31.3.20

TEMOS DE PARAR PARA PENSAR

Por A. M. Galopim de Carvalho
Mais do que os receios que, naturalmente, poderiam assaltar-me nesta situação de grave pandemia que estamos a viver, em que os meus quase 89 anos de idade e um historial clínico pouco risonho, me põem no grupo dos de máximo risco, mais do que esses receios, dou por mim com este pensamento quase obsessivo:
«Temos de parar para pensar».
As imagens filmadas, creio que por “drone”, de Lisboa e de muitas outras grande cidades dramaticamente desertas, recordando Chernobyl na sequência da explosão do reactor nuclear em 1986, têm o sabor da tragédia que se poderá abater sobre a humanidade. 
No passado dia 27, escrevi o que então me veio ao pensamento:
Uma “coisa” que nem tamanho tem, feita de meia dúzia de moléculas à base de oxigénio, hidrogénio, carbono e umas pitadas de fósforo, ultramicroscópica, a meio caminho entre o inerte e a vida ou, como alguém disse, entre a química e a biologia, está a pôr em causa a hegemonia mundial dos EUA e a mostrar que todo o seu enorme poderio militar nada vale face à deliberada inexistência de um serviço nacional de saúde. Está a abanar a já de si frágil coesão da União Europeia, a revelar quão vãs foram as esperanças de Jean Monnet, Willy Brandt e Mário Soares e a dar voz aos partidos antieuropeístas. Está a desacreditar governantes irresponsáveis e populistas como Trump, Bolsonaro e Boris Johnson, a revelar uma Rússia em aproximação à Europa e uma China ambicionando ser a futura primeira potência mundial. Neste quadro, pode perguntar-se «de que vale, daqui para a frente, uma organização militar como a Nato»?
À margem do terramoto no mundo da política, da economia e das finanças, que julgo poder antever-se, assiste-se a uma notada melhoria em alguns aspectos do ambiente natural, nomeadamente e à vista de todos, na poluição atmosférica, dando plena razão à jovem sueca, tão mal e estupidamente tratada por alguns dos nossos comentadores de sofá.
Estas e mais do que evidentes reflexões são suficientes para, em meu modesto entender, que nada sei de ciências sociais e políticas, estar convicto de que 
«temos de parar para pensar».
Na realidade, nós e todos os países ditos desenvolvidos, com milhões e milhões de habitantes concentrados em enormíssimas cidades, já estamos parados em múltiplos aspectos das nossas vidas. É nas escolas e nas universidades, na indústria e no comércio, no teatro, no cinema e nos concertos, nos museus e, até, no futebol. Estamos, por assim dizer, fechados em casa, uns porque têm consciência das vantagens dessa atitude, outros porque a isso se sentem obrigados. Uma recomendação que, diga-se, está a ser amplamente respeitada, praticamente sem necessidade de lhe dar o carácter de imposição subjacente à situação de Estado de Emergência decretado no passado dia 18.
Todos sabemos quais os sectores da sociedade que, numa situação como esta, não só não param como multiplicam os seus esforços ao limite das suas forças físicas e emocionais. São os da saúde, dos médicos e enfermeiros ao mais modestos operacionais, são os bombeiros, as forças de segurança e os militares, os farmacêuticos e todos os que nos continuam a assegurar os bens de primeira necessidade e os serviços essenciais. São, ainda, não esqueçamos, os cientistas e os técnicos que, neste momento, estão a dar o seu melhor na luta contra esta pandemia.
Estou convicto de que, quando esta contrariedade passar, muita coisa vai mudar, quer nas relações internacionais quer nas políticas internas dos países. Não estou a falar dos aspectos partidários, mas sim dos da administração, como por exemplo, a das dotações orçamentais para a saúde, as do ambiente natural, as da ciência, da educação e da cultura, as das opções económicas e financeiras, as das relações de trabalho e outras.
Especificando um pouco na área da educação (leia-se ensino) em que, como é esperável, terei algo a dizer e que, no que se reporta ao nosso país, mais me preocupa neste momento, 
Começo por recordar uma afirmação do Primeiro Mministro António Costa na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, em 2016: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior, em todas as áreas do conhecimento, está ao nível do que caracteriza os países mais avançados, é confrangedor assistir à generalizada iliteracia dos portugueses, incluindo muitos dos nossos quadros superiores, intelectuais de serviço e políticos de profissão que, embora conhecedores dos domínios em que se movimentam, são falhos de outras culturas, em particular da científica, que a escola deveria dar mas não deu e continua a não dar, como está implícito nas palavras do Primeiro Ministro.
É minha convicção que grande parte desta a situação, vinda bem ao de cima na citada afirmação do Primeiro Ministro, que não mais esqueci, radica, desde há muito e em grande parte, na “máquina pedagógica” do Ministério da Educação. Já aqui escrevi e volto a escrever que os ministros e secretários de estado da tutela, uns com ideias, outros sem elas, têm-se sucedido ao sabor das legislaturas e das remodelações. Foram, entrando, ignorando muitas das disposições dos que os antecederam, criando outras e desaparecendo de cena, dando lugar a novos outros, em repetição deste desgraçado ciclo. Outra parte da responsabilidade desta triste e lamentável situação cabe aos sucessivos chefes de governo que, mais preocupados com outros sectores da administração, dividendos políticos e outras aberrações dos aparelhos partidários instalados, têm descurado este gravíssimo problema, bem expresso nas ditas palavras do Primeiro Ministro: “défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
Temos, pois, de parar para pensar.
Pensar que é preciso vontade política para promover uma profunda avaliação e consequente reformulação das políticas do Ministério da Educação, em particular as pedagógicas e administrativas. 
Pensar no sentido de fazer com que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos respectivos titulares, como nas dotações orçamentas que permitam dar às escolas as necessárias condições de trabalho e de relativa autonomia e, aos professores, a dignidade compatível com o importantíssimo papel que representam na sociedade, a começar pelos respectivos vencimentos, colocações e estabilidade.
Pensar na profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino básico e secundário, a começar na conveniente e eficaz formação e avaliação de professores, reformulação de programas passando pelos livros e outros manuais de ensino (que envolvem interesses instalados) com discursos estereotipados que se repetem acriticamente em obediência a esses programas, levando ou, melhor, obrigando os professores, não a ensinar e formar cidadãos, mas a “amestrar” alunos a acertar nos questionários de exames, por vezes, autênticas charadas.
Pensar que o professor não pode, de maneira nenhuma, ser um mero transmissor das noções, tantas vezes, insisto em dizer, estereotipadas e acríticas dos manuais de ensino. Sempre disse e insisto em dizer que o professor deve saber muito, mas "muito mais" do que o estipulado no programa da disciplina que deve ter por missão ensinar. Para tal, os professores necessitam de tempo, e tempo é coisa que a situação que se vive nas nossas escolas lhes não dá. Há que libertá-los de, praticamente, todas as tarefas que não sejam as de ensinar. Há que resolver o problema das suas colocações, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias.
Pensar no papel importantíssimo dos sindicatos, não só relativamente aos problemas laborais, mas aos de natureza pedagógica que eventualmente ao aflijam. 
Pensar, face às extraordinárias capacidades das tecnologias informáticas no mundo globalizado dos dias de hoje, nas vantagens e desvantagens dos ensinos presencial e à distância, incluindo o ensino superior.

