26.5.15

Na morte do Fernando Pires - O chefe e a escova

Por Antunes Ferreira 
Entrava na redacção e a primeira coisa que fazia – absolutamente obrigatório – era tirar o pó da secretária com uma escova que guardava na segunda gaveta. A malta toda sabia desse ritual, respeitava-o obviamente mas alguns jornalistas mais dados a chalaças comentavam sotto voce que um dia ele traria também um pano molhado em detergente para remover alguma marca de tinta – o que era quase impossível pois mais cuidadoso do que ele, era impossível. I M P O S S Í V E L com todas as letras.
 O tom baixinho de voz era importantíssimo não fora ele ouvir o dito – o que significava entornar o caldo. Porque o homem não era de brincadeiras, muito menos para brincadeiras. Içava habitualmente a bandeira da cara de pau e o pessoal tinha-lhe respeito, muito mais do que medo. Porque era exigente, chegava ao pequeno pormenor, mas no fundo era uma defesa com que se escudava dos que não envergavam a camisola do jornal. Por isso – não contassem com ele.
 Conheci-o quando fazia relatos radiofónicos de jogos de futebol. Ambos” putos”, ainda que ele tivesse mais dez anos do que eu. Era então um tipo com cabelo…, o que mais tarde seria desmentido mas nunca nas páginas do seu quotidiano. Porque o diário da avenida da Liberdade também era dele e em certos momentos até era ele. Devoção ao título gótico, respeito pela oficina que ficava ali ao lado da redacção, intransigência perante a falta de verdade, do rigor, do desprendimento e, sobretudo do desleixo. 
 Depois afastámos-mos, a vida é feita de desencontros, de caminhos afastados, mas também dos cruzados. E foi então que nos descobrimos na redacção do DN, ele como chefe na sala verde de tantas memórias, algumas mais enviesadas, eu no “gabinete da chefia” (pomposa denominação, do aquário dito principal) , aconchegado nos restantes com paredes de vidro, duplamente transparentes. O Mário Zambujal era o chefe da Redacção, até que decidiu voar para outros pombais e sucedeu-lhe o “homem do diário” fundado por Eduardo Coelho e Tomás Quintino Antunes (quem sabe se talvez fosse meu primo em quadragésimo grau, ou seja muito afastado…) em 1864.
 Juntámos os nossos esforços – mais os dele do que os meus… – e desatámos a fazer o Diário de Notícias. Foi então que a nossa Amizade ganhou raízes e floresceu. As enésimas horas que passámos juntos foram inolvidáveis e o meu conhecimento dele aprofundou-se em cada dia que passava. Para mim foram apenas dezasseis anos no DN que face aos 55 dele saíram naturalmente na mó de baixo. Era o Fernando Pires e eu, o Antunes Ferreira, assim a modos que o Estica e o Bucha.
 Quando tomei a decisão de sair do DN – o que tanto me custou, podem crer – foi o Fernando o primeiro a tentar demover-me. Que porque torna e porque deixa, fazes muita falta ao nosso jornal, deixa-te de fitas e amanhã lá estamos. Mas eu não estaria - após o prazo legal que tinha de dar ao patrão. A privatização que para mim fora um roubo impedia-me de continuar. E no jantar de despedida que me ofereceram o Fernando disse-me do seu sentimento ao ver-me partir. Comoveu-me até a uma lágrima medrosa, envergonhada, maricas e prontamente afastada.
 No resto, que mais dizer? Dos sofrimentos que passou, da sua luta contra um maldito cancro? Da tristeza com que acompanhou o drama da sua Maria Fernanda? Das esperanças que depositou no Tiago, como já fizera com o Zé António? De tudo o que pinta o lado menos bom do quotidiano. Mas, no outro prato da balança, os amigos fizeram-na pender para ela, desequilibraram-na; a Amizade tem muito peso – se não é falsa. E eu que o diga…
 Fernando aqui te deixo um último abraço que não pude dar-te em vida. Mas como não acredito na “outa” não te posso sequer imaginar sentado à direita de Deus pai, mas só depois de teres escovado o assento – que, se acreditasse, era uma nuvem com um monograma: DN – a gótico. 
 Deste Homem que deu 55 anos de vida ao “seu” jornal, a Direcção do “Diário de Notícias!” foi capaz de NÃO dar uma linha de título na primeira página: MORREU FERNANDO PIRES.

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24.5.15

Luz-Nas margens do Tejo, Lisboa.

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Vista de cacilheiros ou equiparados, em frente ao Terreiro do Paço, a caminho de Almada ou do Barreiro. (2014)

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2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

FALANDO DOS SOLOS (17) 
Bio-rexistasia
Numa concepção do solo como um fenómeno geológico, introduzida pelo geólogo americano Cutis Fletcher Marbut (1863-1935), o geógrafo francês Henri Herhart (1898-1982) publicou, em 1956, uma interessante e original teoria “La genèse des sols en tant que phénomène géologique: Esquisse d'une théorie géologique et géochimique, biostasie et rhexistasie”, com uma segunda edição na Masson, Paris, em 1967. (...)
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22.5.15

A caça ao voto

Por Antunes Ferreira 
A apresentação do programa de Governo do Partido Socialista provocou, tal era de esperar, ondas de choque diversas. No debate quinzenal da Assembleia da República a coligação no poder disse cobras e lagartos sobre o documento que deverá ser aprovado no dia 6 de Junho na assembleia magna do PS.O programa foi então motivo de ataques acerbados cujos autores iam do nosso primeiro Passos Coelho até ao líder parlamentar dos laranjas Luís Montenegro. O CDS, naturalmente, também participou na agressão colectiva.
 Por outro lado, Aguiar Branco iniciava o ciclo Sócrates, tema que servia, serve e serviria de arma de arremesso contra António Costa. Um verdadeiro leit motiv para a maioria no poder. O ministro da Defesa chegou mesmo a afirmar que o Partido Socialista queria um modelo de governação "muito à engenheiro Sócrates", defendendo que a apresentação do projecto de programa eleitoral dos socialistas "é mais uma sondagem de ideias, já foi feito esse ensaio com o cenário macroeconómico que aconteceu num primeiro momento, agora é o projecto de programa".
 As acusações iam-se acumulando. Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, afirmou na quinta-feira última que PS, PSD e CDS-PP "quanto mais juram mais mentem", Referia-se às alterações introduzidas no sistema da Segurança Social e as que pretendem fazer na Taxa Social Única, TSU. "O actual Governo anunciou um novo corte de 600 milhões de euros nas pensões e reformas para 2016. Por seu turno, o PS prepara-se para aprofundar a sua contra-reforma da Segurança Social de 2007, envolvendo agora também a redução da TSU para as empresas, tal como PSD e CDS, e que, ao contrário do que se vem propalando, a mantém no seu projecto de programa eleitoral como uma medida a implementar a prazo. Aqui o recuo foi: 'não sendo para já, será mais à frente'"++ Ora bem, estava-se em terreno propício à contenda: a Segurança Social onde o PS defende uma gestão sustentável e transparente dela que passaria por encontrar novas fontes de financiamento. E também promete dar prioridade à "avaliação rigorosa" do sistema de Segurança Social, a fim de devolver a confiança aos pensionistas e garante que não serão feitos mais cortes nas pensões. Ou seja defende-se uma gestão sustentável e transparente da Segurança Social, que passaria por encontrar novas fontes de financiamento e pelo combate à fraude e evasão contributiva.
 Para compor o ramalhete surgiu Paulo Portas que avisou “com amizade” que a Segurança Social é um campo perigoso e não admite experimentalismos. O vice-primeiro-ministro dava assim a sua achega à questão, atirando mais achas para a fogueira ou jogando-lhe petróleo, o que é ainda pior. Mas quem conhece Portas sabe o que vale a palavra dele, o que adverte e o que jura que tomou uma decisão irrevogável para de seguida e face a novas ofertas revoga-a irrecusavelmente.
 Estava instalada a polémica sempre saudável em democracia, mas a deturpação das intenções, promessas e argumentos significava (e significa) que isso não tem cabimento porque os intervenientes não querem: estamos em ano eleitoral e a pré (?) campanha está no Parlamento, na rua, no procedimento dos cidadãos, de acordo com o que pensam e que os concorrentes tentam instilar-lhes como as propostas mais aliciantes.
 É a caça ao voto que todos recusam terem entrado por esse caminho ínvio, mas que todos também praticam ainda que sem espingarda nem licença de caçador. Portugal é (também) isto. Poderá argumentar-se que pelo Mundo fora – ou, pelo menos nos países onde há liberdade e democracia – a prática é constante e inevitável.
 Mas querem recordar um exemplo histórico? No Parlamento britânico, comentando o andamento da guerra e respondendo a interpelações dos trabalhistas, na oposição, o Senhor Churchill referindo-se à escalada dos bombardeamentos afirmou convictamente que se os alemães bombardeavam Londres, Birmingham, Liverpool e outras cidades da Inglaterra também em retaliação os bombardeiros da Air Force despejam toneladas de bombas sobre Berlim, Frankfurt, Colónia, Hamburgo e outras.++ O Senhor Clement Atlle, líder trabalhista, que viria a suceder a Churchill no prédio número 10 da Downing Street, respondeu-lhe “mas que ganhamos nós com isso?” Estava a aproximar-se o final da II Guerra e as palavras de Atlle ficaram na História. E ainda não abrira a hunting vote, ou seja a caça ao voto.

