25.4.26

Grande Angular - Comparação e razão

Por António Barreto

Apesar do digno comportamento de José Pacheco Pereira, a batalha das vítimas e das malfeitorias continua. As comparações propostas por André Ventura escondem mentira e manipulação, mas são eficazes. Sobretudo perante muitas gerações que não viveram as situações e os casos referidos. Poucas pessoas se lembram, a não ser por ouvir dizer, das prisões salazaristas, da tortura da PIDE, dos crimes da polícia política, da censura permanente, da vigilância e da coacção. Também poucas pessoas viveram a tragédia da descolonização, os saneamentos, as prisões sem mandato judicial, as expropriações ilegais, as ocupações arbitrárias e as violências revolucionárias de todo o tipo. Por isso, muitas vezes, é fácil e tem êxito a expressão desbragada de comparações, mesmo ou sobretudo das desajustadas.

 

Não sei se André Ventura é mentiroso. Mas sei que tem jeito para a demagogia. Não se pode comparar dois anos de revolução com a esquerda ou a democracia. Como não faz sentido comparar dois anos de agitação com cinquenta de regime. Nem que se atribua à democracia o que aconteceu de negativo durante esse período. E também não é verdade que se esconda o que aconteceu durante os dois anos de revolução.

 

Comparem-se cinquenta anos de democracia com outros tantos de ditadura salazarista. Todos os factos podem ser alinhados. Prisões, torturas, detenções, crimes, medidas de segurança”, censura, despedimentos e saneamentos, em poucas palavras, direitos fundamentais: faça-se a comparação entre períodos comparáveis. O resultado está aí. A superioridade da democracia é total. Nem três Salazares conseguiriam esconder a verdade, nem três Venturas seriam capazes de inventar factos.

 

Comparem-se os dois anos de revolução, adequadamente designados por “processo revolucionário em curso”, com qualquer outro período de igual duração. As conclusões são evidentes: despedimentos, perseguições, saneamentos, expropriações, expulsões, violência prisional e tortura foram certamente em número superior e em gravidade maior do que quaisquer dois anos do período anterior, o marcelismo. O que só permite condenar a revolução, não a democracia.

 

Pense-se na descolonização com o seu longo inventário de responsabilidades políticas e militares portuguesas, de desatenção aos portugueses abandonados e espoliados e de guerras civis que se seguiram nas colónias: políticos e militares dos últimos anos do Estado Novo, políticos e militares dos dois anos de revolução, sobretudo de esquerdas e de extrema-esquerda, são e foram responsáveis. A história já os culpou, a democracia também. Só a demagogia pode agora, para benefício próprio, tentar encontrar novos culpados. Não foi a democracia que fez a descolonização. Foi, isso sim, a revolução, com a ajuda da guerra colonial e do antigo regime.

 

André Ventura sabe isto tudo. Mas a verdade interessa-lhe pouco. Gosta é dos seus efeitos pessoais e dos benefícios que pode recolher. Como sabe também que muitos dos tios ou avós do Chega pouco fizeram para dominar os revolucionários do PREC, antes tentaram o terrorismo e esforçaram-se por actos violentos iguais aos da extrema-esquerda. Foram os democratas, a democracia, as eleições e as instituições democráticas que derrotaram a extrema-esquerda, não foi a direita, muito menos a extrema-direita. Nunca se viram os antepassados do Chega, tanto nos anos 1960 como em 1975 e 1976, nas lutas pela liberdade e pela democracia.

 

A melhor comparação faz-se em poucas palavras. A democracia deixa viver os amigos de Ventura e do Chega. Não é certo que os amigos de Ventura deixassem viver as esquerdas e os democratas.

 

Não sei se André Ventura é ignorante e desonesto, nem sei se é irresponsável e provocador. Mas sei que não é estúpido nem democrata. As suas intervenções a propósito das malfeitorias da democracia, em comparação com as benfeitorias de Estado Novo salazarista, são risíveis, mas eficazes. O Chega de Ventura foi derrotado nas últimas legislativas, mas teve o talento de proclamar vitória. O Ventura do Chega foi derrotado nas últimas presidenciais, mas já fez com que esse exercício fosse transformado em etapa para a vitória. 

