20.8.14

Há sempre sol e céu azul acima das nuvens

Por A. M. Galopim de Carvalho
Por mais negras e cerradas que sejam as nuvens, há sempre sol e céu azul por cima delas.
Esta afirmação é tão imediata e evidente que já vários a disseram ou escreveram, nesta ou noutra forma com idêntico sentido.
Vem ela a propósito de um pensamento que, nos últimos tempos, me assola constantemente, quer em casa, ao abrir os jornais ou durante os noticiários da rádio ou da TV, quer na rua, face aos comentários de muitos com quem todos os dias me cruzo. E esse pensamento envolve este Portugal a viver tempos de indecoroso aviltamento, mercê de uma certa elite, entre políticos e grandes nomes do direito e das finanças, que, de há décadas, numa promiscuidade interesseira, descarada e impune, nos está a conduzir, decidida e conscientemente, no caminho do empobrecimento económico e também, estupidamente, no do definhamento científico e cultural.
Tudo isto perante a passividade de um povo “imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio”, como escreveu o grande Guerra Junqueiro, há mais de um século, e sob a magistratura conivente de um Presidente da República que pouco mais de metade dos votantes (53,14%) colocaram no mais alto cargo do Estado, numa eleição em que quase metade dos eleitores se abstiveram.
Mantidos incultos, muitos deles analfabetos funcionais, alienados pelo futebol e pelos programas televisivos de entretenimento que nos impõem e nos entram pela casa dentro a toda a hora, e, ainda, marcados por receios antigos, são muitos os portugueses que não ousam questionar um poder que os despreza e maltrata e muitos também os que, sem saberem porquê, lhe fazem respeitosa e submissa vénia.
Como nos aviões que, ao ganharem altitude, atravessam a cobertura de nuvens e atingem o esplendor do pleno azul, temos de encontrar forma, dentro da democracia, de romper com esta triste escuridão em que, com excepção de uns tantos privilegiados, fomos levados a viver.

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Apontamentos de Lagos

Parque da Cidade - Na impossibilidade de vandalizar os equipamentos, que são robustos, destróem-se ou roubam-se as placas da vedação, grafita-se o que se pode, e deixa-se lixo...

Emídio Rangel

Por Baptista-Bastos
Nenhuma morte é natural, escreveu Jorge de Sena. E a menos natural de todas as mortes é a morte de Emídio Rangel, acrescento eu. Esta força incomum de renovar constantemente a criatividade; esta capacidade de impulsionar os estímulos e de ultrapassar dificuldades imprevistas possuía-as o Rangel em dimensões desconhecidas noutros homens. O Marcelo fez uma comparação absurda entre o extraordinário jornalista e o primeiro director do Público. Rangel partiu praticamente do nada para criar a TSF e a SIC. O outro refez, apoiado em muito dinheiro, uma ideia de diário com argumentos de semanário, já aplicada, há muitíssimos anos, por Miguel Urbano Rodrigues no Diário Ilustrado. Um criou e multiplicou a criação; o outro repetiu, dificultosa e confusamente, um projecto ainda hoje tropeçante.
Havia, no Emídio Rangel, o sopro dos grandes espaços e das grandes urgências. Os seus únicos preconceitos eram contra a estupidez, a soberba e a traição. Provinha, também, de uma convicção ideológica profunda, que o levara a apoiar, com intensidade militante, a candidatura de Maria de Lourdes Pintasilgo à Presidência da República. «Mostra-me o teu talento; não me mostres o cartão do partido.» A frase de Brecht é-lhe facilmente aplicável. E podem crer que sei muito bem do que falo.
Mas a sua grandeza não se limitava a esta marca de carácter. Somos módicos, por invejas, despeitos e rancores, a elogiar o engenho, a arte e a vocação. O homem de quem falo possuía essas e outras virtudes em alto calibre. E conheci, nos jornais e noutros ramos da comunicação, muita gente que rechinava os dentes ao saber das grandes inovações, do poder incalculável do seu génio.
O meu débito de admiração segue a par da estima e do reconhecimento. Convidou-me a participar num programa da TSF, Crónicas de Escárnio e Maldizer; e, para a SIC, a protagonizar um programa, Conversas Secretas, previsto para três meses, e que se prolongou por quase três anos. Qualquer dos convites foi feito em épocas de aperto para mim. Digamos tudo. Os senhores da imprensa não me davam trabalho em razão das minhas escolhas políticas. Um deles, então, afirmou ter suspeitas de que eu era simpatizante da Revolução Cubana, para ele insuportável. Era e continuo a sê-lo. Esse que tal quase rastejou, posteriormente, para ser deputado do PS, a fim de dar um jeito à vidinha.
Da minha época na SIC recordo, com emoção, a fraterna ternura demonstrada por Manuel Tomás, Fátima Silva, muitos mais outros e outras, que ajudaram o jornalista inexperiente em televisão a fazer do programa o êxito que o programa obteve. Quando o Rangel foi para a RTP voltou a falar-me, a fim de o acompanhar num outro propósito. Depois, foi o que foi. Ultimamente tenho perdido muitos amigos. Emídio Rangel. Adeus.
«DN» de 20 Ago 14

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19.8.14

Alguém já tirou fotografias no formato 4,5 x 6?

Tempos esquisitos, estes

Por Ferreira Fernandes 
Tudo foge entre os dedos. Espírito Santo era uma família, certo? Tão poderosa que da admiração de muitos à inveja de tantos não deixava de ser o que sobretudo era: passado, riqueza, patine, poder. Família centenária. Agora, são queixinhas: "Olhem que os meus primos também..." Outros a patinar: a polícia era força, certo? Às vezes, extravasava, marrava para a sua crença natural, ser força. Mas querem os tempos modernos que ela agora seja mais de levar e calar. No sábado, foi cumprir a lei e baixar o som de uma rave em campos alentejanos e foi recebida à pedrada e sofreu feridos. Não está aí o problema, no levar. Não se exige à polícia que ganhe todas as batalhas. Não se exige, à primeira, atenção! Mas depois de ir curar os dói-dóis à urgência, não pode exibir como único espólio a detenção de um pobre diabo apanhado junto a aparelhos sonoros sem licença. Se policiar fosse só passar multas, era só armada de esferográficas. Terceiro sinal moderno: jornalismo é para informar, certo? Ontem, a RTP apresentou uma reportagem de um "bombista português" (e no último momento riscou "mártir", felizmente). Pois passou o tempo a pôr-lhe aspas no nome e a esconder a cidade onde morava. Mas até a esconder a reportagem foi má, tapou Marselha e mostrou igrejas emblemáticas de Marselha. Que saudades dos tempos em que as famílias presunçosas eram família, os polícias policiavam e os jornalistas revelavam, não apagavam. 
«DN» de 19 Ago 14

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18.8.14

Apontamentos bancários

Banco mau, banco bom, banco-lixo... (Praça Gonçalo Trancoso, em Lisboa, antes e depois da recuperação "bancária").

O insuportável 1299900

Já mais alguém recebeu chamadas do n.º 1299900?

17.8.14

Apontamentos de Lisboa

?

Vendo bem...

Tirei hoje estas fotos com o intuito de fazer um comentário a propósito da confusão entre ÓPTICO (de olhos) e ÓTICO (de ouvidos). No entanto, chegado a casa, fui confirmar no Dicionário Priberam. E lá está o que eu supunha! 
Pois é... Mas em baixo, em nota de rodapé, esclarece-se que, segundo o Novo Acordo Ortográfico, a grafia passou a ser igual em ambos os casos.

