29.12.22

Crónica – Memórias da juventude


Por C. B. Esperança

Quando em 1961, ido da Guarda, fui colocado no Bairro dos Penedos Altos, na Covilhã, logo surgiram os habituais convites destinados aos professores.

O primeiro, com tratamento de V. Ex.ª, que me faria duvidar do destinatário, não fora a coincidência do nome, foi recusado. E os seguintes. Não me interessavam e eram pouco recomendáveis as origens.

Em abril de 1963 o Papa João XXIII tinha publicado uma encíclica destinada não só aos fregueses, mas a todos os homens de boa vontade, as mulheres não mereciam referência. Recebi o convite para um colóquio, como todos os 16 docentes daquela escola, onde era eu o único homem, com alusão ao tema a discutir, a Encíclica PACEM IN TERRIS.

Dessa vez, por razões que o Diabo explicará, compareci à hora e no local que o convite, subscrito por um padre S. J., indicava. Um padre, culto e comunicativo, dissertou sobre a encíclica, em termos encomiásticos, e pôs o tema à discussão.

Retivera que o Papa pedia aos países ricos que ajudassem os países pobres e, logo que tomei a palavra, perguntei se tal pedido era ingenuidade papal ou hipocrisia, sabendo-se que os ricos só ajudariam os pobres se obtivessem vantagens.

Foi urbana a resposta do preletor que contestou a minha afirmação, e a plateia foi rude e inamistosa. Havia de me acontecer muitas outras vezes na vida.

Só não esperava ser chamado uma vez mais, por ordem do tenente Gaspar, ao comando da PSP, para me dar conselhos durante a noite, devia sofrer de insónias, e só terminar a caridosa prédica às cinco ou seis horas da madrugada com o habitual conselho, V. Ex.ª, este era o tratamento para todos os cidadãos da Oposição ao regime, está a prejudicar o seu futuro, o senhor Dr. Raposo de Moura, que muito prezo, é companhia que prejudica V. Ex.ª, tenha uma boa noite.

Não tardou que de Castelo Branco viesse um agente da Pide a ouvir o Delegado Escolar e outros professores de confiança, a meu respeito, pois o padre Morgadinho, irmão de outro pide, comunicara que havia na Covilhã “um professor novo, atrevido, com cara de idiota, que precisa de ser vigiado”.

Já era professor efetivo na Lourinhã, e desgostou-me o padre Morgadinho a chamar-me ‘novo’, já com vinte anos e a terminar o segundo ano de docência.

Aliás, a Pide vigiava-me há dois anos e o execrável governador civil da Guarda andava inquieto, comigo e com a minha mãe. 

O governador, Mário Bento Soares, de tanto odiar o homónimo da oposição, irritava-se se o tratassem por Dr. Mário Soares. Deixou cair o apelido paterno e assumiu, para todos os efeitos, o nome de Mário Bento. Como se vê.


Apostila - Há anos que procuro trazer aqui um texto semanal. A consideração pessoal e estima para com o Eng.º Medina Ribeiro transformou o hábito em obrigação e esta converteu-se em motivo de stress que um octogenário deve evitar.

Assim, esta será a última crónica no dia certo. Aproveito para desejar aos leitores, se acaso os tenho, ao Sorumbático, aos outros contribuidores, em especial ao amigo Medina Ribeiro, um feliz Ano de 2023.

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22.12.22

Natal - Votos de Boas-Festas para os leitores

 Por C. B. Esperança

Em meados do século XX o Natal era oportunidade para reunir as famílias. Os ausentes voltavam todos os anos à aldeia de origem, nas carruagens de 3.ª classe de comboios apinhados de pessoas e cabazes, com odores a que se resignavam as pituitárias de então. 

Através do vidro partido, ou da janela avariada, o ar gélido entrava nas carruagens e nos corpos. Os passageiros partilhavam a vida e as merendas nas penosas e longas viagens de pára-arranca. Os Senhores Passageiros precisavam de embarcar, ou de desembarcar, e a máquina a vapor, de abastecer de carvão a fornalha e de água a caldeira. 

Às vezes o comboio parava nas subidas para que a caldeira ganhasse pressão e pudesse rebocar o peso acrescido que deslocava. Entre Lisboa e a Guarda era normal um atraso de duas ou três horas, pela Beira Alta, e mais ainda pela Beira Baixa. 

Nas estações e apeadeiros esperavam bestas e pessoas, impacientes e enregeladas. À chegada do comboio havia abraços, ternos e demorados, e lágrimas de alegria. Do comboio acenavam mãos e ouviam-se votos de Feliz Natal quando o apito anunciava o retomar da marcha. Aos que se apeavam, só o caminho lamacento os separava, então, da casa da aldeia onde aguardavam os parentes que ficaram em ansiosa espera. 

Quando eram pequenas as casas e numerosas as famílias, sobrava sempre lugar para os que chegavam. A ceia de Natal era o momento mágico que matava fomes ancestrais e a saudade das ausências. 

Na lareira fumegavam panelas cheias, cujos odores, fundidos com os que vinham da sala, traziam à memória os sabores da infância. 

A candeia de azeite iluminava os trajetos domésticos enquanto o candeeiro a petróleo projetava as sombras dos familiares reunidos em conciliábulo. 

Estranhava-se o milagre que permitira tantas postas de bacalhau, já que os repolhos e as batatas os davam a horta, e os frutos eram secos no tempo devido. Rabanadas, arroz doce, sonhos, filhós e toda aquela variedade de guloseimas eram fruto dos ingredientes próprios e de segredos herdados, a que o lume brando da lareira requintava o sabor.

Não deixava de ser estranho que tanto desse, quem tão pouco tinha, e negasse, avaro, quem muito podia. Eram esses os tempos, ainda são assim as pessoas que restam. 

Ceavam primeiro as crianças, por questão de espaço e de impaciência; passavam, depois, à sopa, os mais velhos, antes de se saciarem no bacalhau, repolho e batatas, regados com azeite. Só depois de esgotado o vinho no garrafão e de se ver o fundo à panela se entrava nas sobremesas, nas aguardentes e na jeropiga. 

As crianças impacientavam-se com a demora do menino Jesus que raramente trazia os presentes que ansiavam, mas conformavam-se com os que lhes coubessem. Os adultos sugeriam-lhes a cama enquanto os sapatos rodeavam a lareira à distância conveniente do lume que ainda crepitava. O sono acabava por vencê-las, adormecendo primeiro as mais pequenas, que as mães e a avó iam depositando em camas improvisadas. 

No pouco espaço disponível havia ainda lugar para o presépio, uma ingénua encenação do mito cristão, que o pinheiro, oriundo de outras culturas, havia de substituir num prenúncio da globalização, para acabar feito de plástico, coberto de bolas coloridas.

De manhã, à medida que acordavam, os miúdos corriam para a chaminé, ansiosos por encontrar as prendas e exultavam com os presentes.

