14.11.19

O Liceu Nacional da Guarda – Crónica

Por C. Barroco Esperança

Aprendi cedo a palavra discurso, mas só conheci a substância e a forma profana no dia 1 de outubro de 1953, na abertura solene das aulas, numa encenação elogiosa para uns fulanos, todos homens!
Até aí, sem rádio na aldeia onde estudei até à 4.ª classe, jamais ouvira os discursos dos salazaristas, incluindo os do homem que a Providência enviara a Portugal, segundo a senhora de Fátima disse à Sr.ª Lúcia dos Santos, agora em trânsito para a santidade, e que a confidência epistolar do cardeal Cerejeira ao próprio, havia de tornar público.
Ouvira vários discursos sem saber que o eram, porque se designavam homilias, sermões ou pregações, discursos pios, da parenética e não da oratória profana.
Foi, pois, no dia já referido que, em rigoroso silêncio, ouvi vários discursos, embora não os distinguisse do principal, que um professor proferiu sob o epíteto de oração solene. Eu só conhecia as orações gramaticais, que qualificava com extraordinário à-vontade, e as orações pias que recitava, sem me enganar, na igreja e antes de adormecer.
Os discursos pareciam-se. Se a memória não me trai, começaram todos de modo igual, exceto o do Reitor, por não se referir a si próprio: senhor Governador Civil, senhor Presidente da Câmara, senhor representante de Sua Excelência Reverendíssima o Sr. Bispo da Guarda, Senhor Reitor, Excelentíssimas autoridades civis, militares e religiosas, senhores professores, alunos.

