30.9.21

Notas Soltas – setembro/2021

 Por C. B. Esperança

Afeganistão – A colossal derrota dos EUA e dos seus aliados da Nato marca o início do fim da hegemonia americana e a ascensão da China. O revés dos direitos humanos para as mulheres afegãs é um rude golpe para as democracias e para a civilização.

Brasil – No 1º Encontro Fraternal de Líderes Evangélicos em Goiânia, Bolsonaro disse: “Tenho três alternativas para o meu futuro: estar preso, ser morto ou a vitória.” A última é a única que assusta o País porque só um golpe militar a permitiria.

Guantánamo – A prisão e a tortura são nódoas indeléveis contra os direitos humanos e a democracia. A coincidência da queda de Cabul e o 20.º aniversário do 11 de Setembro são tristemente simbólicos, e não admiraria ver os talibãs a exigirem a troca de presos.

XXIII Congresso do PS – A direita só viu a luta da sucessão de António Costa, quando é no PSD e CDS que se agrava. O PM, que geriu bem a pandemia, reforçou a figura do líder e o congresso consagrou o seu estado de bem-aventurança no partido e no País.

Festa do Avante – É um destino de bom gosto e de cultura para qualquer cidadão, para os comunistas acrescido do simbolismo da afirmação partidária. Só o PCP é capaz de tão modelar organização dentro do respeito pelas normas sanitárias.

Jair Bolsonaro – O PR do Brasil promove manifestações contra o Supremo Tribunal, suborna deputados e militares e apela ao golpe de Estado para manter o poder e evitar a prisão. Exige-se pressão internacional para a defesa da instável democracia brasileira.

COVID-19 – Portugal, segundo país do mundo com maior percentagem de vacinações, deve-o aos seus responsáveis, ministra, d-g. de Saúde e coordenador da task-force, mas foi a dedicação do pessoal de saúde e a adesão do país que permitiu tamanho êxito.

Jorge Sampaio – As cerimónias do funeral civil tiveram a dignidade devida ao insigne Estadista de quem os portugueses se despediram. Os mais altos dignitários do Estado souberam honrar a memória do homem de exceção cujo modelo ficará como referência.

11 de setembro – A evocação do 20.º aniversário veio lembrar a ameaça do islão que os sauditas tinham transformado na ortodoxia muçulmana. É urgente que a política externa dos EUA se paute pela defesa dos direitos humanos e não pelos interesses petrolíferos.

11 de setembro-2 – O presidente do Chile, Salvador Allende, eleito democraticamente, foi derrubado em 1973 por um general indigno, Augusto Pinochet, apoiado pela CIA. Tornou-se o paradigma do torcionário, ladrão e fascista que semeou o terror no país.

Vaticano – A viagem do Papa Francisco à Hungria e Eslováquia foi um ato de coragem e de coerência democrática, com repúdio do racismo e xenofobia, exatamente nos países onde, tal como na Polónia e outros, aumenta o fascismo católico e o antissemitismo.

EUA – O acordo com o R. U., seu satélite na política externa, para dotar a Austrália de submarinos nucleares foi o roubo do negócio à França e a preferência da Ásia-Pacífico como espaço geoestratégico prioritário, em prejuízo da relação com a Europa.

Afeganistão – O governo dos talibãs impôs a sharia e trocou o Ministério dos Assuntos da Mulher pelo da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício. A designação mostra a reviravolta que os direitos humanos sofrem em relação à mulher. Malditas tradições!

ONU – Guterres deixou claro querer acelerar vacinas e combater alterações climáticas no apelo lancinante que dirigiu às grandes potências, em especial, às do Conselho de Segurança. É urgente que a pressão pública obrigue à solidariedade mundial.

China – A ameaça de bancarrota do colosso do imobiliário, Evergrande, prenuncia mais uma crise cíclica do capitalismo, com repercussões a nível global. Só a ingenuidade dos mais ingénuos pode ainda acreditar que a ditadura asiática é um regime socialista.

Angela Merkel – A grande estadista deste século deixa o poder, depois de 16 anos a liderar o seu país e a UE. A mais europeia dos alemães e a mais progressista dos líderes conservadores deixa a marca indelével que deve nortear o próximo sucessor.

Eleições Autárquicas – O único partido que pôde cantar vitória foi o PSD, porque eram baixas as expetativas, porque foi o único a aumentar o número de câmaras, e regressou aos meios urbanos de onde a sua influência quase tinha desaparecido.

Eleições autárquicas-2 – Rui Rio infligiu uma derrota aos inimigos internos, deixando os nostálgicos de Cavaco e Passos Coelho sem margem de manobra, com o CDS, PAN, IL e o partido fascista condenados a serem muleta do PSD nos tempos mais próximos.

Alemanha – As eleições criaram um quadro partidário difícil para a formação do novo governo, mas a vitória do SPD anima a social-democracia Europeia, e o novo governo deverá ser europeísta. A UE e a Alemanha continuarão a garantir a paz e estabilidade. 

Austrália – O PM, Scott Morrison, admite recusar-se a participar na cimeira da COP26, uma das mais relevantes reuniões sobre o combate às alterações climáticas, dos últimos anos. Com o país vítima de violentos incêndios preferiu comprar submarinos nucleares.

Gouveia e Melo – Terminou com êxito as funções que a ministra lhe confiou. Merece o agradecimento do País pela competência, dedicação e eficácia com que organizou e pôs a funcionar a máquina de vacinação contra a COVID-19. Obrigado, sr. Almirante. 

PR – Depois das eleições autárquicas, enquanto diz que não se admitem crises políticas nesta altura, passou a liderar a oposição ao Governo e a procurar as condições para ser ele a escolher o líder do seu partido e ampliar os poderes que a CRP lhe concede.  

Ponte Europa / Sorumbático



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25.9.21

Grande Angular - Dia único, momento de excepção

Por António Barreto

Amanhã, é dia de voto. Nada se lhe compara. Não há ocasião, local ou gesto que o substitua: é o momento exacto em que voto, escolho uma pessoa (ou partido) e decido quem quero que me represente. Nesse instante, sou soberano. Não há medo nem receio, não há vergonha ou vaidade, não há exibição ou sedução: há um gesto solitário, sem visibilidade, sem cópia nem publicidade.

Posso ter hesitado antes, durante dias ou semanas. Posso ter mudado de opinião. Posso ter defendido, sucessivamente, pontos de vista, pessoas e partidos diferentes. Posso ter tido apenas uma ideia, sempre a mesma, uma espécie de fidelidade inamovível. Posso ter querido recompensar quem o mereça; ou castigar quem deva sê-lo; ou promover quem necessite; ou ajudar quem precise para ter voz; os meus motivos podem ter sido variáveis, mas o gesto, esse, fica comigo. E ninguém, jamais, saberá com certeza o que fiz.