O Menino Jesus que, então, descia pelas chaminés, foi trocado pelo Pai Natal, a viajar de trenó, puxado por renas, em terras onde só a neve fazia jus à nova fábula que roubou o encanto dos musgos, da serradura, do algodão em rama e dos animais que rodeavam o menino de barro, deitado em berço de palha.

Nos sapatinhos, onde então cabiam os chocolates e os carrinhos de corda, que faziam as delícias das crianças, o terço para a tia beata ou a onça de tabaco para o avô, não cabem hoje os jogos de computador, esperados sem ansiedade, nem os presentes embrulhados em papel reluzente. 

Alguns pais ainda voltam aos sítios de origem para mostrar, aos avós, os netos, com o mesmo ar de enfado com que os levam ao Jardim Zoológico, a verem a girafa e o elefante, ou os metem nos Centros Comerciais. Mas o mais frequente é tirar os velhos da toca e pô-los a fazer o percurso inverso, com 50% de desconto no preço do bilhete, num exílio que começa na véspera da consoada e termina, no início do Ano Novo, com a devolução ao habitat. 

Mudaram-se os tempos. Do Natal que havia, resta a recordação das crianças que foram.

Jornal do Fundão - 21-12-06 e Ponte Europa (2. Edição) – pág. 19/21

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15.12.22

A extrema-direita e o combate político


Por C. B. Esperança

O populismo não dispensa a mentira e a calúnia como armas. A emergência de políticos neofascistas, chegados ao poder por via democrática, infetou o debate político e mostrou a fragilidade das democracias liberais, as únicas que permitem a contestação e respeitam os direitos humanos e a separação de poderes do Estado.

Trump e Boris Johnson, sobretudo o primeiro, puseram em risco o regime em países de longa tradição democrática. A mentira e a calúnia foram os instrumentos do seu êxito. Os EUA, sob Trump, foram a fonte inspiradora dos neofascistas europeus.

No Brasil, habituado a ditaduras e golpes de Estado, surgiu um fascista tropical a apelar ao exército para promover um golpe de Estado ao longo do seu mandato, e já depois da eleição do adversário, que um juiz corrupto prendeu, agora o PR eleito. Incitou o golpe promovendo uma centena de generais a marechais, com pingues aumentos de ordenado, dotando decerto o Brasil com mais marechais do que o resto do mundo.

Na Europa, além do risco que correu o Reino Unido, chegaram regimes autoritários à Hungria, Polónia, Chéquia e Eslováquia (Grupo de Visegrado). E note-se que nenhum país dos que estiveram sob domínio da URSS tem hoje uma democracia plena.

Recentemente, o neofascismo chegou ao governo de Itália, e há neonazis a treinarem-se nos dois lados da fronteira da Rússia com a Ucrânia, enquanto populações civis morrem ao frio, à fome e sob bombas ou se refugiam noutro país, em busca de paz.

Há pouco, sentimos calafrios com a descoberta, na Alemanha, de uma rede de neonazis disposta a derrubar a democracia. Em Portugal foi noticiada a infiltração de fascistas nas forças policiais e bastou a demissão de um, que chamou traidor ao PR, para que o mais absoluto silêncio tenha pairado na comunicação social.

Um acidente de automóvel, em que seguia um ministro, levou a que este fosse arguido por, nada menos, homicídio involuntário. Quando o Tribunal deu como provado que a vítima mortal atravessou a autoestrada em local não sinalizado, ilibando o condutor da culpa pelo acidente, já o ministro se tinha demitido, e a campanha diária terminou em silêncio, imediatamente, sem arrependimento ou um mero pedido de desculpas.

Agora, depois de o futebol ter ofuscado a pandemia e a guerra, com o país inundado por chuvas torrenciais, não faltou a gravação áudio, onde um alegado bombeiro, em Lisboa, se queixava de estar a tirar água de uma suposta garagem do primeiro-ministro, dizendo que era uma vergonha, perante as inundações, que se desviassem recursos para acudir à garagem do PM, e que a vergonha devia chegar ao conhecimento do Chega.

Às milícias fascistas nas polícias procura-se estendê-las às corporações de bombeiros, e o silêncio dos media assume foros de cumplicidade.

A democracia precisa de democratas, mas quando Cavaco defendeu a coligação do PSD com o partido fascista no Governo Regional dos Açores, ninguém criticou o salazarista.

Os que mais devem à democracia são os que mais  a desprezam.

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8.12.22

A Universidade de Coimbra e a missa da Imaculada – 2022


Por C. B. Esperança

A Universidade de Coimbra não cria apenas cientistas de elevado mérito e académicos de referência, continua a atrair beatos capazes de levarem a caldeirinha com o hissope, atrás dos paramentos do capelão. Mistura Matemática, Física, Biologia e outras ciências com missas e orações, traindo a laicidade, a que a CRP obriga, a troco de indulgências.

O Magnífico Reitor, Amílcar Falcão Ramos, depois de ter proibido a carne de vaca na U. C., como os talibãs a de porco, procura aliviar a alma com missas na capela privativa onde a tradição e dinheiros públicos mantêm um capelão. Ungido com a missa integrada na cerimónia de posse, uma inovação do antecessor, iniciou o mandato, qual almuadem católico, a convidar docentes e discentes para cerimónias pias em honra da Imaculada.

Falcão Ramos não perde as asas com que voou para reitor, mas empenha a dignidade do cargo ao convidar, com o capelão, professores, alunos e funcionários, para a missa de homenagem à padroeira da Universidade – a Imaculada Conceição –, que hoje, 8 de dezembro, há de sero celebrada às 12H00, na capela de S. Miguel.

Aceita-se que o capelão, no exercício das funções, convide os crentes a assistirem a uma cerimónia da sua religião. Permite, aliás, visitar a soberba capela, relíquia da arte sacra, e, aos devotos, adorarem um dos numerosos avatares da mãe de Jesus, virgem desde o início da Idade Média, um mito milenar para mães de diversos deuses, e que Pio IX, em 8 de dezembro de 1854, tornou dogmaticamente imaculada por decreto pontifício.

O que é inaceitável é que a mais alta entidade académica, de uma Universidade pública, se comporte como diretor de uma escola confessional ou mullah de uma madraça. Quem preside ao areópago da Ciência não pode ser prosélito da fé, sobretudo num país laico, onde a separação das Igrejas e do Estado é obrigatória.

Há anos, uma docente beata, então vice-reitora, propôs a recriação da extinta Faculdade de Teologia, no que fracassou por ter prevalecido o bom senso e a vergonha do corpo docente, e teme-se que a onda beata da Reitoria da U.C., traga na enxurrada o regresso do ensino da única ‘ciência’ sem método nem objeto.

