23.5.26

Grande Angular - Maioria relativa, democracia relativa

Por António Barreto

Os eleitores portugueses, grande parte pelo menos, parecem detestar a maioria absoluta. A dos outros partidos, evidentemente, porque a do nosso é sempre boa. Mas há casos em que nem sequer gostam da sua. Por que será? Efeitos do salazarismo? Vontade de brincar às políticas fazendo cálculos, traçando estratégias, remoendo tácticas e sonhando conspirações? De tudo um pouco, talvez. Mas não deixa de impressionar o facto de ser reduzida a convicção de que a maioria absoluta de um partido, de uma aliança ou de uma coligação, pode fazer a diferença. Pode permitir acção. Talvez garanta coesão e capacidade de negociação. E responsabiliza os governos pelos resultados: não há desculpa, nem bode expiatório para a falha dos governantes.

 

É frequente ouvir quem desconfie da maioria absoluta. Entre os principais argumentos, um é constante: aumenta ou favorece a corrupção. Outro reside na hipótese autoritária: a maioria de um só partido é um convite ao abuso. Diz-se que maioria absoluta é sinónimo de corrupção e despotismo. Não é verdade. Veja-se a experiência de governos com ou sem maioria parlamentear. Nos últimos 50 anos, tanto houve corrupção com uns como com outros. A história recente não confirma aqueles receios. Na verdade, muitas das falhas políticas resultam sobretudo da instabilidade e da fragilidade dos governos. Por exemplo, mais de 30 ou 40 ministros, em cinquenta anos, em cada uma das pastas das Finanças, do Trabalho, das Obras Públicas, da Educação e da Saúde, são certamente as causas de muitas deficiências. Não há país que resista.

 

E que mal tem em querer uma maioria absoluta? Não é esse o ponto da democracia? Governar com maioria? Poder decidir conforme as convicções e de acordo com as promessas eleitorais? Ser responsabilizado pelo que se fez ou não fez, em vez de culpar as oposições? Ter tempo de vida, um mandato legislativo, pelo menos, para planear, executar e ver os resultados?

 

Infelizmente, o nosso sistema político não foi idealizado para favorecer as maiorias e a estabilidade. Parece que tudo foi feito para ajudar os governos minoritários. Ou antes, vingou a presunção de que haveria sempre governos minoritários e que era melhor defendê-los. Um governo não tem de ter maioria parlamentar. Tem de se apresentar ao Parlamento, mas não exige aprovação. Não tem de votar a composição, nem sequer o programa. Para começar a exercer as suas funções, o Governo nada tem de pedir ao Parlamento, nem sequer voto de confiança. O primeiro-ministro não precisa de ser deputado. Os seus ministros também não. Um governo tem de ter a confiança presidencial (caso contrário não tomaria “posse”), mas não tem de ter a confiança parlamentar. Os Constituintes não pensavam em maiorias absolutas, queriam defender os minoritários.

 

A nossa democracia é relativa. O Parlamento está condicionado pelo Governo. Pelo Presidente da República. Pelas direcções partidárias. Os deputados dependem das direcções partidárias. O eleitorado não faz escolhas pessoais. Quem decide as substituições de deputados, em caso de necessidade, são as direcções partidárias. O eleitorado nada tem a dizer a propósito de um processo de substituição. Os deputados são eleitos em listas, muitos dos seus membros não são sequer conhecidos. A decisão é da direcção do partido que determina em que posição da lista vai um candidato. A opção partidária é do eleitorado, ao menos isso. Mas a escolha do eleito é do partido: este é o passo decisivo. Se um deputado eleito vai para o governo, suspende o mandato. Se vai de férias, fazer mestrado, negócio ou qualquer outra coisa, suspende o mandato. É substituído pelo “seguinte” da lista, lá colocado pela direcção do partido. O que também acontece se o deputado adoece.

 

O actual governo vive obcecado pela queda provocada pelos adversários, por novas eleições e por uma hipótese de maioria absoluta. Em vez de procurar inspirar e fazer uma maioria de governo e de se aliar aos partidos que existem, o governo sonha com o impossível, para culpar os adversários. A reforma do Tribunal de Contas, a alteração das leis laborais, a reforma do Serviço Nacional de Saúde e as leis da nacionalidade são bons exemplos.