 

Mas a falta de sentido político e a tentação oportunista do PSD de Montenegro, assim como a inconsistência derrotada do PS ajudam o Chega, mostram uma estranha fraqueza da democracia e assustam! A democracia ainda tem meios políticos e legais para vencer o Chega e as suas tentativas antidemocráticas. Como ainda tem condições para afastar a extrema-direita e os seus esforços de restauração. Ainda. E ainda. Mas as suas possibilidades começam a diminuir. Ou antes, as ameaças aumentam. Se os democratas e as instituições nacionais e locais não conseguirem secar as fontes da demagogia, então podemos crer que os demagogos passarão. Como se faz isso? Dando o exemplo. Sendo honesto. Melhorando as vidas das pessoas. Fazendo justiça pronta. Cuidando da saúde pública. Dialogando sempre, a fim de conseguir maiorias de governo. Garantindo a estabilidade política. Trabalhando, em concertação, para a estabilidade social. Controlando melhor os movimentos de população, designadamente a imigração. Legalizando os trabalhadores estrangeiros, os que fogem ao fisco e os que aldrabam a segurança social. Lutando contra os empresários do trabalho ilegal. Nomeando professores a tempo e horas. Colocando médicos nos hospitais segundo as necessidades. Combatendo os crimes contra as mulheres e as crianças.

 

Este é o catálogo. Longo. Complexo. Difícil. Por isso já deveriam ter começado, em vez de se dedicarem aos jogos florais das negociações ou ao simulacro do trabalho feito e do dever cumprido. Por isso também o diálogo sincero entre alguns partidos democráticos deveria estar adiantado, já próximo de acordos fundamentais. Podemos ter a certeza de que estes partidos não estão a destruir a democracia. Mas estão a deixar que a destruam. A presunção ardilosa do PSD e a superioridade fantasiosa do PS estão a fazer mal ao país e à democracia. Estão a deixar que os coveiros da liberdade se infiltrem nas instituições e se passeiem vistosamente pelas vielas da conspiração.

 

Nota. Os primeiros jacarandás estão aí! Sempre!

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Público, 25.4.2026 

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23.4.26

A propósito da última crónica de António Barreto

 


No "Correio de Lagos" de Janeiro de 2026
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Os Logos de Lagos

 

UM LOGÓTIPO é um símbolo gráfico que proporciona uma identificação visual, imediata e inequívoca, de algo ou alguém (produto, marca, fornecedor de bens ou serviços, etc.), podendo ser um simples desenho ou incluir algum texto; mas, destinando-se a ser reconhecido sem esforço, quanto mais simples for, mais eficaz será.

 

ALIÁS, nos casos mais bem-sucedidos, a imagem até pode dispensar o nome: basta pensar na estrela da Mercedes, na concha da SHELL, no coelhinho da PLAYBOY ou no boneco da Michelin. 

Outras vezes, é o próprio nome que, pela forma como é desenhado, se impõe como logótipo (casos da IBM, da GE-General Electric, da Coca-Cola…), existindo também exemplos particularmente felizes — como a Apple e a Mitsubishi —, cujas imagens coincidem com os próprios nomes, respectivamente “maçã” e “três losangos” (ou “diamantes”, como por vezes também é referido).

 

FINALMENTE, há os que, pelo seu grafismo inspirado, dispensam explicações adicionais e, até há pouco tempo, Lagos dispunha de um destes bons exemplos: um desenho estilizado, criado em CorelDRAW, que sintetizava o essencial — o sol, o mar, a areia e as muralhas — acompanhado da expressão “LAGOS dos Descobrimentos”.