21.5.15

O padre Sousa Lara e os exorcismos

Por C. Barroco Esperança
O ex-subsecretário de Estado de Cavaco Silva, censor de um livro de Saramago, não foi apenas o devoto da missa e da hóstia, inimigo da cultura e da liberdade, foi o crente que mandou erigir uma Cruz do Amor, com 7 metros, destinada a "combater o comunismo e evitar o mal com a chegada do ano 2000", no seu monte alentejano.
 ntre as suas obras consta um filho, feito certamente de forma casta, a quem ofereceu a administração de uma empresa pública, o Estado é para os amigos e família, mas que preferiu ser padre e especializar-se em exorcismos, atividade que faz parte do alvará de padre mas que, com a escassez de Demónios, passou a ser uma especialidade canónica de autorização episcopal. 
O padre Sousa Lara, homónimo do bem-aventurado papá, é um reputado exorcista que, munido de uma cruz e de umas tantas rezas, se atira aos demónios como Santiago aos mouros, na diocese de Lamego, uma zona onde grassam ainda o analfabetismo a fome e os diabos, enfim, Terras do Demo.
 Não há um único caso de possessão demoníaca em livres pensadores, ateus, agnósticos, céticos ou racionalistas. São os mais tementes a Deus, desgraçados e moles do miolo, os que deixam entrar, no corpo, o maligno. É para esses que os exorcistas arremetem com a cruz e as orações, numa peleja digna da Idade Média, com o Mafarrico a fugir, da cruz e do padre, como os carteiristas à polícia.
Benditos exorcistas, tão eficazes a tirar o Diabo do corpo dos crédulos como S. Roque as verrugas ou Santa Bárbara a amainar trovoadas.
Não lembrava ao Diabo que ainda houvesse quem vivesse à sua custa. Coisas do demo!
 Ponte Europa / Sorumbático

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19.5.15

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Por A.M. Galopim de Carvalho
FALANDO DOS SOLOS (16)
Crostas pedogénicas (continuação) 
Calcretos 
Com cem anos de uso, o termo calcrete, proposto por G. H. Lamplugh (1902), só nas últimas décadas começou a figurar na nossa terminologia geológica. Este tipo de crostas pedogénicas, próprio de ambientes morfoclimáticos caracterizados por uma certa subaridez (precipitação abaixo dos 500 mm/a), resultam de acumulação de carbonato de cálcio ao longo de extensões superficiais maiores ou menores. Os calcretos variam bastante em espessura, desde algumas dezenas de metros, na Austrália, África do Sul, Novo México (EUA), a alguns metros no sul e sudeste ibérico (3 a 5 m em Portugal, no Algarve). (...) 
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17.5.15

Luz-Nas margens do rio Nilo, Egipto

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Algures entre Luxor e Edfu. A descida do Nilo, em barco de cruzeiro, desde Assuão, no Sul do Egipto (onde se construiu a grande barragem e se fez a respectiva albufeira), até perto do Cairo, é uma das viagens com que se sonha desde pequenino. Esperei sessenta anos. Finalmente, foi possível. Além de muitos outros menos conhecidos, lugares mágicos como Abu Simbel, Luxor, o templo de Karnak, o Vale dos Reis e a pirâmide de Saqqara, passear no deserto e descer o rio Nilo de barco eram sonhos inevitáveis. O percurso era de encanto e deslumbramento. No barco, com tempo e vagar, aproveitavam-se os dias para ler e estudar. E ficar horas encostado à amurada a olhar. Para fotografar e descansar. E tomar refrescos sem parar. Na parte mais fértil das margens do rio, tudo correspondia ao que se dizia e aprendia na escola. Aquelas são das terras mais produtivas do mundo, dão várias colheitas por ano e há uma actividade agrária incrível em, todo o sítio. Parece que há menos actividade e menos produção do que antigamente, dado que a barragem de Assuão e a regularização do rio e das cheias trouxe alterações ecológicas prejudiciais. Mas o que se vê nas margens é igual ao que dizem os lugares comuns e os mitos! (2006)

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16.5.15

“...ONDE A TERRA SE ACABA E O MAR COMEÇA...” - (Luís Vaz de Camões) - (*)

Por A. M. Galopim de Carvalho
A propósito dos trabalhos visando o crescimento artificial da Praia de Dona Ana (Lagos) ocorre-me lembrar que a adulteração da paisagem física em nome do desenvolvimento é um facto que está a atingir proporções preocupantes.
Os reflexos no litoral da intervenção do homem são hoje bem visíveis e as soluções encontradas, para os minimizar ou eliminar, nem sempre são as melhores. A conclusão a tirar desta realidade é a de que não se pode continuar a planear o litoral de costas viradas para os conhecimentos que a ciência já está apta a fornecer. Há, pois, que saber conviver com o mar e respeitar os seus códigos que já conhecemos com razoável pormenor. No sentido de minimizar estes inconvenientes, tem-se recorrido a ensaios realizados em tanques especiais, onde, em modelos reduzidos, se procuram simular as condições naturais e as alterações a introduzir, a fim de estudar os seus efeitos. Modernamente, com o desenvolvimento dos meios informáticos, estão a utilizar-se, com idênticos propósitos, modelos matemáticos, mais rápidos e menos onerosos. Seria desejável que decisores, jornalistas e comentadores falassem a mesma linguagem. Pareceu-me, pois, útil reunir nestas linhas o essencial do que dizem os estudiosos desta temática. (...)
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NOTA: Este texto foi escrito a pedido de Cidadania de Lagos. Foi também feita uma versão resumida para publicação no jornal Correio de Lagos.