Ao votar, sentirei que milhões estão a fazer o mesmo, aqui e alhures. Que milhões farão o mesmo, amanhã ou depois. Saberei que centenas de milhões nunca o fizeram em liberdade. E que muitos milhões nunca tiveram sequer a oportunidade. Sentirei que foram necessários séculos, muitos séculos, para chegar àqueles breves segundos, diante de uma urna, com uma caneta na mão e uma cortina ou biombo de protecção.

voto depende de mil variáveis. Do país a que pertenço. Da classe social de que faço parte. Dos amigos, colegas, companheiros e camaradas com quem convivo. Do partido a quem me ligam ideias e interesses. Da família que me aquece ou protege. Da igreja ou do culto que sigo. Do mestre que me ensinou. Da ideologia que faço minha. Da empresa que me emprega. Dos meus sonhos e das minhas frustrações. Depende de tudo um pouco. Ou até de um impulso de última hora, de uma intuição ou de um instinto. Mas aquela decisão única depende de mim e da minha vida.

É o momento social mais verdadeiro da minha liberdade. Ninguém saberá se votei de uma maneira e o digo de outra, se não votei em ninguém, se votei em branco, se anulei o voto para castigar toda a gente ou para me opor ao sistema e a todos. Só eu o saberei, é essa a minha liberdade. Reforçada pelo facto de não usar esse meu direito para conquistar outros votos.

Sei que o meu voto vai contar, no apuramento e na estatística. Sei que se vai acrescentar a milhares ou que vai faltar a outros tantos. Sei que poderei ganhar por muitos, perder por imensos ou empatar. Sei que o meu voto nunca foi inútil, nunca será ineficaz, jamais poderão dizer que é supérfluo. Como sei que, entre milhares ou milhões, o meu voto pode parecer dispensável. Mas sei que nunca o é, porque a vontade colectiva faz-se de milhares de vontades individuais e livres.

Nunca considerei o meu voto um dever. Ninguém me pode obrigar a usar a minha liberdade. Não é possível que alguém me force a colaborar. Como não aceito que o meu voto faça parte de um desígnio colectivo. Pelo contrário, a vontade geral, esse desígnio comum de que tanto se fala, essa missão, esse bem público ou bem geral, são o resultado da minha vontade individual e da de todos os meus compatriotas.

meu voto é o meu direito. Na sua mais simples expressão, é o primeiro dos meus direitos cívicos. É um direito que usarei sempre como quero, como me interessa, como sinto e penso, nunca como me dizem ou me impõem. Por isso considero que o voto aberto, o voto obrigatório, o voto de braço levantado, o voto censitário, o voto por grupo ou família, o voto de tribo ou sindicato, o voto por procuração e a disciplina de voto são perversões deste direito antigo e fundamental.

Diante da urna de voto, estou eu e a minha liberdade. Estamos todos e a nossa liberdade. Não há talvez sítio onde haja mais liberdade com a qual escolherei sem obrigações e sem amarras. Também é difícil encontrar local onde haja mais igualdade: homem e mulher, novo e velho, rico e pobre, famoso e anónimo: somos todos absolutamente iguais, os nossos votos valem exactamente todos o mesmo.

É verdade que, apesar do seu fundamento individual, o voto tem também um sentido colectivo, na medida em que se confere a todos os votos e à sua maioria um valor de decisão e um significado de vontade. Num dos mais felizes “slogans” da história da democracia portuguesa, dizia-se “O voto é a arma do povo”! Não o cortejo ou a romaria, não a força ou a polícia, não o levantamento ou o motim, não a greve ou a sublevação, não a insurreição ou a rebelião. Mas o voto! Contra a velha ditadura e a nova tirania, uma arma era a eleita: o voto! E mesmo naqueles momentos difíceis, mesmo diante de movimentos sociais perigosos, o voto de um indivíduo, o voto solitário e livre e a escolha pessoal faziam a diferença e fizeram história. Foram os indivíduos que “salvaram” o país e a democracia, não o contrário.

Como em todas as eleições, amanhã também, calem-se os dirigentes e os iluminados, os heróis e os visionários, os comentadores e os que tudo sabem, os que previram e os que analisam, os justiceiros e os que querem fazer “limpezas”, calem-se os doutores e os analfabetos, amanhã é o meu voto que conta. Durante uns segundos, protegido por frágil divisória, serei soberano. Da minha liberdade, resultará a democracia para a minha cidade.

Parece banal, simples e cliché, mas não é. É bom que tenhamos consciência: a democracia está em recuo em todo o mundo. Na América do Norte e do Sul, em África, na Ásia e na Europa, são múltiplos os exemplos de países, de Estados, de governos e de regiões que disfarçam a democracia e cujos dirigentes políticos capturaram o sistema de governo, sempre com os mesmos argumentos, a pátria e o bem comum à cabeça. 

Amanhã, elegemos as autarquias. Dentro de dois anos, o Parlamento e o governo. Depois, seguir-se-ão o Parlamento Europeu e o Presidente da República. São votos diferentes, de consequências diversas, mas cuja sequência trará ao nosso país um sentido político. Veremos as grandes tendências e estudaremos o sentido da evolução. Tentaremos perceber o sentido do voto e a vontade do eleitorado. Procuraremos compreender o que comanda o voto, interesses, ideologia, reconhecimento, identidade e sentimentos. Mas saberemos que o princípio e o fim de tudo está naquele pedaço de papel com uma cruz.

Público, 25.9.2021

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24.9.21

LÍNGUA FRANCA

Por Joaquim Letria

Deixámos de andar e de correr para passarmos a fazer “footing” ou “jogging”. Abandonámos a vela e a prancha para praticarmos “sailing”,”surfing” e “windsurfing”.

Deixámos de andar ao sabor da maré em cima duma prancha para passarmos a fazer “planting”. Reunimo-nos em “meetings”, discutimos os nossos problemas em “brainstormings”, avaliamos o nosso conhecimento em “tests” escritos e orais, depois de termos abandonado os pontos ou as chamadas. 

Nas empresas, onde já não há trabalhadores mas sim colaboradores, deixámos de despedir gente e cortar nos custos para passarmos a fazer o “downsizing”. Parámos de recorrer a serviços externos ou a parcerias para nos dedicarmos ao “outsourcing”, trocámos as diferenças de nível pelo ” super – in” “benchamarking”.

Aquilo que eu tanto gostava de fazer em Los Roques, Venezuela, ou no Cayo Largo, Cuba, e que era respirar por um tubo e ver por uns óculos de mergulho, passando horas seguidas a dar às barbatanas, a ver ou a filmar peixes às cores, às riscas ou às bolinhas, passou a ser uma actividade que dá pelo nome de “snorkling”.

“Snorkling” não é para qualquer um! Encontrei numa estreia uma dessas divas das nossas revistas cor de rosa com um bronze invejável. Julguei que viesse do Brasil, ou de África, mas disse-me que não senhor. Tinha estado com o seu PT (o nosso antigo treinador ou instrutor agora promovido a “Personal Trainer”) no Mar Vermelho, o qual, segundo me confidenciou, para fazer “snorkllng” não era alucinante, era “mega-super-alucinante!!” Com uma flauta de espumante na mão  atirou-me um beijo e  foi  conviver, quero dizer foi “wordlng” e “worlding” para o meio da refinada e elegante multidão.

Nessa mesma ocasião encontrei a filha dum amigo meu, muito mais pálida do que a mulher-rã, que não gostava de “snorkling” mas “era marada por diving”.