 

POSTO isso, e considerando que, enquanto imagem de marca, um logótipo deve permanecer o mais estável possível (e o anterior já aparecia referido na página da autarquia em 2008), permitam-me a pergunta:


O que terá levado a nossa Câmara Municipal a alterar, não apenas a imagem, mas também o lema, que passou a ser Lagos “DE” Descobertas — e nem sequer “DAS” Descobertas, o que ainda se poderia entender?


Terá sido a nova moda de cultivar uma certa VERGONHA da palavra e do conceito DESCOBRIMENTOS? Palpita-me que sim, mas não sou o único a suspeitar, e garanto que estou muito bem acompanhado. Todavia, se estiver(mos) a ser injusto(s), queiram desculpar.

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18.4.26

Grande Angular - Liberdade, cultura e história

Por António Barreto

Palavras que combinam mal entre nós. Liberdade e cultura, por exemplo. Democracia e política cultural, também. Memória e cultura, ainda. Ou, para terminar, memória e liberdade. Os livros obrigatórios para o ensino são boa ilustração. Tal como os museus e as comemorações. Por exemplo, os museus do 25 de Abril, o dos Descobrimentos e o da Escravatura. 

 

Pobre Saramago! Já é a segunda ou terceira vez que o homem se transforma em causa de guerra e motivo de discórdia! Deve ser por ser comunista. Uns senhores bem-pensantes, defensores de uma qualquer herança nacional, ou de uma doutrina política de combate, atiram a matar contra Saramago. Tanto em vida, como depois da morte. Gostemos ou não, a obra e o seu valor intrínseco, o seu relevo na cultura portuguesa, a sua projecção internacional e o número de edições e de traduções: todos estes argumentos mais do que justificam a atenção dada a este autor e escritor nos programas de língua e literatura. E sobretudo que os professores que o apreciam falem dele nas aulas, aconselhem e motivem os alunos para o ler, seja o Memorial, seja o Evangelho, seja O ano da morte. Uns, peritos ou políticos, incluem Saramago na lista dos livros obrigatórios. Outros, igualmente peritos ou políticos, excluem-no da lista e substituem-no por outro. O problema, todavia, é mais grave: consiste em tornar Saramago obrigatório ou decretar a sua exclusão! Saramago e qualquer outro, Vieira ou Torga.

 

O que está errado é que haja leituras obrigatórias ou algo que se pareça com isso. Não seria mais aceitável que houvesse recomendações ou sugestões de leituras a serem administradas e adaptadas por cada escola, cada turma, cada professor, cada encarregado de educação? Não seria muito mais importante afastar ou condenar (sem qualquer sentido de obrigatoriedade ou de proibição) o uso de livros resumidos, de romances sinópticos e de versões sintéticas que desnaturam a cultura, a história e a formação intelectual? O ponto essencial nesta discussão é que não deveria haver leituras obrigatórias! Em nome da cultura e da liberdade, pura e simplesmente não! Os Maias, O Memorial do Convento, O Amor de Perdição, Os Lusíadas, O Auto da Barca, A Sibila ou A Mensagem cabem em qualquer lista, obrigatórios é que não. De livre escolha, sim. Integrais, sim. Ao contrário de tantos que vivem bem com o facto de haver “versões curtas” de todos os livros, sobretudo os obrigatórios, de Camões a Eça, de Camilo a Agustina. 

 

Também estar a ser polémica a criação de um Museu do 25 de Abril, da Liberdade, da Democracia ou de qualquer outra denominação similar. Parece que as decisões oficiais foram tomadas, em tempos. Já foram alteradas. Depois renovadas. E agora novamente modificadas, parecendo que as entidades oficiais (Governo? Ministério? Outras instituições?) já não concordam nem dispõem dos locais e dos recursos necessários. É evidente que fazer um museu dedicado ao 25 de Abril tem que se lhe diga, pelo menos simbolicamente. Há uma ironia ácida em colocar num museu o 25 de Abril ou a liberdade. Fazer um museu com essa data ou qualquer outra designação pode ser de mau gosto. Tanto quanto a ridícula denominação modernista que tem sido preferida, a de “Centro Interpretativo”. Mas parece evidente também que organizar uma qualquer iniciativa que preste homenagem ao 25 de Abril e aos seus autores, assim como ao regime político democrático que se criou ou até à liberdade que tudo inspirou, parece de bom sentido, de bom gosto e de utilidade segura. Desde que não seja uma pastelada de mau gosto ou uma catequese da má liberdade. Mas a polémica está instalada, nem sempre pelas boas razões. Os pontos de vista enunciados têm origem na utilidade ou na conveniência actuais, mais do que no conteúdo e na inspiração.