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Chutar para canto

Por Antunes Ferreira
ONTEM, SEXTA-FEIRA, 15 de Maio de 2015, «o primeiro-ministro do Luxemburgo, Xavier Bettel, tornou-se o primeiro líder da União Europeia (e o segundo da Europa) a casar com um parceiro do mesmo sexo. Bettel, de 42 anos, casou-se com o seu namorado de longa data, o arquitecto belga Gauthier Destenay, numa cerimónia privada. Os dois já tinham oficializado a sua união de facto em 2010: agora, tornaram-se um dos primeiros casais homossexuais a beneficiar da alteração legislativa que alargou o direito ao casamento a casais do mesmo género no grão-ducado”. A notícia foi colhida do jornal “Público».
As coisas são o que são e já nada espanta ninguém neste Mundo de agora. Volte-se uns anos atrás e não podia imaginar-se uma cena como esta. Durante o largo período do puritanismo que vigorou no Velho Continente, nem se podia falar do tema da homossexualidade. As Igrejas, tendo à frente a Católica, consideravam a ligação entre indivíduos do mesmo sexo um pecado contra-natura. Mas os tempos mudaram e com eles as práticas mais diversas incluindo as sexuais.
Retomo a transcrição da notícia publicada pelo quotidiano. «O casamento foi celebrado pela autarca da capital, Lydia Polfer, a madrinha política do liberal Xavier Bettel. Entre os convidados estava o primeiro-ministro da Bélgica, o também liberal Charles Michel. Mais de 200 pessoas aguardaram pela entrada e saída dos noivos à porta do hotel de ville (a câmara municipal) da Cidade do Luxemburgo, para os cumprimentar e desejar felicidades. O casal apareceu ao balcão para agradecer, e foi saudado com aplausos e arroz.»
Nada mais natural, disseram as comunidades gay. E estão certas. Não se advoga aqui essa prática do sexo, nem se a condena. Dentro da Liberdade tudo é possível, tudo se aceita, mas também muito se condena. Os homens que são homossexuais, as mulheres lésbicas têm o direito de ser assim. Lá vão os anos em que homossexualidade era considerada uma doença. Muito se tentou cura-la; mas, debalde.
Aconteceu já em Portugal - a lei aceita a situação, juridicamente não é motivo para tribunais muito menos para penas - mas nunca um primeiro-ministro se casou com um namorado. Diz-se que no (des)Governo que ainda temos há quem o seja, mas das palavras aos actos vai uma distância enorme. Boatos dirão alguns, provocações afirmarão outros, insinuações declararão outros ainda. Mas, verdade se diga, e se tal acontecesse ou vier a acontecer como reagiriam os Portugueses?
Mais uma vez cito a notícia: «Segundo a AFP, o casamento do primeiro-ministro foi interpretado pelos comentadores como um “bom sinal” e uma “mensagem positiva” da evolução de mentalidade da sociedade luxemburguesa, que é maioritariamente católica. Xavier Bettel nunca escondeu a sua homossexualidade aos seus eleitores. “Se o fizesse, seria um infeliz. Nunca seria capaz de viver um relacionamento em segredo. E penso que quem quer estar na política deve ser honesto, o que implica dizer a verdade e também aceitar-se tal como é”, justificou, numa entrevista à RTBF.»
E quem é Bettel? «Ele chegou ao poder no fim de 2013, depois de derrotar os cristãos-sociais de Jean-Claude Juncker, e governa em aliança com os socialistas e os Verdes. Na tomada de posse, prometeu modernizar a sociedade luxemburguesa, alterando leis e avançando com reformas tanto de cariz político como social. Uma das primeiras medidas foi a legalização do casamento e da adopção de crianças por casais gay, aprovada por larga maioria em Junho de 2014. O edital que publicitava a intenção de casar do primeiro-ministro foi publicado dois meses após a aprovação da lei, que apenas entrou em vigor no início deste ano.»
A adopção nestes casos é para mim muito difícil de aceitar. Pergunto-me o que acontecerá no primeiro dia duma escola, quando o professor perguntar os nomes dos pais aos recém-chegados e o da primeira carteira responder “o meu pai chama-se João e a minha mãe Luísa”; uma miúda informará que “a minha mãe chama-se Lurdes e o meu pai Fernando e a dada altura chegar a vez de outro puto “o meu pais chama-se Carlos e a minha mãe Francisco”? Que fazer?
À pergunta o docente só poderia responder com um nada que é mesmo nada. Mas as outras crianças por certo franzirão a testa. “Pai Carlos e mãe Francisco”??? Daqui a uns anos que não posso prever quantos, respostas deste tipo poderão ser habituais e normais. Numa afirmação egocentrista deixo aqui o desabafo: nesse tempo já pertencerei ao número dos vivos. Não é difícil chutar para canto. 

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14.5.15

Santarém já chegou à Madeira… (a de Alberto João Jardim)

Por C. Barroco Esperança
Depois do ato hipócrita e oportunista de Cavaco Silva, a condecorar a cidade onde viveu o herói de Abril, Salgueiro Maia, e donde partiu para a gesta gloriosa que culminou com a rendição de Marcelo Caetano no quartel do Carmo, aparecem os ressentidos de Abril a reescrever a História.
Cavaco Silva, democrata tardio, outorgou a Santarém a Ordem da Liberdade, não pela relevância da cidade no 25 de Abril, que a não teve, mas para se aproveitar da coragem e nobreza do honrado militar a quem negou uma pensão que concedeu a dois PIDES.
É bom lembrar que os militares do 25 de novembro foram também homens de Abril, do «Grupo dos 9» ao general Costa Gomes, que entregou ao comandante militar de Lisboa, general Vasco Lourenço, a coordenação das operações que Ramalho Eanes comandou operacionalmente e onde se destacou o Regimento de Jaime Neves.
Isto é a história da data que dilacerou militares amigos e que, por elementar respeito ao 25 de Abril, a única data libertadora e consensual, devia evitar comparações.
A Assembleia Municipal de Santarém, numa traição a Salgueiro Maia e à sua memória, prepara-se para aprovar uma moção do deputado municipal do CDS/PP, António Borba, para substituir a sessão comemorativa do 25 de Abril, que recusou fazer, por uma outra, a do 25 de novembro, enquanto não comemora o 28 de maio.
É a História que está a ser reescrita por nostálgicos da ditadura, o regresso a valores que o bando que se apoderou do PSD e o seu ornamento da coligação – o CDS –, permitem, com o silêncio de quem exonerou da lapela o cravo, do quotidiano a Constituição e de Belém o espírito de Abril. 
 Ponte Europa / Sorumbático

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10.5.15

Luz-Casario moderno em Jerusalém.


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Bairros e partes da cidade moderna vistos do meu hotel. A cidade moderna parece-se mais ou menos com isto: tudo em construção. Casas com dois a quatro andares, em maioria. Novos edifícios com dez, vinte ou trinta andares a crescer por todo o lado. É curioso que haja alguma homogeneidade nos estilos de construção e nas cores dos edifícios. A cor de areia domina tudo. O que aliás se repete na parte velha da cidade, nas muralhas, nos monumentos, nos templos e nos edifícios públicos. Não cheguei a perceber se era espontâneo, tradição, norma ou imposição. Mas pareceu mais que se tratava desta última. Dá alguma alegria ver que numa cidade de região árida, as árvores (ciprestes, cedros, oliveiras…) espalham-se por todo o tecido urbano. Não há muitos parques, mas árvores não faltam. (2012)

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2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Por A. M. Galopim de Carvalho 
FALANDO DOS SOLOS (15) 
Crostas pedogénicas 
Em determinadas condições morfoclimáticas favoráveis, certos solos evoluem no sentido de gerar um horizonte endurecido, mais ou menos impermeável, habitualmente designado por crosta e couraça, sendo o último termo reservado aos casos em que este endurecimento é mais acentuado e abrange uma maior espessura. (...) 
Texto integral [aqui]

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8.5.15

Toalha de banho por mor dos picantes muito picantes

Por Antunes Ferreira
Era o goês que conheci – e conheci e conheço muitos – que mais suava quando comia picantes muito picantes A expressão era dele. Além de camadas de profissão éramos Amigos. A minha mulher Raquel conhecia-o desde que el tinha quatro anos. Em Goa, obviamente. A família, no entanto, era oriunda de Damão.
Quando vinha almoçar ou jantar a nossa casa o ritual repetia-se: a Raquel ia buscar uma toalha de banho para ele enrolar a cabeça e o tronco molhados de tanto suor. Um tipo pachola, repentista, irónico, por vezes mesmo acintoso, mas era um Grande Jornalista.
Falar dos seus muitos méritos profissionais é despiciendo. Já muitos o fizeram e certamente muito melhor do que eu faria. Aqui apenas tento  falar dos seus contactos humanos. Vejam só. Um dia em nossa casa no momento à Lapa almoçavam três casais. O Mário Ventura Henrique e a sua mulher Eglantina, o Oscar (sem acento) e a Natal, a Raquel e eu.
Foi um almoço para sempre recordar, como reza o anúncio. A malta comia (muito), bebia (muito) e o maestro ela ele. O Mário esbugalhou os olhos quando viu a toalha de banho. E ele imperturbável: nunca viste um gajo a comer picantes muito picantes? A partir de agora já podes dizer que viste… O ventura Henriques engoliu em seco, perdão, molhado e continuou a conversa entremeada das comidas e bebidas.
Entrementes os meus filhos vieram à mesa para abastecer os seus pratos e ficaram como se não fosse nada com eles; já estavam habituados à encenação, já estavam habituados à toalha de banho, já estavam habituados com ele. Então meus meninos (o Miguel já tinha 20 anos,  já andava no Instituto Superior de Ecomimia e Finanças, o Paul, com 18,  acabara de entrar em Sociologia e o Luís Carlos, o mais novo estava a prepara-se para Direito mas para ele eram meninos) como vão de namoradas? Vá, não se encolham que os papás não ouvem; desembuchem…
A Eglantina disse sottovocê, então não perguntas pelos estudos? E ele: não preciso; sendo filhos da minha prima Raquel têm de ser bons alunos. Já o pai (que era eu, suponho) para ser burro só lhe faltam as penas!... Brincava. Caímos na galhofa. Ele era assim. No entanto era muito sensível e escondia a sensibilidade pela ironia, sem dar conta sobretudo aos outros que tinha dificuldades nesse jogo de sombras. A Natal conhecia-o bem e boca calada prudentemente.
Quando terminou o repastoo tipo avisou: não comam mais! A Raquel eo Antunes Ferreira têm para jantar outro casal amigo e vão aproveitar estes restos para dar a esse casal. Aí ninguém pôde retrair o riso. As gargalhadas saíram em catadupas. E fomo-nos ao café (que não eu porque não o tomo) e aos uísques que eu tinha em quantidades muito apreciáveis.
E pronto, era para mim assim o Oscar (sem acento) e no meio do desgosto – chegaram-me as lágrimas aos olhos quando um e-mail me deu a notícia – bom Amigo, camarada, terno e sensível embora estas qualidades fossem por ele bem encapotadas. Só uma vez o vi eufórico: quando a sua Carol terminou o mestrado, o que enunciou a todas as amigas e todos os Amigos, sem esconder o orgulho que tinha pela filha Carolina, a menina dos seus olhos.

