21.10.19

A PEDRA DA “SOPA DA PEDRA” QUE SE FAZ EM ALMEIRIM

Por A. M. Galopim de Carvalho
Desde muito cedo, na história da Terra, os grãos de quartzo das areias acumuladas nas plataformas continentais de um e de outro lado de um oceano que se fechou (por aproximação e colisão dos dois continentes que o marginavam), sofrem as transformações próprias dos processos metamórficos associados ao respectivo orógeno, ou seja, à cadeia de montanhas que, a partir daí, se formou. Do mesmo modo que os pelitos (argilas+siltes) evoluem para xistos e os calcários, para mármores, as areias de quartzo soltas ou já consolidadas (quartzarenito) transforma-se em quartzitos.
O quartzito é, pois, uma rocha metamórfica essencialmente ou, por vezes, quase exclusivamente siliciosa, constituída por um mosaico de grãos de quartzo recristalizados por efeito das pressões e das temperaturas a que estiveram sujeitos. Mantém a estratificação da rocha sedimentar original, isto é, em camadas, via de regra, deformadas próprias da tectónica inerente um orógeno.
No caso da rocha original (protólito) ser um quarzarenito de cimento silicioso (microquartzítico ou calcedonítico), a recristalização afecta, em simultâneo, os grãos de quartzo e o cimento. Deixa, assim, de haver cimento, dado que este alimentou o crescimento dos grãos de quartzo do protólito. Um crescimento qualificado de sintaxial porque conserva a mesma orientação estrutural dos grãos a partir dos quais se desenvolve.
No caso português, quando um antigo e grande oceano se fechou, num processo que se iniciou há aproximadamente 375 milhões de anos (orogenia varisca ou hercínica) e que durou mais de 50 milhões, os sedimentos nele acumulados sofreram metamorfismo e enrugamentos, dando nascimento a uma grande cadeia de montanhas, hoje parcialmente arrasada pela erosão, de que a Península Ibérica é uma pequena parte. Quartzitos, xistos, grauvaques e mármores, entre outras rochas, que fazem parte do soco peninsular, são as entranhas dessa grande cadeia esventrada expostas à superfície.

LIVRARIA DO MONDEGO
Em Penacova, no distrito de Coimbra, a “Livraria do Mondego”, entendida (mas ainda não classificada) como um geomonumento à escala do afloramento, exibe um notável conjunto de camadas de quartzito ordovícico, tectonicamente empinadas quase à vertical, como se de livros numa estante se tratasse, aspecto muito particular e belo que deu origem à designação porque é de há muito conhecido.
Protegido e musealizado pela autarquia, está dotado de percursos de visita devidamente sinalizados, miradouros, guardas de segurança, pontos de descanso, parque de estacionamento para duas dezenas veículos e, ainda, dois pequenos cais para ancoragem da “barca serrana”, destinada a percursos permitindo a observação do geomonumento a partir do rio.
PORTAS DE RÓDÃO
Os quartzitos que, sendo as rochas mais duras e quimicamente as mais estáveis, são as que mais resistem aos agentes de alteração e desgaste do relevo, dando origem, por erosão diferencial, aos chamados “relevos de dureza”. Bem salientes na paisagem nacional, são referidos, entre geógrafos e geólogos, por “cristas quartzíticas”. Todas de idade ordovícica (488-443 milhões de anos), podemos vê-las, entre outras, no Buçaco, Marão, Marofa, Moradal, Penha Garcia e Serra da Talhada que, em Vila Velha de Ródão foi cortada e atravessada pelo Tejo, num processo designado por epigenia, ou seja, por encaixe ou aprofundamento de um vale numa formação geológica situada abaixo daquela onde se instalou.
Quando o Rio Tejo, no decurso da sua evolução, recuando, grosso modo, de sudoeste para nordeste, se instalou na região, a referida crista estava submersa num “mar de sedimentos” ou, por outras palavras, sob uma cobertura sedimentar (areias, argilas e cascalheiras) relativamente fácil de escavar. Na continuidade da sua evolução, o rio foi aprofundando o seu leito, até que encontrou a crista de quartzito. Mas o leito estava traçado e as águas do rio estavam-lhe confinadas, acabando por cortá-la, abrindo as de há muito conhecidas por “Portas de Ródão”. Invulgar geomonumento à escala da paisagem, classificado como Monumento Natural, em 20 de Maio de 2009, é a expressão grandiosa e espectacular do referido processo.
São, em grande parte, destas cristas os seixos rolados de quartzito abundantes nas grandes planuras e terraços fluviais ribatejanos, os mesmos que podemos encontrar no fundo da terrina que, em Almeirim, vai à mesa com a tão falada “sopa da pedra”.

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2.10.19

CALHAUS ROLADOS E ELEIÇÕES

Por A. M. Galopim de Carvalho
À semelhança da expressão popular «que tem o cu a ver com as calças?», pode perguntar-se «o que tem um calhau a ver com as eleições?».
Quem não sabe que fique a saber (eu também não sabia e agora já sei) que o termo gregoantigo,“psephós”, significa calhau rolado ou seixo. Como geólogo e estudioso no domínio da sedimentologia aprendi que, literalmente, PSEFOLOGIA é o estudo dos ditos calhaus. Mas também fiquei a saber que, actualmente, esta palavra, introduzida em 1952, pelo historiador britânico Ronald Buchanan McCallum (1898-1973), para descrever "a análise científica das eleições passadas", designa o ramo da ciência política que estuda as amostragens pré-eleitorais e as respectivas previsões.
Numa dada altura da Guerra de Tróia, os chefes gregos tiveram de escolher entre as exigências de Ajax e Odisseu. Após a morte de Aquiles, o maior e o mais belo guerreiro da “Ilíada, de Homero, estes outros dois heróis da mitologia grega disputaram a sua armadura. Diz a lenda que a votação elegeu Odisseu. 
Os avanços da tecnologia deram nascimento ao PSEFÓGRAFO, o aparelho concebido para contar votos em assembleias eleitorais.
Uma das imagens mostra a votação com “psephoi”(seixos), num detalhe da mitologia grega (alusivo ao suicídio de Ajax), pintado numa taça de vinho, do século V a. C. Esta figura oferece uma das primeiras representações do acto de votar com seixos, em democracia, na Grécia antiga.
A outra mostra um moderno aparato para votar por via electrónica.

