31.5.19

Só o Berardo é que nos faltou ao respeito?

Por Joaquim Letria
Antes do espectáculo de Joe Berardo no Parlamento já eu tinha falado na garagem do bi-comendador na Madeira, única coisa que se conhece que o homem possui e que terá sido bastante para sacar mil milhões à banca. Agora toda a gente fala em Berardo e, sobretudo, todos dando mostras de grande indignação.
É verdade que o homem esteve ali a tourear a Assembleia da República e cuspindo para cima de todos nós. Mas a verdade é que já muitos outros fizeram o mesmo ou pior e ninguém se irritou nem quando eles se riem e gabam entre os seus amigos.
Será que a cara de parvo e a falta de memória de Vitor Constâncio não terá sido idêntica à boçalidade de Berardo? Um fulano que é vice-presidente do Banco Central Europeu e não se lembra dos dez anos da sua vida que passou como Governador do Banco de Portugal não está a gozar connosco? É que não se tratou duma ou outra imprecisão, ou duma possível vaga ideia, estamos a falar de amnésia total! É isto algum respeito pelo Parlamento e por todos os cidadãos, acima do desplante de Berardo!?
E o papel de estúpido representado por Zeinal Bava, ex-administrador da PT, que também foi ali garantir que não se recordava das negociatas que fizera com outros em nome daquela que poderia ter sido uma companhia de bandeira, a par da TAP, não terá também sido um desplante, uma falta de vergonha, principalmente quando diz não ter ideia de quando pagou 800 milhões de euros?! E alguém se indignou com esse  papel?!
E quando o ex-ministro da Defesa foi ao Parlamento explicar que não sabia nada do roubo das armas de Tancos e depois também lá vai um general dizer que pensava ter uma ideia como as armas tinham sido entregues por quem as roubou numa palhaçada a que chamaram de achamento não estão a faltar-nos ao respeito?!
Então já não se lembram da Maria Fernanda Barbosa, directora da cadeia de Paços de Ferreira, quando foi explicar aos deputados como na sua prisão os reclusos se divertiam e até chegavam a organizar bailaricos? Não estaria a senhora a gozar com os deputados e a chamar-nos parvalhões!?
O Joe Berardo abusou. Certo. Mas não andaram estas encomendas todas a gozar connosco? E já agora: os fulanos da banca que entraram nestes esquemas a mando de políticos e estes que faziam as jogadas vergonhosas de que nos vamos dando conta tiveram algum respeito por nós? O mal disto tudo é que daqui a uns dias já não se fala nisto. Como se deixou de falar em Pedrógão.
Quando comecei a ser repórter e escrevia sobre casos de crime, havia um velho polícia que me dizia: ”Isto só se resolve metendo todos dentro para averiguações”. Lembro-me muitas vezes dele e hoje acho que ele tinha razão.
Publicado no Minho Digital

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30.5.19

Vaticano – O Papa e o aborto

Por C. Barroco Esperança
Quando se procuram sinais positivos de uma Igreja, especialmente através do seu líder, e se cria uma imagem favorável, a realidade acaba por desiludir.
O atual Papa católico, Francisco, que teve a coragem de condenar a pena de morte, que persistia no catecismo romano, que humildemente se interrogou sobre o direito de julgar comportamentos que o clero mais jurássico considera pecados graves, acaba por assumir uma inaudita intolerância contra as mulheres, na linha dos antecessores.
A condenação dos meios precoces de diagnóstico pré-natal, se tiverem em vista a IVG nos casos de malformações, não é apenas um caso de insensibilidade masculina, é uma opção que compromete a saúde da grávida e a obriga a carregar fetos teratogénicos.
A condenação da IVG, em qualquer circunstância, mesmo em caso de violação, incesto, risco de vida da mãe e malformação fetal, revela a insensibilidade de que só os clérigos são capazes.  É o delírio misógino das sotainas contra as mulheres.
O Papa Francisco é contra o aborto por malformação do feto: “Será lícito contratar um assassino para resolver um problema?”– pergunte ele –, e apela aos médicos para se recusarem a interromper a gravidez, em qualquer circunstância.
O Papa condena a IVG, sem remorso nem vergonha, perante grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida; quando há motivos seguros para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de grave doença ou malformação congénita; quando há a certeza de que a gravidez resultou de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual da mulher.
Grave não é o que pensa o Papa ou o que, a esse respeito, decida cada mulher, alheia ao sofrimento próprio e do filho que gera, perigoso e inaceitável é impor, através de leis, a violência do preconceito, a maldade da crença e a crueldade da alegada vontade divina, de que se julga intérprete, a quem recuse ou não possa suportar tal fardo.
Se o aborto fosse masculino, o bairro de 44 hectares de celibatários, de conduta suspeita e duvidosa sensibilidade, talvez o elevasse a sacramento, mas como a vítima é sempre a mulher, a misoginia dos dignitários do único Estado mundial sem maternidade, ignora a humanidade e o mais elementar respeito pela decisão da vítima.
A este Papa não se aceita a sintonia com a Liga, de Salvini, à semelhança do patriarca Clemente com a coligação Basta, de André Ventura.
As Igrejas permanecem cruéis e veículos de retrocesso civilizacional.

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27.5.19

Apontamentos de Lagos

No 30.º Aniversário do 25 de Abril, a CML inaugurou este monumento a Salgueiro Maia, na rua com o seu nome, sendo o pedestal e o correspondente busto iluminados por dois holofotes. 
E estaria tudo muito bem, se não se desse o caso de, a certa altura, o da direita (muito apropriadamente...) ter sido desligado, pois alguém resolveu aplicar, ali, o chamado «Plano de Contenção Energética» — como se podia ler no autocolante de que, por sinal, ainda lá há vestígios. Portanto, quando, mais tarde, a outra lâmpada se fundiu, o Dia da Liberdade foi comemorado da forma que a foto da esquerda mostra. Este ano, no 45.º aniversário da mesma data, o monumento apresentava o aspecto que aqui se documenta, voltando a receber apenas luz da esquerda — e, nesse aspecto, não há nada a dizer, pois assim é que “bate tudo certo”... 
Quanto aos cravos vermelhos que se vêem junto ao busto, eles foram ali colocados por um anónimo, por contraponto às coroas de flores que, em Lagos, estão reservadas para a estátua do Infante — que, essa sim, tem sempre direito, a 13 de Novembro, a reportagem e fotos para a posteridade. 
Apesar de tudo, e pelo que conhecemos do generoso herói, achamos que ele preferiria ficar assim — discreto, fora das luzes da ribalta, e, claro, bem longe daqueles que são o oposto de tudo o que ele foi e representou. 
NOTA: julgamos que não teria encarecido a obra colocar o par de datas 1944-1992 que, aliás, é o mínimo que se exige num monumento destes. 
"Correio de Lagos" de Maio 2019

