30.11.19

No "Correio de Lagos" de Nov 19


Ao fim de 26 meses está, FINALMENTE!, a ser ultimada uma rampa de acesso à Igreja de Sto. António para pessoas com dificuldades de locomoção, acesso esse que se fará pela porta principal. Esperamos poder voltar ao assunto quando percebermos como funcionará a aquisição de bilhetes para elas pois, se nada se alterasse, seria necessário continuarem a subir o primeiro lanço de degraus da entrada actual para chegarem ao guiché da bilheteira. Quanto a isso, aqui fica uma sugestão: ISENTAR essas pessoas de pagamento, como forma de compensação mínima por terem sido privadas, durante todo este tempo, do direito básico e LEGAL de acederem a um Monumento Nacional em condições de igualdade com os demais cidadãos.
NOTA: Quanto à placa que lá continua a indicar “Prazo de execução 240 dias” achamos que é genial, pois nela não se indica quando é que começaram a contar — estando, assim, sempre certa!

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29.11.19

A Menina-Mãe do Bebé do lixo

Por Joaquim Letria
Ninguém que meta um ser vivo num caixote do lixo pode estar bem da cabeça. Muito menos se esse ser vivo for uma criança e ainda menos se quem o abandona à morte, dessa maneira cruel, for quem acabou de o dar à luz, ao fim de nove meses de gestação, sozinha e em segredo, num canto esconso, debaixo dum viaduto.
Mas se quem comete um acto de semelhante crueldade for uma menina de 22 anos que vive sozinha na rua, sem ajudas nem palavras, a não serem as de quem dela abuse, e que é precisamente do caixote do lixo que muitas vezes se alimenta, pode entender-se melhor – sem nunca o aceitar – semelhante acto.
E se eu entendo o acto, sem nunca o aceitar, tenho porém a ideia e o sentimento de que essa pessoa não pode ser detida numa prisão nem vir a ser condenada a uma pena de cadeia sem antes se conhecer toda a sua culpa. Doutro modo, limpamos a nossa consciência colectiva e atiramos para trás das costas a parte da culpa que cabe a todos nós.
Prender por prender não soluciona um caso como este que, infelizmente, tem no passado frequentes actos semelhantes e, porventura, mais cruéis como as dos nascituros mortos à facada, outros desmembrados e metidos em sanitas aos bocados, ou bebés atirados para entulhos de obras abandonadas, dentro de sacos plásticos. Antes houvesse a Roda, de triste memória…
Naturalmente que a polícia deve desempenhar o seu papel: o historial da menina-mãe, relações familiares, ligações sexuais, ocasionais e duradouras, cúmplices ou quem a votou ao abandono, investigar a fundo quem mais pudesse saber da intenção, para que a justiça actue e puna também quem mais tiver culpas do que a mãe que, só por sorte, não consumou o infanticídio após nove meses de gravidez sem qualquer apoio. A Justiça deve puni-los a todos, sem apelo nem agravo, se forem apenas simples criminosos sem qualquer desculpa psiquiátrica.
A  par disto também deveria inquirir-se o papel da Segurança Social e das autarquias que permitem que tanta gente viva em cartões ou mini-tendas nas ruas das grandes cidades, sem resolverem as causas deste universo de miséria.
Agora, quanto a esta menina de 22 anos a viver na rua, em vez de a meterem apressadamente numa prisão de mulheres, na sua maioria traficantes e homicidas, à espera que um juiz a interrogue, devia ter sido antes internada onde pudesse ser vista por médicos e receber tratamento psiquiátrico, porque quase de certeza que esta jovem mulher desamparada sofre e não está bem da cabeça. Investiguem-na, averigúem e então façam justiça. Antes disso não é sério.
Publicado no Minho Digital

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28.11.19

A manifestação das Polícias


Por C. Barroco Esperança

Afirmar o direito dos polícias à manifestação é uma banalidade que só a ignorância dos direitos dos cidadãos, que a Constituição consagra, ou as dúvidas sobre a natureza do nosso regime democrático, permitem.
Já a atitude de virarem costas à AR, o órgão nobre de qualquer democracia, cuja defesa lhes cabe, não sendo criminalmente punível, é civicamente ignóbil. Que virem as costas à sede do PS, partido no poder, compreende-se, mas que o façam contra o Parlamento, é repulsivo e significa que há polícias fascistas que devem ser desmascarados.
O Movimento Zero, agrupamento inorgânico, xenófobo e racista, conseguiu a liderança das reivindicações, com gestos e atitudes simbolicamente fascistas, de que o virar costas à AR foi sintomático. É um caso grave de polícia, a juntar ao gesto da mão que integra a coreografia do movimento extremista internacional ‘White Power’.
Na quinta-feira, 21 de novembro de 2019, foi assustadora a complacência dos polícias e guardas da GNR para com a apoteose que muitos dos seus camaradas dispensaram a um fascista intermitente, agora deputado à AR, permitindo a apropriação da manifestação e a injúria às reivindicações, tornando-as um confronto à legalidade democrática que lhes cabe defender.
Confundir uma reivindicação profissional com o desafio à autoridade democrática é um risco que o regime democrático não pode consentir, e é deplorável a complacência com os manifestantes, que viraram as costas a AR, de partidos que a viram ultrajada.
Por melhores que fossem as intenções de partidos antirracistas no apoio à manifestação dos polícias e militares da GNR, já deviam ter-se demarcado da solidariedade, com um comunicado a condenar a sua condução. O PS e o PSD foram os únicos partidos que não apoiaram a manifestação que coreografou a apoteose do deputado do Chega e foram os únicos que não se enlamearem numa exibição que excedeu a decência democrática e a ética profissional de militares e polícias à paisana.
Não há democracias eternas nem liberdades irreversíveis e os regimes democráticos são vulneráveis ao populismo e às derivas extremistas que emergem no mundo e infiltram as forças policiais e militares de numerosos países, incluindo os da Península Ibérica, de Espanha seguramente e, pelos vistos, de Portugal.
O apoio indiscriminado a qualquer manifestação dá a noção de que todas são justas, e que, independentemente da justiça das reivindicações, todas são possíveis de satisfazer.
Não se conquistam simpatias com solidariedades incondicionais e companhias suspeitas.
Ponte Europa / Sorumbático 

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25.11.19

Nas próximas eleições, vamos ter a continuação...