 

Até agora, pouco ou nada foi feito com o genuíno interesse de governar. Quase tudo foi feito para abrir a crise nos adversários e demonstrar a inviabilidade de uma coligação. Tudo é feito para distribuir benefícios a fim de demonstrar a bondade governamental. É provável que este governo utilize a mais prodigiosa máquina de propaganda, de informação orientada e de intoxicação. O número de pessoas que acompanham e seguem os governantes em qualquer movimento é impressionante. Veja-se bem a televisão: as imagens não enganam. Assessores, adjuntos, peritos de comunicação, encarregados de relações com a imprensa, assistentes, “spins”, técnicos de relações públicas, porta-vozes e consultores de imagem saltitam atrás dos seus governantes. Outros ainda, que não vemos, ficam nos escritórios a preparar, escrever discursos, contactar jornais e canais de televisão a fim de ter a certeza de que nada pode falhar. Enquanto se repete a lengalenga das medidas a tomar e dos benefícios a dar, as obras das estradas danificadas, das casas destruídas, das fábricas paradas e das florestas exterminadas esperam. A verdade é que este governo minoritário, sem vontade de aliança ou coligação, se condenou a si próprio na sofreguidão de chegar à maioria absoluta. Não através de negociação às claras com partidos e parceiros. Mas sim por intermédio de crises sucessivas que demonstrem que são as oposições as responsáveis pela incompetência do governo. 

 

O PSD e o seu governo, ou antes, o governo e o seu partido só pensam numa coisa: maioria absoluta. À custa de crise, não de negociação. Ora dizem que não, ora garantem que sim. Mas percebe-se que é a única coisa em que pensam. O custo de vida não pára de aumentar. Os desastres nos hospitais são diários. Os vendavais de Leiria ficaram por ali. As matas esperam por melhores tempos. Estradas não foram reparadas. Electricidade não foi reposta em muitas casas e localidades. Os aeroportos portugueses estão em crise dramática. Mas os discursos não cessam. As promessas de apoio somam-se todos os dias umas às outras. Reparar não é o que conta. O que conta é arranjar apoios e votos. O que é preciso é culpar os outros das falhas próprias.

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Público, 23.5.2026

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16.5.26

Grande Angular - O Poder – 2

Por António Barreto

As democracias no mundo diminuem. Os países aspirantes a democracia deixaram de o ser. Os pretendentes a democratas entenderam que é mais interessante serem candidatos a líderes, ditadores e condutores. As democracias capitalistas diminuem, vivem sem amanhãs, deixam-se navegar nas ondas populistas. A maior democracia capitalista atropela os valores democráticos e comporta-se como proprietária de parte do mundo. As ditaduras comunistas e aparentadas perderam qualquer remorso ou pudor e exibem, orgulhosas, os seus poderes indiscutidos. As outras ditaduras, asiáticas e africanas, à falta de melhor designação, enveredam por guerras civis ou de agressão. O número de democracias, pouco mais de 30, é minoritário. Os países a viver em regimes autoritários são maioritários. A população de países em regime ditatorial constitui mais de dois terços da Humanidade. Os cidadãos a viverem em regime de democracia plena é inferior a 10% da população mundial.

 

Israel perdeu a vergonha e o remorso. A Rússia nunca teve, nem um nem outra. A China conseguiu o impossível, aquilo que as cartas e os livros garantiam que não era deste mundo: conciliar o capitalismo agressivo com a ditadura política mais severa que se imagina. A América de Trump, a do dinheiro e da força, delicia-se no elogio do poder e da fortuna, enquanto a outra América, a da liberdade, parece estar a desistir. Em Pequim, Trump e Xi assinaram uma espécie de Tordesilhas, clara derrota da democracia. E toda a gente, ou quase, respeita o poder. Rússia, China e Estados Unidos partilham o poder, mas não o respeito, coisa que só a liberdade cria.

 

A democracia recua. A iniciativa privada também. Ou antes, o grande magnate e o oligopólio privado ou público estão em avanço indiscutível. Mas a iniciativa privada de pequena e média dimensão, ou mesmo grande, mas plural e diversificada, está em recuo. O Estado avança. O grande conglomerado privado avança. Ambos se entendem. Cá como lá, nos Estados Unidos, na Rússia ou na China, Estado e oligarquias privadas coexistem e alimentam-se.  Portugal é um caso interessante, ou antes, curioso: parte das suas “privatizações” caiu nas mãos de Estados, da França, de Angola ou da China, não de privados.

