23.3.17

O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA


Por A. M. Galopim de Carvalho

Este meu próximo livro, da Âncora Editora, com ilustrações de Francisco Bilou, estará disponível a partir de 1 de Junho, Dia da Criança, na Feira do Livro de Lisboa.

Embora o título sugira uma obra destinada a juvenis“, O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”, escrito em estilo de diálogo, foi concebido a pensar nos Professores que ensinam Geologia nas nossas Escolas, nos seus alunos e, ainda, na generalidade dos leitores interessados em descobrir a maravilhosa história do nosso Planeta. Esta realização nasceu da experiência que mantive e continuo a manter, proferindo lições por todo o país e em todos os níveis, do Básico ao Secundário e, até, nos Jardins-Escolas. Sem perda de rigor científico, criei e aprendi a usar o discurso pedagógico mais adequado a cada um destes níveis. E é esse discurso que coloco aqui à disposição dos leitores.

É minha convicção e sempre o afirmei, falando ou escrevendo, que o professor tem de saber muito mais do que o estampado, tantas vezes acriticmente, no "livro adoptado". Tem de ter um complemento cultural sobre as matérias do programa oficial. Isto para dizer que neste livro, a pensar nos professores, há muita informação que extravasa o dito programa, além de que revela maneiras praticas de expor determinadas matérias que a experiência me ensinou.
Como apoio destas conversas, o docente pode contar e deve contar com o manancial de belíssimas imagens fixas em livros e na net e em vídeos da National Geographic e no Youtube (...)
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Texto integral [AQUI]

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De Cavaco e Barroso a Donald Trump


Por C. Barroco Esperança 
A mentira tem a perna curta, mas os mentirosos têm muitas pernas. Parecem centopeias.
 O FBI investiga suspeitas de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo, o que, a ser verdade, é um grave risco para a segurança dos EUA, mas Trump, talvez para desviar atenções, acusou Obama de o espiar durante a campanha eleitoral, recorrendo à mentira como tática e à calúnia como estratégia.
 É irrelevante que o Departamento de Justiça e o FBI não tenham quaisquer indícios de que Trump tenha sido escutado e espiado a mando do ex-Presidente Barack Obama, o que interessa é o ruído necessário e suficiente para desviar as atenções.
 A pós-verdade prenuncia a pós-liberdade, a tragédia que parece corroer as mais sólidas democracias mundiais. O perigo não é a mentira, é a indiferença dos cidadãos à mentira mais torpe e à mais aleivosa das acusações. A anestesia cívica produz gera impunidade e insensibilidade ao embuste.
Trump não é pioneiro, Hitler usou a estratégia com êxito. Aliás, a mentira ganha sempre as primeiras batalhas, apesar da tendência para acabar derrotada.
 O PR americano faz a síntese de dois políticos portugueses, agora ávidos de recuperar a confiança dos portugueses, Cavaco Silva e Durão Barroso.
 Cavaco, que exige que se nasça duas vezes para ser mais sério do que ele, foi precursor das escutas falsas para prejudicar um partido de que não gosta. Atribuiu à máquina do PS a paternidade da mentira cujo mérito enjeitou.
Barroso, entusiasta da cimeira que definiu aos portugueses como a última oportunidade para a paz, sabia decidida a guerra e falso o pretexto, mas, anos mais tarde, insinuou que o PR, Jorge Sampaio, apoiou a invasão, para depois esclarecer que só concordou com a reunião (a política externa é da exclusiva competência do Governo) e acabar a garantir que foi a primeira pessoa a quem informou da criminosa reunião.
 Ainda ressoam os insultos a Sampaio, que ninguém lhe ligava e que a invasão do Iraque era a porta aberta à prosperidade de Portugal na viagem conjunta com os EUA, o Reino Unido e a Espanha, quer ele quisesse ou não. Não pôde empenhar as Forças Armadas do ministro Portas, mandou a GNR, do M.A.I.
 Cavaco e Barroso são versões paroquiais, precursores de Trump à escala global.
 Ponte Europa /Sorumbático

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19.3.17

Sem emenda - Nós e os Turcos

Por António Barreto
O acontecimento não tem precedentes. Dois ministros de um país da NATO e candidato à União Europeia foram impedidos de entrar na Alemanha e na Holanda, países membros de ambas organizações, assim como de realizar reuniões com os seus concidadãos. Pretendiam falar em comícios relativos a um referendo constitucional que vai realizar-se na Turquia. Os habituais protestos europeus, de esquerda ou de direita, foram praticamente nulos. O presidente Turco tratou os alemães e os holandeses de fascistas.