Uma faculdade de Teologia teria certamente licenciaturas em islamismo, cristianismo e judaísmo, bacharelatos em hinduísmo, xintoísmo e budismo, graduações em lançamento de búzios, mestrados em tarô e bruxaria, e doutoramentos esotéricos.

A Universidade deve ser o último reduto da laicidade e não uma vanguarda do convite à genuflexão e à prática litúrgica. Em vez de santuário da sabedoria, onde a Ciência deve ser o único culto, transforma-se em madraça que concede à liturgia a mesma dignidade.

Se a Universidade de Coimbra persiste em homenagear a Virgem, de que necessita para padroeira, é tempo de transformar as igrejas, mesquitas e sinagogas em laboratórios, e a água benta em potável, através da química para que a formação farmacêutica preparou o Reitor.

Ámen!

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1.12.22

Em defesa da democracia


Por C. B. Esperança

Reconheço as fragilidades da democracia liberal, e ando há sessenta anos a defendê-la, sem abdicar de lutar pelo aprofundamento económico, social e político do modelo de que não prescindo.

Nem todas as democracias liberais são recomendáveis, e fora delas só há ditaduras, por maior êxito que possam assegurar no campo económico, como é o caso da China.

Nunca me desviei deste caminho. Condeno o centralismo democrático leninista, e não me coíbo de agradecer o papel da URSS na derrota do nazismo e o do do PCP na luta contra a ditadura, na elaboração da CRP e na estabilização da democracia em Portugal.

Lamento que autointitulados defensores das democracias tenham geometria variável em relação aos países que condenam ou apoiam.

Não é tolerável o massacre de povos, a invasão de uma nação ou a violação de acordos, por qualquer país, e não podemos ser dúplices na condenação do massacre dos curdos pela Turquia, na invasão do Iémen pela Arábia Saudita, na da Ucrânia pela Rússia ou na da Palestina por Israel, só para dar exemplos de tragédias em curso.

Muito menos se aceita, sob o pretexto de defender a democracia, que se acirrem guerras e absolvam atrocidades ao sabor de interesses geoestratégicos, substituindo notícias por propaganda e factos por falsidades. 

Não há democracia sem ética, respeito pelos direitos humanos, liberdade de associação e ausência de censura.

Quando se queimam livros, proíbem notícias, ilegalizam partidos ou impõe a religião, a democracia é ferida de morte, por mais argumentos com que se desculpem os ditadores.

Os fuzilamentos ou tortura de militares capturados, ou que se renderam, são execráveis e imperdoáveis, seja qual for a barricada em que se encontravam.

A hipocrisia é a cobardia dos mais poderosos.

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24.11.22

As cidades são como as pessoas

 Por C. B. Esperança

As cidades são como as pessoas, com identidade própria, feições definidas, dimensões adequadas e sinais particulares. A nossa cidade, a cidade de cada um de nós, habita o imaginário que se cola à memória e nos acompanha nas ausências. É difícil viver sem ela ou, pior, viver nela assistindo à erosão da sua fisionomia.

Envelhecemos com a cor desbotada dos prédios, com as ruínas que avançam, quarteirão após quarteirão, com as pequenas casas que ruem para dar lugar a prédios de muitos andares, sem vizinhos, meros anónimos separados por cimento armado na geometria vazia de afetos.

Há nas cidades a progressiva perda de identidade que as grandes superfícies, primeiro, e a crise, depois, vieram avivar. Num dia encerra a livraria cujo livreiro conhecia o nosso nome e gostos; no outro, o restaurante do bairro onde, à chegada, o empregado gritava o nome do nosso prato favorito; antes fechara a mercearia e, logo a seguir, a retrosaria, para remodelação, com a certeza de que não reabrirá. 

O betão invadiu os espaços onde os garotos jogavam à bola e o das hortas abandonadas onde a vegetação selvagem brotou antes do ronco das máquinas que o terraplanaram.  

A barbearia encerrou quando a idade e o reumático afastaram o barbeiro. A loja de ferragens, onde os empregados decifravam as necessidades dos clientes e vendiam de tudo, exibe o letreiro numa casa com a pintura a desfazer-se e o telhado a apodrecer.

A loja de hortaliças e fruta, da rua seguinte, surge fechada, e, no passeio, sente-se a falta da banca onde os legumes mostravam frescura e os frutos as cores. Do dono, atencioso e simpático, consta que se lhe formou a filha e regressou à terra de origem. Trespassa-se.

Todos os dias, a nossa cidade vai morrendo com cada pequeno negócio que lhe moldava a identidade. Com ela, sinto que também eu vou desaparecendo por entre espaços dantes cheios de vida e agora mausoléus da memória.

O aldeão que ainda vive dentro de mim, sabe que o rio da sua aldeia secou, que os fogos lhe destruíram a paisagem, os arbustos tomaram conta das hortas, para arderem de novo no ano seguinte e tornarem irreconhecíveis os sítios onde foi menino. Talvez por isso se resignou à cidade que lhe têm roubando e agora descaracterizam, com árvores que viu crescer a serem cortadas com a fúria de um edil arboricida que pretende deixar o nome ligado a um autocarro a que chama “metro de superfície”, como se os carris imaginários tivessem de sacrificar as árvores. 

Por cada árvore que se corta é o ar que fica mais irrespirável e por cada família roubada à rotina da vida há o espaço abandonado aos acasos da marginalidade e a ruga que rasga a face da cidade que era nossa.

É a vida.

Coimbra, 22 de novembro de 2022

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17.11.22

EUA, Donald Trump e o estado do Mundo

Por C. B. Esperança

Há dois anos o aldrabão contumaz pode ter sido removido definitivamente, até pela sua idade, mas o Trumpismo mantem-se vivo na América, e alastra no Mundo com matizes locais, sendo o mais tosco avatar Jair Bolsonaro, o mais aristocrático Boris Jonhson, e com diversas nuances os da Hungria, Polónia, Sérvia e muitos outros países.

O Trumpismo não é uma ideologia, é um estado de espírito que agrega o negacionismo dos factos, vacinas, resultados eleitorais, direitos individuais, civilização e ciência, com um narcisismo que funde nacionalismo, religião, tradições e violência. 

Derrotado em 2020, com mais 7 milhões de votos do que aqueles com que venceu as eleições em 2016, Trump é a prova insofismável de que os EUA estão doentes, talvez a prenunciar o fim da hegemonia global, com o Planeta a não suportar durante muito mais tempo tantos atropelos contra as florestas, a biodiversidade e o clima, com a população a ultrapassar os 8 mil milhões de habitantes para os quais minguam a água, o oxigénio, os alimentos e a esperança de futuro.

A recandidatura de Trump, anunciada após a recente derrota pessoal contra o partido Democrata, cuja política externa é igualmente oriunda dos interesses do complexo militar industrial dos EUA, terá resistências no seu partido, mas a ideologia, ou a sua ausência, é já o paradigma da direita radicalizada, nos EUA e no Mundo.

