30.8.19

No "Correio de Lagos" de Ago 19

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No "Correio de Lagos" de Ago 19


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As Flores de Putin

Por Joaquim Letria
A Europa necessita de estadistas que a orientem e não nos envergonhem como este bando da Rosicler que diz governar a União Europeia. São guardas-livros, uns, e outros nem isso. Uns e outros foram os partidos que lá os puseram. Agora começam a chegar as meninas das quotas que sempre dão melhor aspecto e trabalham como deve ser.
Por estas e por outras é que a gente olha para o Vladimir Putin e vê ali um estadista, educado, com experiência da vida e do mundo. Vem isto a propósito da audiência do presidente Macron nos Alpes marítimos onde o presidente francês e a sua mulher descansam na residência de férias.
Putin embaraçou o protocolo ao se apresentar com um ramo de flores nas mãos. Só à chegada compreenderam que o presidente russo levava a magnífica “corbeille” para a primeira dama de França, a quem elogiou o bronze que ela e o marido apresentam dos banhos de sol no Sudoeste francês. Em Bregançon, Macron estendeu a mão à Rússia, “profundamente europeia”.
Esta audiência de quatro horas e meia em que os dois chefes de Estado fizeram o “tour d’horizon” de questões tensas, como a Síria e a Ucrânia, bem pode substituir com vantagem a reunião do G7 em Biarritz, da qual Putin está excluído. Vladimir Putin entabulou uma elegante conversa em francês que também encantou Brigitte Macron que, se não tem ajudado o marido a chegar ao Eliseu, ainda era apelidada de pedófila por se ter casado com este seu ex-aluno que conheceu quando ele tinha 15 anos de idade. Se fosse cá, a pobre senhora ouvia logo “olha a professora a dormir com alunos menores!...”.
Putin falou com Macron e há pouco tempo também fora recebido por Angela Merkl, outra figura de estadista que honra a Europa de que temos saudades. É bonito ver que ainda há figuras notáveis na nossa velha Europa. Do mal, o menos…
Publicado no Minho Digital

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29.8.19

No "Correio de Lagos" de Ago 19

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Independentes, hipócritas e dissimulados

Por C. Barroco Esperança
A herança salazarista deixou um rasto de animosidade contra a política e os políticos, de que se aproveitam os populistas e reacionários de vários matizes. Aliás, quando alguém diz que não é de esquerda nem de direita, já se sabe o que é e o que oculta.
Os independentes são uma casta desses híbridos disfarçados de equidistantes, cúmplices do oportunismo que procura minar a democracia e favorecer o regresso ao fascismo e a valores bolorentos que durante quatro décadas julgámos erradicados em Portugal.
Os independentes atacam de mansinho, chamam regime autoritário à ditadura, heróis do ultramar às vítimas da guerra colonial e defesa da Pátria à ocupação de países africanos, omitindo a tragédia da opressão, perseguições, miséria, analfabetismo e emigração.
Quem sofreu a guerra colonial e conheceu a repressão salazarista, não pode deixar de se assustar com a repetição do quadro ideológico que levou Hitler, Mussolini, Tiso, Franco e Salazar ao poder e as consequências trágicas e devastadoras da última guerra mundial.
É aterrador assistir ao regozijo de extremistas de direita com novos partidos nebulosos e movimentos inorgânicos nascidos na opacidade de redes sociais e nas alfurjas fascistas que julgávamos neutralizadas.
A maioria silenciosa acorda ao toque de clarim de novos demagogos que recuperam as velhas ideologias e apelam a emoções tribais para novas e trágicas aventuras.
Na Polónia já se homenageiam os cúmplices do nazismo, e proíbem-se referências aos crimes antissemitas; na Hungria o fascismo católico chegou ao poder sufragado em eleições livres; a Alemanha, único país que criminalizou o negacionismo genocida, viu nascer e vê crescer um partido antissemita e neonazi; a França rende-se à extrema-direita; a Itália vibra com Salvini; o RU fragiliza a UE e desagrega-se sob a égide de um demagogo extremista; a Espanha assiste à radicalização da direita e à aceitação do partido fascista VOX. Enfim, volvidos 74 anos, esqueceram-se dezenas de milhões de mortos e as origens da guerra que dilacerou o mundo.
Movimentos dissimulados nos objetivos, sindicatos que combatem os partidos políticos que serviam de referência e a quem devem a existência, demagogos e fascistas dão-se as mãos numa manobra orquestrada contra a democracia e o Estado de Direito.
Não desistirei de denunciar o que me parece ser uma conjura, onde Putin e Trump estão apostados a destruir a União Europeia e criar focos de tensão que a neutralizem na disputa geoestratégica onde EUA, China e Rússia são atores principais.
Voltarei ao assunto, nomeadamente à preparação em curso de uma central de sindicatos ‘independentes’, destinada a destruir as organizações sindicais com um aventureirismo de contornos anarquistas e política de terra queimada. Não é uma nova confederação que nasce é uma velha receita que usa os trabalhadores contra si próprios e as instituições democráticas.
A infiltração das polícias pela extrema-direita tem no Movimento Zero, com elementos da GNR e da PSP, o seu embrião. O cerco à democracia aperta-se.

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28.8.19

Profª Elisa Ferreira


Texto integral [AQUI]

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Onde será isto?

Não consegui descobrir onde é isto.

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26.8.19

PROFESSORES, OS PILARES DA SOCIEDADE

Por A. M. Galopim de Carvalho
Quem não vir esta realidade ou é “cego” ou “tapa os olhos”.
Devo começar por afirmar que não estou aqui para agradar ou desagradar a quem quer que seja. Estou apenas a revelar a análise que faço de um problema nacional que sempre me preocupou.Em fins de férias ou, melhor em vésperas de um novo ano lectivo, a meio de uma campanha eleitoral sem qualidade no conteúdo e na forma, desejo saudar os professores (sem esquecer os educadores) das nossas escolas e reafirmar que os considero os pilares da sociedade e, uma vez mais, dizer a governantes e governados que É NECESSÁRIO E URGENTE RESTITUIR-LHES A ATENÇÃO, O RESPEITO E A DIGNIDADE QUE A LIBERDADE E A DEMOCRACIA LHES RETIRARAM.
Volto a dizer hoje o que já disse muitas vezes que, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 45 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada”, entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos, civismo e conhecimento. Continuamos um povo marcado por um défice “de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação” (palavras do Primeiro Ministro, António Costa). Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à liberdade e à democracia está a Educação. E, aqui, volto a afirmar, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.
Ao longo destes anos, verifiquei que:
- a preparação científica e pedagógica dos professores não tem sido devidamente testada, através de processos de avaliação a sério, criteriosamente regulados, por avaliadores devidamente credenciados.
- como no antigamente, a par de bons, muito bons e excelentes professores, muitos deles desmotivados, há outros, francamente maus, instalados na confortável situação de emprego garantido até à reforma;
- os sindicatos, nivelando, por igual e por baixo, os bons e os maus professores, têm grande responsabilidade numa parte importante da degradação do nosso ensino público;
- as sucessivas tutelas parecem estar mais interessadas nas estatísticas do que na qualidade do ensino;
- os programas oficiais amarram os professores, não lhes dando tempo para, como alguém disse, “divagações desnecessárias”;
- os professores estão sobrecarregados com tarefas administrativas e outras de que deveriam estar rigorosamente libertos;
- muitos deles vivem longe das famílias ou perdem horas nos caminhos diários de ida e volta a casa e a contarem os tostões.
Em finais de 2015, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, o Primeiro Ministro, disse: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
Palavras sábias, mas que não passaram disso. A verdade é que continuamos na mesma, cada vez com mais futebol e, agora, entretidos a tempo inteiro, dos pais aos filhos crianças, a dedilharem telemóveis.