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27.9.19

A PROPÓSITO DO AQUECIMENTO GLOBAL

Por A. M. Galopim de Carvalho
No momento presente, em que anda muita gente a “dizer coisas”, sobre o aquecimento do planeta o degelo dos glaciares e a subida do nível do mar, em que uns agridem, outros defendem a jovem sueca Greta Thunberg, a verdade, goste-se ou não, ela é o rosto de um movimento, estou em crer imparável, que já mobilizou os adolescentes (e não só) à escala mundial.
A começar, devo dizer que apoio e acredito em toda esta dinâmica de juventude à escala mundial, desejando que ela envolva igualmente a luta bem mais necessária e urgente contra a destruição das florestas, a poluição do ar, das águas marinhas e fluviais, dos solos e a destruição galopante dos recursos naturais. Se quisermos reflectir, séria e profundamente, nesta mais do que real ameaça global, a sociedade dita de desenvolvimento vai ter, a partir de agora, de se mentalizar para, a curto prazo, mudar a forma viver e de consumir, deixando de agredir e de conspurcar a Natureza. 
Relativamente a este processo, que se me afigura demasiadamente politizado, é minha convicção que a actividade antrópica, com influência no clima, não se sobrepõe, em especial, às do Sol e do vulcanismo. Penso pois que, mesmo sem a poluição atmosférica, da nossa responsabilidade, nomeadamente a relativa às emissões de dióxido de carbono e outros gases com efeito de estufa (que existe e é um facto comprovado), o Planeta irá aquecer nos próximos milhares de anos e registar fenómenos atmosféricos como os que nos tem vindo a mostrar (chuvadas e cheias catastróficas, furacões, tornados e outros), associados a inevitável subida do nível do mar.
Vale, pois, a pena reflectir sobre o que tem sido o sobe e desce da temperatura do planeta, à escala global, e o consequente sobe e desce do nível geral da superfície do mar nos derradeiros milhares de anos. Nos últimos dois milhões de anos da história da Terra foram registadas seis grandes glaciações intercaladas por períodos de aquecimento global, ditos interglaciários, no pico dos quais os níveis do mar subiram muito acima do nível actual. A mais recente destas seis glaciações, ocorrida entre há 80 000 e 10 000 anos, conhecida por Wurm, na Europa, e por Wisconsin, na América do Norte, não será certamente a última, e nós estamos a viver um período de aquecimento interglaciário, entre esta e a previsível próxima glaciação, daqui a uns bons milhares de anos. Assim sendo, com ou sem gases com efeito de estufa de origem antrópica, libertados para a atmosfera, a temperatura global vai elevar-se e, em consequência do inevitável degelo, o nível do mar vai subir e muito
Há cerca de 18 000 mil anos, no Paleolítico, já as mais antigas gravuras rupestres se disseminavam pelas paredes rochosas do Vale do Côa, atingia-se o máximo de rigor e de extensão da última glaciação do Quaternário, a atrás referida Würm. Restringindo-nos ao hemisfério Norte, a calote glaciária em torno do Pólo, espessa de dois a três milhares de metros, alastrava até latitudes que, na Europa, atingiam o norte da Alemanha, deixando toda a Escandinávia submersa numa imensa capa de gelo, capa que cobria igualmente grande parte da Sibéria, todo o Canadá e a Gronelândia. No Pólo Sul a respectiva calote extravasou, e muito, os limites do continente antárctico, alastrando sobre o oceano em redor e cobrindo a parte meridional da América do Sul.
No Atlântico Norte, a frente polar, ou seja, o encontro entre as águas polares, com icebergsà deriva, e as águas temperadas, situava-se à latitude da nossa costa norte, entre Aveiro e o Porto. O nível do mar estaria, ao tempo, uns 140 metros abaixo do actual, pondo a descoberto uma vasta superfície, hoje submersa, levemente inclinada para o largo e que corresponde à actual plataforma continental. Da linha de costa de então descia-se rapidamente para os grandes fundos oceânicos, com 4 a 5 mil metros de profundidade. A temperatura média das nossas águas rondaria, então, os 4ºC.
As Serras da Estrela e de Gerês, à semelhança de outras montanhas no país vizinho, tinham os cimos permanentemente cobertos de gelo, desenvolvendo processos de erosão próprios dessa situação climática, cujos efeitos ainda se podem observar em importantes testemunhos, com destaque para o vale glaciário do Zêzere. 
relevos menos proeminentes, mais a sul e menos afastados do litoral como, por exemplo, as serras calcárias do Sicó, Aires, Candeeiros e Montejunto, encontram-se ainda, da mesma época, vestígios bem conservados e evidentes de acções periglaciárias. Desses vestígios sobressaem certas coberturas de cascalheiras soltas, brechóides, sem matriz argilosa, essencialmente formadas por fragmentos de calcário muito achatados e angulosos, em virtude da sua fracturação pelo frio, que deslizaram ao longo das vertentes geladas, destituídas de vegetação e de solo, e se acumularam na base desses declives. A conhecida pinchade Minde teve a sua origem nesta altura e através deste processo.
A partir de então verificou-se uma importante melhoria climática e consequente degelo. A temperatura sofreu uma elevação gradual e as grandes calotes geladas começaram a fundir e a retrair-se, debitando nos oceanos toda a imensa água até então aprisionada. Em consequência, o nível geral das águas iniciou a última grande subida e mais uma invasão das terras pelo mar, conhecida por transgressão flandriana. Praticamente, todos os rios portugueses, do Minho ao Guadiana, terminam em estuários, que não são mais do que vales fluviais escavados durante esta última glaciação e posteriormente invadidos pelo mar, no decurso desta transgressão.
Pelos estudos realizados na nossa plataforma continental sabemos que, há uns 12 000 anos atrás e na continuação do degelo global, o nível do mar coincidia com uma linha aí bem marcada, à profundidade de 40 metros. Uns mil anos mais tarde, a tendência geral de aquecimento generalizado foi perturbada por uma crise de arrefecimento à escala mundial.
Uma explicação para esta interrupção, relativamente brusca, no processo de aquecimento global que se vinha a verificar há alguns milhares de anos, pode encontrar-se na presunção de que, durante a glaciação, se formaram lagos enormíssimos no continente norte-americano, mantidos por grandes barreiras de gelo, que teriam recebido águas de cerca de oito mil anos de degelo nessa área da calote gelada. Admite-se que, tendo descongelado as barreiras que sustinham esses lagos, toda a água doce aprisionada desaguou no Atlântico Norte, desencadeando a brusca congelação da superfície do mar e a consequente mudança climática com reflexos à escala global. Saiba-se que água doce congela a uma temperatura mais elevada do que a água salgada do mar.
Na sequência, os glaciares não só interromperam o degelo, como reinvadiram as áreas entretanto postas a descoberto. Em resultado desta nova retenção das águas, o nível do mar desceu de um valor estimado em 20 metros e assim permaneceu durante cerca de mil anos. A frente polar, que recuara até latitudes mais setentrionais, avançou de novo e atingiu o paralelo da Galiza, pelo que as temperaturas das nossas águas voltaram a descer, rondando os 10ºC. No final deste episódio de inversão climática, a que se dá o nome de Dryas recente, há 10 000 anos, a transgressão retomou o seu curso. O clima tornou-se mais quente e mais chuvoso, entrando-se no que designamos por pós-glaciário. Há 6 a 7 mil anos, a temperatura média, na nossa latitude, atingia cerca de 5 ºC acima dos valores normais no presente. Foi o recomeço da subida generalizada do nível do mar, que se vinha a verificar desde o início do degelo, à razão de cerca de 2 cm por ano, em valor médio, embora a ritmo não constante e com algumas oscilações. Este episódio, conhecido por Óptimo Climático, coincidiu, em parte, com o Mesolítico português, estando bem exemplificado nos magníficos concheiros de Muge, no Ribatejo.
O nível marinho actual começou a ser atingido há cerca de 5000 anos, em pleno Megalítico ibérico, iniciando-se, então, o que é corrente referir como Período Climático Subatlântico, marcado por relativa humidade. A partir de então verificaram-se pequenas oscilações na temperatura, marcadas por moderadas e curtas crises de frio, com correspondentes recuos do mar, designados por Baixo Nível Romano, há 2000 anos, Baixo Nível Medievo, em plena Idade Média (séculos XIII e XIV) e Pequena Idade do Gelo, nos séculos XVI a XVIII, bem assinalada na Europa do Norte pelo congelamento de rios e lagos, situações relacionadas com a ocorrência de grandes cheias primaveris, resultantes do degelo nas montanhas, bem testemunhadas em pinturas da época. Posteriormente a esta crise de frio a temperatura do planeta subiu e vai, muito provavelmente continuar a subir, para os níveis actuais, mesmo sem a ajuda das emissões antropogénicas do agora tão falado dióxido de carbono e dos outros gases com efeito de estufa.