A queda acidental de um míssil na Polónia, que a Nato e o PR polaco já atribuíram ao “fogo amigo”, um acidente oriundo de Kiev e não de Moscovo, como desejavam todos os belicistas, ansiosos pela guerra que pode exterminar a Humanidade, revela a insânia dos povos que interiorizaram o ódio, a violência e o espírito de vingança.

As numerosas guerras em curso, os milhões de refugiados em todos os continentes, os mortos, estropiados e famintos, os terramotos, inundações, secas, incêndios e outras catástrofes, com cada vez maior intensidade, frequência e duração, parecem não servir de alerta a quem detém o poder para a tragédia que atingirá os nossos filhos e netos.

Quando se negam as evidências e se vive, numa pequena parte do Mundo, como se não houvesse deveres para com os países pobres, os pobres dos países ricos e as crianças de todos os continentes, é o suicídio coletivo que se procura, ignorando apelos lancinantes do secretário-geral da ONU, do Papa e de outros humanistas, os avisos dos cientistas e os sinais da crescente aproximação do abismo.

A América racista, xenófoba, isolacionista e patriarcal, versão grotesca do mundo do Antigo Testamento, encontrou no robô que soube fugir aos impostos e ganhar dinheiro, o seu modelo. A América sofisticada, culta e cosmopolita é cada vez menor, e o resto do Mundo, talvez por mimetismo, é cada vez mais parecido.

E não há um sobressalto universal contra as guerras, as armas, os ataques aos Direitos Humanos, as desigualdades e os nacionalismos agressivos! 

A primeira geração suicida, a nossa, pode ser a última. A liberdade já está encarcerada.

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10.11.22

O Vaticano, o catolicismo e a concorrência

 Por C. B. Esperança

O Vaticano é uma herança do fascismo, nascido nos acordos de Latrão e marcado pela herança conservadora que, quase sempre, o ligou às monarquias absolutas e ditaduras de direita, de que muitas vezes foi sustentáculo e, nas atrocidades, cúmplice silencioso.

Os escândalos sexuais dos clérigos romanos, várias vezes empolados pela comunicação social e por rivalidades religiosas ou animosidade de livres-pensadores, ajudaram ao descrédito do catolicismo. Também a lavagem de dinheiro no banco do Vaticano (IOR) e a opacidade das contas da Igreja católica, nos países onde consegue furtar-se à apresentação de qualquer contabilidade minimamente transparente, contribuem para a imagem negativa, mas é a crescente secularização da Europa que mais aflige os Papas.

A ligação de João Paulo II a Reagan foi decisiva para a implosão do comunismo, mas a proteção a Pinochet e a cumplicidade com as ditaduras católicas sul-americanas não o fizeram arauto da liberdade nem o deixaram capitalizar a herança católica dos criadores da U. E. – Schuman, Adenauer e De Gasperi –, tendo ajudado à recusa da sua obsessão em introduzir uma referência ao cristianismo na Constituição Europeia.

Não são 44 hectares de sotainas que tornam pujante o Vaticano, mas a diplomacia com quase todos os países, as representações acreditadas em organismos internacionais e os movimentos ultraconservadores de inspiração autoritária: Comunhão e Libertação, Opus Dei, Legião de Cristo (este extinto por paternidade e pedofilia do fundador), Focolares, Neocatecumenal, todos protegidos por João Paulo II e Bento XVI. O imenso exército de bispos, padres, freiras, monges e leigos, bem como o imenso património e influência na educação e assistência dos países mais pobres, fazem da Igreja católica uma poderosa multinacional e um instrumento de pressão política.

Claro que há crentes que, por bondade pessoal ou crença no Paraíso, são especialmente úteis a populações carenciadas e países em crise. O Vaticano não é Estado pária onde o poder monárquico absoluto do papa se torne um perigo permanente para os direitos humanos. Pelo contrário.

A Igreja católica perde fiéis para igrejas evangélicas e pentecostalistas ligadas aos EUA, onde só 25% da população se reclama católica, sendo, no entanto, o maior contribuinte financeiro para essa Igreja, mas em acentuada regressão, depois dos escândalos sexuais.

A escolha de um Papa argentino, em 2013, pareceu trocar a deriva reacionária dos dois últimos pontificados e apostar decididamente nos países sul-americanos que os jesuítas conhecem bem desde as descobertas. 

Há obstáculos que a Igreja católica, se quiser sobreviver no mundo globalizado, terá de contornar: a resistência cultural dos povos orientais, o progressivo individualismo dos povos, o liberalismo económico e o proselitismo islâmico, sem perder de novo o respeito pelas liberdades individuais e pela laicidade dos Estados.

A alegada existência de Deus é alheia ao futuro da Igreja, da católica e das outras, mas a Igreja de Roma, com o atual pontificado, tornou-se o último reduto pio compatível com a democracia e a defesa dos Direitos Humanos.

Ponte Europa / Sorumbático

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3.11.22

BRASIL – O fascismo não desarma

 


Por C. B. Esperança

A vitória democrática de Lula da Silva nas eleições que o medo e a poderosa máquina de propaganda dos bandos evangélicos e terratenentes não conseguiram impedir, não é mais do que um interregno na sucessão de golpes que a extrema-direita prepara, depois de ter falhado a manutenção do fascista abrutalhado na Presidência da República.

É de saudar a rapidez e eficácia com que Biden, Macron e outros líderes importantes à escala mundial se apressaram a felicitar Lula da Silva e a reconhecer a legitimidade e a limpidez das eleições em que, pela primeira vez, um PR em exercício foi derrotado. O golpe de Estado militar tornara-se impossível, apesar dos patéticos e histéricos apelos.

Tal como nos EUA, o PR brasileiro é simultaneamente o chefe de Estado e o primeiro-ministro, com influência na nomeação dos juízes do Supremo Tribunal. Depois do que se passou nos EUA, a invasão do Capitólio estimulada pelo PR, temia-se o que faria o Trump tropical em Brasília, o cobarde que não quis reconhecer a derrota.

Lula da Silva vai ter a vida dificultada, senão em perigo, com a extrema-direita inquieta com a democracia. O PR com mais êxito na justiça social, durante dois mandatos, será boicotado. O bolsonarismo, tal como o trumpismo, está vivo e perigoso. 

A prisão de Lula foi uma canalhice de um juiz que desonrou a toga e preparou um golpe para o impedir de derrotar Bolsonaro, prendendo-o ilegalmente, para ser ministro. Em vez de preso, Sergio Moro foi agora eleito senador. O Brasil está perigoso.

Os brasileiros ainda ignoram que Lula veio a ser competentemente ilibado da injusta acusação, condenação e prisão por alegada corrupção, de que foi autor o ex-juiz Moro, conluiado com o procurador. O triplex, objeto do alegado suborno, foi arrolado como propriedade da empresa falida, nunca tendo sido de Lula da Siva, mas a humilhação e privação da liberdade foram insuficientes para o assassinato político organizado.

