10.5.23

Maternidade em Luanda - *O bebé ainda não estava pronto

 Este testico…, texticulo é sobre a minha família

E só o publico porque lhe acho graça. 

Os tempos eram outros, as mentalidades

 Também não afinavam pelo actual diapasão.

Enfim ele aqui fica.

 Espero que não me batam…

Por Antunes Ferreira

Controvérsia em família moderada. Já tínhamos dois rebentos, o Miguel e Paulo, putos de quatro e quase dois anos, nascidos em Lisboa na Clínica de São Miguel do Professor Doutor Castro Caldas por recomendação do primo da Raquel o goês também Professor Mário Cordeiro e tudo tinha corrido sobre esferas.

Agora em Luanda de novo gravidíssima reuniram-se em nossa (alugada) casa as minhas cunhadas e o meu cunhado Mário (o Luís e a Maria Alice estudavam em Lisboa) para discutir o nome  da menina que iria nascer. O único discordante era eu: estava absolutamente convencido que viria mis um moço – o que motivava enérgicos protestos e recriminações da distinta assembleia. A esta só faltavam os auspícios dos deuses romanos familiares os Larae familiriae.

Para que não me acusem de partidarismo ou de ocultação de dados que poderiam levar à conclusão de que estava a favorecer a minha posição faço já uma chamada de atenção bipartida. Primeiro: os meus sogros estavam em Moçâmedes onde como funcionário das Alfândegas Ultramarinas fora colocado como director respeitando o Estado a sua posição em Goa e o casal tinha levado consigo a fila mais nova Belinha.

Segundo: os árduos defensores da feminilidade da nascitura (???) tinham apoios substanciais à tese deles. Veja-se, A minha mãe, que morava num apartamento na avenida dos Combatentes, tinha um “truque” consistindo numa fórmula misteriosa em que entrava a idade da grávida, a data da concepção (mais ou menos) e mais uns pozinhos; tudo conjugado: tiro e queda – uma menina.

A nossa lavadeira Miquelina (mais preta – como então e dizia – não podia ser) invocando um quimbanda que estava em contacto espiritual com um santo semelhante do Brasil pusera-lhe a questão e obtivera umas rezas para o efeito. Resultado: uma moça fora de quaisquer dúvidas. O Ju, meu irmão mis novo, caçador de fim-de-semana na mata, até atirando a elefante recebera do camarada com quem ia atirar outra certeza baseada não sabia em que conhecimento; mas lá que era uma donzela, jurava p’las cinco chagas de Cristo! 

E quanto ao nome a pôr na pia baptismal? Aí era o busílis. Na moda estavam as Tânias, as Vanessas, as Matildes e claro havia que ter em conta a tradição raqueliana. Portanto, Tânia Raquel, Vanessa Raquel, até uma Raquel Clotilde saiu a terreiro. Eu – mudo e quedo. Vendo-me assim, insistiram em ouvir a minha opinião. “Já que a querem saber, a menina vai chamar-se… Luís Carlos; Luís por parte do to, vosso irmão e Carlos porque é o nome do vosso Pai.”

Foi uma algazarra. Que porque sim, que porque assado. Cada um regressou às suas casas e os dias foram passando até que rebentaram as águas pela madrugada e levei a minha mulher à maternidade de Luanda. Nesse mesmo dia à tarde meti o Miguel e o Paulo no Colt e fui ver como paravam as coisas. Deixei-os no carro, subi e fui encontrar a minha cara-metade muito chateada pois ainda não nascera o bebé e as condições eram péssimas. “Que saudades da Clínica de São Miguel…”

Desci e quando entrei no Colt perguntou-me o Miguel “Ó pai então o mano não vem?” E o Paulo, sabichão: “Não vês que ele ainda não estava pronto!

Da cara do meu cunhado Mário de onde da sua casa telefonei para Moçâmedes à minha sogra informando-a de que tinha mais um neto que se chamaria Luís Carlos foi de tal modo que justificará outro escrito. Mas tenho de acrescentar que o Mário se tornou o maior amigo do sobrinho que desejara que fosse sobrinha e que na devida altura ainda não estava pronto…      

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26.4.23

É mesmo muito velho -*Deixai vir a mim as crianças

Por Antunes Ferreira

Cinco. Quatro miúdos e uma menina: os meus netos. Por ordem de idades e de progenitores – o João e o Rodrigo (do meu primogénito Miguel), o Xavier, o Vicente e a Madalena (do segundo, o Paulo); o caçula Luís Carlos ainda que bem casado, tal como os irmãos, não tinha filhos. Opção dele e da esposa Estela.

Aproximava-se o Natal, estávamos nos princípios de Dezembro de 2006, eu já completara os 61 e com a  “escadinha” da malta miúda ia dos nove aos quatro anos; acabara de ver (diga-se de passagem fartíssimo mas netos são netos) o vídeo do Rei Leão perante o qual  opiniões se dividiam mas pendiam um pouquinho para o Hakuna Matata, quando nos sentámos na sal de estar para democraticamente trocarmos uma outra vez ideias sobre o filme do Walt Disney.

Os pais das criaturas estavam nos respectivos empregos e os avós tentavam domesticar o bando – o que aliás não era tarefa difícil pois era pessoal na generalidade e na especialidade (para usar linguagem parlamentar)  bastante bem comportado. Era o meu dia de folga no DN e por isso tinha todo-o-tempo-do-Mundo para me dedicar à prole; e além disso adorava fazê-lo.

Chegara a hora do lanche e todos fomos para a mesa. Como d costume a Raquel tinha preparado um “banquete” próprio para infantes, No meio de sanduiches, leite com chocolate, pãezinhos, bolachas, limonadas, etc., tocaram à porta. “É do jornal… Mas está lá o Fernando Pires…Só se foi uma bronca no Internacional (era o meu violino de Ingres)…” 

Não eraO padre Alberto Neto em pessoa, coadjutor do prior Felicidade Alves, ambos de costas viradas para o “Estado Novo”. Falara para o jornal e sabendo que eu estava em casa vinha falar connosco – a Raquel também gostava e muito de politica internacional – sobre um incidente que parecia grave junto ao   CheckpoinCharlie,  um posto militar entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental durante a Guerra Fria, onde, de resto, eu e a Raquel já estivéramos aquando duma visita oficicial à então RDA.