A tarefa não é fácil e, repetindo o que disse no início, se quisermos reflectir, séria e profundamente, nesta mais do que real ameaça global, a sociedade dita de desenvolvimento vai ter, a partir de agora, de se mentalizar para, a curto prazo, mudar a forma viver e de consumir, deixando de agredir e de conspurcar a Natureza. 

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11.9.19

AS ROCHAS, NUMA CAMINHADA DE MAIS DE 2000 ANOS

Por A. M. Galopim de Carvalho
Desde, pelo menos, a Antiguidade grega e durante séculos, o termo pedra tanto indicava uma rocha como um mineral. Hoje não confundimos e sabemos que, para termos uma ideia, ainda que básica, sobre as rochas, temos de saber o que são os minerais e, para sabermos algo sobre os minerais, não podemos prescindir de alguns conhecimentos sobre as rochas.
Todos falamos hoje de minas e minerais, com base num saber empírico e vulgar ligado à experiência quotidiana. Mina é uma palavra do vocabulário popular ligada a uma actividade tradicional. Quem vive no campo, sem a comodidade do abastecimento de água canalizada, sabe que uma mina de água é uma escavação na horizontal, feita numa encosta do terreno, a fim de captar a água que aí circula no seu interior. Palavra que se julga radicada na cultura céltica, trazida por um povo portador da metalurgia do ferro, mina significa escavação na terra. Minerar é, pois, escavar e mineral é o que da terra se retira por escavação. Minar é escavar e é, também, fossar e fossa é uma escavação. E é por isso que, no passado, até ao século XVIII, “fóssil” era todo o material (com excepção do orgânico) que se desenterrava ou extraía de dentro da terra (do latim "fossile", desenterrado), o que abrangia, não só os minerais e as rochas, como também os “petrificados” (nome que se dava aos fósseis, no sentido que hoje damos ao termo) e os achados arqueológicos.
No Livro das Pedras, de Aristóteles (384-322 a. C.), que se julga não ser da autoria deste filósofo e fundador do Liceu de Atenas, mas sim uma compilação das suas ideias feita por um anónimo, provavelmente um árabe posterior ao século IX, além de pedras comuns, distinguem-se gemas, metais e sais, e disserta-se sobre a influência dos astros, em geral, e do Sol, em particular, no nascimento destes objectos naturais. A sua visão acerca das “influências celestiais” era a de que, sob o efeito dos raios solares, certas exalações se escapavam para a atmosfera. Destas, as chamadas “exalações secas”, associadas às trovoadas, condensavam e caíam na Terra, sob as formas de chuva de pedra (granizo) e de pedras vindas do espaço (meteoritos). Segundo a mesma visão, havia outras exalações susceptíveis de gerar pedras, incluindo nesta designação rochas, minerais e fósseis surgidos e desenvolvidos à superfície e no subsolo, por efeito de “virtudes petrificantes” originárias do céu e dos diversos corpos celestes, nomeadamente os planetas e as estrelas, entre as quais o Sol tinha papel de destaque.
O seu discípulo mais notável, Teofrasto (372-287 a. C), continuador do dito Liceu, debruçou-se mais objectivamente sobre estes produtos naturais e, entre as várias obras que deixou, sobressaem vestígios de um tratado sobre as pedras. Tido como a primeira obra escrita neste domínio, envolve, ainda, minerais, minas e metalurgia. Deve-se a Teofrasto um esboço de classificação dos ditos produtos, com base nas respectivas utilidades. Entre eles, figuram o calcário, o xisto argiloso, o basalto, o pórfiro, o ofito (dolerito) e o mármore, indicando ainda as suas utilizações práticas na indústria e na arte.
Pouco mais de três séculos depois, Plínio, o Velho, (23-79 d.C.), o grande enciclopedista romano, baseia-se na obra de Teofrasto em muitas das suas alusões às rochas, ainda não designadas como tal, mas sim como pedras. Estes conhecimentos mantiveram-se até finais do século XV, em finais da Idade Média.
Na idade Média, o persa, Abu Ali al-Hussein ibn Abd-Allah ibn Sina (980-1037), mais conhecido por Avicena, médico, filósofo e alquimista de cultura enciclopédica, deixava-nos um outro tratado sobre as pedras, “De Lapidibus” (na tradução latina), do qual consta a primeira classificação dos objectos do chamado “Reino Mineral”, numa época em que, como se disse atrás, ainda se não fazia a distinção entre rochas, minerais e fósseis. Desta classificação constam quatro classes: “pedras e terras”, “minerais fusíveis e sulfurosos”, “metais” e “sais”.
No século XIII, também o dominicano Albert von Bollstadt (1206 -1280) se interessou pelas pedras no seu todo. Doutor da Igreja, foi figura grande no universo da ciência do seu tempo, o que lhe valeu ter ficado na história como Alberto de Colónia, Alberto Magno ou Alberto, o Grande. O seu livro “De Mineralibus et Rebus Metallicis”, escrito por volta de 1260 e publicado, pela primeira vez, em Pádua, em 1476 é, em grande parte e ao contrário do que era hábito, expressão das suas próprias investigações. Diz aí que as gemas diferem dos restantes minerais e pedras pelo seu maior conteúdo no “elemento água” (um dos 4 elementos atribuídos a Aristóteles - terra, água, ar e fogo) sendo, por isso, mais claras e transparentes, propondo a respectiva classificação pela cor. Ele tratou como minerais todo o tipo de pedras e os metais. Estudou as propriedades do enxofre e de muitos sais metálicos.
Na viragem da Idade Média para a Moderna, Agricola, médico alemão, de nome Georgius Bauer (1495-1555), reviu as classificações das pedras, elaboradas por Teofrasto, Plínio, o Velho, Avicena e Alberto Magno, enaltecendo os seus autores, distinguindo e designando por “mármores”, o mármore propriamente dito, o basalto antigo e o alabastro, e por “Pedras de construção”, o calcário e o arenito, nomeadamente o Bundsandstein, nome então atribuído ao arenito fino do Triásico germânico. Assinale-se que o basalto antigo (não o resultante das erupções vulcânicas que se podiam presenciar na região mediterrânea), já conhecido na Europa do Norte, não era associado ao vulcanismo. Referido então por “mármore negro”, como lhe chamou Plínio, este basalto era visto, erroneamente, como uma “rocha precipitada no fundo do mar”.
Entretanto, surgia em Itália, em 1596, o termo “granito”, radicado no latim granum, que significa grão, introduzido por Andrea Caesalpino (1519-1603).
Já no século XVIII, num período da história da Europa, em que os textos eruditos e, entre eles, os de cariz científica, eram maioritariamente escritos em latim, o teólogo e mineralogista alemão, John Lukas Woltersdorf (1721-1772), deixou cair o termo “pedra” e, pela primeira vez e, sob a designação latina de lapidis, considerou as rochas como uma classe à parte. Na sua classificação dos produtos do “Reino Mineral”, conhecida por Sistema Woltersdorf, divulgada em 1748, distinguiu sete classes: Terrae (terras), Lapidis (rochas), Salia (sais), Bitumina (betumes ou asfaltos), Semimetala (semimetais), Metala (metais) e Petrifada (“petrificados” ou fósseis, no sentido que hoje damos à palavra).
Da mesma época, a proposta de classificação do alemão Albert Frederic Cronstedt (1722-1765), conhecida por Sistema de Cronstedt (1771), introduziu o termo latino saxus, igualmente com o significado de rocha (saxa, no plural), definido como “o conjunto dos materiais que formam as grandes massas montanhosas”, exemplificados, entre outros, pelo “ofito” (dolerito), o “pórfido” (pórfiro) e o trapp (basalto). Valorizada pelas referências aos chamados “princípios constituintes” (os elementos químicos então possíveis de reconhecer), esta classificação estava ainda longe de abordar a verdadeira natureza das rochas e, assim, compreender os respectivos significados geológicos.
Uma década depois, o sueco Torbern Olof Bergman (1735 -1784), na classificação dos produtos do “Reino Mineral”, conhecida por Sistema de Bergman (1782), considerou nove classes: “ares”, “águas”, “enxofre”, “ácidos”, “alcalis”, “terras”, “substâncias metálicas”, “sais neutros” e “fósseis”.
Na última classe, a dos “fósseis” (no sentido que ainda se dava à palavra, isto é, como se disse atrás, todo o material que se desenterrava ou extraía de dentro da terra, do latim fossile, desenterrado) o autor incluiu as “pedras simples” (os minerais), as “pedras compostas” (as rochas) e os fósseis (no sentido que hoje lhe damos). Entre as “pedras compostas” distinguia as “pedras compostas cristalizadas”, onde se arrumavam granitos e gnaisses, as “pedras compostas empastadas cristalizadas”, representadas pelos “pórfidos” (pórfiros), as “pedras vulcânicas”, a que pertenciam as “lavas compactas e porosas”, os basaltos, o “rapilo” (lapili), a pozolana, a pedra-pomes, o vidro vulcânico (obsidiana ou Pechstein), as brechas vulcânicas, e, ainda, as “pedras compostas não cristalizadas”, como conglomerados e brechas de natureza sedimentar. Dado o carácter homogéneo, tanto o vidro vulcânico como o mármore, o quartzito, o calcário e alguns xistos não figuravam entre as rochas, mas sim entre os minerais. O livro onde Bergman divulgou esta sua classificação foi traduzido para português, em 1799, por Andrade Machado, com o título “Manual do Mineralógico ou Esboço do Reino Mineral”.