Há quem esqueça o golpe contra Dilma, sobre quem jamais pairou a mais leve suspeita de corrupção, e a sua substituição a favor de Temer, comprovadamente corrupto.

A prisão de Lula, a destituição de Dilma ou a derrota eleitoral de Fernando Haddad não provocaram desacatos, e as primeiras situações bem mereciam um sobressalto cívico, a manifestação democrática contra a iniquidade, mas é a derrota merecida do marginal que agora provoca o caos, a exigir o apoio vigoroso das democracias ao Brasil.

A contestação da vitória de 2014 pela Presidente Dilma Rousseff foi um apelo ao golpe militar que prosseguiu no Parlamento com deplorável selvajaria e absoluta eficácia.

A vitória de Lula é, antes de mais, uma vitória da democracia, a vitória contra o medo, um grito de esperança dos pobres, uma oportunidade para a manutenção da floresta da Amazónia e um compasso de espera para a extrema-direita.

As humilhações de Bolsonaro ao PR português tiveram agora a resposta do eleitorado. Só falta que os juristas portugueses que convidaram Sergio Moro como orador, quando já era notória a perseguição política a Lula, e o ovacionaram, se retratem.

Parabéns, Lula! Parabéns, Brasil!

Ponte Europa / Sorumbático

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27.10.22

Marcelo Rebelo de Sousa – Um perfil escondido

 


Por C. B. Esperança

Depois da agradável surpresa de um PR inteligente, culto e simpático, sucedendo a dez anos de um empedernido e azedo salazarista, Marcelo começou a arruinar, no segundo mandato, a imagem do primeiro. Já gastou o cabedal de simpatia que mereceu.

A irrefreável tendência para comentar tudo, do futebol à política, da canoagem à poesia, das vacinas à economia, dos incêndios às inundações, das decisões políticas aos autores, dos OE à conduta das oposições, só se contém perante eventuais fugas de informação da sua Casa Militar, na decisão conjunta do PM e PR para a nomeação do alm. Gouveia e Melo para CEMA, e notícias de pedofilia eclesiástica.

Ao contrário dos beija-mãos ao Papa e aos bispos, exibe uma postura arrogante com os políticos, quiçá ressabiado da derrota na Câmara de Lisboa, do epíteto de Balsemão e das acusações deste, de ser delator das decisões dos Conselhos de Ministros para os media, mestre na intriga e na dissimulação, nas pretensas idas à casa de banho.

O homem que chamou Lelé da Cuca ao dono do semanário que o nomeou diretor, para se desculpar com um teste aos revisores e lhe revelar, depois, que o considerava como pai, é quem escreveu a Marcelo Caetano o elogiá-lo: “Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades «soaristas»1.

É ainda o mesmo que na entrevista telefónica à jornalista Alexandra Tavares-Teles, na revista Notícias Magazine, recordando, ‘como viveu o 25 de Abril’, refere a resposta que deu ao pai, influente ministro da ditadura, depois de este lhe ter dito que Marcelo Caetano lhe garantira que vinham a caminho de Lisboa tropas fiéis ao governo: «Disse-lhe o que sabia. ‘Não, pai, não vêm forças nenhumas, não pensem nisso, isto está a correr rapidamente. Acabou.’». E, quando a jornalista lhe perguntou: «De onde vinha essa certeza?», respondeu com aquela candura que usa na intriga e nos afetos:

- O António Reis [militante e dirigente político ligado ao PS] tinha-me avisado da proximidade do 25 de Abril com alguma precisão. E embora o meu pai fosse dos membros do governo teoricamente mais bem informados, percebi, naquele momento, que, de facto, estava muito pouco informado. Penso que ele terá transmitido a informação a Marcello Caetano e que este terá respondido: “Esse Marcelo Nuno só traz más notícias. Isso são coisas do contra». 2

Não sei o que mais admirar, se a insensatez do jovem político António Reis, a devoção filial de Marcelo ao ministro fascista, a denúncia da Revolução ao Governo ou a traição à (in)confidência do amigo. Aliás, era interessante saber quando foi «aquele momento», o da indiscrição de António Reis a Marcelo Nuno e o da delação ao governo, através do [pai] ministro de Caetano. Felizmente, Marcelo Caetano não o levava a sério.

Marcelo não é só o hipócrita que, na apoteose da fé, deixou numa cama o sacramento do matrimónio indissolúvel e levou para outra as hormonas e o adultério3. Foi também, e é, o artífice das soluções mais reacionárias que a direita democrática tomou em Portugal.

Foi contra o SNS, lutando depois contra a universalidade, alegando o seu caso, injusto, pois podia e devia pagar a saúde, e tinha direito à gratuitidade. Com Guterres pensou o referendo que atrasou a legislação que aprovou a despenalização da IVG. Este Marcelo, que lava mais branco o passado do que qualquer detergente as nódoas, é o mesmo cujos preconceitos pios preferiam a morte de mulheres cuja vida perigasse com a gravidez, a gestação obrigatória das vítimas de violação e das grávidas de um feto teratogénico. 

Esteve sempre, nos costumes, do lado mais reacionário, tal como na política. Veja-se: 

Marcelo Rebelo de Sousa, José Miguel Júdice, Santana Lopes, Manuel Durão Barroso e António Pinto Leite surgiram no início de 1984, organizados, para fazerem regressar ao poder, por via democrática, a velha política, sob o pseudónimo de “Nova Esperança”, e foram decisivos em dois congressos do PSD, em 1984 [Braga] derrotando Mota Amaral com Mota Pinto e, especialmente, em 1985 [Figueira da Foz], na improvável ascensão à liderança partidária do obscuro salazarista Cavaco Silva, derrotando João Salgueiro.

Marcelo não foi apenas líder do PSD, foi sempre o defensor das posições que são hoje minoritárias na sociedade portuguesa, por mais anestesiada e aturdida que se encontre.

Depois de dez anos de Cavaco, a reintegrar pides e a gozar os pingues fundos europeus conseguidos com a adesão à UE por Mário Soares, podia pensar-se que Marcelo teria o remorso cristão e democrático, e reincidiu na vivenda de Ricardo Salgado, juntando ao casal do anfitrião, o seu, o de Durão Barroso e o de Cavaco, para preparar a primeira candidatura vitoriosa de Cavaco a PR.

Nunca ninguém o confrontou sobre a posição que tomou quando Eanes defrontou o gen. Soares Carneiro, ex-diretor do presídio colonial de S. Nicolau e que, após a derrota, em afronta aos militares de Abril, Cavaco reintegrou no ativo e promoveu a CEMGFA. Foi essa afronta à democracia e à legalidade que levou o PR Marcelo a atribuir a Cavaco o mais elevado grau da Ordem da Liberdade? Foi uma ofensa aos mártires da ditadura.