Mas, perante a festarola para os meus netos ~e porque o “barulho” Intra alemão parecia não ter dado nada – Neto ficaria um pouco mais para também participar na confraternização espontânea porque sem motivo aparente; festa é festa. A dada altura não se conteve e perguntou-lhes se sabiam o que pensava Jesus sobre as crianças .O João tinha uma vaga ideia; e o sacerdote citou de memória:

“(….)levaram crianças para que Jesus tocasse nelas. Mas os discípulos repreenderam-nos. Vendo isso, Jesus entristeceu-se e disse: “Deixem as crianças virem a mim. Não as proíbam, porque o Reino de Deus pertence a elas. Eu vos garanto: quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele. Então, Jesus abraçou as crianças e abençoou-as, pondo a mão sobre elas”. Meus amigos isto consta do Evangelho de São Mateus. Momentos depois o padre foi-se embora.

Terminado o lanche fomos sentar-nos n sala e antes que ocorresse a reprise do malfadado vídeo, lembrei-me de lhes perguntar, para desanuviar o ambiente um tanto carregado pela ausência leonina: “Por certo vocês não sabem mas vou contar-lhes umas coisas antigas que eu mesmo vivi. Por exemplo ainda andei m eléctricos abertos aos lados.” “Como assim, avô?” “Não tinham paredes laterais e sim banco corridos; entrava-se, sentava-se e vinha o cobrador vender os respectivos bilhetes.”

“Contaram-me uma anedota que vos digo agora: uma senhora bem vestida com chapéu de plumas ao entrar tropeçou e caiu no col dum magala (era assim que então se chamava aos soldados); protestou energicamente e o magala retorquiu: «Por dois tostões (era o preço do bilhete) se calhar queria cair no colo dum general…»

Gargalhadas em catadupa, mas prossegui: “Igualmente usei aqueles telefones de parede  em que era preciso dar à manivela que tinham ouvir por um auscultador preso por um fio ao aparelho e pedir à menina telefonista na central para ligar para outra cidade ou para o estrangeiro. Uma vez esperei duas horas para conseguir falar com um amigo em… Sintra!”

Olhos esbugalhados, bocas abertas, interrogações aos quilates. “Os automóveis não tinham cintos de segurança. Andei no Morris Minor do meu Pai, no Austin Super, no Triumph Spitfire do irmão do meu tio Jacinto e nenhum tinha cintos de segurança!”

E logo do fundo do sofá grande onde estavam os cinco sentados, o Vicente, cinco anos: “O avô é mesmo muito velho!” Tinham-se acabado as recordações.

 

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19.4.23

Indira Gandhi em pessoa *Uma entrevista em exclusivo e especial

Por Antunes Ferreira

A entrevista que fiz a Indira Gandhi teve dois momentos especiais e para mim realmente significativos. Ao longo de quase uma hora e a bordo de um avião abordámos muitos aspectos da vida da chefe do Governo da Índia e, naturalmente do próprio país que era considerado a maior democracia do Mundo. Toda a conversa foi muito interessante e a política respondeu a todas as perguntas que lhe coloquei – o que, dada a minha larga experiência nesse campo foi realmente impressionante.

E porquê o avião? Pois muito simplesmente a data marcada para a conversa sofrera um percalço: fora a própria Indira que me telefonara para a embaixada portuguesa para me dizer que tinha de cancelar a entrevista pois ia deslocar-se a Allahabad a cidade natal da família Nerhu onde ia assistir ao funeral dum primo muito chegado.

Ora eu tinha vindo de Lisboa com tudo programado para a entrevista e por isso sugeri-lhe que a poderia acompanhar no avião em que ela se deslocaria e nele fazer a entrevista. Um tanto reticente ao inicio ela acabou por aceitar a proposta, mas o problema é que tinha uma agenda preenchidíssima   e por isso fez-me uma contraproposta. Eu poderia dar uma volta pela gigantesca índia  a fim de colher impressões que poderia utilizar na entrevista. 

Aceitei depois de lhe ter dito que ia obter o aval do “Diário de Notícias” a quem ia apresentar a sugestão, que face ao  interesse da entrevista e o seu exclusivo para Portugal, me deu carta branca para o empreendimento. Sendo assim fui posto em contacto com a Directora Geral do Turismo que me atribuiu um intérprete, um goês radicado na Índia, o senhor Francisco (Francis) Xavier de Menezes que falava perfeitamente português e que acompanharia no périplo.

Fomos a diversos Estados  dos quais destaco o Bihar  onde visitei Bodh Gaya ou Bodhgaya que é uma cidade do distrito de Gaya, no estado de Bihar, na Índia. Está localizada a 96 quilômetros da capital do estado, Patna. Historicamente, era conhecida como Bodhimanda. O principal mosteiroo de Bodhgaya era chamado Bodhimanda-vihara. É o local mais sagrado do budismo, pois teria sido o local onde o fundador da religião, Sidarta Gautama, teria criado a doutrina, por volta do século V a.C. A localidade tem muitos templos erigidos por diversos países onde o budismo é praticado com maior ou menor importância.

E nela que existe a chamada árvore da vida sob a qual Gautama terá meditado durante 59 dias e 59 noites findos os quais saiu a divulgar a nova religião. A árvores que me garantiram ser a “descendente da original é decorada com muitos fios de diversas cores e é chamada a Árvore da Vida. É considerada sagrada e as suas folhas são oferecidas a visitantes ilustres. Dada a minha qualidade de futuro entrevistador de primeira-ministra tive direito a receber uma…

També passei pelo estado de Orisssa tendo ficado dois dias na capital  Bhubaneswar onde visitei um templo decorado com as paredes decoradas em altos relevos de cenas de amor sexual explícitas e assistir a um espectáculo de danças; as mulheres de Orissa são consideradas as mais belas da Índia. Seguimos depois Calcutá onde fiquei apenas uma noite e pouco vida cidade que muito gostaria de ver os bairros de lata onde a Madre Teresa exercia a sua missão.

Mas o tempo era curto e por isso fomos de avião até Caxemira onde tive a oportunidade de ficar numa houseboat no lago Lago  Dal e fazer uma viagem de ordem militar a Gulmarg no sopé do Himalaia. De resto Srinagar, a capital de Caxemira era praticamente um quartel tantas eram as unidades do exército indiano ali estacionadas. Do outro lado da fronteira fortemente guardada o poder das armas paquistanesas era aparentemente igual. Mas em verdade tenho de dizer que ali não me foi permitido deslocar.