Com 75 milhões de habitantes, um dos maiores exércitos do mundo, bases americanas activas (equipadas com bombas nucleares) e uma posição de charneira importante, a Turquia e o seu presidente Erdogan têm má imprensa e má opinião pública. Porque são turcos, porque são muçulmanos, porque são de direita, porque o regime é quase uma ditadura e porque os europeus não os querem na União. Mas também porque há muitos turcos na Holanda (400.000) e na Alemanha (3.500.000) e porque o tema dos imigrantes, especialmente muçulmanos, é muito sensível em ano eleitoral.

A complexidade do problema explica o silêncio. A esquerda calou-se, envergonhada, porque simpatiza com os muçulmanos e com os imigrantes, porque lhe custa defender a ideia de que os estrangeiros “de direita” possam fazer reuniões políticas no estrangeiro, porque não gosta de Erdogan e porque espera que a Turquia fique com os refugiados que estão lá depositados. A direita calou-se, envergonhada, porque não gosta de imigrantes, porque não gosta que muçulmanos façam reuniões políticas nos países de acolhimento e porque espera que os refugiados depositados na Turquia lá se mantenham. Ambas, esquerda e direita, preferiram o silêncio: era problemático defender os direitos dos estrangeiros ou dos muçulmanos. Ou dos Turcos.

A questão é difícil. Já se pensou no que aconteceria se os manifestantes fossem Judeus, Palestinos, Ucranianos, Russos, Sírios, Iranianos, Arménios, Chineses ou Angolanos? A favor ou contra os seus governos? A favor ou contra as políticas dos países onde residem? Com ou sem colaboração dos governos dos países de origem? Os estrangeiros são legais ou ilegais? A favor ou contra a democracia? Ajudam ou dificultam as relações entre os Estados? Põem em causa outras minorias? Como é evidente, a questão é grave e complexa.

Os países europeus reagiram por conveniência. Sem política geral, nem leis adequadas. Mas essa não é a solução. Os critérios não podem ser de conveniência, isto é, conforme os manifestantes, os países estrangeiros ou a cor dos governos.

Há quarenta anos, os estrangeiros não podiam “fazer política” nos países europeus. Na maior parte, pelo menos. Nem em relação ao país de origem, nem a propósito de assuntos nacionais locais. Depois, veio a União, o alargamento, a livre circulação, Schengen, as migrações em massa, a globalização, o reconhecimento de novos direitos, a possibilidade de muitos imigrantes votarem em eleições locais e a faculdade de imigrantes votarem por correspondência nas eleições dos seus países. Além da generalização da dupla nacionalidade. Por cima de tudo, houve uma tolerância crescente das democracias europeias. Já se fizeram reuniões, comícios e manifestações de toda a gente, de todas as origens e a propósito de tudo! Por isso, o que aconteceu agora é de gravidade imensa. Até talvez haja motivos para defender o que se fez. Mas a via era a da diplomacia e a da lei.

Não chega afirmar que Erdogan é um ditador ou quase. Já vieram à Europa dezenas de ditadores muçulmanos, eslavos, asiáticos, africanos e latino-americanos. Não seria novidade, nem esse é o critério. Também não chega declarar que não é oportuno, dada a realização de eleições locais: os direitos dos cidadãos não se alteram com a proximidade das eleições. A Europa tem de reapreciar a questão dos direitos políticos dos europeus e dos não europeus e de tomar decisões sérias e dignas, não erráticas, ao sabor das conveniências e das negociações de circunstância.