Marcelo, que aceitou ser presidente da Fundação Casa de Bragança, saberia que o cargo era incompatível com a ética republicana e a presidência da República? Pode agradar à populaça, mas não serve a democracia.

Tenho por este PR o respeito mínimo a que o Código Penal me obriga; julgo-o capaz de quase tudo e com uma agenda perigosa. Vejo nele um perturbador da governabilidade e das relações interpartidárias, por obsessão dele e não por desconfiança minha.

É preciso avisar a malta! É urgente impedir a presidencialização do regime parlamentar através do PR que se imiscui na exclusiva responsabilidade do Governo pela condução política do País e na do PM na condução do Governo.

A CRP obriga o PR a respeitá-la e a defendê-la, o que não faz. O que a CRP não obriga é um cidadão a acreditar no PR, na honorabilidade da sua agenda privada, na brancura do seu passado, na honradez da sua palavra ou na isenção dos seus julgamentos.

Às vezes tenho a vaga impressão, talvez injusta, de que o Palácio de Belém pode ser, à semelhança do que acontece no Brasil, no Palácio do Planalto, habitado por mesquinhos inquilinos que são incompatíveis com a verdade, independentemente do sufrágio que lhes abre as portas.

1 (in «Cartas Particulares a Marcello Caetano», organização e seleção de José Freire Antunes, vol. 2, Lisboa, 1985, p. 353 via Abril de Novo Magazine)

2 (In Notícias Magazine, 22 de abril de 2018, pág. 20, 3.ª coluna).

3 Vocábulo da linguagem pia.

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20.10.22

O declínio democrático dos EUA e o perigo de contágio

Por C. B. Esperança

O susto provocado pela horda fascista, na invasão do Capitólio, estimulada por Trump, não se desvaneceu nos defensores da democracia liberal, dentro e fora dos EUA.

Quem viveu em ditadura e pensou que as democracias venceriam os totalitarismos, tem hoje razões acrescidas de preocupação, ao ver o número de regimes autoritários a voltar a ser maioritário.

Os EUA, que lutam pela hegemonia planetária, não são um exemplo de democracia nem o baluarte da defesa dos direitos humanos. Desde a pena de morte à violência racista, da politização do Supremo Tribunal ao moralismo das igrejas evangélicas que dominam os centros de poder, tudo, nesse imenso e poderoso país, contribui para fragilizar os ideais democráticos que inspiraram os autores da sua Constituição.

A revogação do acórdão Roe vs Wade pelo Supremo Tribunal dos EUA, em 24-6-2022, negou efetivamente às mulheres norte-americanas o direito constitucional de decidirem sobre os próprios corpos, decisão que alguns Estados levaram ao extremo de proibirem, em qualquer caso, a I.V.G., sem respeito pela autodeterminação sexual e reprodutiva da mulher, indiferentes aos riscos da sua saúde física, mental e da própria vida.

No fundo, foi a afirmação extremista do poder masculino sobre a mulher, uma forma de domínio ultraconservador, alheio à tragédia de uma violação, de um feto teratogénico ou à morte da mãe.

Esta misoginia evangélica extremista, que domina o Partido Republicano dos EUA, vai ter repercussões miméticas em muitos países, onde regressam tentações machistas sob a capa de da vontade divina interpretada por sacerdotes mais ou menos machos.

Este fenómeno de regressão, que a jurisprudência dos EUA apoiou, vai empurrar para a clandestinidade e condenar à morte milhares de mulheres, sobretudo as mais pobres.

Enquanto os países civilizados regridem, os outros ficam mais longe da evolução.

A religião é a desculpa para a subalternização e opressão das mulheres. Cabe a estas e aos homens civilizados impediram o regresso de trogloditas ao poder. 

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13.10.22

Marcelo – O OE-2023, a pedofilia e o sonho da herança política

Por C. B. Esperança

Quando o PR, responsável pelo regular funcionamento das instituições, passa a agitador, basta ele para debilitar o regime e acelerar a crise que a guerra, a pandemia e a inflação provocam.

Marcelo é capaz de dizer tudo e o seu contrário, e as suas piores declarações são as mais mediáticas e perturbadoras da política nacional.

O OE-2023, instrumento da exclusiva responsabilidade do Governo, cuja aprovação é da competência da AR, órgão de que depende, foi objeto de declarações intoleráveis do PR. O escrutínio cabe aos partidos, aos eleitores e à comunicação social, não ao PR.

Marcelo atreveu-se a formular juízos de valor sobre o OE-2023, a apodar a proposta do Governo à AR como um orçamento “a navegar à vista da costa” e a dizer que são mais otimistas as previsões do Governo do que as suas, como se o alarde das suas previsões fosse legítimo, útil ou tolerável. Nos intervalos ainda deu conselhos à UE, como se os seus órgãos o escutassem.

Não há certamente outro PR, mesmo em regimes semipresidenciais, com tamanha exposição mediática e ausência de respeito pelo carácter parlamentar do regime a que preside.

Marcelo é um comentador compulsivo e um viajante inveterado num País onde a CRP não lhe confere qualquer responsabilidade na política externa ou governação. O seu ego é nefasto ao país e precisa de entender que não pode ser PR e liderar simultaneamente a oposição.

Com a mesma insensatez revelada para com o Governo, alheio à dignidade do cargo, o PR age e pronuncia-se sobre os crimes de pedofilia cometidos por sacerdotes católicos, alheio ao sofrimento das vítimas e desencorajador do aprofundamento das investigações em curso.

Depois do contacto que teve com um bispo sob investigação criminal, com o processo em segredo de Justiça, manteve, a partir de Nicósia, que esse contacto com o bispo José Ornelas não terá consequências na investigação, opinião de um católico que considera o divórcio pecado mortal, incapaz de o cometer, e venial o adultério.

Laborinho Lúcio, ex-ministro da Justiça, afirma preocupado que “424 testemunhos apontam para um número muito maior”, e para o PR, “Haver 400 casos de abusos [424] não me parece particularmente elevado” (sic), sem imaginar a coragem das denúncias, o horror que encerram e o desânimo que as suas palavras provocam para novas queixas e julgamento das atuais.

O deficiente escrutínio de contínuos desvarios verbais do PR contribui para o descrédito das instituições e para a crescente dificuldade de governar o País.

Marcelo, ansioso por realizar o sonho de dissolver a AR e deixar a sua direita no poder, está a abrir as portas à extrema-direita e arrisca dissolver a democracia, perante a falta de escrutínio e a passividade da opinião pública formatada pela imprensa de reverência.

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6.10.22

Licença de casamento para as professoras

Por C. B. Esperança

Ocultar o passado é evitar a vacina contra a reincidência.