 

As taxas de sindicalização na Europa traduzem a permanente perda de poder de uma grande parte da população, neste caso dos trabalhadores empregados. Em Portugal, os sindicalizados serão cerca de 5 a 7% no sector privado e 10 a 12% no sector público. A média dos países da OCDE e da UE andará pelos 16%. França, pouco mais de 10%. Países de Leste, menos de 10%. Imigrantes, em qualquer país, muito menos do que nacionais. Casos evidentes de declínio democrático.

 

Ao longo das últimas décadas, as Américas e a Europa pareciam escapar ao processo de “fechamento” da liberdade e da democracia, tão visível na Ásia, na África e na Rússia. Naqueles continentes, alargar as bases do poder e distribuir o poder existente foram-se transformando em virtudes das sociedades e aspirações das classes. Parêntesis autoritários, fascistas ou comunistas, pareciam reduzidos a isso mesmo, parêntesis. Já não é verdade. Ou é cada vez menos. O poder ganha reputação por si próprio. Serve para existir, não existe para servir. Conquistar o poder é a virtude. Guardá-lo também. Mantê-lo numa só classe, num grupo, partido, clique, empresa ou pessoa é um êxito. O pior de tudo é que se aplaude quem assim age, quem assim pensa. Os sem poder aplaudem os poucos que o têm. E quando não aplaudem, deixam correr. Quase fazem pensar naqueles dirigentes soviéticos, companheiros de Estaline, que foram condenados por traição e depois sumariamente executados às centenas. Em muitos casos, quando eram condenados, a caminho da execução, confessavam os seus pecados, pediam perdão a Estaline. Também houve disso entre fascistas e nazis. Talvez não tenhamos já chegado a esses extremos, talvez, ainda, mas reconhecer o poder e a autoridade de quem manda começa a ser virtude dos que obedecem. Os feitos dos exércitos russos e israelitas, as aventuras dos capitalistas americanos, o terrorismo dos Ayatollahs, o poder impiedoso dos chineses, as loucuras de Trump, Maduro e Bolsonaro são agora cada vez mais apreciados. Justificam-se as políticas odiosas de Putin, de Khamenei ou de Kim, aceites pela força das circunstâncias. Os facínoras poderosos são admirados. Corremos o risco de ficar como eles.

 

É verdade que as esquerdas, o centro e o centro-direita ajudam os fascismos e os populismos. A história mostra bem. Mas não é só isso. As condições sociais e económicas, a corrupção, a incompetência dos governos e das instituições ajudam. As crises económicas ajudam.  Ajuda e muito a esperança de que a direita e a esquerda moderadas se devem aliar aos populistas, juntar-se a eles para melhor os combater…. Talvez ajude a extrema-direita, não o combate contra a extrema-direita.

 

Mas não se duvide: mais ainda do que os defeitos dos democratas, as insuficiências dos sociais democratas, os falhanços dos socialistas e o equívoco das direitas democráticas, o que traz a extrema-direita, os populistas e os fascismos para o poder é a incapacidade das democracias. As suas faltas na corrupção e no nepotismo. A ineficácia dos governos democráticos, a incapacidade para organizar a saúde e a justiça, suster o custo de vida, dirigir os transportes públicos…

 

A crescente volúpia dos democratas pelo poder e pelo dinheiro é desmoralizante. A tentação crescente dos democratas para a corrupção provoca o crescimento dos justicialistas. A ilusão da “terceira via”, entre o capitalismo e o socialismo, alimenta a esperança nos movimentos populistas e justicialistas.

 

O poder despolitizou-se. A sua fonte é o dinheiro e a força. O seu destino é a força e o dinheiro. É quase ridículo falar de doutrina ou de valores sociais. É motivo de risota mencionar a necessidade de políticas humanas e solidárias. Bom é o poder. Numa idolatria obscena, crescem o luxo, o desperdício e o espalhafato. Aumentam as desigualdades sociais, tidas como necessárias e inevitáveis. E o poder é fonte de todos os méritos. Tem razão quem é rico. Quem tem armas. Quem exerce o poder. Quem não tem, tivesse…

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Público, 16.5.2026

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9.5.26

Grande Angular - O Poder – 1

Por António Barreto

Vivemos tempos estranhos. Nem sempre felizes. Mas ameaçadores. E perigosos. O poder tudo domina. A luta pelo poder. A conquista do poder. A manutenção do poder. Há uma espécie de cinismo, de crueza, neste mundo dominado pelo poder, mas, aparentemente, recheado de causas, bandeiras, preocupações e solidariedade. Até os bons sentimentos são ridicularizados. Os governos, os políticos, os jornalistas e os académicos vivem obcecados com o poder. Empresários, cientistas, sindicalistas e escritores vivem condicionados pelo poder. O dos outros, que denunciam, e o deles próprios, que festejam.

