro não se lembrava de ter recebido qualquer quantia; depois foi ao Parlamento onde meteu os pés pela mãos e o seu comparsa de Belém comentou que, pelo que tinha chegado ao seu conhecimento, Passos respondera a todas as perguntas não deixando margem para dúvidas. Nunca tal se vira: o alegado Presidente da República submetia-se ao primeiro-ministro…

Mas pensando bem no assunto saltou-me a recordação: nos tempos da ditadura salazarenta passava-se quase a mesma ocorrência. O presidente do Conselho escolhia o Chefe de Estado e mandava nele tranquilamente porque o mais alto magistrado da Nação era uma figura decorativa, era a Rainha do Reino Unido, mas com calças. Raio de comparação; para o que me havia de dar…

Porém, eis que ao arrepio do que havia dito convictamente, Coelho   admitiu na passada quarta-feira que a solução encontrada para o BES podia implicar encargos para os contribuintes, devido à participação da CGD no fundo de resolução, mas voltou a considerar que a opção tomada foi a melhor possível.

"Na medida em que existe um banco público que participa desse fundo [de resolução] e dessa responsabilidade, claro que esse banco [Caixa Geral de Depósitos], tal como os outros privados, suportará eventuais perdas. Nesse sentido, de forma indirecta pode haver algum prejuízo", afirmou Passos na Itália.

Também a ministra Maria Luís Albuquerque, admitiu no Parlamento que os bancos participantes no Fundo de Resolução que detém o Novo Banco (que ficou com os activos considerados não problemáticos do BES) podem vir a ter de assumir perdas, caso da Caixa Geral de Depósitos, pelo que no limite os contribuintes poderão ser a chamados a pagar parte da intervenção no BES.

Mau, mas então em que ficamos? Pagamos ou não pagamos? Pelo andar da carruagem, vamos mesmo pagar. Esta estória sinistra fez-me recordar a lenda dos patos. Ruy Barbosa figura inultrapassável na História e Cultura do Brasil, ao chegar a casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe: “Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.” E o ladrão, confuso, diz: “Dotô, eu levo ou deixo os pato?"

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Apontamentos de Lagos

De saudar as intervenções da PT no sentido de melhorar o aspecto de cabos 'mal-amanhados'. Vê-se em cima o antes, e em baixo o depois (no seguimento de uma sugestão de intervenção enviada para a empresa por "um lacobrigense" interessado nestas coisas...

9.10.14

O vírus de não aguentarmos vírus nenhum

Por Ferreira Fernandes 
Dois missionários espanhóis, com ébola, são repatriados de África, internados no Hospital Carlos III, o centro de referência em Madrid para aquela doença, e morrem, o último a 26 de setembro. Portanto não foi ciclone que caiu sobre Madrid mas ação concertada e com tempo. Teresa, uma auxiliar de enfermagem, teve contacto, tal como 30 outros colegas, com os dois doentes. Não trago para aqui os equipamentos e procedimentos, deixo isso para os epidemiologistas. O que me interessa, aqui, é que Teresa foi limpar no dia 26 o quarto do segundo doente falecido e a 27 entrou de férias (e os colegas foram à sua vida). Ela foi a entrevistas de emprego, esteve com amigos, vizinhos e marido, foi depilar-se à cabeleireira, por ter febre chamou uma ambulância para o hospital do bairro, foi recebida nas urgências e a ambulância foi à sua vida buscar mais doentes de luxação no ombro. Onze dias na grande cidade, com o vírus de uma peste para a qual não se conhece a cura... Até voltar para de onde não devia ter saído, o Hospital Carlos III. 
A questão qual é? É esta: o pessoal dos Médicos sem Fronteiras, em África, depois do último dia de contacto com um doente de ébola, passa 21 dias isolado e só depois sai da zona de quarentena. A Europa não está preparada para guerra nenhuma e, naturalmente, para esta também não. Os do topo talvez não saibam mandar. Mas há mais grave. Todos já esquecemos esta condição: há coisas que têm de ser.
«DN» de 9 Out 14

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Apontamentos de...

Ai que saudades de Lisboa!

PSD – A golpada e a barrela

Por C. Barroco Esperança
O PSD, assustado com a aversão que Passos Coelho e Cavaco Silva despertam, acordou para as eleições diretas, sem pensar que é Governo e que o próximo Congresso, previsto para fevereiro de 2016, precisa de um congresso extraordinário para alterar os estatutos. 
Compreende-se a ansiedade para limpar o passado, a decadência ética, política e cívica de que o partido é culpado e a ansiedade para trocar de líder. Não esconde a catastrófica governação, a incompetência, os atropelos à Constituição, mas pode ocultar a central de intoxicação que levou Passos Coelho ao poder, as mentiras nas redes sociais, as calúnias e intrigas que levaram o jotinha da Tecnoforma a PM. (...)
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8.10.14

Os pinta-paredes

Lagos - Idem, desta vez num viaduto com paredes degradadas.

Os pinta-paredes

Uma nota de humor numa casa degradada.