Finalmente de volta a Nova Deli tomei enfim o avião onde iria entrevistar Indira Gandhi. A aeronave era dividida em duas partes: na frente iam as pessoas que integravam a comitiva da primeira-ministra e a segunda, atrás encontrava-se Indira o Seu filho Rajiv e a mulher deste Sónia. 

Fiquei sentado ao lado dum sique, o chefe da segurança  da primeira-ministra e logo ali o meu espanto: ele provava a comida e a bebida antes de ambas serem levadas para Indira e os seus acompanhantes lá atrás comer. Mal sabia eu, para além da admiração inicial que tempos depois seria ele que dispararia os primeiros tiros que matariam Indira. Foi este o primeiro momento que achei realmente especial.

Quando me indicaram que me deslocaria à zona onde Indira se encontrava ia um tanto de pé atrás. Era conhecida a má relação que tinha com a comunicação social. Mas tudo se modificou com a conversa que tivemos de cerca de uma hora. Logo de começo ela disse-me que sabia que eu era mais fluente em francês e nessa língua decorreria a entrevista.

Abordei os temas mais diversos a que ela respondeu com toda a franqueza. Só houve um momento mais difícil quando abordei a morte do seu filho primogénito Sanjey num desastre de planador. Como visse que o assunto a incomodava mudei rapidamente o rumo das perguntas. Finda a entrevista ela apresentou-me o filho e a nora. Rajiv ficou muito interessado ao saber que a minha mulher era goesa e trabalha na companhia aérea portuguesa.

Disse-me que na verdade era um piloto de avião e só a morte do irmão o atirara para a política. E de tal firma se estabeleceu uma corrente de empatia que me convidou a jantar com ele e a sua mulher nessa noite pois no dia seguinte eu regressaria a Portugal, o que aceitei naturalmente.

Regressado ao meu lugar momentos depois foram-me dizer que a primeira-ministra ainda me quera falar. Tratava-se de uma sugestão. Por certo que não estaria interessado em assistir a um funeral. Por isso propunha-me que durante durassem as exéquias poderia visitar as casas daa família Nerhu Anand BhavanPara tal o seu secretário pessoal Vijay Sicrit aguardar-me-ia à saída do avião com uma viatura,

Foi aí que aconteceu o segundo momento extraordinário. À chegada da chefe do Governo estava formada na pista uma força militar á qual ela passou revista acompanhada pelo comandante da mesma. Depois retirou-se. Eu fora o último a desembarcar e aguardava a chegada da viatura que me havia de levar. A força militar, provavelmente um batalhão fizera direita volver e o comandante ao ver-me no meu fato europeu e de pasta mão deve ter pensado que eu era um convidado muito especial. E marcialmente deu a ordem de olhar à direita enquanto me fazia a continência. Meio envergonhado fiz um gesto com a mão em jeito de resposta. Entretanto chegar o carro com o senhor Sicrit. E lá fomos conhecer as casas seculares da família Nehru.

Como no avião não tinha havido fotógrafo foi na casa oficial do Governo que após um largo tempo de espera e alguma irritação da senhora lá apareceu um jovem muito assustado poi nunca estiver tão perto da primeira-ministra. Enfim lá se fizeram as fotos que nessa noite, durante o jantar com Rajiv e Sónia me foram entregues. Foi a última ocasião duma entrevista muito especial exclusiva pois no dia seguinte regressei a Portugal e ao “Diário de Notícias” onde naturalmente tive honras de primeira página.  

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12.4.23

*Um clique no interruptor cerebral

Por Antunes Ferreira

Hoje, sexta-feira, 7 de Abril de 2023, em que começo a escrever este texto tenho forçosamente de avisar e simultaneamente pedir desculpa a quem ainda me lê porque se trata de assunto pessoal e como tal sem interesse. Mas trata-se de um desabafo que deixo aqui para que fique registado e dele seja dado conhecimento àqueles que são minhas Amigas e meus Amigos.

Infelizmente e como julgo que sabem – não o tenho escondido – sou bipolar, o que quer dizer sujeito a alterações de humor e sensibilidade sem razões justificativas por causas intrínsecas. É como se fosse um interruptor que serve para ligar – e desligar obviamente – a disposição de um individuo, para o caso eu.

Num dia estou bem disposto escrevendo estórias com algum interesse e ironia q.b. (julgo eu e avalisadas pelos comentários que suscitam…) e de repente caio numa negação onde tudo se torna complicado e emaranhado sem ponta por onde se lhe pegue. É triste, mas infelizmente é assim!

Poderão perguntar o que têm a ver com este texto e a única resposta que posso dar já a escrevi acima: é tão só um desabafo que resolvi partilhar convosco e simultaneamente um teste que faço a mim próprio: serei ou não capaz de escrever sobre o assunto. Pelos vistos ainda sou mesmo que sem grandes rasgos de criatividade. 

Mas, afinal, o que é a bipolaridade? Para tentar compreender o que ela é recorro a definições médicas. De outra maneira nem eu (portador dela) nem quem se der ao trabalho de ainda me ler entenderá minimamente o que acontece comigo e com todos os que sofrem da bipolaridade.

A doença bipolar, tradicionalmente designada doença maníaco-depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises repetidas de depressão e «mania». Qualquer dos dois tipos de crise pode predominar numa mesma pessoa sendo a sua frequência bastante variável. As crises podem ser graves, moderadas ou leves.

As alterações do humor, num sentido ou noutro têm importante repercussão nas sensações, nas emoções, nas ideias e no comportamento da pessoa, com uma perda importante da saúde e da autonomia da personalidade. Não é, portanto, uma situação agradável bem pelo contrário. 

Perturbação afetiva bipolar (PAB) ) ou transtorno afetivo bipolar (TAB) (é uma perturbação mental caracterizada pela alternância entre períodos de depressão e períodos de ânimo intenso. O ânimo intenso é denominado mania ou hipomania, dependendo da gravidade ou se estão ou não presentes sintomas de psicose. Durante o período de mania a pessoa comporta-se ou sente-se anormalmente enérgica, contente ou irritável. 