 

Museus, aliás, que têm uma sina triste entre nós. O indispensável, útil, necessário e orgulhoso Museu dos Descobrimentos é proposto há anos e décadas por muita gente, incluindo académicos e intelectuais. O projecto já várias vezes foi aceite pelos poderes do dia, outras tantas afastado, por vezes simples e covardemente esquecido. Motivos políticos e financeiros são invocados para justificar esta abstenção. É dos raros temas da história de Portugal que merece museu, ensino, história, estudo, crítica e orgulho. Há contexto, meios e sítios (a Casa da Cordoaria ficaria mesmo a calhar!). Há interesse, estudiosos e investigadores. Já várias autoridades decidiram e aceitaram fazer, já outras tantas recusaram ou negaram. Ou debilmente esqueceram e afastaram. Para já, tal Museu está novamente morto e enterrado, naquela que é uma miserável atitude dos poderes oficiais. Há razões longas para esta situação: desinteresse, falta de cultura ou outros projectos com mais retorno eleitoral. Uma, no entanto, sobressai actualmente: a praga do anticolonialismo, do anti-racismo e de outras causas afins que pretendem apagar os Descobrimentos, encobri-los com a escravatura e a conquista e refazer a história. É mais uma vil posição das autoridades.

 

Contra o Museu dos Descobrimentos, um dos grandes argumentos reside na necessidade de combater e denunciar as malfeitorias dos portugueses nas sete partidas do mundo. Outro está na urgência, para uns, de fazer um museu ou algo parecido que estude, critique e condene a escravatura, o colonialismo e a conquista. Como parece evidente, este “museu” tem também a sua razão de ser, desde que o outro não seja assim substituído. Pode até mesmo conceber-se um só museu que cubra toda a realidade, ou antes, que inclua uma dimensão crítica dos acontecimentos e dos objectos de estudo e de exibição. Um “memorial” sobre a escravatura, que tanto representou na história de Portugal, também tem todo o sentido. Desde que, evidentemente, o museu dos Descobrimentos não seja substituído pela demagogia contemporânea. 

 

Falta de liberdade e de cultura na definição e na prática de livros obrigatórios. Falta de liberdade e de orgulho na negação de uma instituição comemorativa da democracia e do 25 de Abril. Falta de liberdade e de sentido da história na recusa do Museu dos Descobrimentos. Falta de coragem e de sentido humano no afastamento da ideia de construção de um memorial dedicado à escravatura. Os portugueses, ou antes, as autoridades não saem bem desta história. 

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Público, 18.4.2026

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11.4.26

Grande Angular - Momento ideal

Por António Barreto

Sabemos que os próximos tempos vão ser difíceis. A situação na Europa, no Próximo Oriente, na Ucrânia e na Rússia, para já não falar da África, é de horror e terror. Economias de rastos. Custo de vida explosivo. Os piores conflitos armados desde há décadas. As duas grandes potências militares, Estados Unidos e Rússia, envolvidas em terríveis guerras. Crise de energia sem dúvida. Crise nas bolsas, no comércio e nos transportes internacionais. Fome e guerra civil em África. Movimentos militares em vários continentes. Há muitas décadas que não se via nada parecido.

 

Esperam-nos, por isso, anos difíceis, sem que deles sejamos responsáveis. O problema é que não estamos preparados para os enfrentar, nem se vê que as autoridades estejam convencidas dos perigos que nos esperam. Os poderes públicos parecem alertados, mas as suas reacções revelam um estranho à-vontade. Até à data, descontos, subsídios, isenções e doações parecem ser as únicas soluções ao alcance do governo.

