30.6.18

Apontamentos de Lagos

No Correio de Lagos deste mês

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29.6.18

Agradecer o pouco para merecer o muito

Por Joaquim Letria
O verbo merecer tem muita piada se pensarmos um pouco nele. Se se emprega dirigido a uma pessoa, significa que esta se converte em digna de um prémio ou de um castigo. Empregue referindo-se a uma coisa, que tenha um certo apreço ou estimação, há objectos que não merecem o que custam, só aquilo que valem.
Tempos atrás também se usava este verbo com o sentido de “conseguir ou alcançar algo que se intenta ou deseja, ou seja “lograr algo”, como “finalmente mereceu-o”!
Como verbo intransitivo, significa criar méritos, fazer boas acções, construir obras excelentes, ser digno de prémios. Na sua forma verbal pode igualmente significar “merecer o bem de alguém”, ou “ser credor da sua gratidão.”
Hoje, a juventude tem dificuldade em saber o que quer e vive pendurada dos “SmartPhones” em vez de contactar os outros directamente, receando um não, desprezando os demais e tendo medo dum rotundo fracasso nas suas ténues e díspares ambições.
Vêm estas reflexões a propósito duma expressão que é agora muito utilizada nos programas de famosos, pouco famosos e nada conhecidos que animam as TVs que vivem dessas especulações a que “alegadamente” (como eles dizem) se entregam. Por exemplo: ”Fulana de tal, depois da sua ruptura sentimental, sai agora  à noite com um novo namorado, porque merece ser feliz”.
“Fulano viu abrirem-se-lhe as portas do sucesso e foi convidado para uma série nova no Brasil, para onde parte já na próxima semana. Ficamos muito contentes, porque ele merece-o!” Isto deixa-me feliz por ver tanta gente recompensada por tão pouco e com quase nada. Assim se saiba agradecer o pouco para merecer o muito…
Mas deixa-me um travo amargo na boca ao recordar os nossos pais e nossos avós que tanto fizeram para nos dar algo e fazerem de nós alguma coisa, praticamente sem receberem nada em troca. E eles mereciam-no!
Publicado no Minho Digital

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28.6.18

A Europa e as migrações

Por C. Barroco Esperança

Nem os fenómenos migratórios são novos nem o racismo e a xenofobia são sentimentos recentes, muitas vezes dos imigrantes chegados há pouco, dos que facilmente esquecem como vieram, quando chegaram e de onde partiram.

A Europa foi sempre um espaço de encontro de povos, que deve à miscigenação a força da sua gente e ao caldo de culturas a fonte do progresso, tornando-se farol de esperança e destino sonhado de multidões em fuga, na luta pela sobrevivência.
A vaga de refugiados que a tem procurado não é excessiva e podia ser a garantia do seu rejuvenescimento, neste inverno demográfico que a atingiu. Aliás, muitos dos refugidos são produto das políticas predadoras de países europeus e de agressiva interferência em regimes de outras nações, em outros continentes, mas é difícil combater a rejeição que alastra nos países desta Europa onde nem a Senhora Merkel, a sua maior estadista deste século, consegue convencer o próprio país a não repetir o passado que devia assustá-lo.
Há erros graves cometidos, desde a anuência ao comunitarismo, em vez da exigência da integração cidadã, até à resignação à afronta ao ethos civilizacional da matriz europeia, herança do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa, e não resta espaço e tempo para o que era desejável. É urgente encontrar solução para o que é possível, numa síntese entre a vontade autóctone e a solidariedade que nos interpela.

Não podemos aceitar todos os que pretendem vir; nem copiar a Hungria, onde o apoio a qualquer refugiado passou a crime punível com prisão; nem abandonar os infelizes que nos procuram, e se afogam no Mediterrânio com os sonhos, as mulheres e as crianças.