Mas, podem ter a certeza de que o Oscar (sem acento) era um Grande Jornalista.

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7.5.15

O obscurantismo religioso, a insensibilidade e o aborto

Por C. Barroco Esperança 
Criança de 10 anos, violada, grávida de 5 meses No Paraguai, uma menina, com 34 quilos e 139 centímetros de altura, aguenta o peso de uma insuportável violência e a baixeza do sectarismo ideológico do juiz que prolonga o sofrimento de mais uma criança que o padrasto violou.
 A religião não é um código sagrado que condene ao sofrimento e à morte, que suporte a lei ignóbil que vigora no Paraguai onde a IVG só é legítima em caso de risco de vida da mãe e os preconceitos parecem menosprezar o risco, onde a alegada vontade divina se sobrepõe aos direitos da mulher e à tragédia de uma criança. 
O risco de vida da mãe é de tal modo desprezado que apenas se aplicou uma única vez, depois de grande pressão internacional, … numa gravidez ectópica. Saberão os padres o que é uma gravidez ectópica, o risco que implica e as sequelas que deixa em qualquer mulher que tenha a fatalidade de uma gravidez extrauterina? Mas não nos afastemos deste caso apesar de as estatísticas hospitalares registarem quase 700 casos de meninas entre os 10 e os 14 anos que deram à luz em 2014.
 O ministro da Saúde, que antes de entrar na política foi médico pessoal do presidente conservador Horacio Cartes, opôs-se terminantemente ao aborto. O juiz que custodia a menor diz que «a nossa Constituição protege a vida desde a conceção». 
Há casos em que me dilacera a dúvida. Neste, tenho a certeza de que o médico ministro e o juiz carrasco estão ao nível do padrasto que violou a criança, na falta de sentimentos e no desprezo pelas mulheres, no sectarismo pio e na insensibilidade perante as crianças do sexo feminino.
No Paraguai, um país constitucionalmente laico, ainda vigora a sharia romana. 
Raios os partam. 
Fonte: El País
Ponte Europa / Sorumbático

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4.5.15

QUANDO OS POLÍTICOS TINHAM MEDO DA TV PURA

Por Joaquim Letria
QUEM TENHA idade para isso recordar-se-á, certamente, da novela da Globo, extraída da obra de Jorge Amado, “Gabriela Cravo e Canela” fazer parar este País.
Até a Assembleia da República, que na época ainda arrastava a qualidade das bancadas da Constituinte, com deputados de grande gabarito e uma mão cheia de excelentes tribunos capazes de conferirem um interessante tempero a um período político fascinante – tudo incomparável com a  deplorável situação actual –parava, ou modificava os horários das suas  sessões para que os deputados pudessem ver a novela e o público não perdesse nem uma coisa nem outra.

Lembrei-me desta história saudosa – da ficção audiovisual e da política nacional – porque a BBC revelou agora no seu site uma história interessante que deve ter valido a vitória dos Trabalhistas de Harold Wilson em 1964,ano em que eu já frequentava Londres com afinco mas ainda lá não morava.
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Conta então a BBC no seu website que Harold Wilson se apercebeu de que a BBC se preparava para transmitir, na noite das eleições de 1964, um episódio da “sitcom” “Steptoe and Son”, uma comédia que punha diante dos televisores 26 milhões de britânicos de cada vez que ia para o ar. O chefe dos trabalhistas receou então que o seu eleitorado ficasse em casa para ver a série em vez de se dar ao trabalho de ir às urnas fazer valer o seu voto.
Numa iniciativa até então nunca vista, Wilson foi a casa de “Sir Hugh Greene,o director-geral da BBC, para lhe pedir que não transmitisse aquele episódio naquela noite, mudando o dia e o horário. O então dirigente da BBC interrogou-se, mais tarde, numa entrevista só então conhecida, se a sua aceitação deste pedido não teria custado a vitória dos socialistas e a derrota dos conservadores. Em 1982, Sir Hugh contou este episódio nessa mencionada entrevista, tal como ainda hoje consta dos arquivos da corporação.
Recorda Sir Hugh Greene:
“Wilson fez-se convidado a vir a minha casa para tomar uma bebida. Vinha muito irritado por a BBC ter programado umas repetições de programas e um episódio daquela série coincidir com o dia das eleições. Sugeriu então que isso se destinava a manter os eleitores do Labour afastados das urnas. E chegou a dizer tratar-se duma conspiração contra ele. Respondi-lhe que estava certo de que ele sabia que isso era um disparate e que o que dizia não fazia sentido e claramente disse-lhe que retirava o que dissera e pedia desculpa pelas suas afirmações, ou não valia a pena conversarmos sobre o que quer que fosse. Bebíamos um copo e ficávamos por ali”.
“Wilson pediu desculpa, retirou o que disse e discutimos então o problema. No dia seguinte discuti o assunto com a Direcção da BBC e chegámos facilmente à solução de transmitir o “Steptoe and Son” depois das 21 horas, quando as urnas já estavam encerradas, depois da votação.
Telefonei a Wilson dando-lhe a conhecer a decisão. Disse-me ficar muito agradecido e que essa decisão lhe valeria 20 lugares no Parlamento. Ele viria a ganhar por uma diferença de quatro votos e fiquei a pensar que a minha decisão tivera efeito na história política britânica. Os trabalhistas acabaram assim com 13 anos de Governo conservador através da mais pequena maioria desde 1847”
Esta entrevista de Sir Hugh Greene encontra-se no site da BBC e é um projecto conjunto com a Universidade de Sussex que envolve a digitalização de centenas de horas de entrevistas com políticos britânicos e dirigentes da BBC. Wilson também deu uma entrevista para este projecto, reconhecendo que a BBC havia sido “absolutamente prestável ao Partido Trabalhista. E não deixou de fazer graça, contando que quando Greene lhe perguntara o que queria que transmitisse, lhe respondera:” Uma tragédia grega, de preferência no original”

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3.5.15

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Por A. M. Galopim de Carvalho 
FALANDO DOS SOLOS (14) 
Os solos de Portugal O conhecimento sistemático dos solos de Portugal teve início nos anos cinquenta do século XX com os trabalhos inerentes à elaboração da Carta dos Solos de Portugal na escala de 1:50 000 e da Carta de Capacidade e Uso do Solo, na mesma escala. Destes trabalhos resultou, ainda, uma sistemática dos solos nacionais, editada pelo antigo Serviço de Reconhecimento e de Ordenamento Agrário (SROA), actual Centro Nacional de Reconhecimento e Ordenamento Agrário (CNROA).(...)
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Luz-Rua de Jerusalém.