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26.5.19

Grande Angular - Nós e o património

Por António Barreto
As eleições chamam a atenção para a definição do que é a Europa. E cada vez mais sobressai uma evidência: realmente europeu é o património. A história e a cultura. À cultura europeia também pertence a religião, que não nasceu na Europa, mas na Europa se fez e hoje aspira à universalidade. E outros fenómenos europeus, como as liberdades, os direitos humanos e a democracia, deixaram de ser distintivos, são de vários continentes e espera-se que possam vir a ser do mundo inteiro. Também o Estado social parece ter as suas raízes na Europa, mas começa a ser olhado por outras paragens. Ao contrário de outras áreas, o património é o mais sólido e perene traço distintivo da Europa.
A Europa está a perder todos os dias para a América, a Ásia, o Próximo Oriente e a China. Talvez até para a Rússia e a Índia, mais tarde. A Europa tem cada vez menos a oferecer ao mundo. O património é, com a protecção social, o que a Europa tem de melhor e diferente, que outros não têm, têm menos ou diferente. A cultura é mesmo o que a Europa mais dá ao mundo inteiro, às centenas de milhões de turistas que vagueiam pelo mundo. O que vêm fazer essas pessoas à Europa? Beber, dormir, bronzear e comer, seguramente. Mas tudo isso pode também ser feito e consumido noutros sítios. O património é que não. Está construído, preso à terra e aos edifícios, fechado em museus, presente na sociedade, nos vales e nas planícies. E nas cidades.
Já ninguém duvida da existência da crise na Europa, na União e nos países europeus. O que a pode salvar? E o que pode salvar Portugal? Evidentemente, a liberdade, a economia e a ciência. Mas isso também se arranja noutros sítios, não faz a diferença. O que nos pode salvar e distinguir é a cultura e o património. A batalha da competitividade está perdida. Nada nos permitirá chegar aos pés dos Estados Unidos ou da China. As batalhas da ciência e da tecnologia estão perdidas, não tão inexoravelmente quanto as da competitividade, mas não teremos a hipótese do primeiro lugar. Com muito trabalho, um honroso segundo ou terceiro lugar. Mesmo se com atributos especiais, a democracia começa a viver por outros lados também. O Estado de protecção social é um bem querido, mas não é necessariamente uma oferta ao mundo. Já o património cultural é distintivo, único, com enorme capacidade de atracção. Cidades, aldeias e regiões, monumentos, edifícios e artes diversas. Há uma geografia patrimonial única e atraente. O património é uma realidade humana com valor. Ajuda-nos a viver. E a sobreviver. O património tem a vantagem de, sendo europeu, é irremediavelmente nacional. Tem identidade.
Com a Europa em crise económica, tecnológica e política, a cultura deveria transformar-se em prioridade. Do Estado, da sociedade e dos povos. Em tempos de capitalismo desregulado e de negócios sem escrúpulos, Portugal vai perdendo todos os dias. Para se distinguir da Europa e para a Europa se distinguir do mundo, só o património e a cultura. Sublinhe-se o património. Na verdade, tudo o que é móvel é transportável por definição. Por isso os museus e as salas de teatro e música do Próximo Oriente, do Japão e dos Estados Unidos proliferam.
Adefinição de prioridades para a cultura é uma das mais difíceis tarefas que se conhece. Especialmente porque, na hora de fazer contas, é considerada supérflua e dispensável. Além disso, definir prioridades é escolher e deixar alguém de fora. Ora, grande parte dos beneficiários das políticas culturais tem voz alta. E os “agentes culturais” têm altifalantes potentes, enquanto os autores do património estão mortos. Infelizmente, o património não ganha eleições. Mas o património é urgente.
O crescimento do turismo nos últimos anos foi um maná para a economia e o emprego. Foi talvez a mais importante contribuição para o crescimento económico. Já se percebeu que os turistas não vêm apenas pela praia e pelo vinho. As cidades, a paisagem, o património construído e humano, uma certa maneira de viver, os preços baixos, uma boa localização geográfica, paz nas ruas e ausência de violência religiosa ou política: tudo isso conta. Verdade é que o património tem desempenhado papel importante na atracção de visitantes. Basta vê-los, de pé, ao sol, em filas de espera de duas horas para entrar nos Jerónimos ou na Torre de Belém. É verdade que esses são fenómenos especiais, os restantes monumentos exibem números menores. Mas o certo é que as cidades interessantes (por exemplo Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e Braga) não aguentam mais. Os conjuntos monumentais importantes (por exemplo Jerónimos, Belém, Batalha, Cristo e Alcobaça) não resistem mais. E muitas pequenas cidades estão a rebentar.
Portugal tem pouca cultura clássica para mostrar. Com excepção dos festivais pop e rock, os museus, os teatros e as salas de música são pouco visitados. Mas o que tem é importante. E o mais interessante é o sítio, a geografia, as cidades e o património. Tudo está a rebentar pelas costuras. A hotelaria está talvez a desfigurar parte das cidades. O peso, o stress e a pressão do turismo ameaçam destruir em poucos anos o que demorou séculos a construir. Portugal não soube prever este crescimento.
Em menos de vinte anos, o número de passageiros nos aeroportos passou de 20 para quase 60 milhões por ano! Em menos de quinze anos, o número de turistas passou de 11 para 21 milhões. E o de estrangeiros de 5 para 13 milhões. Se é verdade que uma boa parte do bem-estar actual se deve ao turismo, não é menos verdade que uma bomba ao retardador está à espera. A sociedade portuguesa não está preparada para esta avalanche. O património está mal protegido.
Outros acontecimentos recentes obrigam-nos a pensar a política de cultura e de património. Para além da intriga e do crime, as colecções Berardo, BES e Ellipse são realmente de importância excepcional. São milhares de obras (pintura, escultura, fotografia, livros e moedas) à espera do mercado, dos especuladores e dos tribunais, uma tríade fatal.
É razoável perguntarmo-nos o que se deve fazer com estas obras importantes. A pergunta é simples: deve o Estado comprar ou não? Desde que o negócio seja limpo e que se respeite a lei, o Estado deve comprar, conservar e divulgar. Para já, impõe-se a interdição de exportação. Moedas e livros são património histórico. Pintura, escultura e fotografia passarão a sê-lo. E tudo será património público. É assim que deve ser.
Longe de nós, Notre Dame recorda a eternidade da história e a fragilidade do património. E a certeza da cultura.