24.11.19

Grande Angular - Proximidade democrática

Por António Barreto
A ideia de que a democracia é um antídoto eficaz contra as aventuras antidemocráticas, sejam elas populistas, fascistas ou comunistas, tem-se revelado infelizmente pouco segura e até, por vezes, errada. Ou antes, a democracia é insuficiente para assegurar a democracia e pode mesmo, em processo demagógico, transformar-se em instrumento de ratificação de déspotas. Aliás, os verdadeiros ditadores deste mundo quiseram sempre, um dia, levar a cabo processos eleitorais de fantasia e nunca lhes faltou atrevimento para anunciar vitórias a 90% ou 95%. Todos os ditadores comunistas mandaram fabricar eleições. E Franco e Salazar também não resistiram às tentações eleitorais.
Mas o problema não é só esse. As farsas eleitorais para confirmar os ditadores são de tal modo grosseiras que já não enganam ninguém. A questão mais delicada é a das eleições genuínas, por vezes até honestas, de que resultam ditadores, psicopatas narcisistas e déspotas demagogos imprevisíveis. Na verdade, alguns dos mais ameaçadores dirigentes populistas e não democráticos ou mesmo anti-democráticos contemporâneos foram eleitos pelos cidadãos. Uns tantos foram confirmados e reeleitos, até em processos eleitorais vagamente supervisionados. Noriega, Chavez, Morales, Ortega e Maduro foram eleitos. Trump e Putin eleitos foram. Orbán, Erdogan, Salvini e Kascinscki devem à democracia eleitoral os seus cargos. Bolsonaro e Duterte cumpriram, para ascender à presidência dos seus países, as regras dos processos eleitorais. E não é muito difícil pensar em chefes políticos que, sem serem ditadores, se aproximaram muito de demagogos oportunistas, a quem a democracia nada deve, mas que pela democracia foram ungidos para o exercício do seu espalhafatoso poder político: Fujimori, Berlusconi, Sócrates e Lula, tão diferentes, são bons exemplos.
É verdade que há exemplos de derrotas de populismos e de ditaduras às mãos dos democratas e através de eleições. O caso português, o do 25 de Abril e da revolução que se seguiu, é o melhor exemplo. Vencidos no Estado, nas empresas e nos sindicatos, nas instituições e nas autarquias, nas forças militares e nas polícias, os democratas confiaram nas eleições e acertaram: revolucionários, civis e militares, comunistas e outros aventureiros foram derrotados nas eleições e de tal modo destroçados que nunca mais voltaram, quarenta anos depois, a constituir verdadeira ameaça às liberdades.
Mais do que nunca, vivemos tempos difíceis para as liberdades e a democracia. Habituámo-nos a recear os despotismos e as ditaduras vindos de fora da democracia, por vias da conquista ou graças ao declínio democrático, como dizia Ignazio Silone (“As democracias caem por dentro…”). Os grandes ditadores que tinham conquistado o poder fizeram-no em geral por assalto. O que nos deixava tranquilos, se assim se pode dizer. Bastava proteger a democracia dos seus inimigos externos. Agora que percebemos que as democracias também produzem os seus ditadores, déspotas, líderes irracionais, aldrabões e predadores, a democracia deixou de ser suficiente.
Também se tem pensado que a “proximidade” é uma verdadeira panaceia. Saúde, educação, polícia, segurança, justiça e política: de tudo, de todas as áreas da governação e da administração se diz que a “proximidade” é uma virtude, um trunfo democrático, uma garantia das liberdades e uma certeza da humanização. Nada mais errado. A “proximidade”, com todas as suas virtudes, é quase regra para o populismo e para os déspotas que não acreditam nas instituições. O populismo irascível, quase violento, geralmente impaciente, não acompanha a distância, mas sim a proximidade. A proximidade cria familiaridade e esta permite todas as formas de tratamento, todos os atrevimentos. Castro e Péron sabiam bem ao que andavam.
Os grandes demagogos sabem que é a proximidade que lhes traz vantagens. São excelentes a explorar a insatisfação das promessas não cumpridas pela democracia e pelos partidos clássicos. São também excelentes a fazer as suas próprias promessas, sobretudo as impossíveis de cumprir. Procuram sempre a proximidade, o contacto directo com as massas, as pessoas, o povo, porque é assim que se dá o salto por cima das instituições. Os demagogos são excelentes nas manifestações sem partido nem sindicato, nos movimentos sem estrutura nem organização. Até porque sabem que esses movimentos e essas manifestações têm origens, têm causas: o falhanço da democracia, os privilégios da democracia, o não cumprimento de promessas e a mentira das democracias.
A proximidade é uma ilusão perigosa. Em Portugal, os políticos mais próximos do povo foram Vasco Gonçalves, Sá Carneiro, Mário Soares, José Sócrates e António Costa. Pouco ou nada de comum entre eles. E não foi com certeza a proximidade que lhes trouxe êxitos e garantiu justeza aos seus governos. Não é evidente que Costa e os seus ministros são os políticos mais próximos do povo, que mais frequentemente aparecem nos comícios de sexta-feira, nas inaugurações de sábado e nas sessões de esclarecimento de domingo? Não é cristalinamente exacto que Marcelo é de longe o Presidente mais próximo do povo e dos eleitores, da televisão, dos telejornais e dos corações dos Portugueses?
A proximidade é efémera, falsa, fictícia e ilusória. A transparência é mítica, aparente e falaciosa. A política que está em crise é a política demagógica e mentirosa. A que promete e negoceia tudo. A que dá tudo até ao endividamento. A que beneficia quem chega primeiro, quem tem amigos do sindicato, na confederação ou no partido. A que privilegia quem dá mais votos, os funcionários públicos ou os pensionistas, por exemplo. A que traça bissectrizes entre os lóbis. A que se limita a ser o lugar geométrico dos interesses e das corporações. A que se desdiz com naturalidade e talento. A que mente com atrevimento e encanto. A que deixa arrastar uma justiça incapaz, mas inaugura auto-estradas. A que permite o declínio do serviço nacional de saúde, mas subsidia a Web e os jogos digitais. A que deixa aumentar a desigualdade no sistema universitário e recompensa os ricos. A que procura subsidiar os mais pobres, mas não se importa com o demérito nem a falta de esforço. A que exige frugalidade dos trabalhadores do sector privado, mas privilegia os funcionários públicos.
Salvar a democracia obriga a ser muito exigente com a democracia. Preservar a democracia obriga-nos a ser impiedosos, não com os demagogos, o que é fácil, não com os populistas, o que é simples, mas com os democratas.
Público, 24.11.2019

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22.11.19

A OVIBEJA dos Computadores

Por Joaquim Letria
A melhor explicação que ouvi sobre o que era a websummit foi a de um jovem que explicava ao seu progenitor: “Oh pai, aquilo é uma Ovibeja mas com computadores em vez de ovelhas.”
A explicação, além de simples, é fácil de entender e muito divertida. Neste caso, pode ainda levar-nos àquele velho provérbio sobre quem vai buscar lã e sai tosquiado. É que, ao que parece, os custos dispararam, o Estado e a Câmara de Lisboa gastaram mais 20 milhões de euros em cima dos 11 milhões com que entram todos os anos. Só em alugueres (FIL e Altice Arena) gastou-se 4,7 milhões.
Esperava-se mais de 100 mil visitantes mas o número destes não ultrapassou os 76 mil. O retorno de 180 milhões de euros não passou de projecções. O impacto no estrangeiro foi praticamente nulo, maioritariamente a comunicação social  internacional  ignorou o evento e, além do mais, os custos dispararam.
O professor João Duque, director da nossa melhor business school, diz sabiamente: sobre a websummit “o que se deve perguntar é se se perdeu alguma coisa pelo facto dos participantes da websummit virem até Lisboa, porque para virem aquelas pessoas deixaram de vir outras.”
O economista Eugénio Rosa vai ainda mais longe: “As projecções do Governo não têm qualquer base real”. E lembra um caso que deveríamos ter mais presente nos nossos espíritos, a organização do Euro 2004, o campeonato de futebol que  nos custou os olhos da cara.
Realmente, a UEFA dizia que Portugal seria compensado com 260 milhões de turismo, mais 290 milhões de publicidade. Mas a realidade é que nem metade destes valores foram alcançados e o Tribunal de Contas explica preto no branco que o Estado e as autarquias ainda tiveram de suportar 1.035 milhões de euros com a construção de estádios cuja maioria não é utilizada, à excepção dos que pertencem aos três grandes clubes.
Esses estádios (três construídos a 60 km uns dos outros – Coimbra, Aveiro e Leiria) continuam a ser um pesado encargo para as autarquias que os querem vender sem que haja quem compre.
Deixem-me que esclareça que sou a favor da websummit, mas  sem subserviências nem parolices e com contas certas e a saber-se  explorar o acontecimento a bem de Portugal. Mas com esta websummit, garantido, garantido foi aquilo que receberam os palestrantes (à média de 50 mil euros por palestra, mais despesas de viagens para o próprio e um acompanhante, em primeira classe, e estadia em hotéis de 5 estrelas). 
Claro que  Paddy Cosgrave recebe tanto ou tão pouco que lhe dá para afirmar com aquele ar displicente dos chicos-espertos que não sabe quanto ganhou ou perdeu.  De facto, ele nem faz as contas às receitas das camisolas de malha da mulher, vendidas aos participantes a 780 euros, umas, e a 850, outras.
Gosto mais das camisolas da Nazaré que vendem na rua, no parque Eduardo VII ou no Padrão dos Descobrimentos. Ou então vou a Bergen, na Noruega, ou a Shetland, e  compro outras  camisolas de lã de que também gosto muito. Pelo preço duma camisola  do Cosgrave juro que vou numa low cost ida e volta, fico num bom B&B e ainda me sobra dinheiro para umas cervejinhas.
Publicado no Minho Digital