Os doentes geralmente realizam decisões irrefletidas ou sem noção das consequências. Durante as fases maníacas a necessidade de sono tende a ser menor. Durante as fases depressivas a pessoa pode chorar, encarar a vida de forma negativa e evitar o contacto ocular com outras pessoas. O risco de suicídio entre as pessoas com a doença é elevado, sendo superior a 6% no prazo de vinte anos. Entre 30 e 40% das pessoas com a condição praticam automutilação.[2] Estão geralmente associados à perturbação bipolar outros problemas mentais, como perturbação de ansiedade e perturbação por abuso de substâncias.

As causas ainda não são totalmente compreendidas, mas tanto fatores ambientais como genéticos têm influência.[2] Muitos genes de pequeno efeito contribuem para aumentar o risco.[2] Os fatores ambientais incluem antecedentes de abuso infantil e stresse de longa duração.[ A doença divide-se em "perturbação bipolar do tipo 1", quando existe pelo menos um episódio maníaco, e "distúrbio bipolar do tipo 2", quando existe pelo menos um episódio hipomaníaco e um episódio depressivo maior. Em pessoas com sintomas menos graves e de longa duração pode-se estar na presença de ciclotimia

Quando esta condição tem origem em problemas médicos é classificada à parte.] Podem também estar presentes outras condições, incluindo perturbação de hiperatividade com défice de atençãoperturbações de personalidade, perturbação por abuso de substâncias e uma série de condições médicas.

Com estas transcrições julgo ter alcançado o propósito que aqui me trouxe. Espero não cair na pior hipótese ou seja agravar a situação e continuar a escrever – pelo menos como terapêutica ocupacional.

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5.4.23

A neve no Quebeque - *Um Parlamento com poucos temperos

Por Antunes Ferreira 

Nunca tinha visto tanta neve mas ela ali estava por toda a parte ominosa, um manto branco sujo cobrindo ruas, passeios, edifícios de apartamentos, vivendas e até cemitérios onde me desloquei com um amigo que ali fora em homenagem a um ente querido e me explicou que durante o pior período do Inverno não havia enterramentos devido à neve.

Estávamos em Montreal para visitar o pai e duas irmãs da Raquel que para lá tinham emigrado e estavam felizmente bem e em pleno Inverno (não havia forma de arranjar oportunidade para outro tempo de férias) e por isso a realidade era a neve. E, naturalmente o frio que a acompanhava e que levava a fenómenos também inéditos para quem como nós ali caíamos sem paraquedas.

Um exemplo apenas: as casas estavam permanentemente aquecidas e ai de que deixasse uma janela aberta. Era um verdadeiro “crime” passível de sanções cuja gravidade nem é bom referir. Os automóveis ficavam guardados nas garagens que cada prédio possuía. E ligados por ficha à electricidade pois se tal não acontecesse de manhã não arrancariam.

De reso era um verdadeiro espectáculo ver os carros circular com os tejadilhos carregados por camadas de neve. Isto quando as ruas o permitia depois dos limpa-neves municipais terem afastado para os passeios essas montanhas de branco sujo. Isto significava que os peões eram verdadeiros malabaristas.. 

Eu pensava para com os meus botões ao vê-los que mediavam entre os loucos e o heróis que todos os dias arriscavam a vida em tais “procelas pedestres”. No entanto eram relativamente poucos. Mas foi quando um dos meus cunhados me explicou que Montreal era duas cidades: a da superfície e subterrânea.

No dia seguinte a esta elucidação ele levou-me a conhecer a cidade que existia por baixo da terra. Com ruas e estabelecimentos ligadas à rede do metropolitano aliás excelente com estações amplas pejadas de gente de todas as cores, origens e vestuários. A cidade era bem o exemplo do multirracial e pluricultural. 

Estávamos na década de oitenta e decorria a questão entre a francofonia e a anglofonia. Montreal aparentemente inclinava-se para a primeira e por toda a parte incluindo nos sinais do trânsito em vez do STOP via-se o ARRET. Uma velha questão que não havia de ser solucionada e que motivara um referendo que não dera resultados concretos.

Vem de longe a questão que se arrasta sem qualquer fim à vista. O Canadá não espera que ela se resolva de um momento para o outro. Creio mesmo que nunca se resolverá. A História regista nos seus anais as diferenças entres os anglófonos e os francófonos. Desde a chegada do genovês Giovani Caboto (em inglês John Cabot) ao serviço da Inglaterra que aportou em 1497 ou 1498 à Terra Nova. Alguns historiadores defendem que terá sido um português João Vaz Corte Real o primeiro a chegar ali mas nada está provado.

Quem me forneceu estes dados em primeira mão foi o jornalista Charles /Charlie) Petit Martinont do “Journal de Montréal” o maior quotidiano em língua francesa publicado na América que eu visitei por curiosidade profissional e que de imediato se estabeleceu uma emparia entre nós que levaria a que dois dias depois jantássemos a Raquel  e eu em sua casa.

A sua esposa Céline, também jornalista especializada em gastronomia confessou-se espantada com aquele “amor à primeira vista” pois o Charlie era um introvertido que não cultivava amizades e por isso o elo que se estabelecera entre nós era um facto raro. Foi durante essa refeição que a Céline nos propôs uma ida à cidade de Quebeque para assistir a uma sessão do Parlamento.

Claro que aceitámos e ficou de imediato acordado que iríamos de comboio porque com a neve e o gelo as estradas eram um tanto perigosas e além disso o seu automóvel já tinha uns anitos… Não havia problema e nessa noite dormimos em casa deles para apanharmos no dia seguinte o primeiro comboio.

Dormimos é um termo convencional pois o Charlie e eu conversámos toda a noite sobre os temas mais variados sobretudo a independência das antigas colónias portuguesas. Ele tinha sido padre e abandonara a sotaina quando encontrara a Céline e bastante conservador longe do meu ponto de vista socialista o que não impediu uma troca de ideias frontal e salutar.

Foi ali que me contou a história do primeiro-ministro René Lévesque um defensor da ideia da independência do Quebeque, ideia que Charlie não aceitava. Um Quebeque independente para ele não tinha futuro, não tinha condições para sobreviver. Nem mesmo a teoria da associação-soberania que muitos defendiam tinha pés para andar.

Mas eu poderia aperceber-me do que se passava assistindo à sessão do Parlamento. E ficámos por ali, eu com os sentidos aguçados pelo que dali a pouco assistiria. Charlie com a convicção de que eu não arredaria pé das minhas ideias – mas com a certeza de que havíamos conquistado pontos que cimentavam uma Amizade acabada de plantar e que daria frutos de cores diversas e sabores distintos.