Público, 26.5.2019 

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NÃO HÁ PLANETA B

Por A. M. Galopim de Carvalho
Para vergonha dos governantes de todo o mundo, rendidos ao poder da alta finança, os adolescentes de todo o mundo lutam, unidos, em defesa do seu futuro.
Quem estudou ou estuda geologia, ainda que a nível básico, sabe que, ao longo dos milhões de anos da história da Terra, houve várias crises planetárias de naturezas diversas (megaimpactos meteoríticos, intenso vulcanismo, variações do clima e do nível do mar e outras que ignoramos) de que resultaram extinções, à escala do planeta, de grande número de espécies, uma das quais, a mais divulgada, há cerca de 65 milhões de anos, pôs fim a cerca de dois terços das espécies de então, entre as quais os dinossáurios. Sabe também que, a seguir a essas crises, novas espécies surgiram adaptadas às novas condições ambientais.
O Homem, feito dos mesmos átomos de que são feitas as estrelas, os minerais, as plantas, os outros animais e tudo o mais que existe, é matéria que adquiriu complexidade tal que se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir no seu próprio curso e no do ambiente onde foi “fabricado”. Ele é um estado que julgamos ser o mais avançado da combinação dessa mesma matéria, capaz de pensar e fazer aquilo a que chamamos Ciência, isto é, observar, descrever, relacionar, explicar, induzir, prever. O Homem, na sua possibilidade de adquirir conhecimento e de o transmitir, de criar religiões e as mais diversas formas de arte, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a totalidade do tempo do universo, estimado em cerca de 3 800 milhões de anos. Assim, a Ciência, através do Homem, pode ser entendida também como expoente máximo da matéria que se questiona a si própria. Pode dizer-se que a Natureza “pensa” através do cérebro humano e, com igual razão, pode aceitar-se que o Homem deu voz à Natureza. Tais capacidades colocam-nos a nós, humanos, numa posição de grande vantagem entre os nossos pares no todo natural. Mas teremos nós o direito de gerir a Natureza apenas em nosso proveito, agredindo-a como tem sido regra, sobretudo a partir da Revolução Industrial, no séc. XIX, com intensidade exponencialmente crescente e alarmante nos dias de hoje?
A Terra, no quadro em que se nos apresenta nos dias que estamos a viver, é o resultado de um sem número de agressões sofridas ao longo da sua velhíssima história, a que se junta a que, todos os dias em vão, tem vindo a ser denunciada pelos cientistas. A Terra, sabemos hoje, é um corpo que se autorregula e, como tal, sempre soube encontrar resposta a todas essas agressões e vai, sem dúvida, continuar a fazê-lo. Os danos que lhe estamos a causar, no mau uso que dela fazemos, é mudar-lhe as condições que nos são favoráveis e que bem conhecemos, dando origem a outras, já previstas pela ciência, que nos serão adversas. Assim, ao atentarmos contra a Natureza, estamos, certamente, a atentar também contra nós contra a humanidade, contra, já, aos milhões de crianças que, como a pequena sueca Greta Thunberg, desfilam em milhares de cidades do mundo, a lembrarem que não há planeta B. Acaso deixou de existir mundo natural aquando das grandes extinções em massa?
Numa ânsia desenfreada de lucro e de prazer, a civilização industrial incontrolada está a caminho de nova extinção em massa (todos os dias somos alertados sobre espécies extintas e em via de extinção) que, certamente, nos vitimará também. Porém, o planeta – e os geólogos têm consciência disso – irá prosseguir, mesmo sem a inteligência do Homem, e acabará por encontrar novos caminhos, em obediência apenas às leis da física, incluindo as do acaso, podendo voltar a ensaiar um outro ser inteligente ou, até, mais inteligente do que esta versão moderna, egoísta e estúpida do Homo sapiens, que somos nós. Para tal só necessita de tempo, de muito tempo, e isso não lhe irá faltar, uma vez que estimamos em mais cinco a seis mil milhões de anos a sua existência como planeta, até que o Sol, na sua evolução como estrela, nos envolva num imenso brasido.

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24.5.19

As Eleições Europeias e os Ilusio-malabaristas

Sempre que sou abordado em peditórios de rua, procuro saber quem está por detrás deles para, tendo em conta a credibilidade que lhes está associada, decidir se hei-de dar a minha contribuição ou passar de largo.Imagine-se, agora, que um belo dia me aparece pela frente um Grupo Excursionista a pedir o meu óbulo, mas dando-me razões para suspeitar de que, afinal, o dinheiro irá direitinho para um tal Grupo de Teatro de Marionetas. Ora, sabendo eu que se trata de entidades completamente diferentes, é natural que questione o solicitante acerca do descaminho do meu dinheiro, até porque, entre a próxima passeata dos excursionistas e a exibição das marionetas, mediará quase meio ano.Imagine-se, então, que recebo como resposta que «étudo a mesma coisa, os corpos gerentes até são os mesmos, pelo que é natural que, ao dar para o peditório de agora, esteja, na realidade, a dar para o próximo».