Nessa época eu andava muito ocupado com as minhas absorventes actividades de

“counselling”“teaching”“travelling” e “writing”. Talvez por isso descuidara estas garoupas tão interessantes que iam às profundezas com os PTs para conhecerem o linguado do Mar Vermelho ou admirarem de perto o lingueirão do Mediterrâneo.

Por estes escassos e singelos exemplos, conclui-se que falar línguas é bacana,

acojonanteswellfantastique , barildo canecobué da fixe. No fundo, a tal língua portuguesa serve só para ser assassinada em acordos miseráveis que todos assinam mas ninguém pratica, a não ser para dar pontapés na gramática.

Publicado no Minho Digital

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23.9.21

“Nova Costa d’ Oiro” de Setembro de 2021

 

ULTIMAMENTE, tenho pensado muito em António Guterres — e vou explicar porquê:

Por estranho que pareça, só muito tarde vim a saber que tínhamos andado juntos no Liceu Camões, em Lisboa, o mesmo sucedendo com Mariano Gago, vindo ambos a ingressar no Técnico em 1965, que eu já frequentava desde o ano anterior. Curiosamente, enquanto eu estabeleci, com o segundo, uma amizade que se prolongou até ao seu falecimento (em 2015), o mesmo não se passou com Guterres, que não frequentava o mundo do associativismo estudantil. No entanto, recordo que ele aparecia de vez em quando na A.E., pedindo-me para fazer uns cartazes — era muito simpático e falador, estava sempre sorridente... mas dele não recordo mais nada, e até nisso posso estar enganado. No entanto, mais tarde, os nossos caminhos ainda se cruzaram: com o Mariano Gago, devido a trabalhos relacionados com a Sociedade da Informação; com Guterres, por causa dos famigerados submarinos, um processo bizarro em que eu estava envolvido, pois trabalhava na Efacec, uma das empresas interessadas nas “contrapartidas”.


Pois bem, nas eleições AUTÁRQUICAS de 2001, os resultados do PS foram maus, e Guterres, a pretexto disso, fugiu do “pântano”, abrindo o caminho a Durão Barroso — e, por aí, a Paulo Portas, que “trespassou” os submarinos ao fornecedor alemão com o apoio do BES... e mais não digo, até porque não é disso que quero falar. O que quero referir é o facto de Barroso ter feito o mesmo que o antecessor (dessa vez com o pretexto de ter perdido as eleições EUROPEIAS de 2004), também ele defraudando os eleitores que, julgando ter votado para escolher quem melhor tratasse da sua terra ou dos interesses do seu país, afinal tinham, nos dois casos, votado para o GOVERNO, como se essas eleições fossem LEGISLATIVAS! Ora, se a ideia é essa, então para quê gastar tempo e dinheiro em três eleições, quando uma daria para tudo? 

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A UM OUTRO nível, Jorge Sampaio e António Costa também não se ensaiaram em abandonar os eleitores de Lisboa que neles haviam confiado para dirigir a respectiva Câmara Municipal, interrompendo os respectivos mandatos para irem fazer pela vida noutro lado, levados pela “atracção de Peter”, pois todo o indivíduo tende a sair de onde está, numa viagem sem retorno até ao seu Nível de Incompetência. Claro que há excepções: o próprio autor do Princípio de Peter explicou que não tinha enunciado uma “lei”, mas sim um “princípio”, pois uma pessoa inteligente consegue resistir à tentação — e talvez estivesse a pensar nos que preferem DESCER em vez de SUBIR, como Calisto Elói, a personagem camiliana de A Queda de um Anjo que abandonou a presidência da sua Câmara Municipal para ir para deputado, abdicando do papel relevante que tinha (sendo a pessoa mais importante da sua terra), preferindo o aconchego de um grupo parlamentar onde, tal como hoje sucede, a vontade própria de um deputado, quando se manifesta, até é notícia na Comunicação Social.

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AQUI chegados, é possível que haja leitores que perguntem o que é que tudo isso tudo tem a ver com Lagos. Se assim for, haja quem lhes explique, pois o espaço de que esta crónica dispõe chegou ao fim.

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(*) –M. C. Escher (1898-1972), holandês famoso pelos seus desenhos ricos em paradoxos, de que se destacam as escadas em que umas tristes personagens não sabem se estão a subir ou a descer.


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Artigo de opinião – Enviado ao jornal Público e, naturalmente, não publicado

 Por C. B. Esperança

O Acordo Ortográfico de 1990 (AO-90) e a incurável azia

Quem conhece a grande alteração e uniformização da língua portuguesa, efetuada pela Reforma Ortográfica de 1911, não devia solidarizar-se com manifestações de raiva que a perda de algumas consoantes mudas e tímidas alterações provocaram numa sociedade avessa à mudança, independentemente da validade dos argumentos.

O misoneísmo, palavra cunhada pelo psicologista italiano César Lombroso, esse horror à novidade, está bem entranhado nos portugueses.

A Reforma Ortográfica de 1911, a primeira iniciativa de normalização e simplificação da escrita da língua portuguesa, foi profunda, numa altura em que o Brasil facilmente a aceitou e as colónias não participavam.

Tenho enorme consideração por muitos dos que não toleram as pequenas alterações que o AO-90 introduziu, sobretudo quando se trata de cultores da língua, de prosa imaculada na sintaxe e na ortografia que mantêm, mas vejo neles a exaltação de Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoais cuja ortografia que estes defenderam repudiariam agora.

A ortografia é uma convenção imposta por lei sem sanções penais, salvo para os alunos, que se arriscam a reprovar se não escreverem como está oficialmente determinado.

Aos autores da Reforma Ortográfica de 1911, que hoje já ninguém contesta, coube-lhes pôr fim à anarquia ortográfica do país, com 80% de analfabetismo, quando os países do norte da Europa tinham entre 2% e 10%, e normalizar a ortografia. Eminentes filólogos discutiram se deviam seguir o modelo francês, fortemente dependente da etimologia, ou o espanhol e italiano, que seguiam de perto a oralidade.

Optaram por revogar falsas etimologias e, condescendendo com a origem das palavras, deram preferência à oralidade, caminho que embora tímido esteve presente no AO-90.

Há muito que as palavras homógrafas não são necessariamente homófonas, mas duvido que os críticos mais cultos tenham dificuldade em distinguir a fonia das que perderam os acentos e cujos exemplos caricaturais não passam disso mesmo.

Lamentável é ver as redes sociais, até jornais, com inúmeros detratores do AO-90, que explodem de raiva na mais boçal prevaricação ortográfica e ignorância de elementares conhecimentos básicos do idioma cuja ‘nova’ ortografia condenam sem respeitarem a anterior, não sendo este o caso do Público.

Definida uma grafia, que alguns julgam facultativa, depois de vários anos a ser ensinada de acordo com a lei, qualquer tentativa de regresso é um apelo à anarquia ortográfica e à instabilidade do idioma e das normas jurídicas que o definem.