Os Banqueiros

Por Maria Filomena Mónica
HÁ RICOS e há ricos. E há, depois, banqueiros. Tal como o Corão, o Novo Testamento é explícito no que diz respeito à condenação dos últimos. Foi, em parte, devido a isto que a banca ficou inicialmente nas mãos dos judeus. No século XV, apesar de a Igreja Católica ter continuado a condenar o empréstimo de dinheiro a juros, com o argumento de que não se tratava de uma troca de mercadorias, mas de uma actividade que punha em jogo o factor tempo - então considerado um privilégio divino - alguns cidadãos da Toscânia começaram a interpretar os ensinamentos religiosos de maneira heterodoxa.
Entregues a um negócio tido como ilícito pelo Vaticano, os banqueiros tentaram apaziguar a cólera divina através de encomendas de obras de arte. Como o provam os actos da família Medici, o nascimento da banca internacional e o Renascimento estão ligados. Por detrás da ostentação, persistia a noção de pecado, o que explica a hegemonia, breve, mas assustadora, de Savanarola, o frade dominicano de Ferrara que pregava contra o luxo. A histeria anti-dinheiro terminou em «A Fogueira das Vaidades» (1497 e 1499), que teve lugar na Piazza della Signoria, de Florença, quando muitas obras de arte foram queimadas.
Nada sei de bancos, a não ser que é através deles que recebo o que ganho, como é lá que deposito o que poupo. Até recentemente não tinha deles qualquer impressão. Isso só aconteceu depois da crise dos Lehman Brothers, quando tudo se virou de pernas para o par. Não sendo rica, a única coisa que peço a um banco é que funcione como um colchão: eu deixo lá o meu dinheiro – uma pequena conta a prazo – e ele impede que um ladrão me roube. Não conheço Ricardo Salgado nem tenho dinheiro no BES, o que não me impede de os classificar de «lixo». As agências de notação financeira não detêm este monopólio. Perante o actual descalabro, que garantias me dão os bancos de não andarem a planear truques semelhantes? Gostaria de juntar pessoas de confiança - infelizmente o Banco de Portugal roubou-me Vítor Bento – e criar um pequeno banco, modesto nas ambições, mas sério na aplicação do dinheiro.
Há muitos anos, quando a palavra de honra ainda valia alguma coisa, a relação entre cliente e banqueiro era pessoal. Um exemplo é o do banco que a minha família paterna sempre usou nos seus negócios. Lembro-me de, em conversas com o meu pai, este me ter falado dos contactos entre o meu avô, um homem honesto, inteligente e duro, e o banco com quem trabalhava, o «Lisboa e Açores». Não sei se é a uma relação deste tipo que José Sócrates se refere na entrevista, que a 28 de Julho, deu ao Diário de Notícias!
Como escreveu Adam Smith, em A Teoria dos Sentimentos Morais, o «homem sábio e virtuoso está sempre disponível para sacrificar o seu próprio interesse privado ao interesse público da sua ordem ou sociedade». A maximização do lucro tem de respeitar princípios éticos. Duvido que Ricardo Salgado tenha ponderado suficientemente os perigos de uma nova Fogueira das Vaidades. Se fosse a ele, acautelava-me.
«Expresso» de 2 Ago 14

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Luz - Au bon pain, com sol, frio e restos de neve, Boston, EUA

Fotografias de António Barreto- APPh

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Numa importante rua comercial de Boston, de manhã cedo, dia de sol com muito frio e neve. Num destes milhares de restaurantes ou cafés com esplanadas aquecidas e protegidas, um senhor toma o seu pequeno-almoço. Há qualquer coisa de confortável nesta solidão… (2013).

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DOCE DE BANANA (adaptado de uma receita angolana)

Por A. M. Galopim de Carvalho
6 bananas maduras
200 g de açúcar
água qb
6 ovos
Leve ao lume o açúcar com a água até fazer ponto de fio fraco.
Junte 4 bananas bem maduras cortadas aos bocados e deixe ferver até se desfazerem. Ajude esta operação, esmagando as bananas com o esmagador de batata manual, mexa bem para homogeneizar. Deixe arrefecer, adicione as gemas bem batidas e em fio e mexa bem.
Leve, de novo, ao lume por alguns minutos, para cozer a gema.
Junte as restantes bananas cortadas às rodelas e, se desejar acrescente, a seu gosto, pinhões, amêndoas fatiadas, pedacinhos de noz ou, mesmo, outras frutas maduras (de preferência, abacaxi). Deixe arrefecer e adicione as claras batidas em castelo bem firme e misture bem. Polvilhe com canela (facultativo), coloque no frigorífico e sirva bem frio.

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16.8.14

Pergunta de algibeira (a propósito das fotos anteriores)

A figura representa uma parede de tijolo limitada em cima e em baixo por vigas paralelas, e dos lados por pilares verticais espaçados da mesma distância. Abriu-se, nela, um rasgo QUADRADO (não representado), tocando nas vigas e nos pilares. Pergunta-se: será possível ampliar esse rasgo (sem alterar as vigas nem os pilares, evidentemente)?
Actualização
Pode dizer-se que a resposta já foi dada por "500", embora sem explicar como era o rasgo inicial. Este, como se vê, pode ser ampliado em 100%, seguindo o método indicado...

Apontamentos de Sintra

Estranho... Já no interior desta propriedade, bem para lá do muro e do portão, um AVISO de proibição de "Vazar entulho"...

15.8.14

Estar com o coração nas mãos

Por Ferreira Fernandes 
Nada mais efémero do que uma expressão idiomática, aproveito o feriado para reatualizar algumas. "Abandonar o barco", agora diz-se política de pescas. "Andar aos papéis" - jornal com mau online. "Bater no fundo" - ilusão, como se vê sempre pouco depois. "Apanhar por tabela" - contribuinte lendo o Portal das Finanças sobre o IRS. "Dar trabalho" - as empresas portuguesas estão cada vez mais fáceis, nunca dão. "Estar com a pedra no sapato" - todas as indústrias portuguesas menos a do calçado. "Dar a volta" - é à portuguesa, exagerada, 360 graus e não se sai do sítio. "Está aí para as curvas" - ir à praia só para olhar. "Baixar a bola" - contratações do Benfica 2014-15. "Estar de cabeça quente" - só se foi em verões passados. "Estar por dentro" - Marques Mendes. "Fazer de conta" - orçamento retificativo. "Fugir com o rabo à seringa" - política de contenção de gastos na Saúde e agora diz-se fugir com a seringa do rabo. "Fazer vista grossa" - supervisão. "Ir desta para melhor" - emigrar. "Negócio da China" - dar (enfim, é uma expressão idiomática) a luz. "Ter altos e baixos" - quem dera. "Ver-se livre de" - bad bank. "Ver-se a braços com" - good bank. "Ver a luz ao fundo do túnel" - só diz que vê quem tem medo doutra expressão idiomática: "bater no ceguinho"... "Comprar gato por lebre" - Ir a aumento de capital num banco e dar-se conta que ali havia gato. 
«DN» de 15 Ago 14

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14.8.14

Esquerda, direita e opções políticas

Por C. Barroco Esperança 
Discordo de quem pensa que os extremos se tocam e de que, no limite, a esquerda e a direita não se distinguem. Há objetivos divergentes, aspirações antagónicas e princípios incompatíveis.
O que sucedeu foi o facto de a esquerda, quando em 1917 tomou o poder na URSS, não ter resistido a pulsões totalitárias de que a direita tinha o monopólio secular e, assim, se denegrir perante os que divergem dos modelos únicos e dogmas de qualquer natureza. A tradição czarista não foi de todo erradicada e, em nome da justiça social, cometeram-se tropelias, crimes e genocídios sob o pretexto de amanhãs cantantes que nunca chegaram.(...)
Texto integral [aqui]