Um cão vivo não vale a hipótese de um homem morto

Por Ferreira Fernandes 
Um Todd qualquer da Carolina do Sul escreveu no Twitter que, em caso de aldeia infetada com ébola, arrasa-se com napalm. Estes casos (não falo de ébola, mas dos Todd) tratavam-se com o efeito profilático do par de bofetadas mas isso caiu em desuso. Mas a crise do ébola também tem o mérito de nos darmos a conhecer melhor. Ontem, nos comentários dos jornais El Mundo e El País, o assunto mais badalado era a sorte do cão da enfermeira infetada. O marido dela fez uma denúncia pública por as autoridades sanitárias de Madrid quererem sacrificar o animal. Dito isso, o dono exclamou: "Será que também me vão sacrificar a mim?" Segundo o tal Todd, sim, era o que lhe aconteceria - mas a opinião do americano maluco é muito minoritária. Já a opinião de que a vida do cão deveria ser tratada com igual obrigação que temos para com a vida dos homens teve muitos adeptos. Disseram centenas de comentários que há que defender a vida do cão mesmo à custa da hipótese de infetar pessoas. A confusão do dono, traçando uma igualdade de valor entre a sua vida e a do seu cão, é compreensível, afinal a incúria do hospital está a fazê-lo passar horrores. Já tanta gente a pensar o mesmo espanta. Espero, sinceramente, que essa gente continue a pensar assim. Será sinal de que a crise do ébola passou. Pois, caso ela aperte, estou a ver essa gente a aproximar-se mais da tese do Todd do que continuar tão amante de cães, custe o que custar.
«DN» de 8 Out 14

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Ponto final

Por Baptista-Bastos

Durante sete anos, às quartas-feiras, publiquei no Diário de Notícias, a convite expresso de João Marcelino, uma crítica de costumes e hábitos. Foram sete anos excelentes, de trabalho entendido como tal, e de uma estima comum que se converteu em amizade. Marcelino é um jornalista com os princípios marcantes de outro tempo, de integridade a toda a prova e de uma cortesia e camaradagem que se perdeu quando as palavras foram substituídas por números, e quem dirigia foi trocado por porta-vozes estipendiados. Como a personagem de Sartre, "je suis irrécuperable" na certeza das minhas convicções sem certezas absolutas. Vivo, ainda hoje, sob o fascínio das palavras e do seu poder subversivo. João Marcelino pertencia, e pertence, a essa estirpe de jornalistas conhecedora de que só as palavras aproximam os homens e nos ensinam da sua imperfeita grandeza. Ele e a sua equipa fizeram de um jornal cinzento, pusilânime e obediente um empreendimento cultural honrado e limpo. Honro-me de ter participado no projecto a que já não pertenço por motivos a que sou alheio.
Fui posto fora, mas não das palavras. Vou com elas, velhas amantes, para aonde haja um jornal que as queira e admita a indignação e a cólera como elementos de afecto, e sinais de esperança, de coragem e de tenacidade. Nunca João Marcelino admitiu recados nem aceitou encomendas enviesadas tendentes a amenizar o texto, portanto as ideias, do seu colaborador. Nos tempos que correm, o que em outros anteriores seria normal é, agora, virtude e coragem. Estou-lhe grato pela rectidão de carácter, tantas vezes demonstrada.
Claro que também tive o suporte de milhares de leitores. O número foi crescendo na medida em que eles percebiam que o autor não envilecera com a idade nem amolecera as indignações com o peso e as ameaças da época sombria. Na edição digital do DN, as minhas crónicas chegaram a obter 15 mil visualizações, dezenas de impressões e de envios. Admiti, tola soberba!, que havia quem encontrasse nas palavras semanais uma ração de esperança, um apelo à não desistência e um aceno de confiança na força interior de cada um. Apenas relato, não lamurio. Mas não posso calar o que me parece um acto absurdo, somente justificado pelas ascensões de novos poderes. Porém, esses novos poderes são, eles próprios, transitórios pela natureza das suas mediocridades e pelo oportunismo das suas evidências.
As palavras, meus dilectos, nunca são uma memória a fundo perdido. A pátria está um pouco exausta de tanta vilania, mas não soçobra porque há quem não queira. Se me aceitarem, estou entre esses. Não quero nem posso pôr um derradeiro ponto final no texto sem o dedicar a todos os que fizeram do Diário de Notícias o jornal que tem sido. E aos leitores que o ajudaram a ser.
«DN» de 8 Out 14

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COZIDO DE ENTRECOSTO, CHISPE E ENCHIDOS COM GRELOS DE NABO

Por A. M. Galopim de Carvalho
Cozido de entrecosto, chispe e enchidos com grelos de nabo foi a especialidade com que o Tristão e a mulher, dois viseenses e donos de uma pequena tasca nos arredores da capital, nos quiseram obsequiar, a mim e a mais três amigos, no dia em que fizeram vinte e cinco anos de casados. Prato forte, com demasiada gordura, a degustar de tempos a tempos, numa evocação à glória do porco alentejano e à Mãe-Natureza que o criou.
- Foi um quarto de século de trabalho quase sem descanso, ela na cozinha e eu atrás do balcão e a servir às mesas. – Dizia o marido, feliz da vida, enquanto nos punha na mesa os talheres ao lado dos pratos de “Cavalinho”, da antiga fabrica de Sacavém.
- Embora pequena, esta casa dá muito trabalho. - Disse eu, num tom de quem aprecia o bom serviço que este simpático casal presta à sua habitual e muita clientela.
 