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Uma qualquer rua, a uma qualquer hora. Há elementos casuais de composição prévia e de ironia posterior. Um sentido proibido. Uma loja chamada TNT. Uma menina de capuchinho vermelho. Três soldados de patrulha fortemente armados. Dois rapazes em conversa e telemóvel. Um lugar da fruta e de gelados Olá… Os soldados e as suas armas são evidentemente o factor perturbador de uma rua qualquer a uma qualquer hora. Mas em Jerusalém, é assim. Entre a paz e a guerra. Estive na cidade poucos dias, mas nunca esquecerei. O peso e a densidade da história. A pluralidade tensa. O significado de tudo, dos palácios aos templos, das pedras às ervas e às árvores. A civilização contemporânea vai-se imiscuindo por entre os vestígios e restos de três ou quatro mil anos de vida e de conflito. Ali percebi que há problemas sem solução, guerras perpétuas e conflitos como modo de vida. O máximo que se poderá conseguir é aprender a viver assim, com conflito, guerra, tensão e rivalidade. Com solução é que não. (2012)

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2.5.15

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS


FALANDO DOS SOLOS (13) 
Classificação dos solos AS CLASSIFICAÇÕES, ainda que obedecendo a critérios diferentes, escolhidos em função de cada caso, têm como principal propósito ordenar o conhecimento com vista a destacar as relações existentes entre os objectos ou os materiais classificados, e, como fim último, avançar no desconhecido.
De tudo o que tem sido exposto, ficou clara a estreita relação existente entre a génese, a evolução e a natureza dos solos por um lado, e o clima das regiões onde estes ocorrem, por outro.(...) 
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As voltas de um documento

Por Antunes Ferreira
NESTA SEMANA, depois de ter voltado de Goa, um tema muito quente fez uma vez mais com que a confrontação entre o (des)Governo e os partidos que o apoiam (mais o PR…) e o PS se tornasse uma arma de arremesso por parte dos ditos sociais-democratas e centristas e de contra ataque sustentado do Partido Socialista. Foi ela a apresentação das medidas económicas e financeiras elaboradas por um conjunto de 12 “sábios” economistas e juristas liderado por Mário Centeno.
 Os laranjas decidiram entender que essas medidas levariam o país à bancarrota, por serem inexequíveis, pois se elas viessem a ser aplicadas ia por água abaixo tudo que o (des)Governo fizera para salvar Portugal, mesmo contra a vontade dele. E o inefável vice-presidente do PSD, Marco António Costa veio mesmo “decretar” que as medidas do PS deviam ser “auditadas” pelo Parlamento. De topete a afirmação. Onde se vira tal despautério? Só podia ter partido duma tal cabeça.
Marco apresentou ao PS, melhor, ao grupo de economistas e juristas mandatados pelo partido do largo do Rato que elaborara “uma década para Portugal 29 perguntas destinadas segundo o PSD a aclarar pontos do documento que não tinham ficado muito bem apresentados. Era de novo mais uma tentativa de procurar algo que não existia no programa apadrinhado pelos socialistas. O que não esperava o PSD era a prontidão das respostas.
Elas chegaram num documento que tem mais de 20 páginas, ponto por ponto, os economistas representando o PS explicam as ideias do documento. Tendo por base o cenário da Comissão Europeia, os economistas e juristas adiantaram que a sustentabilidade das pensões passa pela unificação das condições de cálculo das pensões para todos os pensionistas.
Entre gráficos e relatórios matemáticos, as dúvidas do PSD mereceram as respostas dos especialistas que trabalharam no documento para o partido Socialista. Segundo os mesmos técnicos, a redução da TSU gerará "melhores pensões" e o fim da sobretaxa criará 15 mil empregos. Até à data em que escrevo este texto não apareceu nenhuma contra-resposta do PSD. A situação pode considerar-se as voltas e reviravoltas de um documento: este.
Entretanto, Coelho afirmou que o país está a fazer um caminho de recuperação "muito sensível", embora a economia deva crescer este ano 1,6%, e advertiu que não devem ser dados "passos maiores" do que a perna. Expressão que demonstrou mais uma vez que no domínio da língua portuguesa, pelo menos, ele próprio é uma autoridade. Dar passos maiores do que a perna terá algum significado? Ou será mais um anacronismo em que Passos é habitual?
A campanha eleitoral – que nem os mais ingénuos duvidam que já tenha começado – ainda não saiu do adro – mas já está em ebulição. O (des)Governo já veio informar que a coligação se manterá para as legislativas de Outubro e que até a candidatura às presidenciais não está fora de questão. É um esforço que PSD e CDS fazem quase em desespero perante a possibilidade dos socialistas ganharem as eleições.
Para Francisco Assis ”(…) O que perturba o PSD é a sua incapacidade de compreender o verdadeiro alcance da inovadora metodologia agora utilizada pelo Partido Socialista. Tal não é de estranhar, já que a história das últimas décadas daquele partido é caracterizada pela dupla e contraditória adesão a soluções de liderança ora pretensiosamente tecnocráticas, ora ostensivamente alheias a qualquer preocupação de estudo rigoroso e fundamentação séria dos programas apresentados ao país. Só assim se percebe esta estapafúrdia insistência em querer auditar em lugar de querer debater. No fundo é ainda um substrato mental antipolítico que influência o comportamento da coligação governamental.“http://s.publico.pt/ps/1694176 
Por seu turno, o secretário-geral do PS, durante o jantar comemorativo do 1º de Maio para o largo do Rato apelou aos militantes socialistas para que se mobilizassem e reanimassem "o espírito" das eleições primárias internas de Setembro, considerando essencial que uma vitória do seu partido ofereça também condições de governabilidade. António Costa deixou um apelo aos militantes socialistas: "Nas eleições primárias mobilizámos mais de 150 mil portugueses que se inscreveram como simpatizantes. "Temos de reanimar, chamá-los de novo e alargar o leque de simpatizantes", disse. Costa foi a seguir directo quanto aos objectivos eleitorais do PS: "Temos de mobilizar o país para podermos ganhar [as eleições] e em condições de podermos governar", declarou.
Os dados já estão lançados e o caminho até Outubro antevê-se que irá decorrer em tempo de procela. Se a coligação (des)governamental atingir o objectivo que persegue, a reeleição, tudo mudará para continuar na mesma. Para o PS é necessária uma nova política, o que estará ao seu alcance: Mas eleições são…eleições e só depois de contados os votos se saberá o resultado delas.
 No entretanto o PCP, O BE e os Verdes continuam a bater forte e consecutivamente nos socialistas ao mesmo tempo que desancam no (des)Governo. É caso para dizer que têm um pé num lado e outro no outro lado. Uma perfeita demonstração de que no aproveitar é que está o ganho.

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30.4.15

Vaticano e terrorismo islâmico

Por C. Barroco Esperança
Na sequência de uma gigantesca operação de combate ao terrorismo, foram detidos, em Itália, 18 suspeitos de planearem um atentado ao Vaticano. Os detidos, de nacionalidade paquistanesa e afegã, estariam ligados à Al-Qaeda.
As detenções, noticiadas no dia 25 de abril p.p., desarticularam uma célula que em 2010 planeou atacar o Vaticano e cujos elementos têm pesado cadastro ao serviço da fé e do terrorismo.
Não há multiculturalismo que resista a grupos de fanáticos, Estado de direito que pactue com terroristas travestidos de imigrantes, delinquentes da fé que não renunciam a impor preconceitos religiosos à sociedade civilizada e democrática que somos.
O Vaticano pode ser uma teocracia negociada entre Mussolini e um papa de turno, mas a sede do catolicismo romano é muito mais do que isso. É o santuário das artes onde se guardam tesouros, local onde o esplendor da arquitetura, pintura e escultura transforma um bairro eclesiástico de 44 hectares em memória da civilização e da cultura mundial.
O Vaticano preserva a Basílica de S. Pedro, a Capela Sistina e os Jardins; abriga o génio de Miguel Ângelo, Rafael, Giotto, Caravaggio e Leonardo da Vinci; guarda memórias das civilizações etrusca, egípcia e grega; é a apoteose do melhor que o espírito humano criou e que sobreviveu a Pio V, inquisidor e santo, avesso à nudez e às heresias, a papas incultos, à erosão do tempo e ao saque das guerras, da época pré-cristã aos nossos dias.
Um atentado contra o Vaticano é uma atrocidade boçal contra a cultura, a civilização e o património da Humanidade. Ali, entre as sotainas e a liturgia, com incenso e água benta, repousa a memória histórica da civilização, o génio dos maiores criadores e o esplendor da memória coletiva europeia e da Humanidade.
O Vaticano é um local de culto, não por ser a sede de uma religião, por ser um museu da cultura greco-romana. Quem ameaça o bairro carregado de arte e de história, não ofende só os crentes, declara guerra à Europa culta, civilizada e democrática.
E não pode haver indulgência.
Ponte Europa / Sorumbático