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25.8.19

Grande Angular - O Partido Socialista e o Estado

Por António Barreto
Por mérito próprio e demérito dos seus adversários, é provável que o Partido Socialista ganhe as próximas eleições. Faltam poucas semanas e não se vêem sinais vencedores de outros partidos. Também é possível, mas não provável, que ganhe as eleições com maioria absoluta. Haverá, talvez, nova solução de governo, não necessariamente a mesma que temos hoje.
O exame dos programas eleitorais já foi exercício interessante. Eram programas para serem lidos. Raras vezes para serem tomados a sério, mas eram peças de doutrina que significavam alguma coisa. Hoje, a sua leitura é cada vez mais uma perda de tempo. São enormes, mal escritos, têm de cobrir todas as áreas, prioridades, eleitores, tribos e interesses. É aliás provável que sejam elaborados para não serem lidos. Têm só de ser feitos. Mas, com mais de uma ou duas centenas de páginas, não se destinam evidentemente a ser lidos. Nem por profissionais.
Vale a pena olhar para o programa do PS, com 140 pesadas páginas. É o provável vencedor e a maior parte dos outros ainda não está disponível. O programa é interessante porque traduz o seu actual carácter. Não é programa de governo, esse virá depois das eleições. Muitos capítulos deverão ser ponderados, mas, globalmente, há algo a salientar. O PS está a viver o seu momento mais estatal, dirigista e centralizador de sempre. A sua viragem à esquerda, a fim de impedir o progresso do Bloco e do PCP, fica aqui consagrada. O reforço do Estado está bem visível neste programa.
O PS não se propõe “libertar” energias, cidadãos, empresas, autarquias ou iniciativas. O PS propõe-se enquadrar, comandar, dirigir, orientar e, numa palavra, fazer. O PS não quer deixar fazer, não deseja que outros façam, quer fazer. E o que ele não fizer, proíbe ou dificulta.
O programa erige o Estado em salvador da sociedade. O Grande Leviatã está de regresso. Depois de devaneios com o espírito liberal, a sociedade civil, o mercado e a social-democracia, o PS dá sinais de regresso a uma das suas origens, a mais estatizante e jacobina. Este programa confirma, acima de tudo, o papel do Estado, o enquadramento pelo Estado, a iniciativa do Estado e a intromissão do Estado na vida dos cidadãos.
Não, não vale a pena recear o comunismo do PS, que não está no programa. Aliás, basta o Estado português e os “Fundos” da UE para substituírem, com vantagem, o comunismo clássico. Já não são de recear os efeitos do actual governo, isto é, o PC não conseguiu converter o PS. Pelo seu lado, o Bloco comoveu os socialistas, deu-lhes inspirações para a superstrutura, os comportamentos, as virtudes, a ética, o sectarismo cultural e a correcção política, mas não parece ter convencido nas áreas mais importantes do sistema político, da democracia representativa e da economia de mercado. Pode, todavia, recear-se a deriva autoritária do PS no que toca às regras de vida colectiva, a sociedade dirigida pela virtude e o endeusamento do Estado.
Fazer, ordenar, proibir, organizar, comandar: essas são as palavras do PS, esses são os temas! Aqui, não se pensa em libertar, demolir muros, remover obstáculos, permitir… Só se pensa em fazer, mobilizar, planificar… Deixar fazer é impensável. Permitir é sinal de fraqueza.
Antigamente, governava-se por campanhas. As de África ficaram na história. Na República e no Estado Novo, prosseguiu-se e desenvolveu-se a tradição com as Campanhas de Alfabetização e de Educação de Adultos, com a Campanha do Trigo ou da Vacinação contra a Tuberculose. No início da democracia, a famigerada Campanha de Dinamização Cultural foi a mais interessante de todas: a pretexto de sensibilização democrática, lançou-se um dos empreendimentos mais totalitários da história política portuguesa.
Com o fim das Campanhas, apareceram os Planos. Mais intelectuais e aparentemente mais sérios. Surgiram assim os Planos de Fomento. Logo a seguir à revolução de 1974, passou-se a um Plano de Desenvolvimento Económico e Social, seguido das veleidades constitucionais das Grandes Opções do Plano e do Plano a longo prazo. Agora, entrámos na fase das Plataformas, dos Programas e dos Planos Nacionais, às dezenas. Planos para tudo e para todos. Para as Artes, o Regadio, a Literacia, a Energia e os Transportes.
Hoje, verdadeiramente sofisticada é a noção de Estratégia. Estratégia Nacional para isto ou para aquilo. Acompanhada de um ou vários Observatórios. Estratégia implica inteligência. Sugere esforço organizado. Exige mobilização e sensibilização. Motivação e recursos. Neste programa, entre as já existentes e as novas, agora propostas, há dezenas de Estratégias Nacionais, como, por exemplo: de Mobilidade Activa, para a Igualdade e a Não Discriminação, para a Inclusão das Pessoas com Deficiência, de Combate à Pobreza, para a Integração dos Sem-Abrigo, da Indústria 2030, para a Bioeconomia Sustentável 2030, para o Mar 20/30, para a Reutilização de Águas Residuais, de Educação Ambiental, para uma Protecção Civil Preventiva, de Desenvolvimento Integrado das Regiões de Fronteira, de Empreendorismo e de Turismo 2030.
Sem esquecer, evidentemente, os Planos Nacionais. São dezenas deles: Ferrovia 2020, de Literacia Democrática, de Leitura, das Artes, Sectorial da Defesa Nacional para a Igualdade, de Gestão Integrada de Fogos Rurais, de Segurança Rodoviária 2021/2030, Energia e Clima 2030, de Promoção de Biorrefinarias 2030, de Gestão das Regiões Hidrográficas, de Gestão de Riscos de Seca, de Gestão de Riscos de Inundação, de Ordenamento das Albufeiras de Águas Públicas, Poupança Floresta, de Acção para a Economia Circular, de Acção Litoral XXI, de Situação do Ordenamento do Espaço Marinho Nacional, de Aquacultura em Águas de Transição e não ficamos por aqui. Ainda faltam os Programas Nacionais, os Fundos, as Bolsas e as Plataformas.
Para tudo isto, é necessário ter instituições, leis orgânicas, funcionários, subcontratações, ajustes directos, impostos e confiança política. Pode não ser totalitário, mas este Estado é partidário, ineficiente, burocrático e autoritário. Não desenvolve, nem deixa desenvolver. Não cria riqueza, nem deixa criar.
O Estado pode ser uma das grandes criações da Humanidade. Mas também é capaz de ser, tal como o fizeram os comunistas, os fascistas, os nazis, os corporativistas, os revolucionários do Terror e outros, um dos maiores horrores da espécie humana. No outro extremo, a ausência e a fraqueza de Estado, tal como querem os neoliberais e os anarquistas, podem ser a raiz de outras formas de totalitarismo e de selvajaria. Entre os dois modelos, o PS oscila.
Público, 25.8.2019