- De manhã à noite! E só se descansa ao Domingo. Eu, sim, mas ela, não. Eu ia e vou à bola, seja aqui em Lisboa ou noutro sítio qualquer. Ela, coitada, fica a fazer tudo o que uma boa dona de casa tem de fazer durante a semana. Vá lá que não temos filhos. Mas quem vai à praça, todos os dias, sou eu. Todas as manhãs, às sete horas, já estou na Ribeira. 
 - Cheira bem! – exclamei quando Tristão se aproximou com as travessas fumegantes, bem ao alto, uma em cada mão.  
- E aqui têm, as carnes já cortadas, numa travessa, e os legumes, na outra.  
Envolto nos aromas que rapidamente encheram a pequena sala, foi salivando que servi o primeiro dos meus companheiros. 
– É tão simples como isto. – Dizia agora o Tristão, aproximando-se com uma garrafa de Colares tinto, de 1968, de um lote que tinha guardado para certas ocasiões. – Cozo as carnes com duas cebolas grandes cortadas a meio, uma cabeça de alhos, só descascada por fora e sem a desmanchar, muito pouco sal e uma boa porção de grãos de pimenta preta. Cozidas as carnes tiro-as para fora e enfio lá dentro os grelos, quanto mais “reimosos” melhor, as batatas e os nabos. O chouriço, a morcela e a farinheira, aprendi consigo, são cozidos à parte. Não há dúvida que deixam um gosto a fumeiro que estraga o paladar desta especialidade. A minha mulher gosta de pôr cenoura mas eu não. Acho que adoça e tira aquele “amarujar” muito especial dos grelos. E agora, bom proveito.

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7.10.14

A via virgem está por vezes prenhe de diabinhos

Por Ferreira Fernandes 
Aécio Neves passou toda a campanha atrás de Marina Silva e muitos já o viam com a segunda volta tapada. Até o seu coordenador, quando Marina parecia um cometa ascendente, alvitrou que seria melhor bandear para ela. Mas isso é jogo de político. O Brasil tem uma expressão, "partido fisiológico", para definir aqueles que fazem alianças com o diabo logo que lhes garantam mais postos e influência - a expressão está certa, pois Fisiologia trata das funções vitais (como comer). Que os comensais tenham forte jogo de cintura, entende-se. Mas foi interessante ver que alguns importantes jornais se comportaram de forma semelhante, apesar de poderem pensar para lá da gamela. Foi caso da revista Veja que quando julgou ver Aécio tremido fez campanha por Marina. Ora, se há uma miríade de partidos brasileiros, eles juntam-se à volta do PSDB e do PT, grosso modo, direita e esquerda, agora representados por Aécio e Dilma (em 20 anos, o sexto duelo PSDB-PT nas presidenciais). Marina Silva é uma política isolada e ziguezagueante, que só foi para PSB porque meses antes falhara o partido que ela tentou formar. A base mais firme de Marina é a sua ligação a seitas evangélicas (os outros dois grupos PSDB e PT também têm essa ligação, mas são mais sólidos para suportar a pressão ultra-conservadora delas). Apoiar Marina era cair numa absurda aposta de olhos fechados. Felizmente, os eleitores souberam ter mais tento que os gurus jornalísticos.
«DN» de 7 Out 14

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6.10.14

Os pinta-paredes

O que aqui se vê é um dos muitos murais de Lagos e, se calhar, não é a primeira vez que o mostro. A novidade está na intervenção do gatafunhador que, não querendo ficar atrás, aproveitou um cantinho em branco para mostrar a sua arte...

Quem muito dá bocas fica debaixo de olho

Por Ferreira Fernandes 
Marinho e Pinto tem daquelas coisas que, num país de cágados, me faz gostar dele: dá bocas. Marinho e Pinto tem daquelas coisas que, em quem dá bocas, me põe de pé atrás em relação a ele: é desbocado. Estamos apresentados: gosto dele pela condição rara e essa condição faz-me desconfiar dele. Em agosto, ele disse: "Verifiquei uma coisa que não sabia antes: o Parlamento Europeu não tem utilidade, é um faz-de-conta, não manda nada." Dois meses e meio antes, ele pediu-me o voto para uma coisa que não tem utilidade, é faz-de-conta e não manda nada... Só um desbocado viria arrasar uma função para a qual tentou desinquietar-me, e que em meros dois meses e meio viu a perfeita inutilidade. Outro deputado, cágado, perante o ato por si cometido - que só pode ser de vígaro ou de ingénuo - calar-se-ia. Marinho e Pinto, não. Dá bocas. Por isso gosto dele. Mas, lá está, também mais desconfio. Fui ver e vi que desde agosto, mês da iluminação, Marinho e Pinto continua a ganhar um ordenado por fazer de conta num lugar inativo! Ontem, fiquei contente por saber que ele procura alternativa a esse ócio remunerado: criou um novo partido, o PDR. Boa, o desbocado vai voltar a ter uma tribuna onde trabalhar. E, de facto, já desbocou: "Vou fazer o striptease que outros se recusam a fazer. Não tenho nada a esconder em relação ao chorudo salário [de eurodeputado] que me pagam." Perdão, o que se lhe pede não é striptease, é despir-se desse ordenado.