Pensar em intervir no sentido de alterar o tecido social e político dominante na sociedade economicista que domina na União Europeia e que, evidentemente nos envolve, continuando a promover e alargar o fosso entre os que estudam, e assim aspiram e conquistam o direito à cidadania, e os outros. 

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30.3.20

No "Correio de Lagos" de Mar 20

O nosso Ministro do Ambiente informou-nos que Portugal assinou o “Pacto Europeu para os Plásticos”, no mesmo dia em que o Parlamento, com os votos do seu partido (juntamente com os do CDS e do IL), chumbou as 4 iniciativas legislativas do PCP, PEV, BE e PAN acerca do tema das embalagens excessivas e/ou desnecessárias. 
Pelo que se percebe, estaria em causa a indústria nacional do sector. 
Ficámos esclarecidos.

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29.3.20

Grande Angular - O que sobra e o que resta…

Por António Barreto
Salvar milhões de pessoas. Tratar dos doentes. Lutar contra o contágio. Conter a propagação. Liquidar o vírus. Impedir o seu regresso. Preparar meios para curar os infectados. Descobrir uma vacina. Fazer tudo isto nas melhores condições de equidade. Tratar todas as pessoas igualmente, sem favorecer classes sociais, raça, etnia, religião, origem, idade, sexo, crença ou partido. Esta é uma prioridade.
A outra prioridade é tratar do que vem a seguir. Da sociedade que se mantém de pé. Mas também daquela que fica de rastos. Ocupar-se das empresas, do emprego, do Estado, da educação, da segurança social e da justiça. Da economia que vai ser necessário reerguer. Das instituições a que vai ser preciso dar vida. Da democracia que vai sair ferida. Dos direitos individuais que vão ser diminuídos. Da tolerância que vai sair magoada. Da compaixão que vai ser pisada por muitos. Da informação que vai ser necessário salvar da morte iminente.
Fazer as duas coisas que parecem ou são contraditórias: este é o grande problema. Fazer com que os cientistas e os técnicos, sem se envolver em política, encontrem os remédios e tratem de quem necessita. Mas fazer também com que os políticos façam as leis necessárias, sem se envolver em ciência. Fazer ainda com que os serviços hospitalares e de saúde pública cumpram os seus deveres sem se envolver em ciência nem em política.
Vivemos tempos muito difíceis, inéditos para a maior parte da população, em que é frequente encontrar quem saiba tudo de tudo. Quem tenha soluções para a ciência, a administração, a economia, o emprego, a educação e tudo o resto. “Há que…”, “É só…”, “Basta…”, “O que é preciso é…” estão entre as expressões mais ouvidas nas televisões e mais lidas nos jornais! E o problema é que todos têm direito a tudo, às suas opiniões e às suas asneiras, mesmo erradas… Como todos têm o direito de viver com ansiedade, de ter medo, de imaginar soluções. Mesmo os tolos que dizem que o vírus é mortal para capitalismo e os idiotas que garantem que o vírus é o golpe de misericórdia no comunismo: todos têm direito à opinião. As asneiras e as parvoíces de muitos são a liberdade de todos. E isso é o que interessa.
É essencial tratar da doença. Encontrar as suas causas. Inventar a sua cura. Descobrir a vacina. O que se dispensa é quem aproveita para fazer contrabando de política, tão grave quanto os que fazem mercado negro de máscaras ou papel higiénico. Já se percebeu que há quem queira aproveitar para liquidar direitos dos trabalhadores, despedir precários, reformar efectivos, baixar salários, reduzir a segurança social, diminuir os impostos, tudo legalmente e de modo definitivo. Mas também já se percebeu que há quem queira liquidar a iniciativa privada, as empresas, as instituições particulares de solidariedade, o mercado, a liberdade de estabelecimento e de iniciativa. 
Dar a prioridade às condições sociais e económicas, como muitos fazem, é ridículo. Ouvir um sermão esquerdista sobre a luta de classes e o sector público, a propósito do vírus, com o maior oportunismo sectário que se imagina, é convite a descrer nas capacidades de inteligência. Considerar que tem de se tratar da questão biológica e médica, sem atenção às condições sociais, económicas e políticas, é miopia indesculpável ou intenção eugenista inaceitável.
Quem tem duas assoalhadas, sem aquecimento, para seis pessoas, não tem as menores condições para “ficar em casa” e se salvar. Quem vive em lares miseráveis está condenado. Quem não tem meio de transporte seguro não tem acesso a alimentos frescos. Quem não tem instrução não percebe as recomendações. Quem vive nos arredores ou em isolamento não consegue chegar com segurança às instituições. Quem não tem emprego não consegue comprar pão. Quem é despedido não pode tratar da saúde dos seus. Quem tem pensões mínimas fica sem capacidade de acorrer ao que é necessário. Quem vive no limite da sobrevivência não chega ao que já é mais caro e inacessível. Quem não tem meios não pode contrariar os mercados negros que proliferam. Quem não tem wireless, telefones modernos, telemóveis à altura, iPad capazes, conhecimento informático avançado e assinaturas de redes, não tem meios para ser informado devidamente. Quem vive sozinho e tem problemas de deslocação fica nas margens da sociedade. Quem tem outras doenças e insuficiências vive em pânico.
É tão difícil combater ao mesmo tempo o vírus, a pobreza, o privilégio e o despotismo! É tão difícil tratar das duas coisas, do imediato e do futuro! Da saúde e da sociedade! Da vida e da democracia! É tão difícil tratar de tudo sem demagogia, sem oportunismo, sem aproveitamento político! É tão difícil deixar à ciência o que é da ciência, à política o que é da política, à cultura o que é da cultura e aos indivíduos o que é deles! É tão difícil impedir que a emergência se transforme em regra! Que a eficácia liquide a liberdade! Que a centralização de esforços se transfigure em sistema de vida! Que a vida e a saúde sejam cada vez mais o recurso colectivista e a mercadoria capitalista! Encarar estas dificuldades ou contradições é o princípio de uma sociedade decente.
Algumas das coisas que começarem a ser feitas agora ficarão para sempre. A solidariedade europeia, por exemplo. O que de bom ou de mau se fizer agora, ficará para depois. A dimensão do Estado, também. O necessário reforço do Estado na saúde pública e na ciência médica poderá, depois, transformar-se numa monstruosidade burocrática ou numa máquina lucrativa de mercadoria. Se a força do sistema nacional de saúde não for preservada, fácil será voltar ao seu declínio. Se muitos direitos individuais forem contidos agora, podemos ter a certeza de que, depois, será difícil voltar atrás. Se a comunicação social livre desaparecer agora, é certo e sabido que nunca mais voltará a ser o que foi nem o que deve ser. O que fizermos agora com a autoridade do Estado, a liberdade individual, a cooperação europeia ou o fecho de fronteiras nacionais é o que provavelmente ficará para depois.
Não é o vírus que fará o que quer que seja às sociedades. O destino será o que as pessoas quiserem fazer para lutar contra o vírus, pela saúde e pelo futuro. Haverá mais comunismo e mais despotismo se as pessoas quiserem. Haverá mais mercadoria e mais capitalismo se for isso que as sociedades desejam. Não é por causa do vírus que teremos, a seguir, mais liberdade, mais segurança, mais igualdade e mais decência. Se tivermos, é por causa de nós. Se não tivermos, é por nossa causa.
Público, 29.3.2020