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21.11.19

ICAR – Da primeira à última confissão - Crónica

Por  C. Barroco Esperança

Quando a Ti Ricardina e a menina Aurora, sua sobrinha, me ensinavam o catecismo e o ódio aos judeus, comunistas, maçons, sacrílegos, apóstatas e outros malfeitores que não seguiam a única religião verdadeira, a delas, não imaginava que lhes guardaria a afeição que se dispensa a quem devemos a primeira vacina.
O meu nascimento na casinha térrea no Bairro Galego, de Escalhão, naquele dia 17 de dezembro de 1942, viria a ser premonitório do nascimento de um ateu, tal o número de candidatos a padrinhos de batismo do neófito. Eram o Tó Vieira, de Almeida, o meu tio Alfredo, o prof. Carlos, o único que tratei por padrinho, que viria a presentear-me com o ‘Cristo Nunca Existiu’, de Emilio Bossi, e à madrinha Irisalva, sua cunhada.
A fé e o medo do Inferno vieram durante o tempo da escola primária, e foi na catequese que o medo do Inferno e das almas do outro mundo veio ao meu encontro pela voz das doces catequistas. O Purgatório era outro dos medos e o Limbo motivo de desolação. O sofrimento de Cristo e a raiva a Pôncio Pilatos, metido acidentalmente no Credo, eram torturas para a criança sensível que fui.
Um dia assisti a um pôr do Sol com vermelhidão intensa antes de entrar na igreja e de pedir uma explicação à Ti Ricardina, que logo esclareceu que era um sinal de que os comunistas matariam os cristãos, tinha-o dito a Lúcia. Eu, que rezava pela conversão da Rússia, todas as noites, como a Lúcia pedira, saí da catequese a chorar, e foram outros garotos, indiferentes à Lúcia, aos comunistas e à catequista que me levaram a casa onde perguntei à mãe se o meu pai, que não ia à missa, teria culpa pelo perigo que corriam os cristãos. De como a minha mãe tentou tranquilizar-me, não me recordo. Sei que o meu pai, no domingo seguinte, esperou o padre à saída da missa e queixou-se da ignorância das catequistas e dos terrores que infundiam, alertando-o para os disparates com que lhe aterrorizavam o filho. Regressou espantado com a resposta do padre, que lhe confirmou ser verdade a advertência da Lúcia e a necessidade de rezar pela conversão da Rússia. E que perigoso era para um casal de funcionários públicos tirar o filho da catequese!
Ficou o agnóstico descoroçoado e o filho a viver terrores noturnos com as labaredas do Inferno a entrarem nos sonhos, as caldeiras de azeite fervente a frigir almas e o Diabo a mergulhá-las com um enorme garfo de três dentes, durante os anos sacramentados com a eucaristia e a penitência até à confirmação que o Sr. Dom Domingos me impôs por se ter finado o antecessor, José Alves Matoso, que o Senhor chamara, depois de 38 anos de mitra, báculo e anelão, à frente da diocese.
Tinha, pois, dez anos quando fiz a comunhão solene, vestido de Cruzado, e fui crismado pelo Sr. D. Domingos, que me besuntou com os santos óleos para os quais o padre Faria não tinha alvará, o que levou o Sr. Bispo a deslocar-se ao Cume e a indagar quem queria ir para o seminário. Antecipei-me aos outros e disse-lhe logo que só o Zé Marcelino.
Nesse ano entrei no liceu da Guarda e nunca mais rezei o terço ou me lembrei do mês de Maria, em maio, quando todas as noites sofria o frio da igreja enquanto o Sr. António Bernardo orientava o terço, com cada mistério a arrastar um pai-nosso e dez ave-marias.
Até da missa, com posologia semanal, comecei a fazer o desmame. Nos três primeiros anos só fui à missa no 1.º de Dezembro, a desfilar fardado da Mocidade Portuguesa, e à missa pascal, com comunhão, antecipada para não coincidir com as férias, precedida da desobriga coletiva que o padre Cabral e o Dr. Ramalho estimulavam.
Foi já no 4.º ano, quando perguntei ao confessor se eu podia deixar de cometer pecados, dado que Deus já sabia que os cometeria e teria culpa. Foi dramático ouvir dizer-me que tinha a mão de Satanás na garganta e que não podia dar-me a absolvição, embora eu não sentisse tal mão. Já resignado a erguer-me, sem os sinais cabalísticos que lavam à alma os pecados, olhei para trás e vi o Dr. Ramalho genufletido, à espera da sua confissão, e de cuja vingança pia tive mais medo do que do eventual castigo divino. Num ápice disse ao padre que Satanás tinha tirado a mão, e eis que me mandou rezar o ato de contrição e me deu a almejada absolvição. Preenchi a ficha para a estatística da paróquia da Sé, que ficava no padre, e não era previsível que fosse enviada a Deus, com as pernas a tremer.
No dia seguinte não fui à missa nem à comunhão. Acabou aí a relação com a Igreja que tanto pavor me provocara. Só voltei à missa na consagração do curso de 1959/61 da Escola do Magistério da Guarda, tradição vigiada pelo diretor, quando os docentes do ensino primário eram obrigatoriamente católicos, mas dessa missa, da dissimulação a que fui constrangido e das respetivas circunstâncias hei de falar noutra crónica.
A visão do Dr. Ramalho não me reforçou a fé, mas levou-me a resistir ao proselitismo, a libertar das crenças e a reagir à repressão. Devo muito a ele, às minhas catequistas e à multidão de sotainas que enxameavam a Guarda com um padre tonsurado dentro, de colar romano ao pescoço.
A vacina vitalícia da descrença foi aquela última confissão. Já leva 62 anos de eficácia.