«DN» de 6 Out 14

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5.10.14

Luz - Outra vista de Bogotá, Colômbia

Clicar na imagem para a ampliar 
Esta imagem completa a anterior e dá-lhe todo o sentido. Foi igualmente tirada a partir do último andar do Museu da Esmeralda. A sobreposição dos tempos diversos é mais nítida. Noto também a proximidade da montanha verde contra a qual a cidade cresceu. (2013)

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No lançamento de um novo livro de Galopim de Carvalho

Por José Barata Moura
§ 1. Intróito.
AGRADEÇO ao António Marcos a generosa lembrança de me ter convidado para falar[1] no lançamento deste seu livro. Penso que a invitação foi feita tão-só em nome de uma amizade antiga. Porque, no que toca a credenciais de competência, o meu balanço costumado poderá ser atrevido, mas apresenta-se como irremediavelmente deficitário na conta. No exercício orçamental da faladura de hoje, terei certamente de viver acima das minhas possibilidades. (O desconto na folha de pagamentos já está a ser processado). (...)
Texto integral [aqui]

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4.10.14

Apontamentos de Lagos

Aqui ficam imagens de um mural, feito num viaduto perto da praia da D. Ana. Em baixo: aspecto da outra parede do viaduto.

Moedas e a Inovação…

Por Antunes Ferreira 
CADA VEZ estou convencido que a vergonha é coisa que caiu em desuso pelos ditos políticos portugueses. Dia após dia os exemplos vão avolumando-se e o povo ignaro assista a este festival de mentiras e despudor que é apresentado em todos locais, nomeadamente em feiras, circos e fantoches de rua, com o que antes era a ganapada que os aplaudia e hoje somos nós, os Portugueses, que os aturamos e, por vezes, até os aplaudimos. Já ninguém, ou quase, que encolhe os ombros e amocha quotidianamente.
Quando Álvaro Vaz de Almada, conde de Avranches, no final da batalha de Alfarrobeira, já não conseguia resistir aos seus adversários e via perto a morte, bradou “É fartar, vilanagem”, mal sabia que esse seu grito se transformaria numa forma de crítica desesperada numa ocasião em que as pessoas já não podem mais com quem quer que seja, ou numa ocasião em que estão fartas de tudo e de todos e desenganadas. Neste momento que se vive no nosso país o grito é, mais e mais, justificado: É fartar, vilanagem!
Carlos Moedas, ex-secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro (?) Passos Coelho, assumiu na terça-feira de manhã na sua audição no Parlamento Europeu, em Bruxelas, que discordou “muitas vezes” com a política da troika, mas mostrou capacidade de resposta, uma característica que considera importante como futuro comissário de Investigação, Ciência e Inovação. Isto porque, no seu entender o pais “precisava de mostrar credibilidade na Europa”.
E disse mais: “Estive durante três anos a ajudar no programa de ajustamento que foi muito difícil, foram sacrifícios enormes, sempre reconheci a dureza e o sacrifício do programa. Portugal estava num momento em que precisava de mostrar a sua credibilidade àqueles que deram dinheiro”, defendeu, na resposta à eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias.
E se por acaso, longe vá o agouro, uma nova crise se apresentar, espera que a resposta política consista antes no investimento na ciência e inovação. No entanto, Carlos Moedas defende que o seu trabalho passado demonstrou a capacidade de resposta. “Sou uma pessoa que apresenta resultados e no Horizonte 2020 [o próximo programa europeu de financiamento da ciência] é importante ter uma pessoa que apresenta resultados.”
Tem o seu interesse verificar que um dos executantes mais empenhados na aplicação aos Portugueses do diktat da troika, com a enorme violência que é conhecida venha agora que até discordou dessa receita malfadada. É bem o exemplo de não ter vergonha na cara. Quando a dupla Passos e Gaspar se travestiu em Passos e Maria Luís aplicou a nós, os Portugueses, a subida dos impostos, os cortes nas pensões, até aos mais desprotegidos, renegando o contrato com elas assinado e deitando às urtigas a afirmação de que o Estado é pessoa de bem (era), Moedas lá estava acirradamente a implementar o desvario.
Agora, no Parlamento Europeu que o examinou saiu-se com esta mentira, o desavergonhado. Após três horas de questões ao futuro comissário que deverá ficar responsável pela pasta da Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Zorrinho, do PS, que é membro efectivo da comissão de Indústria, Investigação e Energia, comentou que Moedas "estava bastante preparado e teve uma prestação claramente positiva". Mas, também disse que a grande questão é saber se Moedas será mais leal às ideais do presidente eleito da CE, Juncker, que fez do investimento uma das suas grandes "bandeiras", ou à linha do Governo português de Passos Coelho.
"Quase imagino o que vai ser o dia-a-dia de Carlos Moedas nos próximos tempos: de manhã receberá um telefonema de Jean-Claude Juncker a dizer «investe, investe, investe»; ao fim da tarde, Passos Coelho, que tem assento no Conselho e não tem feito nada para aumentar o investimento nesta área, vai telefonar a dizer «corta, corta, corta»", zombou Zorrinho, que ainda acrescentou que fica à espera de saber "de que lado estará" o antigo secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro nas suas funções como comissário.
Marisa Matias, do BE e João Ferreira afinaram pelo mesmo diapasão, naturalmente com algumas diferenças não substantivas. Ou seja Moedas está bem preparado para quê? Dispõe de 80 mil milhões até 2020 para apoiar, implementar e desenvolver as políticas de inovação, ciência e Inovação. Ao contrário do que fez enquanto membro do (des)Governo de Passos & Portas, agora na Europa vai gastar o que “desgastou” em Portugal. Será ele capaz de o fazer? Como nos primórdios da televisão neste país triste e desgraçado, se dizia “O programa segue dentro de momentos” e isso representava umas horas de ecrã negro como a noite mais negra, há que esperar pelos resultados do preparado mas desavergonhado Carlos Moedas. Até lá, benza-o a Senhora do Agrela, que não há santa como ela.

