21.3.26

Grande Angular - Os amigos e os outros

Por António Barreto

O estudo da “Action for Democracy” e o trabalho do Público e de Pedro Guerreiro são estímulos à reflexão, sobretudo quando as coisas estão difíceis. Estes trabalhos fornecem comparações muitos interessantes e ajudam a responder a perguntas necessárias. Quem são os nossos amigos? Os democratas têm sempre razão?

 

Os “meus amigos”, aqueles com quem gosto de conviver e com os quais posso ter alianças, são os países ou Estados democráticos. Onde há liberdade. E respeito pelas pessoas e seus direitos. Não hesito, nem tenho dúvidas. Mas sei que até os meus amigos fazem disparates e coisas inadmissíveis. Como o governo americano, sob Trump, como o governo israelita, com Netanyahu. Como, aliás, cuidadas as proporções, o governo português, com Montenegro, Passos Coelho ou Costa. Não é por fazerem certas opções que deixam de fazer parte do grupo dos “amigos”. Os que não são “amigos”, que poderão ser “inimigos” ou “adversários”, podem até ter razão uma vez, não é por isso que passam a ser amigos.

 

O mundo está dividido. Entre democracias e não democracias (autocracias, ditaduras, teocracias, plutocracias…). Tudo somado, tenho a percepção de que as democracias são cada vez menos. E que, nestas, o número de não democratas é cada vez maior. Lamento que nos últimos anos as democracias estejam a perder. Porque alguns deixaram de o ser. Porque outros deixaram de o desejar. Porque outros tentam aproximar-se de ditaduras. E porque mesmo dentro das democracias antigas, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália, apareceram movimentos e aventureiros antidemocráticos. Tal como no meu próprio país.

 

Muitos que vivem em democracia ficam complacentes com todas as formas de antidemocracia que vigoram. Olham para as questões de género, de raça, de cultura, de nacionalidade e de etnia seja com desprezo reaccionário, seja com indulgência covarde. Observam, com atávico respeito, os Estados muçulmanos, nunca democráticos, sempre machistas, geralmente autoritários e muitas vezes fanáticos. Olham para o mundo abdicando dos seus valores, porque assim acham mais confortável: o russo cruel e conquistador, o americano imperialista e bélico e o israelita vingativo são admirados ou perdoados. Finalmente, criticam a uns o que desculpam a outros. O que se detesta na Rússia, admira-se em Israel. O que se critica em Gaza, perdoa-se na Ucrânia. O que se aceita na China, critica-se nos Estados Unidos. “Dois pesos e duas medidas” é a fórmula mais simples para caracterizar a abdicação de tanta gente na Europa.

 

A ideia de que o império russo poderá um dia ser democrático e pacífico é uma ilusão. Imaginar os regimes islâmicos como entidades democráticas e respeitadoras dos direitos humanos é miopia. Considerar que o império chinês é democrático é estrabismo mental. Os valores orientais, as tradições chinesas, a herança cultural africana, as crenças islamistas, os usos indianos e os costumes ameríndios têm as suas grandezas, a sua beleza e o seu direito à existência. Mas, das suas tradições, não fazem parte os direitos dos cidadãos. Podem ter importância estética, religiosa, até humana, mas deles não vem a democracia. Esta é europeia e ocidental e está sob ameaça.

 

Muitos democratas portugueses erram… Quando consideram progresso ceder à ordem civilizacional de Estados não democráticos. Quando imaginam que o afastamento de estrangeiros pode ser via de progresso. Enganam-se quando aderem ao fascínio pelo poderoso e anafado. Enganam-se quando imaginam que é progresso aderir aos valores cruéis dos povos que desprezam mulheres, maltratam crianças, odeiam velhos e detestam opiniões livres. Enganam-se quando aderem aos costumes dos povos opressores. Enganam-se quando desprezam a cultura ocidental por a considerar mãe dos defeitos humanos. Como se enganam os que são incapazes de criticar os americanos quando estes desprezam os aliados. Enganam-se os que criticam ferozmente os americanos pelas intervenções militares e desculpam ou aceitam as intervenções militares russas, iranianas…. Enganam-se, mas é exactamente o que pensam.

 

Tanto os nossos amigos como os outros: todos devem ser criticados. Os Governos americano, israelita, russo e iraniano devem ser criticados, nenhum merece perdão. Mesmo se uns pertencem ao mundo das democracias. Os governos destes últimos Estados amigos passarão e, um dia, reencontraremos as democracias com as quais partilhamos valores. Quanto aos outros, que também passarão, não é provável que dêem lugar a Estados democráticos. Há povos, países e Estados assim: quase nunca aspiraram à democracia, sempre tiveram aversão pelas sociedades livres, detestam as políticas liberais, não conhecem os direitos dos cidadãos e abominam a cultura livre.  Por isso, nunca compreendi que um “progressista” pudesse reservar as suas fúrias para a crítica aos americanos e aos europeus, deixando em silêncio Estados que militam contra a democracia em qualquer parte do mundo.

 

O Presidente Trump tem dado mostras de comportamento imperialista. Além de desencadear guerras perigosas, despreza os aliados, desrespeita o direito internacional e prepara-se para destruir o que sobra da NATO. Por pior que seja, não basta para considerar os Estados Unidos da América uma ditadura ou um inimigo. A seu tempo, o povo americano dirá o que pretende a seguir. A Grã-Bretanha saiu da União Europeia, a Hungria aproxima-se da Rússia e a Espanha prefere fazer caminho solitário. O que precede enfraquece o campo da democracia, mas não é suficiente para que os países em questão deixem de ser nossos amigos.

 

Netanyahu, Trump, Orbán, Erdogan, Putin ou Xi não erram, são o que são. Põem deliberadamente em causa o direito internacional e procuram estabelecer novas relações de força. Uns fazem parte do mundo democrático, outros não. Uns podem ser postos na rua pelos seus povos, outros não. Todos merecem ser criticados. Mas não se pode confundir quem vive na liberdade dos seus povos com quem a suprime. É por isso que, mau grado críticas e contestação, uns são amigos, outros não.

 

Há ricos e pobres. Brancos e negros. Cristãos e muçulmanos. Judeus e gentios. Hindus e budistas. Cosmopolitas e nacionalistas. Imperialistas e submissos. Capitalistas e trabalhadores. Desenvolvidos e atrasados. Um sem fim de diferenças e divisões. Mas há uma divisão que se sobrepõe a todas: entre democratas e não democratas. Entre quem vive em liberdade e quem vive em ditadura. Entre quem elege os seus governantes e quem os sofre. Entre quem tem liberdade de expressão e quem vive na censura. Esta é a divisão que me importa mais do que todas.

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Público, 21.3.2026

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