18.4.26

Grande Angular - Liberdade, cultura e história

Por António Barreto

Palavras que combinam mal entre nós. Liberdade e cultura, por exemplo. Democracia e política cultural, também. Memória e cultura, ainda. Ou, para terminar, memória e liberdade. Os livros obrigatórios para o ensino são boa ilustração. Tal como os museus e as comemorações. Por exemplo, os museus do 25 de Abril, o dos Descobrimentos e o da Escravatura. 

 

Pobre Saramago! Já é a segunda ou terceira vez que o homem se transforma em causa de guerra e motivo de discórdia! Deve ser por ser comunista. Uns senhores bem-pensantes, defensores de uma qualquer herança nacional, ou de uma doutrina política de combate, atiram a matar contra Saramago. Tanto em vida, como depois da morte. Gostemos ou não, a obra e o seu valor intrínseco, o seu relevo na cultura portuguesa, a sua projecção internacional e o número de edições e de traduções: todos estes argumentos mais do que justificam a atenção dada a este autor e escritor nos programas de língua e literatura. E sobretudo que os professores que o apreciam falem dele nas aulas, aconselhem e motivem os alunos para o ler, seja o Memorial, seja o Evangelho, seja O ano da morte. Uns, peritos ou políticos, incluem Saramago na lista dos livros obrigatórios. Outros, igualmente peritos ou políticos, excluem-no da lista e substituem-no por outro. O problema, todavia, é mais grave: consiste em tornar Saramago obrigatório ou decretar a sua exclusão! Saramago e qualquer outro, Vieira ou Torga.

 

O que está errado é que haja leituras obrigatórias ou algo que se pareça com isso. Não seria mais aceitável que houvesse recomendações ou sugestões de leituras a serem administradas e adaptadas por cada escola, cada turma, cada professor, cada encarregado de educação? Não seria muito mais importante afastar ou condenar (sem qualquer sentido de obrigatoriedade ou de proibição) o uso de livros resumidos, de romances sinópticos e de versões sintéticas que desnaturam a cultura, a história e a formação intelectual? O ponto essencial nesta discussão é que não deveria haver leituras obrigatórias! Em nome da cultura e da liberdade, pura e simplesmente não! Os Maias, O Memorial do Convento, O Amor de Perdição, Os Lusíadas, O Auto da Barca, A Sibila ou A Mensagem cabem em qualquer lista, obrigatórios é que não. De livre escolha, sim. Integrais, sim. Ao contrário de tantos que vivem bem com o facto de haver “versões curtas” de todos os livros, sobretudo os obrigatórios, de Camões a Eça, de Camilo a Agustina. 

 

Também estar a ser polémica a criação de um Museu do 25 de Abril, da Liberdade, da Democracia ou de qualquer outra denominação similar. Parece que as decisões oficiais foram tomadas, em tempos. Já foram alteradas. Depois renovadas. E agora novamente modificadas, parecendo que as entidades oficiais (Governo? Ministério? Outras instituições?) já não concordam nem dispõem dos locais e dos recursos necessários. É evidente que fazer um museu dedicado ao 25 de Abril tem que se lhe diga, pelo menos simbolicamente. Há uma ironia ácida em colocar num museu o 25 de Abril ou a liberdade. Fazer um museu com essa data ou qualquer outra designação pode ser de mau gosto. Tanto quanto a ridícula denominação modernista que tem sido preferida, a de “Centro Interpretativo”. Mas parece evidente também que organizar uma qualquer iniciativa que preste homenagem ao 25 de Abril e aos seus autores, assim como ao regime político democrático que se criou ou até à liberdade que tudo inspirou, parece de bom sentido, de bom gosto e de utilidade segura. Desde que não seja uma pastelada de mau gosto ou uma catequese da má liberdade. Mas a polémica está instalada, nem sempre pelas boas razões. Os pontos de vista enunciados têm origem na utilidade ou na conveniência actuais, mais do que no conteúdo e na inspiração.

 

Museus, aliás, que têm uma sina triste entre nós. O indispensável, útil, necessário e orgulhoso Museu dos Descobrimentos é proposto há anos e décadas por muita gente, incluindo académicos e intelectuais. O projecto já várias vezes foi aceite pelos poderes do dia, outras tantas afastado, por vezes simples e covardemente esquecido. Motivos políticos e financeiros são invocados para justificar esta abstenção. É dos raros temas da história de Portugal que merece museu, ensino, história, estudo, crítica e orgulho. Há contexto, meios e sítios (a Casa da Cordoaria ficaria mesmo a calhar!). Há interesse, estudiosos e investigadores. Já várias autoridades decidiram e aceitaram fazer, já outras tantas recusaram ou negaram. Ou debilmente esqueceram e afastaram. Para já, tal Museu está novamente morto e enterrado, naquela que é uma miserável atitude dos poderes oficiais. Há razões longas para esta situação: desinteresse, falta de cultura ou outros projectos com mais retorno eleitoral. Uma, no entanto, sobressai actualmente: a praga do anticolonialismo, do anti-racismo e de outras causas afins que pretendem apagar os Descobrimentos, encobri-los com a escravatura e a conquista e refazer a história. É mais uma vil posição das autoridades.

 

Contra o Museu dos Descobrimentos, um dos grandes argumentos reside na necessidade de combater e denunciar as malfeitorias dos portugueses nas sete partidas do mundo. Outro está na urgência, para uns, de fazer um museu ou algo parecido que estude, critique e condene a escravatura, o colonialismo e a conquista. Como parece evidente, este “museu” tem também a sua razão de ser, desde que o outro não seja assim substituído. Pode até mesmo conceber-se um só museu que cubra toda a realidade, ou antes, que inclua uma dimensão crítica dos acontecimentos e dos objectos de estudo e de exibição. Um “memorial” sobre a escravatura, que tanto representou na história de Portugal, também tem todo o sentido. Desde que, evidentemente, o museu dos Descobrimentos não seja substituído pela demagogia contemporânea. 

 

Falta de liberdade e de cultura na definição e na prática de livros obrigatórios. Falta de liberdade e de orgulho na negação de uma instituição comemorativa da democracia e do 25 de Abril. Falta de liberdade e de sentido da história na recusa do Museu dos Descobrimentos. Falta de coragem e de sentido humano no afastamento da ideia de construção de um memorial dedicado à escravatura. Os portugueses, ou antes, as autoridades não saem bem desta história. 

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Público, 18.4.2026

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