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São Francisco pregando o mural aos pássaros

Por Ferreira Fernandes
Banksy pinta paredes e o meu vizinho toca trompete. Quer dizer, o meu vizinho anda a aprender a tocar trompete, e às três da manhã. Eu até às três da manhã era capaz de desculpar o Chet Baker, se ele quisesse voltar e ser meu vizinho. Os pinta-paredes são insuportáveis. Contra eles eu até admitia que voltasse o pouco higiénico hábito de esvaziar os bacios pelas janelas. Os pinta-paredes do Bairro Alto, por exemplo, era o que mereciam: "Lá vai água!", janela aberta, bacio virado e o grito só depois, apanhando os imbecis dos pinta-paredes desprevenidos. Todos? Não Banksy, que é o Chet Baker dos pinta-paredes. Como Chet Baker era o Banksy dos trompetistas. Que pena ele, que morreu há tantos anos e nunca frequentou o meu bairro, já não poder acordar-me às três da manhã. Felizmente, ainda há Banksy, ouvi falar de um mural dele em Clacton-on-Sea.
Em Clacton-on-Sea, em outubro, faz dez graus e chove - morrinha, como é costume no Essex, Inglaterra, mas sempre pingos que escorrem pela gola da gabardina -, com oceano cinzento em frente e um porto (Harwich) ao lado. É preciso querer muito lá ir, para ir. Eu ia. Por causa do mural. Eu conto (podendo só trair, porque a genialidade de Banksy é sempre traída): de um lado um grupo de cinco pombos cinzentos, do outro uma andorinha de peito verde. Todas pousam num fio que é sugerido pela separação das pedras, porque Banksy, como sabem, é um artista urbano, um pinta-paredes dos bons, perdão, o pinta-paredes bom. Perdão, ótimo. Aquilo que ele pinta atira-nos à cara. Uma parede dói. O que arde faz bem.
O grupo tem cartazes e os pombos parecem angry birds, pelo olhar franzido. Confirma-se com o que dizem os três cartazes. Um diz: "Os imigrantes não são bem-vindos." Outro diz: "Voltem para África." E o último: "Não toquem nas nossas minhocas." As letras são pintadas de cinzento, o que torna mais duro e agressivo o que dizem porque o cinzento não grita, diz com brutalidade calma. Os cinco pombos jogam em casa, pombos são sedentários. Os de Clacton-on-Sea são certamente de Clacton-on-Sea há várias gerações. Os Columba livia, como os pombos de Clacton-on-Sea, são uma espécie que veio do Sul da Ásia mas os atuais de Clacton-on-Sea já se esqueceram, são locais e pronto. Por isso olham zangados para o intruso, a andorinha.
Conheço muitos tipos de andorinhas, andorinha-da-rocha, andorinhão-negro e a minha andorinha-de-rabadilha-cinzenta que ocupava os beirais dos velhos sobrados da cidade da minha infância. Não conheço nenhuma andorinha de peito verde, suspeito que é liberdade do artista. Mas a mensagem é clara, o rabo bifurcado do passarito mostra que Banksy quer mesmo que seja vista como andorinha. Pássaro errante, viajante, imigrante. Hoje vou ver um amigo, preto como as asas de uma andorinha, filho de uma muxiluanda, negra da ilha de Luanda, e vou velá-lo à Basílica da Estrela, Lisboa, Europa. "Lembras-te das andorinhas, João?", certamente tivemos essa conversa. E ele: "Se lembro, irmão. À volta das torres da Sé, ao fim da tarde..." - conversa de gente de outros pousos, como as andorinhas.
Afinal, não cheguei a ir a Clacton-on-Sea, o mural veio ter comigo, apareceu nos jornais. Quando o vi, ri-me. Lembrou-me uma piada antiga, de Coluche, um francês de frases assassinas servindo um coração generoso. Dizia assim, a piada: "Esses portugueses que vêm roubar o pão da boca dos nossos árabes..." Sempre pensei que era assim que se devia atacar o racismo. Levando os racistas até à tolice de onde eles nunca saíram. Julguei, então, que a piada de Coluche era a arma mais eficaz contra o racismo. Depois de ver o mural de Banksy, achei que este ainda era melhor, era São Francisco de Assis pregando, um falar aos pássaros.
Um falar tão necessário que aconteceu que à câmara de Clacton-on-Sea chegaram protestos contra o mural de Banksy, considerando-o racista. E a câmara, como está em vésperas de eleições, marrou como uma barata tonta. Marrou, porque foi assim, violenta: apagou o mural. Como uma barata tonta, porque é imagem que não precisa de explicação, nem para baratas tontas. Os pombos locais, peito emproado, são afinal mais importantes do que nem eles suspeitavam: podem apagar a inteligência. E os tolitos com boas intenções são os idiotas úteis dos pombos emproados. A andorinha verde é a única que sobreviveu ao mural. Voou, porque o natural das andorinhas é ir daqui para ali. 
«DN» de 4 Out 14