 

Alguns dirão que o poder é natural, próprio da Humanidade, dos homens e das mulheres. Que foi assim desde sempre. Diz-se que não há história sem poder e sem luta por ele. Que o poder é próprio da vida e das sociedades. Que, sem poder, as sociedades depressa caem no caos e na violência. Verdade. Parte da verdade. Há mais e talvez mais importante: o progresso na história também é o de fazer com que haja mais qualquer coisa do que o poder. Com que o poder sirva para algo. Que o que se faz com o poder seja mais importante do que o próprio poder. Que faz com que se tenha uma ideia forte de que o poder deve servir para se alargar a outros, a muitos, a todos, também aos que o não têm. É como a guerra. Sempre houve, dizem. Verdade. Mas é melhor lutar pela paz.

 

Por isso, atormenta ver quem faz política ocupar-se cada vez mais do poder. E quem comenta a política comentar cada vez mais o poder. Aflige ver todos os dias os que cultivam o poder por si próprio e para si próprios. É o que acontece, apesar de todas as advertências, a começar pela de Acton: “O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente”. “Sobretudo os que o não têm”, acrescenta logo o cínico Andreotti.

 

A corrupção gerada pelo poder é evidentemente um grave e sério problema. Esta é um dos grandes inimigos da liberdade e da democracia. Mas o pior de tudo no poder e no seu exercício é o efeito demolidor da decência humana e do conteúdo moral dos nossos comportamentos. O poder tem muitas vezes, quase sempre, esta consequência, a de extinguir os valores morais da sociedade e das comunidades. Ao poder forte e assertivo, auto-suficiente e agressivo, desculpa-se muito, tudo.

 

É provável que as últimas décadas da história do mundo tenham sido marcadas por esforços raros ou inéditos de estabelecimento de sociedades mais decentes. Antes, uma série de horrores terá marcado a evolução da humanidade, desde as consequências do capitalismo, da revolução industrial e do colonialismo imperialista, até às insanidades das ditaduras comunista, fascista e nazi, passando pelas piores guerras que o mundo conheceu. Seguiram-se décadas em que o estabelecimento da paz foi a prioridade. Mas também o entendimento entre as nações e os Estados. As grandes organizações internacionais surgiram no século XX. As alianças consolidaram-se, mais as defensivas e as comerciais do que as agressivas. Os organismos regionais estabeleceram-se, com relevo, para nós, da Comunidade Europeia. Pela paz ou pela luta, reconheceram-se mais de 150 novos Estados independentes, o que poderia significar algum crescimento da dignidade dos povos. A democracia guindou-se à altura de regime favorito, com mais mérito, com mais apelo. Todos queriam ser democráticos, ou parecer democráticos, mesmo os que não o eram. 

 

A paz no mundo, a democracia na nação e o bem-estar em casa: esperanças que alimentavam as sociedades. Sem falar na liberdade e na igualdade, valores que pareciam ocupar os espíritos e as políticas. A entrada do novo século foi de uma absoluta frieza. Gradualmente, as democracias recuaram no mundo, a liberdade também. As hipóteses de guerra aumentaram. Assim como os conflitos armados. A procura de dinheiro, poder, armas e recursos naturais é agora epidémica. Lentamente, os valores que faziam de nós melhores pessoas, como, entre outros, a paz, a liberdade e a solidariedade, esmorecem. A força destruidora do dinheiro impõe-se. A busca ansiosa de poder domina as nossas comunidades. Democracias e ditaduras aprendem a conviver. Gente decente trata e coexiste com terroristas, ditadores e assassinos. E com traficantes de tudo, droga, armas, mulheres, crianças e trabalhadores.