Obviamente, a rábula é uma metáfora do que sucederá nas próximas EUROPEIAS, se o voto que nelas vamos dar vier a ser contabilizado como se fosse para as LEGISLATIVAS, numa repetição do que se passou em 2004 com Durão Barroso e, de certa forma, com Guterres, quando, dois anos antes, o PS perdeu as autárquicas. Em ambos os casos, tratou-se de deserções imperdoáveis, pois essas duas personagens, a quem o povo havia confiado o GOVERNO do país, pegaram nos votos colocados numa urna e fizeram-nos aparecer noutra, num exercício de prestidigitação que Luís de Matos não desdenharia.E o pior é que, quanto às eleições deste ano, há boas razões para recear que algo de semelhante poderá suceder, pois já ouvimos, de-viva-voz, António Costa, Rui Rio e Nuno Melo afirmarem que «as eleições EUROPEIAS são para APROVAR ou CENSURAR o GOVERNO»; ou seja: umas “primárias” que eles inventaram, sem nos explicarem com que legitimidade o fizeram.
Acresce a isso que os acontecimentos do início deste mês não são de molde a fazer-nos pensar que eles arrepiem caminho — o que será perverso, pois, numas EUROPEIAS, só seria desculpável centrar as atenções para a actuação do GOVERNO se a EUROPA não enfrentasse questões bem graves: a começar pelo défice de natalidade — que, a par do envelhecimento da população, acarreta a necessidade de imigração, que, por sua vez, facilmente alimenta o nacional-populismo e a xenofobia, como se vê em muitos países europeus. E embora, até à data, Portugal tenha estado imune aos aspectos mais extremos desses fenómenos, o “inverno demográfico” (que é o mais grave problema europeu dos últimos tempos) não dá mostras de vir a ser enfrentado pois, para os actuais políticos, o mundo termina na ponta do seu nariz, e o longo-prazo nas eleições seguintes. 

E problemas europeus é o que não falta: ele é o Brexit, os refugiadosa recessão sempre possível, os portugueses espalhados por essa Europa fora, a defesa europeia, a pressão da China e dos EUA, o dinheiro dos contribuintes europeus que pode deixar de vir, a PAC que tantos recursos absorve, os possíveis impostos e FA comuns, a volatilidade do turismo...para já não falar dos problemas climáticos, do facto de a Europa depender das importações de energia em mais de 50%... e por aí fora.
Então porque é que, acerca dessas questões, pouco ou nada ouvimos aos que agora nos pedem o voto? Será que acham que não vale a pena perder tempo com eleitores que, na sua maioria, votarão apenas segundo as suas preferências partidárias?Não sei. Mas sei que os valores da abstenção (que todos choram com lágrimas de crocodilo) só têm a ver com a sensação da inutilidade do voto, a par do descrédito da classe política, onde não escasseiam malabaristas — como os deste “peditório” para o qual, segundo dizem, não podemos deixar de dar.
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“Correio de Lagos” de Maio 2019

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Luther King a lutar contra a despromoção

Por Joaquim Letria
Vamos conversar sobre futebol para não cairmos na fantochada da política e deslizarmos para a armadilha das eleições europeias. Mas também podem estar descansados que não vou atraí-los para os escândalos das arbitragens nem para o fim do campeonato nem para a final da Taça de Portugal. Vou chamar-lhes a atenção para aquilo de que ninguém fala e nos pode fazer sorrir.
Raramente tenho paciência para assistir a um jogo inteiro de futebol pela televisão, e ir ao estádio, que era o que durante muitos anos eu fazia e apreciava, deixou de ser uma hipótese a considerar por causa do incómodo e excitação dos doentinhos da bola. os fans dos verylights e a selvajaria das claques.
Assim, passei a ver os resultados no telemóvel e os resumos na TV, quando me lembro, e ocasionalmente escuto os relatos dos jogos pelas rádios. E confesso que este é o meu meio preferido, porque os relatores conseguem criar uma excitação e um prazer com o entusiasmo dos seus relatos que aqueles jogos sem interesse nenhum que vemos pela TV até parecem animados e entusiásticos.    
É precisamente através destes relatos que me dei conta dos nomes e pseudónimos que muitos jogadores adoptaram assim me surpreendendo como aconteceu no fim de semana passado quando descobri que Luther King luta num clube português por não descer de divisão e Jefferson tem estado lesionado mas alinha orgulhoso na equipa principal do Sporting.
Conheço muitos casos de jogadores que adoptam os nomes de grandes figuras antigas do futebol. Por isso ouvimos vários Pelés a jogar em diversos campeonatos, a transalpina glória do antigo Pizzi a alinhar pelo Benfica numa versão mitigada e há pelo menos um ou dois Platinis a jogarem por aí. A coragem ainda não chegou a Maradona, Messi ou Ronaldo, mas vão ver que será uma questão de tempo. Agora grandes figuras da História e da Humanidade, como é o caso de Luther King, é uma surpresa e faz-nos recear o aparecimento de muitas outras grandes figuras. Que tal um campeonato recheado de Gandhis, Mandelas, Mao Tse Tung e Churchills? E Estaline e Trotsky a alinharem na segunda divisão, e Marx, Engels e Lenine a naturalizarem-se para poderem jogar na nossa selecção e Rosa Luxemburgo a alinhar pela equipa feminina do Sporting de Braga, actual campeã nacional?!
Esta delícia é mais detectável na Rádio do que na TV ou nos jornais. Por isto também prefiro os relatos radiofónicos. A gente sabe que muitos destes nomes também têm origem nas favelas e nos bairros problemáticos da América Latina onde os pais alimentam os maiores sonhos para o futuro dos seus filhos, enquanto outros vêm da admiração por certas figuras. Há por aí uns Adolfos de quem a gente desconfia, mas não há nenhum Nasser, Sadat, Sadam ou Gadhafi. Enfim, se prestarem a mesma atenção aos nomes dos jogadores de futebol que os viciados nas apostas dedicam aos nomes dos cavalos podem encontrar alguns motivos para apreciarem ainda mais os nossos campeonatos e ligas de futebol.
Publicado no Minho Digital