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"Está no livrinho!", como dizia Jô Soares

Já em 1871 Antero explicava as grandes diferenças existentes entre Portugal e Espanha (por um lado) e Alemanha e Holanda (por outro) — diferenças essas que estão na base do triste episódio que recentemente ocorreu entre o ministro holandês e A. Costa.

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28.3.20

No "Correio de Lagos" de Mar 20

Há dias, foi motivo de galhofa a cerimónia pública de inauguração de um bebedouro em Lisboa, com a presença do Ministro do Ambiente, do Presidente da C. M. Lisboa, de mais uma quantas “individualidades” e de toda a Comunicação Social. 
Na realidade, o que está em causa não é a recuperação de bebedouros, em si mesma (e muito menos a criação de novos) — isso só se pode saudar, pois são equipamentos públicos do maior interesse e que, além do mais, permitem reduzir a utilização de embalagens descartáveis. 
O motivo da risota estava na desproporção entre o FACTO e o ESPECTÁCULO, digno de uma inauguração do Almirante Américo Thomaz ou de uma comédia do Vasco Santana. Mas também é verdade que se aquelas personagens nos deram VONTADE DE RIR, as que deixam degradar os equipamentos existentes (e que estão à sua guarda) dão VONTADE DE CHORAR. 

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27.3.20

A admirável nova China

Por Joaquim Letria
Devem ter reparado no meu mutismo quanto ao  COVID 19 . Pela primeira vez escrevo o nome do maldito vírus. Não foi por acaso. Haja por onde a gente possa pensar noutras coisas e, se estas não puderem ser alegres, pelo menos que sejam sérias e respeitadoras das vítimas, dos que sofrem e de todos aqueles que se sacrificam no combate a esta peste.
No entanto, vou olhar o assunto por outro ângulo que ainda não vi ser utilizado para falar da peçonha. Mas estou em crer que, ainda que silenciosos, milhões viram a imagem de que vos vou falar e do seu significado ao qual ninguém pode escapar.
Todos devemos ter visto nos noticiários das televisões aviões de passageiros chineses a aterrarem nos aeroportos encerrados de Fiumicino e Malpensa, respectivamente em Roma e Milão. E todos vimos, certamente, as centenas de chineses já equipados para o que sabiam ir encontrar em Itália. Um locutor explicou-nos que os aviões transportavam 9 médicos, virologistas e pneumologistas, e dezenas de enfermeiras, enfermeiros e técnicos de saúde que iam ajudar as autoridades italianas a combater a grave infecção que toda a Itália enfrenta.
O que os editores daqueles telejornais não disseram é que aqueles aviões transportavam ainda, além de toneladas de medicamentos, mil ventiladores, essenciais à sobrevivência das vítimas das graves crises respiratórias. Também a cidade do Porto pediu ajuda de material clínico a Macau enquanto o Governo português negociava com os grupos Mello (Hospitais da Cuf) e grupo Luz, dirigido ainda pelo que resta do  desaparecido Espírito Santo e hoje da Fidelidade.
O modo como a China conteve o violento surto que irrompeu pelo mundo a partir de Huan e de outros pontos da China é simplesmente notável, assim como as regiões especiais de Hong Kong e Macau, com raros casos, demonstram a eficácia e competência da medicina chinesa, bem como o rigor das decisões políticas que impuseram todas as disposições de saúde pública que lograram um esforço tão bem sucedido.
Conheço bem a China, na sua vastidão, em resultado de onze extensas visitas que fiz ao seu território ao longo de 50 anos. Vi desde a China de Mao Tse Tung até aos dias de hoje, incluindo a grande transição de Deng XiaoPing duma “nação dois sistemas” que possibilitou o incrível progresso e modernidade que hoje temos de reconhecer a esta extraordinária nação de 1400 milhões de habitantes. Cruzei-me com chineses em África e noutros Países do Oriente, vendo-os ajudar na agricultura e construindo o desenvolvimento possível. Jamais vi um chinês armado fora da China e os militares que vi na China entretinham-se com paradas e honras militares com que mantêm a imagem, a pompa e a circunstância da disciplina do regime.
A Itália, hoje já cheia de médicos chineses, é o princípio dum novo Mundo reconhecido a uma superpotência, quando até aqui não estávamos habituados a ver nenhuma com esta imagem positiva. Mau grado ter sido de lá que o COVID19 saíu para nos atacar, devemos estar agradecidos à República Popular da China, a esta admirável nova China, pela sua vontade, competência e capacidade em ajudar todos nós.
Publicado no Minho Digital

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26.3.20

Entre o alarmismo injustificado e o "não há-de ser nada" dos idiotas, que tal a VERDADE, tal como ela aparece ao 66º dia?