Não podemos deixar que o medo nos vença, que a laicidade seja trocada pela cedência às religiões, que as escolas públicas sejam substituídas por madraças, e os desesperados se transformem em prosélitos e estes em inimigos. Não podemos ficar reféns do medo e pactuar com quem ameaça substituir o cosmopolitismo pelo comunitarismo, com o ódio como alimento, a crueldade como política e a construção de muros como desígnio.
 O exemplo mais indigno vem do presidente dos EUA, inculto e amoral, que separou dos pais os filhos, muitos já sem paradeiro conhecido, transformando crianças aterrorizadas em órfãos da Casa Branca. A vileza e a insensibilidade estão à altura do seu poder.
É essa suprema ignomínia que não podemos importar, é essa deriva fascista que não nos pode contaminar sob pena de renunciarmos à civilização que tem sido o traço comum entre a Europa e a América.

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24.6.18

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Pormenor da Porta de Ishtar, Babilónia – Esta porta chegou a ser, ainda na Antiguidade, uma das setes maravilhas do mundo (substituída mais tarde, nessa lista, pelo Farol de Alexandria). Foi mandada construir por Nabucodonosor seis séculos antes de Cristo. Havia gravuras desta Porta nos livros de escola e nas revistas de aventuras da minha adolescência. Em 1975, integrei uma comitiva portuguesa de visita oficial ao Iraque. Nessa altura, Saddam Hussein era apenas vice-presidente, mas já o homem forte do ditador al-Bakr. Num dia de repouso, pedi para visitar a Babilónia. Queria ver a famosa Porta. Era Inverno. Chovia. Estava frio. A chegada à Babilónia foi uma desilusão. Não havia Porta. Nem sequer ruínas decentes. Apenas lama e umas muralhas. Vim-me embora com a tristeza de um leitor do Tintim enganado. Dias depois, noutra viagem oficial, desta vez a Berlim, visito o Museu de Pérgamo, na ilha dos museus. De repente, depois do Altar, aparece, deslumbrante, uma enorme secção da Porta, de que este é apenas um pormenor! Parábola para o Ano Europeu do Património… 
DN, 24 de Junho de 2018

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Sem emenda - Igualdade e liberdade