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23.5.19

Eleições europeias_2019

Por C. Barroco Esperança
Nunca as eleições europeias foram tão importantes como as atuais e tão desinteressantes como as tornaram os candidatos a eurodeputados.
Os portugueses, sobretudo os europeístas convictos, os que não se refugiam na desculpa de quererem a União Europeia, mas não esta, como se a que existe não resultasse das escolhas eleitorais dos países que a integram, sentem-se frustrados com os temas alheios ao nosso futuro comum.
A UE não pode alhear-se da guerra comercial entre os EUA e a China nem da influência de Trump e Putin a favor da extrema-direita. Enquanto a Polónia e a Hungria arruínam o Estado de direito democrático, estas eleições passam ao lado dos direitos humanos, das alterações climáticas, da erradicação dos paraísos fiscais, da imigração de que necessita e da exigência de respeito, a quem chega, pelo seu ethos civilizacional.
Os candidatos estão mais empenhados nas lutas internas dos seus partidos nacionais do que na afirmação de posições ideológicas perante os grandes problemas que ameaçam a Europa e o Mundo.
A defesa, o comércio, a diplomacia, a segurança social, a paz e a posição da UE perante os grandes blocos e as suas ambições geoestratégicas estiveram ausentes da campanha, como se a UE estivesse condenada a ser um satélite americano, chinês ou russo.
A defesa da ONU, única instituição capaz de garantir um módico de justiça nas relações internacionais e na defesa da paz, é abandonada, quando está ameaçada pelos interesses dos piores dirigentes políticos do Planeta que a pretendem minar e dominar.
Portugal perdeu o TGV quando eram fartos os apoios financeiros e a UE tinha melhores dirigentes, agora está à mercê da chantagem que as empresas de transportes rodoviários queiram fazer e com maior dificuldade em reduzir o consumo de combustíveis fósseis.
Revejo-me como europeu português na defesa da civilização e da cultura da Europa, na promoção dos direitos humanos, solidariedade e paz que só a coesão da UE assegura, e, sobre isso, os candidatos nada disseram para que cada eleitor pudesse decidir o voto.
Já é tempo de os Governos deixarem de acusar a UE pelas medidas impopulares que as crises cíclicas do capitalismo obrigam a tomar, e os eurodeputados nada dizem sobre as medidas que propõem para superar a próxima crise ou transformar o modelo que a rege.
Uma coisa é certa, seremos todos cada vez mais dependentes uns dos outros e não são os nacionalismos exaltados que preservam a paz e evitam a catástrofe provocada pelo aquecimento global, a poluição, as armas nucleares, a escassez de recursos, a falta de alimentos e água e a bomba demográfica que não para de explodir.
Não é com o imediatismo da conquista do poder em cada um dos países que se resolve a precipitação no abismo para que o nosso modelo de sociedade de consumo nos conduz.
A campanha eleitoral para a UE foi a oportunidade perdida para discutir e pensar uma alternativa que pode já não chegar a tempo.
Sinto-me dececionado, e sei que Portugal ficaria pior fora do que dentro da UE.

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22.5.19

Apontamentos de Lagos

Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Maio 19

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20.5.19

MISTER CATARINA

Por Joaquim Letria
Confesso-me freguês das séries da RTP2.Foi aí que há uns meses vi uma interessantíssima série norueguesa (os nórdicos têm cada vez mais qualidade) cuja história era uma mulher que treinara equipas femininas de futebol e, de repente, recebe um convite dum clube da primeira divisão para ser treinadora da sua equipa principal.
Esta é a linha mestra e muito interessante da história da série que mostrava episódios muito bem feitos onde se via , para lá das rotinas dos jogos e dos treinos dirigidos por uma mulher, num lugar sempre e só ocupado por homens, toda a complexidade da função, neste caso envolta nas dificuldades que naturais preconceitos geram, a nível de equipa, jogadores, estrutura do clube, accionistas e, sobretudo, adeptos e claques, incluindo também os adversários, todos eles ainda dominados por preconceitos e sentimentos a serem ultrapassados.
Achei uma bela ideia, gostei da realização e da direcção de actores e pronto, não falaria mais nisso, julgava eu, depois de ter guardado na memória esta série que se chama “Jogar em Casa” e que era protagonizada pela Helena Mikkeison, uma óptima actriz. Mas eis-me a falar nisso  porque a realidade superou a ficção, e logo em Portugal!  
 Catarina Lopes aceitou comandar os homens da primeira equipa do Beneditense (da Benedita) que disputa o campeonato distrital de Leiria, tornando-se na primeira mulher portuguesa a desempenhar tais funções e, certamente, a tornar-se uma raridade na Europa e no mundo. E aí a temos a mandar numa molhada de matulões…
É a primeira mulher que ocupa estas funções numa equipa dos campeonatos nacionais. E eu interrogo-me sobre como é que os seus jogadores lhe chamarão. Mister Catarina ou Mister Lopes? Ou na linguagem do nosso futebol vamos passar a ouvir também Miss e Mrs.?
Um dia destes vou à Benedita ver um jogo da  equipa da Catarina. Gostaria que ela subisse o Beneditense de divisão, que lhe confiassem um clube mais visível e adoraria vê-la a mandar num  clube da Liga. A sério! Quanto mais não fosse para demonstrar uma vez mais, e para sempre, que ninguém trava as mulheres e que a realidade tem, muitas vezes, muito mais imaginação do que a ficção.
Publicado no Pasquim da Vila   