O vídeo, com a evolução da COVID-19 dia-a-dia, pode ser visto [AQUI]

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Os média, as Igrejas e a COVID- 19

Por C. B. Esperança
É deprimente e medíocre a informação da maioria dos órgãos de comunicação. Quando as autoridades de saúde se têm pautado por impecáveis princípios éticos e assumido a função pedagógica com exemplar serenidade, há jornais, canais de televisão e de rádio que exploram o medo para aumentarem audiências. 
Há, em alguns média, o gosto mórbido de convidarem alarmistas profissionais e líderes de corporações que não dão tréguas a um Governo que tem sido a âncora da esperança, na rapidez das decisões, na qualidade da informação e na esperança que transmite.
É lastimável o alarmismo das falhas do SNS, apontadas por quem não o queria, como se algum país estivesse preparado para uma situação tão tremenda, como se as mesmas, ou piores, carências não fossem comuns aos países mais ricos. Salvou-se, nesta conjuntura, a grandeza cívica do apoio declarado de Rui Rio ao Governo, sem esperar dividendos da tragédia.
Mas, se os necrófagos pululam, dos média às redes sociais, esperava-se das Igrejas uma contenção que o Papa aconselhou.  Do Islão e dos judeus ortodoxos já se esperava uma visão medieval de quem não saiu da Idade Média com pensamento da Idade do Bronze. Hoje, ainda há quem prefira a crendice à razão, quem veja nas calamidades a vontade de um Deus vingativo cuja ira é preciso aplacar com orações e penitências, mas o que mais surpreende é a Igreja católica, com um Papa sensato, persistir em manifestações de culto com aglomerações de pessoas. Só não acusam ainda hereges, judeus e bruxas pelo vírus, nem convocam procissões e peregrinações, porque o ambiente lhes seria hostil.
Já em plena explosão da pandemia, o bispo do Porto ainda ameaçava rezar a missa pelo aniversário da eleição papal, a menos que o Estado o impedisse. O Estado não o ouviu e desistiu da missa, e em Espanha, em situação mais alarmante, o bispo de Jerez passava uma espécie de salvo-condutos para que os fiéis da Adoração Perpétua pudessem ir à missa, sem serem objeto de sanções legais, como os restantes cidadãos, todos obrigados a reclusão domiciliária pelo estado de alarme decretado pelo Governo.
É inútil falar de párocos cuja imbecilidade ultrapassa a fé, e arriscam a vida dos fiéis e a das pessoas com quem convivem, insistindo em cerimónias litúrgicas concorridas.
Quando a economia que restar desta pandemia trouxer níveis de desemprego e pobreza que as atuais gerações dos países desenvolvidos nunca conheceram, não se sabe quem vão culpar, mas é previsível o regresso de Fátima, Futebol e Fados a Portugal.
Registe-se também a boçalidade de políticos:O vice-governador do Texas disse que preferia morrer a ver as recentes medidas de saúde pública prejudicarem a economia dos EUA. (DN)
Trump sugeriu que uma crise económica poderia resultar em mais mortes, através do suicídio, do que uma pandemia global (DN); 
Bolsonaro, o Trump tropical e analfabeto, afirmou: “No meu caso particular, com meu histórico de atleta, caso fosse contaminado, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria quando muito acometido de uma gripezinha, ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão” (Rede Brasil Atual – RBA).

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24.3.20

No "Correio de Lagos" de Mar 20

Quando havia terrenos rurais encravados no meio de outros, o direito de a eles se aceder era, muitas vezes, apenas garantido pelas chamadas “serventias de-pé-posto”, umas nesgas com 60 cm de largura, que se considerava ser suficiente para passarem pessoas e animais. 
Vem isso a propósito do recente anúncio da recuperação de pavimentos em diversas artérias de Lagos (que se saúda, claro!), pois esperamos que não sejam só os “pavimentos para os carros” a serem intervencionados, mas também os “pavimentos para os peões”, também conhecidos por “PASSEIOS”. 
Nota curiosa: O DL 123/97 estipulava que a largura mínima dos passeios devia ser de 2,25m; 9 anos depois, o DL 163/06 já só exigia 1,50m. Certamente antecipando-se a esse espírito de ir de redução em redução, Lagos já há muito que até tem “passeios” ao nível dessas “serventias de-pé-posto”!

