Grande Angular - O dever de servir
Por António Barreto
As últimas eleições autárquicas, legislativas e presidenciais, realizadas em menos de um ano, tiveram, cada uma, os seus centros de interesse e os seus temas de luta política. Umas vezes, eram diferentes, de uma eleição para outra. Outras vezes, eram os mesmos, até sem qualquer espécie de relação com o sentido principal da eleição em causa. Em todas se falou, por exemplo, de imigração, de corrupção e de justiça, são os sinais dos tempos. Com ou sem sinceridade, a propósito ou não, eram problemas de actualidade que não podem ficar excluídos de um debate eleitoral. Mas há um tema que foi central em todas as eleições, mesmo a despropósito. Como também é primordial nos debates parlamentares, nas visitas presidenciais ou nas assembleias municipais. E recorrente na imprensa, nas televisões e nas redes sociais. Trata-se, evidentemente, dos serviços públicos e de utilidade pública. De tudo quanto pode ser abrangido por essa designação genérica. Que inclui aspectos essenciais da nossa vida, como a saúde, a educação e a segurança social. Mas também os cuidados com os deficientes, os idosos e os inválidos. Assim como os serviços de justiça, dos registos, do notariado, da burocracia e da imigração. Além do atendimento relativo aos grandes serviços de telefone, correios, gás, água e electricidade. Para já não falar dos evidentes, constantes, essenciais e sempre críticos transportes públicos. Em praticamente todos estes serviços, sectores, instituições e empresas, vive-se, há bastantes anos, em crise cada vez mais aguda.
As filas de espera na saúde são conhecidas. Agora, foram ofuscadas pelos partos em ambulância assistidos por bombeiros sempre generosos, mas nem sempre qualificados. Ou por mortos à espera de admissão. Ou pela necessidade de fazer centenas de quilómetros para uma emergência. A saúde em Portugal, dominada retoricamente pela ideia do Serviço Nacional de Saúde, é um dos principais factores de promoção da desigualdade social e da injustiça em Portugal.
O desumano tratamento administrado pelas empresas de telefones, de correios, de água, de gás e de electricidade é crescente e de refinamento sádico. As avarias não reparadas, os equipamentos deficientes, os aumentos de preços injustificados e as esperas por atendimento são proverbiais. Uma sua grande especialidade reside nos “contratos de fidelização” (até vários anos) que são verdadeiros artifícios de exploração e escroqueria, autênticos expedientes para disfarçar a ilegalidade absoluta da prática de monopólio e de contrato leonino.
A destruição e a privatização hipócrita, integral ou parcial, de grandes empresas públicas dedicadas aos serviços, como nos casos dos petróleos, do gás, dos correios, dos aviões, das telecomunicações, da energia e da água são exemplos flagrantes do que se pode designar como decadência programada.
Os transportes públicos ultrapassam qualquer esforço de ficção negativista ou de crítica descabelada. Atrasos, desconforto, exploração, aumento de preço, falta de higiene, insegurança e violência são as suas realidades quotidianas. Os transportes urbanos foram relegados para uma miséria indisfarçável. As redes de comboios nacionais, regionais e suburbanas foram abandonadas e negligenciadas talvez a favor dos automóveis, talvez por desprezo e incompetência e talvez por interesses ilegítimos. Certo é que os transportes de caminho de ferro de passageiros são o que há de mais próximo do inferno na terra. Tal, aliás, como os transportes aéreos, cujo retrato mais fiel é o dos aeroportos, com horas de espera para sair ou entrar no país, com desconforto crescente, com aumentos de preços impostos e horários inesperados e incertos.
Em muitas cidades, a começar por Lisboa, o espaço público é um dos mais confrangedores exemplos da decadência social e da miséria criados pelas novas miragens do turismo às dezenas de milhões, dos transportes improvisados, da rapidez na criação de falsos empregos e de empresas fictícias. Grande parte da Baixa de Lisboa, um dos mais belos tecidos urbanos públicos históricos da Europa, é hoje uma “terra devastada”, de destruição por desleixo e de ruína deliberada. O asseio público e os serviços de limpeza e manutenção atingem o grau zero decadência. Os centros históricos das cidades portuguesas, a começar por Lisboa, são cada vez mais territórios marginais e infernos sociais. Exemplos de desleixo e desmazelo. Casos flagrantes de marginalidade tolerada e fomentada.
A Administração Pública, o Estado, as autarquias e as empresas públicas têm-se revelado, ao longo das últimas décadas, desleixadas, incompetentes e sobretudo desinteressadas. A ideia de que pode haver dignidade e brio num serviço público é talvez cultivada, aqui e ali, por um funcionário, um cidadão, um técnico ou um trabalhador. Mas é valor com pouco eco e limitado interesse. E nenhum dever de organização, de cuidado e de humanidade. Pode tratar-se de mero desleixo. De obsessão propagandística. De absoluto desmazelo. De ausência de liderança. De incompetência. De voracidade e desejo de lucro. De falta de cultura e de ideal moral. Ou de tudo um pouco. Ou muito de tudo. Mas que ninguém duvide: esta absoluta falta de humanidade e de qualidade será um princípio de morte. A democracia e a liberdade terão cada vez menos pessoas que as defendam quanto menos razões tenham para viver com sentido social e com valor humano.
As inundações e os vendavais, as chuvadas e os deslizes de terra, foram outros tantos obstáculos, perigos ou desastres que a sociedade soube mal enfrentar, porque sobretudo quem tinha a missão de ordenar, inspirar, organizar e liderar não o fez, não soube fazer, não percebeu a tempo e não se sentiu empenhado. Para, tardiamente, tentar fazer propaganda.
Há cem, duzentos ou mais anos que a ideia de “servir o povo” ou servir a população alimentou programas políticos de esquerda ou direita, europeus ou asiáticos. Poderiam ser slogans sem consequência. Tratava-se por vezes de oportunismo político. Mas também de sentido de missão. E de responsabilidade pública. E de necessidade de dar espírito a quem pedia ou alma a quem oferecia humanidade. Cuidar do bem comum é talvez a missão mais elevada de qualquer funcionário, governante ou autarca. Entre nós, tem falhado.
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Público, 7.2.2026
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