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19.5.19

Grande Angular - Estado frágil, país vulnerável

Por António Barreto
Já se sabe que o Estado português não é forte, mas é gordo. Pesado. Lento. E presa fácil. Os últimos anos têm sido confirmação dessa verdade. Pode dizer-se últimos quatro anos, de socialistas e esquerdas. Últimos oito, se acrescentarmos a aliança PSD/CDS. Ou mesmo catorze, com os seis dos socialistas de Sócrates. Não vale a pena tentar culpar o “governo anterior”, como eles próprios fazem. Já se percebeu que é receita gasta. O estado a que chegámos traduz um processo de deterioração política e institucional para o qual têm contribuído governos, parlamentos e muito mais gente. Só que, se não serve dizer que “são todos culpados”, também não vale diluir as responsabilidades. Para cada caso, é sempre possível designar no espaço e situar no tempo. Sem isso, não há remédio.
Jamais saberemos se a acumulação de casos na comunicação se fica a dever a coincidências ou ao ano eleitoral. É possível que esta última seja a hipótese adequada. Mas isso faz parte da democracia. Quando há eleições, ajustam-se contas, fazem-se promessas, castiga-se e recompensa-se. E também há quem se vingue.
Bastou um homem e a sua singularidade para deixar em crise as instituições nacionais, os órgãos de poder, a banca, os jornais e as televisões. Um só homem, apoiado em peritos na utilização do Estado e do direito, consegue pôr em cheque o sistema de justiça e vários governos. Um especulador, especialista em despertar a libido dos ministros, foi capaz, com a promessa de dar lustre artístico ao governo, de conquistar a idolatria dos clientes, a cumplicidade do governo e o silêncio das instituições artísticas do país. Usou e foi usado, mas imprimiu o seu toque especial.
Um outro homem, apoiado num partido, com a colaboração de ministros, advogados e predadores de várias origens, exerceu seis anos o cargo de Primeiro-ministro e deixou marca profunda na história da vilania política, enfraqueceu as instituições, transformou políticos em agentes sem mérito nem qualidade, mas com uma capacidade de impostura só comparável à sua covardia.
Outro homem, com família, reputação e fortuna, soube condicionar a seu proveito a economia do país, as suas finanças e muitos políticos, conseguiu contribuir decisivamente para a destruição ou a alienação da banca portuguesa e de algumas das melhores empresas, numa acção única da história do país, só talvez comparável aos estragos feitos pelas revoluções. 
Há mais casos que ensombram e atormentam os nossos dias. Greves de camionistas que, em poucos dias, deixaram uma sensação de pânico. Ameaça permanente de incêndios que revela a falta de previsão, a preparação da última hora e a dependência de traficantes. Adquirido em suspeitíssimas circunstâncias, o sistema de comunicações de segurança revela-se incapaz de dotar o país daquilo para que foi encomendado, eficiência na emergência. Um roubo de material de guerra levado a cabo em estranhas condições que deixaram as Forças Armadas em questão, o governo em cheque e as polícias em crise. As comissões de inquérito parlamentar, neste caso sobre questões de energia, aprovam o que a maioria quer e lhe convém.
Este breve catálogo peca por defeito. O pior nem é a gravidade dos crimes e do abuso. O pior é que a sociedade, o Estado e as instituições permitem o que nos acontece. Assim se revela a incapacidade de regular e vigiar. A ausência de instituições livres e eficientes. A morosidade das polícias e dos tribunais. A miopia de muita imprensa. A facilidade com que as elites económicas, políticas e artísticas se deixaram aliciar e seduzir. A covardia ou a cupidez de muitos que vão sempre sabendo o que se passa, mas calam ou só revelam quando lhes convém. A falta de agilidade dos organismos públicos incapazes de reagir prontamente. O pior é que as instituições políticas e judiciárias não estão à altura dos criminosos.
O nepotismo faz evidentemente parte da teia complacente. As famílias dos ministros, mulheres e maridos, filhas e filhos, genros, irmãos, netos e sobrinhos, estão incluídos. É estranho que a esquerda, ainda por cima a esquerda democrática, que tanto diz lutar pela igualdade, contra o nepotismo das aristocracias, pelo laicismo, pela neutralidade do sangue e da condição social, é estranho que esta esquerda seja cúmplice. Tinha de ser a esquerda democrática que viria, com hipocrisia, a valorizar a conjugalidade na política e a defender o velho principio da moral corrupta e do nepotismo: “Não é por ser da família de alguém, que uma pessoa pode ser penalizada!”.
Não são só as famílias, nem os políticos. Perto deles, a par deles, às suas ordens ou no seu comando, estão os escritórios de advogados poderosos, com meios e pessoas, com reputação e força, conhecedores de segredos de pessoas, de partidos e de empresas. Apoderaram-se do Estado e dos ministérios, recebem encomendas para contratos, acordos, cadernos de encargos, PPP, operações financeiras, defesa do Estado contra privados e defesa dos mesmos privados contra o mesmo Estado. Esta espécie de Mamelucos do direito exerce hoje tanta ou mais influência do que grupos privados, sindicatos, partidos políticos, igreja católica ou maçonaria!
O que também enfraqueceu o Estado democrático foram as privatizações e as reprivatizações que moldaram a política e a economia das duas últimas décadas. Feitas aparentemente pelas boas razões, por espíritos liberais, concebidas para libertar a sociedade e a economia, levadas a cabo com as melhores intenções expressas, acabaram por ser o leilão histórico de empresas, a destruição de algumas, a alienação irreflectida de outras e a entrega de poderes a grupos de predadores nacionais e estrangeiros. Assim se liquidaram, alienaram ou miniaturizaram empresas e sectores como os telefones, os cimentos, a electricidade, os petróleos, a rede eléctrica, o gás, os correios e outras.
Catervas de políticos à solta, bandos de capitalistas (nem todos empresários…) e de traficantes de influência (nem todos ilegais…), associados a advogados e seus escritórios, ligaram-se ao poder político com mais profundidade e mais intimidade do que o Estado Novo salazarista ou o comunismo de Cunhal e Gonçalves e estreitaram o seu conúbio com dois partidos, o PS e o PSD. Governam a sociedade e a política. E até agora não encontram diante de si instituições livres, independentes e eficazes que lhes ponham travão. É o que faz um país vulnerável.
Público, 19.5.2019 