Até meados do século XIX o estudo das rochas limitava-se: à identificação, dos respectivos minerais, à vista desarmada ou com o auxílio de uma simples lente de aumentar 10 vezes ou pouco mais; à descrição da textura, ou seja, o arranjo espacial dos respectivos minerais, tendo em conta as suas dimensões, forma e orientação; e à quantificação rudimentar dos seus constituintes químicos, na medida dos conhecimentos de então.
Em 1858, o geólogo inglês Henry Clifton Sorby (1826 -1908) abriu as portas ao estudo das rochas em termos modernos, pela adaptação, ao microscópio óptico, de um dispositivo (nicol) que permite operar com luz polarizada. O microscópio assim equipado passou a ser apelidado de polarizante ou petrográfico. Nasce aí a petrografia, a disciplina científica que visa a identificação dos minerais constituintes das rochas e a caracterização das respectivas texturas com vista às suas descrição e classificação no contexto da imensa variedade de tipos rochosos. Foi a petrografia que permitiu o estudo das rochas com dimensão de ciência, a que foi dado o nome de petrologia, um tema a desenvolver mais adiante.

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5.9.19

XISTO, UMA PEDRA, NO FALAR DAS GENTES, TRANSFORMADA EM ROCHA, NOS MANUAIS DE ENSINO.


Por A. M. Galopim de Carvalho
Antes de ser pedra, o xisto foi poeira de argila misturada, sobretudo, com quartzo pulverizado durante os processos de erosão e transporte. Levada pelos rios a caminho do mar profundo, onde foi vasa (lama) e onde, com o passar dos milhões de anos, petrificou, esta poeira transformou-se em xisto argiloso. Diga-se que, no falar dos geólogos, o termo “xisto” (do grego, xystós, fender), dito isoladamente, é ambíguo. Tem de ser precisado com o adjectivo “argiloso” porque há outros xistos que, tendo começado por ser argilosos, deixaram de o ser, na sequência de transformações no âmbito do metamorfismo. A forma lamelar (como nas micas) das minúsculas partículas argilosas determinou a fissilidade ou xistosidade desta rocha, quando o sedimento, que começou por ser, ficou sujeito a compressão. Esta característica que se revela pela aparência folheada e pela facilidade com que se deixa abrir segundo os correspondentes planos, está na base do termo brasileiro, folhelho, sinónimo do nosso xisto argiloso. 
É, sobretudo, no centro de Portugal, entre Castelo Branco e Coimbra, uma região do soco antigo marcada geologicamente pela presença significativa do Complexo Xisto-grauváquico, de idade câmbrica, que se situa a chamada Rede das de Aldeias de Xisto, que integra 27 aldeias, distribuídas por 16 concelhos.
A aldeia de Piódão, na Serra do Açor, concelho de Arganil, publicitada turisticamente como a “Aldeia Histórica de Portugal, é considerada uma das mais significativas desta relação do Homem com esta pedra e, sem dúvida, uma das mais belas do País. Com esta rocha, em tosco e de obtenção relativamente fácil, as populações rurais, desde as mais primitivas, construíram pelas suas próprias mãos, sem qualquer intervenção de engenharia ou arquitectura, muros, choças, cabanas, habitações e outras obras,
Nos dias de hoje e numa intervenção de pendor artístico, que pouco ou nada tem de rural, o xisto guindou-se a material de eleição de uma corrente arquitectónica moderna, especialmente posta em prática em vivendas. 
Um esclarecimento adicional e importante
Na verdade, a par do xisto, que deu nome sonante a estas aldeias, há sempre, mas sempre, uma outra, nunca falada, mas muito mais importante, quer em termos de solidez da pedra (mais coesa e rígida) usada nas ditas construções, quer em termos da respectiva quantidade. Essa outra pedra chama-se grauvaque, um nome que a geologia foi buscar ao alemão, “Graywacke” (termo introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Otto Lasius) que significa pedra cinzenta.
Enquanto que “xisto” é uma palavra antiga e de uso popular, em Portugal, “Grauvaque” é um jargão do foro geológico, só aqui chegado com os nossos geólogos pioneiros de finais do século XIX. Não admira, portanto, a omissão desta importante rocha nas referidas construções e no discurso a elas alusivo.
Mas o que é o grauvaque?
É umarocha sedimentar arenítica, coesa, com mais de 15% de matriz (muito fino), ocupando praticamente todos os vazios. Os grauvaques são rochas exclusivamente marinhas profundas, próprias do Paleozoico e do Precâmbrico. A sua génese está associada a um tipo particular de correntes marinhas que promovem uma alternância de deposição de materiais finos (argila e silte), de que resultam os xistos, e materiais arenosos que dão origem ao grauvaque.
Se quiser ir um pouco mais adiante, saiba que o grauvaque é um arenito impuro, de granularidade variável (de grãos finos a grosseiros), que contêm quartzo (20 a 50%), feldspatos sódicos e/ou potássicos, micas, litoclastos siliciosos, pelíticos e, muitas vezes, vulcaníticos. No cimento, além de minerais argilosos, com destaque para a ilite e a clorite, é comum a presença de carbonatos (calcite e/ou dolomite), sílica e óxidos de ferro. Da matriz faz parte uma fracção primária, sinsedimentar, e uma outra, secundária, pós deposicional, resultante de alterações de grãos minerais e líticos mais ou menos instáveis, no decurso dos processos diagenéticos tardios e metamórficos. 

