2.5.26

Grande Angular - Penso rápido e ecrã de televisão

Por António Barreto

É este provavelmente o governo mais empenhado na propaganda. Desde sempre, até dos governos revolucionários que, sob a aparência de popularidade, ocupavam, como verdadeiros residentes, as primeiras páginas e a televisão. Só que, hoje, com tantos canais, com as redes sociais e com as transmissões pela NET, o esforço do “emissor”, isto é, do governo, é muito maior. Não existem, infelizmente, estatísticas fiáveis, mas há indícios de que nunca foi tão grande o número de assessores de imprensa, conselheiros de comunicação e consultores para as redes sociais. Nas Direcções-gerais e nos Institutos, nos gabinetes dos governantes e em contratos de consultoria com empresas privadas, cada vez em maior número, são muitas as centenas, talvez uns milhares de pessoas encarregadas destes interessantes exercícios: comunicar, informar e anunciar acções e intenções dos governantes. As regras são simples. Dizer o que o ministro fez. Revelar o que vai fazer. Anunciar o que quer fazer. Sugerir o que poderia ainda vir a fazer. Negar o que o anterior fez. E assegurar o que o anterior não fez. Este é o verdadeiro pão nosso da informação. A tal ponto que é fácil, em certos dias mais calhados, ver cinco a sete canais de televisão darem, ao mesmo tempo, a mesma notícia, os mesmos comunicados do ministro, a mesma deslocação do governante. Numa palavra, a mesma futilidade. Nem as guerras na Ucrânia e no Próximo Oriente conseguem sobrepor-se em importância e na hierarquia de alinhamento às comunicações do governante.

 

O Primeiro-ministro é o grande artista. E o principal protagonista. Sempre a falar, com microfone e câmara, tem matéria de manhã, à tarde e à noite. Cada vez mais rodeado de membros do governo, o que, em Portugal, é uma nova linguagem. Inaugurou a prática de se fazer fotografar e filmar com uma ou duas dezenas de membros de governo. São gabinetes completos para reunir, inaugurar, homenagear e tomar medidas. Até quando fazem aniversários de qualquer coisa, a começar pela sua própria existência. São impagáveis as caras dos senhores governantes que se prestam àquele espectáculo. Eles sabem que servem de figurantes e que não estão ali a fazer nada, a não ser isso mesmo, figurar. A maior parte afivela um doce sorriso de função, alguns já não conseguem disfarçar o tempo perdido e o papel menor a que são remetidos. É, aliás, uma solução inteligente: a melhor maneira de diminuir a importância de um ministro e de o reduzir ao papel de “executante” é a de lhe dar um papel insignificante e de o mostrar. Mas com o anonimato da equipa, de que se conhece sobretudo o chefe. É este o único que fala, que faz selfies e que, em posição central, com direito a microfone e peanha, dirige a orquestra ou, melhor dizendo, o coro.

O modo e o sítio como se processam estes actos de propaganda não variam muito. Em sala especialmente preparada para comunicações graves, com bandeiras de Portugal e da UE, micro e púlpito. Diante da desgraça, depois dos incêndios. Nos locais especiais, como sejam hospitais, escolas, quartéis de bombeiros, esquadras de polícia e fábricas. À saída de um qualquer acontecimento, que agora se diz “evento”, como se aí estivesse sem preparação, no fogo da acção, rodeado de pessoas e acompanhado de autoridades. Antigamente, usava-se o aeroporto, dava importância. Agora, não, os especialistas receiam que se pense que o governante viaja muito e gasta dinheiro.

 

Em qualquer ocasião ou oportunidade, com mais ou menos ministros, o Primeiro mostra-se sempre. Fala sempre. Distribui dinheiro, sempre. Anuncia medidas, sempre. Por vezes, as mesmas medidas, em diferentes oportunidades. Mas privilegia o dinheiro: recompensas, aumentos, subsídios, financiamentos, dádivas, investimentos, fundos perdidos, descontos, períodos de carência e reembolsos.

 

Além de distribuir dinheiro e de garantir que faz o que o anterior governo não fazia, o Primeiro é especialista em disfarce e folclore. Capacete para as obras. Bata branca para os queijos. Máscara para o hospital. Colete para o incêndio. Touca para a alta tecnologia. E boné para o barco. Não faltam aparições e inaugurações a propósito de tudo e nada. O que é preciso é que o Primeiro esteja ou tenha estado. Chama-se a isto “governo de proximidade”. A ideia central é conhecida. Dar a impressão de que se preocupam, que estão em cima do acontecimento, que sofrem e se emocionam com as pessoas e que acorrem sempre aonde são precisos os seus cuidados.

 

Não se dão conta dos efeitos negativos. Deveriam estar a trabalhar, não a dar nas vistas. Mostram que gastam na propaganda, quando deviam ser frugais. Exibem-se, quando deviam estar recolhidos. Confundem rituais com sentimentos. Trocam sorrisos por esgares. Quanto mais falam menos fazem. Prometem, mas não realizam. Aparecem e estão presentes, inundam as câmaras e afogam as redes, ocupam os jornalistas e amarram os encarregados da comunicação.

 

Poder-se-ia esperar que trabalhassem mais nos gabinetes. Que estudassem mais. Que planeassem mais. E que tivessem respostas tão desejadas. O que se fez com os dinheiros dos contribuintes usados para salvar bancos e banqueiros. O que os contribuintes gastaram com a TAP, o BES, a CP, o SIRESP, os KAMOV ou o CITIUS. O que ainda não se fez nas matas e nas casas ardidas ou destruídas em Pedrogão, na Lousã, em Leiria, na Pampilhosa, em Oliveira, em Piódão e tantos outros sítios. O que não se faz para evitar partos em ambulâncias ou à porta dos hospitais ou para diminuir os anos e meses de espera por consulta e cirurgia. O que não se faz para tratar da pior chaga de democracia que é a da justiça, com os casos famosos da Operação Marquês, da Face Oculta, da SPINUNVIVA, do INFLUENCER, do BES, do Maestro, do BPP, do LEX, do BPN e de outros tantos.

 

Governar em tempos de crise, como é hoje o caso e continuará a ser por uns anos, por causa das guerras, da energia, do comércio internacional e da crise das alianças militares, governar nestas circunstâncias exige muito trabalho, consciência, diálogo, autoridade e democracia. Não exige, não pede, é até incompatível com propaganda, encenações para a televisão e as redes, manifestações de charme e operações de divulgação de sentimentos e emoções.

 

O superficial e o fútil não tratam. Agravam.

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Público, 2.5.2026

 

 

 

 

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