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17.5.19

Recôndita Harmonia

Por Joaquim Letria
Nunca perdi o gosto muito particular pela Rádio, não só o de trabalhar nela, de que tenho muitas saudades, mas também de a ouvir. Todos os dias, pela manhã cedo, ou à noite, antes de dormir, tenho o hábito de ouvir Rádio, por muito mal que ela possa ser feita – e é – por as vozes não serem adequadas, pela montagem ser descuidada e sem gosto, por não haver regularmente a identificação de estação – o que nos leva muitas vezes a estar a escutar não sabemos quem nem o quê, nesta Rádio dos nossos dias.
A Rádio continua a ser para mim, eu que trabalhei em todos os meios de comunicação social, uma grande paixão repartida com o sortilégio do anonimato e velocidade das agências de notícias. Mas se tivermos paciência, soubermos procurar e houver bons profissionais – e há – vale a pena ligarmos o receptor e fecharmos os olhos para escutar.
Tenho uma aparelhagem topo de gama em que podia ouvir Rádio, mas só a utilizo para escutar CDs ou estações mundiais via internet. Prefiro, no entanto escutar a Rádio de que gosto através de pequenos transístores que tenho espalhados pela casa e através dos quais ouço emissões boas e más, quase como dantes em onda curta se ouvia a BBC ou a Rádio Moscovo. Foi num desses pequenos transístores que a Antena 2 (“A Rádio que Toca”, como eles dizem ) me deu a ouvir uma emissão dum programa da saudosa Maria Helena de Freitas, numa actual emissão dum programa de memória. E foi assim que de olhos cerrados ouvi aquela ilustre senhora contar-nos o libreto da Tosca, recordar-nos Puccinni e falar-nos dos intérpretes que eram Montserrá Caballé e José Carreras e explicar-nos o significado da maravilhosa ária Recôndita Harmonia saída do génio de Puccinni.
Verdade que a TV (através do Mezzo e do Intermezzo) nos oferecem jóias musicais. Mas infelizmente, pelo desfasamento dos tempos e dos meios técnicos que havia e há, nem sempre podem fazer aquilo que Maria Helena de Freitas fazia e a Antena 2 faz, e que é animarem a nossa memória e enriquecerem o nosso conhecimento.
A memória rica da Antena2 assenta no espólio da antiga Emissora Nacional que nos punha a ouvir música e teatro radiofónico da maior qualidade. Que saudades eu tenho da beleza e do conhecimento que aqueles programas nos transmitiam. Que bom e que saudades de ouvir representar Cármen Dolores e escutar Raul de Carvalho a contracenar com Eurico Braga, a música de Luis de Freitas Branco, o emocionante concurso internacional de piano Viana da Mota, transmitido em directo ao longo de três dias, a Callas a cantar em São Carlos, os comentários de Maria Helena de Freitas, de Francine Benoit e de João de Freitas Branco e a vozes únicas e irrepetíveis de D. João da Câmara e de Maria Leonor. Uma saudade tão grande como a sentida por David Mourão Ferreira, Vitorino Nemésio, João Vilarett, Amália Rodrigues, António Pedro e Homem de Melo que nos apareciam na RTP. Tudo isso veio ao de cima com aquela Recôndita Harmonia, sem razão nenhuma para assim acontecer, a não ser pelo sortilégio em que a Rádio é capaz de nos mergulhar.
Publicado no Minho Digital

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16.5.19

A União Europeia, os impostos e a justiça social

Por C. Barroco Esperança
É irrelevante defender que os bancos, seguros, comunicações, saúde e ensino podiam e deviam ser, não em exclusivo, essencialmente estatais, em particular, aeroportos, portos, e redes viárias. No entanto, querer tudo ao mesmo tempo não é uma utopia, é um erro que pode ter efeitos contraproducentes.
Nenhum país é autossuficiente para poder definir a sua política, sem constrangimentos que a geopolítica impõe. A necessidade de integrar grandes blocos é evidência óbvia.
Sem União Europeia não teria sido possível aplicar uma multa de 2,42 mil milhões de € à Google por violar as regras de concorrência no serviço de compras online. A aplicação de multas milionárias a gigantes tecnológicos que vendem bens e serviços, como Apple, Starbucks, Amazon ou McDonald's, não seria possível a um único país e, muito menos, a países cujas máquinas fiscais são inaptas para tributar os gigantes tecnológicos.
A competição fiscal entre países, dentro da UE, levou esta a deixar de cobrar mais de 5 mil milhões de euros de impostos ao Faceboock e à Google, entre 2013 e 2015, através do domicílio na Irlanda. A competição fiscal entre membros do mesmo espaço político e económico acaba por ser ruinosa para todos.
Ainda não foi descoberta forma mais eficaz de corrigir ou atenuar desigualdades sociais que não seja através de impostos. E será também através deles que passará o combate às alterações climáticas que a simples necessidade de respirar e de beber água tornam cada vez mais urgentes.
A Europa está numa encruzilhada da qual só sai pelo aprofundamento da união política, económica e social ou pela nociva e perigosa desintegração cujo rombo mais devastador foi desferido pelo leviano referendo britânico em marcha turbulenta para o Brexit. Sai o país com maiores tradições democráticas e fica um gigantesco enclave de reacionarismo católico integrista, hostil ao europeísmo e habituado ao autoritarismo, a Polónia, entre outros de menor dimensão.
O combate à desertificação, às alterações climáticas e à poluição, bem como a procura de energias alternativas e a defesa da vida no Planeta, não estão ao alcance de um único país, são tarefas que exigem o empenhamento coletivo.
A Europa nunca possuiu tanta riqueza como hoje, mas nunca teve tão parcos recursos com que contar no futuro. A bem ou a mal, vai ter de pensar na herança que deixará às gerações que privou do que lhes era devido.

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13.5.19

SEM IDENTIFICAÇÃO DE CHAMADA

Por Joaquim Letria
Alguns “call centers” e certos serviços comerciais deixam-nos doidos e impacientes, ainda que eu tenha muito respeito por quem me fala para vender, oferecer, regatear ou discutir coisas e loisas das marcas que usamos.
Este meu respeito é motivado pelo facto de muitas e muitos dos meus antigos alunos em Universidades onde dei aulas ganharem a vida  e a possibilidade dum curso superior trabalhando nesses call centers,  ou sendo caixas de supermercados. 
Por princípio eu não atendo chamadas sem identificação. Se repararem nos anúncios classificados, já nem as trabalhadoras do sexo atendem chamadas dessas. Todos queremos, e bem, saber quem vem lá ou ficar a saber quem era.
Pois por não atender chamadas dessas, durante mês e meio recebi no meu iphone 17 tentativas de anónimos por dia. Uma praga! E se tentava atender, ninguém respondia. Fui a uma loja da marca da minha operadora, à assistência ao cliente, a um especialista de computadores e telemóveis, a uma loja de paquistaneses no corredor duma estação de metro, e nada! Estive quase a deitar fora o meu iphone, a  comprar um andróide e a mudar de operadora.
Andava eu nas minhas lamúrias a propósito, e encontro um colega que me diz: ”Vamos falar com este meu amigo que trabalha com o Xamix.  A verdade é que o Xamix sabe tudo, por muito que devesse não saber…
Foi remédio santo: a origem das impertinentes chamadas era da minha própria operadora que queria vender-me um produto novo e não dava conta de que o seu computador na sua programação originava este incómodo insuportável a um seu próprio cliente.
Como sou prático e odeio discussões, expliquei-lhes e mudei de operadora só para castigar os irresponsáveis funcionários e directores daquela que eu usava há quase dez anos. E lembrei-me que ao fim de 15 anos também mudara de outra que me mentira e tentara aldrabar-me com uma história mal contada de fidelização. Agora vamos ver… como não há mais, se esta não se portar bem, subscrevo outra… no estrangeiro.
Publicado no Pasquim da Vila   