Por António Barreto
Qual é o valor mais importante, a igualdade ou a liberdade? Faz sentido pensar que existe um valor superior? Apesar de estar no centro dos debates políticos e filosóficos há décadas ou séculos, a questão das relações entre liberdade e igualdade nunca foi resolvida.
A verdade é que em cada momento importante de legislação, de acção ou de confronto político, o peso de cada uma, igualdade ou liberdade, é reavaliado. A resolução de tal contenda não é de carácter científico. Não se trata de ciência exacta. A resolução é uma preferência política, doutrinária e cultural.
Para uns, a liberdade não faz sentido sem igualdade. Para que serve a liberdade a um desempregado, pobre, analfabeto e sem abrigo? Só depois de estabelecidas condições de igualdade social será possível usufruir da liberdade. Considerar que a liberdade é o valor essencial significa deixar correr as lutas sociais, os afrontamentos, a competição entre pessoas e classes e permitir que uns ganhem e outros percam, eventualmente que os que ganham o façam à custa dos que perdem.
Para outros, a igualdade é impossível, nem sequer aconselhável, dado que o mérito gera desigualdade e a condição natural das sociedades é a da diferença. Considerar que a igualdade é o valor primordial exige intervenção da autoridade e o estabelecimento de condições à liberdade, a fim de impedir que esta gere desigualdade. Aceitam a igualdade de oportunidades, à partida, ou a igualdade de condição, mas não a igualdade imposta pelo poder ou pela força.
Estas discussões são interessantes. Na verdade, alimentam os debates sobre políticas públicas. Muita gente, tanto à esquerda como à direita, admite facilmente que o sistema educativo universal e obrigatório foi concebido para criar, promover e fazer progredir a igualdade social. Errado. O sistema educativo universal e obrigatório foi feito para criar um Estado ou uma nação, ajudar ao estabelecimento do serviço militar e de defesa nacional e facilitar o desenvolvimento da indústria. Nesse sentido, foi concebido para fazer progredir toda a gente, promover os melhores, alargar a base de selecção dos mais capazes, fazer trabalhar toda a gente, obter o maior número possível de talentos e acalmar a desordem… No máximo, o sistema educativo faz progredir toda a gente ao mesmo tempo, mantendo a desigualdade de origem. No pior, o sistema educativo agrava as desigualdades, pois permite escolher os melhores que acabarão por ser recompensados. Os bons estudantes, os melhores técnicos e os mais qualificados saberão melhor defender-se e subir na vida. Os piores ficarão aquém. São estes os destinos dos sistemas de educação universal e obrigatória.
O mesmo se poderá dizer dos sistemas públicos de saúde. Não são feitos para promover a igualdade. São feitos para defender e desenvolver a saúde e a vida de toda a gente! No máximo, o sistema de saúde público e universal mantém as desigualdades sociais, apesar de melhorar a saúde de toda a gente. Pode todavia admitir-se que os serviços de saúde têm um efeito social interessante: são vitais para as classes desfavorecidas, enquanto as classes com mais meios teriam sempre a possibilidade de recorrer à saúde privada. Nesse sentido, a saúde pública, sem promover a igualdade, combate os efeitos da desigualdade. Mas, no essencial, a saúde pública cura a doença, não a desigualdade.
Os serviços públicos de saúde, educação e segurança social, assim como outros sistemas, muito especialmente o de Justiça, não são concebidos para promover a igualdade, mas sim para ajudar a generalizar oportunidades aos cidadãos. Depois, são as escolhas políticas que promovem ou não a desigualdade! Que promovem ou não a igualdade.
Com liberdade, a desigualdade pode crescer. Certo. Mas com liberdade, pode a desigualdade ser corrigida. Sem liberdade, não. Pelo contrário, com igualdade, pode a liberdade desaparecer. E nascer a tirania. Quem cede em liberdade para obter a igualdade está no caminho do despotismo. Tal via dificilmente abre a porta a reformas. Quem cede em igualdade a fim de obter a liberdade corre o risco da injustiça, mas não reprime quem luta pela justiça social. A igualdade não gera a liberdade. Mas a liberdade pode gerar a igualdade.
DN, 24 de Junho de 2018

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23.6.18

Apontamentos de Lagos

No CORREIO DE LAGOS deste mês

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Os pais “helicópteros”