Quando reaparecem os tiques salazaristas e se faz já a defesa despudorada do fascismo, às escâncaras, urge revelar o que foi em Portugal o período da ditadura, abençoada pela Igreja católica, e que a Pide, a censura, o medo e a ignorância protegeram.

A apreensão de livros, as prisões sem culpa formada, os tribunais Plenários, a tortura, o exílio, a fome, o analfabetismo, enfim, tudo o que era mau e anacrónico, prolongou-se num país tão atrasado que até na descolonização foi o último, quando a tragédia era já inevitável e a guerra injusta e criminosa tinha custado milhares de mortos e estropiados em ambos os lados das frentes da guerra colonial.

Não faltam historiadores que documentem e interpretem esse período sombrio de meio século, mas faltam leitores interessados para os conhecerem e divulgarem. E sobram os que pretendem reescrever a história e criar eufemismos para absolverem a ditadura.

O salazarismo não foi apenas perverso e castrador, formatou gerações em princípios que a propaganda difundia. A perversidade de Hitler, Franco e Mussolini existia em Salazar, apenas a quantidade dos crimes foi menor. O que diferenciou a ditadura portuguesa das congéneres não foi a substância, foi mera questão de escala.


É assustador pensar que a minha geração foi incapaz de transmitir o ambiente asfixiante, o horror à instrução, o medo do progresso, a opressão da mulher, a maldade, o ridículo.

A proibição do divórcio para casamentos religiosos, na prática obrigatórios, a gestão de bens do casal, exclusivamente pelo marido (incluindo os da mulher, no casamento com comunhão de bens, que era o habitual), a necessidade de autorização do marido para que a mulher pudesse deslocar-se ao estrangeiro, a impunidade para a violência doméstica e numerosas outras malfeitorias marcaram o ADN de um povo submisso e medroso.

Hoje, deixo aqui a minuta do pedido de autorização de casamento para professoras, cujo deferimento dependia da prova de o nubente auferir rendimentos iguais ou superiores e do bom comportamento moral e cívico, segundo os padrões do clero e das polícias.

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29.9.22

Alunos do Liceu da Guarda em excursão cultural da Mocidade Portuguesa (MP) – Crónica

Por C. B. Esperança

Quando, neste mês de setembro de 2022, vi o programa da ida a Mangualde, em 28 de maio de 1958 (?), o ano está omisso, que o Alexandre Lourenço Marques conservou, com os nomes dos artistas de Teatro, Variedades e Serenata Monumental, todos então condiscípulos e amigos, provocou-me uma explosão de recordações e sentimentos.

Estávamos a terminar o ano XXXII da Revolução Nacional, eufemismo que a ditadura dava ao golpe militar que nos condenou a 48 anos de fascismo. O liceu só tinha verba para uma semana de aquecimento onde as temperaturas negativas duravam meses, mas havia uns dinheiritos para os meninos da Mocidade viajarem em patriótica propaganda do regime.

Assomam tantas e tão variadas memórias que é difícil dar coerência à narração e deixar escorreita a prosa sobre recordações tantas décadas escondidas. Se o dia 28 de maio foi infausto, em Mangualde, para dezenas de adolescentes, como o fora em 1926 para todo o País, de forma bem mais grave, já o dia anterior não tinha sido auspicioso.

No dia 27 saímos da Guarda, ansiosos por jantar e dormir no Hotel de Gouveia, rapazes que nunca entraram num hotel, até pronunciávamos ‘hotel’ como palavra grave, sob o comando do Luciano Duarte Calheiros, referido no folheto com o sumptuoso cargo de Comandante de Divisão C. B., isto é, Comandante de Bandeira da MP.

Chegámos a Gouveia, de capa e batina, o liceu da Guarda era a Universidade de Coimbra dos pequeninos cujas praxes e traje imitava, não com a farda da MP, que seria tão deslocada na Serenata como viola em enterro. Até o Dr. Ramalho, o comissário da MP, nos tinha autorizado o traje académico que a maioria de nós levava emprestado.

Íamos sob os auspícios da Mocidade Portuguesa, sem passarmos pela vergonha de que não tínhamos consciência. Éramos vanguardistas, talvez o Calheiros já cadete, segundo a terminologia etária da MP. Os lusitos terminavam aos dez anos, e a idade de infantes sumira-se nos primeiros anos de liceu.

O Calheiros, acompanhado de comandantes de Castelo, foi apresentar cumprimentos ao presidente da Câmara, Dr. Alfredo dos Santos Júnior, um futuro ministro do Interior de Salazar. Entraram com a devida vénia e o tradicional cumprimento com as capas, mas o acolhimento deixou-os gelados: “Não vos conheço assim mascarados. Vou desmarcar o Hotel”. O Calheiros ainda tentou arranjar uma desculpa, mas o Miranda Garcia explicou que, não estando fardados da Mocidade, não tínhamos direito às mordomias prometidas. Ficámos conformados. A revolta era luxo que não existia ainda.

Anos mais tarde perceberia que a ausência da saudação nazi e a falta do brilho do ‘S’, a inicial do ditador, que cobria o cinto da farda, tinham amofinado o edil salazarista.

Depois de telefonemas do Calheiros para a Guarda, em contacto com o Dr. Ramalho, lá se arranjou um sítio para jantar e uma pensão onde dormir depois do espetáculo. Este decorreu com normalidade e os artistas, despojados dos adereços, dirigiram-se para a pensão destinada. Ficámos três em cada cama, os mais magros, ou ‘só’ dois. Ainda que algum soubesse o que era um pijama, nenhum levou qualquer muda de roupa interior ou teve necessidade de tomar banho. Eram tempos heroicos!

Recordo-me de dormir com dois colegas em cama de corpo e meio, encostada à parede, tendo-me calhado a parte de fora, o que me enviava para o chão sempre que mudávamos de posição. O do meio era o Fatela, colega de turma, sobrinho do pároco da Meimoa, de onde trazia umas esmolas da caixa das almas, de que beneficiei no início de cada novo período escolar, e que cumpriam a piedosa devoção ao bilhar, no Café Cristal. Mas isso e o encontro com o Fatela na guerra de Moçambique onde há de ter passado um Inferno, alferes na Companhia de Intervenção n.º 1626, são memórias de outra crónica.

Em Gouveia, acordámos sem direito a pequeno almoço e deambulámos em grupos pela vila até à hora da partida. Alguém nos disse que o padre Isidro era homem para nos dar o pequeno almoço e fui eu que não hesitei em bater-lhe à porta e perguntar-lhe se era capaz de oferecer um copo de vinho à rapaziada. Não sei de onde veio tanto pão, queijo e presunto para saciar meia dúzia de adolescentes, que o vinho não faltava na adega de um grande colheiteiro de excelente vinho do Dão.