 

Vem aí aumento do custo de vida com valores desconhecidos. Talvez alguma crise de energia. É de esperar um crescimento inédito da despesa com a defesa, dada a crise internacional e tendo em conta o que pode acontecer à NATO e aos Estados Unidos. Haverá despesas consideráveis, além de revisões políticas de fundo.

 

A luta de classes parece estar a preparar-se para algum desenvolvimento. O governo procura atacar as questões laborais. O mundo sindical reage mal. Salários ressentem-se do custo de vida. A paz social e a paz do trabalho não parecem estar à beira do caminho.

 

A tensão com a imigração mantém-se ou desenvolve-se em clima de incerteza. Os preconceitos, nestes momentos, têm tendência a multiplicar-se e a tornar tudo ainda mais difícil. Neste clima internacional, é provável que haja mais candidatos a imigrante a bater à porta.

 

Se as questões sociais e económicas de Portugal são complexas, as políticas ainda mais. O governo minoritário não tem poder, nem aceitação, nem sequer benefício da dúvida, para tratar deste pesado caderno de encargos. O Chega tudo fará para abrir crise e arranjar via, qualquer via, para integrar ou comandar o governo. O Partido Socialista vive em dilema absoluto, bem-comportado para ser credível ao centro, malcomportado para segurar o apoio das esquerdas. O Partido Social Democrata espera que os outros cometam erros, nada fará para encontrar soluções duráveis. O governo tem enorme esperança em continuar mais três anos como minoritário, na atitude mais adolescente da nossa vida política, que consiste em não acreditar na realidade.

 

Motivo de boa esperança no horizonte: o Presidente da República parece dar sinais de favor perante soluções equilibradas, governos de legislatura, quem sabe se maioria de segurança. Também parece ter dado sinais de não se querer deixar limitar numa atitude passiva, à espera dos acontecimentos. Os seus primeiros passos sugerem que os partidos não vão ter descanso, nem vão poder entregar-se com deleite às suas manobras coreográficas habituais.

 

Em conclusão, estamos a viver um momento excepcional de possibilidade e de necessidade. Nem sempre estas duas se conjugam. Agora, parece evidente. Necessidade de estabilidade, de esfoço comum durável, de planificação estratégica, de acção imediata e de coragem política. Possibilidade de encontrar meios políticos, condições financeiras, apoio popular, condições de diálogo e convergência de algumas orientações doutrinárias.

 

Enquanto o governo, minoritário, estiver à mercê da chantagem e das provocações do Chega, os portugueses não terão descanso. O governo não terá paz. As instituições não terão confiança. Os empresários terão receio. Os sindicatos não terão segurança. Os funcionários públicos não terão tranquilidade.

 

Os dois grandes partidos centrais, PSD e PS, não têm vida fácil. Enquanto derem sinais de hesitação e de falta de determinação, sentirão os seus eleitorados potenciais a olhar para o lado. A população não parece interessada em especular, nas esplanadas e nos ecrãs de televisão, sobre as possibilidades mirabolantes do Chega, sobre os planos inteligentes e abstractos do PS e sobre as tácticas maquiavélicas do PSD. Hoje pretende-se que haja serena autoridade, jeito para a acção, sensibilidade para compreender os que sofrem e inteligência para perceber as ameaças. Já não se espera nem pensa no divertimento que se retira da berraria parlamentar, das graças do Chega, das beatitudes dos socialistas ou da inocência culposa dos sociais-democratas.

 

É possível encontrar uma via de conversa e negociação entre os socialistas e os sociais-democratas a fim de criar uma base programática comum. É possível definir as metas de um governo de união para os anos que faltam para completar a legislatura. É possível diminuir consideravelmente as lutas caricatas que se desenrolam na praça pública e que têm apenas como objectivo incomodar os rivais, aprofundar a instabilidade e dificultar a governação. Actualmente, as ridículas actuações dos principais partidos têm como exclusivos objectivos os de diminuir os outros e de tornar difícil qualquer acção ou legislação.