Por Antunes Ferreira
Já tinha ouvido chamar aos pais muitos qualificativos mas esta é a primeira vez que vejo que também podem ser “helicópteros”. Leram bem – helicópteros, aquelas aeronaves que se sustentam nos ares graças a duas hélices uma estabilizadora e a outra propulsora, aliás desnecessária se torna explicar o significado da palavra, mas o que parece importante é, sim, tentar explicar a expressão “pais helicópteros”…
Ela pode ser encontrada num artigo da jornalista Carmen Garcia do El País aqui da nossa vizinha Espanha. Para melhor elucidação transcrevo a abertura do seu texto: 
“Meu amor, tome cuidado para não cair.” “Filhinho, coma o salame devagar para não se engasgar.” Frases desse tipo, em princípio inocentes, podem ser prejudiciais para as crianças da casa se usadas com frequência excessiva. Trata-se de uma atitude coloquialmente conhecida como paternidade-helicóptero, ou seja, aqueles pais e mães que sempre estão de olho nos seus filhos. Esse comportamento super protector pode ser muito nocivo para eles, segundo um novo estudo elaborado pela Universidade de Minnesota e publicado na revista “Development Psychology”.
Para os autores do estudo, um pai-helicóptero é aquele que está a controlar continuamente o seu filho, que lhe diz como deve brincar, como guardar as suas coisas, como agir, entre outras determinações. “Diante desse comportamento, e segundo os nossos resultados, as crianças reagem de maneira diferente. Algumas tornam-se desafiadoras com relação aos pais, outras simplesmente apáticas ou mostram-se muito frustradas.
Sou do tempo em que isto era impensável mas as coisas mudaram e hoje em dia no que toca à aprendizagem os métodos são bem diferentes. Ainda dei os primeiros passos na leitura pela Cartilha Maternal do João de Deus e também dos reflexos condicionados do Pavlov que partindo da experiência famosa que metia um cão, uma campainha e um naco de carne influenciou os métodos do ensino.
Até agora sempre pensei que havia pais bons, pais maus, pais presentes, pais ausentes, pais a quem se dia chamar pais e até pais incógnitos, infâmia que era permitida nos registos de nascimento e que felizmente foi riscada dos assentos das conservatórias.
É vulgar ouvir-se falar em mães galinhas as que também são super protectoras, quais galináceas que controlam os seus pintos e não os deixam pôr as patas em ramo verde e inseguro. 
Agora chegou a vez aos pais. Pensei que talvez pudessem ser classificados com pais galos. Mas, pelos vistos não. Os galos não migam prego nem estopa no cuidar dos pintos, usando uma palavra rasca querem que eles se lixem. Nem com um voo picado de um gavião esfomeado se preocupam. Nem mesmo sendo pais helicópteros que afinal são um fiasco: não voam.”.
Pais superprotetores, crianças que não sabem lidar com suas emoções. Esta é a premissa. E tem suas consequências.Costumam ser meninos e meninas que não controlam suas alterações de humor, suas emoções e seus sentimentos, e são mais fracos na hora de enfrentar os desafios de cada etapa do crescimento. “Isto é ruim. As crianças precisam de cuidadores que lhes sirvam de guia na hora de entender o que acontece com elas”, acrescentam os especialistas.
Segundo esses pesquisadores, os pais devem:
- Ser sensíveis às necessidades de seus filhos, reconhecendo quais são suas capacidades na hora de encarar diferentes situações.
- Orientar a criança, sem interferir nem solucionar o problema, para que ela consiga o objetivo a que se propõe, orientando-lhe que pode se virar sozinha, o que a levará a um melhor desenvolvimento da sua saúde mental e física e a melhores relações sociais e resultados escolares.
- Não limitar as oportunidades das crianças.
Ajudar seus filhos a controlarem suas emoções, conversando com eles sobre como entender seus sentimentos e explicando-lhes que os comportamentos podem resultar de certas emoções, assim como as consequências que as diferentes reações podem acarretar.
- Também podem ajudar seus filhos a identificar estratégias de confrontação positivas, como respirar fundo, ouvir música, colorir ou se retirar para um lugar tranquilo.
“Nossas conclusões salientam a importância de educar os pais, frequentemente bem intencionados, sobre o apoio à autonomia de seus filhos perante os desafios emocionais”, prosseguem os autores. “Também podem ser um bom exemplo para seus filhos. Por exemplo, eles podem usar estratégias de confrontação positivas, na hora de lutar com suas próprias emoções e comportamentos quando estão incomodados ou irritados”, concluem.