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26.4.15

ÁGUA DE COCO Os russos faltosos

Por Antunes Ferreira 
“Vêm aí os russos!” era o título duma comédia originária de Hollywood nos anos sessenta. Aqui em Goa já vieram, muitos já cá se instalaram, compraram casas, propriedades e terrenos onde afixaram em inglês e em russo: Proibida a entrada a estrangeiros! Incluindo naturalmente goeses que assim se tornaram “estrangeiros” na sua própria terra! Colvá é disso um mau exemplo: na terra abundam os letreiros em cirílico, desde as lojas de tatuagens até aos restaurantes cujos menus têm listas em inglês e em russo. Para não referir os estabelecimentos de tratamentos aiuvédricos, que se encontram pari passu.
Mas, este ano a cantiga é outra. Russos são poucos, o rublo está de rastos e as sanções impostas pelo Ocidente liderado por Obama. Bem pode Putin, o czar hodierno dizer que a grande Mãe Rússia suporta e suportará as limitações que resultam das restrições que o povo está a sentir na pele e… nos bolsos. A ocupação da Crimeia e o apoio (ainda que “desmentido”, no que quase ninguém acredita…) à guerra fratricida dos ucranianos o que continua a manter o conflito armado que causa cada vez mais mortos, feridos e deslocados, destruições de edifícios e de pessoas, deu como consequência o empobrecimento dos russos
 Diz o povo que “quem não tem dinheiro não tem vícios” – e é bem verdade; no caso particular dos cidadãos russos, “quem não tem divisas não tem férias especialmente em Goa”. E o turismo, como se sabe, é uma das duas fontes fundamentais da economia do Estado mais pequeno da Índia mas que tem (tinha?) o melhor PIB do subcontinente. Mas os réditos estatais também fruto da exploração das minas. Ora estas estão paradas há mais de dois anos à espera de legislação que regule a actividade das legais; as que fugiam aos impostos, ou seja as ilegais estão condenadas.
 Assim toda gente que depende do turismo se queixa da falta de compradores, especialmente dos russos. Desde os choferes de táxis (e até de riquexós) que e são muitos, até aos proprietários das lojas e tendas e empregados do comércio, nomeadamente de souvenirs, todos se lamentam. Obviamente os restaurantes, hotéis, resorts e bares têm as suas receitas drasticamente diminuídas; mas Goa continua a ser um local favorito para o turismo interno: os habitantes de outros estados. Só que não chega.
 Aqui em Colvá temos o nosso condutor especial e quase privativo que, juntamente com os seus três filhos da mesma profissão assegura as nossas deslocações: é o Aleixo Caridade Almeida que fez o sêgundo grau e de quem já falei por várias vezes. O clã Almeida é católico, nas respectivas viaturas há imagens de Cristo, da Senhora de Fátima, e, claro, de São Francisco Xavier. Queixam-se do mesmo mal: a ausência de turistas pelo menos em quantidade muito significativa.
E à volta, em Sernabatim, Benaulim, Majordá, praias lindas, vêm-se muito poucos estrangeiros. E os que se encontram nas ruas que dão acesso à beira-mar são principalmente ingleses e alemães. Eduardo Faleiro, um excelente Amigo dos tempos da Faculdade de Direito, que em 1961 optou pela nacionalidade indiana e foi ministro de Estado das Relações Exteriores e, depois das Finanças, acentua o problema. Militante do Congresso dos Gandhis e por isso opositor do BJP que desde o ano passado é Governo.
Pelas seis da tarde vem buscar-nos no seu carro com condutor ao Ocean Groves, uma magnífica urbanização onde se situa o famoso apartamento (à borla, como já o escrevi por várias vezes) do Francisco Mascarenhas primo/padre da Raquel, para irmos até à praia onde conversamos. Eduardo foi objecto de uma melindrosíssima operação e com o nosso convívio em que relembramos a nossa época de estudantes (aliás ele nasceu em Lisboa…) vai matando o tempo. Está a organizar a sua biblioteca e as horas que está connosco é um verdadeiro refrigério – diz ele. Curiosamente foi contemporâneo da Raquel no Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, tendo rumado ambos a Lisboa no mesmo ano 1957. Na beira-mar para onde foram levadas as mesas e as cadeiras dos restaurantes e onde se colocam velas, o espectáculo é inebriante, lindo de morrer. As pessoas vão bebendo os seus copos e conversando, arte por excelência de Goa. O oceano acompanha-as com o marulhar – e nós comungamos a ocasião. Conto as últimas anedotas que o divertem muito, acentuo a minha opinião com o (des)Governo de Portugal e em especial do putativo PR. Eduardo conheceu Cavaco como primeiro-ministro aquando de uma das viagens oficiais que fez ao nosso país. Conto-lhe da incultura do esprito vingativo, das calinadas do autor dos “cidadões” e do “façarei” e ele risse-se. Mas logo acrescenta que não se quer meter – e não se mete – na política portuguesa, o que é natural. Porém há um nome que respeita e admira: Mário Soares que, quando sabe que vou a Goa envia-lhe sempre um abraço de amizade. O pai de Eduardo (defensor da teoria de dois países com a mesma bandeira, a portuguesa) ensinou inglês no Colégio Moderno. Dizem as más línguas que foi o “responsável” pelo macarrónico ou mesmo inexistente do “inglês” de Soares… Eduardo não contesta, solta umas gargalhadas. Para ele a pai da democracia portuguesa é o maior!

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Luz - Um quiosque de jornais, Lapa, Lisboa

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É o quiosque da esquina da rua Borges Carneiro com as ruas da Lapa, dos Navegantes e do Quelhas. Por outras palavras, é o quiosque dos “Quatro Caminhos”. Todos os dias, venho aqui ver as novidades. Todos os dias esta organização zela por mim e faz-me chegar os jornais e revistas. A Maria Irene e o Floriano tratam do negócio e ocupam-se dos clientes como se fossem seus amigos. Declaração de interesses: frequento este quiosque com grande regularidade.

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23.4.15

Conventos, ‘vida’ monástica e liberdade

Por C. Barroco Esperança
As religiões têm casas de reclusão, a pretexto da piedade e da oração, onde encarceram débeis de vontade, fanáticos do divino ou devotos depressivos. Às vezes são as vítimas de famílias que lhes querem confiscar a herança, de coação ou de chantagem. Têm, em regra, uma hierarquia rígida, uma disciplina despótica e um tratamento desumano. Bem sabemos que é para maior glória de Deus e para gozo da Santa Madre Igreja.
Os conventos estão atribuídos a Ordens, consoante as patologias. Uns dedicam-se à contemplação, outros ao silêncio, vários à autoflagelação, quase sempre em acumulação de diversas perversões que, no caso da ICAR, são autorizadas pelo Papa e conduzem em regra o/a fundador/a à canonização.
Admitamos que as vítimas se encarceram de livre vontade, que o desejo do Paraíso as inclina para o masoquismo, que a ociosidade as anula, que a inteligência, a vontade e os sentimentos se consomem na estéril clausura e na violência dos votos. Aceitemos que há seres racionais a crerem que, algures, um deus aprecia a alienação, o sofrimento e a violência. Imaginemos um Deus que se baba de gozo com ambientes concentracionários despoticamente defendidos por madres ou frades ungidos do direito à tirania.
A título de exemplo lembro a Ordem das Carmelitas onde, só a título muito excecional, é permitido falar. E essa magnânima autorização tem fortes grades a proteger qualquer encontro. É nestes ambientes carcerários, privados de nome, de pertences e de memória, que exércitos de inúteis vestidos de forma bizarra se encontram ao serviço do Papa.
Na Irlanda, há anos, o Governo foi constrangido a averiguar o que se passava no campo de concentração «As irmãs de Maria Madalena», tendo fechado a espelunca e libertado as vítimas, condenadas a prisão perpétua pelas próprias famílias, por terem sido mães solteiras ou, apenas, demasiado bonitas, perigosas na sedução dos homens.
Será possível que os Governos democráticos, a quem cabe a defesa da Constituição, o dever de respeitar e fazer respeitar os direitos e liberdades dos cidadãos, se conformem com a renúncia à cidadania e não averiguem se é de livre vontade que bandos de frades e freiras façam de lúgubres conventos o mausoléu da vida?
Ponte Europa Sorumbático

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19.4.15

Luz - O Chef, Lapa, em Lisboa

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É uma formidável loja de “comida pronta”, mas também restaurante, café e casa de chá. Há momentos do dia em que a paz é total, ali se pode ler o jornal, beber o café, descansar ou meditar. É ali que se podem resolver, com mérito e benefício, todos os problemas de refeições fora de horas e de faltas imprevistas no frigorífico. Pode comprar-se e levar para casa, pode comer ali numa mesa a qualquer hora. É uma casa de fidelidades: há pessoas que ali vão, regularmente, há décadas. Há outras que passam quase todos os dias. Há os regulares, a dias certos e a horas exactas. Só falta mesmo dizer que a comida é excelente. Com especial menção para as empadas, os ovos verdes, a massinha chinesa, a massa com camarão, a feijoada, o arroz de pato, os famosos “queques do Chef”… Declaração de interesses: frequento o Chef com grande regularidade.