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17.11.19

Grande Angular - Imigrantes

Por António Barreto
Já se percebeu que a imigração (incluindo todos os tipos possíveis: trabalhadores legais e ilegais, familiares de residentes, europeus, africanos, asiáticos, permanentes e temporários, refugiados e perseguidos) é um dos mais complexos factores de instabilidade na Europa, um dos mais sérios perigos para a paz e a estabilidade europeias e uma ameaça para a cultura e o desenvolvimento. Seja pelo que a imigração, em certas condições, pode trazer consigo. Seja pelas reacções de tantos europeus contra a imigração. Nenhum país europeu tem actualmente uma política mais ou menos consensual (pelo menos clara, durável e maioritária) relativamente à imigração, nem os países europeus se conseguem entender entre si para uma política comum. A imigração é um dos grandes factores de divisão nacional e da Europa.
A imigração em Portugal tem sido objecto de debates esporádicos, mas de conclusões erráticas, geralmente dominadas pelas questões políticas e europeias. Verdade é que Portugal não se pode orgulhar de ter uma política de imigração conhecida e estável. Navega ao sabor das primeiras páginas e das emoções das fotografias publicadas. Acompanhamos à distância o que se passa no Mediterrâneo (onde a Marinha portuguesa colabora com eficiência no patrulhamento daquele mar e no resgate de náufragos), sabemos das questões políticas que aquecem a Itália, a França, a Turquia e a Hungria e pouco mais. O país vai recebendo africanos e brasileiros, indianos e nepaleses, romenos e ucranianos, em quantidades incertas, em condições ainda mais confusas e com legalidade muito relativa.
Os últimos meses têm sido férteis em notícias demográficas. Ficámos a saber que a população portuguesa está a diminuir (além de envelhecer muito depressa). Que dentro de poucos anos voltaremos a ser menos de 10 milhões. Que o saldo natural (nascimentos menos óbitos) é negativo. Que a natalidade é muito baixa. Que o saldo migratório é positivo (entram mais imigrantes do que saem emigrantes). Que aumenta o número de estrangeiros que se naturalizam. E que continua elevado o número de emigrantes portugueses para o estrangeiro.
Há hoje, como revelam o Eurostat, o INE e o El Pais, suficiente evidência dos efeitos positivos da imigração para os países de acolhimento. A renovação demográfica contribui para o rejuvenescimento da população. A variedade da mestiçagem é um elemento positivo para a abertura das sociedades. A imigração está directamente ligada ao desenvolvimento social e económico e contribui para o aumento da produção, do rendimento e do crescimento, assim como para o reforço da segurança social.
Há estatísticas suficientes em toda a Europa que mostram como os imigrantes, em geral, deram um enorme contributo para o crescimento económico. Sem eles, muitos dos países europeus teriam crescido, desde os anos 1980, menos 20% a 30% do que realmente cresceram.
Há também, para os países de acolhimento, sinais de efeitos negativos da imigração. Agrava o descontrolo dos movimentos de população. Está muito ligada ao tráfico de mão-de-obra. Permite com frequência uma excessiva exploração salarial e laboral. Provoca reacções de recusa, assim como estimula o preconceito e o racismo de ambos os lados. É fonte de conflitos étnicos e religiosos. Favorece a coexistência conflituosa de dois ordenamentos jurídicos ou de duas legalidades rivais. Permite facilmente a criação de verdadeiros guetos. Encoraja o confronto violento de costumes contraditórios.
Há ainda experiência indiscutível noutros domínios. Os imigrantes, em Portugal e em toda a Europa, têm piores empregos, mais baixos salários, são mais precários, têm piores apartamentos e habitações, têm mais desemprego, menor formação profissional, menos educação e serviços de saúde em piores condições.
Necessitamos da imigração. É bom para renovar a população. Cultiva a mestiçagem, que é o nosso futuro, tal como afirmava De Gaulle. É bom para a variedade, a cultura e a economia. É bom para os direitos humanos e para a solidariedade. Nós ganhamos com a imigração. “Nós” somos os Europeus de origem ou naturalizados, de todas as cores, de várias crenças, residentes, eleitores e contribuintes. Há dados em toda a Europa que sustentam que os imigrantes não ficam com os “nossos” apartamentos, não casam com as “nossas” mulheres, não se apropriam dos melhores empregos, não têm mais subsídios sociais, não gastam em bares da noite os subsídios de desemprego…
Tudo leva a crer que, para evitar problemas graves, seja necessário controlar, tanto quanto possível, os fluxos migratórios; estabelecer quotas indicativas de imigrantes, segundo as origens e as profissões; ser extremamente firme na repressão à imigração ilegal e só tolerar a legal; castigar severamente todas as redes de tráfico de trabalhadores; reduzir à verdade a noção de refugiado político.
Parece impor-se a recusa da política de portas abertas, receita para enormes desastres políticos, como se vê em vários países europeus. Assim como a recusa da política da fortaleza fechada, prejudicial para a demografia, a economia, a cultura e os valores da liberdade.
Tentar controlar a imigração e manter a sua legalidade são acções das autoridades. Mas importa também, evidentemente, que as sociedades consigam contrariar a importação dos valores da violência e do fanatismo religioso, que se contam entre as piores ameaças da liberdade. O que significa também não importar o machismo, a submissão da mulher, o tráfico de mulheres menores e de crianças, a venda de mulheres e de jovens, o casamento compulsivo, o poder paternal com direito a uso de violência, a pena de morte, as penas de apedrejamento e amputação, os castigos públicos, as decapitações sumárias, a excisão, a infibulação, todas as formas de mutilação ritual, a escravatura sexual, o tráfico de prostitutas… 
Será Portugal, serão os países europeus e será a Europa capazes de evitar o fanatismo dos defensores da imigração e a intolerância dos inimigos dos imigrantes? Verdade é que já há no mundo democracias ameaçadas ou suspensas nas quais a questão das migrações é central. Não faltam a violência e os muros. Não é só entre os Estados Unidos e o México, entre Israel e a Cisjordânia, entre a Hungria e a Sérvia ou entre a Macedónia e a Grécia. É também na Polónia, na França, na Itália, na Turquia, na Rússia, no Brasil ou na Colômbia. Se não nos adiantamos, chegará também, um dia, a nossa vez!
Público, 17.11.2019

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15.11.19

Mar de Plástico

Por Joaquim Letria
Aqui há tempos vi no NETFLIX uma série muito interessante chamada “Mar de Plástico”. Passava-se no Sueste de Espanha e a história decorria num gigantesco emaranhado de plástico onde centenas de imigrantes, agricultores espanhóis e trabalhadores magrebinos produziam uma rica indústria agro-alimentar. Claro que a série não era biológica nem agrícola… era sobre assassínios em série e o tráfico humano que ali se acobertava e constituía o prato forte da corrupção, da justificação dos gangs, da presença duma máfia sérvia e da actividade das ONGS ambientalistas que ali se movimentavam. Um belo thriller que se via com agrado.
Mas porque estou eu a falar-vos agora disto?
Porque no outro dia atravessei parte do Alentejo de carro e verifiquei que no trajecto já eram imensas as estufas de plástico que encobrem parte da planície, montadas sobretudo por empresas espanholas que cada vez mandam mais nas nossas culturas. E aquilo que vi fez-me recordar a série da TV e ficar triste pelo que aqui vai acontecendo.
Então, porque vem isto a propósito?
Ora, porque acabei de saber que o nosso bem amado governo, antes de se entregar à finalização do negócio do lítio e de satisfazer os franceses com o aeródromo do Montijo, acaba de autorizar o aumento de 3600 para 4800 hectares de plantações em estufas, túneis elevados, túneis simples e estufins no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e na Costa Vicentina. O mar de plástico que ali já existe autorizado por estes nossos queridos governantes passa assim de 30% para 40%, ou seja: para quase 5 mil campos de futebol… Pelas contas feitas por técnicos independentes, a área ali coberta por plástico passa a ser a equivalente a metade do Concelho de Lisboa!
Claro que os ministérios do Ambiente e da Agricultura do nosso imenso governo irão explicar que isto se deve ao progresso e ao sucesso socialista. E obviamente procurarão disfarçar que esta agricultura é massiva em fertilizantes e pesticidas, destruidora da paisagem e incompatível com os objectivos dum parque natural, além de ser explorada em zona protegida.
O que nos vale é que estes nossos bem amados 70 ministros e secretários de Estado são todos climáticos e ambientalistas! Olhem se não fossem!
Publicado no Minho Digital