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22.3.20

Grande Angular - Medo

Por António Barreto
Com certeza que tenho medo. De morrer. Mais ainda, de sofrer. Pior, de perder os que amo. É moda garantir que não temos medo, que não devemos ter medo e que devemos lutar contra o medo. É bem afirmar que vamos vencer, que sairemos desta prova reforçados, que lutaremos com todas as energias e que, no fim, ganharemos. É lugar-comum persistente e enganador que diz que “se não tivermos medo, venceremos o medo”. Pode ficar bem a certas pessoas dizer isso. Mas é enganador. E errado. Não corresponde à verdade e convida à irresponsabilidade. Não ter medo da morte, da sua e da dos seus, é não dar valor à vida.
Ter medo é, muitas vezes, o mecanismo essencial que nos leva a resistir, a organizar a luta e a tomar precauções. A evitar disparates. A correr riscos inúteis. Ter medo é frequentemente o que nos dá coragem para evitar a tragédia e para combater o demónio. Ter medo é o que nos permite, tantas vezes, escapar ao acidente e à catástrofe. Não conheço quem se tenha livrado do perigo ou derrotado o inimigo sem ter medo, justamente diante da ameaça e perante o inimigo. Ter medo é recear sofrer e perceber que existem altas probabilidades de perder familiares, amigos e pessoas que admiramos, além de eu próprio morrer ou sofrer da doença. Ter medo é recear que efeitos colaterais, incompetências, preconceitos e injustiças provoquem ainda mais desastres e dramas na vida das pessoas queridas e da minha comunidade. 
É evidente que ter medo se pode transformar em pânico, em excesso que paralisa e em pavor irracional. Contra esse medo, também teremos de lutar. Mas não vale a pena fazer o discurso que engana e mente, que garante que não temos medo, nem devemos ter medo. Estas tiradas políticas têm sempre qualquer coisa de machista e marialva insuportável. Quem diz não ter medo está geralmente a tremer de terror ou é exibicionista absolutamente irresponsável.
Tenho medo desta doença, como tenho medo da guerra, da violência, do assassino, do torturador, do selvagem, do criminoso, do terramoto, da inundação e do incêndio. E não vejo que haja mal nisso. Ter medo significa amar a vida e as pessoas. Ter medo implica recear perder qualidade e talento, ver desaparecer oportunidades e obras a fazer. Ter medo quer dizer recear perder quem nos faz falta e quem amamos.
Depois das alterações climáticas que mobilizaram as opiniões e as consciências durante anos seguidos e chegaram agora ao seu ponto mais intenso de alarme, não tivemos repouso e apareceu esta nova ameaça, a da doença inexorável e da pandemia aterradora. É provável que a ciência e os cientistas, a medicina e os médicos, os enfermeiros e os cuidadores, acabem por vencer. Antes disso, todavia, os hospitais estarão sobrelotados e os cemitérios cheios.
Ainda por cima, o paradoxo da previsão aterra mais do que tranquiliza. As estatísticas e a matemática quase nos dizem quantos vão morrer, a que ritmo, em que locais e em que países. Este absurdo, que permite saber com antecedência quantos milhões vão ser infectados e quantos milhares vão morrer, não chega para evitar o mal, até porque as previsões já contam com isso mesmo, o facto de se prever, de se lutar contra e de evitar uma parte, mas não tudo. Ao contrário do que se diz, o inimigo não é invisível, sabe-se o que é, onde está, como actua, por onde se propaga e quantas vítimas vai fazer… Invisível é o ataque. E é esse que mata. É contra esse inimigo que as sociedades e as pessoas podem fazer qualquer coisa.
Todos nós temos uma esperança irracional: a de que escaparemos, a de que os nossos poderão salvar-se, a de que uma cura chegará a tempo de travar o desastre, a de que a vacina será inventada antes do fim do ano e que evitará milhões de mortos… Esta esperança ajuda-nos a organizar a vida, a prever, a evitar… Mas sabemos que muitos ficarão para trás.
Também tenho medo do diabo. Que vive no pormenor, como é sabido. As nossas melhores leis perdem diante do real e da vida. As medidas mais sofisticadas são derrotadas pela rotina e pela incompetência. Os sistemas de defesa e os mecanismos de ataque podem ser fenomenais, dispendiosos e sofisticados, mas podem perder tudo por uma luva, uma máscara, um fato de protecção, um ventilador, um reagente, uma seringa e um tubo de ensaio. Os melhores planos podem falhar porque a injustiça social é mais forte e porque a burocracia resiste. Leis maravilhosas no papel falham estrondosamente sem serviços à altura, sem equipamentos, sem pessoas e sem conhecimento prático.
Há meses que se está à espera disto. Em Portugal e noutros países. No mundo inteiro. Como se explica que não haja máscaras para os médios e os enfermeiros, que faltem os equipamentos de protecção e transporte de doentes, que faltem ventiladores, luvas, máscaras, álcool, desinfectante, papel higiénico e reagentes? Há semanas que sabemos que isto ia acontecer. Há muito que devíamos estar preparados. Mais bem preparados, pelo menos.
Esta semana, a evidente falta de sintonia ou de convergência entre Presidente, Governo e Parlamento, a propósito do estado de emergência, foi sintoma aterrador, pela aparente falta de consciência e responsabilidade. Mas, finalmente, uma réstia de sensatez permitiu um acordo em que a regra geral está aprovada e o governo trata agora de assegurar a eficácia prática e gradual das medidas e das acções. Mesmo com reserva mental e com manha política, foi importante os três terem chegado a este acordo. Mas não esqueçam os ventiladores, as máscaras, as luvas e os reagentes. É aí que se perdem os combates, não nas leis.
Criámos uma sociedade de heróis vácuos, de espectáculo e de satisfação imediata, sem medo, sem amanhã e sem futuro… Fizemos uma sociedade de produto e marca, de performance e produtividade. Inventámos uma sociedade de banalidades e futilidades, de falso brilho e de satisfação efémera. Concebemos uma sociedade que idolatra o risco, sem se dar conta de que esse valor é geralmente destruidor de pessoas e de sentimentos. Houvesse um pouco de medo, de receio do inútil e do vistoso, e talvez estivéssemos mais bem preparados para esta praga.
Público, 22.3.2020

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No “Correio de Lagos” de Mar 20

Ao fim de vários anos e de muitos protestos (aos quais demos aqui voz por várias vezes), esta cratera, existente na praia de Porto de Mós, lá foi tapada. 
Enquanto aguardamos por uma iniciativa semelhante que ponha cobro ao escândalo — ainda maior — que é a cratera existente à entrada da Praia de D. Ana, fazemos votos para que esta resista às chuvadas que — esperemos... — hão-de vir, mais cedo ou mais tarde.

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20.3.20

No "Correio de Lagos" de Mar 20

Pelo que se lê em rodapé, a autoria deste cartaz, dos anos 80, é da Região de Turismo do Algarve; mas, à parte a ingenuidade do desenho e o facto de “Algarve” estar escrito com minúscula (?!), fica a pergunta: porque é que o boneco está a varrer o lixo para o mar?!

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Matutando em reflexões da morrinhanha

Por Joaquim Letria
Anatole France escreveu que uma coisa que torna fascinante o pensamento humano é a inquietação. Da inquietação à curiosidade vai um curto passo. A curiosidade, no dizer de Catalina, é quando se ouve o que se propõe saber, mas quando se escuta, chega-se a saber muitas vezes mais do que aquilo que nos propúnhamos ouvir.
Para se tirar bom proveito daquilo que a curiosidade nos faz saber, a razão é indispensável, desde que se manifeste e utilize de forma viva, dinâmica, inquisidora e meditabunda, de modo a assimilar os conhecimentos de forma a calar e conservar a sua intimidade.
O contrário da razão em repouso (“a infância é a razão do repouso”, Jean Jacques Rousseau) é a característica da infância. O que chamamos de inocência, que “como a luz da aurora resplandece pela manhã ao nascer o sol sem nuvens”.
Inocência e razão, infância e maturidade compõem o binómio de que está formada a maravilha a que chamamos género humano. É curioso, por outro lado, como o homem sempre quis minimizar, até mesmo apagar, os melhores exemplares de si próprio. Essa qualidade pode sintetizar-se, e convém para esta reflexão, num centro comum que classificamos de modéstia, verdadeira ou falsa, que acabamos por definir como se tratando de virtuosa humildade.
Dizia Boileau que a humildade se verifica quando “o mais sábio é aquele que nem remotamente pensa em vir a sê-lo“. Humildade, para os latinos, é quando “ninguém é sábio em todas as ocasiões“. E Séneca sentenciava que “humildade é quando se pode ser sábio sem vanglória nem inveja”. Sócrates, que também se deu ao trabalho desta reflexão, criou um pensamento defensivo que nos chega até hoje: ”só sei que nada sei”.  
Em síntese e à luz da nossa tradição judaico-cristã, é a sabedoria que garante que “quem se humilhe será exaltado”. E como profetizou o livro de Job “viverá sem glória”.
Muita gente, tal como Afonso Karr, não acredita em nenhum sábio até o ouvir dizer três vezes “duvido” e duas ”não sei”. Se a terra pertencerá aos humildes, por que não brincarmos “à razão do repouso”, que nada tem a ver com “o repouso da razão”? Poderemos então ser todos felizes ao guardarmos muito do que sabemos de outros na nossa cordial intimidade.
Publicado no Minho Digital

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19.3.20

A Ana e o Fernando

Quando o medo e a incerteza se agravam, as notícias não tranquilizam e as redes sociais disseminam o pânico, a insegurança apodera-se das pessoas e surge o que há de pior em cada um.