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2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Por A.M. Galopim de Carvalho
FALANDO DOS SOLOS (12) 
Epipédon, o horizonte de diagnóstico 
Não tem havido, entre os autores, concordância na definição dos diversos horizontes do solo. Por um lado, há grande dificuldade (se não mesmo impossibilidade) de generalizar a clássica e demasiado esquemática nomenclatura ABC, à totalidade das situações existentes nas mais variadas latitudes e altitudes terrestres. Assim, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América criou o conceito de horizonte de diagnóstico, usado na descrição e classificação do solo, com muito pouca ou nenhuma correspondência aos definidos nas nomenclaturas mais antigas atrás referidas. Surgiu, então, o conceito de epipédon (do grego epi, por cima, sobre; e pedón, solo.) descrito como um horizonte do solo gerado à superfície, correspondente à parte superior (A), de tonalidade mais escura (em virtude da presença de matéria orgânica), e ou a parte do horizonte eluvial (E).(...)
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18.4.15

Prefácio
Estas Crónicas da Inforfobia devem ser saudadas como um acto de humor, de riso incontido perante as resistências tristemente humanas às mudanças, hoje ao uso dos computadores ou da Internet. O autor fala de dentro da vida das organizações e sabe do que fala. Não dos medos da tecnologia — que o humor justamente ignora — mas das pequeninas fraquezas que toda a tecnologia nova põe a nu: a perda dos poderes miudinhos — o de ser o único a saber, sem partilhar segredos de polichinelo; o de mandar sem controlo; o de privar os outros de informação, logo de liberdade. 
Contra a pequenez medrosa, triste e opressiva, o autor inventou-nos uma sociedade da informação risonha — isto é, nascida do riso e da ironia. 
Se o futuro lhe der razão (oxalá!) o seu livro será, dentro de alguns anos tão incompreensível como hoje é certeiro. É o que sinceramente lhe desejo.
José Mariano Gago
Ministro da Ciência e da Tecnologia
19 de Setembro de 1997
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Esta minha obra só viu a luz do dia graças ao apoio do Mariano Gago, que comprou 500 dos 3000 exs. da edição, além de a ter valorizado com o prefácio que aqui se lê.
O Prof. Galopim, felizmente, escreveu o essencial - aquilo que eu queria aqui escrever sem, no entanto, atinar com as palavras certas.
Um grande abraço, amigo Gago!

JOSÉ MARIANO REBELO PIRES GAGO (1948-2015)

Por A. M. Galopim de Carvalho

QUANDO se chega à minha idade, já o escrevi, o que mais dói é ver partir os amigos e companheiros e olhar para os que resistem e saber que um dia destes nos iremos despedir deles, mais do que se formos nós a transpor essa passagem que todos temos como certa. Mas nestes amigos e companheiros, apenas incluía os da minha geração. Não os que ainda julgamos cheios de vida, como era o Zé Mariano para os amigos. Nestes casos, além dessa dor, há a consciência igualmente dolorosa, da perda de um futuro que no caso deste amigo, era particularmente promissor. Conhecemo-nos, nos anos 80, na Livraria Buchholz, num fim de tarde, em Lisboa, em que falámos de divulgação científica. E ficámos amigos.

Como físico de prestígio, outros mais habilitados do que eu falarão. É dele, como grande impulsionador da investigação científica e paladino da cultura científica, que posso falar com conhecimento de causa.

Em 1987, Mariano Gago, então Presidente da ex-Junta Nacional de Investigação Científica (hoje Fundação para a Ciência e a Tecnologia), lançava o “Programa Mobilizador de Ciência e Tecnologia”, no qual tinha cabimento uma componente dinamizadora das Ciências do Mar apresentada publicamente pelos Profs. Mário Ruivo, da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, Michael Collins, da Universidade de Southampton, R. U., e Michael Vigneaux, da Universidade Bordéus I, França. Na sequência desta iniciativa, João Alveirinho Dias, ao tempo o primeiro e único doutorado em Geologia Marinha, António Ribeiro, meu colega na Faculdade de Ciências de Lisboa, e eu criámos e desenvolvemos um projecto de investigação iniciado como estudo da plataforma continental portuguesa, sediado no Museu Nacional de História Natural.

Foram instituições participantes neste arranque para as Geociências do Mar: o Instituto Hidrográfico, como parceiro principal, o ex-Gabinete para a Pesquisa e Exploração de Petróleo, o ex-Instituto Nacional de Investigação das Pescas, o Departamento de Protecção e Segurança Radiológica do Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial, o Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, os Departamentos de Geologia da Universidade de Évora e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Minho e a ex-Secção Autónoma de Geologia da Universidade Nova de Lisboa.

Este projecto visou, sobretudo, a formação de jovens investigadores na área da Geologia Marinha, a promoção de acções interdisciplinares, a dinamização da cooperação interinstitucional, a optimização do potencial humano e dos recursos e equipamentos existentes nas diversas instituições envolvidas e, ainda, a criação de um corpo nacional de investigação neste domínio, até então, acentue-se, ausente das nossas universidades. Caracterizado por grande informalismo e por um mínimo de burocracia, constituiu um fórum de permuta de ideias e experiências, de discussão de resultados e de interajuda dos seus aderentes. Com o passar do tempo, evoluiu naturalmente para uma rede de investigação, eficaz e igualmente informal, cujos elementos, dispersos, como se disse atrás, são agora os promotores e os responsáveis pelos seus próprios projectos, em que cada um procura as colaborações mais convenientes e nos moldes que entenda estabelecê-las.

Com o indispensável e sempre disponível apoio do Instituto Hidrográfico, ao tempo do Director–Geral, Vice-Almirante José Almeida Costa e dos Comandantes Vidal de Abreu (Chefe da Divisão de Marés e Correntes) e Torres Sobral (Director-Técnico), o grupo inicial deste projecto de investigação (do qual saíram uma dúzia de doutorados em Geologia Marinha), deixou descendentes, ou seja, fez escola que continua a dar frutos, uma realidade que ficará esquecida se ninguém se der ao trabalho de a registar. Com uma primeira geração de investigadores que, de juniores passaram a seniores, vimos singrar a maior parte destes “filhos”, hoje independentes e a trilharem os seus próprios caminhos, o que nos enche de satisfação e orgulho. Actualmente há “netos” que já nem conhecem os “avós”, mas que só existem porque nós, sempre apoiados pelo já então Ministro da Ciência, José Mariano Gago, tivemos a ousadia de iniciar esta viagem e de segurar o leme deste navio, nas primeiras milhas desta gratificante navegação que conduziu, repito, à introdução das geociências do mar nas nossas universidades, designadamente, nas do Algarve, de Aveiro e de Lisboa, onde os mestrados e os doutoramentos se sucedem.

Pessoalmente, perdi um amigo. Entre muitas recordações guardo dele o prefácio que teve a amabilidade de escrever no meu livro “Como Bola Colorida – A Terra, Património da Humanidade” (Âncora Editora, 1907) e gentileza de ter feito a apresentação do “Dicionário de Geologia” (Âncora Editora, 2011), na Reitoria da Universidade de Lisboa, ao tempo do Reitor António Sampaio da Nóvoa.