23.8.19

A Tiro e à Facada

Por Joaquim Letria
Se há países onde gosto de estar e onde até já muito lá trabalhei são os Estados Unidos e o Reino Unido. Ainda agora regressei dumas férias maravilhosas nos Estados Unidos e sempre que posso dou um salto a Inglaterra onde vivi e onde um dos meus filhos estudou. Mas a ideia que se tem destes países não corresponde ao que ocorre hoje nos seus territórios nem com os seus povos e residentes. Pelo menos face àquilo que deles a Imprensa internacional dá conta, nuns casos para o bem, noutros para o mal, Estados Unidos e Reino Unido apresentam ambos taxas de violência muito preocupantes.
Nos Estados Unidos é a tiro: mais de 30 mortos a frio e a tiro em Dayton e El Paso, no mesmo fim de semana, bem podem ser ilustrativos do que ocorre naquele país onde o presidente se recusa a controlar a venda livre de armas de fogo. Este ano já se verificaram 255 tiroteios aleatórios e ao todo, incluindo rixas e violência doméstica ou de ódio, já foram mortos a tiro, desde Janeiro passado, 8930 pessoas.
No Reino Unido, onde na capital o actual presidente da câmara, Sadik Khan, também não reage à onda de violência, é à facada: ainda há pouco um automobilista reagiu à polícia de trânsito enfrentando e ferindo os agentes desarmados com uma catana. Mas para termos uma ideia geral do que acontece em Londres, Inglaterra e Gales, entre Março do ano passado e Março deste ano foram cometidos 43.576 crimes com arma branca. As estatísticas revelam que por dia há cinco jovens esfaqueados. Para corolário, um rapper de 19 anos foi condenado a 18 anos de cadeia por ter morto à facada um jovem de 15 anos. 
De ambos os lados do Atlântico os políticos não fazem nada e atribuem a causas diferentes este fenómeno preocupante. Nos Estados Unidos, republicanos e democratas acusam a Imprensa e jogos electrónicos. No Reino Unido dizem que a culpa é da música, designadamente das letras de Rap. Curiosamente ninguém fala do estado da sociedade nem dos efeitos de participações nas últimas décadas das juventudes de ambos os países nas guerras de extrema crueldade no Afeganistão, Iraque, Líbia, Somália, Sudão e outros pontos onde esta geração de americanos e britânicos completaram a sua educação.
Apesar de tudo e dos defeitos que possamos atribuir ao nosso querido País, temos de concluir que com a política que nos desgoverna e vivendo um pouco à matroca, em Portugal se está bem.
Publicado no Minho Digital

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22.8.19

Quo vadis, Europa?

Por C. Barroco Esperança

A democracia liberal, não confundir com o neoliberalismo, é uma instituição recente e pouco apreciada. Só existe depois da Revolução Francesa, com avanços e recuos.

O respeito pelas minorias e a dependência do normativo constitucional deixa em aberto as fraquezas que os adversários exploram. Enganam-se os que pensam que a democracia é eterna e os que lhe atribuem demasiado valor quando esvaziada das suas componentes, económica, social e política.

Em Portugal e em toda a Europa nunca esteve tão frágil após a queda das duas ditaduras ibéricas. Num mundo cada vez mais globalizado renascem nacionalismos de base étnica ou religiosa, num retrocesso civilizacional onde surgem regimes autocráticos e ditaduras violentas. A chegada de Trump, Bolsonaro e Duterte ao poder mostra como é acessível a políticos exóticos e marginais a legitimação democrática por escrutínio eleitoral.

Falar da Rússia, onde nunca existiu uma democracia, ou da China onde uma ditadura se perpetua com o poder pessoal absoluto, é acrescentar às obscuras teocracias do Médio Oriente, duas grandes potências, com a novidade de a China ser uma ditadura violenta e próspera, onde o crescimento económico e a evolução científica granjeiam o apoio da população.

A Coreia do Norte, o Egito e a Turquia são o que são e os maus exemplos já chegaram à Europa onde a mais sólida e antiga democracia – o Reino Unido –, se encaminha para o abismo, enquanto na Hungria, Polónia e Itália se consolidam regimes protofascistas, que as urnas sufragaram, e na França, Alemanha e Áustria a extrema-direita explode.

São cada vez maiores as pulsões autoritárias e cada vez mais débeis as forças que as combatem e, por ingenuidade, julgávamos que não regressavam à Europa.


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21.8.19

UMA CONVERSA SOBRE O SAL

Por A. M. galopim de Carvalho
A palavra sal foi-nos deixada pelos latinos ("sal, salis"), que tanto a empregavam para designar o produto material extraído, por evaporação, da água do mar, como para aludir, em sentido figurado, à vivacidade, à finura cáustica, ao espírito picante, ao bom gosto, à inteligência. E foi assim, com estes dois sentidos, que o sal entrou na nossa linguagem quotidiana, da menos à mais erudita.
Salada, no feminino é um prato de vegetais em cujo tempero entra o sal, mas no masculino, salado, significa salgado, do mesmo modo que salão é terreno salgadiço, salgadio ou salino. Salário, já o dissemos, foi ração de sal e é hoje significado de remuneração. Salé é carne salgada e saleiro tanto é o recipiente onde se guarda o sal, com o qual salpresamos ou salpicamos os alimentos no prato, como é o homem que vende sal ou o que o produz, isto é o salineiro ou marnoto. Mas saleira é o barco de fundo chato, do Vouga, que transporta o produto do seu trabalho. Salga é o acto de salgar, que o que os nossos pais faziam aos toucinhos e outras carnes, após a matança do porco, e às sardinhas que acomodavam em barricas para abastecer as populações do interior. Salgadinhos, comemo-los como aperitivos ou fazem o almoço frugal de muitos e salganhada ou salmonada é a falta de arrumo, é confusão. Salgados são as terras baixas, alagadiças invadidas por águas cuja salinidade ou salugem as torna salgadiças, sendo nestas baixas que, preferencialmente, se instala a salicultura ou salicicultura. Salicáceas são as plantas de uma família botânica, salicórnia é o nome vulgar de uma delas e salinómetro é o aparelho que mede o teor de sal. Salícula ou salífero é o terreno que produz sal. Salmoura é água mais ou menos saturada de sal, como a que conserva o atum e salmoeira, a vasilha. É ainda a água salgada que percorre o pipeline de Matacães até à Póvoa de Santa Iria, e salmurdo é sinónimo de sonso ou matreiro. Salobra ou salmaça diz-se da água mais ou menos contaminada com sal. Salsa, como adjectivo, é o mesmo que salgada; como substantivo é a erva que usamos como tempero de muitas confecções culinárias, mas é também sinónimo de molho. E, para terminar, salsicha e salpicão são nomes de enchidos temperados com sal.
Tal não aconteceu com "halós" a palavra dos gregos sinónima de sal. A passagem deste povo pela península, muito anterior à dos romanos, não teve nem a duração nem a importância da ocupação romana. Apenas no jargão científico e tecnológico dispomos de vocábulos construídos com base neste outro étimo. Diz-se que um solo é halomórfico quando salgado, que um organismo é halofílico quando suporta bem a presença de sal e dá-se o nome de halófitas às plantas desse conjunto. Chama-se halite ao sal-gema, halogenetos aos minerais salinos e haloquinese à deformação tectónica induzida pela presença de rochas salinas no seio das sequências afectadas. Hiper-halino, hipo-halino, termo-halino, euri-halinos, esteno-halinos, etc., são mais alguns desses termos, nestes casos usados em oceanografia.
Para os químicos, o sal é um composto resultante da interacção de um ácido com uma base, como, por exemplo, a do ácido clorídrico com a soda cáustica,
HCl+Na(OH)→NaCl+H2O
ou da acção de um ácido sobre um metal, exemplificada pela reacção do mesmo ácido sobre o estanho,
2HCl+Sn→SnCl2+H2↑
Cloretos, sulfatos, brometos, iodetos, carbonatos, fosfatos, etc. são sais. Porém, todos eles necessitam de um qualificativo que os distinga dos restantes.
Sal amargo ou sal de Epson – cloreto de magnésio
Sal de Bertholet – clorato de potássio
Sal de Fischer – cobaltonitrito de potássio
Sal de Glasser – sulfato de potássio
Sal de Glauber – sulfato de sódio
Sal de la Hiquerra – sulfato de magnésio
Sal de la Rochelle – tartarato de sódio e potássio
Sal de Vichy – bicarbonato de sódio.
Só o cloreto de sódio dispensa esse cuidado. Basta-lhe a palavra sal dita ou escrita isoladamente

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19.8.19

REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DA GEOLOGIA NAS NOSSAS ESCOLAS.