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13.8.14

O fim da ética social

Por Baptista-Bastos
Todos os indícios no-lo dizem que vamos pagar, de viés ou a direito, o buraco de 5 mil milhões legado pelo BES. O dr. Salgado pagou, de presto, os 3 milhões de euros, caução para não ser engavetado; goza as delícias do verão na sumptuosa villa de Cascais; dizem as notícias que possui 200 milhões de dólares criteriosamente divididos em bancos do Oriente; e que vai envelhecer embalando doces memórias, enquanto os seus advogados delegam para as calendas o que a justiça tardará em dizer.
O parágrafo vai longo, mas como estas minudências dos tribunais, em Portugal, são tardas e longas, a justificação está feita. O primeiro--ministro, entretanto, com voz de tenor fanado, insiste em dizer-nos que não esportularemos um cêntimo pelos desmandos dos "privados". Bom: a impostura não tem pernas para correr. Os cerca de dois mil funcionários ameaçados de despedimento certo; as centenas ou milhares de investidores que vão ficar sem o dinheiro aplicado; a mistificação ultrajante entre o "banco mau" e o "banco bom", que ninguém sabe rigorosamente o que é, nem, sequer, o inteligentíssimo especialista da SIC, sr. Gomes Ferreira - tudo isto, e o mais que se desconhece, terá de ser pago por alguém, e todos sabemos por quem.
As "análises" consagradas à questão são puros exercícios de balbúrdia, que baralham as pessoas. Apenas Nicolau Santos e Pedro Santos Guerreiro não fazem do parlapié uma conduta de espalha-brasas sobre a natureza do problema. O resto é a triste decepção permanente. Onde está o dinheiro, a "pipa de massa", para usar a expressão chula do pacóvio Barroso?
Apesar dos avisos cautelares dos responsáveis pelo descalabro, muitos milhares de portugueses apressaram-se a transferir as suas parcas economias para a CGD. O que fornece a dimensão de credibilidade e de respeito que nutrimos pela casta que trepou aos vários poderes.
Estamos num momento crucial: é preciso ir mais além do que se ouve dos políticos e do que secos e do que se lê nos jornais: insanidades e mistificações. O sentido e a prática da democracia não se esgotam nas formas jurídico-políticas, criadas e estruturadas por um "sistema", o capitalista, bem entendido, cujo significado está cada vez mais vazio, e mais perigoso pela sua vacuidade e objectivos. Já aqui o disse: o Ricardo Salgado não é a causa, é o efeito - deletério e inquietante. Nem por isso deixam de merecer punição adequada, ele e os comparsas desta monstruosa delinquência. Comprou, por três milhões, a prestação para não ser preso. É uma imoralidade absoluta, permitida, aliás, por uma "justiça" criada pelo "sistema" que liquida os seres éticos e as regras de decência previstas pela democracia. Se estes são destruídos - que nos resta?
"DN" de 13 Ago 14

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Pergunta de algibeira

Imagine-se que alguém, dispondo de 6 troços de corrente com 4 elos cada, pretende uni-los por forma a fazer um único troço com 24. Para isso, terá de abrir (e depois fechar) uns quantos elos. 
Qual o número mínimo de elos em que isso tem de ser feito?

12.8.14

Bento versus (des)Governo?

Por Antunes Ferreira
MAL PARECERIA a quem (ainda) me lê voltar ao desgraçado tema do assassinado BES e do seu herdeiro bom, o Novo Banco, por enquanto. Mas, surge um novo episódio desta telenovela de terror, sem bolinha vermelha no canto superior esquerdo, mas mesmo assim arrepiante. E falo de telenovela depois de Vítor (sem c) Bento ter dado a sua primeira entrevista como presidente do NB, o bom, à SIC.
Nela o Novo Banqueiro avisou urbi et orbi que a instituição criada miraculosamente pelo (des)Governo de Passos & Portas vai ter de sofrer um redimensionamento e que é mesmo muito provável que o processo atinja o número de trabalhadores e de balcões do que se tornou, por obra e graça do Espírito Santo, o outro, no trerceiro maior banco português. Coisa não rara, mas estranha. Mas, cautelosamente, não vá o Demo tecê-las srrá um plano a acertar com as partes interessadas, ou seja, os trabalhadores do NB.
Esta possibilidade deixada em aberto contrasta com o discurso feito horas antes no Parlamento pela ministra das Finanças. Para Maria Luís Albuquerque, a solução encontrada para resgatar BES é a que “melhor defende todos os interesses em jogo”: trabalhadores, depositantes e contribuintes. Aliás já Carlos Costa na sua deslavada intervenção televisiva dissera o mesmo: não se assuste ninguém porque não haverá despedimentos.
A banhos em Manta Rota, Coelho defendeu (obviamente) a “solução” adoptada pelo Governo e pelo regulador, o que equivale a dizer que não haveria despedimentos nos bancários que transitaram do obituado BES. E Portas seguiu o seu primeiro em declaração de fato e gravata, ao lado da sua antiga inimiga Maria Luís.
Na entrevista sicada, ups, citada, Bento disse que não sabe fazer milagres. Porém, para adoçar a anterior e preocupante afirmação sobre a possibilidade de despedimentos, deixou a garantia de que hoje, o banco hoje é mais seguro e mais forte do que era na sexta-feira negra em que, segundo o (ainda) governador do Banco de Portugal, a “cisa” esteve no fio da navalha. Bento aproveitou o momento televisivo para reafirmar que os depositantes estão protegidos. Felizmente. O povo é que não este pelos ajustes e só num dia, mais precisamente na segunda-feira foi depositar na CGD duzentos milhões de euros levantados do ex-BES, agora banco bom.
Tudo indica que o novo presidente da nova administração do Novo Banco não coeçou muito bem. Terá metido o pé na argola? A sua declaração em se coloca na oposição ao (des)Governo poderá ter sido apenas um lápis de língua?, perdão, um lapsus linguae? A ser assim, Vítor Bento poderá ser equiparado aos professores que deram erros no exame para apreciação de poderem ser… professores.
Que fará Maria Luís? Que fará Carlos Costa? Que fará o (des)Governo? E que fará o suposto Presidente da República? Convém não esquecer a declaração de Cavaco que afirmou que o BES tinha mais do que uma almofada para prevenir qualquer sobressalto. Pelos vistos nem um travesseiro poderia aguentar o BES. O senhor Silva, que se meteu onde não era chamado, funcionou como public relations do bando e do banco do senhor Salgado. O que para o mais alto Magistrado da Nação poderia ter sido considerado mais uma demonstração do pluriemprego. O que não é aceite por Passos & Portas. Foi realmente uma viola num enterro. Então, será o caso da zanga dos compadres por não dizerem as verdades.

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11.8.14

Apontamentos de Lisboa - Pergunta de algibeira

Os gatafunhos estão a mais; em compensação, há algo que falta. 
O que é?

A nossa "Febre de Sábado à Noite"

Por Ferreira Fernandes 
Desde a semana passada Portugal vive a Febre de Sábado à Noite. O País para, as famílias à mesa suspendem a colher de sopa, nos cafés as cabeças levantam-se. Todos de olhos fixos no televisor: na SIC, Marques Mendes (M.M.) faz de meteorologista, atividade que se dizia que tinha deixado de existir. Nada mais falso, o que deixou de haver foi tempo morno. Agora, sem mesmo precisar de mapa ao fundo, porque o que se vai dizer não é pequena subida de temperatura em Évora ou barlavento na costa algarvia, não, é todo o País que vai ser atingido por tufão. O programa, que se fosse filme de Hollywood chamava-se Armagedom, porque é com M.M. chama-se "O habitual comentário semanal de Luís Marques Mendes". Não se deixem iludir com "o habitual" e "Luís Marques Mendes", palavras que evocavam sono. Isso foi até sábado passado. Agora, se bem se lembram do que aconteceu naquele dia, M.M. diz, como as ciganas, que a linha de vida da palma da mão é curta, mas, ao contrário das ciganas, acerta. Então, ele disse que Portugal estava mais uma vez e, desta vez, de vez, tramado. E, no dia seguinte, o Carlos Costa dos bancos confirmou. Não devemos querer-lhes mal, só são mensageiros - é pena que sejam do género cangalheiro, só se debrucem sobre o irremediável. Ontem, Marques Mendes anunciou que vai gente dentro. Se M.M. diz, irá. Receio, e é essa a catástrofe anunciada nesta Febre de Sábado à Noite, já será gente tesa para nos pagar o que devem. 
"DN" de 10 Ago 14

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10.8.14

Luz - À espera, em banco público, com flores e neve, Boston, EUA

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Numa grande praça, diante da Biblioteca Pública, a poucos metros do local onde, semanas depois, ocorreria o atentado com explosivos contra os maratonistas, duas figuras que atraem a atenção. Uma senhora à espera, com ramo de flores e telemóvel, talvez a tentar perceber por que está à espera… A seu lado, um vagabundo, com os seus sacos e a tralha respectiva. (2013)