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3.10.14

Isto não está a acontecer

Por Helena Matos 
Na SIC N decorre a Quadratura do Círculo com o actual líder do PS lá sentado como se fosse a coisa mais natural do mundo o líder de um partido ser comentador político. A isto junta-se que António Costa ao ser confrontado com a sua liderança diz que não se comenta a si mesmo. Depois temos Pacheco Pereira que se deve ver a si mesmo como uma reencarnação de Oliver Cromwell em Lord Protector. Lobo Xavier recorda Sócrates e Costa reage Oh Oh e naturalmente não debate nada e faz um discurso declarativo. 
Costa é líder do PS e deve colocar-se a esse nível debatendo com outros líderes e não estar para ali a ouvir o Lobo Xavier a dizer “O António deve”, "O António sabe”.
Blasfemias.Net

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2.10.14

Apontamentos de Lagos


Jovens adolescentes tratam o seu parque como se vê - repare-se na cadeira partida...
No dia seguinte, o pessoal da limpeza urbana deixa-o, novamente, impecável. 
Não me canso de saudar estes profissionais, mas também de me questionar «Que juventude é esta?»

A moda das correspondentes de cibercafé

Por Ferreira Fernandes 
Um jornal, The Telegraph, contando um assunto dos nossos dias. A 24 de setembro desapareceu uma moça de Bristol, Inglaterra. Yusra Hussien, de 15 anos, embarcou com uma amiga de 17 para a Turquia e já terão passado a fronteira para a Síria. Ontem, a mãe de Yusra, Safiya Hussien, disse, olhando as câmaras:" Yusra, por favor, por favor, por favor, nós sentimos tanto a tua falta. Os teus irmãos e a tua irmã têm tantas saudades, tantas. Por favor - olha para mim..." Eis um testemunho, que é aquilo que os jornais têm como uma das suas funções trazer-nos. Não a treta de "Ângela, a noiva portuguesa da jihad" que vai ao cibercafé da Casa dos Segredos do Estado Islâmico e manda-nos: "Irmãs, não hesitem. Sinto-me tão bem como se tivesse sempre vivido aqui, sinto-me em casa. Insha' Allah, Alá irá reunir-nos a todos em breve." E de um jornalista que de joelhos foi degolado, escreve: "Ele não era mais do que um soldado americano que mata o nosso povo." E que graceja, mostrando a sua bolsa: "Sempre me perguntei o que uma mulher tem dentro da bolsa: bem, tenho uma pistola de 9 mm..." E estas imbecilidades recolhem-se sem confrontar a imbecil que as diz com a sua imbecilidade. E polvilha-se isto com um título idiota e a foto dos olhos lindos de Ângela. E deixa-se esta tolice a marinar no online do Expresso. Um dia, uma Augusta, de 15 anos, de Sintra, parte encandeada por Ângela. E ganhamos outra correspondente de cibercafé.
«DN» de 2 Out 14

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A indústria dos milagres não entra em crise

Por C. Barroco Esperança
Não compreendo o entusiasmo com que os cruzados degolavam infiéis, a euforia com que a Inquisição incinerava bruxas, ímpios e judeus, o dever cristão de denunciar pais, irmãos e filhos, suspeitos de heresia, nem o gozo da combustão de livros heréticos.
Não aprendi a gozar jejuns, a deliciar-me com cilícios ou a extasiar-me com a castidade. Sou um indivíduo falhado para a vida eterna e um problema para o qual a democracia e os hábitos atuais não têm solução. (...)
Texto integral [aqui]

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1.10.14

Querido, decidi sozinha que o país encolheu

Por Ferreira Fernandes 
Agora, é ao lado e deveríamos seguir com atenção. Não que nos sirva de muito, o que vai acontecer, por maior que possa ser o desastre, sê-lo-á sem nos pedirem a opinião. Então, temos o país democrático que é Espanha, uma só soberania e várias autonomias, podendo ser amputada de uma parte, a Catalunha, se ela quiser a independência. É inteligente? É prudente? Ora, ora, já um homem sozinho a decidir confunde os seus próprios interesses, quanto mais a manada que é sempre uma nação. Seja dito, um bocado de território de qualquer país ou um pequeno grupo de gente pode, por escolha, ir embora, cortar-se do conjunto - mesmo se isso for a maior das tolices. Relembro, estamos a falar de um país democrático, sujeito a leis, escolhidas livremente. A questão é, pois, quem escolhe o ir ou não ir das terras e das pessoas para fora de um país democrático? Evidentemente, as pessoas. Sim ou não à independência da Catalunha? Espanha vai ter de responder a isso. O presidente da Generalitat (Governo catalão), apoiado por manifestações de milhões de catalães, diz que é altura de fazer um referendo. Está no seu direito. Um porém: ele quer que a resposta seja só dada por catalães... Humm, isso já me parece esquisito: a que título é que, no mesmo país democrático, uma minoria pode decidir sozinha o que vai mudar tão profundamente a vida de uma maioria, à qual foi recusado o direito de decidir também? Eu, por mim, passo, só tenho curiosidade. 
«DN» de 1 Out 14