Já é tempo de os jornais que cultivam o imobilismo subversor da legalidade ortográfica se submeterem. O Público não pode continuar a ser o arauto da insurreição ortográfica contra a norma legal que há 12 anos vigora em Portugal e Brasil e observada por autores como José E. Agualusa e Mia Couto, respetivamente de Angola e Moçambique. 

Não é seguramente o facto de o tratado internacional ter sido firmado em 1990 pelo PM Cavaco Silva e promulgado em 2008 por Cavaco Silva (PR) que motiva a obstinação do Público na insurreição ortográfica contra o AO-90, e não se percebe a deliberada teimosia na prevaricação ortográfica.    

Não me obriguem a esconder o Público aos netos. Não quero agravar as suas hesitações ortográficas.

Coimbra, 18 de setembro de 2021

Ponte Europa Sorumbático


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22.9.21

“INSTITUTO DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE (ICB)”


Por A. M. Galopim de Carvalho

Devia ser esta a designação oficial da instituição que agora dá pelo nome de INSTITUTO DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E DAS FLORESTAS (ICMF), que antes deste se chamou INSTITUTO DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZAE DA BIODIVERSIDADE (ICNB) e que começou, lógica e simplesmente, por ter o nome de INSTITUTO DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA.

Tudo começa, e bem, com a criação, em 1984, do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (Decreto-lei 107/84, de 2 de Abril), ao tempo do Primeiro-ministro Mário Soares.

É por demais sabido que, entre nós, quando mudam os protagonistas da coisa pública, mudam-se os nomes de ministérios, de secretarias de estado, de direcções-gerais, de institutos, laboratórios e outros organismos públicos, ao sabor das novas políticas e dos novos governantes, o que sempre acarreta perturbações no trabalho e custos desnecessários. Mas é assim. Sempre assim foi e continuará a ser. Foi o que aconteceu, nove anos mais tarde, emMaio de 1993, ao tempo do governo de Cavaco Silva, mudando-lhe o nome para Instituto de Conservação da Natureza (ICN), um nome bem escolhido, que abarcava todo o universo do anterior Serviço Nacional, dito em apenas três palavras.

Conheci bem e trabalhei em estreita colaboração com este Instituto nos anos de 1995 a 2002, durante os governos de António Guterres, era Ministra do Ambiente e, depois, do Planeamento a economista Elisa Ferreira. 

Quando, em 2007, sabe-se lá por que iluminada inspiração, o governo de José Sócrates entendeu mudar o nome deste Instituto bem conhecido por todos pela sigla ICN, para “Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade” (ICNB) (Decreto-Lei 136/2007, de 27 de Abril), lá longe, no reino das almas, Aristóteles, o pai da lógica, terá comentado: «Estes rapazes acabam de cometer um erro grave, posto que, logicamente, a nova designação pressupõe que a biodiversidade não pertence à natureza. E a verdade é que pertence». E terá acrescentado: «O antigo nome deste departamento do Estado estava correcto, dizia tudo, o necessário e o suficiente».

Como já afirmei noutros locais, esta nova designação do citado organismo foi, pois, redundante, desnecessária, logicamente absurda e cientificamente ridícula. 

Não obstante as vozes que se levantaram contra este dislate, eis que, cinco anos depois, outros “rapazes”, agora no governo de Passos Coelho, cometeram o mesmo disparate, ao rebaptizá-lo deInstituto de Conservação da Natureza e das Florestas” (ICNF) (Decreto-Lei n.º 135/2012, de 29 de Junho), numa aceitação igualmente implícita de que as florestas não fazem parte da mãe natureza.

 

Os que tiveram o privilégio de estudar, aprenderam que a lógica é o ramo da filosofia que ensina a pensar correctamente na busca séria do conhecimento. Aprendemos ainda que foi Aristóteles, no século IV a. C., o introdutor desta metodologia do pensamento da Grécia Antiga, o mesmo que ainda regula as nossas vidas. A lógica é, pois, como que a ferramenta do pensador. Conta-se que um jovem curioso de saber se dirigiu a este que foi discípulo de Platão, e mestre de Teofrasto e de Alexandre, o Grande, dizendo-lhe que queria aprender com ele coisas sobre animais e invertebrados. Como resposta, Aristóteles (que também foi naturalista e quem primeiro dividiu os animais em vertebrados e invertebrados) ter-lhe-á dito, complacente: «Meu jovem, a tua frase conduz a um erro grave, posto que, logicamente, pressupõe que os invertebrados não são animais. E a verdade é que são. As formigas ou os mosquitos são tão animais como os cavalos ou as galinhas».

 

As duas infelizes designações oficiais (ICNB e ICNF) que responsáveis da administração, falhos de cultura científica, resolveram atribuir a esta instituição, revelam-se tão absurdas como as que, entre outras barbaridades, poriam em evidência esta negação do pensamento lógico:

“Sindicato dos médicos e dos cardiologistas”

“Confraternização de militares e sargentos”

“Dia mundial dos monumentos e dos castelos”

“Acção metropolitana de apoio à família e aos filhos”

“Observatório para o estudo dos pequenos mamíferos e dos morcegos”

“Liga de defesa e valorização das árvores e dos sobreiros”

“Comissão reguladora da venda do peixe e do bacalhau”

“Sociedade exportadora de frutas e de laranjas”

“Fundo de apoio à comunicação social e aos jornais”

“Governantes e ministros em férias no Algarve”

etc., etc., num nunca mais acabar de disparates alheios ao pensamento do imortal estagirita e criador do Liceu de Atenas.

 

São dez violentas pedradas na lógica. Proferir ou escrever estas frases seria subentender que os filhos não pertencem à família, que os morcegos não são mamíferos, que os sobreiros podem ser tudo menos árvores e que o bacalhau não é peixe, nem as laranjas, frutos. Seria afirmar que os jornais estão fora da comunicação social e que os senhores ministros não são governantes, o que, nalguns casos, até faz algum sentido.

 

Se é verdade que o Instituto em causa tem obra feita e bem feita na conservação da natureza viva, ou seja, na biodiversidade, também é verdade que, tirando a burocrática e minuciosa prosa constante dos documentos oficias que classificaram os sete Monumentos Naturais existentes em Portugal (não por sua iniciativa, mas por pressões exteriores de outras entidades), nada fez pela conservação da geodiversidade, em geral, nem, sequer, pela dos Monumento Naturais que foi levado a classificar. O Monumento Natural referente à jazida de icnofósseis (as pegadas de dinossáurios) da Pedreira de Santa Luzia em Pego Longo (Carenque) é um deles.

 

Lembremos que esta importante Jazida foi classificada como Monumento Natural, em 1997 (Decreto n.º 19/97 de 5 de Maio), durante o governo de António Guterres. São seus objectivos fundamentais “a preservação e conservação da jazida de icnofósseis da Pedreira de Santa Luzia, bem como o seu estudo científico e divulgação numa perspectiva de educação ambiental”.

Não obstante as sucessivas e insistentes diligências que empreendi, ao longo destes 24 anos, o abandono a que foi votado este Monumento Natural é uma vergonha e um manifesto incumprimento de uma obrigação legal, bem expressa no Artigo 7.º do referido Decreto n.º 19/97. onde se lê: “A fiscalização do disposto no presente diploma compete ao ICN, em colaboração com as autarquias locais e demais entidades competentes, nos termos da legislação em vigor”.