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28.8.19

Profª Elisa Ferreira


Texto integral [AQUI]

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26.8.19

PROFESSORES, OS PILARES DA SOCIEDADE

Por A. M. Galopim de Carvalho
Quem não vir esta realidade ou é “cego” ou “tapa os olhos”.
Devo começar por afirmar que não estou aqui para agradar ou desagradar a quem quer que seja. Estou apenas a revelar a análise que faço de um problema nacional que sempre me preocupou.Em fins de férias ou, melhor em vésperas de um novo ano lectivo, a meio de uma campanha eleitoral sem qualidade no conteúdo e na forma, desejo saudar os professores (sem esquecer os educadores) das nossas escolas e reafirmar que os considero os pilares da sociedade e, uma vez mais, dizer a governantes e governados que É NECESSÁRIO E URGENTE RESTITUIR-LHES A ATENÇÃO, O RESPEITO E A DIGNIDADE QUE A LIBERDADE E A DEMOCRACIA LHES RETIRARAM.
Volto a dizer hoje o que já disse muitas vezes que, à semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há 45 anos, generosa, honradamente e de “mão beijada”, entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos, civismo e conhecimento. Continuamos um povo marcado por um défice “de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação” (palavras do Primeiro Ministro, António Costa). Entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à liberdade e à democracia está a Educação. E, aqui, volto a afirmar, a ESCOLA FALHOU COMPLETAMENTE.
Ao longo destes anos, verifiquei que:
- a preparação científica e pedagógica dos professores não tem sido devidamente testada, através de processos de avaliação a sério, criteriosamente regulados, por avaliadores devidamente credenciados.
- como no antigamente, a par de bons, muito bons e excelentes professores, muitos deles desmotivados, há outros, francamente maus, instalados na confortável situação de emprego garantido até à reforma;
- os sindicatos, nivelando, por igual e por baixo, os bons e os maus professores, têm grande responsabilidade numa parte importante da degradação do nosso ensino público;
- as sucessivas tutelas parecem estar mais interessadas nas estatísticas do que na qualidade do ensino;
- os programas oficiais amarram os professores, não lhes dando tempo para, como alguém disse, “divagações desnecessárias”;
- os professores estão sobrecarregados com tarefas administrativas e outras de que deveriam estar rigorosamente libertos;
- muitos deles vivem longe das famílias ou perdem horas nos caminhos diários de ida e volta a casa e a contarem os tostões.
Em finais de 2015, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, o Primeiro Ministro, disse: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
Palavras sábias, mas que não passaram disso. A verdade é que continuamos na mesma, cada vez com mais futebol e, agora, entretidos a tempo inteiro, dos pais aos filhos crianças, a dedilharem telemóveis.

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21.8.19

UMA CONVERSA SOBRE O SAL

Por A. M. galopim de Carvalho
A palavra sal foi-nos deixada pelos latinos ("sal, salis"), que tanto a empregavam para designar o produto material extraído, por evaporação, da água do mar, como para aludir, em sentido figurado, à vivacidade, à finura cáustica, ao espírito picante, ao bom gosto, à inteligência. E foi assim, com estes dois sentidos, que o sal entrou na nossa linguagem quotidiana, da menos à mais erudita.
Salada, no feminino é um prato de vegetais em cujo tempero entra o sal, mas no masculino, salado, significa salgado, do mesmo modo que salão é terreno salgadiço, salgadio ou salino. Salário, já o dissemos, foi ração de sal e é hoje significado de remuneração. Salé é carne salgada e saleiro tanto é o recipiente onde se guarda o sal, com o qual salpresamos ou salpicamos os alimentos no prato, como é o homem que vende sal ou o que o produz, isto é o salineiro ou marnoto. Mas saleira é o barco de fundo chato, do Vouga, que transporta o produto do seu trabalho. Salga é o acto de salgar, que o que os nossos pais faziam aos toucinhos e outras carnes, após a matança do porco, e às sardinhas que acomodavam em barricas para abastecer as populações do interior. Salgadinhos, comemo-los como aperitivos ou fazem o almoço frugal de muitos e salganhada ou salmonada é a falta de arrumo, é confusão. Salgados são as terras baixas, alagadiças invadidas por águas cuja salinidade ou salugem as torna salgadiças, sendo nestas baixas que, preferencialmente, se instala a salicultura ou salicicultura. Salicáceas são as plantas de uma família botânica, salicórnia é o nome vulgar de uma delas e salinómetro é o aparelho que mede o teor de sal. Salícula ou salífero é o terreno que produz sal. Salmoura é água mais ou menos saturada de sal, como a que conserva o atum e salmoeira, a vasilha. É ainda a água salgada que percorre o pipeline de Matacães até à Póvoa de Santa Iria, e salmurdo é sinónimo de sonso ou matreiro. Salobra ou salmaça diz-se da água mais ou menos contaminada com sal. Salsa, como adjectivo, é o mesmo que salgada; como substantivo é a erva que usamos como tempero de muitas confecções culinárias, mas é também sinónimo de molho. E, para terminar, salsicha e salpicão são nomes de enchidos temperados com sal.
Tal não aconteceu com "halós" a palavra dos gregos sinónima de sal. A passagem deste povo pela península, muito anterior à dos romanos, não teve nem a duração nem a importância da ocupação romana. Apenas no jargão científico e tecnológico dispomos de vocábulos construídos com base neste outro étimo. Diz-se que um solo é halomórfico quando salgado, que um organismo é halofílico quando suporta bem a presença de sal e dá-se o nome de halófitas às plantas desse conjunto. Chama-se halite ao sal-gema, halogenetos aos minerais salinos e haloquinese à deformação tectónica induzida pela presença de rochas salinas no seio das sequências afectadas. Hiper-halino, hipo-halino, termo-halino, euri-halinos, esteno-halinos, etc., são mais alguns desses termos, nestes casos usados em oceanografia.
Para os químicos, o sal é um composto resultante da interacção de um ácido com uma base, como, por exemplo, a do ácido clorídrico com a soda cáustica,
HCl+Na(OH)→NaCl+H2O
ou da acção de um ácido sobre um metal, exemplificada pela reacção do mesmo ácido sobre o estanho,
2HCl+Sn→SnCl2+H2↑
Cloretos, sulfatos, brometos, iodetos, carbonatos, fosfatos, etc. são sais. Porém, todos eles necessitam de um qualificativo que os distinga dos restantes.
Sal amargo ou sal de Epson – cloreto de magnésio
Sal de Bertholet – clorato de potássio
Sal de Fischer – cobaltonitrito de potássio
Sal de Glasser – sulfato de potássio
Sal de Glauber – sulfato de sódio
Sal de la Hiquerra – sulfato de magnésio
Sal de la Rochelle – tartarato de sódio e potássio
Sal de Vichy – bicarbonato de sódio.
Só o cloreto de sódio dispensa esse cuidado. Basta-lhe a palavra sal dita ou escrita isoladamente

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19.8.19

REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DA GEOLOGIA NAS NOSSAS ESCOLAS.