E no dia seguinte lá fomos num comboio aquecido, usando parkas volumosas que tínhamos comprado no Walmart para usarmos, pois a roupa que tínhamos trazido de Não era a mais indicada face à temperatura que sabíamos através do canal de Meteorologia que dava ininterruptamente na televisão. 

Entrámos no edifício da Assembleia Legislativa do Quebeque num corredor formado por neve acumulada e continuava a nevar. São verdadeiras paredes brancas sujas que limitam a entrada do edifício. Vamos para a galeria que fica atrás das filas dos deputados. Discute-se o Orçamento, nos moldes habituais em qualquer Parlamento.

O primeiro-ministro usa da palavra, e percebo de imediato que se trata de um político batido, um profissional. Recordo os dados que me tinham sido fornecidos pelo Charlie Petit Martinont. Lévesque tinha iniciado a sua carreira como repórter e apresentador de rádio e televisão, e mais tarde  tornou-se conhecido pelo seu papel eminente na nacionalização da energia hidrelétrica do Quebeque e  como um defensor ardente da soberania desse mesmo Quebeque.

Foi um ministro liberal no governo de Jean Lesage de 1960 a 1966 e o ​​primeiro líder político quebequense desde a Confederação a tentar, por meio de um referendo, negociar a independência política do Quebeque. Mas não conseguiu alcançar os objectivos pois a margem do SIM foi diminuta, umas poucas décimas em relação ao NÃO.

O sonho alimentado ao longo dos tempos que teria um momento muito especial aquando da última visita de De Gaulle altura em que o general e presidente da República de França fez a célebre afirmação: “Vive le Québec libre!” caíra para jamais se levantar. O sonho não passaria disso mesmo: um sonho!

Para apanhar o comboio de regresso a Montreal saímos antes de terminar a sessão. E já instalados na carruagem a Céline comentou com um sorriso quase angelical: “Oxalá tenham gostado, ainda que os temperos não fossem grande coisa…”

  

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29.3.23

O estranho ornitorrinco - *A Austrália é a pátria deste animal

Por Antunes Ferreira

No avião que nos leva a Melbourne Onde residem primos da Raquel as assistentes de bordo e os comissários distribuem una impressos para ser preenchidos com os dados de cada passageiro, número do passaporte, duração da estada na Austrália, local onde ficar, etc. e um item sublinhado: aviso que é absolutamente proibido trazer para o país qualquer tipo de alimentos sob pena que pode chegar a prisão.

Se por acaso for portador de tais coisas ao longo dos corredores que levam aos controles de passaportes e aduaneiros existem recipiente onde podem ser deitados os mesmos. E repete-se ameaçador o aviso: sob pena de prisão. Ora a Raquel levava no seu anoraque diversos pitéus de comida goesa para ofertar aos familiares e decidiu ignorar o folheto e a consequente ameaça!

Chegados aos guichês da polícia de fronteiras, cobarde, eu dirigir-me a um, enquanto a minha esposa foi para outro. Passei sem quaisquer problemas e fiquei siderado pois ela demorava-se em conversa com o agente que era, após um cenho franzido, todo sorridos. A fila que aguardava a sua vez de ser entrevistada já se impacientava e surgiam alguns comentários mais críticos.

E eis que a boa da minha cara metade, depois de entregar ao funcionário um cartão de visita seguiu impoluta e segura a recolher a bagagem sem quaisquer problemas. Eu, pasmado nem queria acreditar em tal milagre. Claro que ali não a inquiri sobre o que s tinha passado embora estivesse carregado de dúvidas. Que mistério acontecera? Como atravessara ela não o cabo da Tormentas mas o guichê fatal?

Cá fora, na rua, aguardavam-nos os primos que eu não conhecia mas cuja simpatia era mais do que evidente. A caminho da casa a Raquel contou as peripécias que tinham rodeado a passagem pelo controle na fronteira e informou das chamuças e outros manjares que trazia com ela para regalo da família. Foi um espanto geral.

Chegados a casa e depois de uns uísques retemperadores ela contou com pormenores o que tinha passado. O oficial começara por lhe perguntar face ao visto de turista se tinha familiares na Austrália ao que ela respondera que não, que vinha apenas como turista gozando do privilégio de ser empregada da TAP – coisa que ele não conhecia – e mostrou-lhe o cartão da companhia explicando-lhe que era a transportadora aérea portuguesa.

Depois informou-o de que era amiga do embaixador australiano em Lisboa, por isso tinha aquele visto muito especial e fora ele que lhe indicara os melhores alojamentos quer em Melbourne quer em Sidney, mostrando também uma carta da embaixada assinada pelo próprio diplomata. A conversa surtira o efeito pretendido e o agente desejara-lhe uma boa estadia e carimbara o salvo conduto, tendo ainda a Raquel deixado-lhe um cartão de visita para ele usar no caso de ir a Portugal.

A estória foi motivo de conversas durante os dias que passámos em Melbourne que não tinha grandes motivos para dissertações. Os transportes colectivos estavam em greve, com autocarros e eléctricos estacionados nos principais cruzamentos com o pessoal sentado calmamente lendo os jornais do dia, fumando  e até jogando às cartas. 

Foi aí que me apercebi dum fenómeno que me deixou profundamente admirado. Na Austrália eram proibidos artigos para eliminar moscas, as cattle flies. Ou seja as moscas do gado. Sendo um grande produtor de carne as moscas eram “sagradas”. Um dia quando nos deslocávamos à praia assisti a um fenómeno espantoso que, infelizmente por não ter connosco máquina fotográfica não registei.

Um primo da Raquel usava uma camisa de manga branca de curta. Por incrível que pareça as costas eram negras tantas as moscas que nela estavam pousadas. Explicaram-me depois que os tradicionais chapéus usados no campo (e também nas cidades) de aba larga, tipo cauboi tinham pendurados rolhas de cortiça para com o movimento da cabeça afastar as moscas.

Por mim sentia-me quase um palhaço ao andar n rua e a agitar constantemente os braços e as mãos perante os olhares profundamente admirados dos restantes cidadãos habituados às moscas. Mas não foi a tais insectos a que aqui vim, mas sim â fauna muito especial da Austrália. Num passeio que fizemos ao Zoológico tive a oportunidade de ver espécies características do continente australiano.