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TRABALHADOR ESTUDANTE (2)

Por A. M. Galopim de Carvalho
NESTA actividade que se prolongou por todo o ano de 1959, houve uma situação, deveras insólita que retive bem viva na memória e que, um qualquer doente de parcas posses que, por razões de urgência, se vê forçado a recorrer à medicina privada, tem dos médicos uma imagem pouco edificante, nem sempre justa, de uma profissão, para alguns, altamente rentável. 
Um primo meu, camionista de pesados que, pelas ditas razões, trocara o hospital pelo consultório do especialista na capital, tinha essa imagem bem metida na cabeça. Nas muitas vezes que vinha buscar ou trazer cargas a Lisboa e que nos juntávamos para almoçar, relatava-me os seus problemas de saúde e o rombo que isso lhe dava no seu magro salário, tratando todos os médicos por “tubarões de bata branca”.(...)
Texto integral [aqui]

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9.8.14

Crónica de remar contra a maré

Por Ferreira Fernandes 
Conhecem a guerra dos chapéus-de-sol? Talvez não, mas só estão atrasados duma época estival. Há praias com concessionários que alugam os seus próprios chapéus. Concessões que foram feitas com a garantia pública, ainda agora repetida pelo porta-voz da Autoridade Marítima Nacional (AMN): "Não há qualquer tipo de privatização de praias." Ora isso é tanga. Porque o mesmo disse isso, mas também isto: "Não faz sentido em zonas de chapéus-de-sol alugados pelo concessionário que seja autorizada a colocação de chapéu-de-sol por particulares." Daí que se tenha passado, neste ano, ao aviso de que colocar o chapéu-de-sol à frente de uma área concessionada possa dar multa. O que pode dar multa, dá. Talvez ainda não nesta época mas o que pode dar multa, dará. Inevitável como o destino. Só estamos a ser preparados para acatar essa suave fatalidade. Por enquanto, só nos estão a vender a falácia: "Não faz sentido...[ver frase completa, acima]." Porque se o direito dos concessionários choca com o dos particulares, não só na área concessionada como à frente dela até ao mar, então, a praia foi privatizada. Insiste o tal porta-voz: "Não há qualquer tipo de privatização de praias nem há qualquer tipo de intenção de alterar aquilo que é a moldura jurídica aplicada aos espaços de jurisdição marítima." 
Se as praias públicas fossem um banco, com desmentidos destes eu ia logo tirar a areia que lá tinha. Vão dar banho ao cão.
"DN" de 9 Ago 14

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Pedro Branco
Núcleo Museológico do Alto de S. Bento, da Câmara Municipal de Évora

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Não me matem a burra, por amor de Deus! (Crónica)

Por C. Barroco Esperança 
(A Beira Alta e a fé, nos verões de outrora)
Na mitologia grega havia um deus que necessitava de mergulhar as mãos na terra para recuperar as forças. Eu, que não sou deus, nem crente, sinto a necessidade dos mitos e vou procurar nos sítios que agonizam o resto de vida que ali jaz e encontrar no húmus das minhas origens as forças de que careço.
Abalámos muitos dessas terras que eram viveiros de gente e são hoje a antecâmara da morte dos que regressam para ficar. (...) 
Texto integral (aqui)

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6.8.14

Good piada, bad piada

Por Ferreira Fernandes
No fim de semana fui meter gasolina. Saí do carro e, enquanto o gasolineiro enchia o depósito, li num cartaz vermelho com letras brancas: "Bomba em Pré-pagamento." Gosto de entabular conversa e disse: "Está ali uma palavra que não se pode dizer alto num avião." O homem, que matutava com os olhos fixos na mangueira, levantou o olhar. Com o queixo apontei o cartaz. O homem seguiu a indicação e voltou à mangueira, sem palavras. Pareceu-me que matutava ainda mais profundamente. Silêncio. Uma tarde de sábado, rua deserta, dois homens numa gasolineira. Procurei à volta mais motivo de conversa mas sem ilusões. Mesmo se o encontrasse não diria nada, apesar de conversador sou tímido. Som de depósito cheio, mas o homem continuou a olhar para a mangueira. E foi então, num desfastio de quem não quer tirar dúvidas mas quer deixar o testemunho da sua perplexidade, foi então que disse: "Mas porque raio não se há de dizer pré-pagamento?!" Ele abanou a cabeça e a mangueira, e eu paguei. Entrei no carro com um dos meus sonhos realizado: assistira ao nascimento de uma anedota. Ontem, os jornais ingleses falaram do avião da Qatar que ia para Manchester e teve ameaça de bomba. Um passageiro entregara à tripulação um bilhete com a palavra proibida. E só se deu conta do que fizera quando olhou pela janela e viu jatos da RAF a escoltar. Aí, exclamou: "Oh, m....!" Parvalhão. Se era só para piada, escrevia no bilhetinho: "Pré-pagamento".
«DN» de 6 Ago 14

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A hidra

Por Baptista-Bastos
Um espectro percorre Portugal: é o espectro da pobreza, da miséria moral, da fraude, da mentira, do embuste, da indecência, da ladroagem, da velhacaria. Este indecoro do BES foi o destapar do fétido tacho da pouca-vergonha. Os valores mais rudimentares das relações humanas pulverizaram-se. Já antes haviam sido atingidos por decepções constantes daqueles que ainda acreditavam na integridade de quem dirige, decide, organiza. Agora, o surto alcançou a fase mais sórdida. Creio que, depois de se conhecer toda a extensão desta burla, algo terá de acontecer. Com outra gente, com outros padrões, não com estes que se substituem, num jogo de paciências cujo resultado é sempre o mesmo. Mas esta afirmação pertence aos domínios da fé, não aos territórios das certezas.
O Dr. Carlos Costa revelou ter avisado a família Espírito Santo de que ia ser removida. Na TVI, Marques Mendes, vinte e quatro horas antes, anunciara o cambalacho. Já destituído, Ricardo Salgado e os seus estabeleceram três negócios ruinosos para o banco, abrindo o buraco da vigarice para quase cinco mil milhões de euros. Quem são os outros cúmplices, e quais as razões explicativas de não estarem na cadeia?
Enquanto o País mergulha num atoleiro, o Dr. Passos nada o crawl, com esfuziante aprazimento, nas doces águas algarvias. Há dias, afirmou que os contribuintes não serão onerados com as aldrabices dos outros. Mas já foi criado um chamado Fundo de Resolução, com dinheiro procedente, de viés, do nosso próprio dinheiro, embuçado na prestação de um grupo de bancos. Quanto ao extraordinário Dr. Cavaco, o reconhecimento generalizado da sua inutilidade como medianeiro de conflitos, e conivente com o que de mais detestável existe na sociedade portuguesa, converteu-se num lugar-comum.
Foi o "sistema" que criou esta ordem de valores espúrios. Este poder dissolvente fez nascer, por todo o lado, a ideia do facilitismo, oposta às regras da convivência que estruturaram os princípios da nossa civilização, dando-lhe um sentido humano. Tudo é permitido, e esta noção brutal, inculcada por "ideólogos" estipendiados ou fanatizados concebeu as suas próprias regras. A impunidade nasce do "sistema", e Salgado é o resultado, não a causa, o resultado de um aproveitamento imoral estimulado pelas fórmulas dessa ordem de valores. Surpreendemo-nos com o comportamento de quem assim foi educado, porém temos de estudar e de analisar aquilo que os explica.
O "sistema", em cuja origem está a raiz do mal, não carece de "regulação", exactamente porque a "regulação" nada resolve e apenas prolonga a crise sobre a crise. O capitalismo sabe e consegue simular a sua própria regeneração. Mas é uma hidra que se apoia em referências na aparência inexpugnáveis, realmente falaciosas. Enfim: o nosso dinheiro está à guarda de ladrões.
«DN» de 6 Ago 14