Para chegar a estes resultados, os pesquisadores analisaram durante oito anos 422 meninos e meninas de diferentes etnias e condições econômicas, fazendo avaliações em três ocasiões: aos 2, 5 e 10 anos de idade. Os dados surgiram da análise das interações entre pais e filhos, de relatórios de seus professores e de sua própria experiência narrada aos 10 anos. O teste consistia em que progenitores e crianças brincassem da mesma maneira como em casa. Segundo seus resultados, o controle excessivo na criação dos filhos quando a criançatinha dois anos estava associado a uma pior regulação emocional e de comportamento aos cinco. Ao contrário, quanto maior era a regulação emocional de uma criança aos cinco anos, menos provável era que tivesse problemas emocionais e maior a probabilidade de que tivesse melhores habilidades sociais e fosse mais produtivo na escola aos 10. Da mesma maneira, aos 10, as crianças com um melhor controle dos impulsos tinham menos probabilidades de sofrerem problemas emocionais e sociais e mais probabilidades de irem bem na escola.
Essas conclusões não são uma novidade. Pesquisas anteriores já apontavam as consequências negativas da superproteção das crianças. Uma delas, de 2016, concluía que “as crianças com pais intrusos e controladores, aqueles que pressionam muito os filhos a obterem boas notas, podem ser mais propensas a se tornarem altamente autocríticas, ansiosas e deprimidas”. E outra de 2017mostrava também que a paternidade-helicóptero era mais frequente com as meninas, “e que este comportamento podia ser prejudicial para sua capacidade de desenvolver mecanismos de confrontação efetivos para resolver conflitos e lidar com os fatores de estresse da vida cotidiana”.
“Efetivamente, os principais efeitos da superproteção são que não deixamos que os menores aprendam por si mesmos a resolver os problemas do seu dia a dia. Ao não desenvolverem tais habilidades, normalmente eles têm mais propensão a serem mais ansiosos e a terem mais dificuldades de regulação emocional”, explica por email o psicólogo espanhol Jesús Matos, mestre em Psicologia Clínica e da Saúde. “Se em lugar de fomentar a autonomia optamos pela superproteção”, prossegue, “estamos criando crianças muito dependentes, que irão sofrer mais na hora de enfrentar as dificuldades inerentes à vida, por não terem ninguém que as resolva.”
As chaves para a educação são o apoio e os limites, não a superproteção. “Tudo bem ajudarmos nossos filhos a resolverem certos problemas, mas sempre tentando envolvê-los na tarefa. Para que entendam que há uma relação entre esforço e recompensa. Desta maneira, pouco a pouco fomentamos sua autonomia. Obviamente, sempre é preciso levar em conta os perigos potenciais que podem aparecer, e se manter precavido contra eles. Uma boa maneira de proteger com controle é falar com outros pais e professores de crianças da mesma idade para estabelecer limites aproximados do que cada criança tem condições de enfrentar. Não podemos pretender que nossos filhos de quatro anos encarem problemas como os de 12”, argumenta o especialista.
Além de Matos são muitos os especialistas que enfatizam a importância fundamental de dar autonomia às crianças, permitindo que desenvolvam suas emoções e comportamentos de forma adequada. Há alguns meses, Eva Millet, autora do livro Hiperniños ¿Hijos Perfectos o Hipohijos? (“hipercrianças: filhos perfeitos ou hipofilhos?”) dizia a este jornal que“as hipercrianças são produto de uma hiperpaternidade na hora de criar e educar nossos pequenos, uma criação que lhes dá tudo, as protege de tudo e lhes indica como devem ser”. E enfatizava que, para ela, “a criação na atualidade é monstruosamente intensiva. A superproteção infantil produz crianças-altar, o que a transforma em hipocrianças, meninos e meninas que não sabem se defender, que não são autônomos, porque já recebem tudo pronto. Recebem tudo resolvido.”
BENEFÍCIOS DA AUTONOMIA INFANTIL
JESÚS MATOS, PSICÓLOGO E ESPECIALISTA EM PSICOLOGIA CLÍNICA E DA SAÚDE
Os principais benefícios são o aumento de autoestima das crianças, que assim se percebem como capazes de enfrentar situações. Isto por sua vez ajuda o menor a administrar com eficácia emoções como a ansiedade, o medo e a frustração. Porque cada vez vai adquirindo mais experiência em situações difíceis (sempre procurando que sejam adequadas à sua idade).