Diversos tipos de cangurus, de cores e tamanhos diferentes, coalas, emas, tudo integrado um zonas tão próximas dos respectivos habitats quanto possível. É forçoso que diga que nesse contexto a Austrália é um continente que ao mesmo tempo é um país e pode orgulhar-se do tratamento ambiental – pelo menos na década de oitenta que foi quando ali estive. 

Também fomos a Sidney mas isso é outra estória que em devido tempo – se tiver pachorra e sobretudo saúde tenciono abordar – porque hoje fico-me por aqui dedicando as últimas linhas a um animal estranho que é o ornitorrinco. Observei-o e procurei depois documentar-me sobre ele, Uma vez mais recorri à Wikipédia. Aqui fica o essencial do que encontrei.

“O ornitorrinco (nome científico: Ornithorhynchus anatinus, do grego: ornitho, ave + rhynchus, bico; e do latim: anati, pato + inus, semelhante a: "com bico de ave, semelhante a pato") é um mamífero semiaquático natural da Austrália e Tasmânia. É o único representante vivo da família Ornithorhynchidae, e a única espécie do gênero Ornithorhynchus. Juntamente com as equidnas, formam o grupo dos monotremados, os únicos mamíferos ovíparos existentes. A espécie é monotípica, ou seja, não tem subespécies ou variedades reconhecidas.

O ornitorrinco possui hábito crepuscular e/ou noturno. Preferencialmente carnívoro, a sua dieta baseia-se em crustáceos de água doceinsetos e vermes. Possui diversas adaptações para a vida em rios e lagoas, entre elas as membranas interdigitais, mais proeminentes nas patas dianteiras. É um animal ovíparo, cuja fêmea põe cerca de dois ovos, que incuba por aproximadamente dez dias num ninho especialmente construído. Os monotremados recém-eclodidos apresentam um dente similar ao das aves (um carúnculo), utilizado na abertura da casca; os adultos não têm dentes. A fêmea não possui mamas, e o leite é diretamente lambido dos poros e sulcos abdominais. Os machos têm esporões venenosos nas patas, que são utilizados principalmente para defesa territorial e contra predadores. Possui uma cauda similar à de um castor.”

E por aqui me fico por hoje. Palavra que não trouxe da Austrália nenhum ornitorrinco. Nem a Raquel o conseguiria fazer mesmo com um oficial de fronteira simpático…

 

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22.3.23

Um remate fenomenal - *Sporting eliminou o Arsenal em Londres

Por Antunes Ferreira

Sentado no meu sofá preparei-me para uma verdadeira “degola de inocentes” porque no habitual derrotismo português o meu sportinguismo estava pelas ruas da amargura depois do empate de 2-2 no estádio de Alvalade frente ao Arsenal – o líder da lPremier League inglesa, considerada a melhor do Mundo.

Como não posso beber o meu uísque preferido, o Bushmills – nem qualquer outro por via dos medicamentos que tomo quotidianamente, muni-me de um ice. Tea sem açúcar, estendi as pernas e só não me benzi pois como costumo dizer e escrever fui católico, mas curei-me. Os dados estavam lançados e veríamos o que “aquilo” ia dar. Felicidade – nem pensar.

O jogo começou com o Arsenal – aliás como lhe competia – a tentar resolver a partida tão depressa quanto possível, mas pelo que estava a ver, o meu Sporting estava no relvado do Emirates Stadium decidido a vender cara a possível. E previsível derrota. Os comandados de Ruben Amorim traziam bem estudada a tática para dificultar ao máximo os gunners (para quem não saiba é o nome no jargão futebolístico dado aos jogadores arsenalistas).

Mas – há sempre uma miserável adversativa para dar cabo da ilusão que se apossara do assistente cada vez mais admirado da prestação dos leões – eis que ao minuto 19 um tal Granit Xhaka, um suíço de má memória para as equipas lusitanas arrancou um remate indefensável em recarga com a baliza aberta depois de Adán ter rechaçado um primeiro remate. Estamos feitos pensei para com os meus botões. O resultado “agregated” entre Lisboa e Londres era 3-2.

O futebolista comemorou o tento com um gesto de escárnio agitando os dedos da mão direita apoiados no nariz como que gozando antecipadamente com os lusos irremediavelmente eliminados. E, na verdade tudo indicava que assim iria acontecer. O Arsenal estava na mó de cima e o Sporting parecia muito abalado. Mas não era bem assim. Os verde-e-brancos não atiraram com a toalha ao chão.

O intervalo chegou e eu mudei de canal para ver um pouco de policial e desanuviar. No fundo, não me restava uma esperança fundada, mas às vezes, enquanto o diabo esfrega um olho… Regresso à transmissão da partida e noto – ou penso notar – que os jogadores leoninos vêm com um ânimo de antes quebrar que torcer. Boa, penso, atitude não lhes falta – o que lhes falta são golos…

Batendo-se com denodo e pundonor os leões não davam mostras de inferioridade perante os líderes do campeonato inglês. E de repente, o espanto: do meio-campo, aproveitando um ressalto da bola feito por Paulinho, Pedro Gonçalves entrou para a história do futebol português e quiçá para o europeu. Levantou a cabeça e percebeu que o guarda-redes do Arsenal, Aaron Ramsdale, estava adiantado em relação à baliza e aplicou um remate inacreditável que resultou num golo fantástico! Fenomenal! Estava feito o empate, Da partida e da eliminatória. Eu nem queria acreditar. Mas era mesmo assim.

Depois foi o arrastar dos noventa minutos mais uns quatro de ajuste e o resultado não se alterava. Eu sofria, nunca tendo pensado anteriormente que tal me aconteceria. Recorreu-se então ao prolongamento de mais trinta minutos e ninguém conseguia acertar nas balizas. Só restava a lotaria dos penaltis.

Cinco para cada lado como estipula a norma. Os quatro primeiros quer do lado do Arsenal – por sorteio o primeiro a rematar – quer do Sporting resultaram em golos. Porém ao quinto, Gabriel Martinelli atirou por forma a permitir a defesa de Adán! Que, de resto, tinha feito um jogo extraordinário defendendo tudo o que era possível e até o “impossível”… Faltava o quinto do Sporting. Eu já estava de pé quando Nuno Santos arrancou para a bola e com um chuto certeiro eliminou o Arsenal no Emirates Stadium! Hurra!  Ultra!! Como escreveu o “Mais futebol” há mais de vinte anos que os ingleses não ganham um troféu europeu.