O egoísmo dos açambarcadores, os instigadores do ódio e os pregadores do apocalipse encontram terreno fértil para a demência a insensatez e a maldade.

É nestas alturas que, a par da pusilanimidade, do egoísmo e da desumanidade, aparecem exemplos que nos redimem, atos que, na sua singeleza, revelam o altruísmo que habita as pessoas de bem.

Seria enorme ingratidão silenciar o exemplo que preenche esta crónica de onde exonero a literatura para referir a comovedora disponibilidade da Ana e do Fernando. Quero viver para os abraçar quando, depois da tempestade, vier a bonança.

No prédio onde habito há 17 apartamentos de tipologia diversa e os seus moradores são maioritariamente idosos, os mais vulneráveis ao coronavírus, alguns com dificuldade de locomoção.
No 2.º andar vive um casal jovem cujos nomes desconhecia e que, em boa verdade, não tinha a certeza da sua morada.

Imaginem, caros leitores, como me senti quando li o aviso manuscrito que me chamou a atenção. Esqueçam a prosa, lembrem-se de que num prédio, algures em Coimbra, vivem a Ana e o Fernando. Não sou tão eloquente a descrever a seu altruísmo como o prova o aviso que fotografei e reproduzo.

Dizem onde moram, dão os números dos telemóveis e oferecem-se para ir às compras, à farmácia, etc... Basta que lhes batam à porta ou lhes telefonem.

Neste prédio deixámos de estar sós.

Ponte Europa Sorumbático

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18.3.20

No "Correio de Lagos" de Fev 20

«Não há nenhuma arte que um governo aprenda tão depressa como a de sacar dinheiro do bolso dos contribuintes» - Adam Smith (1723-1790)
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I - Há uns anos, estava eu a saborear as delícias campestres numa aldeia do interior, quando tomei conhecimento de que, devido à “gripe das aves”, o governo determinava que quem tivesse “criação” devia dirigir-se à respectiva Junta de Freguesia e fazer a declaração de galinhas, patos e afins, sob a ameaça de terríveis multas. 
Ora, essa povoação, que em 1980 ainda nem sequer tinha electricidade, ficava a uma boa meia dúzia de quilómetros da vila mais próxima — onde teria de ir quem quisesse aceder a luxos como escola, comboio, correio, C. de Saúde, banco, farmácia, C. Municipal ou J. de Freguesia — mas, para lá chegar, os únicos transportes públicos de que poderia dispor eram uma camioneta (semanal!) e um táxi — que, neste caso, teria de chamar, numa época em que telemóveis e telefones fixos se contavam pelos dedos das mãos.  
Mas feita então a viagem, e uma vez cumpridas as determinações governamentais, as pessoas regressariam à sua terra, onde viriam a descobrir que a declaração acabada de fazer já estava desactualizada — pois, entretanto, teriam nascido seis pintos e um peru fora atropelado. Ah, mas o legislador previra isso, pelo que informara o seu povo que tudo se poderia fazer pela internet, apesar de ninguém fazer a menor ideia do que isso era.
Assim sendo, o que é que fizeram as pessoas dessa terra (e das outras em redor)? Pelo que pude constatar, não fizeram rigorosamente NADA, limitando-se a esperar que passasse o “vento da maluquice”.
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II – Vem tudo isto a propósito do que se anuncia para os donos de cães, gatos e furões (!) que, sob a ameaça das inevitáveis penalidades, deverão providenciar para que, algures no cachaço dos seus companheiros, seja inserido um cilindro com 10,9 mm x 1,6 mm, um ‘micro-chip’ que mostrará, a quem disponha de um leitor apropriado, um número de 15 algarismos. E é esse número que vai figurar no Sistema de Informação de Animais de Companhia, base-de-dados onde o veterinário preencherá umas dezenas de campos relativos ao bicho e ao respectivo proprietário — um processo que (se não for preciso fazer mais nada, como vacinas obrigatórias, p. ex.) custará uns € 25 por animal. A juntar a isso, os donos ainda terão de possuir os “Boletins Sanitários”, uns livros maneirinhos onde constam os registos das vacinas, desparasitações, etc.
Acham que tudo fica por aí? Então estão muito enganados, pois o legislador pretende ainda que os donos se dirijam à sua Junta de Freguesia, TODOS OS ANOS, para pagar uma TAXA — sequela da inenarrável “licença de isqueiro” que, tendo nascido em 1937, morreu de ridículo em 1970. Ah! E quanto ao que terão de fazer se o bicho morrer ou mudar de dono, consolem-se com o que dizia Jô Soares: «Burocrata tem de viver... Filho de burocrata tem de comer...»
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III — Dizem-me que as autarquias poderão vir a fornecer o serviço de implantação do ‘chip’, de forma gratuita para quem não o puder pagar. A intenção é boa, e cá estarei para ver como isso será feito, nomeadamente em terras como a que referi; e, já agora, como será a fiscalização dos cães que andam por aí em flagrante desrespeito pelo DL 314/2003 que estipula, nos seus Artigos 7.º e 14.º, coimas que vão desde €25 a uns delirantes €44890 — «contra-ordenação punível pelo presidente da Junta de Freguesia da área da prática da infracção» (sic), aplicável a quem não acatar a «obrigatoriedade do uso de coleira ou peitoral e açaimo ou trela» (sic).  Mas tudo bem; «Cão-fiemos!», como diria o saudoso Tóssan.

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Não estamos em férias. À atenção dos professores

Por A. M. Galopim de Carvalho
METAMORFISMO
Sempre que uma rocha da superfície terrestre, em equilíbrio com as condições ambientais, se afunda na crosta, os seus minerais ficam instáveis face aos consequentes aumentos da pressão e da temperatura, dando origem a outros, compatíveis com o novo ambiente. Neste processo, a rocha em causa, seja ela de que tipo for, sofre uma transformação a que os geólogos chamam metamorfismo (do grego meta, transformação, e morphe, forma) e passa a ser considerada como rocha metamórfica. Ultrapassados os valores da pressão e da temperatura, próprios do ambiente superficial, que definem o limite superior da diagénese, tem início o metamorfismo. Porém, se a elevação da temperatura atingir valores acima dos 800ºC, que determinem a fusão, ainda que parcial, da rocha, entra-se no domínio do magmatismo secundário, ou seja, no da anatexia.
Por definição, o metamorfismo implica que as transformações tenham lugar no estado sólido, representando um dos estádios do ciclo geoquímico das rochas, também chamado ciclo petrogenético. 