 

O comportamento do Chega, o mais assustador de todos, tem origem e causa na debilidade do PSD e do Governo. O comportamento do PS, o mais imprevisível de todos, tem uma razão: uma esquizofrenia fundamental que procura a estabilidade e o seu contrário. O comportamento do PSD, o mais perigoso de todos, tem a sua fonte no desejo de destroçar os rivais e de por eles ser derrubado em atitude descabelada.

 

Com algum recato, sem pressas, mas com determinação, os dois partidos centrais têm um raro momento nas suas vidas: podem entender-se sobre o essencial, não existem obstáculos doutrinários nem pessoais absolutos. Conseguem, se quiserem, definir programas comuns suficientes para dois ou três anos. Têm, talvez, a simpatia do Presidente da República. Podem apoiar-se num eleitorado consistente e de dimensões suficientes. Dão confiança às empresas e às instituições. Podem tranquilizar os sindicatos. Se o PSD se dispuser ao diálogo, pode ficar descansado que não será acusado de oportunismo ou de covardia. Se o PS estiver disponível para a negociação, não será apontado como traidor ou pedinte.

 

É esta a conjugação rara. A necessidade dos portugueses e a possibilidade dos partidos. É uma combinação vencedora!

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Público, 11.4.2026

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7.4.26

Grande Angular - Feia, mas boa!

Por António Barreto

O aniversário da Constituição comove! Tal como o dia da eleição da Assembleia Constituinte, a 25 de Abril de 1975. O da sua primeira reunião, a 2 de Junho de 1975. E o da aprovação final do texto, a 2 de Abril de 1976. Estas datas foram precedidas ou seguidas de outras não menos decisivas. O 25 de Novembro de 1975. As primeiras eleições legislativas, a 25 de Abril de 1976. A eleição do Presidente da República, a 27 de Junho de 1976. E a posse do primeiro governo democrático, a 23 de Julho de 1976. Tudo isto, no meio de acontecimentos inesquecíveis. Para quem os viveu, foram alguns dos mais belos dias da sua vida. Foram estas datas, mais a de 25 de Abril de 1974, que fizeram a liberdade.

 

Mas este aniversário, o 50º, ficou ensombrado por uma querela cheia de significado, mas inútil. Parece ser sobre um tema, mas, na verdade, é sobre outro, oculto. A revisão da Constituição cumpre as exigências do que é uma polémica portuguesa. Com muito significado, mas não é disso que se trata, é de um pretexto para outros ajustes de contas. É a revisão que se discute com ferocidade, sem sequer conhecer propostas. É o poder que está em causa. É uma acção de guerrilha. A provável fragilidade do PSD faz com que o assunto seja falado. Fazer esta revisão é prestar serviço aos acrobatas populistas que querem espaço, páginas de jornal, canais de televisão, entrevistas e redes sociais, assim como enfraquecer o PSD. Também não é preciso muito para ver o PSD débil, sem acreditar no que quer que seja, disponível e indisponível tanto faz.

 

A Constituição é evidentemente rude, mal escrita, excessiva, processual e metediça. Tantas vezes adolescente, ou mesmo infantil, ao julgar que basta dizer para que as coisas aconteçam. A Constituição é feia e grande. Foi feita por um número excessivo de advogados e juristas, candidatos a déspotas, gente decidida a organizar a vida dos outros em vez de deixar viver. Foi muito negociada. Como aqueles animais desenhados, às cegas, por várias pessoas. Não é zebra, não é girafa. Nem ocapi ou rinoceronte. É assim uma coisa. Defende ideias do capitalismo e do socialismo. É corporativista e liberal. Comunistas e socialistas revêem-se nela. Sociais democratas têm dias. Confusa e contraditória. Incapaz de lirismo, mesmo na versão constitucional. Um verdadeiro “cadavre exquis”, na definição dos Surrealistas dos anos 1920.