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ÁGUA DE COCO - Um condutor/“secretário”


Por Antunes Ferreira


Para se atravessar o estuário do Mandovi há duas pontes e o ferryboat. Pangim estende-se modorrento ao lado do rio, lembrando, salvo as devidas proporções, Lisboa namorando o Tejo. Na outra banda não é Cacilhas nem Almada, nem está o Cristo Rei. Encontra-se lá Betim ou seja o local em que os ferreis atracam e outras localidades das quais a mais importante é Porvorim. Cresceu num instante quando lá foram construídos os edifícios do Governo e da Assembleia de Goa. Deste lado, a marginal leva a um local bonito com uma esplanada, a Riviera pertença do hotel do mesmo rio: Mandovi. Foi o primeiro com traço mais moderno construído nos tempos dos portugueses.

A esplanada é ampla e tem numa segunda zona um espaço para recepções, “pequenos” casamentos ou baptizados, aniversários ou primeiras comunhões, ou seja festas para 400 convidados, mais coisa menos coisa. Convém não esquecer que casamentos e baptizados “normais” andam pelas 1.500/2.000 cabeças. Claro que não é toda a gente que se permite organizar celebrações desta dimensão, católica ou sobretudo hindu. É, naturalmente necessário haver posses para isso. Aliás no Estado há mais recintos preparados para tais eventos. Já estive num em Margão, noutro na quinta Valadares e mais um junto de Mapuçá, que hoje se escreve Mapusa mais tem o mesmo som.


Mais uma curiosidade se mo permitem: o concanim não tem acentos nem cês cedilhados. Por isso esta solução. Por exemplo a segunda urbe é Margao e continua a ler-se Margão. De resto o som ão não falta: patrão é patrao e acabou-se. O concanim é uma língua das 72 que existem na Índia. Poderia pensar-se que é um crioulo. Nem pó. Incorporou bastantes palavras portuguesas, algumas com naturais corruptelas. E também se usa o inglês quando se trata de números. Por exemplo, no meio de uma frase em Concanim aparece para mencionar o tempo 12 pm. O que quer dizer meia-noite. Na verdade em português diz-se 12 horas em vez de meio-dia…


Parecendo que não há em Goa muito dinheiro, tem de corrigir-se a ideia: há, principalmente hindus, mas também católicos e uns quantos muçulmanos… Há muitos Mercedes BMW dos modelos mais recentes e caros, há vivendas de sonho com piscinas e courts de ténis. Há hotéis e resorts de preços altos. Verifica-se aqui o drama que percorre todo o subcontinente indiano; uma diferença abissal entre os muito ricos e os muito pobres, acentuando a bipolaridade: os bilionários e os miseráveis. Corram-se as aldeias e veja-se, da estrada, as condições em que vivem os habitantes de casas a cair de podres.


Isto quer dizer, uma outra vez, que entrando numa casa de um hindu trabalhador se pode dar conta do que se viu de fora. O nosso condutor/”secretário” para quem sou o seu padrinho de seu nome Premanand Ankush Pednekar que nos conduz impecavelmente e sem quaisquer problemas – Sir paga no fim… - teve um problema cardíaco. Operado de urgência, foram-lhe colocados baipasses pois tinha seis obstruções por coágulos. Obviamente ainda não pode trabalhar. E sabe-se lá quando. Por isso ao chegarmos ninguém dava conta dele, de tal maneira que cheguei a recear o pior. Felizmente foi encontrado: sossegámos. Ele já é da nossa família…


Apesar da convalescença ter começado cinco ou seis dias antes, naturalmente depois de lhe ter dado alta, quando soube que estávamos em Goa, um cunhado que também é taxista, transportou-o bem como uma irmã dele para nos visitar. E tal era o desejo de o fazer que subiu os três lances da escada que levam ao nosso apartamento. Foi uma cena patética abraçados os três, a Raquel, eu e ele. Enfim, chorámos todos - da emoção. Vinha magro e esquálido com a faixa de cabedal tipo colete pós operação, ligaduras, gazes e etc. Penso que podem imaginar a cena…


Passei-lhe uma descasca por se ter arriscado e disse-lhe que nunca mais o queria ver a subir tantos degraus. Sorriu, um sorriso amarelo, but Sir, aqui não há mas nem senhor, disse-lhe fingindo-me zangado, mas por dentro o meu coração sangrava. Tinha de o dizer. Sentou-se na nossa sala como sempre o fez. Estava triste mas satisfeito por nos ver e conversámos um pouco; a mulher, que há dois anos conhecíamos, tinha abortado aos cinco meses dum menino. E a filha Babita, um amor de criança, bonita e dada, com dois anitos, não podia estar com o pai porque passava o tempo a tentar sentar-se ao colo dele – o que para já não pode ser porque lhe buliria com os elementos de segurança: colete, ligaduras, pensos et aliud. Ela naturalmente ansiosa da ternura do pai que lhe retribui; adora-a.




A irmã tinha ido ao carro buscar dois caixotes de cartão e um saco de viagem que continham todos os nossos pertences (para que quando voltássemos não gastássemos  rupias com compras desnecessárias - versão do Premanand…) que tínhamos deixado para guardar e trouxe tudo tal como havíamos deixado. Mais um engolir na garganta. Foram-se embora levando as prendas que lhes eram destinadas, incluindo a roupinhas de bebé que trazíamos para o filho afinal perdido. Fica para o próximo disse a Raquel um tanto encavacada… (o termo não tem nada que ver com o suposto PR que ocupa o palácio de Belém, sem contrato de arrendamento, por isso sem pagar renda, electricidade, gás e água!) 


Ontem fomos visita-lo a Fattawada – Nerul, onde na House 18 vive acompanhado por duas irmãs pois a esposa tinha ido com a menina para casa dos pais dela. Foi uma festa à nossa chegada. Como tenho andado apoiado numa bengala cedida pelo Zito Menezes - nomeado, para além de médico, nosso anjo da guarda privativo… - uma delas veio esperar-nos à porta do “quintal” afastou um cão que por ali fazia a sesta e ajudou-me gentilmente a descer os degraus de pedra solta que davam para a casa; nesta, outra escada de pedra introduziu-nos na habitação - eu sempre com a ajuda carinhosa da senhora.


Premanand avisado da nossa chegada aguardava-nos com um sorriso de face a face, estava melhor, ganhara quilos, mas mantinha o colete de cabedal com o qual deveria ficar mais uns tempos, dissera-lhe o médico no hospital na última consulta de controlo da evolução do paciente. Luziam-lhe os olhos, e abraçou-nos comovido mas também orgulhoso da nossa visita. Tive de “ordenar” a paragem da emoção; às vezes é difícil tomar decisões, mas elas têm de vir à luz do dia e tão pronto quanto seja possível. Arriscar a recuperação para nos ver era perigoso e podia ter consequências complicadas.


Ali ficámos mais de uma hora; a casa era pouco apresentável, mas a simpatia das pessoas fazia-nos ignora-la; uma das irmãs trouxe-nos dois copos de sumo de manga, umas bolachas e uma ventoinha de pé alto. Quando um pobre nos dá agasalho com calor humano, mesmo que seja pouca a oferta, ela sabe melhor do que um banquete em casa dum rico. O nosso condutor/”secretário” queria voltar a visitar-nos, proibi-o de subir os lances da escada e combinámos que ele esperaria em baixo e depois iríamos almoçar todos. Acordo alcançado, regressámos a casa.


Pelo caminho a Raquel e eu recordámos o jantar de despedida que Premanand e senhora nos tinham oferecido no ano passado. O que, numa sociedade como esta em que as castas continuam a imperar e o elitismo é regra, motivou uns quantos comentários menos elegantes, Um motorista que sempre se sentou à nossa mesa quando saíamos era um tanto, como direi?, desprestigiante para quem permitia e sobretudo convidava; mais a mais um pacló (português branco,,,)


Estava-me, estou-me e estar-me-ei nas tintas para tais ditos. Para mim os homens são todos iguais, com tonalidades de pele diferentes, com olhos mais ou menos oblíquos, de cores diferentes, com cabelos mais crespos ou mais lisos mas com tudo o resto igual, desde os órgãos internos até às unhas dos pés, avultando o coração e o cérebro os mais importantes e paradoxalmente os mais sensíveis. Digam o que digam os falsos comentadores, enquanto não me provarem o contrário continuarei a pensar que vozes de burro não chegam ao Céu. Dando, obviamente, de barato, que ele existe...   

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