METAMORFISMO REGIONAL
Assim designado porque afecta extensas regiões da crosta continental
Intimamente relacionado com o enrugamento das cadeias de montanhas (orogénese), tem como factores principais: 
(1) o calor interno, em aumento com a profundidade; 
(2) a pressão própria do interior da crosta, ou pressão litostática, também ela crescendo com a profundidade (por exemplo, a 35 km de profundidade, a pressão litostática atinge as 10 000 atmosferas); 
(3) a pressão orientada, própria das faixas orogénicas, onde dominam os esforços compressivos característicos das fronteiras de placas em aproximação. 
(4) a estes dois tipos de pressão associam-se outros, não menos importantes, devidos à presença de água, dióxido de carbono e outros fluidos circulantes. 

O METAMORFISMO REGIONAL é, pois, tanto mais intenso quanto maior for a profundidade a que se processe. Fala-se, assim, de graus de metamorfismo. Por exemplo, o xisto representa um grau muito baixo de metamorfismo actuante sobre uma rocha argilosa; o gnaisse, pelo contrário, testemunha um grau muito elevado sobre aquela mesma rocha.
Para além das transformações de alguns dos minerais das rochas afectadas (todos aqueles que o consentem), o metamorfismo determina modificações nas respectivas texturas. As rochas laminadas, as xistentas ou as fibrosas testemunham as pressões orientadas a que estiveram sujeitas. 
Como resultado das reacções químicas ocorridas, podem libertar-se água, dióxido de carbono, bem como certos elementos com grande capacidade de escape (flúor, cloro, boro) que abandonam a rocha em transformação, migrando daí para outras regiões da crosta, onde vão provocar reacções químicas noutras rochas. Trata-se de um processo extremamente lento, à escala geológica, com durações na ordem das dezenas de milhões de anos. Em acção, no seio dos grandes orógenos actuais e activos, como os Alpes os Andes ou as Montanhas Rochosas, os seus efeitos estão ainda, na maior parte, ocultos no coração das respectivas montanhas. Pelo contrário, nas cadeias montanhosas do passado, em especial nas mais antigas, as dos escudos pré-câmbricos, a erosão, actuante ao longo de centenas de milhões de anos, acabou por arrasá-las, pondo a descoberto as suas entranhas de rochas metamórficas de vários tipos, bem como granitos e outras rochas, testemunhando a existência de magmatismo secundário ou anatexia.
No metamorfismo regional, toda e qualquer rocha é transformada ou reciclada. Por exemplo, o calcário dá origem ao mármore. Neste caso, o calcário perde os vestígios dos fósseis que habitualmente encerra e sofre recristalização total, aspectos bem visíveis a olho nu. 

Muito comum e bem conhecido da generalidade das populações do interior norte e sul, o xisto argiloso representa um estádio, ainda muito incipiente de metamorfismo (anquimetamorfismo, do grego “ankhi”, quase, próximo de)) de uma rocha sedimentar essencialmente argilosa (a profundidade relativamente pequena, 5 a 10 km). A ardósia ou lousa, que a minha geração e a dos nossos pais e avós usaram para escrever as primeiras letras, representa um estádio ligeiramente mais acentuado de aumento de pressão e temperatura. Estádios progressivamente mais avançados desta mesma sequência ocorridos a maior profundidade geram, no mesmo sentido, xistos luzentes, micaxistos e gnaisses (30 a 35 km de profundidade). Se a temperatura continuar a aumentar, estas rochas fundem total ou parcialmente, dando origem a granitos. Quer isto dizer que a mesma rocha sedimentar, sujeita a metamorfismo, pode dar origem a diferentes tipos de rochas metamórficas, tudo dependendo da profundidade a que mergulhou no interior da crosta. 
O quartzito, rocha muito dura, cujas bancadas, muito inclinadas, quase a prumo, sobressaem do relevo como cristas alcantiladas, é uma rocha essencialmente formada por quartzo, resultante de metamorfismo de antigos sedimentos arenosos. 
Meramente a título de exemplo e citando apenas os mais comuns, acrescenta-se que os carvões fósseis, como a hulha e o antracito, evoluem para grafite, os basaltos transformam-se em xistos cloríticos, xistos verdes ou anfibolitos.
Sabemos hoje que determinados minerais metamórficos são gerados a temperaturas e a pressões bem conhecidas. Um tal conhecimento permite usá-los como termómetros e barómetros dos ambientes onde as respectivas rochas se formaram e, assim, definir o que se convencionou chamar fácies metamórficas, expressas por conjuntos de rochas geradas sob as mesma condições de temperatura e pressão, independentemente da sua natureza (origem).
No interior do país e em relação com a orogenia hercínica, o Maciço Antigo além de granitos, exibe vários tipos de rochas metamórficas. Os xistos, de várias idades, do Pré-câmbrico ao Carbónico ocorrem de norte a sul do território, interrompidos, aqui e ali, por intrusões. Há gnaisses e micaxistos, por exemplo, entre Aveiro e Porto. Serras como as do Buçaco, Marofa, Penha Garcia e São Mamede, formando cristas alongadas, devem essas formas a espessas bancadas de quartzito com 480 Ma, resultantes do metamorfismo de arenitos sedimentares. Os mármores de Estremoz, Viana do Alentejo e Trigaches, com 400 Ma, constituem uma das principais riquezas do país. Os minérios de ferro do Marão (magnetite) e de Moncorvo (hematite e magnetite) correspondem a rochas sedimentares ferríferas de há 480 milhões de anos, metamorfizadas na mesma orogenia. Explorados a meados do século passado, deixaram de o ser, dada a sua inferior qualidade relativamente a outras jazidas situadas em países estrangeiros.

Um parentese para dizer que o Maciço Antigo é o conjunto de terrenos que formam o substrato da Península Ibérica, com idades anteriores à era mesozóica, isto é, com mais de 250 milhões de anos (Paleozóico e Pré-câmbrico). Reúne o que resta das rochas metamórficas e magmáticas geradas no seio de uma grande cadeia montanhosa que aqui existiu no final do Paleozóico e, hoje, em grande parte, arrasada pela erosão. Em Portugal, este maciço abrange, grosso modo) o Minho, Trás-os-Montes, Douro Litoral, Beiras e Alto e Baixo Alentejo, além de que constitui o soco rígido sobre que assentam os terrenos mais modernos, nomeadamente, as orlas mesocenozóicas ocidental e do Algarve e as bacias terciárias.