DN, 19 de Março de 2017

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Senhoras conversam e esperam ao lado de uma betoneira, Nazaré – Poderia esconder-se o nome da terra e perguntar “Onde fica?”. As respostas seriam diversas. Alguém diria Nazaré, mas a maior parte diz Irão, Argélia ou Marrocos. Quanto à data, os palpites oscilariam muito, começando nos anos quarenta, sendo que as épocas mais modernas eram sugeridas por causa da betoneira que, apesar de rudimentar, já supõe uma fase média de industrialização. Poucas pessoas se aventurariam a dizer 1983, data real da fotografia. Na praia, em frente, ainda havia carapau e sardinha, aos milhares, a secar ao sol e não apenas a meia dúzia destinada a consumo caseiro e para turista ver, como se observa hoje. As discussões sobre a modernidade em Portugal nunca deveriam esquecer estas imagens. Também as alusões feitas às senhoras das “burcas”, dos “niqab” e dos “chador” deveriam ter em mente a Nazaré. E também, já agora, todo o país, do Soajo a Montesinho, dos Candeeiros ao Caldeirão.
DN, 19 de Março de 2017

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18.3.17

“ARRIBA” versus “FALÉSIA” e outras considerações a propósito

Por A. M. Galopim de Carvalho
Para o geógrafo ou para o geólogo o termo “arriba” designa os escarpados menos ou mais elevados, próprios de margens de rios muito encaixados (p. ex. no vale do Douro Internacional) ou de litorais catamórficos (forma erudita de dizer que estão expostos à erosão das vagas), observáveis em grandes extensões da Costa Vicentina ou nos Cabos Espichel, da Roca e Mondego.
Podemos encontrar este mesmo conceito referido pelo termo “falésia”. Acontece que ambos os termos podem ser lidos tanto em textos científicos como em outros pedagógicos, de divulgação ou de ficção.
Arriba e falésia são duas maneiras de dizer a mesma coisa. Arriba é uma palavra antiga que fomos buscar ao latim “ripa”. Falésia é um aportuguesamento relativamente recente da palavra francesa “falaise”. Autores há que, numa atitude purista da língua, repudiam este último termo, apodando-o de francesismo desnecessário.
O meu professor Carlos Teixeira (1910-1982), grande referência no engrandecimento e valorização da Geologia em Portugal, senhor de uma linguagem escrita sem intenções ou preocupações de estilo literário, mas impecavelmente correcta, repudiava liminarmente o vocábulo “falésia” e riscava-o, nos muitos textos dos seus alunos e colaboradores, entre os quais me contei, que pacientemente lia e corrigia, ensinando-nos a escrever em bom português.
Também o Prof. Orlando Ribeiro, geógrafo e humanista de craveira internacional, senhor de muitos saberes, que expunha numa linguagem falada e escrita de invulgar correcção e beleza, não raras vezes poética, que marcou a minha maneira de encarar as ciências da Terra, a um tempo, naturalista e cultural, rejeitava, igualmente, o termo “falésia”.
Acontece, porém, que na toponímia oficial, a par de designações como “Arribas do Douro”, no Parque Natural do mesmo nome, no distrito de Bragança, e “Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica”, conhecemos as de “Aldeia da Falésia” e “Praia da Falésia”, no Algarve.