Por A. M. Galopim de Carvalho
Se há matérias que têm características passíveis de serem ministradas numa política de regionalização do ensino e que muito conviria considerar, a Geologia satisfaz esta condição. 
Portugal, de Norte a Sul e nas Ilhas, dispõe de uma variedade de terrenos que cobrem uma grande parte do tempo geológico, desde o Pré-câmbrico, com mil milhões de anos, aos tempos recentes. No que se refere à diversidade litológica, o território nacional exibe uma variedade imensa de tipos de rochas, entre ígneas, metamórficas e sedimentares e, no que diz respeito aos minerais, o número de espécies aqui representadas é, igualmente, muito grande, e o número de minas espalhadas pelo território e hoje abandonadas ultrapassa a centena.
Temos, muito bem documentadas, as duas últimas grandes convulsões orogénicas. A Orogenia Hercínica ou Varisca, que aqui edificou parte da vasta e imponente cadeia de montanhas de há mais de 300 Ma e hoje quase completamente arrasada pela erosão, e a Orogenia Alpina que, nas últimas dezenas de milhões de anos, entre outras manifestações, elevou o maciço da Serra da Estrela, à semelhança de uma tecla de piano que se levanta acima das outras, e dobrou o espectacular anticlinal tombado para Sul, representado pela serra da Arrábida.
Podemos mostrar aos nossos alunos muitas e variadas estruturas tectónicas, como dobras, falhas, cavalgamentos, carreamentos e uma excepcional discordância angular. 
Temos, à nossa disposição, múltiplos aspectos de vulcanismo activo e adormecido (nos Açores) e extinto, de um passado recente (na Madeira, há 7 Ma, e Porto Santo, há 14 Ma) e antigo de cerca de 70 Ma, entre Lisboa e Mafra. 
Temos fósseis de todos os grandes grupos sistemáticos e de todas épocas. Temos dinossáurios em quantidade e algumas das pistas com pegadas destes animais entre as mais importantes da Europa e do mundo.
Tudo isto para dizer que, no ensino da Geologia, para além de um conjunto de bases gerais consideradas essenciais e comuns a todas as escolas do país, as do ensino secundário, deveriam ministrar um complemento criteriosamente escolhido sobre a geologia da região onde se inserem.
Assim, e a título de exemplo, as escolas das regiões autónomas, aproveitando as condições especiais que a natureza lhes oferece, deveriam privilegiar o ensino da geologia própria das regiões vulcânicas, incluindo a geomorfologia, a petrografia, a mineralogia, a geotermia e a sismicidade (estas duas, nos Açores). 
Do mesmo modo, o citado vulcanismo extinto, entre Lisboa e Mafra, o maciço subvulcânico de Sintra (possivelmente um lacólito), o mar tropical pouco profundo que aqui existiu, durante uma parte do período Cretácico, deveriam ser objecto de estudo dos alunos da “Grande Lisboa”.
Os exemplos são muitos e cobrem todo o território. O termalismo em Chaves, São Pedro do Sul e em muitas outras localidades, os vestígios de glaciações deixados nas serras da Estrela e do Gerês, o complexo metamórfico e os granitos da foz do Douro, os “grés” de Silves, os quartzitos da Livraria do Mondego e a discordância angular da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) deveriam constar dos programas das escolas das redondezas.
Estes e muitos outros exemplos reforçam a ideia da possibilidade de uma adequada informação sobre a geologia regional a complementar um bem pensado programa de base comum a todas as escolas.