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3.8.14

Luz - Passeantes na rua com neve, Boston, EUA

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O grande nevão, que paralisara toda a cidade, tinha ocorrido menos de uma semana antes. Quase nada funcionou durante uns dias: transportes, instituições, comércio, aeroporto, escolas… De repente, em 48 horas, uma autêntica frota de camiões avançou para a cidade, as ruas, as praças, os parques e os jardins. Rapidamente, foi possível pôr tudo a funcionar, mesmo se ficavam bem visíveis os montes de neve e gelo que nos ladeavam! Fiquei esclarecido sobre a eficiência dos serviços públicos americanos. Mas também percebi que, mesmo assim, os cidadãos daquele país se fartaram de protestar e de garantir que nunca os serviços se tinham atrasado tanto! (2013)

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FEIJOADA DE CHOCO



Por A. M. Galopim de Carvalho

(Para 4 adultos)

800 g de choco grande congelado

2 cebolas grandes

6 dentes de alho

2 folhas de louro

1 tomate grande

1 pimento verde

1/2 pimento vermelho

1 raminho de coentros

1 dl de bom azeite

2 cenouras, às rodelas, cozidas à parte

2 latas grandes de feijão branco ou manteiga

Pimenta, piripiri e sal a gosto

Aloure em azeite o alho, juntamente com o louro e o piripiri. Junte a cebola picada e deixe amolecer. Adicione, depois, o tomate sem pele nem sementes e picado. Aromatize com um raminho de coentros atado com uma linha. Deixe apurar bem.

Uma vez descongelado, acrescente o choco cortado aos pedaços pequenos e os pimentos cortados em pedaços ou às tirinhas. Logo que cozidos, retire as folhas de louro e o molhinho de coentros.

Escorra a calda das latas e lave o feijão num passador, em água corrente da torneira de junte-o ao preparado. Acrescente as rodelas de cenoura, deixe ferver alguns minutos a tomar gosto.

Polvilhe com coentro picado e sirva bem quente.

Se desejar, enriqueça a confecção acrescentando gambas, mexilhões, etc.

Pode acompanhar com arroz branco.



Para os que gostam de associar massa à feijoada - cozer, à parte, a massa (cotovelo ou outra a gosto) em água a que juntou uma golada de azeite, 2 dentes de alho esmagados, 2 folhas de louro e sal a gosto. Retire logo que cozida (al dente), escorra-a e junte-a, bem quente, à feijoada nos últimos minutos da fervura.

Neste caso, dispensa o acompanhamento de arroz

Bom apetite!

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31.7.14

Génio, põe os olhos em quem não é burro!

Por Ferreira Fernandes 
Do que eu mais gosto do Tanque dos Tubarões é o calculismo, a falta de generosidade. E digo isto porque sou generoso. Quem vai pedir para um negócio deve ter por parceiro não um mecenas mas alguém que pense mais nos seus interesses do que em ajudar. E o espírito do programa televisivo americano (Shark Tank, por cá passa na SIC Radical) é mesmo esse: quem negoceia tem de ir tão bem preparado como se mergulhasse com tubarões. É, portanto, por ser generoso que gosto da falta de bondade do programa. Quem dera a tantos pequenos acionistas portugueses terem sido educados na desconfiança, não estariam agora com as calças na mão. Lembrei-me disso por estes dias quando vi esta primeira página de jornal: "Génio do Euromilhões precisa de dinheiro." Um jovem português com um projeto que pretende aumentar as chances de ganhar no Euromilhões foi aceite no MIT, reputada universidade americana. Mas não podia partir porque, entre outras coisas, a TAP não oferecera a viagem. E estavam espantados, ele e o jornal. Qualquer dos tubarões do tanque seria cínico: "Então, rapaz, o teu sistema genial não deu para ganhares dinheiro para a passagem?" Outro que também lhe ensinava alguma coisa seria Durão Barroso, que veio cá trazer 26 mil milhões e disse: "Uma pipa de massa!" E disse em linguagem popular por duas razões: 
1) para o povo perceber e 
2) porque Durão tem um projeto para breve e luta por ele. 
Rapaz, põe os olhos em quem faz pela vida!
«DN» de 31 Jul 14

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Apontamentos de Lisboa

A malta do "Estamos a trabalhar!", a meio da manhã de um dia de semana, numa paragem da Carris das avenidas novas
Além de estorvar os autocarros, ainda bloqueia uma das duas faixas da avenida...

A democracia, a fé e a devoção

Por C. Barroco Esperança 
 A democracia é um sistema estranho, combatido por adversários e adeptos, uns por ódio à doutrina, outros por animosidade aos concorrentes. Churchill dizia que era o pior dos sistemas, com exceção dos outros. E assim é. 
Há poucos democratas dispostos a defender rivais, a reconhecer-lhes o direito ao poder ou, sequer, a legitimidade de terem opiniões. Quanto aos antidemocratas, que se batem pela fé que depositam num partido único, num sistema que julgam ideal, com a devoção dos peregrinos de Fátima e a paixão dos adolescentes com cio, nem vale a pena falar.(...) 
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30.7.14

O juramento dos banqueiros

Por Ferreira Fernandes 
Deve ser por isso que lhe chamávamos "pérfida Albion". Ontem, o Reino Unido pôs-se a discutir banqueiros! O despropósito de discutir banqueiros por estes dias, como se o velho aliado que somos não sentisse a faca revolvendo na chaga... Mas está bem, ouçamos, talvez não seja só para nos gozar. Um grupo de estudo britânico sobre bancos apresentou um relatório com este belo título: "Banca Virtuosa - Pôr Ética e Boas Intenções no Coração dos Bancos." Não é sem tempo, porque a desconfiança é geral. Num balcão, quando lhe entregam um formulário, o cliente do banco já olha a medo, convencido de que vai ver nele escrito "Isto é um assalto!" Então, o tal relatório diz que restaurar a confiança nos bancos é a prioridade. Mas como depositar confiança quando desconfiamos dos depósitos? Confiar nos bancos é hoje uma espécie de crédito malparado. Daí o relatório avançar, escreviam ontem os jornais ingleses, com uma proposta interessante. Os banqueiros, no começo da carreira, deveriam fazer um juramento. Do tipo: "Juro fazer o meu melhor com vista a satisfazer as necessidades dos clientes. É meu primeiro dever prestar um serviço de qualidade exemplar e mostrar um cuidado acima e para além do que a lei exige." Uma coisa como o Juramento de Hipócrates dos médicos. Mas, atenção, sendo banqueiros, oiçam como eles soletram: Hipócr-A-t-E-s. Não vá o juramento fugir-lhes para o costume e mudarem duas letrinhas.
«DN» de 30 Jul 14

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O miúdo sem pernas

Por Baptista-Bastos
O miúdo está a olhar para mim, sem espanto, sem medo, como se o facto de não ter pernas lhe fosse indiferente. A dor e o sofrimento desapareceram-lhe da expressão. Mas os olhos, esses, mantêm uma profundidade atenta, que não recrimina. Olha-me, simplesmente, sem nada esperar de mim: olha-me. Só se lhe vê os olhos e parte do rosto. O que sobra são ligaduras e tubos. Olha-me, e no olhar fixo, mas cheio de entendimento, não há susto, nem assombro, nem mesmo espera. Não tenho a certeza (já não tenho certezas de coisa alguma) mas parece-me que sorriu. Está no corredor do hospital, o hospital e o corredor estão repletos de macas e de estranhos objectos rolantes, os gritos e a gritaria ouvem-se à distância. Menos o miúdo que me olha, sereno, nem um gesto, nem o mais módico movimento. Olha-me. Apenas me olha.
Passam mulheres embiocadas, passam homens derreados, passam velhos e velhas. Todos com as fisionomias desfiguradas de amargura, se assim posso designar a maior dor do mundo. Não gritam, mas quando gritam desejam que os seus gritos cheguem ao céu da revolta.
O miúdo dobrou ligeiramente os olhos para me observar, para que eu o não esqueça. O miúdo sem pernas. Passa, agora, um rapaz acelerado, empurrando um estirador, feito maca, com duas raparigas, os trapos que as cobrem cheios de sangue. Uma delas não dá sinais de vida, e um braço descaiu-lhe da superfície onde vai. «Médico! Médico!», não grita: implora, e alguém lhe acode. «Já não temos antibióticos. Não temos quase nada», diz, e ajuda o rapaz a empurrar o estirador.
O miúdo sem pernas move os olhos e tenta reter tudo. De súbito, cai-me em cima a responsabilidade criminosa de só poder fazer o que sei fazer, isto, e é tão pouco ante a imensidão desta miséria afrontosa. Sinto-me humilhado por ser sobrevivente, é isso, e por ausência de um protesto generalizado. Não pode haver «contraditório», nem a procura do equilíbrio mentiroso da «distanciação» não aqui, neste crisol do inferno, nem em qualquer outro lugar onde a natureza da barbárie escapou a todo o respeito humano e a todo o padrão moral.
Porque será que este miúdo sem pernas e, aparentemente, sem censuras nem acusações, me olha, ou me procura com o olhar; porque será? Vejo os escombros, prédios e ruas em ruínas, gente esgaravatando nos destroços à procura sem muito bem saber de quê; à procura de restos, de sobras, do mais exíguo sinal de esperança, num trapo, numa boneca, numa cadeira desventrada; talvez num pedaço de carta: talvez.
Agora, outro homem. Joga as mãos à cabeça e olha em redor, no que foi a sua casa. «Venho do trabalho e vinha para aqui todos os dias. Que fiz para merecer isto?» E o miúdo sem pernas, crucificado em tantas lágrimas, olha-me apenas. Aqui não há misericórdia nem compaixão nem remorso.
«DN» de 30 Jul 14