Este Monumento Natural voltou a ser lixeira e é hoje um matagal com ervas e arbustos, tudo nascido e enraizado na própria laje que contém as pegadas. Uma vergonha para a Câmara Municipal de Sintra e uma vergonha ainda maior para o dito Instituto, a quem, como se leu atrás, compete fiscalizar e zelar por este valioso património.

 

Em Julho deste ano o Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra deu-nos razão, no seguimento de uma Providência Cautelar que havíamos interposto, condenando o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e a Câmara Municipal de Sintra, a cumprirem, exactamente,aquilo a que a lei, expressamente, os obriga,constante no atrás Artigo 7.º do referido Decreto n.º 19/97. 

Não satisfeitos com esta decisão da primeira instância, estes dois organismos recorrem para a instância imediatamente superior. Se, de certa maneira, mais tolerante, se pode compreender a ignorância e a insensibilidade da autarquia para este tipo de problemas, cujas preocupações abarcam um sem número de outros, próprios de um dos maiores concelhos do país, não se pode, de maneira nenhuma, aceitar esta irresponsabilidade de um organismo do Estado que tem por estatuto conservar a natureza e a natureza, como todos sabemos começou pela geodiversidade e só centenas de milhões de anos depois surgiu a biodiversidade.

Esta irresponsabilidade que visa arrastar o problema por um tempo ao limite do possível, está a permitir a contínua degradação e eventual destruição da jazida é, afinal, um crime contra o património geológico impensável por parte do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

 

Este desinteresse pela natureza não viva leva-me a pensar que este Instituto devia fixar-se na natureza viva e, daí, o nome “Instituto de Conservação da Biodiversidade”, deixando as preocupações da geodiversidade e as da geoconservação às instituições que já mostraram muito e bom trabalho nestes domínios como são o Laboratório Nacional de Energia e Geologia e as Universidades.

 

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18.9.21

Grande Angular - E depois…

Por António Barreto
Terminam prazos e etapas difíceis. Tudo leva a crer que o pior da pandemia já passou. Sobram as suas implicações sociais, económicas e financeiras, muitas delas devastadoras, outras ainda desconhecidas. As eleições autárquicas chegam ao fim, vão deixar marcas e ter consequências em quase todos os partidos. Muitas pessoas e empresas vão gastar meses, ou mais, a apanhar e colar os cacos. Os trabalhos preparatórios para receber os fundos europeus estão praticamente terminados, agora trata-se de “passar pelo banco”, segundo a fórmula consagrada pelo Primeiro-ministro. Tenhamos consciência: é o maior envelope financeiro que Portugal jamais recebeu em toda a sua história. Não haverá outro. O seu mau uso seria trágico.


Foram dois anos de grande dificuldade. Para todos, cidadãos e governantes. Trabalhadores e empresários. Professores e alunos. Sem falar, obviamente, nos médicos, nos enfermeiros e nos doentes. Todos gostariam agora de descansar. Virar a página. Mudar de assunto. Quem não desejaria agora trabalhar, melhorar a sua vida, dar alguma esperança aos filhos e ver recompensado o seu esforço? Quem não aspira a pôr de parte a angústia da doença e da inactividade? Quem não procura esquecer o período de incerteza e insegurança que viveu?


Os próprios políticos sentem necessidade de serenidade e de algum repouso. Mas sabem que, se o mais difícil já passou, o mais complexo começa agora. Quase exactamente a meio do caminho do calendário, começou a contagem decrescente para o fim da legislatura. E há sinais inquietantes. Os dois próximos orçamentos vão fazer tremer o edifício. A serenidade tranquilizadora das relações entre Presidente e Governo esmoreceu e dá lugar a uma acidez que se adivinha e prevê má conselheira. E as relações entre os partidos e dentro de cada um estão à beira de se deteriorar: todos sabem que vamos assistir a uma enorme redistribuição de cartas e poderes. E sobretudo de votos.


Os próximos dois anos não serão de transição, serão de decisão. Vão construir-se os alicerces da nossa vida em comum por alguns anos. E vai agora escolher-se entre modos e modelos, entre princípios e objectivos, decisão essa que se tem vindo a adiar graças ao pragmatismo de uns, ao oportunismo de outros e às dificuldades da pandemia. Mas há agora, como se dizia nos anos setenta, opções inadiáveis. As prioridades parecem indiscutíveis. A do desenvolvimento económico, incluindo a necessária retoma e o crescimento. A do combate às desigualdades sociais, mais uma vez visíveis e pungentes, entre as mais indestrutíveis da Europa. E finalmente a da reforma do Estado e da Administração Pública, designadamente da Justiça, a mais crónica das deficiências nacionais.


Com estas prioridades, necessário será tratar dos meios, dos recursos e das políticas. O actual pragmatismo não chegará. Há crise no debate político. As franjas marginais do panorama político agitam-se e ameaçam. A confiança na democracia aparece abalada frequentemente. Há ruptura entre público e privado. Há tensão entre capital e trabalho. Há falta de investimento privado nacional e internacional. Há crise muito séria na defesa nacional e nas relações entre poder político e Forças Armadas. A economia, com ou sem pandemia, tem-se revelado frágil e pobre. A emigração de portugueses continua a exibir valores muito elevados, próprios de uma crise permanente de recursos e de produção. As políticas públicas para a economia continuam a privilegiar o subsídio e a distribuição, assim castigando a produção e o investimento.


A primeira opção é a que diz respeito ao poder político e à aliança necessária. É praticamente certo que competirá aos socialistas dirigir o Estado durante os próximos anos. Poderão fazê-lo sozinhos ou acompanhados. Em qualquer das hipóteses, terão de desenhar os contornos e as fronteiras da aliança política com que querem trabalhar na próxima década. A aliança central está morta. Por muitas décadas, pensa-se, se tudo ficar como até agora. A aliança de esquerda, temporária e oportunista, está viva, mas tem pouco futuro, a não ser que o PS se desloque definitivamente. Se os socialistas quiserem continuar a agir empiricamente, dia a dia, sem futuro, não estarão à altura dos problemas que têm diante de si. Que todos temos diante de nós.


A segunda opção é a de esclarecer as relações entre o público e o privado, entre o Estado e a sociedade civil, entre o orçamento de Estado e o mercado, entre o subsídio oficial e o investimento produtivo. É neste domínio que residem alguns dos principais obstáculos ao desenvolvimento. A esquerda é povoada pelos que querem destruir a iniciativa privada e pelos que a querem dominar. Poucos aceitam o mercado, a empresa e o investimento privado. Muitos socialistas continuam a pensar como os jacobinos e os bolchevistas: o seu futuro e a sua duração à frente da política dependeriam da sua capacidade de destruir ou dominar o privado. Alguns começam a perceber que a sua longevidade política depende, bem pelo contrário, da sua capacidade para permitir e encorajar a economia privada.