 

A história contemporânea parece ser uma caminhada rápida para a concentração de poder. Nunca como hoje tão poucos bilionários detiveram uma percentagem tão elevada da riqueza do mundo inteiro. Nunca tão poucos políticos e militares tiveram tanto poder de massacre, destruição, invasão e agressão. Nunca como hoje houve tantos poderes incontestados, ilimitados e louvados. A China, a Rússia e a América são governadas por aparelhos de poder destinados a aumentar o poder dos chefes sobre os cidadãos e do país sobre outras nações. Nunca como hoje se assistiu a esta exibição obscena de poder económico e empresarial, tal como é demonstrado por umas poucas dezenas de conglomerados financeiros que regem e regulam o mundo. Até a América, grande bastião da liberdade, parece soçobrar. 

 

Pelo que se vê ainda em quase todos os países africanos e em muitos latino-americanos e asiáticos, a concentração do poder em poucas mãos é a tendência dominante. Ditaduras carismáticas ou sanguinárias seguem esse caminho. Há três ou quatro décadas, muitos Estados reclamavam uma designação de democracia, até a incluíam nos seus nomes formais. Era uma aparência, um disfarce ou um engano, mas essa força iconográfica traduzia qualquer coisa. República democrática disto ou daquilo. Para já não dizer República democrática e popular daqueloutro. Actualmente, nem isso, nem a reclamação formal tem atractivo. A virtude, hoje, pode residir aí mesmo, no poder, sem adjectivos e sem concessões.

 

Desaparece um dos sonhos da humanidade, o de esperar que o poder das sociedades, das nações, das empresas e dos exércitos sirva para alargar as suas bases, aumentar o número de detentores e democratizar as formas de o exercer. Desaparece o sonho de fazer o bem com o poder, de dar de comer a quem tem fome e agasalho a quem tem frio. Desaparece o ideal de diminuir os que não têm qualquer poder, os “sans culottes” e os sem abrigo e de aumentar os que têm um qualquer poder, meios para viver, recursos para progredir e fazer filhos. Desaparece a esperança de dar de beber água potável a Africa, terra fértil à América Latina, emprego a tanta gente e paz a tantos países. Fica o deserto. E chamam-lhe poder.

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Público, 9.5.2026

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2.5.26

Grande Angular - Penso rápido e ecrã de televisão

Por António Barreto

É este provavelmente o governo mais empenhado na propaganda. Desde sempre, até dos governos revolucionários que, sob a aparência de popularidade, ocupavam, como verdadeiros residentes, as primeiras páginas e a televisão. Só que, hoje, com tantos canais, com as redes sociais e com as transmissões pela NET, o esforço do “emissor”, isto é, do governo, é muito maior. Não existem, infelizmente, estatísticas fiáveis, mas há indícios de que nunca foi tão grande o número de assessores de imprensa, conselheiros de comunicação e consultores para as redes sociais. Nas Direcções-gerais e nos Institutos, nos gabinetes dos governantes e em contratos de consultoria com empresas privadas, cada vez em maior número, são muitas as centenas, talvez uns milhares de pessoas encarregadas destes interessantes exercícios: comunicar, informar e anunciar acções e intenções dos governantes. As regras são simples. Dizer o que o ministro fez. Revelar o que vai fazer. Anunciar o que quer fazer. Sugerir o que poderia ainda vir a fazer. Negar o que o anterior fez. E assegurar o que o anterior não fez. Este é o verdadeiro pão nosso da informação. A tal ponto que é fácil, em certos dias mais calhados, ver cinco a sete canais de televisão darem, ao mesmo tempo, a mesma notícia, os mesmos comunicados do ministro, a mesma deslocação do governante. Numa palavra, a mesma futilidade. Nem as guerras na Ucrânia e no Próximo Oriente conseguem sobrepor-se em importância e na hierarquia de alinhamento às comunicações do governante.

 

O Primeiro-ministro é o grande artista. E o principal protagonista. Sempre a falar, com microfone e câmara, tem matéria de manhã, à tarde e à noite. Cada vez mais rodeado de membros do governo, o que, em Portugal, é uma nova linguagem. Inaugurou a prática de se fazer fotografar e filmar com uma ou duas dezenas de membros de governo. São gabinetes completos para reunir, inaugurar, homenagear e tomar medidas. Até quando fazem aniversários de qualquer coisa, a começar pela sua própria existência. São impagáveis as caras dos senhores governantes que se prestam àquele espectáculo. Eles sabem que servem de figurantes e que não estão ali a fazer nada, a não ser isso mesmo, figurar. A maior parte afivela um doce sorriso de função, alguns já não conseguem disfarçar o tempo perdido e o papel menor a que são remetidos. É, aliás, uma solução inteligente: a melhor maneira de diminuir a importância de um ministro e de o reduzir ao papel de “executante” é a de lhe dar um papel insignificante e de o mostrar. Mas com o anonimato da equipa, de que se conhece sobretudo o chefe. É este o único que fala, que faz selfies e que, em posição central, com direito a microfone e peanha, dirige a orquestra ou, melhor dizendo, o coro.