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14.11.19

O Liceu Nacional da Guarda – Crónica

Por C. Barroco Esperança

Aprendi cedo a palavra discurso, mas só conheci a substância e a forma profana no dia 1 de outubro de 1953, na abertura solene das aulas, numa encenação elogiosa para uns fulanos, todos homens!
Até aí, sem rádio na aldeia onde estudei até à 4.ª classe, jamais ouvira os discursos dos salazaristas, incluindo os do homem que a Providência enviara a Portugal, segundo a senhora de Fátima disse à Sr.ª Lúcia dos Santos, agora em trânsito para a santidade, e que a confidência epistolar do cardeal Cerejeira ao próprio, havia de tornar público.
Ouvira vários discursos sem saber que o eram, porque se designavam homilias, sermões ou pregações, discursos pios, da parenética e não da oratória profana.
Foi, pois, no dia já referido que, em rigoroso silêncio, ouvi vários discursos, embora não os distinguisse do principal, que um professor proferiu sob o epíteto de oração solene. Eu só conhecia as orações gramaticais, que qualificava com extraordinário à-vontade, e as orações pias que recitava, sem me enganar, na igreja e antes de adormecer.
Os discursos pareciam-se. Se a memória não me trai, começaram todos de modo igual, exceto o do Reitor, por não se referir a si próprio: senhor Governador Civil, senhor Presidente da Câmara, senhor representante de Sua Excelência Reverendíssima o Sr. Bispo da Guarda, Senhor Reitor, Excelentíssimas autoridades civis, militares e religiosas, senhores professores, alunos.

Apelando ainda à memória longínqua e desvanecida, penso que a encenação teve lugar às 15 horas, o que faz sentido, para não apressar a refeição de tão excelsas criaturas nem prejudicar a digestão que tais excelências mereciam.
Quando os oradores faziam pausa, para tomar fôlego, virar a página ou molhar os lábios com um gole de água, estava dado o sinal dos aplausos que ecoavam no espaço do R/C, o retângulo reservado às meninas, defendido dos alunos do sexo masculino por um risco que nenhum ousava pisar. Apenas a abertura das aulas, os atos culturais e os desportivos abriam a exceção.
Nesse dia, identificados pela farda, os contínuos, cujas funções, designação e categoria ignorava, ensinaram os alunos do 1.º ano a encontrar a pauta da turma, onde constavam os números e os nomes, e a dos horários das respetivas disciplinas.
Nos dias seguintes procuravam-se as papelarias do Sr. Casimiro e do Sr. Felisberto para comprar livros e outro o material escolar, e pedir impressos dos horários, para registar as aulas e a sua sequência nos dias da semana.
No dia 8 começaram as aulas. Os professores apresentaram-se e fizeram a chamada que, de futuro, passou a ser função do chefe de turma. Eram aulas de apresentação. Aprendi que os professores se chamavam Senhor Doutor Ezequiel Mendonça, Senhor Doutor Pacheco e Senhor Doutor Monteiro da Fonseca e que a professora, tal como a Senhora Dona Beatriz Salvador ou a Senhora Dona Lucília, se chamava Senhora Dona Elisa de Carvalho, o que fazia a distinção dos contínuos, que se chamavam Senhor Almeida, o chefe do pessoal menor, Senhor Cruz, Senhor Vitória, Senhora Celeste ou no caso de contínuas solteiras, Menina Fausta, por exemplo. Faltava o Doutor aos contínuos e às contínuas Dona.
O respeitinho era muito bonito e só os senhores padres, Senhor Padre Cabral, Senhor Padre Inácio ou Senhor Padre Melo, seguidos facultativamente por Vossa Reverência, tinham tratamento diferenciado.
As aulas começaram, com as chuvas cada vez mais intensas, até virem a neve e o gelo com os beirais dos telhados a susterem gigantescos pináculos invertidos de gelo, que pareciam estalactites, e as árvores da cidade a cobrirem-se de sincelo.
O liceu tinha aquecimento central uma semana por ano, enquanto durava o combustível. Acabada a verba e o conforto, ficavam gelados os irradiadores a vapor, com as salas à temperatura ambiente, e a água gelada na jarra da secretária, moldada num bloco sólido pela forma do recipiente.
Engadanhadas, as mãos deixavam cair a caneta para escrever os sumários ou responder às perguntas dos pontos escritos, respondidas em folhas de trinta centavos compradas ao senhor Ulisses na cantina; as frieiras corroíam as orelhas e o nariz; e o cieiro gretava os lábios que a manteiga de cacau aliviava, comprada ao Sr. Teixeira na Farmácia a que dava o nome. Cinquenta centavos adquiriam um duradouro pedaço de excelente odor e eficácia.
É difícil calcular as condições suportadas na cidade onde a água faltava, congelada nos canos. Era preciso trazê-la dos chafarizes onde ainda corria. Junto ao Hotel Turismo as casas não tinham saneamento, à semelhança de muitas outras no Torreão e no Bonfim.
No liceu respirava-se medo. O reitor metia medo, os contínuos policiavam os alunos, e as alunas eram ainda mais condicionadas, proibidas de usar calças, com a temperatura a descer a -6º ou -7º.
No início dos trimestres, a acrescentar ao preço das matrículas, no início do ano, 150$00 de propinas, multiplicados pelo número de filhos matriculados, pesavam no orçamento dos pais.
Os alunos ouviam o Zé Vilhena a mandar ler a um aluno o compêndio de História, esse manual de propaganda ideológica a que Zeca Afonso chamou o Evangelho Segundo São Matoso, e a dizer, a cada esgar, ‘sublinhai’, e nas chamadas a dizer “anda burro, diz o que está no livrinho, quem fez o livro sabia mais do que tu e do que eu”. Às vezes perguntava ‘qual é a besta que está a falar’, e logo respondia, ´quem está a falar sou eu’.
O António Pinto não acertava uma única experiência, sabotado pelos alunos enquanto a caderneta caía nas mãos do Fatela, sobrinho do padre da Meimoa, com cujo dinheiro da caixa das almas, jogávamos bilhar na Cristal e que alterava algumas notas. Arreliava-o a experiência falhada e a pergunta de alunos que lhe perguntavam se era verdade que nas curvas mandava a D. Céu a ver se vinha algum carro em sentido contrário. Nesse tempo havia muito respeito pelos professores.
O Pacheco marcava exercícios de surpresa para uma próxima quinta-feira e agarrava as orelhas de alguns alunos a dizer-lhes ‘cabecinha de burro, na quinta-feira, exercício de surpresa’, e não falhava o dia da surpresa que anunciava.
O Ramalho, que era uma exceção como bom professor, beato e frustrado, cultivava um amor platónico pela colega Libânia, e envelheceram sem que ele tivesse coragem de lhe dizer o que sentia ou ela de o ouvir. Hão de ter morrido celibatários.
Das aulas de Religião ficou-me o gosto pela leitura. O padre Cabral dizia-nos os livros que não devíamos ler. A maioria era estimulante e boa literatura. Não encontrei melhor critério do que o do padre José Maria Cabral, bastava ler os que desaconselhava e evitar os que recomendava. Aliás, o padre Pôpo, responsável pela Biblioteca Municipal, não negava um livro pedido, talvez afastado do múnus por causa da filha que se dizia ter.
Surpreende como éramos felizes em condições precárias, com a repressão e a vigilância a que éramos sujeitos, sobretudo às meninas. O uso de calças era-lhes proibido e no estio as meias continuavam obrigatórias, sob a vigilância de uma contínua. Quase tudo era proibido e parecia mal, que raio de mentalidade arcaica e provinciana, em casa, no liceu e na sociedade! O Mondego e a Cristal, o Monteneve era para os professores, eram os cafés onde só os rapazes entravam.
Parece paradoxal, mas sente-se imensa saudade desse tempo, os afetos explodem com as memórias, é avassaladora a ternura para com antigos colegas, e imensa a indulgência para com os censores de então. As condições precárias não nos afetaram, só se sentem quando há noção da falta. A repressão, essa, é o cimento de afetos que resistem ao tempo e nos conduzem ao lugar de onde partimos numa peregrinação afetiva que povoa os sonhos dos velhos que nos tornámos em busca da juventude que, na Guarda, dentro e fora do liceu, vivemos com a exuberância da idade e a turbulência das hormonas.
Ponte Europa / Sorumbático