Uma atitude idêntica destes mestres tinha lugar face aos vocábulos “barranco” e “ravina”, duas formas de referir os sulcos menos ou mais profundos escavados pela enxurradas pluviais nas cabeceiras dos cursos de água. O mesmo se passando com os termos derivados “abarrancado” e “ravinado” e “abarrancamento” e “ravinamento”.
De origem pré-romana, barranco (ou barroca) é palavra popular autóctone adoptada no vocabulário geográfico e geológico. À semelhança de falésia, ravina entrou-nos por aportuguesamento do francês “ravine”, num testemunho da francofonia que foi tónica no nosso meio académico nos anos que antecederam o último quartel do século XX.
Neste período áureo da penetração da inteligência gaulesa na nossa vida cultural e científica, em particular no ensino superior e na investigação científica, a língua de Molière dominava nos compêndios e manuais de estudo. Porém, os anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) deram hegemonia ao inglês, situação que se tem vindo a acentuar com a globalização de múltiplos sectores da actividade dos povos deste planeta já referido por alguns por “aldeia global”. No léxico geológico assisti à invasão de vocábulos como riple, rifte, silte, gnaisse, grauvaque, loess, intertidal, e muitos outros, por aportuguesamento de termos anglo-saxónicos e, por falta de termos nacionais, à adopção pura e simples de termos estrangeiros, como “horst”, “graben”, “iceberg”, tsunami”, “terra rossa”, “raña”, “palygorskite”, entre muitos outros.
Praticamente, todos os dias a nossa língua vê o seu léxico aumentado por via dos progressos científicos e tecnológicos. Eu próprio criei, em 1988, o neologismo “exomuseu” incluído na expressão “Exomuseu da Natureza”, designação ainda não oficial de uma estrutura museológica dispersa no território nacional, constituída por vários pólos situados onde quer que ocorram elementos considerados de interesse em termos de património natural, fazendo parte de um conjunto coordenado a partir de um ou mais centros com competências científica e pedagógica adequadas. Não constando ainda dos dicionários, o termo “exomuseu” existe nos protocolos assinados entre o Museu Nacional de História Natural e diversas Autarquias.
A miscigenação cultural decorrente da facilidade e rapidez das comunicações na sociedade cada vez mais mundializada é outra via para o dito aumento.
Não prescindimos hoje de palavras da nossa vida corrente como, por exemplo, “evoluir” “implementar” e “controlar”. E que dizer de “clicar” e outros termos hoje habituais na sociedade das novíssimas tecnologias e da informática?

A história ensinou-nos que quem faz a língua é quem a fala e escreve e estou em crer que todos estes e muitos outros termos, goste-se ou não, vieram para ficar.

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16.3.17

A República, o Sr. Duarte Pio, as figuras e os figurões de Estado

Por C. Barroco Esperança
O estranho tropismo do PR para os dedos anelares do clero compromete o carácter laico e republicano do cargo, apesar da isenção e sentido de Estado com que o tem exercido. É, aliás, o único reparo que posso e devo fazer a quem, sendo de uma família política diferente, não tenho o direito de exigir que partilhe os meus pontos de vista.
 Surpreendente é a posição dos cidadãos, ou melhor, vassalos, que ocupam ou ocuparam altos cargos da República. Refiro-me a uma petição para que fui alertado por um sólido Historiador e estimado amigo, Amadeu Carvalho Homem.
“Petição quer incluir o duque de Bragança no protocolo de Estado”. Eu julgava extintos os títulos nobiliárquicos desde a implantação da República e o Sr. Duarte Pio um mero ornamento das revistas do coração, sem prejuízo do humor que o ridículo produz.
 Acontece que pessoas tidas por normais, algumas com farta erudição e aparentemente saudáveis, são subscritoras de tão idiota petição num regime cuja irreversibilidade é exigência da Constituição que alguns deles juraram.
Não me interessa a progenitura do Sr. Duarte Pio, improvável Bragança, e desculpo-o do orgulho que exibe na ascendência miguelista de má memória.
 O que não desculpo é a afronta da introdução na hierarquia do Estado de um furúnculo legado por via uterina e o demente desejo de alterar o protocolo de Estado com adereços vitalícios e sem legitimidade democrática. Querem alterar a legislação de 2006 porque há algumas dificuldades protocolares quando o sr. Duarte Pio é convidado para eventos. Então por que motivo e a que título o convidam?
 Que o presidente da Câmara do Porto espere que o façam visconde é uma inanidade que se respeita; que um fascista, Jaime Nogueira Pinto, queira a monarquia é um direito; que Paulo Azevedo, rei dos supermercados queira ser marquês, tem dinheiro para comprar o título; que Carmona Rodrigues, Diogo Feio, Nuno Melo, Telmo Correia, Mota Soares e outra tralha do CDS desprezem a República é uma honra para a República, mas que um conselheiro de Estado, Lobo Xavier, por menos recomendável que seja, e é, ou Adelino Maltez, pertencente a uma instituição respeitável, o GOL, juntem as suas assinaturas a tão más companhias só há três explicações possíveis: estão onde não devem, são miguelistas (extrema direita) ou ensandeceram.
 Ou acumulam.
 Ponte Europa / Sorumbático

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12.3.17

Sem emenda - Utilidade pública

Por António Barreto
Diz-se “public utilities”. Em português, não quer dizer a mesma coisa, mas diz tudo. Serviços e infra-estruturas de serviços e facilidades para toda a gente. Inicialmente organizados pelo Estado, ulteriormente geridos pelo mesmo ou por empresas privadas. Cada país tem a sua solução. Mas é sempre a mesma coisa: serviços públicos.