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O mal-amado

Por Baptista-Bastos
A derrota de António José Seguro, pela extensão e pelo número, configurou o escorraçar de um mal-amado e o desfazer de um equívoco. A política do secretário-geral do PS (ou, melhor, a falta dela) para enfrentar e combater a agenda do PSD; os indícios fornecidos pelas grandes manifestações populares; as decisões do Governo, cada vez mais autoritário e infenso aos clamores e às angústias da população, tudo isso exigiam uma disposição, uma coragem e, sobretudo, uma força moral de que Seguro não dispunha.
As suas intervenções, no Parlamento e fora dele, a falsa desenvoltura e o oculto embaraço; a miséria de uma retórica que personalizava tudo com um "eu quero" enfático, haviam feito deste homem obsoleto a caricatura de um político a sério. Adicione-se a estas falhas as deficiências de carácter, reveladas logo após a queda de Sócrates, que apenas por pudor não insisto em relembrar.Durante a campanha assistimos à simpatia com que Seguro era tratado por elementos do Governo, e por comentadores e jornalistas estipendiados, e ao mal dissimulado desdém destes por António Costa. Sem esquecer as afirmações do Marcelo e do Marques Mendes, os quais entendiam que uma vitória de Seguro seria mais benévola para Passos Coelho. Penso que as coisas não são assim tão distendidas entre Costa e Seguro, mas o primeiro provém de outra cultura ideológica, de outra família política e de predicados consolidados em lutas antigas e nobres. Um legado nada despiciendo.Não se pense que, assim de repente, Costa vai restituir as funções, as noções e os princípios comuns a um partido socialista, há muito esquecidos e traídos. No Fórum Lisboa revi muitos daqueles que ressuscitam sempre que lhes cheira a poder, a empregos e a funçanatas.O PS, cheio de artroses, de vícios e de cãibras, tem de ser removido, e Costa e os seus enfrentam trabalhos e ciladas enormíssimos. Esta é a questão mais premente que se apresenta. Que Partido Socialista deseja António Costa, depois de desenterrar velhos símbolos, como o punho erguido, e o cravo vermelho, afastados do proscénio, como se ambos não fossem pertença de uma longa história resistente e sem donos?
Os obstáculos que o grande vencedor das primárias vai encontrar têm que ver com os que querem um PS sossegadinho e brunido, de vã retórica e absorto no "deixar andar", e aqueles que ambicionam rumar a outros portos. A votação de domingo surge como o despertar de qualquer coisa de veemente e de profundo. Claro que a participação dos "simpatizantes" e o número significativo dos votantes, aparentemente não filiados, sugerem outras injunções e permitem admitir que os "externos" deram um impulso poderoso ao movimento das coisas. Os sinais e as exigências de mudança, no partido e no País, não podem ser ignorados por uns e por outros.
 
«DN de 1 Out 14

30.9.14

Pergunta de algibeira

O que aqui se lê é um pouco estranho. Alguém sabe como se explica? (A resposta já está em comentário)

Sujaram o teu nome, primavera

Por Ferreira Fernandes 
Poeta da desobediência civil (inspirou Gandhi), o americano Henry Thoreau (1817-1862) escreveu: "Que fogo se pode igualar a um raio de sol num dia de inverno?" A Revolução Francesa de 1848 deu--se em pleno inverno, foi liderada por um poeta, Lamartine, inspirou Flaubert e Hugo. Incendiou as capitais europeias nas semanas seguintes e deu Constituições a Berlim, Munique, Viena, Turim... Chamaram a esse dias "a primavera dos povos", e foi o começo da Europa. Mais de um século depois, aconteceu a "primavera de Praga" e às duas vagas a favor da democracia na China, em 1979 e 1989, chamou-se "primavera de Pequim", dada a semelhança com 1848. Primaveras cheias de desejo pela democracia. Recentemente, aos levantamentos contra ditaduras em países muçulmanos, também se chamou "primavera árabe". Um erro, como chamar Luz à dona de uma burka. Todas as primaveras históricas referidas atrás, antes da árabe, representaram esperança e, apesar de algumas falharem, voltaram para a casa de partida, nunca para pior. Já as "primaveras árabes" estavam reféns do fascismo islâmico e é caso para dizer que felizmente não vingaram em Marrocos, Argélia, Síria, porque onde derrubaram os ditadores foi para ir para pior. "Primavera" passou de nome de esperança a marca de tragédia. Fez bem quem não batizou de "primavera" o que se passa hoje em Hong Kong e chamou-lhe "revolução dos guarda-sóis". Esta, sim, volta a sugerir o raio de que falou Thoreau.
«DN» de 30 Set 14