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22.6.18

MILAGRE, SABE-SE LÁ

Por Joaquim Letria
De há uns tempos para cá que ninguém fala, dá conta ou se maravilha com milagres. Muito menos se estes acontecem num fim de semana ou coincidem com os destemperos futebolísticos que tanto entretêm a nossa querida Comunicação Social. Foi o caso deste  que, tarde e a más horas, vos dou conta, penitenciando-me pelo atraso, embora hoje, estando eu longe dos media, me possam ser relevados os “deadlines” ultrapassados.
Então foi assim: no sábado em que o Real Madrid conquistou a sua 13ª liga dos Campeões da Europa, derrotando um Liverpool de choroso guarda-redes, muito infeliz nos lances de golo consentidos, uma refugiada procedente da Líbia deu à luz um robusto rapaz de dois quilos e oitocentos em pleno Mediterrâneo a quem pôs o nome de Milagre.
O Mundo a que o rapaz chegava encontrava-se concentrado no que acontecia no final da Champions, e assim continuaria até também ter de se preocupar com o futuro de Cristiano Ronaldo. Mas naquele momento em que Milagre dava os seus primeiros vagidos nós víamos comovidos o guarda-redes do Liverpool chorar enquanto pedia perdão aos adeptos que generosa e desportivamente lhe perdoavam, aplaudindo-o no estádio.
Entretanto, a bordo do “Aquarius” , o barco de busca e resgate da “SOS Mediterrâneo” onde a mãe acabava de parir, tudo decorria normalmente e todos festejavam o feliz desenlace, embora ninguém se preocupasse com o futuro da mãe e nascituro neste nosso estranho mundo. É evidente que também aqui o importante é o instante e o imediato, a vida pode esperar.
Imaginemos agora, em plena especulação, que esta criança vai ser um artista de valor mundial, um cientista com importantes descobertas para a humanidade, um matemático que descobre o teorema da verdade, o paradigma da justiça e consegue encontrar a verdadeira equação da felicidade!?
Sabe-se lá! Desconhecemos o verdadeiro desperdício de vida e de futuro nas crianças armazenadas em campos, exploradas na apanha do lixo, exploradas no tráfico humano, a morrerem de fome em África e vítimas da guerra um pouco por toda a parte. Diria que não sabemos nem queremos saber porque o que nos preocupa é a infelicidade do guarda-redes do Liverpool e o futuro do Cristiano Ronaldo. O resto, logo se vê.

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21.6.18

O desprezo pelo futuro

Por C. B. Esperança

A minha geração é a última que vive melhor do que as anteriores e ninguém se preocupa com o futuro dos filhos ou a herança que vai deixar aos netos.

O consumo não é apenas a vertigem de quem mede o prazer pelos benefícios imediatos, é a bitola com que cada um disputa a superioridade a que se julga com direito. Há quem considere ilimitados os recursos do Planeta e seja alheio à imensa maioria, sem acesso a água potável, ar saudável, alimentos ou saúde, sem paz, nem sequer direito à vida.
Quem tira um curso e adquire conhecimentos à custa do investimento de todos, julga-se no direito de não retribuir. Somos o produto do logro que julga imparável o crescimento e inesgotáveis os recursos, legítima a acumulação de bens e tolerável a pobreza.
A bomba demográfica continua a explodir e a multidão de miseráveis cresce. A cegueira de governantes cujo poder lhes garante a impunidade arrasta-nos para o abismo e deixa-nos impotentes face à dimensão da tragédia que já está aí, o ar cada vez mais poluído, a água a rarear, os mares a morrerem, os desertos a avançarem e os refugiados a abalarem aflitos para países onde as súbitas alterações, étnicas e culturais, estimulam o confronto, fomentam o medo e conduzem à exclusão e à barbárie.
O bem-estar é tanto mais precário quanto menos forem os favorecidos e tão mais injusto quanto menos sustentável. Há uma correlação direta do fosso que se agrava entre países ricos e pobres, e o que separa as pessoas dentro de todos e cada um deles.

Quando as exigências têm por base mais a inveja do que as necessidades e se ignoram os que não podem sequer gritar, atraem-se os vendavais que varrem os benefícios que o acaso e as circunstâncias permitiram.

O castigo raramente é aplicado a quem merece, e serão os vindouros a sofrer o que nós fazemos, a carecerem do que esbanjámos e, sobretudo, do que não nos esforçámos por lhes deixar, ar, água, segurança, emprego, saúde e alimentos.
Herdam arsenais destruidores, se não forem utilizados antes, e os maus exemplos com que os países ricos vivem o presente, indiferentes ao futuro, de que se desinteressaram, e à obsolescência do modelo económico em que insistem.
A minha geração negou a felicidade como herança.  