Muita coisa pode entrar nesta categoria: água, luz, electricidade, gás, telefone, correios, banda larga, transportes, esgotos, resíduos, faróis e outros. Há quem inclua certos serviços públicos especiais, como a saúde e a educação. Podem ser de gestão pública ou privada, local ou nacional, em monopólio ou em mercado aberto. Fazem parte da concepção moderna de país civilizado.

Estes serviços, em Portugal, começaram por ser públicos. Uns mantiveram-se como tal, outros foram privatizados. Nada muito diferente de outros países. A eficácia, a utilidade e a honestidade destes serviços variam muito. Em tempos, a imprensa realizava uma espécie de ranking em que classificava, segundo a opinião pública, cada serviço. Alguns, aborrecidos com uma má classificação, esforçavam-se por melhorar, o que às vezes conseguiam e nós ficávamos a ganhar.

Entretanto, com a privatização a ajudar, mais a crise financeira e a compra e venda de empresas, sem falar na concorrência e na voracidade de tanta gente, todas estas empresas se viraram para a agressividade comercial. São dezenas de e-mails e telefonemas não desejados que se recebem por mês em casa de cada um. Novos serviços, mais pacotes, descontos aparentes, novos dispositivos, vantagens incríveis e brindes inacreditáveis! No fim do dia, é sempre para vender mais mercadoria inútil, fidelizar aberta ou furtivamente, instalar aplicações, adquirir uma nova “box”, alargar o serviço para áreas inúteis e subtrair o cliente à empresa rival!

Uma moda recente é a dos serviços de distribuição separados da produção e da assistência, o que exige escolhas feitas pelos clientes, impostas por lei (dizem eles…), que logo anunciam descontos e vantagens, mas que não têm uns nem outras. Rapazes e raparigas com bilhetes de identidade vistosamente exibidos batem à porta, declaram que, “para nosso bem”, vêm verificar as instalações e anunciam benefícios, mas que têm sempre mercadoria para vender, regras absurdas e fidelizações ocultas! Para não falar das “letras pequeninas” cheias de ratoeiras, nem das regras incompreensíveis tanto para velhos analfabetos como para jovens doutorados!

Tentar esclarecer com os serviços de assistência é inútil. Podemos esperar até meia hora a ouvir música idiota. Quando a chamada é atendida, num Call Center da Covilhã ou de Cabo Verde, somos informados que temos de fidelizar, que outro serviço tratará de nós, que é necessário comprar mais um pacote ou mudar um tarifário! É inútil queixarmo-nos. Ou porque não se sabe a quem. Ou porque os “provedores” estão ao serviço da empresa, não de nós. Ou porque demoram. A análise das facturas é um pesadelo. Informação inútil e excessiva, para que ninguém compreenda. Para desmoralizar quem quer compreender. Ou obrigar toda a gente a desistir. Quando há dupla facturação, ou contagem errada, é preciso primeiro pagar, depois litigar, pagar inspecções (mesmo quando a culpa é deles…) e esperar. Meses… Anos… Sorte nossa é quando recebemos a visita de um técnico ou assistente: a gentileza e a perícia destroem o mito das máquinas e das competências digitais.

Algumas práticas destas empresas, públicas ou privadas, são simplesmente ilegais. Como tanta gente lhes deve emprego ou investimento, ninguém as castiga. Nem sequer se faz legislação que proíba o assédio comercial.

Perceber o que “eles” fazem exige tempo, sabedoria, paciência, letras, advogados e recursos. Quer isto dizer, esquecer. Por outras palavras, dar milhões a ganhar às empresas. Privados ou públicos, estes serviços teriam de responder, respeitar e servir. Não o fazem. E gabam-se da sua agressividade. Uma coisa é certa: ninguém os desafia ou vigia!