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29.9.14

A obrigação de não morder todos os anzóis

Por Ferreira Fernandes 
Através da internet o ministro britânico Brooks Newmark foi abordado por uma relações-públicas, Sophie Wittams. Ministro da Sociedade Civil, New-mark tinha entre as suas funções aumentar a participação das mulheres na política. Conversa puxa conversa entre correligionários, ambos são conservadores, passaram para redes sociais mais (oh, ilusão...) discretas, daí, para tiradas mais ousadas e troca de fotografias. O termo "gráfico" já não tem só a ver com grafia, já importámos o outro sentido do inglês graphic, que quer dizer também vivo, animado, inflamado. Bem-vindo o agora uso comum de "linguagem gráfica" em português, pois é a imagem exata da febre que já possuía o ministro: acabou a enviar a foto dos seus genitais e implorou a Sophie que fizesse o mesmo. Ela, que já lhe tinha enviado a cara loura, mandou-lhe um selfie da barriga lisa e calções descuidados. E tudo apareceu agora no Sunday Mirror, mais um esterco em papel de jornal, num país que tem a mais invejável imprensa europeia. Para acabar com o esterco: a "Sophie" era um jornalista à pesca de políticos incautos (também contactou com outros ministros, que chutaram para canto), a cara loura era a foto roubada de uma sueca e a barriga era de uma inglesa, também ela surpreendida pela trapaça. O ministro Newmark demitiu-se com as palavras corretas: "Que parvo fui!" É essa a questão. Não é moral nem jurídica, é política: um ministro não pode ser tão tolo.
«DN» de 29 Set 14

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28.9.14

O que será um lapso suspenso?

Apontamentos de Lagos

O "hall" de entrada das Urgências do Hospital de Lagos está ligeiramente abaixo do nível da rua. Ora, em vez de um pequeno degrau, alguém achou que ficava melhor colocar os mosaicos em rampa, pelo que há dias, tendo de ali entrar a acompanhar um familiar, escorreguei nela, e ia dando um trambolhão. 
Como forma de arranjar utentes, não está mal pensado!

Tão rara,tão necessária e tão justa

Por Ferreira Fernandes 
É tão rara, tão necessária e tão justa que tem de ser assinalada. Na sexta-feira, frente à Grande Mesquita de Paris, uma manifestação de algumas centenas de muçulmanos solidarizou-se com o francês Hervé Gourdel, dias antes degolado na Argélia por um grupo local ligado à organização do Estado Islâmico (EI). No vídeo, inspirado nos do EI decapitando reféns, uma voz justificava o assassínio de Gourdel por ser "um porco francês". Foram respondidos à letra pelos manifestantes de Paris que, ao apelo do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), disseram: "Somos todos porcos franceses." Gente comum, com a condição de muçulmana, disse que não admite que bárbaros falem por ela. Vários cartazes, escritos à mão, diziam: "Não em Nosso Nome." Já cá faltavam. Há cinco milhões de muçulmanos em França e são muitas as suas organizações. Nem todas aceitaram a iniciativa do CFCM porque recusam, como disse o Coletivo contra a Islamofobia em França, "a culpabilização sistemática das pessoas de religião muçulmana." Essa recusa tem sido um erro trágico. Perante os sucessivos e cada vez mais terríveis atos dos radicais islâmicos, cometidos certamente por minorias, as comunidades muçulmanas deixaram-se encafuar na ausência de repúdio. Tem faltado a rua. Os europeus muçulmanos têm de se fazer ouvir. Não têm de dar explicações aos seus compatriotas de outros credos. Mas a si próprios têm. E alto. 
«DN» de 28 Set 14

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Luz - Vista de Bogotá do alto do edifício do museu da Esmeralda, Colômbia.

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Está aqui mais ou menos tudo: do estilo colonial ao moderno século XXI, passando pela burguesia comercial dos princípios ou meados do século XX. Bogotá ferve e agita-se. A cidade são várias cidades, rica e pobre, moderna e antiga, asseada e desmazelada, segura e de meter medo… De qualquer maneira, para uma capital de um país que, ainda há tão poucos anos, vivia quase em permanente guerra civil e com “territórios libertados”… Fiquei surpreendido com a relativa ou aparente indiferença dos cidadãos da capital perante esse legado recente. (2013)

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27.9.14

Vá lá um esforço, gabe-se, Passos!

Por Ferreira Fernandes 
Desconfiamos dos políticos e das empresas e levamos com um fim de semana com stripteases de político (Passos Coelho) e de empresa (Tecnoforma), com discurso no Parlamento e conferência de imprensa de advogado, sabendo tudo sobre um e outra. Afinal, entre Passos e Tecnoforma não houve nada, até à data controversa de 1999. Nem uma nota, nem cheque, nem um cartão de crédito. E quando eu não tenho provas em contrário, acredito na palavra dos outros. É o caso. Eles, político e empresa, expuseram-se e fiquei a saber tudo. 
Mas estranho uma nebulosa. Onde menos esperava. Sobre o Centro Português para a Cooperação (CPPC), onde Passos trabalhou, de borla, naquele período para o qual os jornais trouxeram a controvérsia, 1996-99, é que fiquei sem saber nada. Estranho. Sim, porque o CPPC era uma ONG, uma organização que não vive para lucros. A esta altura, eu já devia saber tudo sobre o CPPC. O que fazia, que generosidade praticava? Como obrigava os seus a sacrifícios nas viagens e nas pensões? Seria educativo vermos as faturas modestas para tão grandes causas. Passos tem um livro, Mudar, lançado em 2010, em que se conta a si próprio. Fala da Tecnoforma e nunca fala dessa coisa bonita que foi trabalhar numa ONG. Aliás o termo "ONG", nas 277 páginas do livro, só é referido uma vez e de forma geral sem nada que ver com o CPPC. Estranho. Mais, irrita-me a modéstia das pessoas devotadas, como é certamente o caso.
«DN» de 27 Set 14

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