Por A. M. Galopim de Carvalho
Se há matérias que têm características passíveis de serem ministradas numa política de regionalização do ensino e que muito conviria considerar, a Geologia satisfaz esta condição. 
Portugal, de Norte a Sul e nas Ilhas, dispõe de uma variedade de terrenos que cobrem uma grande parte do tempo geológico, desde o Pré-câmbrico, com mil milhões de anos, aos tempos recentes. No que se refere à diversidade litológica, o território nacional exibe uma variedade imensa de tipos de rochas, entre ígneas, metamórficas e sedimentares e, no que diz respeito aos minerais, o número de espécies aqui representadas é, igualmente, muito grande, e o número de minas espalhadas pelo território e hoje abandonadas ultrapassa a centena.
Temos, muito bem documentadas, as duas últimas grandes convulsões orogénicas. A Orogenia Hercínica ou Varisca, que aqui edificou parte da vasta e imponente cadeia de montanhas de há mais de 300 Ma e hoje quase completamente arrasada pela erosão, e a Orogenia Alpina que, nas últimas dezenas de milhões de anos, entre outras manifestações, elevou o maciço da Serra da Estrela, à semelhança de uma tecla de piano que se levanta acima das outras, e dobrou o espectacular anticlinal tombado para Sul, representado pela serra da Arrábida.
Podemos mostrar aos nossos alunos muitas e variadas estruturas tectónicas, como dobras, falhas, cavalgamentos, carreamentos e uma excepcional discordância angular. 
Temos, à nossa disposição, múltiplos aspectos de vulcanismo activo e adormecido (nos Açores) e extinto, de um passado recente (na Madeira, há 7 Ma, e Porto Santo, há 14 Ma) e antigo de cerca de 70 Ma, entre Lisboa e Mafra. 
Temos fósseis de todos os grandes grupos sistemáticos e de todas épocas. Temos dinossáurios em quantidade e algumas das pistas com pegadas destes animais entre as mais importantes da Europa e do mundo.
Tudo isto para dizer que, no ensino da Geologia, para além de um conjunto de bases gerais consideradas essenciais e comuns a todas as escolas do país, as do ensino secundário, deveriam ministrar um complemento criteriosamente escolhido sobre a geologia da região onde se inserem.
Assim, e a título de exemplo, as escolas das regiões autónomas, aproveitando as condições especiais que a natureza lhes oferece, deveriam privilegiar o ensino da geologia própria das regiões vulcânicas, incluindo a geomorfologia, a petrografia, a mineralogia, a geotermia e a sismicidade (estas duas, nos Açores). 
Do mesmo modo, o citado vulcanismo extinto, entre Lisboa e Mafra, o maciço subvulcânico de Sintra (possivelmente um lacólito), o mar tropical pouco profundo que aqui existiu, durante uma parte do período Cretácico, deveriam ser objecto de estudo dos alunos da “Grande Lisboa”.
Os exemplos são muitos e cobrem todo o território. O termalismo em Chaves, São Pedro do Sul e em muitas outras localidades, os vestígios de glaciações deixados nas serras da Estrela e do Gerês, o complexo metamórfico e os granitos da foz do Douro, os “grés” de Silves, os quartzitos da Livraria do Mondego e a discordância angular da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) deveriam constar dos programas das escolas das redondezas.
Estes e muitos outros exemplos reforçam a ideia da possibilidade de uma adequada informação sobre a geologia regional a complementar um bem pensado programa de base comum a todas as escolas.

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17.7.19

As pedras...

As pedras são os livros onde estão escritas as histórias da Terra e da Vida. 
E as letras dessa escrita são, sobretudo, os minerais e os fósseis, mas também os elementos químicos e os isótopos.

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16.7.19

MIL CENTO E QUARENTA VEZES A HISTÓRIA DE PORTUGAL

Por A. M. Galopim de Carvalho
(do meu livro “COMO BOLA COLORIDA – A Terra, Património da Humanidade”, Âncora Editora, Lisboa, 2007).
No dia-a-dia, o tempo mede-se em horas, minutos e segundos nos mostradores dos nossos relógios de pulso. Na História, mede-se em anos, séculos e milénios, usando, para tal, pergaminhos, tabuletas de barro, papeis e outros documentos com significado cronológico. Na Pré-história do Homem faz-se outro tanto com base em utensílios e outros objectos e fala-se de milhares e, nalguns casos, de milhões de anos.
A escala do tempo dilata-se ao historiarmos o passado geológico e ainda mais se recuarmos aos começos do Sistema Solar e do Universo, onde os milhares de milhões de anos marcam as etapas percorridas com uma imprecisão que se esfuma nessa “eternidade”. Mil milhões de anos a mais ou a menos, nos primórdios da matéria de que somos, representam o mesmo grau de imprecisão do milhão de anos a mais ou a menos no tempo dos dinossáurios, do mais ou menos um ano na história do velho Egipto, ou do mais dia - menos dia, mais minuto - menos minuto, no tempo que estamos a viver, mais segundo-menos segundo nos cronómetros dos corredores desportivos.
No decurso da nossa existência revemos, sem dificuldade, o nosso tempo, o dos avós e até o da História, mas é com esforço que abarcamos ou evocamos a vastidão do tempo geológico, com cifras que só encontram paralelo na imensidão das distâncias astronómicas.
Como na História, também a Geologia necessita de documentos e esses temo-los nas rochas, quer sejam os fósseis, quer alguns dos seus minerais contendo isótopos radioactivos. Entre as variáveis susceptíveis de serem correlacionadas com o tempo, apenas duas têm lugar de forma irreversível, uma vez que, qualquer destes dois processos se desenvolve apenas num sentido: a evolução biológica e a desintegração radioactiva natural.
Porque de uma história se trata, a Geologia tem no tempo um dos seus pilares, sendo aí encarado sob duas perspectivas distintas: a de tempo relativo e a de tempo absoluto.
Na de TEMPO RELATIVO procura-se saber se um dado evento ocorreu antes, depois ou em simultâneo com outro, isto é, se lhe foi anterior, posterior ou contemporâneo. De há muito que as relações geométricas, observáveis no terreno, entre os diversos corpos rochosos aflorantes, têm sido utilizadas no estabelecimento da ordenação cronológica dos acontecimentos geológicos de que são testemunhos. Uma tal ordenação é particularmente evidente nas rochas estratificadas, nas quais os estratos ou camadas se sucedem numa imediata sugestão de sequência no tempo.
Tal ordenação é a mesma patenteada numa pilha de papéis na secretária de um burocrata. A relação entre o empilhamento dos estratos rochosos e o curso do tempo chamou a atenção do dinamarquês Nicolau Steno, no século XVII, constituindo uma das primeiras ideias fundamentais da geologia, conhecida por Princípio da Sobreposição, segundo o qual, “numa sequência estratificada não deformada, qualquer camada é mais moderna do que as que lhe ficam por baixo e mais antiga do que as que se lhe sobrepõem”.
Evidente à luz dos conhecimentos actuais, este princípio representa um avanço notável para a época em que foi enunciado. Nele se relacionam, pela primeira vez, as rochas estratificadas com o processo de deposição progressiva dos sedimentos que as integram, a que corresponde uma ideia de sucessão no tempo.
Como marcos cronológicos, também os fósseis, escalonados na cadeia evolutiva da biodiversidade, nos permitem uma abordagem do tempo relativo. No que se refere à evolução biológica, desde há muito que se constatou, através dos fósseis, que as espécies animais e vegetais do passado foram surgindo ao longo da história da Terra, se mantiveram durante períodos mais ou menos longos, acabando, quase sempre, por se extinguir, não voltando a aparecer.
Leonardo da Vinci (1452-1519) foi o primeiro a reconhecer os fósseis como testemunhos de outras vidas em épocas passadas. Até então e mesmo depois dele, os fósseis eram vistos como caprichos da natureza. Só no século XVIII se estabeleceu definitivamente a sua interpretação como restos de seres vivos do passado.
Os fósseis representam os elos de uma cadeia de complexidade crescente. Neste entendimento, e graças ao muito trabalho dos paleontólogos, sabemos, por exemplo, que as camadas de rochas sedimentares com fósseis de trilobites são mais antigas (Paleozóico) do que as que conservam ossadas de dinossáurios (Mesozóico) e que estas, por sua vez, são anteriores às que serviram de jazida aos mamutes ou aos australopitecos (Cenozóico), nossos avós. Este raciocínio, aqui exemplificado para grandes intervalos de tempo, ao nível das eras geológicas, faz-se correntemente para intervalos mais curtos, como são os representados pelos sistemas (períodos), séries (épocas), andares (idades), subandares e outros ainda mais reduzidos.
O mesmo tipo de conhecimentos habilita-nos a considerar geologicamente contemporâneas todas as rochas que, em quaisquer lugares, contenham os mesmos fósseis. Aplicável a muitíssimas espécies fósseis conhecidas, estes raciocínios têm vindo, a partir do século XIX, a permitir escalonar no tempo o conjunto das sequências de rochas sedimentares (e também em rochas metamórficas, num grau de intensidade relativamente baixo, como é o das séries paleozóicas de Norte a Sul de Portugal), onde se encontra o essencial do registo fóssil de toda a biodiversidade que nos antecedeu.
Na outra perspectiva, a do TEMPO ABSOLUTO, passível de quantificação, esta variável tem o sentido de duração e, assim, refere o intervalo que medeia dois acontecimentos ou o que decorreu entre um deles e o momento presente, isto é, a sua idade. Uma das vias mais frutuosas na medição do tempo geológico nasceu com a descoberta da radioactividade por Henri Becquerel, em 1896, e ganhou corpo com os trabalhos sobre a constituição e funcionamento do núcleo atómico levados a efeito por Marie e Pierre Curie e muitos outros físicos. Tais avanços da ciência, com reflexos na medição do tempo, foram sabiamente aproveitados por vários investigadores, entre os quais o geólogo inglês Arthur Holmes, que “só não foi prémio Nobel porque a Geologia não figura entre as disciplinas contempladas no respectivo regulamento”.
Executadas por rotina em muitos laboratórios de todo o mundo, as determinações de idade isotópica (baseada no comportamento natural de alguns isótopos radioactivos) de alguns minerais (feldspatos potássicos, moscovite, biotite, entre muitos outros) permitiram-nos enquadrar, em termos de cronologia absoluta, as grandes etapas da história da Terra a da Vida, muitas delas, de há muito definidas em termos de idade relativa. Sabemos hoje que a Terra se formou há aproximadamente 4540 Ma (idade ainda em discussão), que os “dinossáurios não avianos” (as aves, hoje aceites como descendentes de um certo grupo de dinossáurios, são, assim, “dinossáurios avianos”) fizeram a sua aparição há cerca de 235 Ma e que desapareceram, de vez, há 65 Ma. Sabemos que o granito do Porto tem 560 Ma, que o das Beiras tem à volta de 300 e que o de Sintra, apenas 85 Ma. E a lista de rochas e de acontecimentos de que conhecemos a idade absoluta é imensa e não para de crescer.
O trabalho monumental empreendido pelos paleontólogos, ao longo dos séculos XIX e XX, permitiu, como se disse, um aceitável escalonamento no tempo, baseado nos fósseis, e o estabelecimento de eras, períodos, épocas e outras divisões temporais mais finas. Posteriormente, mercê dos avanços no conhecimento geológico e dos progressos da física dos isótopos e das tecnologias de análise, dispomos hoje de uma escala cronostratigráfica na qual, com pormenor sempre melhorado, as divisões temporais, baseadas nos fósseis, estão agrupadas em intervalos de tempo de diferentes hierarquias, cotados por valores numéricos referidos à unidade de tempo geológico adoptada, isto é, o milhão de anos, nada menos do que dez mil séculos, uma enormidade no horizonte temporal das nossas vidas, mil cento e quarenta vezes a história de Portugal, mas uma migalha no tempo da Terra.