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18.8.19

Grande Angular - Ameaças

Por António Barreto
Desde 1975 que não se assistia a ameaças tão contundentes à liberdade de expressão, aos direitos de informação, associação e à greve.
Ter uma opinião sobre os imigrantes, as minorias, a integração racial, o multiculturalismo, o racismo e temas afins é hoje uma actividade perigosa! Se as opiniões não forem o que está consagrado pela aliança do governo, podem ser motivo de processo-crime, hipótese que se traduz em verdadeira intimidação. Anuncia-se já uma revisão das leis que regulam “os discursos de ódio”, designação perigosíssima, próxima de outras utilizadas pelos regimes fascistas, nazis e comunistas!
Reunir em Portugal movimentos e partidos políticos de direita ou de extrema-direita, provavelmente de conotação fascista, eventualmente de crenças racistas, pode ser actividade de risco e incorrer em intimidação, agressão pura e proibição legal.
Exprimir opiniões contrárias a certas instituições sagradas, como sejam os clubes de futebol, é uma actividade perigosa, propícia a acabar nos tribunais. Também aqui, não se sabe ainda o que estes decidirão, mas a carga de intimidação está preparada. 
Desenvolver actividades sindicais que não sejam do agrado do governo e da sua aliança, pode levar a situações muito delicadas, como tem acontecido com as greves dos camionistas não conformados com os estabelecidos.
Uma greve conduziu, com rapidez inédita, a uma requisição civil atrevida, acompanhada da mobilização imediata das polícias e das Forças Armadas, em gesto muito ameaçador. O governo pôs-se a jeito para aproveitar o vento e virar a seu favor os receios de uma perturbação gigantesca da vida quotidiana. Mas a verdade é que o desvario de um sindicato não justifica nem desculpa os desmandos do governo.
O PS está a mudar. Perigosamente. Está a ceder às esquerdas radicais, antidemocráticas ou totalitárias. As mais profundas convicções democráticas e liberais que marcaram o carácter do PS estão a sofrer uma erosão manifesta, causada pelo apetite de poder e pela influência ideológica do Bloco.
Ademocracia é o regime de todos, incluindo dos antidemocratas. A democracia defende-se com o bom governo, o reconhecimento dos cidadãos, a identificação com os valores do regime e a atenção prestada pelos dirigentes às necessidades do seu povo! A democracia não se defende com propaganda, muito menos com proibições de pensamento e de opiniões. A Justiça e a democracia castigam acções, não intenções. São punidos os gestos e as obras, não as opiniões. Os crimes são actos, não discursos.
A democracia é o regime de toda a gente, incluindo racistas e xenófobos. Todas as idades, raças, géneros, opções e condições cabem dentro da democracia, nenhuma pode ser expulsa. Ninguém é criminoso ou pode ser proibido pela sua opinião. Mesmo os insultos são permitidos. Se forem calúnias, deverão ser tratados como actos, não como opiniões.
A democracia admite a diversidade e a diferença. O conflito e a polémica. A democracia não permite que se castigue quem é diferente. Mas não admite que as diferenças cheguem à violência, à eliminação dos outros, à tortura, à mutilação, à segregação violenta e a todas as formas que implicam infracção à lei, comportamentos ilícitos e violação de direitos dos outros. A democracia admite o preconceito, a estupidez e a presunção racial, desde que sejam opiniões. Traduzidos em actos, a violência sobre minorias, a segregação, a tortura sob qualquer forma, a expulsão de local público, a mutilação e o mercado de seres humanos são merecedoras de punição. A democracia admite todas as formas de ambição e de utopia, sejam a revolução social, a restauração nacionalista, o apostolado cristão, o proselitismo muçulmano e a pregação de qualquer outra forma de convencimento, desde que não se traduzam em actos violentos e atentatórios dos direitos de outros.
A democracia é um corpo simples de princípios e de convenções que pode coexistir com várias ideologias e filosofias políticas. A democracia não proíbe opiniões. Nem religiões ou crenças. Nem credos nacionais. Nem aspiração revolucionária. Mesmo sabendo que o nacionalismo pode violentar, que a revolução mata, que a religião pode torturar e que as utopias podem coagir: enquanto forem opiniões, a democracia não pode proibir.
Aliberdade de expressão parece ser actualmente o valor mais ameaçado. Estranhamente, há em Portugal quem se queira notabilizar nesse esforço de condicionamento. Os socialistas, as esquerdas e certas minorias étnicas ou religiosas revelam reflexos perigosos de intolerância, como se a intolerância dos outros e a do passado justificassem a deles. E rapidamente recorrem à tentativa de condicionar a liberdade de expressão.
Convencido de que o seu ADN é um salvo-conduto para a democracia, o PS português está a perder qualidades. Dá sinais de aceitar que existem limites severos à liberdade de expressão, de que as Forças Armadas podem intervir em conflitos laborais e de que os tribunais são bons substitutos para a arbitragem e a negociação. Em questões como a segregação racial, o racismo, a desigualdade étnica e social, o assédio sexual e a violência doméstica, os socialistas estão a considerar crime o que muitas vezes é mera afirmação ou opinião.
Por sua própria iniciativa, porque julgam que a autoridade dá frutos eleitorais, porque cedem às influências do PCP e do Bloco, os socialistas estão a mudar de pele. Estão a deixar de entender que a democracia é de todos, mesmo dos antidemocratas. Que a tolerância é de todos, mesmo dos que o são pouco. Estão a torcer o direito à greve e a comprimir a liberdade de expressão. Estão a chamar as Forças Armadas para se envolverem em lutas sociais. 
Estamos a viver tempos difíceis para a democracia e para as liberdades, designadamente a liberdade de expressão. O PS está a perder gradualmente a sua tradição liberal, a sua veia tolerante e a sua marca democrática que parecia inamovível. O PS está a deixar que as suas pulsões escondidas, jacobinas, de intervenção estatal, de condicionamento da livre expressão e de intolerância apareçam à superfície e se transformem em método de acção. A liberdade, em Portugal, não depende só dos socialistas, mas está por eles muito marcada. Se faltar o seu contributo republicano, democrático e liberal, poderemos ter de viver tempos cinzentos que julgávamos ultrapassados por muitos anos. Num país, como o nosso, em que a direita liberal é tão escassa e volúvel, a esquerda democrática é essencial. Mas, se é a primeira a não respeitar as suas boas tradições, então temos um problema!
Público, 18.8.2019

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17.8.19


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16.8.19

Os Portugueses sem Mercados

Por Joaquim Letria
Bruno Fernandes, o médio do Sporting, já não vai jogar no Reino Unido porque os ingleses ficaram sem paciência e mandaram o Clube de Alvalade dar uma volta ao bilhar grande depois de meses de supostas negociações com o Tottenham e de inventarem que também andavam a falar com o Manchester United. Como diria o Jorge de Jesus, juntando em óculo o indicador ao polegar, “BOLA, ZERO!”
O rapaz deve estar muito desiludido e agora vamos ver se consegue ir jogar à bola em França, Itália, China ou Emiratos Árabes com o Sporting a exigir 70 milhões a torto e a direito a quem não os quer dar. Imagino o desgosto de Bruno Fernandes a quem andaram a contar histórias da carochinha e não lhe levaria a mal se logo a seguir ao ataque a Alcochete tivesse seguido os exemplos de William Carvalho ou de Rui Patrício. Como vês, meu menino, ninguém te agradece teres sido leal e fiel ao teu clube.
Bruno Fernandes não deveria, aliás, esquecer os casos de Yannick Djaló e o de Adrien a quem os cavalheiros de Alvalade obrigaram a estar de quarentena quase um ano por nem os documentos das vendas dos passes destes jogadores terem assinado em condições e a tempo e horas.
Enfim, não fossem as nossas centenas de enfermeiras e enfermeiros, as dezenas de cientistas e alguns músicos e outros artistas que emigram e deixam aqueles que os recebem maravilhados e nós muito orgulhosos e eu pensaria que os portugueses estavam a ficar sem mercado. É que além do Bruno Fernandes malograram-se outras transferências...
Para começar pelo último caso, refiro-me à do ministro das Finanças, Mário Centeno, que andou a dançar em pontas que nem um Nureyev, para o pôrem à cabeça do FMI, mas não contou com a Krystal da Bulgária que na ONU já tinha perdido para o Guterres e agora deve ter pensado “um português, outra vez!?” antes de se aplicar a fundo e despachar o nosso querido ministro das Finanças. Para nós, do mal o menos, que o acolhemos no Terreiro do Paço…
Outro caso foi aquele que pode ter sido inventado como o do Manchester United com o Bruno Fernandes e que fez com que o nosso bem amado primeiro ministro tenha andado a fazer constar que se tinha agarrado às paredes para não o arrastarem para a presidência da União Europeia. Por uma questão de patriotismo que devemos agradecer, António Costa ficou por cá. Ainda bem!
Resta agora ver se o Pedro Marques também não vai para comissário europeu… estou em crer que a Elisa Ferreira manda o ex-ministro da bitola estreita ficar às voltas ao bilhar grande. Vai uma apostinha?
Publicado no Minho Digital