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18.6.18

Analfabetos ao poder!


Já não digo que, entre as duas palavras, devia haver uma vírgula.
Apenas acho que o "C" devia ter cedilha...

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17.6.18

Sem emenda - Simplex e proximidade nas Laranjeiras

Por António Barreto
Um dia de Junho. Dias depois da organização do festival da Eurovisão, ainda os Portugueses estão felizes com a sua modernidade. Dias antes do início do campeonato do mundo de futebol, no qual Portugal participa após um enorme esforço de talento. Ao mesmo tempo, no Terreiro do Paço, um zepelim anuncia no céu mais um avanço do Simplex na humanização dos serviços públicos.
Na Loja do Cidadão das Laranjeiras, em Lisboa, às oito da manhã, as filas de espera contam com umas centenas de cidadãos de todas as cores, feitios e idades. Alguns chegaram às cinco e meia, para marcar vez. Outros às sete, para tirar a senha. Quando a Loja abre, há longas filas de pessoas. Algumas já não serão atendidas nesse dia.
A Loja, realização de um governo socialista, logo adoptada por todos os governos desde há vinte anos, poderia ter simplificado a vida a milhões de pessoas. Uma só ida para resolver vários problemas. Alta eficiência. Absoluta coordenação entre serviços e total comunicabilidade entre instituições, dizem as leis e a propaganda. Rapidez e prontidão. O cidadão pode ali tratar da Segurança social, do Cartão do cidadão, do SEF, dos papéis para casar, do passaporte, da ADSE, da Carta de condução, do Registo criminal, das Pensões, dos Impostos, das certidões de registo civil e ainda da EDP, da NOS, dos CTT, da CGD, da Via Verde… Foram numerosos os benefícios. Há testemunhos a demonstrar os progressos conseguidos. Mas, como tantas vezes acontece, a rotina e a propaganda levam a melhor. Uma visita às Laranjeiras dá o sentido da realidade. A miséria institucional está à espreita.
Depois de horas de espera na rua, os cidadãos obtêm as senhas. Quem estava ali desde as 7H00, só às 9H10 obteve senhas com números de 95 a 150, conforme os serviços. Quem tentou às 10H00 já não conseguiu! Como era sexta-feira, “Venha segunda”! Não há maneira de obter, dias antes, as senhas com datas. Por vezes, são precisas três horas de espera só para saber o que é preciso.
Há gente a mais. Poucos funcionários para aquela gente toda. Pessoas sentadas no chão. Muitas de pé. Não há cadeiras que cheguem. Nem espaço. Em dia de chuva e frio ou de calor a 30º a situação é aflitiva.
É frequente haver problemas de tradução, de compreensão e de literacia. Em salas com centenas de pessoas, mais de metade são estrangeiros. Africanos, árabes, paquistaneses, chineses, tailandeses e o mais que se queira. Muitos brasileiros. Da Europa oriental já há poucos.
Em certos guichés, como no da Segurança social, para cerca de cem pessoas, há dois funcionários, uma para o atendimento geral, outro para aos prioritários (doentes, idosos, deficientes, grávidas…). Duas horas depois, há três funcionários para o atendimento geral, um para os prioritários. E mais pessoas à espera. Às 10H20, foi chamada a senha A034. Às 11H58, a A062. Ainda faltam 90!
Em poucas horas os funcionários ficam exaustos e nervosos. Uns mal dispostos, outros desesperados. Os cidadãos também. Seguir os números das senhas permite perceber quanto tempo de espera se tem diante de si. Quem chegou às 7H00 e obteve senha às 9H10 foi recebido às 14H50!
Na NET não há indicações sobre o que é necessário preparar, o que faz com que muitas pessoas, depois de passarem horas à espera, ficam a saber que têm de voltar. Como fazem os que trabalham com horários rígidos e não têm folga? E os que não têm em casa uma reformada, um velhote ou um desempregado para tratar destas coisas?
Os grandes sistemas tecnocráticos sustentáveis e as plataformas digitais ultramodernas, todos nossos amigos, todos de grande proximidade, têm o pequeno defeito de não perceber que há gente no fim da linha, que há pessoas de carne e osso, por vezes com pouca cultura e menos escolaridade, outras vezes com escola e leitura, a quem estes sistemas nada dizem. São pessoas que pedem ajuda. Pessoas a quem as Laranjeiras trouxeram promessas. Mas que, sem humanidade, não conseguem derrubar os muros da desigualdade. Pior: da indiferença.