Esta crónica foge ao habitual, mas o meu sportinguismo justifica a alteração. Pelo menos do meu ponto de vista, No momento em que escrevo este texto já se sabe que nas meias finais o Sporting irá defrontar a Juventus. Um novo desafio, um outro obstáculo que terá de ser ultrapassado se os leões quiserem chegar à final e – quem sabe, no desporto-rei tudo é possível? – ganhar a competição europeia.

Mas aqui entra um factor que não pode ser ignorado: as previsões. Ninguém – nem mesmo a Pitonisa de Delfos – se atreveria a antever o resultado registado no Emirates Stadium. As apostas iam todas no sentido da vitória do clube treinado por Mikel Arteta. Por isso, depois do empate em Alvalade (2-2), tudo se inclinava para um resultado na segunda mão que ditasse o afastamento dos lisboetas.

Ficou célebre nos anais do futebol a frase do jogador João Pinto do Futebol Clube do Porto quando lhe pediram para fazer uma previsão duma determinada partida. “Previsões... só no fim do jogo…”

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15.3.23

Deste velho cacilheiro *Mas o Tejo é sempre novo

Por Antunes Ferreira

Andava eu pelos meus oito anitos quando o meu tio e padrinho Armando Antunes (do lado da minha mãe), primeiro-sargento da Força Aérea – então dizia-se da Aeronáutica – me inoculou com o vírus leonino o que me causou a “maleita” que continuou até hoje e irá (como costumo dizer) até ao forno crematório. A esse baptismo seguir-se-ia uns bons anos depois, o crisma cujo padrinho foi para mim o melhor presidente que nós leoninos tivemos na minha vida: João Rocha. De cor política antagónica mas isso nunca obstou que conservássemos uma óptima Amizade. Reservo-me para outra ocasião para contar a nossa comum “odisseia” sem Homero.

Basta de divagações e voltando ao meu tio e padrinho, lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, de no dia em que fiz os já citados oito anitos, além de me dar uma caixa de lápis de cor Faber Castell me te perguntado o que eu queria ser quando fosse grande. Os temas aéreos estavam na berra na família, o meu tio Jacinto Paiva Simões casado com a única irmã da minha mãe, a querida tia Lurdes era capitão aviador reformado.

Daí que a resposta fora imediata: “Quando for grande quero ser aviador!” Os meus tios Armando e Virgínia tinham aprazado com os meus pais um almoço num restaurante de Cacilhas. Por isso metemo-nos no Morris Minor HÁ-17-63 (verde-alface) que o meu pai Henrique Silva Ferreira acabara de comprar, tomámos um cacilheiro e ala que se faz tarde rumo a umas ameijoas à Bulhão Pato, qu’eu cá não era disso, por isso enquanto os casais tiravam a barriga de misérias com uns lagostins e duas santolas recheadas fiquei-me por belo bife com um ovo estrelado a cavalo e batatas fritas. No fim houve bolo com oito velas mas o que me deslumbrou (e até hoje isso acontece) foi uma estrondosa musse de chocolate!

Os ponteiros do relógio do tempo são uns maganos: não param; antes era porque não se dava corda ao instrumento; hoje é que a pilha deu o berro. Nunca mais dera por mim a pensar na viagem no cacilheiro. Mas a Raquel e eu fomos à revista no Maria Vitória e eis senão quando apareceu em cena o meu amigo Zé Viana vestido de marujo que cantou o Fado do Cacilheiro que eu sussurrei entre dentes para não incomodar a plateia:  

 

«Quando eu era rapazote
Levei comigo no bote
Uma varina atrevida
Manobrei e gostei dela
E lá me atraquei a ela
Pro resto da minha vida.

 

Às vezes numa pessoa
A idade não perdoa
Faz bater o coração
Mas tenho grande vaidade
Em viver a mocidade
Dentro desta geração.

 

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro
Dedicado companheiro
Pequeno berço do povo.


E navegando
A idade foi chegando
Ai… O cabelo branqueando
Mas o Tejo é sempre novo.

 

Todos moram numa rua
A que chamam sempre sua
Mas eu cá não os invejo
O meu bairro é sobre as águas
Que cantam as suas mágoas
E minha rua é o Tejo.

 

Certa noite de luar
Vinha eu a navegar
E de pé junto da proa
Eu vi ou então sonhei
Que os braços do Cristo-Rei
Estavam a abraçar Lisboa.

 

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro
Dedicado companheiro
Pequeno berço do povo.


E navegando
A idade foi chegando
Ai… O cabelo branqueando
Mas o Tejo é sempre novo»


No final da revista fui aos bastidores onde o Zé não queria acreditar que era eu que ali estava. O abraço que trocámos foi mais um abração. A PIDE, como sempre, andava na sua peugada. “Continuam a ser uns filhos-da-puta! Não sabem ser outra coisa! Imagina tu, Henrique, que quiseram cortar o cacilheiro porque era subversivo!” E soltou uma daquelas suas gargalhadas. Das que até se ouviam na… António Maria Cardoso! 

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8.3.23

Uma estória de convento - *Uma feira, duas freiras e um homem

Por Antunes Ferreira

Como era habitual, a madre superiora encarregava as irmãs Maria da Piedade e Maria da Purificação de ir à vila no da feira para vender os produtos que o convento produzia desde doces e compotas, peças de artefacto religioso até ovos das galinhas poedeiras que cuidavam com a maior atenção e até, podia dizer-se, carinho.

Era uma fonte de receita que suplantava as ofertas das missas dominicais que o capelão, o padre Constâncio, já com os seus sessenta e muitos, rezava e que era abeta a quem nela estivesse interessado. Mas os tempos estavam difíceis e os fieis iam-se reduzindo e consequentemente os respectivos óbolos também; além disso, o tempo não perdoava e a média dos anos levava ao envelhecimento dos assistentes.

O país envelhecia, a terceira idade, as rugas, os cabelos brancos, as calvas, as bengalas, os bordões, até mesmo as muletas eram prato frequente na celebração e até havia quem viesse em cadeira de rodas empurrada por familiar mais chegado. Daí que a receita recolhida ia minguando e por isso a venda dos produtos n feira era indispensável e inquestionável. Igualmente as vocações sacerdotais sofriam uma diminuição o que levava a que os padres cada vez eram mais velhos e tinham de acorrer às diversas necessidades de várias ordens.

