Grande Angular - Momento ideal
Por António Barreto
Sabemos que os próximos tempos vão ser difíceis. A situação na Europa, no Próximo Oriente, na Ucrânia e na Rússia, para já não falar da África, é de horror e terror. Economias de rastos. Custo de vida explosivo. Os piores conflitos armados desde há décadas. As duas grandes potências militares, Estados Unidos e Rússia, envolvidas em terríveis guerras. Crise de energia sem dúvida. Crise nas bolsas, no comércio e nos transportes internacionais. Fome e guerra civil em África. Movimentos militares em vários continentes. Há muitas décadas que não se via nada parecido.
Esperam-nos, por isso, anos difíceis, sem que deles sejamos responsáveis. O problema é que não estamos preparados para os enfrentar, nem se vê que as autoridades estejam convencidas dos perigos que nos esperam. Os poderes públicos parecem alertados, mas as suas reacções revelam um estranho à-vontade. Até à data, descontos, subsídios, isenções e doações parecem ser as únicas soluções ao alcance do governo.
Vem aí aumento do custo de vida com valores desconhecidos. Talvez alguma crise de energia. É de esperar um crescimento inédito da despesa com a defesa, dada a crise internacional e tendo em conta o que pode acontecer à NATO e aos Estados Unidos. Haverá despesas consideráveis, além de revisões políticas de fundo.
A luta de classes parece estar a preparar-se para algum desenvolvimento. O governo procura atacar as questões laborais. O mundo sindical reage mal. Salários ressentem-se do custo de vida. A paz social e a paz do trabalho não parecem estar à beira do caminho.
A tensão com a imigração mantém-se ou desenvolve-se em clima de incerteza. Os preconceitos, nestes momentos, têm tendência a multiplicar-se e a tornar tudo ainda mais difícil. Neste clima internacional, é provável que haja mais candidatos a imigrante a bater à porta.
Se as questões sociais e económicas de Portugal são complexas, as políticas ainda mais. O governo minoritário não tem poder, nem aceitação, nem sequer benefício da dúvida, para tratar deste pesado caderno de encargos. O Chega tudo fará para abrir crise e arranjar via, qualquer via, para integrar ou comandar o governo. O Partido Socialista vive em dilema absoluto, bem-comportado para ser credível ao centro, malcomportado para segurar o apoio das esquerdas. O Partido Social Democrata espera que os outros cometam erros, nada fará para encontrar soluções duráveis. O governo tem enorme esperança em continuar mais três anos como minoritário, na atitude mais adolescente da nossa vida política, que consiste em não acreditar na realidade.
Motivo de boa esperança no horizonte: o Presidente da República parece dar sinais de favor perante soluções equilibradas, governos de legislatura, quem sabe se maioria de segurança. Também parece ter dado sinais de não se querer deixar limitar numa atitude passiva, à espera dos acontecimentos. Os seus primeiros passos sugerem que os partidos não vão ter descanso, nem vão poder entregar-se com deleite às suas manobras coreográficas habituais.
Em conclusão, estamos a viver um momento excepcional de possibilidade e de necessidade. Nem sempre estas duas se conjugam. Agora, parece evidente. Necessidade de estabilidade, de esfoço comum durável, de planificação estratégica, de acção imediata e de coragem política. Possibilidade de encontrar meios políticos, condições financeiras, apoio popular, condições de diálogo e convergência de algumas orientações doutrinárias.
Enquanto o governo, minoritário, estiver à mercê da chantagem e das provocações do Chega, os portugueses não terão descanso. O governo não terá paz. As instituições não terão confiança. Os empresários terão receio. Os sindicatos não terão segurança. Os funcionários públicos não terão tranquilidade.
Os dois grandes partidos centrais, PSD e PS, não têm vida fácil. Enquanto derem sinais de hesitação e de falta de determinação, sentirão os seus eleitorados potenciais a olhar para o lado. A população não parece interessada em especular, nas esplanadas e nos ecrãs de televisão, sobre as possibilidades mirabolantes do Chega, sobre os planos inteligentes e abstractos do PS e sobre as tácticas maquiavélicas do PSD. Hoje pretende-se que haja serena autoridade, jeito para a acção, sensibilidade para compreender os que sofrem e inteligência para perceber as ameaças. Já não se espera nem pensa no divertimento que se retira da berraria parlamentar, das graças do Chega, das beatitudes dos socialistas ou da inocência culposa dos sociais-democratas.
É possível encontrar uma via de conversa e negociação entre os socialistas e os sociais-democratas a fim de criar uma base programática comum. É possível definir as metas de um governo de união para os anos que faltam para completar a legislatura. É possível diminuir consideravelmente as lutas caricatas que se desenrolam na praça pública e que têm apenas como objectivo incomodar os rivais, aprofundar a instabilidade e dificultar a governação. Actualmente, as ridículas actuações dos principais partidos têm como exclusivos objectivos os de diminuir os outros e de tornar difícil qualquer acção ou legislação.
O comportamento do Chega, o mais assustador de todos, tem origem e causa na debilidade do PSD e do Governo. O comportamento do PS, o mais imprevisível de todos, tem uma razão: uma esquizofrenia fundamental que procura a estabilidade e o seu contrário. O comportamento do PSD, o mais perigoso de todos, tem a sua fonte no desejo de destroçar os rivais e de por eles ser derrubado em atitude descabelada.
Com algum recato, sem pressas, mas com determinação, os dois partidos centrais têm um raro momento nas suas vidas: podem entender-se sobre o essencial, não existem obstáculos doutrinários nem pessoais absolutos. Conseguem, se quiserem, definir programas comuns suficientes para dois ou três anos. Têm, talvez, a simpatia do Presidente da República. Podem apoiar-se num eleitorado consistente e de dimensões suficientes. Dão confiança às empresas e às instituições. Podem tranquilizar os sindicatos. Se o PSD se dispuser ao diálogo, pode ficar descansado que não será acusado de oportunismo ou de covardia. Se o PS estiver disponível para a negociação, não será apontado como traidor ou pedinte.
É esta a conjugação rara. A necessidade dos portugueses e a possibilidade dos partidos. É uma combinação vencedora!
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Público, 11.4.2026
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