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10.11.19

Grande Angular - Um Aeroporto e suas obras

Por António Barreto
As grandes obras são o “filet mignon” de certas políticas: a dos interesses e a que se julga acima da ciência. As grandes obras e os grandes equipamentos são em geral as jóias da coroa dos poderes autocráticos. Hitler, Estaline, Mao, Mussolini e até Franco e Salazar viviam momentos de rara volúpia diante das suas barragens e dos seus estádios. Eram deles os palácios da justiça, da cultura, dos trabalhadores ou do povo! E até democratas como Roosevelt e Mitterrand não deixaram de se sentir tentados pela epopeia da “obra pública”.
Na verdade, barragens, portos, linhas de caminho-de-ferro, aeroportos e redes de telecomunicações, de energia e de água, assim como aquisições especiais de fragatas, submarinos, aviões e locomotivas, são investimentos e obras que valem milhares de votos e milhões de euros. São obras que condicionam a economia e a sociedade durante décadas. Que criam emprego em quantidades inacreditáveis. Que dão lucros em volumes impensáveis. Que oferecem oportunidades para cunhas, empenhos, luvas, comissões e corrupção em valor inimaginável. As grandes obras condicionam a sociedade e a economia por largos anos: qualquer erro paga-se muito caro e pode ter consequências negativas nas vidas das pessoas e no endividamento de um país!
Um aeroporto novo de raiz, como o de Alcochete, ou grande desenvolvimento de estrutura anterior, como o de Montijo, têm profundos efeitos a longo prazo no futuro das populações, das áreas afectadas e até do país: pontes, viadutos, auto-estradas, linhas de comboio e de metropolitano, estruturas de cargas e descargas, oficinas de reparação e manutenção, instalações de serviços de grande porte, escritórios, hotelaria, segurança, estacionamentos, abastecimento, alimentação, etc. Um nunca mais acabar, com milhares de expropriações, muitos milhões na aquisição de terrenos, licenças de construção e urbanização e autorizações para edificação. Um aeroporto é uma cidade que condiciona as outras cidades, que determina uma parte do crescimento futuro, que tem efeitos negativos e positivos para milhões de pessoas e dezenas de anos! Percebe-se que são decisões difíceis e complexas, sem perfeição absoluta e que necessitam de muito estudo e muita inteligência! Mas não são estes factos ou estas exigências que justificam que uma decisão demore mais de cinquenta anos e que mude de local escolhido quatro vezes, como é o caso do futuro aeroporto de Lisboa!
Acrescente-se que, nos tempos contemporâneos, estas decisões são ainda mais difíceis. A democracia dá voz a toda a gente e a todas as opiniões, legítimas e ilegítimas, sérias e fantasiosas. Surgem todos os dias novos problemas, sobretudo os relativos à qualidade de vida, à ecologia e às alterações climáticas. Há seguramente contradições fundamentais entre criação de emprego, adequação do investimento público, oportunidades para investimento privado, segurança dos cidadãos, poluição sonora e do ar, destruição da flora e da fauna e desenvolvimento da economia em geral e do turismo em particular. Mas sabemos que não há decisões perfeitas e que um aeroporto terá sempre amigos, inimigos e adversários. Como tudo na vida.
Em democracia, não há aeroporto sem polémicas, interesses, lutas, protestos, devaneios tecnológicos, ameaças ambientalistas e horrores ecológicos. Não é difícil encontrar quem pense que os voos e os aviões têm os dias contados, que as pessoas não deveriam viajar e que o turismo necessita de um “numerus clausus”. Todos conhecemos quem entenda que deveríamos eliminar a poluição sonora, sobretudo a que resulta do sobrevoo de cidades e de zonas de habitação. Ainda recordamos batalhas e controvérsias em Heathrow, Frankfurt, Berlim ou Paris. Nos Estados Unidos, no Japão e no Brasil.
Mas em quase todas as controvérsias houve sempre ou quase sempre um momento em que os ânimos acalmaram, que se introduziu alguma racionalidade e se fizeram correcções aos projectos iniciais. E que se tomaram decisões e se fez obra. Foi nesses momentos que se sentiu que havia centros de competência e racionalidade, grupos de pessoas qualificadas e interessadas, empresas ou associações ou universidades isentas e independentes. Foi nesses momentos que se sentiu que, além dos trafulhas habituais, mau grado os pesos pesados dos interesses e do produto, havia também gente honesta e preparada!
Lamento dizer, mas, em Portugal e para o novo aeroporto de Lisboa, temos tudo, menos isso, honestidade e competência, isenção e independência. Se existem essas qualidades, não as vemos ou foram silenciadas. Ou a essas o governo não recorre.
O Estado continua a revelar a sua falta de capacidades intelectuais, técnicas e científicas, assim como a ausência de “ethos” isento e independente. Em tudo o que cheire a grande obra, o Estado aparece sempre e cada vez mais capturado, impotente e incompetente… 
Foi este Estado que, durante décadas e alternadamente, hesitou e decidiu, eliminou e escolheu Ota, Rio Frio, Alcochete e Montijo. Mas também Alverca e Sintra. E já agora Monte Real e Beja. Foi o Estado português, sucessivamente salazarista, marcelista, gonçalvista e democrático que, desde os anos sessenta, isto é, há cinquenta anos, vem pensando em construir um aeroporto desde sempre considerado urgente! E muda de opinião com a firmeza dos ignorantes e a certeza dos interesses. A perda de capacidade científica independente do Estado é uma das mais graves falhas das últimas décadas.
É frequente encontrarmos as mesmas pessoas, as mesmas universidades, as mesmas empresas, os mesmos bancos, os mesmos promotores e os mesmos especialistas em vários projectos e várias soluções. Há ministros e secretários de Estado que estavam em funções quando foram tomadas duas ou mesmo três decisões contraditórias. Também se conhecem profissionais, engenheiros, economistas, consultores e construtores que apoiaram decisões opostas, talvez até com os mesmos argumentos!
As esquerdas, auto-suficientes, exauriram o Estado competente, técnico e inteligente, para o transformar em agente político e já agora em sua coutada. As direitas, cúpidas, esvaziaram o Estado sabedor, capaz e independente, para entregar poderes e competências aos negócios e aos privados. O Estado, hoje, é alfobre de negócios, tapada dos partidos, autoritário como os ignorantes, convencido como os déspotas! E ao serviço da política mais barata, a dos interesses. Bonito serviço!
Público, 10.11.2019