DN, 17 de Junho de 2018

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Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Turistas em fila de espera, Martim Moniz, Lisboa – Foi há pouco tempo, três anos, e era assim. Os eléctricos, designadamente o 28, estavam em ascensão. O turismo também. Muitos “amarelos” estavam já destruídos, abandonados, vendidos… Mas ainda sobravam os suficientes para a ressurreição. Hoje, não há eléctrico que não esteja sempre esgotado, cheio, à cunha. E muita fila de espera. Em Portugal (e noutros países imprevidentes, deve dizer-se…) é sempre assim: algo com êxito? Fila de espera. Uma coisa interessante? Fila de espera. Cuidado de saúde, segurança social, um procedimento administrativo, uma certidão? Fila de espera. O problema é que as filas de espera para a Arena e o Rock in Rio, por exemplo, são facultativas e dependem da escolha de cada um. Enquanto as filas de espera para os transportes públicos, a Segurança Social e o Centro de Saúde são necessidades, frequentemente urgências e muitas vezes desespero.

DN de 17 Jun 18

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15.6.18

NUS

Por Joaquim Letria
Os espanhóis têm o viño de Verano que é uma espécie de água pé às três pancadas destinada a ser bebido sem exigências e a acompanhar comida insípida e incolor desta estranha época primavera-verão.
Com a proximidade do estio e seus abençoados calores, os media abrandam nos escândalos e não resistem a dedicar-se aos conselhos dietéticos das suas e seus leitores, ouvintes e espectadores. Antes de mais, vêm os avisos nutricionistas, geralmente acompanhados pelas moradas de alguns ginásios com PTs (treinadores personalizados) frequentadores das páginas da Imprensa cor-de-rosa por saírem com esta e com aquele.
Mil e uma maneiras agradáveis de perder quilos, adelgaçar a cintura, estreitar as ancas, derreter as nádegas. A seguir vem a ameaça gritada do cancro de pele, ordens para nos untarmos com todas as loções e cremes protectores, ungindo-nos religiosamente para não sermos sacrificados aos malefícios da diferença real da hora solar nem sermos engolidos pelo buraco do ozono.
Quero eu dizer com estas divagações que de meados da Primavera até ao fim do Verão, os media entendem que o corpo humano desnudado e na sua melhor forma de apresentação, é um factor muito positivo para as respectivas vendas e audiências. Ou seja, as direcções e administrações dos media sabem melhor do que ninguém que os seus consumidores gostam de ver corpos bonitos e, de preferência, desnudados.
O fenómeno não é de hoje. Nem esta preferência deve ser condenada. O pincel florentino de Cosimo Tori, o “Bronzino” (1503-1572) mostrou-nos o encontro entre Eros e Afrodite dum modo único, inesquecível e irrepetível. A comunicação de Tori é capaz de ser mais lenta do que os pixels de agora. Mas é mais profunda e eficaz.
Os corpos é que são definitivamente diferentes. A carne de hoje afirma a sua prioridade com o despudor da decadência de quem não viveu o apogeu, descuidada da harmonia e desproporcionalidade que domina o exibicionismo sexual do pintor toscano.
Importantes segmentos da sociedade afluente gostam de se comportar desta maneira – exibindo o corpo e babando suas alegadas proezas e conquistas sexuais. É interessante verificar como através dos tempos aqueles que dominam os outros procuram que a coisa pública se passe cada vez mais em privado, enquanto os simplesmente notáveis adoram tornar públicas as suas coisas privadas.

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