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15.8.19

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14.8.19

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11.8.19

Grande Angular - Corrupção, ditadura e democracia

Por António Barreto
Nunca se saberá com certeza indiscutível. Há mais corrupção com a ditadura ou com a democracia? E, no caso da ditadura, há mais corrupção com o fascismo, com o nazismo ou com o comunismo? As respostas podem ser traiçoeiras. Muitos autores contemporâneos, com algumas razões para isso, sugerem frequentemente que a democracia é mais corrupta. Por outras palavras, um regime político democrático implica também a democratização da corrupção. E do crime em geral. Como é imaginável, há evidência para confirmar isso. E o seu contrário. Tudo depende das definições de democracia, de corrupção e de ditadura.
Uma coisa é segura: os regimes ditatoriais e ainda mais os totalitários não podem permitir a iniciativa individual e a ambição pessoal, a não ser que se exprimam através do Estado e do partido, com as regras estabelecidas por ambos. E correndo evidentemente os respectivos riscos. Ora, a corrupção é quase sempre uma forma especial de ambição e de iniciativa. É certamente um método de enriquecimento, outro fenómeno mal amado pelos partidos ditatoriais, a não ser, evidentemente, que se trate dos senhores dos respectivos partidos, governos e Estados. Por isso, as ditaduras e os partidos autoritários dão sinais de que não admitem a corrupção.
Não é difícil imaginar que, na Alemanha nazi, na Itália fascista, na União Soviética comunista e na China maoista havia pouca corrupção, tal como a entendemos. Na verdade, as matilhas políticas que tinham capturado o Estado definiram regras simples: o que é nosso ou o que nós fazemos é a lei; o que os outros fazem é ilegal e subversivo. Em ditaduras menos ferozes como, em seu tempo, a portuguesa, a espanhola, a brasileira ou a argentina, a corrupção independente tinha um pouco mais de liberdade, em paralelo com a legalizada pelos governos. Mas, por exemplo, fenómenos do género “porta giratória” entre a política e a economia eram frequentes em ditadura e nem sequer muito condenados. Ora, são hoje, em democracia, condenados, apesar de não eficazmente combatidos. Há mesmo, infelizmente, um relativo grau de tolerância, equivalente ao que se verifica com a permissividade do emprego familiar dos políticos, vulgo nepotismo democrático.
Na democracia contemporânea, fértil em corrupção e nepotismo, tem-se assistido, e bem, ao crescimento dos sentimentos críticos desses venenos das liberdades. A imprensa mais séria, os partidos da oposição a qualquer governo, os sindicatos mais austeros, as empresas mais honestas, os críticos da desigualdade social, algumas igrejas e bastantes pessoas têm vindo a revelar justo furor a propósito da corrupção e da ineficácia dos alegados combates contra essa peste. Mas há também uma grande onda contra a corrupção que parece não estabelecer diferenças nítidas entre democracia e venalidade política. 
É uma espécie de “Catch 22”. Nesse famoso livro de J. Heller, os pilotos americanos que faziam a guerra no Sul da Europa entravam muitas vezes em stress, verdadeiro ou fingido. Longos dias de guerra e bombardeamento, assim como elevado número de feridos e mortos, poderiam ter efeitos psicológicos nocivos. Como em todas as guerras, muitos estavam com vontade que aquilo acabasse depressa. Nos regulamentos, havia uma cláusula que permitia que um piloto que, por motivos de stress ou desequilíbrio moral, mostrasse incapacidade psicológica para prosseguir a guerra, podia requerer a dispensa e o regresso a casa ou a afectação a outros serviços mais “brandos”. Em poucas palavras: quem, por efeito da violência da guerra, se sentisse traumatizado, poderia requerer a dispensa. Todavia, se a Junta Médica detectasse que o soldado estava sob stress, concluía que ele se encontrava em boa saúde e por conseguinte tinha de prosseguir a guerra. Noutras palavras, só os afectados gravemente é que estavam em boas condições psicológicas, preparados para matar e bombardear. Quem fazia a guerra e não se sentia tocado psicologicamente não deveria estar com toda a sua saúde. Quem ficasse afectado pelas circunstâncias estava em boa saúde e reagia previsivelmente, com normalidade, o que quer dizer que estava apto para o serviço!
Rosnar contra a corrupção é bem. Denunciar a corrupção dos adversários é bem. Acusar de corrupção os inimigos, os ricos, os altos funcionários ou outros, é bem. Também é bem denunciar os partidos que admitem e cultivam a corrupção. Mas, lutar contra a corrupção é também justicialismo, populismo e espírito antidemocrático! Hitler, Salazar, Péron, Mussolini, Estaline, Mao, Chavez, Maduro e outros também lutaram contra a corrupção e deu o que deu! Trump, Orban, Salvini, Le Pen e Bolsonaro também já anunciaram que iam lutar contra a corrupção… 
A luta contra a corrupção é defendida por muita gente. Sobretudo por quem está fora da política e quer entrar por essa via: o primeiro objectivo consiste em varrer quem lá está, ideia que tem grandes potencialidades de demagogia. A corrupção parece logo ser a mais popular das bandeiras! Quem se quer ver livre dos políticos, dos partidos e dos sistemas democráticos, arvora-se em defensor da democracia pela luta contra a corrupção. Uma das grandes armas do justicialismo latino-americano era (e é…) a sua veia anti-corrupção. Conquistado o poder, deu no que deu. É este o “catch 22”: a corrupção liquida a democracia, a luta contra a corrupção também!
Em Portugal, os últimos anos assistiram a um aparente ou real aumento da corrupção e do nepotismo. Real, se corresponde à verdade dos factos. Aparente, se resulta de superior visibilidade. Mais graves ainda são os fenómenos de assalto ao Estado e de puro banditismo financeiro que se instalaram e de que a justiça portuguesa não parece capaz de tratar a tempo. Porque não sabe, porque não pode ou porque não quer. Por outro lado, o legislador, ao traduzir os interesses partidários, também não parece muito interessado em se ocupar do assunto com eficácia. 
Verdade é que prefiro uma democracia corrupta a uma ditadura virtuosa! Sei que, nesta última, não há qualquer esperança. É verdade que, no primeiro caso, a corrupção pode destruir as liberdades. Mas sei que há esperança de evitar que tal aconteça. E sei que as liberdades e a democracia poderão, sublinho e repito, poderão encontrar formas de combate à corrupção que não sejam apenas novas formas de nepotismo e favoritismo de partido.
Certo e seguro é que a corrupção é mal vista por toda a gente. Menos pelos corruptos. E pelos invejosos. Que são muitos.
Público, 11.8.2019

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9.8.19

A chocante devolução de crianças

Por Joaquim Letria
Nos últimos três anos 53 crianças e adolescentes foram devolvidos pelos pais adoptivos, o que mostra bem o amor e carinho que existiriam naqueles lares. Devolveram crianças como se fossem objectos ou electrodomésticos usados num período experimental. E a legislação permite e as instituições recolhem-nas para poderem fazer novas ofertas e satisfazerem a procura sem atender ao equilíbrio emocional de quem gostaria de ter uma família.
Por outro lado é famoso aquele caso recente, que terminou com 24 anos de prisão para uma rapariga que matou a mãe adoptiva à martelada, com a ajuda do noivo que a auxiliou também na tentativa da queima do corpo da pobre senhora que era professora na margem sul do Tejo e que tratava ambos como se seus filhos fossem.
De maneiras diferentes se pode avaliar com este caso, por um lado, e com as devoluções, por outro, o grau dos afectos da nossa sociedade cada vez mais fustigada por violentos crimes passionais e por uma imparável violência doméstica que reflectem a educação que estas gerações receberam e que se exterioriza das piores maneiras.
Tenho dois amigos que adoptaram crianças. Num caso, uma menina com nove anos, no outro um bebé que foi tardia e finalmente libertado pelo sistema de justiça. Posso dizer que ambos foram casos de sucesso, ainda que num deles com problemas que não seriam maiores do que aqueles que filhos biológicos causariam. Mas as questões foram resolvidas e nunca passou pelas cabeças daqueles dois casais a ideia de devolver à procedência os jovens que no momento da adopção tanta alegria e amor lhes deram, acabando com dramas de infertilidade.
Creio que aquilo que complica ainda mais estas situações são as leis existentes, a incompetência das instituições sociais de acolhimento e a falta de preparação dos pais adoptivos, ainda que estes últimos sejam escrutinados por quem de direito com um enganoso rigor.
Alguma coisa mais se deveria fazer no âmbito da legislação que rege a vida dos menores e no acompanhamento social de instituições e famílias de acolhimento para que esta situação não fosse possível existir no nosso País onde também os critérios para regular as regras parentais têm uma largueza que por vezes conduz ao erro.
O universo das crianças que vivem no anseio de poderem ser adoptadas e de outras magoadas por serem devolvidas à procedência e ainda aquelas sem esperança por serem erradamente extraídas das suas famílias, por funcionários insensíveis, deveria motivar uma reflexão que também envolvesse organizações de protecção das crianças que muitas vezes têm dificuldades burocráticas para fazerem aquilo a que se propõem e que fica por aproveitar em benefício de todos nós.
Publicado no Minho Digital

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8.8.19

Colaboração no "Correio de Lagos" de Julho de 2019 - Texto de Opinião

Que sapateiros se tornem medíocres, nada tem de terrível para a cidade. Pelo contrário, quando os guardas só são guardas na aparência, vês que a arruínam de alto a baixo.
Platão, “A República”, Livro IV.