DN, 12 de Março de 2017

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Alcobaça – Gótico em toda a sua plenitude, deslumbrante de equilíbrio e beleza, depurado, de uma impressionante sobriedade, começado a construir no século XII para os monges de Cister, por doação de D. Afonso Henriques, é monumento nacional desde 1910 e Património da Humanidade desde 1989. É certamente uma das mais belas obras de arte edificadas ou existentes em Portugal. O mosteiro já esteve abandonado, já foi descuidado, já foi devassado… Resistiu a tudo, aos bandidos, aos revolucionários, aos franceses e aos vendilhões. Esperemos que agora resista também à austeridade, à demagogia política, ao turismo, ao mercado e ao inevitável hotel de charme que se anuncia. Eu sei que a nave central, o cruzeiro, os túmulos de Pedro e Inês, a cozinha, o refeitório, os claustros, o deambulatório e a estátua de Santa Maria de Alcobaça com o Menino têm enorme capacidade de atracção. Mas não deixo de acrescentar a luz de Alcobaça. Que só existe ali. Por entre aquelas pedras.
DN, 12 de Março de 2017

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10.3.17

OCEANOS versus MARES À memória de Mário Ruivo, meu amigo e companheiro de adolescência.

Por A. M. Galopim de Carvalho
“Assim fomos abrindo aqueles mares
que geração alguma não abriu..." (Luís de Camões)
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Em linguagem corrente mar e oceano confundem-se muitas vezes, sendo estes dois termos usados quase sempre indiscriminadamente, numa ambiguidade que o rigor científico rejeita. Desde cedo, na escola, aprendendo geografia, interiorizámos que os oceanos são grandes e profundos e que os mares são mais pequenos, menos profundos, ladeando os continentes e, normalmente, sem limites que os separem daqueles.

O termo oceano evoca “Okeanós”, o deus do “grande rio que corre em torno da terra”, para lá das Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), tendo-nos chegado através do latim “oceanus”.
O termo mar radica no latim “mare”, a parte líquida do Mundo, em oposição a terra, a entidade sólida à superfície do planeta. Esta dualidade foi julgada existir no nosso satélite natural, cujas planuras basálticas, escuras, foram vistas como “maria” (mares, no plural), ao contrário das regiões montanhosas, mais claras e essencialmente constituídas por anortositos, designadas por “terræ” (terras, no plural).
De utilização erudita, traduzindo a ideia de oceano ou de mar, o termo grego “thalassa” (do nome da deusa grega do mar) encontra-se, por exemplo, na expressão talassoterapia, o tratamento de certas enfermidades através de banhos de mar. Pantalassa foi o nome dado ao oceano único que rodeava a Pangea no final do Paleozóico. Talassografia e Talassologia são sinónimos menos comuns de Oceanografia e Oceanologia, respectivamente.

Se alguns mares são bem definidos por estrangulamentos, como é o caso do Mediterrâneo (estrangulado pelo Estreito de Gibraltar e pelo canal de Suez), do Mar Negro (pelo Bósforo), do Mar Vermelho (pelo Bab-el–Mandeb) ou do Mar Báltico (pelo Skagerrak), outros são totalmente abertos ao largo, como são os mares do Norte, de Bering, das Caraíbas, da China, do Japão e outros.
Outras extensões marinhas poderiam, igualmente chamar-se mares, mas a tradição refere-as como golfos, alguns bem conhecidos, como o Golfo da Gasconha (ou da Biscaia), o Golfo do México, o Golfo Pérsico, o Golfo de Bengala.
O Mar Cáspio é hoje um lago, grande entre os maiores. À semelhança do Mediterrâneo, é o que resta do antigo oceano Tétis ou Mesogea, na sequência da colisão das Placas Africana e Eurasiática. Exceptuando este e o Aral, com a mesma origem e também ele um mar residual, todos os mares e oceanos da Terra estão ligados entre si numa única massa líquida a que chamamos Oceano Global, perfazendo cerca de 71% da superfície do planeta.