 

Mas foi um milagre. Salvou a democracia. Conservou o melhor da revolução. Mostrou os encantos do capitalismo social democrata. Afastou os tristonhos do corporativismo e manteve à distância os soturnos do comunismo. Os democratas olhavam para ela como se fosse a muralha da liberdade que manteria revolucionários à distância. Os revolucionários consideravam-na a mais segura defesa das conquistas de revolução. Foi este mal-entendido que constituiu o acordo que salvou a democracia. A tal ponto que, muito anos depois, após várias revisões, com a extracção do Conselho da Revolução, a reversão das nacionalizações e a abertura dos sectores de economia, depois disso tudo que retirou o fio de prumo da revolução, ainda os revolucionários a defendem, juntando-se aos socialistas e a alguns sociais democratas.

 

Rever a Constituição agora, nas actuais circunstâncias, sob chantagem do Chega, sem um longo prazo de reflexão e de participação, não é crime, nem propriamente um golpe de Estado. Seria uma derrota da democracia. Para o Chega, a maior vitória desde que nasceu. Mas era um acto de covardia do PSD, de fraqueza para além do admissível, sem cabeça nem moral. Se o PSD ceder, na que seria a sua maior derrota, o recado fica dado aos eleitores: é melhor votar directamente no Chega e não por procuração do PSD.

 

Nos países democráticos, são raras as revisões constitucionais. Muitas vezes, trata-se de apenas um artigo, uma emenda, uma breve inserção. Quando são de vulto, uma revisão pode durar meses ou anos de reflexão e discussão pública. De participação das forças sociais, da academia e dos cidadãos. Só regimes autoritários fazem revisões à bruta, impostas, a despachar, para ter vitórias demagógicas de curto prazo.

 

A nossa Constituição necessita de revisão? Não parece. Pode ser revista? Seguramente. Deve ser revista? Com certeza, desde que com todas as condições de participação, com todo o tempo necessário, com vontade e receptividade popular. Se o Chega forçar a revisão, com óbvios intuitos de demagogia, o PSD deve recusar a chantagem. Se o PSD ceder, muitos dos seus deputados podem e devem não a votar. Aliás, o voto individual serve para isso, para proteger a liberdade.

 

Há opções que poderiam um dia ser tratadas e discutidas com proveito, mas sem histeria nem demagogia. Por exemplo, a eleição do Presidente da República e os seus poderes. A sua eleição indirecta seria talvez um progresso do sistema político. A regionalização é outro exemplo. O que actualmente lá se diz sobre esse assunto nunca foi respeitado nem posto em prática, mas já foi condenado pela ausência de vontade política e por um referendo. Também o sistema eleitoral uninominal poderia ser debatido.

 

E mais poderia ser feito, se o fosse honestamente, sem demagogia. Sobre a Justiça e sobre os grandes sistemas públicos de saúde e de educação. Sobre a descentralização e a Administração Pública. Mas tudo isso deveria ser feito com serenidade e conhecimento prévio dos projectos de revisão pelos cidadãos. Ao longo de meses ou anos. Não com métodos velhacos de volúpia duvidosa, de vontade de dar nas vistas, de vingança ou de oportunismo, coisas em que o Chega é especialista. Sobretudo quando percebe que o PSD se deixa tentar.

 

Rever a Constituição agora, nestas circunstâncias, sem preparação nem debate público, não é crime! Não é sequer um golpe de Estado, mas é um favor prestado ao populismo. Se o Chega ou quem quer que seja apresentar um projecto de revisão que seja uma armadilha, se não houver uma vasta divulgação dos textos e das propostas, se não houver tempo para que haja uma discussão pública fundamentada, se não houver acordos prévios discutidos e se a tudo isto faltar sensatez e sobrar espalhafato, os restantes partidos têm uma boa solução: deixem o Chega falar sozinho, debater com ele próprio e votar solitariamente! Assistam à cena, porque deve valer a pena, mas não participem nela! A democracia fica a ganhar!

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Público, 4.4.2026

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