A economia e a sociedade portuguesas têm de gradualmente estar condicionadas pela criação de riqueza, pelo investimento, pela produção e pelo crescimento. E não sobretudo pelo gasto, pelo subsídio e pela distribuição. A aplicação do plano e dos fundos europeus, durante os próximos anos, poderá ser simplesmente mais do mesmo, mais cheques assinados pelo governo, mais distribuição de simpatia, mais capitalismo de proximidade e mais iniciativa de favor. Se assim for, não pode negar-se que, com tão elevados montantes, haverá festa e animação, mas será de pouca dura. O investimento público deve ficar reservado para as suas áreas de evidente interesse e preferência, a saúde e a educação, mas a economia e a empresa devem ficar para quem sabe e pode.


Os socialistas têm uma excepcional responsabilidade histórica. Pela segunda vez na sua vida, têm a possibilidade de orientar uma política nacional que resista ao despotismo tradicional da esquerda, que saiba tratar com a direita democrática, que consiga guiar a sua acção pela liberdade, que nunca perca a desigualdade social como seu primeiro inimigo. Todavia, ter a responsabilidade e a possibilidade não significa ter a vontade.

Público, 18.9.2021


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17.9.21

PARES E PARELHAS

Por Joaquim Letria

Um amigo meu, que além de rico tem muita graça, confessou-me que as Testemunhas de Jeová  que batem às nossas portas ao fim de semana, lhe fazem lembrar tomates.

— Tomates?! - estranhei  eu.

— Sim, disse ele com o ar mais ingénuo deste mundo – é que além de andarem sempre aos pares, nunca ninguém os manda entrar...

Esta coisa dos pares tem muito que se lhe diga. Nós chamamos “par de cuecas” a um exemplar único, mas a estranheza dos pares transforma-se em duas unidades simples, com cada uma a ir para o seu lado. Pensem no ovo, que geralmente era consumido frito e aos pares, acompanhando salsichas, rodelas de chouriço, morcela  ou fatias de presunto, tipo “bacon”, à inglesa. Nunca ninguém dizia:

— Faz-me um ovo estrelado.

Pedia-se:

— Estrela-me aí dois ovos.

No entanto, essa encomenda quase desapareceu desde que o ovo se montou a cavalo dum bife. Os pares e parelhas vão perdendo razão de ser, erradamente, em meu entender.

O ovo nasceu para ser acompanhado. E a unidade do ovo devia ser o par, por muito mal que isto possa fazer ao colesterol .

Ovos de eleição são os da Casa Lúcio, de Madrid, que os faz como ninguém, “Revueltos com papas”, ou “Revueltos com Aspargus”. Os ovos também podem ser feitos pelo meu querido amigo Sr. Rocha, minhoto que em Moscavide faz um “Bacalhau à Braz” único neste mundo e no outro, ou no Manuel do Cristo, às portas de Elvas, cujo bacalhau dourado  chegou a pedir meças ao da pousada, quando a pousada era pousada.

Agora que os médicos tanto falam do colesterol bom, devíamos aproveitar  para recuperar o ovo aos pares Tal como os tomates do meu amigo e as testemunhas de Jeová, as galinhas põem um ovo de cada vez mas para ser servido aos pares. Quanto muito, para fugirem  a cavalo dum bife à maneira, dum lombo ou duma vazia  da  maior confiança.

Publicado no Minho Digital 

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16.9.21

No “Correio de Lagos” de Agosto de 2021

NUMA altura em que, a passos largos, se aproximam as eleições autárquicas, vale a pena acompanhar o que dizem (ou calam...) as diversas forças políticas em relação ao tema sensível dos “direitos das pessoas com dificuldades de locomoção” — que, e não por acaso, é um dos indicadores mais fiáveis do “IDH”, o “Índice de Desenvolvimento Humano” das sociedades. Infelizmente, no nosso caso, não é preciso muito para se ter uma opinião fundamentada acerca do assunto, pois, a juntar ao que temos debaixo dos olhos, ainda há o que está ao alcance de um clique em termos de legislação. Sim, está tudo no DL 163/2006 que, entre muito palavreado (até mete o Art.º 198 da Constituição!), nos dá conta de que substitui o DL 123/97 com o esmagador argumento de que o que nele se estipulava não estava a ser cumprido, pelo que a solução genial foi aumentar as coimas a aplicar aos incumpridores — que passaram a ser «...de € 250 a € 3740,98, quando se trate de pessoas singulares, e de € 500 a € 44891,81, quando o infractor for uma pessoa colectiva» (sic). E isso, apenas, no que respeita a parques, jardins, passeios, edifícios, estabelecimentos, estacionamentos, etc., pois, quando o que está em causa são infracções de trânsito, tem a palavra o Código da Estrada, que estipula penalidades que incluem, além das coimas, perda de pontos na Carta de Condução para quem PARAR (!) em lugares destinados a deficientes.

Assim sendo, e independentemente do que, acerca deste tema, já possam ter dito (ou ainda vão dizer...) os nossos candidatos às eleições, escolho, como exemplo que dá que pensar, o que tenho ao pé da minha porta: trata-se de um espaço onde a minha sogra, já com os seus 95 anos bem contados, costumava ir passear, e que tem algumas particularidades: 
Antes de mais, só é acessível, sem degraus, num pequeno intervalo de 5 ou 6 metros (que, por sinal, é uma saída de emergência de um espaço de lazer); depois, nenhum dos bancos ali existentes tem costas (alguns não foram, sequer, montados na horizontal!); e, finalmente, das árvores escolhidas, 9 são ciprestes que, além de não darem a sombra que se espera num espaço destes, remetem os mais velhinhos para ideias tristes (*).
Mas, por mim, o que mais lamento é o facto de os bancos serem desconfortáveis — não só porque o fabricante tem outros bem melhores, como, para esperar o que vão dizer as diversas forças políticas acerca dos tais “direitos das pessoas com dificuldades de locomoção”, palpita-me que vou ter de esperar sentado.
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(*) - «Cupressus sempervirens, do latim, conhecida vulgarmente em Portugal por cipreste-dos-cemitérios, é uma árvore normalmente utilizada na arborização destes pelo seu fuste indicar o caminho para o céu. Por esse mesmo facto era considerada uma árvore fúnebre, que trazia infelicidade».




 

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Fernando Nobre (FN) – um perigoso demagogo e provocador

 Por C. B. Esperança

No início de 2010 ainda considerava o médico, Fernando Nobre, uma figura fascinante e referência ética da solidariedade e do humanismo. Só a ignorância do seu carácter me levou a tão grosseiro erro de avaliação que o próprio se encarregou de confirmar.

Não conhecia então a composição dos órgãos sociais da AMI, que da multinacional do altruísmo um empreendimento familiar.

Quando em 2010 se candidatou à presidência da República, ainda me interroguei se era um homem bom cuja ambição o traiu ou um dissimulado que fazia o bem para alcançar objetivos que escondia. Ao apresentar-se sem ideologia, declarando não ser de direita nem de esquerda, deixou clara a opção de direita, que não tinha o direito de esconder. 