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Douro - Rio, Gente e Vinho - Resumo do Livro

O Douro é o lugar de um feliz encontro. Nada faria prever que aquela região, outrora inóspita, fosse local propício para tão venturosa reunião. Da própria terra, vieram os lavradores e os trabalhadores da vinha e do lagar. De ali perto, dos vales do rio, os arrais e marinheiros. Do lado de lá da fronteira, a Norte, os Galegos, inesgotáveis construtores de muros e socalcos. Do Porto, adegueiros, administradores e comerciantes. Da Inglaterra e da Escócia, sobretudo, mas também da Holanda e de outros países, comerciantes, exportadores, colégios de Oxbridge, "Clubs" de Londres e "pubs" de Edimburgo. Ao fazer um vinho excelente, toda esta gente fez também uma região, uma paisagem e uma cultura. (...)
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29.7.14

BES - uma estória mal contada

Por Antunes Ferreira 
O caso do BES e do polvo de que é a cabeça continua a ser muito mal contado. O poder financeiro de que depende o económico ainda parece ser se não intocável, muito difícil de imputar a quem quer que seja dos seus agentes e investidores. Será que quem devia fazê-lo tem medo? A ser assim – e penso que não há ninguém que me contradiga – medo de quê e de quem?
Com a madruga redentora de 25 de Abril de 1974 Portugal tinha deixado de ser medroso como até lá existia. Medo da ditadura salazarenta/marcelista, medo da PIDE/DGS impune, medo dos tribunais especiais civis e militares, medo das prisões sem culpa formada, medo dos campos de concentração, como do Tarrafal em Cabo Verde ou o de São Nicolau em Angola, medo dos informadores, ou seja medo dos bufos, medo da Censura. O rol, aliás conhecido, é enorme, muito para além dos medos que foram aqui elencados.
 Porém, o medo voltou, em especial com o regime encabeçado pelo suposto Presidente da República e pelo gangue que (des)governa este País. As ameaças mais ou menos veladas, mais ou menos sofismadas multiplicam-se. A crise mete medo. A autoridade, i.e, a austeridade inconsequente, criminosa e despótica metem medo. A troika que se encarniça contra a economia mete medo .A Alemanha com a Frau Merkel ao leme mete medo. O despedimento e o consequente desemprego metem medo. E o aumento da emigração, aliás ordenada pelo próprio (des)Governo, também mete medo.
Nesta conjuntura recomeçaram as conversas em tom sussurrado, os olhas à volta, os nonos bufos, todos esses estão a voltar à tona de uma democracia que em vez de se desenvolver e cimentar, titubeia com… medo de ser pura e simplesmente eliminada. E não há hoje quem afirme convictamente, como já aconteceu, que a liberdade veio para ficar. Não se seja tão pessimista; há, com certeza, mas poucos.
Por algum motivo o escândalo do império Espirito Santo foi minimizado pelo seu relações públicas Cavaco Silva. E por Passos Coelho e por Carlos Costa e por Carlos Tavares, supostamente também relações públicas do império ES. O Ministério Público finalmente mexeu-se, mas com um incrível atraso na sua intervenção. E os “analistas de serviço oficial” bem tentaram sossegar o povo, pois tratava-se de um caso conjuntural que não contagiaria ninguém, pode a plebe estar descansada. Há dinheiro para todos os desmandos, porque existe uma almofada.
Porém, fora da pequenez lusitana as coisas fiam mais fino. No Luxemburgo, na França, em Angola, no Panamá, todos os poderes respectivos puseram-se à defesa e decretaram medidas restritivas para a actuação do famigerado grupo. Até a própria Wall Street se interrogou sobre o que se passava no BES e no que o rodeia – e que é muito. Nos ramos da Saúde, da Indústria Hoteleira, da Operação Turística, da Agricultura, da Indústria Alimentar, da Promoção Imobiliária, dos Seguros. É, realmente uma organização tentacular.As operações do Grupo Espirito Santo (GES) a nível financeiro, Com arquitecturas imbricadas e fraudulentas levaram q que a exposição de empresas portuguesas Espirito Santo Financial Group (ESFG) é de cerca de cinco milhões de euros! No resto do Mundo há que fazer contas, como é o episódio caricato da PT e Rio Forte. Por algum motivo a fusão da PT com a OI, passou a ser da OI com a PT. O medo, porém, não impediu as ligações entre a finança e o poder político ao longo dos anos. Uma promiscuidade altamente comprometedora, mas que pareceu intocável, até as comadres se zangarem. Apenas um apontamento final: tanto quanto estou informado, o sr. Ricardo Salgado, indiciado em processo-crime, mas solto sob uma fiança de três milhões (para ele peanuts) ainda não mexeu nos dinheiros que são muitos e que tem sossegadamente no Brasil. E, no qual pelos vistos não mexerá.

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28.7.14

Apontamentos de Lisboa

Diálogo que teve lugar esta manhã, algures nas avenidas novas, entre um morador e um varredor da CML que por ali andava a trabalhar:

- Bom dia. Pode dar-me uma informação?
- Diga.
- Preciso de deitar um colchão fora. O que é que tenho de fazer?
- Deixe-o aí na rua.
- Ponho-o aqui mesmo?! E não é preciso ligar para a Câmara, para o virem recolher?!
- Se quiser, pode ligar. Mas não é preciso. Depois, passa a carrinha e leva-o.

Fazer de Marcelo dano colateral

Por Ferreira Fernandes 
Eh lá, o tiro ao alvo a Ricardo Salgado já vai nos danos colaterais. Numa entrevista sobre a compra ou não da TAP, Miguel Pais do Amaral desvia a rota para aterrar no recentemente caído por terra Ricardo Salgado. Primeiro, Pais do Amaral passou por aeródromos secundários e falou dos ministros amigos do banqueiro que podiam prejudicar-se, agora, com a proximidade antiga ao pestífero. Mas logo se viu que não era esse o destino final: de que ministros fala?, perguntou-se-lhe. Mas Pais do Amaral desviou: "Não lhe vou dizer." Ele queria era chegar ao candidato presidencial Marcelo... Esse e a companheira, disse, eram "os melhores amigos do casal Salgado", a companheira "é administradora no grupo BES", e "o filho é funcionário da PT". Pronto, já entendemos, nesta cantiga de amigo e maldizer, Pais do Amaral não morre de amores por Marcelo, ai Deus i u é. Daí as duas frases extraordinárias que disse: "Obviamente que uma pessoa que é a melhor amiga de alguém, se esse alguém não sair bem, não tem quaisquer condições para ser candidato presidencial nem para alimentar essa candidatura" e, "neste caso, diz-me quem são os teus amigos, dir-te-ei quem és"! A ser assim, neste país tão pequeno e misturado em conhecimentos, corremos o risco de ficar sem candidatos presidenciais: quem está livre de um "amigo" incómodo? Daí a programas eleitorais em forma de repúdio "Vote em mim porque não sou amigo de Fulano!", é um passo. 
«DN» de 27 Jul 14

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27.7.14

Luz - Porto e cidade moderna, Cartagena de las Índias, Colômbia

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Tanto o porto como a cidade moderna pouco têm a ver com a velha e pitoresca cidade colonial, dos tempos doa pirataria, do ouro e da esmeralda! Esta vista, tirada do alto do forte principal da cidade, mostra isso mesmo. Mas também revela a desordem e o desequilíbrio. Não se pode dizer que haja muito bom urbanismo… (2013)

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TRABALHADOR-ESTUDANTE (1)

Por A. M. Galopim de Carvalho
PARTE do meu tempo como estudante de Geologia, em finais dos anos 50, trabalhei como vendedor de uma firma que representava máquinas registadoras e máquinas de escrever de marcas prestigiadas no mercado. Com um ordenado mensal de 500$00 (2,5 Euros), procuraria tirar, nas comissões, algo que compensasse tal magreza.