Regressavam da feira onde tinham banca montada graças ao auxílio do senhor Mendonça negociante de queijos e enchidos, com a bolsa recheada – o dia fora bem sucedido. Como não tinham arranjado boleia vinham a pé conversando, aliás a distância não era grande. De repente a irmã da Piedade disse em voz baixa para a outra feira se esta tinha reparado que um homem as seguia.

Na verdade, assim era. As freiras estugaram os passos mas o homem fez a mesma coisa. Aí a irmã Maria da Purificação, aproveitando uma curva do córrego, sussurrou à sua companheira: “Ali adiante há um bifurcação. Sugiro que cada uma de nós siga por uma delas. Eu levo a bolsa do dinheiro e vou pela direita que chego mis depressa ao convento.”  

E assim fizeram. Entretanto o Sol ia caindo e ao chegar ao mosteiro a irmã portadora da “massa” foi massacrada de perguntas sobre o motivo do atraso. A madre superiora estava preocupadíssima com o passar das horas e após ouvir a versão da estória pensou alertar a Guarda Republicana sobre o desaparecimento da irmã Maria da Piedade.

Já caía a noite e se preparava para fazer a chamada par a GNR  quando apareceu  freira faltosa tranquila ainda que um tanto ofegante. As perguntas fora múltiplas, todo o convento reunido em buca do que acontecera, aventando a hipótese mais negra. O canalha abusara da freira? Ele há homens capazes de tudo, o diabo anda à solta por ai, ninguém pode dizer que está seguro

A monja sossegou a assembleia das suas irmãs. E contou o que se passara. Com certeza o seu Anjo da Guarda (que não da Republicana…) a acompanhara naquele transe pois a ameaça não dera em nada. Mas que houvera ameaça, lá isso houvera. Um silêncio d cortar à faca estabeleceu-se entre as assistentes.

E foi a madre superiora que o quebrou: “Minha irmã acabe com essa estória, que Deus, nosso Senhor, sabe o que se passou, mas nós não!” E a irmã Maria da Piedade concluiu: “O homem apanhou-me, tentou ficar com o dinheiro com maus modos, mas vendo que eu não o tinha soltou uma gargalhada bestial e disse-me que nunca «comera» uma freira e estava na altura de o fazer!”

 E então? “Mandou-me arregaçar o hábito enquanto baixava as calças. Foi então que desatei a correr e cheguei aqui ao convento sã e salva! “ Um murmúrio de alivio  fez-se sentir enquanto a freira terminava: “Uma freira com o hábito  arregaçado corre muito mais do que um bandido com as calças em baixo!”

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27.2.23

Saiu a fava ao Sporting

Por Antunes Ferreira

Os especialistas da “Bíblia” do futebol escreveram que nos oitavos de final da Taça da Europa League “saiu a fava” ao Sporting Clube de Portugal. A analogia parece ser consentânea com o tradicional bolo-rei nacional pois no sorteio saiu aos leões o Arsenal. Escreveu o diário desportivo:

!O Arsenal, atual líder da Premier League, será o adversário do Sporting nos oitavos de final da Liga Europa, ditou o sorteio realizado ao final da manhã desta sexta-feira em Nyon, na Suíça. Os leões jogam primeiro em Alvalade, a 9 de março, deslocando-se depois a Londres para defrontar os gunners na segunda mão no dia 16.”

Não é segredo, bem pelo contrário que sou sportinguista – algumas almas impiedosas mas talvez com alguma verdade chama-me masoquista… - pois os homens de Alvalade são verdadeiros colecionadores de desastres futebolísticos. São uma equipa que se pode chamar ioiô – tão depressa alcançam bons resultados numa semana como na seguinte averbam mais uma derrota.

Habitualmente não costumo escrever sobre práticas desportivas; mas neste caso, de bradar aos céus, vejo-me na triste realidade de comentar este fiasco para as bandas dos de Alvalade. Um sorteio é sempre aleatório e a sorte conta muito quando as bolinhas saem das urnas e dão os pares das equipas que vão jogar os oitavos e final duma taça que é considerada a parente pobre d Champions que, essa sim, dá prémios de presença milionários.

Ora bem se sabe que o futebol espectáculo passou a ser futebol negócio e para muitos clubes os cifrões que chegam de Nyon, a sede da UEFA, são uma espécie de boia de salvação para as suas finanças por mis que se argumente com o fair play financeiro. Abordar o assunto tem muitas dificuldades pois o dinheiro é omnipresente na vida dita desportiva.

Dirigentes e agentes desportivos são muitas vezes muito mais determinantes nos resultados do que os resultados que se obtêm nos relvados, Mas não só. A corrupção alargou-se de tal modo que a combinação desses mesmos resultados tem vindo a alargar-se e a justiça desportiva pouco tem conseguido porque ela também não está isenta e independente,

Este escrito não é sequer uma tentativa de solução dada a magnitude do problema; é mais um desabafo de um espectador que gostaria de ver a verdade reinar nas práticas desportivas. Porque não é apenas no futebol que as coisas estão erradas.

O mal já alastrou a outros desportos – eu diria a quase todos os praticados com bolas ou sem bolas. Veja-se o caso clássico do ciclismo em que o doping é um terrível mal que tem levado a que praticantes vejam ser-lhes retirados títulos que tinham obtido sob o uso de produtos proibidos.

Mas também o atletismo enferma da mesma temível prática. A dopagem é o exemplo da falsidade que o controle sistemático tende a evitar mas, infelizmente  não prevenir. O caso dos futebolistas é paradigmático. A recolha de liquido orgânico – normalmente a urina – é habitualmente aleatória. O recurso ao contraditório raras vezes (eu diria raríssimas) dá resultados. E aí também se levanta outra questão: serão só os atletas os prevaricadores ou também fazem parte do esquema treinadores e responseis clínicos? 

Já me desviei, porém, ao que vinha e que era a fava que saiu ao Sporting no sorteio dos oitavos da taça da Europa UEFA. O treinador Rúben Amorim já disse que o principal para os leões na Europa League é seguirem em frente. Tudo indica que é o que ele pode – e deve – dizer quer para os apoiantes do clube, quer  (e principalmente) para os seus comandados. A tarefa não é fácil mas não é impossível. Aqui fala o sportinguista, não escreve o masoquista…

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