Apelando ainda à memória longínqua e desvanecida, penso que a encenação teve lugar às 15 horas, o que faz sentido, para não apressar a refeição de tão excelsas criaturas nem prejudicar a digestão que tais excelências mereciam.
Quando os oradores faziam pausa, para tomar fôlego, virar a página ou molhar os lábios com um gole de água, estava dado o sinal dos aplausos que ecoavam no espaço do R/C, o retângulo reservado às meninas, defendido dos alunos do sexo masculino por um risco que nenhum ousava pisar. Apenas a abertura das aulas, os atos culturais e os desportivos abriam a exceção.
Nesse dia, identificados pela farda, os contínuos, cujas funções, designação e categoria ignorava, ensinaram os alunos do 1.º ano a encontrar a pauta da turma, onde constavam os números e os nomes, e a dos horários das respetivas disciplinas.
Nos dias seguintes procuravam-se as papelarias do Sr. Casimiro e do Sr. Felisberto para comprar livros e outro o material escolar, e pedir impressos dos horários, para registar as aulas e a sua sequência nos dias da semana.
No dia 8 começaram as aulas. Os professores apresentaram-se e fizeram a chamada que, de futuro, passou a ser função do chefe de turma. Eram aulas de apresentação. Aprendi que os professores se chamavam Senhor Doutor Ezequiel Mendonça, Senhor Doutor Pacheco e Senhor Doutor Monteiro da Fonseca e que a professora, tal como a Senhora Dona Beatriz Salvador ou a Senhora Dona Lucília, se chamava Senhora Dona Elisa de Carvalho, o que fazia a distinção dos contínuos, que se chamavam Senhor Almeida, o chefe do pessoal menor, Senhor Cruz, Senhor Vitória, Senhora Celeste ou no caso de contínuas solteiras, Menina Fausta, por exemplo. Faltava o Doutor aos contínuos e às contínuas Dona.
O respeitinho era muito bonito e só os senhores padres, Senhor Padre Cabral, Senhor Padre Inácio ou Senhor Padre Melo, seguidos facultativamente por Vossa Reverência, tinham tratamento diferenciado.
As aulas começaram, com as chuvas cada vez mais intensas, até virem a neve e o gelo com os beirais dos telhados a susterem gigantescos pináculos invertidos de gelo, que pareciam estalactites, e as árvores da cidade a cobrirem-se de sincelo.
O liceu tinha aquecimento central uma semana por ano, enquanto durava o combustível. Acabada a verba e o conforto, ficavam gelados os irradiadores a vapor, com as salas à temperatura ambiente, e a água gelada na jarra da secretária, moldada num bloco sólido pela forma do recipiente.
Engadanhadas, as mãos deixavam cair a caneta para escrever os sumários ou responder às perguntas dos pontos escritos, respondidas em folhas de trinta centavos compradas ao senhor Ulisses na cantina; as frieiras corroíam as orelhas e o nariz; e o cieiro gretava os lábios que a manteiga de cacau aliviava, comprada ao Sr. Teixeira na Farmácia a que dava o nome. Cinquenta centavos adquiriam um duradouro pedaço de excelente odor e eficácia.
É difícil calcular as condições suportadas na cidade onde a água faltava, congelada nos canos. Era preciso trazê-la dos chafarizes onde ainda corria. Junto ao Hotel Turismo as casas não tinham saneamento, à semelhança de muitas outras no Torreão e no Bonfim.
No liceu respirava-se medo. O reitor metia medo, os contínuos policiavam os alunos, e as alunas eram ainda mais condicionadas, proibidas de usar calças, com a temperatura a descer a -6º ou -7º.
No início dos trimestres, a acrescentar ao preço das matrículas, no início do ano, 150$00 de propinas, multiplicados pelo número de filhos matriculados, pesavam no orçamento dos pais.
Os alunos ouviam o Zé Vilhena a mandar ler a um aluno o compêndio de História, esse manual de propaganda ideológica a que Zeca Afonso chamou o Evangelho Segundo São Matoso, e a dizer, a cada esgar, ‘sublinhai’, e nas chamadas a dizer “anda burro, diz o que está no livrinho, quem fez o livro sabia mais do que tu e do que eu”. Às vezes perguntava ‘qual é a besta que está a falar’, e logo respondia, ´quem está a falar sou eu’.
O António Pinto não acertava uma única experiência, sabotado pelos alunos enquanto a caderneta caía nas mãos do Fatela, sobrinho do padre da Meimoa, com cujo dinheiro da caixa das almas, jogávamos bilhar na Cristal e que alterava algumas notas. Arreliava-o a experiência falhada e a pergunta de alunos que lhe perguntavam se era verdade que nas curvas mandava a D. Céu a ver se vinha algum carro em sentido contrário. Nesse tempo havia muito respeito pelos professores.
O Pacheco marcava exercícios de surpresa para uma próxima quinta-feira e agarrava as orelhas de alguns alunos a dizer-lhes ‘cabecinha de burro, na quinta-feira, exercício de surpresa’, e não falhava o dia da surpresa que anunciava.
O Ramalho, que era uma exceção como bom professor, beato e frustrado, cultivava um amor platónico pela colega Libânia, e envelheceram sem que ele tivesse coragem de lhe dizer o que sentia ou ela de o ouvir. Hão de ter morrido celibatários.
Das aulas de Religião ficou-me o gosto pela leitura. O padre Cabral dizia-nos os livros que não devíamos ler. A maioria era estimulante e boa literatura. Não encontrei melhor critério do que o do padre José Maria Cabral, bastava ler os que desaconselhava e evitar os que recomendava. Aliás, o padre Pôpo, responsável pela Biblioteca Municipal, não negava um livro pedido, talvez afastado do múnus por causa da filha que se dizia ter.
Surpreende como éramos felizes em condições precárias, com a repressão e a vigilância a que éramos sujeitos, sobretudo às meninas. O uso de calças era-lhes proibido e no estio as meias continuavam obrigatórias, sob a vigilância de uma contínua. Quase tudo era proibido e parecia mal, que raio de mentalidade arcaica e provinciana, em casa, no liceu e na sociedade! O Mondego e a Cristal, o Monteneve era para os professores, eram os cafés onde só os rapazes entravam.
Parece paradoxal, mas sente-se imensa saudade desse tempo, os afetos explodem com as memórias, é avassaladora a ternura para com antigos colegas, e imensa a indulgência para com os censores de então. As condições precárias não nos afetaram, só se sentem quando há noção da falta. A repressão, essa, é o cimento de afetos que resistem ao tempo e nos conduzem ao lugar de onde partimos numa peregrinação afetiva que povoa os sonhos dos velhos que nos tornámos em busca da juventude que, na Guarda, dentro e fora do liceu, vivemos com a exuberância da idade e a turbulência das hormonas.
Ponte Europa / Sorumbático

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1 Comments:

Blogger SLGS said...

Muito bom.
Tal qual como também o vivi no LNÉvora. Ajustem-se, no entanto, algumas particularidades regionais. A substância foi a mesma. Parabéns pela bela crónica.

16 de novembro de 2019 às 16:51  

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