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29.6.19

SE NÃO HOUVESSE VENTO, NÃO HAVIA SURF, NEM BODYBOARD, NEM CERTOS PROCESSOS NATURAIS.

Por A. M. Galopim de Carvalho
Como toda a gente vê, estes dois desportos têm, por suporte natural, a vaga em rebentação na praia, o tipo de litoral a que aludi no post de ontem. Acontece que esta onda, um dos principais agentes da dinâmica actuante na zona litoral, não é mais do que a agitação da camada superficial das águas numa determinada “área de geração”, lá longe, no oceano, soprada pelo vento. A ondulação transporta quase toda essa energia (a do vento), sob a forma de ondas ou vagas, a caminho dos litorais, consumindo-a aí, quer na rebentação, quer nas “correntes litorais“, (um tema a abordar noutro post) a que dão origem. 
Ao aproximar-se de terra, e à medida que a profundidade se reduz, a crista da onda torna-se, progressivamente, assimétrica, tombando para a frente até rebentar.
As características físicas da ondulação (altura, período, frequência, etc.) reflectem a energia disponível e dependem da intensidade do vento, da duração da sua incidência e da “distância de colecta”, isto é, a extensão, em comprimento, da região do mar soprada pelo vento. Com poucas perdas durante a propagação, as vagas atingem os litorais, exercendo aí, sobretudo, erosão e transporte. Nos fundos arenosos não consolidados, situados a profundidades susceptíveis de sofrerem as acções das vagas, estas remobilizam uma parte mais superficial da cobertura móvel (em geral, areia, promovendo sedimentação (ou ressedimentação) muito particular, reconhecida pelas marcas de ondulação, ou “ôndulas”, que lhe são próprias.
A retenção, nas grandes albufeiras das barragens hidroeléctricas, da 
maior parte dos inertes , em trânsito nos rios, é uma das causas dos recuos verificados em certas linhas de costa. Outra causa reside na extracção industrial de inertes (areias e/ou cascalho), na ordem de muitos e muitos milhões de toneladas por ano, das praias, das dunas e dos rios, incluindo os estuários. O desassoreamento de portos e barras constitui uma outra causa dos referidos recuos. A construção de enrocamentos, como sejam os molhes e os esporões, com o fim de proteger determinados sectores da costa, acabam sempre por transferir o mesmo tipo de problemas para jusante e, geralmente, de forma agravada. A adulteração da paisagem física em nome do desenvolvimento é um facto que está a atingir proporções preocupantes. Os reflexos no litoral da intervenção do homem são hoje bem visíveis e as soluções encontradas, para os minimizar ou eliminar, nem sempre são as melhores. A conclusão a tirar desta realidade é a de que não se pode continuar a planear o litoral de costas viradas para os conhecimentos que a ciência já está apta a fornecer. Há, pois, que saber conviver com o mar e respeitar os seus códigos que já conhecemos com razoável pormenor. No sentido de minimizar estes inconvenientes, tem-se recorrido a ensaios realizados em tanques especiais, onde, em modelos reduzidos, se procuram simular as condições naturais e as alterações a introduzir, a fim de estudar os seus efeitos. Modernamente, com o desenvolvimento dos meios informáticos, estão a utilizar-se modelos matemáticos com idênticos propósitos.
Em conclusão e resumidamente, pode afirmar-se que a geometria e as características dinâmicas desta franja “onde a terra se acaba e o mar começa” resultam de um conjunto de factores e condicionantes naturais, a que se têm vindo a sobrepor outros, próprios da civilização, que não é despiciendo conhecer melhor. Para além das oscilações do nível do mar, ou eustáticas , e das deformações da crosta, quer epirogénicas quer orogénicas , sobressaem, por serem mais visíveis: a natureza e a estrutura das rochas (e a sua maior ou menor vulnerabilidade à erosão); o clima, em especial no que diz respeito à pluviosidade, à temperatura e aos ventos; e, ainda, outros factores, próprios do mar, como sejam as vagas (intensidade e orientação), as marés e as correntes marinhas. Em complemento das acções mecânicas destes agentes forçadores, são ainda importantes as de alteração química e/ou de dissolução que a água do mar exerce sobre as rochas do litoral, com efeitos variáveis em função das respectivas naturezas. Por outras palavras, pode dizer-se que esta interface da hidrosfera com a litosfera se define pelas leis naturais, ou seja, pelas leis da física e da química, sempre subjacentes aos processos geológicos e biológicos.
As vagas, desencadeadas por acção do vento, transmitem até ao litoral a energia que dele recebem e têm a sua acção erosiva grandemente potenciada pelo efeito abrasivo dos materiais (areias, seixos, blocos) que põem em movimento. Em resultado desta acção formam-se os litorais de erosão, ou catamórficos, caracterizados por arribas, ou falésias alcantiladas, que recuam à medida que aumenta a plataforma litoral ou de abrasão marinha. Deste recuo restam como testemunhos pontas rochosas, promontórios ou cabos escarpados, muitas vezes prolongados mar adentro por pontuações igualmente rochosas (ilhéus, baixios, escolhos, abrolhos, calhaus, pedras, etc., nos diversos modos de dizer locais), com destaque para a Costa Vicentina e para os cabos da Roca, de S. Vicente, de Sagres e do Carvoeiro, com a conhecida e elegante Nau dos Corvos.