Iniciado e inexperiente neste tipo de comércio de porta em porta, foram mais os meses em que nada conseguia vender. Nos relatórios diários que tinha, por obrigação, de entregar no escritório da empresa, indicava as visitas e os contactos que fazia, os eventuais clientes, apontando os possíveis compradores. Na posse destes contactos, o meu superior hierárquico, sem que eu o soubesse, consumava as vendas.(...)
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26.7.14

Como sabe bem ser tratado com respeito

Por Ferreira Fernandes 
O jornal francês Le Monde faz 70 anos em dezembro e, já neste verão, tem-nos apresentado uma série de textos sobre si próprio. Eles farão parte parte de um livro, a publicar em breve, sobre "a história do jornal, em tensão com os grandes acontecimentos que marcaram as últimas sete décadas". Sei o que significa aquela expressão "em tensão": respeito pelo leitor. O mundo é para os jornais, e não é preciso chamar-se Le Monde para isso, o seu ganha-pão: percorrem-no, tentam entendê-lo e apresentam-no ao leitor, que os sustenta. Como diz o slogan feliz da nossa TSF, aconteça isso ao fim do mundo ou ao fim da rua. Porque foi fundado numa França que precisava de reconquistar prestígio no fim da Segunda Guerra Mundial, Le Monde construiu uma rede de colaboradores nas mais longínquas capitais e várias gerações de europeus souberam de Pequim, Hanói e Cairo, quando por lá a história se revolvia, graças a Jean Lacouture, Jacques Amalric, Jean-Claude Pomonti... Ora, na referida série, Le Monde, ontem, contava-se não em glória, mas num erro (um crime, até) que cometeu no seu negócio (vender o mundo, recordo). Quando os Khmers Vermelhos tomaram o poder no Camboja, em 1975, o jornal escreveu como libertação o que viria a ser um genocídio. Ontem, sem autocomiseração, o jornal contou com nomes e frases duras o seu erro. Ao leitor, tratou-o como velho companheiro, a quem deve respeito, amor e dois euros todos os dias.
«DN» de 26 Jul 14

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Uma tormentosa dúvida

Por Helena Matos
Alguém sabe se no conceito de animal doméstico maltratado cabe uma pessoa desfazer-se através de equipamento adequado de um ser igual, parecido ou similar ao da foto? Dirão que o animalzinho não cabe no conceito de animal doméstico que agora a nossa AR alegadamente veio proteger. Desculpem mas cabe: o animal em causa mostrou uma obstinação imensa em tornar-se doméstico numa arrecadação dos meus conhecimentos. Mais quando convidado a sair com palavras, gritos e gesticulação obstinou em manter-se na humana companhia. Por fim há pessoas que têm esses animaizinhos como domésticos logo não se pode dizer que os bichinhos não são domésticos. Em resumo aqui temos a causa fracturante dos próximos anos: o conceito de animal doméstico não pode ser definido pelos seres humanos. Há lá animal que queira sem mais doméstico que uma ratazana? Devemos deixar os animais decidir se querem ser domésticos: os ratinhos, as ratazanas e as baratas querem ser domésticos. Logo devemos aceitá-los na sua verdadeira identidade.
Obs. Para quem não tenha dado por isso os deputados da nação acharam por bem  equiparar as associações zoófilas a organizações não-governamentais ambientais, dando-lhes o direito a constituírem-se assistentes em processos e dispensadas do pagamento de custas judiciais.  E de caminho o projecto de lei estabelece que “quem, sem motivo legítimo, infligir dor, sofrimento ou quaisquer outros maus-tratos físicos a um animal de companhia é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até 120 dias”.  Está aberta a caça ao primeiro arguido num processo desse.
Blasfémias.Net

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25.7.14

Sensuras que não tulero

Por Pedro Barroso
Se a deputada catarina marcelino, não sabe escrever - mais: faz erros ortográficos arrepiantes sempre que não liga o corrector automático!!!... - e é licenciada em Antropologia, deputada da nação etc ...então eu mereço ser, no mínimo, primeiro - ministro!
Hoje em dia chama-se hiperactivo à criança chata e impossível a quem, outrora se dava uma chapada para estar sossegada. Não serei obviamente a favor do castigo corporal mas o ensino degradou-se por indignidade e perseguição dos saberes mínimos exigíveis. Passam-se os alunos sem saber escrever português ou fazer contas elementares; e qualquer professor tem de explicar em múltipla papelada o porquê de uma reprovação, sempre que a queira aplicar.
A velha desculpa da dislexia é quase sempre a farisaica ocultação de uma descuidada impreparação e do analfabetismo mais elementar. Disléxico, aqui para nós, é o nosso lamentável acordo ortográfico, o que já bastaria...
Não faço ideia como trepou na universidade para ser licenciada e no aparelho partidário para ser deputada. Mas há uns mínimos tácitos que justificadamente esperamos/exigimos de quem nos representa ao mais alto nível político, publico e nacional.
Tenha dignidade e assuma a sua ignorância demitindo-se! Bem basta a parga de imbecis que nos governa, cheios de privilégios e prebendas para dar má imagem da classe politica.
Um deputado não pode, - simplesmente não pode - ser analfabeto! 
ps - escrevi o seu nome sem maiúsculas iniciais por dislexia momentânea que me atacou também...

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Apontamentos de Lisboa

Quem disse que a cidade tem falta de zonas verdes?

Sobre a ciência dos mercados

Por Ferreira Fernandes 
Há coisas que custam a engolir mas, pronto, tenho de aceitar. Eu já não tinha gostado da PJ a vasculhar os papéis nas minhas duas salas no Hotel Palácio, mas lá aceitei. Depois, quando o juiz me avisou de que ia interrogar-me no dia seguinte, levantei a sobrancelha, incomodado. Mas, pronto, tive de aceitar. Disse-lhe que lá estaria, o meu motorista haveria de me pôr no Campus de Justiça à hora marcada, mas ele respondeu que iriam à minha casa buscar-me. Que remédio, aceitei. De manhã, bem vi o ar pasmado da minha empregada, ao dizer: "Estão à porta dois polícias que perguntam pelo senhor doutor." Custou-me? Muito, mas aguentei. Percebi os sorrisinhos trocados entre o guarda e o motorista, mas pus cara de quem não viu. Chegado ao TIC, no corredor cruzei-me com olhares impertinentes dos beleguins, mas aguentei. No juiz topei o revanchismo dos sans-culottes, mas respondi a tudo, calmo. Na pausa de almoço contaram-me a histeria das rádios e televisões - "detido!", gritavam todos - e aguentei. Voltei ao interrogatório do Robespierre, aturei as perguntas, sofri a condição de arguido, tolerei as acusações, resignei-me à caução a pagar... Aceitei tudo! Mas há uma coisa que não admito. A mim, que fui estes anos todos o rosto do mercado de capitais, o epítome da bolsa de valores, não se devia ter feito este insulto: no dia em que fui detido, interrogado e constituído arguido, as ações do BES sobem?! 
«DN» de 25 Jul 14