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8.11.19

A Exportação da Violência

Por Joaquim Letria
Comícios, protestos e manifestações eclodiram por todo o mundo. Impostos, taxas excessivas, vida cara, corrupção, injustiças climáticas, desemprego e fome aumentam a fúria dos povos um pouco por todos os sítios. Mas como se espalharam essas formas de protestar pelo mundo fora?
Analisando as notícias das últimas semanas é fácil perceber que o mundo está envolvido em corrupção que enfurece os cidadãos.
No Líbano, incendiaram Beirute contra um aumento de 20 cêntimos nas chamadas telefónicas. Os chilenos puseram Santiago a ferro e fogo por causa dum aumento de 17 cêntimos nos preços dos transportes. As ruas do Equador encheram-se de lixo, destroços e entulho que serviram de armas de arremesso aos manifestantes contra a retirada dum subsídio dos combustíveis. Na Bolívia, La Paz foi cenário de violentos protestos contra uma não comprovada fraude eleitoral.
Na África Ocidental, a Libéria está em permanente agitação, a República Centro Africana é cenário de tiroteios constantes e o Sudão nunca deixa de estar a ferro e fogo. Na Guiné, uma mudança na duração dos mandados presidenciais provocou mortes sem fim, os Mexicanos manifestam-se contra os cartéis da droga que matam dezenas de cidadãos e polícias. Na Faixa de Gaza israelitas massacram jovens palestinianos e Hong Kong continua na confusão meses depois dos chineses terem tirado a extradição que o território exigia.
Barcelona não pára de protestar contra Madrid, os agricultores holandeses manifestam-se com os seus tractores e em França os “Coletes Amarelos”continuam, ao fim de meses, a exigirem nas ruas melhores salários e condições de trabalho.
As manifestações e a violência parecem ser contagiosas. Um estudo da Universidade do Arizona diz que o protesto é contagioso, com a acção colectiva no estrangeiro a estimular o aparecimento de reacções internas idênticas. O antigo diplomata chinês Wang Zhen escreveu no Beijing News que “o impacto desastroso duma Hong Kong caótica começou a influenciar o mundo ocidental”. O Governo chinês também diz que Hong Kong está a exportar violência.
O drama é que responder à violência com mais violência aumenta a violência, enquanto a passividade é um sinal de fraqueza. O antigo chefe da polícia de Madison, Wisconsin, aconselha a proximidade. “Juntem-se a eles, falem com eles e mantenham o contacto e a proximidade”. Para os especialistas experientes em comportamentos de multidões e violência esta é a melhor maneira de ter um bom resultado. Será?!
Publicado no Minho Digital

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7.11.19

Miguel Albuquerque e a grotesca imitação de A. J. Jardim

Por C. Barroco Esperança
O novo sátrapa pretende ser um novo Jardim, e não passa de medíocre avatar. O louvor do Governo Regional ao major-general Cardoso Perestrelo, afastado do Comando Operacional da Madeira pelo EMGFA, por ter mandado transportar, para um torneio de golfe, o canhão que um civil disparou, foi uma afronta à decisão da hierarquia militar do País.
A Madeira vive ainda do confronto com o Governo de Lisboa, que atura os desmandos dos sobas autóctones. O louvor, vindo de onde vem, é a pena acessória ao afastamento do militar que fez do material de guerra brinquedos para divertimento da elite local.
As exigências dos governantes da Madeira que não mudam de partido, nem na ditadura, que apoiaram, nem na democracia, que contestam, tornam-se intoleráveis.
O pomposamente designado XIII Governo Regional da Madeira faz exigências a Lisboa que o elementar bom senso devia obrigar a recusar. Os excessos autonómicos vacinaram o Continente contra a Regionalização e os sucessivos governos nacionais subjugaram-se aos desmandos insulares, dotados de uma faraónica máquina político-administrativa.
Os impostos recebidos nas Regiões Autónomas são aí retidos e os seus Orçamentos são participados em cerca de 40% pelo OE e subsídios da UE para regiões ultraperiféricas. Açores e Madeira não pagam as despesas com as forças militares, policiais e prisionais, nem com os Tribunais, e não participam nos encargos com organismos internacionais, ONU, NATO, representação externa do Estado ou para a própria UE de onde recebem uma fatia do seu orçamento.
O dever de solidariedade do País com todo o seu território, isto é, com todos os seus cidadãos, não se discute, mas acontece que a Madeira é já uma das regiões mais ricas do País, indiferente ao abandono a que o interior continental e as suas gentes são votados.
É fácil aumentar funcionários públicos, que o OE não contempla, quando os sucessivos défices excessivos são endossados ao Governo da República. Foi imoral o desrespeito à moralização imposta, impossibilitar a adição de vencimentos do Estado às reformas da Segurança Social, que obrigou Cavaco Silva a prescindir do vencimento de PR e a optar pelas reformas, mais substanciais, mas não impediu Jardim de receber o vencimento de Governador, equivalente a ministro, com a reforma de professor, no 7.º escalão.
O crescimento superior à média nacional que Miguel Albuquerque exige para a Madeira à custa dos desequilíbrios agravados nas Beiras, Alentejo e Trás-os-Montes é ultrajante. É a indiferença de quem quer manter o poder à custa dos privilégios que comprometem cada vez mais a equidade nacional.
O programa do XIII Governo Regional da Madeira é o caderno de encargos para o OE, cheio de ameaças e tiques autoritários, que morde a mão que perpetua o poder político do sátrapa local.
É altura de olhar para as zonas mais desfavorecidas e resistir à permanente chantagem da Madeira sem permitir a perpetuação do paraíso de governantes inimputáveis.

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6.11.19

No "Correio de Lagos" de Out 19

«Errar é humano, e humano é também evitar corrigir o erro» (R. Reycraft)

A foto que escolhi para ilustrar a crónica deste mês já é conhecida dos leitores mais atentos, pois foi publicada neste jornal, na secção “Buracos e Companhia”, há nove meses — tempo que é suficiente para gerar um ser humano, mas não para que os serviços “competentes” corrijam o que ela documenta. 
E escolhi esta (e não outra, das muitas possíveis) porque faz a transição perfeita entre Lawrence Peter, que foi tema da crónica do mês passado, e o seu contemporâneo Edward Murphy (1918-1990), como adiante veremos. 
Antes de mais, é curioso saber-se que O PRINCÍPIO DE PETER (“Numa organização hierarquizada cada elemento tenderá a ser promovido até atingir o seu Nível de Incompetência”) não foi escrito pelo próprio, mas sim por Raymond Hull, a partir dos apontamentos daquele: senhor de um grande senso de humor, Peter dizia que se sentia incompetente para escrever sobre a incompetência, pelo que delegou a tarefa em quem o poderia fazer melhor — decisão muito acertada, pois a obra foi um “best seller”. 
Peter, então, tendo-se fartado de ganhar dinheiro, resolveu voltar ao tema, desta vez pela sua mão, com A ANÁLISE DE PETER e O RECEITUÁRIO DE PETER, que, no entanto, são apenas sequelas — confirmando, com isso, que todos somos incompetentes, só que em coisas diferentes: pode ser-se um competente professor universitário e uma anedota como ministro... 
Ora, uma das curiosidades do Princípio de Peter é o facto, que o próprio autor salienta, de se tratar de um “princípio” e não de uma “lei”. 
Ou seja: se as pessoas envolvidas forem suficientemente inteligentes e informadas, será possível escaparem a essa perversa atracção — mas trata-se de excepções que apenas confirmam a regra. 
Diz também Peter que todas as organizações conseguem carregar consigo uma certa percentagem de incompetentes, limitando-se a segregar os super-competentes (porque colocam em causa os restantes trabalhadores) e os super-incompetentes (pois são letais para a organização). 
Mas não estou suficientemente a par da história de Lagos para confirmar o primeiro postulado (quantos responsáveis foram afastados, nos últimos anos, por serem demasiado bons?), e tenho sinceras dúvidas quanto ao segundo, como se pode ver por esta imagem que nos leva, então, a MURPHY e à sua famosa lei: “Qualquer coisa que pode correr mal irá correr mal”. 
Ao contrário de Peter, Murphy nunca ganhou um cêntimo com isso — o que é natural, tendo em conta que se tratou apenas de um desabafo (que alguém registou para a posteridade), no seguimento de um trabalho que ele, engenheiro aeroespacial, fez e que correu mal: uma determinada ficha, que só tinha DUAS POSIÇÕES possíveis, fora colocada na posição ERRADA, inutilizando todo o trabalho feito. 
Foi também o que sucedeu aqui (só havendo duas posições possíveis, o “artista” optou pela errada), o que nos faz voltar a Peter, com a constatação de que um incompetente nunca está só: para que esta aberração visse a luz dia, houve um outro incompetente que o colocou a fazer a tarefa, um terceiro que depois aprovou o trabalho, e muitos outros que, podendo e devendo corrigir o erro, o não fazem — desautorizando o consultor internacional que, salvo erro no famoso “Relatório Porter”, concluiu que “Os portugueses são muito bons a resolver os problemas que eles próprios criam”...
"Correio de Lagos" de Out 19