METAMORFISMO DE CONTACTO
Há outros tipos de metamorfismo que, não tendo a expressão do regional, são suficientemente importantes para o conhecimento do nosso planeta. Um tipo particular de metamorfismo resulta do contacto, em profundidade, de uma rocha, qualquer que ela seja, com uma fonte de calor, como é o caso de uma bolsada de magma (suficientemente grande e quente) em penetração (intrusão) no seio dessa rocha. Essencialmente térmico, é habitualmente referido como METAMORFISMO DE CONTACTO ou TERMOMETAMORFISMO. Deste contacto resulta, na rocha encaixante, uma orla ou auréola, cuja espessura pode variar entre escassos centímetros e algumas centenas de metros, valores estes que dependem do volume, da quantidade de calor que encerra e da temperatura (entre 400 e 800 ºC) do corpo magmático e, ainda, do tempo de actuação. As rochas resultantes deste processo e que constituem as orlas de metamorfismo de contacto são as CORNEANAS (assim chamadas porque as suas esquírolas mais finas são transluzentes como o corno.), cujas variedades são tantas quantos os tipos de rochas transformadas no processo. Há, assim, entre as mais comuns: 
1 - corneanas derivadas dos xistos argilosos, ou corneanas pelíticas (do grego pêlos, lama), de grão muito fino, compactas e duras (com fractura conchoidal), normalmente escuras; 
2 - corneanas geradas a partir de calcários, ou corneanas cálcicas; 
3 - corneanas a partir de basaltos e outras rochas de composição afim, referidas como corneanas básicas.

METAMORFISMO DINÂMICO
Um outro tipo de metamorfismo resulta de esforços de compressão ou de tracção não acompanhados de aumento significativo da temperatura ou de quaisquer transformações químicas. Também designado por DINAMOMETAMORFISMO, é predominantemente dinâmico e as rochas nele envolvidas são, simplesmente, deformadas. Por exemplo, um granito sujeito a compressão tectónica adquire a configuração de um gnaisse, isto é, com os seus minerais dispostos em bandas, mais ou menos paralelas. Havendo desligamentos na crosta, os corpos rochosos em confronto entram em fricção, gerando esmagamentos, transformando quaisquer tipos de rochas em brechas tectónicas, ou seja, material rochoso, fragmentado e esmagado, posteriormente consolidado, no próprio local, por um cimento resultante da circulação de fluidos, no geral, ricos em carbonato de cálcio ou em sílica.

METAMORFISMO DE IMPACTO
Raro, na crosta terrestre, o metamorfismo de impacte, tem grande expressão na superfície lunar. Tem por causa a colisão meteorítica com as rochas aflorantes. Animados de grande velocidade (dezenas de quilómetros por segundo), estes objectos vindos do espaço (asteróides e cometas) atingem o solo animados de grande velocidade, sendo, assim, portadores de grande energia. As rochas atingidas, designadas poe SUEVITOS ficam esmagadas, isto é, brechificadas (brechas de impacte), além de que sofrem vitrificação por fusão parcial ou total dos seus minerais.

METAMORFISMO HIDROTERMAL
Embora menos visível, o metamorfismo participa intensamente na evolução da crosta oceânica, em especial, através de um tipo particular, conhecido por METAMORFISMO HIDROTERMAL, decorrente da circulação da água do mar no seio das rochas sobreaquecidas. Predominantemente basálticas, as rochas do substrato oceânico, transformam-se em serpentinitos, rochas essencialmente constituídas por minerais do grupo das serpentinas (silicatos hidratados ricos em magnésio).

Próximo das dorsais oceânicas, em zonas praticamente destituídas de cobertura sedimentar, a água do mar penetra no substrato rochoso, essencialmente basalto, onde aquece bastante, a ponto de dissolver grande número de elementos químicos (enxofre, arsénio, ferro, manganês, zinco, chumbo, mercúrio, cobre, prata, ouro, bário, cálcio, silício, flúor, urânio, etc.) dispersos nessas rochas, ao mesmo tempo que se carrega de emanações oriundas do magma subjacente, entre as quais enxofre e gás sulfídrico. Ao ressurgir em fontes hidrotermais, essa água, a temperaturas que rondam os 350 a 380ºC, ricas em elementos mineralizadores, não só metamorfizam (metamorfismo hidrotermal) o basalto e outras rochas afins, como dão origem a crostas sobre o fundo, bem como a depósitos metalíferos estratificados e a estruturas em chaminé, de onde saem jactos de “fumos” negros, formados por água quente carregada de partículas ultrafinas de sulfuretos. Este processo submarino explica as mineralizações que caracterizam a Faixa Piritosa do Alentejo, formada há 350 a 370 Ma, entre o Devónico e o Carbónico. Se o fluido hidrotermal brotar a temperaturas inferiores a 200ºC, formam-se fumarolas brancas. Em torno destas fontes de água sobreaquecida desenvolveu-se um tipo de comunidade biológica muito especial, com vermes, moluscos, artrópodes, etc., numa cadeia que tem início em bactérias muito primitivas que sintetizam a matéria orgânica através de reacções ligadas ao enxofre, constituindo autênticos oásis de vida, nas profundezas do mar, totalmente privada de luz solar.

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17.3.20

Notícia muito triste...

Quando o Sorumbático nasceu, em 5 de Janeiro de 2005, os primeiros amigos que convidei foram o Carlos Pinto Coelho, o Joaquim Letria, o Nuno Crato, o Pedro Barroso, o Nuno Brederode Santos e o Alfredo Barroso.
Durante muito tempo, fomos apenas os 7 — e foram esses os melhores tempos deste blogue, até porque, além do convívio virtual, nos encontrávamos, de vez em quando, ora em casa uns dos outros, ora em intermináveis e inesquecíveis almoçaradas.
Mais tarde, quando eu saí de Lisboa e me mudei definitivamente para Lagos (em Agosto de 2014), tive o prazer de saber que eu e o Pedro éramos vizinhos, e de vez em quando encontrávamo-nos, para pôr a má-língua em dia.
Há um par de anos, no nosso último encontro (no Beira-Rio), soube que estava doente, e percebi que a doença era grave — já andava em tratamento, e não escondia o pessimismo.
Muito antes disso, no entanto, ele já se desinteressara do Sorumbático, que talvez tenha crescido demais, nomeadamente em número de contribuidores que, na realidade, pouco ou nada contribuíam.
E agora, seguindo a Lei da Vida, o Pedro deixou-nos.
Nesta alturas, fico sempre sem saber o que dizer, além de que perdi um bom — maravilhoso — amigo.

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16.3.20

Entretanto...

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Já tinha saudades do Rodrigo de Matos, cartunista do "Expresso", e que é "autor convidado" do Sorumbático. 
A imagem de baixo é tirada de um vídeo, feito ontem, e que mostra a Marina de Lagos — sem mais comentários

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