O anúncio da candidatura junto ao Padrão dos Descobrimentos denunciou, pelo carácter simbólico do local, um nacionalista serôdio a prenunciar o populista perigoso, mas foi a incoerência dos apoios políticos a que já tinha emprestado, ou viria a emprestar, o nome que confirmou a leveza ética do ambicioso candidato a uma carreira política.  

A vacuidade política e o percurso errático sepultaram a simpatia e o prestígio de que era credor. Que crédito podia merecer o apoiante de Durão Barroso, e congressista do PSD, de António Costa, do PS, e de Capucho, do PSD, mandatário do BE, alistado da Causa Monárquica, primeiro, e, então, já só simpatizante!?

O inquietante e medíocre percurso político acabaria por levá-lo a deputado do PSD pela mão de Passos Coelho e a um escondido acordo entre ambos para se tornar presidente da AR, acordo que Passos Coelho não pode honrar, dada a oposição do CDS e de vários deputados do PSD.

A Faculdade de Medicina de Lisboa ainda o mantém como catedrático convidado, mas a sua condição de médico negacionista das vacinas, que acusou os médicos que trabalham nos covidários de ganharem mais do que os outros, o que é falso, e de dizer que curou a mulher, a filha e ele próprio com fármacos já comprovadamente ineficazes, ivermectina, azitromicina e hidroxicloroquina, fazem dele um médico perigoso para a saúde pública.

A estrela da manifestação do passado dia 11, simbolicamente em frente da AR, “por um imperativo de consciência”, não pode deixar de obrigar a Ordem dos Médicos e a Fac. de Medicina de Lisboa a tirarem as devidas ilações e a tomarem posição. Aliás, a OM já tem o honroso antecedente de suspender os seus médicos negacionistas. 

Basta-nos o partido fascista para estimular o negacionismo, não precisamos dos quem aí têm o coração, talvez frustrado por não ser o líder.

A defesa da saúde pública é um dever de todos.

Apostila – O percurso semelhante de duas apostas fortes de Passos Coelho, uma para deputado e presidente da AR, e outra como cabeça de lista à autarquia de Loures podem ser meras coincidências.

Ponte Europa Sorumbático

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11.9.21

No “Nova Costa d’ Oiro” de Agosto de 2021

Ó meu, gastas tu e pago eu?!

FOI JÁ demasiado tarde que eu vim a saber que o nosso Ministro do Ambiente tinha vindo a Lagos para a abertura oficial da época balnear — e tenho pena de não o ter sabido a tempo, pois estou certo de que, sendo nós conterrâneos e velhos colegas de profissão, poderíamos ter conversado um pouco, e com grande proveito, acerca do tema que dá o nome à sua pasta. Porém, e como “há mais marés que marinheiros”, acredito que isso possa vir a suceder numa próxima visita, na qual lhe proporei uma volta por estes lados — mas à moda d’ “As 1001 Noites”, seguindo o exemplo do Harun al-Rashid que percorria as ruas de Bagdade disfarçado de mercador para, incógnito, conhecer a REALIDADE da sua terra. 

No entanto, e como certamente será impossível falarmos de tudo, sugerir-lhe-ei que abordemos, ao menos, o PROBLEMA DA ÁGUA, começando por uma questão muito simples:

Quando, recentemente, nos informou que o respectivo preço, aqui no Algarve, terá de subir, qual era a ideia por detrás disso?

Estaria a pensar nos custos do transvase a partir do Pomarão? Se sim, não é para coisas como essa que há o tão falado PRR, com a sua “bazuca”? 

Ou estaria a pensar na dessalinização, um tema acerca do qual eu gostaria muito de falar, especialmente se ainda for válido tudo o que aprendi quando trabalhei para a Central de Porto Santo?

Ou, simplesmente, estava a pensar no adágio que diz que “O que pouco custa pouco se estima”, esperando que os algarvios reduzam o seu consumo doméstico, contribuindo, dessa forma, para a resolução do problema? Se é isso, está a incorrer numa ideia INGÉNUA e INJUSTA:

Antes de mais, é INGÉNUA, porque nenhum munícipe vai passar a gastar menos água na sua higiene pessoal, nas lavagens de roupa ou loiça (e muito menos na culinária) pelo facto de a sua conta subir um pouco; e ainda é menos provável que os grandes consumidores se retraiam — ou porque têm suficiente capacidade económica, ou porque podem repercutir esse aumento nos seus clientes.

Mesmo assim, ainda nos poderá dizer que o que está em causa é o princípio do utilizador-pagador, mas isso falha quando QUEM PAGA NÃO É QUEM GASTA. Sim, e para ver como isso também é verdade por estes lados, eu mostrar-lhe-ei um relvado de vários hectares — o do Parque da Cidade — que já vi a ser regado na hora de mais calor de um dia de Verão, com água a ser atirada para os caminhos... e daí para as sarjetas — um absurdo revoltante e recorrente, numa cidade que também não se inibe de exibir fontes e repuxos onde a água jorra “à fartazana”, sem ter em conta (embora possa ser sempre a mesma) o efeito psicológico que essa exibição de fartura propicia.

Aliás, e nesse mesmo simpático parque, eu poderei mostrar-lhe como têm razão os técnicos que desaconselham vivamente a própria existência de grandes relvados numa região, como a nossa, de clima mediterrânico — e eu até conheço quem ganhe a vida a projectar e a construir jardins “water-friendly” para clientes cuja conta da água é, em consequência disso, consideravelmente reduzida.

Mas ainda o pior é quando essa relva, já de si desnecessária, convive de perto com arvoredo, pois, impedindo que a água se infiltre, desincentiva o crescimento das raízes, pondo em causa a saúde e a estabilidade das árvores. E eu não precisarei, sequer, de o levar a sair desse mesmo parque para lhe mostrar como, em amplas áreas, aquilo mais parece um bizarro campo de golfe de 100 buracos, tantas são as crateras onde JÁ HOUVE ÁRVORES, mas que caíram ao primeiro golpe de vento um pouco mais forte. 

A terminar, e como “nota de esperança”, mostrar-lhe-ei um renque de belíssimos plátanos, existentes no mesmo parque, e que, ao que tudo indica, foram plantados e tratados por quem sabe, devendo a sua robustez ao facto de terem sido regados em profundidade, pelo processo que a última imagem mostra. Enfim, é “a excepção que confirma a regra” — mas, felizmente, a vida também é feita delas.

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Revista “Nova Costa d’ Oiro” de Agosto de 2021

 

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Grande Angular - Balanços

Por António Barreto

O ambiente geral é de inventário e balanço. Talvez o pior da pandemia já tenha passado. Talvez… Faltam poucas semanas para as eleições autárquicas que, apesar de locais, já ganharam valor nacional. A última fase da presente legislatura começa agora. O actual governo está gasto e cansado. Discutem-se abertamente as alternativas futuras aos actuais Presidente da República e Primeiro-ministro. Em quase todos os partidos fala-se de alternância, de rivalidade e de substituição. Discute-se a sucessão em vários partidos, no PS, no PSD, no CDS e no PCP. Aos gritos no PSD. Aos murmúrios no CDS e no PS. Em surdina no PCP. Os dinheiros da União Europeia começaram a chegar, por enquanto devagar, daqui a pouco em grande velocidade: ganhará quem estiver bem colocado. Lá fora, depois da porta fechada do Afeganistão e em vésperas da nova Europa sem Merkel, avoluma-se o desconhecido. Mas toda a gente percebe que uma era terminou. Quando serenos, os balanços permitem corrigir erros e fazer melhor.