Como criadores da Democracia, os gregos antigos sabiam muito bem quais as suas fragilidades, tendo o referido discípulo de Sócrates dedicado particular atenção aos ataquesa que podiam estar sujeitos os seus mais importantes pilares: a Justiça e a Segurança.
Aliás, é espantoso ver como muitos dos problemas com que as sociedades actuais se defrontam já eram debatidos há mais de 24 séculos:
Não há famigeradas personagens que, apesar de condenadas, se passeiam alegre e impunemente entre nós, como se nada fosse? Pois estão no Livro VIII. E políticos que, em vez de servirem o povo, se servem dele, usando os seus cargos para enriquecerem? Também lá estão; e por aí fora, pois os pais da nossa Civilização “conheciam de ginjeira” toda a tropa-fandanga que ainda hoje nos custa caro, inferniza a vida e ameaça a Democracia.
De facto, e como acima se refere, poucas coisas haverá mais destrutivas para a “Cidade” do que as leis-da-treta, aquelas patacoadas que os nossos legisladores produzem a um ritmo diarreico, sem que ninguém se preocupe em fazê-las cumprir. Uma das mais recentes estipula multas a partir dos €500 (*) para quem deite beatas para o chão e que, evidentemente, há-de ser tão aplicada como o DL 314/2003 que define coimas desde €25 até uns delirantes €44890 para os casos em que cães, em espaço público, estejam sem trela, MESMO QUE NÃO PROVOQUEM DANOS— caso em que, obviamente, as contas serão acrescidas.
E é aqui que entra omeu velho companheiro de quatro patasque, no mês passado,foi atacado simultaneamente por outros dois (acompanhados, mas à solta), que lhe fizeram uma ferida no cachaço e outra numa perna, quando estávamos a dar o nosso passeio habitual num parque da cidade.
Ora, como na altura não me apercebi desses ferimentos (que o farto pêlo encobria), limitei-me a barafustar com os donos e a afastar-me dali, pelo que só no dia seguinte o infeliz, já com grande dificuldade em andar,foi sujeito a uma sedação, a 4 agrafos, a um funil e mais a uma quantidade de medicamentos — enquanto a mim cabia pagar as respectivas contas, que já vão em 116,90€ , com IVA de 23%, pois, em matéria de tratamento de animais, os nossos políticos reservaram o de 6% para as touradas.
Nos dias e semanas seguintes, tentei encontrar os donos dos cães, mas em vão. Recorri ao “Lagos, a Minha Cidade”, mas o resultado foi o mesmo.
Entretanto, uma senhora garantiu-me que o que se passou é perfeitamente normal, e mostrou-me a mais recente cicatriz da sua cadela! Houve quem me sugerisse que, simplesmente, fosse passear o cão para outro lado, e quem me aconselhasse a andar sempre com um pau na mão. Houve ainda quem (certamente a brincar) me sugerisse que apresentasse queixa, e ainda quem me dissesse que não me preocupasse, pois a RAIVA está erradicada. 
Não, meus caros, a RAIVA não está erradicada, pelo menos a minha, pois eu JÁ ESTOU PELOS CABELOS por ser confrontado com inúmeras situações gravosas, em que as leis-da-treta estão sempre presentes.
Ah, caro Platão!, que pena não poderes vir até à nossa terra colher inspiração para uma sequela da tua obra! Olha que seria muito apreciada uma variante portuguesa de “A República”: a “das bananas”, claro.
“Correio de Lagos” de Jul 19
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(*) Corrigindo: 25€ e não 500€

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Greves e direitos sindicais_2

Por C. Barroco Esperança

Quem, antes do 25 de Abril, defendeu o direito à greve e lutou contra a ditadura, não se deixa enganar pelos que aproveitam a democracia para a destruir. É o que distingue os democratas dos oportunistas, defensores dos direitos dos trabalhadores dos apoiantes do terrorismo sindical e zeladores das instituições democráticas das utopias que povoam o aventureirismo de revolucionários da oratória.
As greves são sempre políticas, não vem daí mal ao mundo, mas não podem servir para subverter a ordem constitucional, instrumentalizar trabalhadores para satisfazer o ódio à democracia e abrir caminho ao retrocesso dos direitos que as legitimam.
A atual greve dos camionistas, com um advogado suspeito, alugado para fazer parte da direção sindical e, depois, por vergonha, sem que se conheça a Assembleia Geral onde passou de dirigente do sindicato a advogado e porta-voz, é o exemplo acabado de uma ofensiva reacionária contra o Governo.
Na aparência é uma luta entre trabalhadores e patrões, SIMM e ANTRAM. Na prática, é o aventureirismo de quem reclama condições para o ano 2022 e tem o apoio explícito de André Ventura, essa referência fascista e trauliteira, e o de Paulo Mota Pinto, quadro do PSD, a defender entusiasticamente o sindicato «apartidário».
Perante objetivos ínvios, independentemente das razões justas dos trabalhadores, tenho acompanhado as posições da comunicação social que melhor transmitem as posições de direita. Curiosamente, devo a um leitor meu a melhor síntese dos objetivos partidários da greve reincidente, prevista para 12 de agosto.
Aqui fica transcrito o texto, respeitando a ortografia, duas horas depois de ter censurado a minha posição no Faceboock e defendido o advogado Pardal Henriques e os objetivos partidários:
«E posso vos assegurar de uma coisa que desconhecem.                                                                                                  
Soubesse o PSD e Rui Rio "REINAR" e outro galo cantaria em Outubro.               
Assim como não tenho dúvidas de que era muito fácil "espetar" com este governo no chão só com os motoristas e a sua revolta que - só por hipocrisia, comodismo e cinismo não tem o apoio da maioria dos Portugueses.»
Relembro os sindicatos fascistas e o terrorismo sindical como instrumentos da ascensão da extrema-direita ao poder, no século passado.
A minha única arma é a palavra e usá-la-ei. A democracia defende-se com democratas.

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6.8.19

Colaboração no "Correio de Lagos" de Julho de 2019 - 8

Em tempos, em Londres, um parlamentar pediu a palavra, furioso: tinha acabado de beber chá, notara que a colher era importada, e fez uma vibrante intervenção, perguntado se a indústria inglesa estava tão mal que não conseguia fabricar um objecto tão simples. 
E lembramo-nos sempre dessa rábula quando vemos portugueses a comprar produtos importados, podendo optar por outros, iguais ou melhores, de fabrico nacional e até mais baratos, dando com isso uma ajuda à nossa balança comercial, que recentemente passou de positiva a negativa. 
Por exemplo: porquê comprar pilaretes espanhóis (a Fundicio Ductil Benito é de Barcelona) — ainda por cima em ferro fundido, quebradiços! —, quando temos por cá quem os faça melhores, e porventura a um preço mais vantajoso — em aço galvanizado ou inox, ferro zincado, alumínio, pedra... até mesmo em betão, como os que em baixo se vêem, e que não envergonham ninguém?