O modo e o sítio como se processam estes actos de propaganda não variam muito. Em sala especialmente preparada para comunicações graves, com bandeiras de Portugal e da UE, micro e púlpito. Diante da desgraça, depois dos incêndios. Nos locais especiais, como sejam hospitais, escolas, quartéis de bombeiros, esquadras de polícia e fábricas. À saída de um qualquer acontecimento, que agora se diz “evento”, como se aí estivesse sem preparação, no fogo da acção, rodeado de pessoas e acompanhado de autoridades. Antigamente, usava-se o aeroporto, dava importância. Agora, não, os especialistas receiam que se pense que o governante viaja muito e gasta dinheiro.

 

Em qualquer ocasião ou oportunidade, com mais ou menos ministros, o Primeiro mostra-se sempre. Fala sempre. Distribui dinheiro, sempre. Anuncia medidas, sempre. Por vezes, as mesmas medidas, em diferentes oportunidades. Mas privilegia o dinheiro: recompensas, aumentos, subsídios, financiamentos, dádivas, investimentos, fundos perdidos, descontos, períodos de carência e reembolsos.

 

Além de distribuir dinheiro e de garantir que faz o que o anterior governo não fazia, o Primeiro é especialista em disfarce e folclore. Capacete para as obras. Bata branca para os queijos. Máscara para o hospital. Colete para o incêndio. Touca para a alta tecnologia. E boné para o barco. Não faltam aparições e inaugurações a propósito de tudo e nada. O que é preciso é que o Primeiro esteja ou tenha estado. Chama-se a isto “governo de proximidade”. A ideia central é conhecida. Dar a impressão de que se preocupam, que estão em cima do acontecimento, que sofrem e se emocionam com as pessoas e que acorrem sempre aonde são precisos os seus cuidados.

 

Não se dão conta dos efeitos negativos. Deveriam estar a trabalhar, não a dar nas vistas. Mostram que gastam na propaganda, quando deviam ser frugais. Exibem-se, quando deviam estar recolhidos. Confundem rituais com sentimentos. Trocam sorrisos por esgares. Quanto mais falam menos fazem. Prometem, mas não realizam. Aparecem e estão presentes, inundam as câmaras e afogam as redes, ocupam os jornalistas e amarram os encarregados da comunicação.

 

Poder-se-ia esperar que trabalhassem mais nos gabinetes. Que estudassem mais. Que planeassem mais. E que tivessem respostas tão desejadas. O que se fez com os dinheiros dos contribuintes usados para salvar bancos e banqueiros. O que os contribuintes gastaram com a TAP, o BES, a CP, o SIRESP, os KAMOV ou o CITIUS. O que ainda não se fez nas matas e nas casas ardidas ou destruídas em Pedrogão, na Lousã, em Leiria, na Pampilhosa, em Oliveira, em Piódão e tantos outros sítios. O que não se faz para evitar partos em ambulâncias ou à porta dos hospitais ou para diminuir os anos e meses de espera por consulta e cirurgia. O que não se faz para tratar da pior chaga de democracia que é a da justiça, com os casos famosos da Operação Marquês, da Face Oculta, da SPINUNVIVA, do INFLUENCER, do BES, do Maestro, do BPP, do LEX, do BPN e de outros tantos.

 

Governar em tempos de crise, como é hoje o caso e continuará a ser por uns anos, por causa das guerras, da energia, do comércio internacional e da crise das alianças militares, governar nestas circunstâncias exige muito trabalho, consciência, diálogo, autoridade e democracia. Não exige, não pede, é até incompatível com propaganda, encenações para a televisão e as redes, manifestações de charme e operações de divulgação de sentimentos e emoções.

 

O superficial e o fútil não tratam. Agravam.

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Público, 2.5.2026

 

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