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25.6.19

CONGLOMERADO, UMA PALAVRA VULGAR, COM IMPORTÂNCIA NO VOCABULÁRIO GEOLÓGICO

Por A. M. Galopim de Carvalho
Substantivo ou, como alguns gostam de dizer, sintagma nominal, a palavra conglomerado, construída a partir do adjectivo verbal do verbo conglomerar (do latim "conglomerare", com o significado de aglutinar, aglomerar, agregar ou juntar), em que o elemento aglutinador pode ser uma cola, um cimento, uma vontade expressa, um acordo ou outro, é uma expressão vulgar da língua portuguesa com um significado geral, o de elementos unidos numa massa ou corpo coeso, e múltiplos significados particulares, como, por exemplo, conglomerado de estrelas, conglomerado de madeira ou conglomerado de empresas.
No discurso geológico corrente entre profissionais, o vocábulo conglomerado, em sentido restrito, dito ou escrito isoladamente, refere uma rocha sedimentar coesa, resultante da aglutinação de calhaus arredondados ou rolados, em que o elemento aglutinante é um cimento natural, que tanto pode ser de natureza argilosa, como siliciosa, carbonatada ou ferruginosa.
Por convenção entre sedimentólogos e em termos de sistemática, na petrografia sedimentar, o termo conglomeradotem um sentido mais amplo, o de uma subclasse no conjunto das rochas sedimentares terrígenas, ditas conglomeráticas, caracterizadas pela dominância de fenoclastos(do grego phainós, visível, eklastós, quebrado), no sentido de fragmentos, clastos ou detritos rochosos ou minerais, maiores dos que os grãos de areia, ou seja, por convenção, de diâmetro superior a 2mm, independentemente do seu carácter coeso (consolidado) ou incoeso (mobilizável) e do grau de arredondamento dos ditos fenoclastos, variando, como se disse, entre muito bem arredondados e angulosos. 
Para a rocha consolidada, de natureza sedimentar vulcânica, tectónica ou impactítica,em que os fenoclastos são angulosos, foi criado o vocábulo brecha,que fomos buscar ao francês brèche,radicado noverbo alemão brechen, que significa, fender, abrir brecha, partir. Assim sendo, este vocábulo tem sempre de ser complementado pelo termo que refiara a sua proveniência sedimentar, vulcânica, tectónica ou impactítica (do impacto de um meteorito). Em petrologia sedimentar, especificam-se assim: conglomerados, numa só palavra, e brechas sedimentares.
Em 1873, o geólogo alemão, Karl Friedrich Naumann (1797-1873), propôs, para esta subclasse, o termo Psefit,psefito, em português (do grego psephós, que significa calhau ou seixo rolado). Quarenta anos depois, em 1913, o americano Amadeus William Grabau (1870-1946) deu-lhe o nome de ruditerudito, em português, (do latim rudus, alusivo a rude e rudimentar), termo que, de início, envolvia a ideia de material detrítico grosseiro, pouco trabalhado, tosco, isto é, calhau pouco ou nada boleado pelo transporte.
Psefitos e ruditos, dois termos antigos que interessa manter vivos, não só como nome de uma subclasse, referente às citadas rochas conglomeráticas, mas também, em muitos casos, como nome dos próprios fenoclastos que, individualmente, as constituem. Nesta óptica, o termo psefito ou o rudito, tanto podem ser usados para referir um conglomerado (no dito sentido restrito) ou uma brecha sedimentar, como um seixo bem rolado ou um qualquer clasto anguloso.

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22.6.19

Corredoira e Agueiros

Por A. M. Galopim de Carvalho




As praias são entidades instáveis. Quando a vaga incide obliquamente ao litoral, a areia retirada e reposta pelo vaivém das ondas vai migrando, em ziguezague, numa trajectória serreada, com uma resultante paralela à linha de costa, no sentido que as condições locais ditarem, referida entre os profissionais por "deriva litoral". Também apelidada de longitudinal ou longilitoral, a deriva é conhecida entre as nossas gentes do mar por "corredoira". 
Na costa portuguesa, no litoral arenoso entre Espinho e o Cabo Mondego, atingido por ondulação maioritariamente do quadrante NW, a deriva tem o sentido N-S e é da ordem de grandeza de um a dois milhões de metros cúbicos de areia por ano (1 a 2.106 m3/a). Na costa algarvia, esta cifra é bem menor, dez a cem vezes inferior, sendo aí W-E o sentido da deriva. O cabedelo da foz do Douro e a restinga de Troia, por exemplo, têm orientação meridiana e apontam para Norte, em consequência do sentido N-S da deriva que aí se faz sentir.
Quando a ondulação se aproxima perpendicularmente ao litoral (nesta situação, a rebentação é paralela à costa) formam-se "correntes de retorno" ou "agueiros", que deslocam os sedimentos para o largo (impedindo a deriva longilitoral), espalhando-os na plataforma continental e/ou permitindo-lhes o escape para os grandes fundos, através dos canhões submarinos. No caso das praias assim expostas à vaga, a linha do litoral é uma sucessão de reentrâncias, em forma de crescente, com a parte côncava virada ao mar. Sempre que a linha de rebentação é paralela à costa, não há, praticamente, deriva. As correntes nestas praias afastam-se do litoral, pelo que constituem grande perigo para os banhistas.
Uma praia pode manter-se, crescer, recuar ou ser totalmente varrida pelo mar, consoante o balanço que aí se estabelecer entre a erosão e a sedimentação. Nestes termos, uma praia minimamente estabilizada indica uma situação de equilíbrio entre a quantidade de sedimentos que recebe de terra (das arribas ou através dos rios) ou do mar (através das ondas e da deriva litoral) e a que lhe é retirada pelo mesmo mar.
O litoral arenoso comporta-se, pois, como um “rio de areia” que corre ao longo da costa, mais ou menos veloz, transportando maior ou menor carga sólida. Com uma parte emersa (praia emersa) e outra submersa (praia submersa), o litoral arenoso mantém-se enquanto os sedimentos, que recebe de “montante”, compensarem os que perde para “jusante” e para o largo. Esta mobilidade conduz a perfis transversais de Verão (perfil de acalmia ou de calmaria), com declive mínimo, diferentes dos de Inverno (perfil de temporal), de mais alta energia, mais abruptos e com roturas de declive.
granulometria dos depósitos de praia varia, igualmente, com a energia disponível. Assim, em condições de acalmia, ao muito pouco declive da face da praia associam-se as areias mais finas. Pelo contrário, o aumento de energia subtrai-lhe os detritos mais finos, deixando os mais grosseiros (areão e cascalho), uma situação compatível com maiores declives da face da praia.

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