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5.8.19

Colaboração no "Correio de Lagos" de Julho de 2019 - 7

Dizer que as papeleiras são equipamentos importantes para a higiene urbana é uma banalidade, mas convém recordar que, para além da sua função óbvia, elas são também um factor de racionalidade económica (na medida em que é mais barato remover o seu conteúdo do que varrer o chão em volta) e de incentivo aos bons hábitos de civilidade, pois “limpeza atrai limpeza, tal como lixo atrai lixo”. 
Evidentemente, espera-se que sejam bem distribuídas pela cidade e em quantidade suficiente, que tenham a capacidade apropriada, que sejam esvaziadas atempadamente e... que sejam mantidas em condições — o que implica um mínimo de manutenção que, como se sabe, não é a especialidade cá da casa. NOTA: em 2.º plano, e em contraste, o magnífico mural junto à EN 125 representando Elisabeth Taylor, em “Cleópatra”.

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4.8.19

Grande Angular - As quotas

Por António Barreto
Em 1960, o corpo docente do Ensino Superior era essencialmente composto por homens. As mulheres eram 11% do total. Actualmente, as mulheres representam 45%. Dentro de pouco tempo, serão maioritárias.
Em 1960, as mulheres eram 29% do total de estudantes no Ensino Superior. Hoje são 54%.
Em 1960, as mulheres eram 24% do total de licenciaturas obtidas nas universidades portuguesas. Em 2018, as mulheres representaram cerca de 59% dos diplomados do ensino superior. 
Em 1970, os doutoramentos defendidos por mulheres representaram cerca de 7% do total. São hoje mais de 55%.
Actualmente, as mulheres obtém os seus diplomas de ensino superior em menos tempo do que os homens.
Tudo isto se obteve sem quotas nem qualquer outra forma de discriminação positiva.
Uns dirão que foi o capitalismo, a fim de melhor explorar os trabalhadores. Há quem garanta que o patronato foi obrigado a recorrer às mulheres, por causa da falta de homens. Outros dizem que foram os homens que, assim, exploram as mulheres duas vezes, em casa e no trabalho. Não falta quem diga que tudo isto se ficou a dever aos homens e à democracia, unidos na promoção das mulheres. E podemos ainda contar com os defensores das políticas educativas que conduziram a esta situação. Também há quem assegure que tudo se deve aos movimentos feministas. São todas excelentes explicações. Certo e seguro é que aqueles resultados se devem, não a quotas, mas simplesmente ao trabalho das mulheres.
Quotas, preferências e regimes ou concursos especiais para chegar ao Ensino Superior já existem abundantemente. Residentes nos Açores e na Madeira, emigrantes portugueses no estrangeiro, contratados e permanentes das Forças Armadas, diplomatas no estrangeiro, bolseiros e funcionários a servir no estrangeiro, cidadãos dos países africanos no quadro de acordos de cooperação, bolseiros dos PALOP, funcionários estrangeiros de missões diplomáticas em Portugal, atletas de alta competição, deficientes e naturais ou filhos de naturais de Timor beneficiam de estatutos que lhes conferem facilidades, dispensa de notas mínimas ou isenção de provas para ingressar nas Universidades. No total, cerca de 30% dos candidatos são assim admitidos. 
Discute-se agora mais uma hipótese: a de criar quotas para as minorias africana e cigana. O debate corre os seus trâmites, tendo já dado origem a polémica acesa no espaço público. É uma infeliz via esta, a de aumentar o número de quotas e de regimes especiais, de favor e de privilégio. Obrigar à admissão de minorias étnicas ou de grupos raciais é uma das más invenções das fragmentadas sociedades contemporâneas. Os avanços da cidadania democrática e da igualdade estão constantemente a ser combatidos pelas tendências corporativas e cartelizadas dos grupos políticos e de interesses que não hesitam em recorrer às vias do despotismo legal para impor novas formas de apartheid multicultural. Verdade é que a fragmentação racial sob qualquer forma é racista.
O caso da “minoria africana” é particularmente sensível. Sobretudo porque dá origem aos maiores mal entendidos. Árabe, Beduíno, Berbere, Mouro, Bóer, Branco e Indiano de vários países de África são africanos ou quê? E por que razão se deveria criar quotas para Africanos, de uma só ou de várias cores, e não para os Chineses, Brasileiros, Nepaleses, Paquistaneses, Ucranianos e outras minorias presentes em Portugal?
É verdade que há numerosos grupos de pessoas, com ou sem estigma racial, com desfavor familiar ou social, sem meios económicos ou culturais, com muitas outras insuficiências ou deficiências e que têm dificuldades em aceder aos bens imateriais, à cultura, à educação, à formação profissional e a outras formas de promoção pessoal. Conceder-lhes sistemas de favor, consagrados pela lei e traduzidos em quotas de privilégio, é sempre um gesto de paternalismo indigno que desnatura o essencial das instituições de ensino e formação. É enorme a injustiça que reside na eliminação de umas centenas ou milhares de candidatos que reuniriam as condições de admissão à universidade mas que são eliminados para poderem entrar os dos regimes de favor em nome da bondade. Eliminar candidatos médios a benefício de maus candidatos favorecidos pela etnia, pela profissão dos pais ou pela região de origem é profundamente injusto, despótico, corporativo e oportunista. Os fanáticos da engenharia social e política não se dão conta de quanto são racistas.
Os grupos desfavorecidos podem e devem ser apoiados por todos os meios existentes que não ferem princípios fundamentais de justiça, de igualdade e de mérito. Mais úteis do que as famigeradas quotas e do que a traiçoeira discriminação positiva são os apoios, bolsas de estudo, incentivos, explicações, ajudas para alimentação e alojamento oferecidos por fundações, misericórdias, cultos, associações, autarquias e empresas. Assim se podem concretizar todos os apoios justos e devidos a indivíduos e a comunidades regionais, religiosas, étnicas ou nacionais!
A universidade não é um direito de todos, é um mérito alcançado com trabalho e esforço. É algo que se obtém com merecimento. É um bem raro e caro que deve ser valorizado por quem o merece, por quem dele faz um instrumento de desenvolvimento pessoal, da arte e do saber. A correcção das injustiças sociais que resultam da desigualdade económica não deve ser feita através da destruição do que mais importa numa instituição de ensino superior: o mérito que resulta do esforço. A correcção da injustiça faz-se através do fornecimento de meios aos que querem esforçar-se e lutar pelo saber e pela formação. A correcção da injustiça não se faz com a criação de uma nova injustiça, nem com a destruição de um valor, o da ciência e da cultura.
Odebate sobre as quotas no acesso ao Ensino Superior foi recentemente enriquecido por uma proposta do CDS: os candidatos que, por falta de mérito e de nota, fossem eliminados, poderiam comprar o seu lugar. Isto é, seriam equiparados a estrangeiros que pagam elevadas propinas. O absurdo desta proposta é tal que quase impede que seja discutida serenamente. Como é possível imaginar que seja permitido comprar um lugar na universidade? É tão ou mais chocante do que as políticas racistas que promovem ou dificultam o acesso de grupos étnicos e raciais. Portugal necessita de políticas que promovam os melhores e os mais capazes de todas as classes e de todas as etnias, não as que tentam criar e preservar privilégios. Brancos ou negros. Ou assim-assim.
Público, 4.8.2019

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