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24.7.14

Não sabem…

Por Antunes Ferreira
Surrealista é o mínimo que pode chamar a uma nova (des)medida deste (des)Governo. Também se poderia classificá-la em termos mais duros, mas não vale a pena. Emendo. Ela também é inconcebível e quiçá autista. Pode ter passado sem grande estardalhaço, porque os órgãos da comunicação parece terem-na ignorado. Ou talvez estivessem ocupados com outros temas mais graves e complexos como o rescaldo da participação da velha (a terceira mais… idosa) equipa de Portugal na Copa 2014, ou a fraude criminosa de Ricardo Salgado e o seu famigerado polvo que “tentacula” o BES.
Mas a Rádio Renascença – honra lhe seja feita – pôs a nu mais uma alarvidade (des)governamental.  E o PTJORNAL pegou no assunto através de texto do jornalista João Miguel Ribeiro, de cujo texto transcrevo passos; se calhar deveria usar a caixa alta, mas toda a gente sabe infelizmente o nome do chefão do (des)Governo.
“O Ministério da Saúde está a abrir vagas em alguns serviços ou valências hospitalares que o próprio Governo pretende extinguir no quadro da reforma hospitalar. A denúncia parte do presidente da secção regional do Norte da Ordem dos Médicos, avança a Rádio Renascença.
 Em declarações à Renascença, José Miguel Guimarães denuncia a incompatibilidade nas vagas anunciadas pelo ministério: "A portaria 82/2014, que tem a ver com a reforma hospitalar, limita uma serie de valências nas especialidades médicas e cirúrgicas a alguns hospitais. Entretanto, o Governo publica um despacho que abre uma série de vagas para especialidades que, segundo esta portaria, vão encerrar".
 No centro hospitalar de Gaia-Espinho, por exemplo, 100% das vagas abrem em serviços na cardiologia pediátrica e cirurgia pediátrica, especialidades que vão deixar de existir. O mesmo se passa com a cirurgia vascular e cirurgia plástica reconstrutiva e estética, alerta José Miguel Guimarães. A solução, na leitura da Ordem dos Médicos, passa por rever a portaria que prevê a reforma hospitalar e manter os concursos.”
Finalmente despedi o Passos (ai se eu pudesse…), digo, despedi os passos e transcrevi toda a notícia que está bem feita. E tem o mérito de chamar os bois pelos nomes. Mas, que dizer deste aborto do Ministério da Saúde? Está tudo no texto. Porém, ela representa um facto digno de nota. É frequente um ministério entrar em rota de colisão com outro. Quando estive como assessor da ministro Sousa Franco, pude ver que isso acontecia na altura da elaboração do Orçamento do Estado (OE). O dinheiro não chega para tudo e para todos.
Mas no caso vertente a originalidade é evidente. A originalidade, o desconcerto, a imbecilidade, a irresponsabilidade tocam as raias da… indignação – e da interrogação. Será possível que isto aconteça? Desgraçadamente parece que sim. O ministro Paulo Macedo deve andar um tanto desatento ao que no seu ministério se passa. A greve dos médicos protestando contra a “lei da rolha” que ele pretendia impor deu-lhe água pela barba.
De tal maneira isso o preocupou que recuou. O bastonário da Ordem dos Médicos saudou na terça-feira o «recuo» do Ministério da Saúde na publicação do Código de Ética, sem alguns dos pontos que foram apontados como motivos da última greve dos médicos. José Manuel Silva considerou que, com a publicação em despacho da versão final do Código de Ética, cuja primeira versão levou os médicos a apelidá-lo de “lei da rolha”, o Ministério da Saúde “soube reconhecer as razões da Ordem dos Médicos e da própria sociedade que respondeu com grande veemência, em defesa da transparência do SNS”.
Porém, no caso vertente, a descoordenação brada aos céus. Se é que os céus têm algo a ver com esta cena anedótico-macabra. Dizem que o Cristo, do alto da cruz pediu: Pai perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem. E no Ministério da Saúde não sabem… 

Apontamentos de Lisboa

Junto ao Hotel Roma
Ontem, como sempre sucede nas manhãs de 4ª-feira, esta carrinha dedicou-se a arrancar mais umas quantas pedras numa caixa-de-visita - dando, ao mesmo tempo, 'cobertura moral' aos que destroem os pilaretes que protegem uma outra. Bem... pertence à Câmara Municipal de Lisboa, ao Departamento de Cultura (de cultura cívica, pelos vistos...), e está tudo dito.

Os tumultos antissemitas em França

Por C. Barroco Esperança 
É irrelevante que eu considere terroristas os dirigentes de Israel e da Faixa de Gaza, que me sinta dilacerado com a implacável lei de Talião aplicada nos territórios cuja origem das injustiças é diariamente evocada e objeto de tomadas de posição por todo o mundo. 
Não vale a pena recordar, a cada momento, o desacerto clamoroso da criação de Israel pela Inglaterra, URSS, EUA e pelos vencedores da Segunda Grande Guerra, em geral, que logo reconheceram o novo País, com a exceção , aliás pouco honrosa, do Vaticano. (...)
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23.7.14

Douro - Rio, Gente e Vinho

Em meu nome e no da Editora Relógio d’Água, gostaria de anunciar a todos os interessados pelo Douro a publicação, dentro de poucas semanas, do meu livro “Douro – Rio, Gente e Vinho”. Trata-se de uma nova versão, corrigida, actualizada e muito aumentada, das edições de “Douro”, publicadas nos anos noventa e há muito esgotadas. Além dos acrescentos e dos novos capítulos sobre a história mais recente da região, incluí cerca de 230 fotografias, a maior parte inéditas e da minha autoria, mas também muitas outras de grandes fotógrafos que passaram pelo Douro desde meados do século XIX: Joseph James Forrester, George H. Moore, Emílio Biel, Alfred Fillon, Casa Alvão, Guedes de Oliveira e outros. A selecção fotográfica ficou a cargo de Angela Camila Castelo-Branco. A impressão foi da Guide – Artes Gráficas.

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Apontamentos de Lisboa

Av. 5 de Outubro (junto à Júlio Dinis)
Uma situação inqualificável é a de caleiras sem tampa, especialmente quando (como é o caso destas) estão assim há tempos infinitos - esperando que ali caia alguém cego ou que, simplesmente, veja mal. 
Em baixo vê-se o seguimento das de cima (que estiveram numa situação igual) e a exibição do desenrascanço do chico-esperto que resolveu o assunto... tapando-as com betão.

O horror e sobretudo como sair dele

Por Ferreira Fernandes 
A cidade Dresden foi arrasada em dois dias de 1945 e esse horror não faz uns, bons, os carbonizados cidadãos alemães, e os outros, maus, os aviadores americanos. Duplamente do lado errado (porque preso pelos alemães e porque sob as bombas dos seus compatriotas), o soldado americano Kurt Vonnegut nunca se esqueceu dos feridos e mortos que eram, dias ou horas antes, seus inimigos. Quando se tornou escritor, teve de recorrer à ficção científica, no romance Matadouro 5, para resolver consigo próprio o que vira. Sim, para bem dos homens é essencial essa compaixão, essa indignação. Por estes dias, vi jornalistas árabes a cair em soluços quando narram os horrores de Gaza. Redimem os homens. Mas apaziguar-me-ia mais ver jornalistas israelitas a exprimir os mesmos sentimentos perante a carnificina de que são vítimas, por estes dias, os palestinianos. E também gostaria de, já nem digo em vídeos do Hamas, ver jornalistas da Al Jazeera cair em soluços pela morte de um civil israelita. E esse, o choro do islâmico pelo islâmico, do israelita pelo islâmico e do islâmico pelo israelita, até nem seria pedir muito, é o patamar mínimo - ser contra os efeitos da guerra é o banal. O grandioso - sim, porque a história não é só o exato momento destes dias, há um passado e pretensos futuros - seria todos acharem que os dois lados têm o direito a estar ali. E isso, aos israelitas, há quem não reconheça, nem para início de conversa.
«DN» de 23 JUl 14

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