Único motivo de ansiedade: os irmãos Caramelo, Teodoro e Fernando, e o Sobral Dias não compareceram à saída do autocarro e foi vã a espera para Mangualde. Apareceram, à boleia, a tempo de participarem no Grande Sarau de Arte, designação do evento. 

Amesendados no Refeitório do Colégio, tudo correu bem até ao início do espetáculo, no Teatro Império de Mangualde, mas fomos vaiados pelos alunos residentes. Não percebi a razão da animosidade e era duvidoso que fosse hostilidade à data que talvez não fosse inocente para quem organizou o périplo. Os distritos da Guarda e de Viseu eram, aliás, reservas do regime e regiões de recrutamento de figurantes para as excursões de apoio a Salazar, em Lisboa, sempre que era precisa uma ação de propaganda do regime.

Não me recordo de situações anómalas durante o espetáculo e penso que o numeroso público ficou rendido aos jovens e promissores artistas.

O pior estava reservado para o regresso à Guarda. Ao entrarmos no autocarro acolheu-nos um fedor insuportável. No corredor alguém defecou abundantemente e a pestilência do odor também vinha dos bancos e vidros onde as fezes foram a tinta dos desenhos que não primaram pela originalidade ou bom gosto.

Esquecido o cheiro e as contrariedades dessa deslocação, mais acidentada do que outras, cabe ao cronista, com os defeitos do homem que é e das circunstâncias que o moldaram, deixar, em letra de forma, estas memórias que o programa, guardado pelo Alexandre, despertou no voluntário escriba.

Deixo um abraço amigo aos que ainda vivem, e recordo com imensa saudade todos os falecidos, alguns bem cedo, como o Teodoro e o Corvas.

Ponte Europa / Sorumbático

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22.9.22

A GUERRA (3) – O suicídio russo

Por C. B. Esperança

A confirmarem-se as sevícias antes da morte dos cadáveres da cidade de Izidium, que os ucranianos recuperaram na contraofensiva, a Rússia legitima a propaganda que a Nato e a UE fizeram para a demonizar.

A Europa e o mundo não ficam mais perto da paz nem evitam, sobretudo a primeira, a tragédia económica que a aguarda, mas a Rússia terá dado um passo decisivo para se tornar um país pária e legitimar o apoio à Ucrânia.

A própria aliança com a China, que coloca sempre a Rússia na situação de inferioridade, não pode resistir ao opróbrio de uma solidariedade que envergonha e compromete.

Agora, com a investigação transparente das torturas, tornar-se-á fácil separar a verdade da propaganda e, naturalmente, são os ucranianos a atraírem a solidariedade com o seu sacrifício enquanto se despreza o martírio dos soldados e civis russos.

Se se confirmarem os atos de horror, Putin pode tornar-se mais perigoso, a Europa mais exposta, a Ucrânia em risco de ainda maior sofrimento, mas a Rússia não mais recupera a compreensão que ainda mantinha pela população russa massacrada na Ucrânia, antes da guerra. 

As guerras perdem-se também na opinião pública.

Apostila: 1 – Quem já tinha perdido a guerra económica, com tendência a piorar, era a UE e, enquanto a população se distrai morbidamente com o cadáver da vetusta rainha inglesa, que tarda a sepultar, não pensa nas alterações climáticas e na crise energética que, em 2024, pode trazer de volta a candeia de azeite da minha infância;

2 – Espero que, em relação à guerra da Rússia com a Nato, na Ucrânia, não se confirme o maior receio, a verificação da Lei de Murphy: ‘Tudo o que poderá correr mal, correrá, e da pior maneira.’

Apostila - Dada a contrainformação e propaganda de que somos vítimas, posso vir a rever a posição aqui expressa. Não há ainda informação independente que confirme o alegado massacre e as valas comuns.

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15.9.22

A GUERRA

 Por C. B. Esperança

É preciso ser demasiado ingénuo ou excessivamente cínico para imaginar que o nível de vida dos europeus se manterá durante e depois da guerra que a Rússia trava com a Nato, na Ucrânia, agora com apoio explícito da UE e dificuldades crescentes da Rússia.

Só o delírio de quem duvida das alterações climáticas e ignora as catástrofes que, ano após ano, aumentam a frequência, duração e intensidade, pode levar a acreditar que as economias europeias vão resistir aos aumentos brutais da energia e de bens essenciais de cuja importação dependem.

A exaltação de quem pensou ter encontrado uma causa nobre, por que valia a pena lutar, impediu de prever que as sanções europeias à Rússia e as contrassanções desta à Europa destruiriam as economias de ambas e levariam o caos e o desespero aos seus países, e o colossal sacrifício de vidas aos ucranianos e russos. A inflação galopante, a subida dos juros e a escassez de bens essenciais são o ónus que, independentemente da bondade ou leveza das decisões tomadas, todos pagaremos, com especial sofrimento dos países e das pessoas mais pobres.

Surpreende que os que mais demonizaram a Rússia não tenham ponderado a loucura de quem é capaz de recorrer à chantagem nuclear e, quiçá, à utilização desesperada do seu último recurso. Há quem prefira a guerra à paz, com o risco nuclear a agravar-se. Não se pode ver a supremacia ucraniana na vontade de combater como uma vitória, pois o risco de um ato desesperado da Rússia agrava o perigo para a Humanidade.

Há quem acredite que a Rússia bombardeia as suas próprias tropas na central nuclear de Zaporizhzhia. A censura e a propaganda são armas poderosas de que não prescindem as partes em conflito, seja qual for a guerra, quaisquer que sejam os beligerantes.

Perigoso é ignorar esta verdade, tautologicamente demonstrada ao longo dos tempos e, hoje, com meios nunca antes disponíveis. Perante a incúria coletiva para procurar fontes de informação alternativa, criam-se entusiasmos com as primeiras verdades perfilhadas, que conduzem à divulgação acrítica e, em muitos casos, à negação dos factos e à recusa obstinada dos argumentos que as contrariem.

É este o ambiente propício às verdades únicas, à intolerância e ao maniqueísmo numa deriva que cria o húmus onde medram os totalitarismos, não faltando censores e bufos voluntários para a sua defesa. O medo está a encostar os europeus à extrema-direita.

Julgando defender a liberdade, movidos por entusiasmos solidários, podemos tornar-nos cúmplices da repetição de regimes autoritários que, no passado, combatemos. Em nome do humanismo reabilitamos uns e execramos outros, capazes de escolher, entre crápulas, os heróis e os vilões, os anjos e os demónios, os amigos e os inimigos, exonerando todas as dúvidas e recusando os factos que, por mais evidentes que sejam, nos contrariem.

Imagina-se a felicidade de quem acredita sem ver e a dilaceração de quem se interroga, sabendo-se que é feliz quem tem certezas e se angustia quem carrega dúvidas.

Para defesa das ditaduras bastavam os que sempre as apoiaram, e as ditaduras são mais baratas do que as democracias.

Ponte Europa / Sorumbático     

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