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3.11.19

Grande Angular - Famílias há muitas!

Por António Barreto
Durante a campanha eleitoral, um termo foi frequentemente utilizado, sempre em bom-tom e recolhendo os favores dos candidatos: família! Toda a gente se revê nela e reclama uma “política”. O problema curioso é que, conforme as pessoas e os partidos, se fala de coisas diferentes e de conceitos diversos. Dado que o assunto é delicado, todos preferem não qualificar. E assim se deixa correr o conceito mais vulgar, o de família nuclear clássica, cristã, legal, com coabitação de pais e filhos, por vezes uma terceira geração.
A popularidade do divórcio, a partir dos anos setenta, assim como o desenvolvimento de todas as formas de união, registadas ou não, com e sem coabitação, criaram situações que nos obrigam a ter cuidado quando falamos de famílias. Sobretudo na política, pois isso implica logo direitos e deveres, estatutos e impostos.
Um retrato muito rápido dá o seguinte. A população portuguesa está a diminuir. O crescimento natural cessou, depois estagnou e agora está em recuo. Os óbitos são mais do que os nascimentos. O saldo migratório é também negativo, isto é, mais emigrantes portugueses do que imigrantes estrangeiros. Vivemos, na década presente, um período complexo com os dois saldos negativos, o natural e o migratório.
A sociedade portuguesa envelhece. Por cada 100 jovens, já há 150 idosos! Em si, o envelhecimento é boa notícia, dado que significa saúde, água potável e melhor alimentação. Ao contrário do que se diz, envelhecer não é um problema, problema é a baixa natalidade! Ou morrer cedo! A má notícia é que o envelhecimento foi rápido de mais e Portugal tem uma das populações mais idosas do mundo. Ora, a sociedade parece não estar preparada para esse envelhecimento rápido: a idade de reforma, as pensões, os serviços de apoio, o envelhecimento activo, o acolhimento hospitalar e muitas outras realidades não estão preparadas.
Nesta situação demográfica, as famílias evoluíram. A dimensão diminuiu: 2,5 pessoas por família reduzida a duas gerações. A média do número de filhos é de menos de um por família! Aumentaram as famílias de uma só pessoa (perto de 1 milhão). Os casamentos católicos são hoje a minoria, foram superados pelos casamentos civis. E as uniões de facto ultrapassaram os casamentos. Os divórcios explodiram: quase 7 por cada 10 casamentos. Os filhos dentro do casamento foram superados pelos fora do casamento. Estes são 60% do total, dos quais um terço de mãe sozinha. A fecundidade fica-se por pouco mais de um filho por mulher em idade fértil, abaixo do patamar mínimo para que uma população se reproduza. Das 87 000 crianças nascidas num ano, apenas 37 000 nasceram de pai e mãe casados.
Em Portugal, haverá pouco mais de 4 milhões de famílias. Um milhão tem uma só pessoa. Um milhão de casais não tem filhos. Um milhão e meio são casais com filhos. E 500 000 são famílias monoparentais, isto é, quase sempre uma mãe com filhos. A dimensão média de uma família é de 2,5 pessoas. Com 6 pessoas ou mais, apenas existem 2%.
Por ano, efectuam-se cerca de 35 000 casamentos, dos quais quase mil entre pessoas do mesmo sexo. De todos os casamentos, apenas 11 000 são católicos. Mais de dois terços dos casamentos efectuados são apenas civis. Um quarto do total é de segundos casamentos. Cerca de um milhão de pessoas vive em “união de facto”, com ou sem coabitação. Ao mesmo tempo, realizam-se por ano 23 000 divórcios, o que faz com que haja 70 divórcios por 100 casamentos. Deste total, mais de metade é de pessoas que se tinham previamente casado pela Igreja.
Convém sublinhar vários factos. A mulher emancipa-se. O pai e a mãe estão ambos activos com emprego e em geral fora de casa. A escolaridade universal de 12 anos retira as crianças e os adolescentes de casa e do trabalho. Os pais têm cada vez menos interesse e tempo para a educação dos filhos, deixando às escolas esse papel de socialização. As famílias abandonaram as actividades agrícolas e industriais de proximidade e de comunidade, dedicam-se aos serviços, quase por definição dispersos. As famílias têm como concorrentes fortíssimos dispositivos: a escola, os professores, a televisão (cada vez menos), os computadores (cada vez mais), as máquinas de comunicação, as redes sociais e os grupos informais de jovens.
Muitas famílias refizeram-se de acordo com as migrações. Chegaram 150 000 famílias de origem estrangeira. Desenvolveu-se o pluralismo étnico, religioso e de costumes. A sociedade portuguesa ficou plural, a miscigenação desenvolveu-se pouco, mas a coexistência e a variedade sim. Dentro das famílias, as estruturas de poder e comportamento alteraram-se profundamente e, para o melhor e o pior, a “cultura jovem” condiciona o comportamento de toda a família.
As chamadas “novas famílias” abrangem realidades muito diferentes. Com e sem casamento. Com e sem filhos de um, dois ou mais casamentos. Uniões de facto com e sem coabitação. Monoparentais. Segundos e terceiros casamentos. Filhos de pais e mães diferentes. Sem coabitação necessária. Comunidades de residência com ou sem família. Do mesmo género masculino ou feminino, com ou sem casamento. Famílias de escolha e género de escolha. De várias religiões. Com e sem vínculo religioso. Famílias que se formam com novas formas e regras: pessoas do mesmo género, adopção como regra e várias formas de fecundação. Famílias de escolha e famílias sem relações de consanguinidade.
Toda esta variedade gera conceitos diversificados de chefe de família, de poder paternal, de cabeça de casal, de autoridade sobre os filhos, de papel na religião e na educação e de lugar dos anciãos. Também surgem conceitos diversos de ordem moral e jurídica, tais como os poderes de representar, de assumir a responsabilidade civil, de legar, de definir as profissões e de contratar os casamentos dos filhos. Sem falar nos hábitos e nos direitos de monogamia e poligamia.
Como sempre na história, a família está crise de mudança e transformação. Mas o mais interessante é a multiplicação de modelos de família, com implicações morais, religiosas, culturais, sociais e jurídicas. A variedade e o pluralismo podem ser sinais de progresso. Mas até onde pode ir a diversificação? Até à coexistência de várias religiões? Parece que sim. Vários costumes? Não há muitas dúvidas. Várias morais? Começa a ser complexo. Várias leis ou vários ordenamentos jurídicos? Aí já parece difícil. E, creio, impossível.
Público, 3.11.2019

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