Na referida ambiguidade, também as expressões domínio marinho e domínio oceânico se confundem. No intuito de ultrapassar a indefinição dos termos “mar” e “oceano”, tanto no discurso vulgar como no erudito, têm surgido no glossário geológico expressões como mares epicontinentais ou mares marginais, aludindo aos mares pouco profundos, na periferia dos continentes. Com o mesmo propósito, o restante domínio marinho, o mais profundo e afastado dos continentes, passa a ser designado, não apenas por domínio oceânico, mas por domínio oceânico profundo, domínio onde se situam as bacias oceânicas profundas, duas expressões assim adjectivadas para fugir à citada ambiguidade.
Para os gregos, o Mediterrâneo era o mar onde navegavam, um mar rodeado de terra, no meio de terra, a que chamaram “Tethys”, o nome da deusa, esposa de “Okeanós”. O “grande rio” era o Oceano Atlântico, o único que conheciam. Esboça-se, já aqui, neste saber clássico, a diferença entre o mar, algo confinado à terra, e o oceano sem fim nem fundo, para lá de onde ela se acaba. Recorde-se que o nome Atlântico dado a este oceano pelos romanos, alude a Atlas, o nome da cadeia de montanhas do Norte de África, para lá da qual se abria sem fim que se conhecesse. Atlas, recorde-se ainda, era o gigante da mitologia grega que transportava o Mundo às costas, mais tarde petrificado naquelas montanhas.

O mar, no sentido mais amplo, é um sistema dinâmico e complexo, alimentado por forças incomensuráveis que quase nunca dominamos, cuja acção sobre o litoral busca, constantemente, um equilíbrio de coexistência nunca alcançado à escala do tempo geológico, embora aparentemente estável no tempo de vida humana.
O estudo científico dos mares, incluindo o dos seus fundos, desde as faixas litorais às profundidades ultra-abissais, teve início no século XIX com o navio oceanográfico “Challenger”, nas suas viagens de circum-navegação entre 1862 e 1939. Este estudo, em grande parte resultante de cooperação internacional, foi continuado, após a II Guerra Mundial, com o apoio de vários navios de diversos países, entre os quais se destacou o “Glomar Challenger”, bem equipado com material científico e de sondagens nos grandes fundos oceânicos, um laboratório flutuante que navegou e operou até finais do século XX. Este outro navio oceanográfico cumpriu um importante programa, conhecido pela sigla DSDP (“Deep Sea Drilling Project”), tendo-se-lhe seguido o navio “Joids Resolution”, com o “Ocean Drilling Project” (ODP), igualmente em apoio a projectos internacionais essencialmente na área da geologia marinha. Numa fase (anos 80 e 90) em que António Ribeiro, João Alveirinho Dias e eu, na qualidade de director do Museu Nacional de História Natural, dirigíamos vários projectos de Geologia Marinha, com o apoio de Mário Ruivo e o financiamento da JNICT, Portugal aderiu a este Projecto, através de um convénio assinado pelo então Ministro da Ciência e da Tecnologia, para nós, cientistas, nunca esquecido Prof. José Mariano Gago.


Centenas de perfurações e milhares de testemunhos de sondagens, estudados ao pormenor, dão-nos hoje uma visão bem mais ampla e precisa do que a que tínhamos em meados do século XX. A Geologia Marinha, ou Oceanografia Geológica, é hoje uma disciplina científica bastante desenvolvida, sendo interessante assinalar que foi a partir do estudo dos fundos oceânicos que se encontrou a explicação da dinâmica global da Terra, hoje bem interpretada na Teoria da Tectónica de Placas. Também os conhecimentos que hoje dispomos acerca da sedimentogénese marinha têm-nos permitido conhecer o significado da grande maioria das séries e sequências sedimentares litificadas, das mais antigas (Pré-câmbricas) às mais recentes, que integram a crosta continental. Nesta caminhada, a sedimentologia experimentou novos caminhos com a utilização de “sonars”, amostradores de sedimentos, obtenção de imagens através do ROV (“Remote Operate Vehicle”), reflexão sísmica contínua, mergulhos tripulados em submersíveis especiais e sondagens em quaisquer tipos de fundos.

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