Apesar das incertezas, dos erros, das dúvidas e sobretudo da incapacidade para bem informar e comunicar, o comportamento das autoridades portuguesas, durante a pandemia (que ainda não terminou…) foi razoável ou talvez mesmo bom. O pior foi a prevenção, a informação e o confinamento. O melhor foi a vacinação e os hospitais. Tudo poderia ter sido melhor, é verdade, mas o balanço global é razoável. Todas as questões que envolveram filas de espera, outras cirurgias, aulas e exames, jogos de futebol e divertimentos nocturnos deixaram muito a desejar. No início, chegou a recear-se, com razão, a força da cunha, o inevitável da desigualdade e o favoritismo. Mas parece que se evitou o pior e corrigiu a tempo.

A situação social está dentro dos limites do suportável. A retoma económica anuncia alguma recuperação, mas não melhoramento. Mantém-se uma forte pressão de pobreza e necessidade, sem falar na chaga permanente da desigualdade. A emigração continua elevada, o que é muito mau sinal. A pressão dos imigrantes e refugiados é alta e as autoridades não têm mostrado capacidade para controlar e ordenar. Governo e partidos continuam a prometer o que podem, o que não podem e o que sabem que nunca poderão. Esticam-se os orçamentos públicos e os fundos europeus, mas existe a plena consciência de que o curto prazo e a demagogia nada resolvem. Pensões, abonos, subsídios, isenções, bolsas, créditos, descontos e bonificações são oferecidos, realmente dados ou apenas prometidos. Raramente se viu um tal fogo de artifício de promessas. Além disso e estranhamente, o emprego público aumenta. Mas toda a gente sabe que nada disso resolve o essencial, a segurança, a estabilidade, o emprego produtivo, o aumento de rendimento e um pouco mais de igualdade. Muitos escondem, mas todos sabem que o Estado social está sob ameaça. Como estão conscientes de que a dívida excessiva, a maior da história recente, impede o desenvolvimento. Com esta dívida, sem investimento e sem melhoria da produtividade, não há Estado social que resista.

Vive-se um tempo muito mau conselheiro para encontrar novas e duráveis soluções para os nossos problemas colectivos. Hoje, o êxito da política e dos políticos mede-se pelo acessório, pela imagem, pelo efémero, pelo tempo de permanência no cargo, pelos efeitos da propaganda, pela paralisia das alternativas, pela estupidez dos rivais, pelo volume de fundos europeus obtidos e pelas promessas repetidas. Há dinheiro para gastar, mas não há capital para investir. Não há sucessores promissores para os actuais governantes já esgotados. Não há alternativas razoáveis que mereçam crédito e confiança. Justiça, Administração Pública e Educação estão a revelar-se muito mais fontes de novos problemas do que soluções ou progressos. Há administrações para gastar, mas não há empresas para produzir. Portugal, a sua sociedade e a sua economia precisam de muito mais do que de simples êxitos de duração, subidas nas sondagens e boa impressão dos dirigentes políticos.

Há pelo menos vinte anos que as grandes chagas da sociedade não tiveram verdadeira diminuição nem foram realmente combatidas. A desigualdade social e a persistente pobreza. A reduzida produtividade do trabalho. A iliteracia e a falta de cultura. O miserável investimento privado e a falta de capital e de empresários, tanto nacionais como estrangeiros. Foram vinte anos de medíocre desenvolvimento e de quase nulo crescimento, realidades que as crises internacionais e a pandemia não chegam para explicar. Muito do mau e do insuficiente está cá dentro, na sociedade e na política.

É indispensável reforçar o Estado social, o Serviço Nacional de Saúde e a Educação. É essencial mesmo. Mas, para isso, é necessário capital, sabedoria e honestidade. Ao PS tem faltado um pouco de tudo. E não parece que a esquerda ou a direita estejam preparadas. É necessário fazer de Portugal um país interessante e atraente do ponto de vista dos investimentos, da rentabilidade e da segurança. Tanto para os investimentos nacionais como para os estrangeiros. O que parece uma verdade banal, um lugar-comum, não o é: na verdade, ninguém parece realmente interessado nessa transformação. Uns, à direita, em vez de construir, querem vender, como fizeram até agora. Outros, à esquerda, em vez de edificar, pretendem capturar, como sabem fazer.

A metamorfose internacional em curso, com derrotas para o mundo ocidental e perdas para o continente europeu, aconselha redobrada reflexão. A crise europeia anunciada exige reforçado debate. As deficiências nacionais pedem esforço excepcional. Pode ser que os balanços actuais e em curso ajudem as elites e a opinião pública a perceber as dificuldades em que nos encontramos e as exigências diante de nós. Só há motivos para alguma esperança porque a necessidade é muita. Na verdade, os protagonistas políticos não parecem disponíveis para esse esforço excepcional. Pensam muito nos votos, pouco nos eleitores. 

Público, 11.9.2021

 

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10.9.21

HUMILDES

Por Joaquim Letria

Para se tirar bom proveito daquilo que a curiosidade nos dá a saber, é indispensável  o uso da razão de modo a assimilarmos  os conhecimentos.  O que chamamos de inocência é a infância, que Jean Jacques Rousseau comparava “com a luz da aurora que resplandece pela manhã ao nascer o sol sem nuvens”.

Inocência e razão, infância e maturidade compõem o binómio de que é formada a maravilha a que nós chamamos de “género humano”. Por  outro lado, é interessante observar como o homem sempre quis minimizar, ou mesmo apagar, os melhores exemplares de si próprio. Essa qualidade pode sintetizar-se, como convém para esta reflexão, num ponto  comum a que chamamos modéstia, seja esta verdadeira ou falsa, e que acabamos por classificar como se tratando de virtuosa .

Dizia Boileau que a humildade se verifica quando o mais sábio é aquele que nem remotamente pensa em vir a sê-lo. Para os povos latinos, humildade é quando “ninguém é sábio em todas as ocasiões”. Humildade, sentenciava Séneca, é “quando se pode ser sábio sem vanglória nem inveja”. Sócrates, que também se deu ao trabalho desta reflexão, criou um “leit motiv” defensivo, mas que nos chega até hoje:  ”Só sei que nada sei”.

Em síntese, e à luz da nossa tradição judaico-cristã, é a sabedoria que garante que “quem se humilhe será exaltado” e, como  profetizado no Livro de Job, “viverá em glória”.

Muita gente, como Afonso Karr, não acredita em nenhum sábio até o ouvir dizer três vezes “duvido” e duas “não sei”.  E pergunto eu num sobressalto: porque não fazer a vontade a esta gente se a Terra pertencerá aos humildes?!

Para já, brinquemos à razão do repouso, que é muito diferente e nada tem a ver com o repouso da razão. Assim poderíamos ser todos muito felizes ao guardarmos de outros muito do que sabemos.

Publicado no Minho Digital

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