16.5.26

Grande Angular - O Poder – 2

Por António Barreto

As democracias no mundo diminuem. Os países aspirantes a democracia deixaram de o ser. Os pretendentes a democratas entenderam que é mais interessante serem candidatos a líderes, ditadores e condutores. As democracias capitalistas diminuem, vivem sem amanhãs, deixam-se navegar nas ondas populistas. A maior democracia capitalista atropela os valores democráticos e comporta-se como proprietária de parte do mundo. As ditaduras comunistas e aparentadas perderam qualquer remorso ou pudor e exibem, orgulhosas, os seus poderes indiscutidos. As outras ditaduras, asiáticas e africanas, à falta de melhor designação, enveredam por guerras civis ou de agressão. O número de democracias, pouco mais de 30, é minoritário. Os países a viver em regimes autoritários são maioritários. A população de países em regime ditatorial constitui mais de dois terços da Humanidade. Os cidadãos a viverem em regime de democracia plena é inferior a 10% da população mundial.

 

Israel perdeu a vergonha e o remorso. A Rússia nunca teve, nem um nem outra. A China conseguiu o impossível, aquilo que as cartas e os livros garantiam que não era deste mundo: conciliar o capitalismo agressivo com a ditadura política mais severa que se imagina. A América de Trump, a do dinheiro e da força, delicia-se no elogio do poder e da fortuna, enquanto a outra América, a da liberdade, parece estar a desistir. Em Pequim, Trump e Xi assinaram uma espécie de Tordesilhas, clara derrota da democracia. E toda a gente, ou quase, respeita o poder. Rússia, China e Estados Unidos partilham o poder, mas não o respeito, coisa que só a liberdade cria.

 

A democracia recua. A iniciativa privada também. Ou antes, o grande magnate e o oligopólio privado ou público estão em avanço indiscutível. Mas a iniciativa privada de pequena e média dimensão, ou mesmo grande, mas plural e diversificada, está em recuo. O Estado avança. O grande conglomerado privado avança. Ambos se entendem. Cá como lá, nos Estados Unidos, na Rússia ou na China, Estado e oligarquias privadas coexistem e alimentam-se.  Portugal é um caso interessante, ou antes, curioso: parte das suas “privatizações” caiu nas mãos de Estados, da França, de Angola ou da China, não de privados.

 

As taxas de sindicalização na Europa traduzem a permanente perda de poder de uma grande parte da população, neste caso dos trabalhadores empregados. Em Portugal, os sindicalizados serão cerca de 5 a 7% no sector privado e 10 a 12% no sector público. A média dos países da OCDE e da UE andará pelos 16%. França, pouco mais de 10%. Países de Leste, menos de 10%. Imigrantes, em qualquer país, muito menos do que nacionais. Casos evidentes de declínio democrático.

 

Ao longo das últimas décadas, as Américas e a Europa pareciam escapar ao processo de “fechamento” da liberdade e da democracia, tão visível na Ásia, na África e na Rússia. Naqueles continentes, alargar as bases do poder e distribuir o poder existente foram-se transformando em virtudes das sociedades e aspirações das classes. Parêntesis autoritários, fascistas ou comunistas, pareciam reduzidos a isso mesmo, parêntesis. Já não é verdade. Ou é cada vez menos. O poder ganha reputação por si próprio. Serve para existir, não existe para servir. Conquistar o poder é a virtude. Guardá-lo também. Mantê-lo numa só classe, num grupo, partido, clique, empresa ou pessoa é um êxito. O pior de tudo é que se aplaude quem assim age, quem assim pensa. Os sem poder aplaudem os poucos que o têm. E quando não aplaudem, deixam correr. Quase fazem pensar naqueles dirigentes soviéticos, companheiros de Estaline, que foram condenados por traição e depois sumariamente executados às centenas. Em muitos casos, quando eram condenados, a caminho da execução, confessavam os seus pecados, pediam perdão a Estaline. Também houve disso entre fascistas e nazis. Talvez não tenhamos já chegado a esses extremos, talvez, ainda, mas reconhecer o poder e a autoridade de quem manda começa a ser virtude dos que obedecem. Os feitos dos exércitos russos e israelitas, as aventuras dos capitalistas americanos, o terrorismo dos Ayatollahs, o poder impiedoso dos chineses, as loucuras de Trump, Maduro e Bolsonaro são agora cada vez mais apreciados. Justificam-se as políticas odiosas de Putin, de Khamenei ou de Kim, aceites pela força das circunstâncias. Os facínoras poderosos são admirados. Corremos o risco de ficar como eles.

 

É verdade que as esquerdas, o centro e o centro-direita ajudam os fascismos e os populismos. A história mostra bem. Mas não é só isso. As condições sociais e económicas, a corrupção, a incompetência dos governos e das instituições ajudam. As crises económicas ajudam.  Ajuda e muito a esperança de que a direita e a esquerda moderadas se devem aliar aos populistas, juntar-se a eles para melhor os combater…. Talvez ajude a extrema-direita, não o combate contra a extrema-direita.

 

Mas não se duvide: mais ainda do que os defeitos dos democratas, as insuficiências dos sociais democratas, os falhanços dos socialistas e o equívoco das direitas democráticas, o que traz a extrema-direita, os populistas e os fascismos para o poder é a incapacidade das democracias. As suas faltas na corrupção e no nepotismo. A ineficácia dos governos democráticos, a incapacidade para organizar a saúde e a justiça, suster o custo de vida, dirigir os transportes públicos…

 

A crescente volúpia dos democratas pelo poder e pelo dinheiro é desmoralizante. A tentação crescente dos democratas para a corrupção provoca o crescimento dos justicialistas. A ilusão da “terceira via”, entre o capitalismo e o socialismo, alimenta a esperança nos movimentos populistas e justicialistas.

 

O poder despolitizou-se. A sua fonte é o dinheiro e a força. O seu destino é a força e o dinheiro. É quase ridículo falar de doutrina ou de valores sociais. É motivo de risota mencionar a necessidade de políticas humanas e solidárias. Bom é o poder. Numa idolatria obscena, crescem o luxo, o desperdício e o espalhafato. Aumentam as desigualdades sociais, tidas como necessárias e inevitáveis. E o poder é fonte de todos os méritos. Tem razão quem é rico. Quem tem armas. Quem exerce o poder. Quem não tem, tivesse…

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Público, 16.5.2026

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