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12.5.19

Grande Angular - Europa, sem ilusões

Por António Barreto
Há dias, este jornal publicou uma carta comovedora. Foram 21 os Chefes de Estado europeus que se dirigiram aos cidadãos do continente, exortando-os a amar a Europa e a votar nas eleições. Como é sabido, declarações deste género só se fazem quando as coisas ameaçam correr mal. Geralmente, correm mesmo. Eram só os 21 Presidentes da República. Os monarcas, também chefes de Estado, estavam ausentes, o que é incompreensível, ou foram excluídos, o que é inadmissível. Eram países sem importância, como a Bélgica, a Dinamarca, a Espanha, a Holanda, o Luxemburgo, o Reino Unido e a Suécia.
O texto é curioso. É uma profissão de fé na Europa. Chefes de Estados que já se detestaram e guerrearam inúmeras vezes juntaram as suas vozes em prol da Europa. É bonito ver! Tão bonito quão inútil! Eles imploram votos e pedem entusiasmo: é quase tudo o que não vão ter! A crise da Europa e as crises na Europa não se resolvem com mais Europa, o que é o mesmo que dizer com mais crise! Nem com Ágapes ou Credos.
Apesar das enormes taxas de abstenção, o pensamento dominante na Europa é de que é possível, com educação e propaganda, aumentar a participação. Entre os mitos virtuosos relativos à União, contam-se o da cidadania e o da democracia. Ora, não existe uma cidadania europeia, nem uma democracia europeia. Há cidadãos nacionais na Europa, tal como há democracias na Europa. 
Uma ideia fixa é a de que existe uma identidade europeia, quando é evidente que existem identidades nacionais, possivelmente em bom convívio com a Europa, mas uma identidade europeia é uma invenção. Outra ideia persistente é a de que a Europa deve estar próxima dos cidadãos, resolver os problemas das pessoas e ser sentida como uma realidade na vida quotidiana de todos. Se assim for, as crises desaparecerão, o nacionalismo será derrotado, os fanatismos serão combatidos e os inimigos da Europa poderão ser destroçados. Os europeus perceberão a bondade da ideia europeia. A União será uma realidade quase familiar. São estas as ilusões que abundam no nosso continente, as mesmas que poderão liquidar tão interessante criação como a União!
As crises europeias, segundo os ortodoxos, resultam do facto de não haver suficientemente Europa. Daí a solução conhecida de “Mais Europa”, com o que as dificuldades aumentam. Sempre que surge um problema, seja uma mera questão de identidade e de autonomia, de imediato aparecem os sacerdotes europeus a bramar contra o nacionalismo e assim se dá, ao contrário do esperado, mais força ao nacionalismo.
A Europa ainda é invejável pela cultura, pela protecção social, pelos direitos dos cidadãos e pela paz. Mas já não o é na ciência, na tecnologia, na inovação, na economia, na produtividade, na defesa e na força política no mundo. Destruir as grandes conquistas europeias, que são conquistas dos Estados e das nações, significa simplesmente desistir do que a Europa tem de grande e importante, a sua variedade, a autonomia dos seus países e a identidade dos seus Estados e cidadãos.
A democracia e a liberdade têm geografia. Talvez, dentro de uns séculos, seja diferente. É possível. Mas, para já, quem defende a liberdade, a democracia e os nossos direitos são os Estados nacionais que conhecemos, com os seus parlamentos, os seus tribunais, as suas forças armadas e as suas polícias. E até com as suas alianças internacionais, como a NATO e a UE. São os Estados e as nações que garantem direitos e liberdade. Quem quiser reclamar Justiça, segurança, direitos fundamentais, protecção e solidariedade, dirige-se ao Estado nacional.
Alguém sensato acredita que um Parlamento com 750 deputados, vindos de 28 países e falando 24 línguas oficiais seja capaz de defender os direitos dos cidadãos? Alguém se revê num Parlamento em que os deputados não são reconhecidos pelos seus eleitores, não representam pessoas e não tem meios para cuidar das liberdades e dos direitos dos europeus?
Alguém sente como seu um Parlamento com enorme capacidade de dissolução dos problemas e das diferenças, onde qualquer mudança à direita num país é compensada por igual mudança à esquerda noutro país? Se, dentro de uma semana, Portugal fizer uma viragem política, logo a Lituânia compensará, votando de outra maneira. Aquela assembleia não é um Parlamento, é um lugar geométrico e um passatempo. Ou Cafarnaum, cidade de esperança, destruída na confusão.
Haverá alguém capaz de dizer o nome de cinco comissários? Ou de enumerar os países membros? Ou de citar os nomes de três presidentes da Comissão? Ou de saber as diferenças entre o presidente do Conselho, o presidente do Parlamento e o presidente da Comissão?
Aideia de que há uma só União, a que temos, é uma ideia despótica, como sempre que existe um dilema. Querer uma União diferente da que temos, menos federal, menos unitária e mais variável não significa ser nacionalista, fascista, xenófobo e anti-europeu. Há várias Europas e várias Uniões possíveis. Com e sem nações. Com e sem federação. Com e sem geometria variável. Com ou sem euro e Schengen. Com e sem fronteiras abertas a terceiros. É detestável a ideia de que só existe uma Europa, uma só União, uma só modalidade! Isso é puramente totalitário! Existem mutas Europas possíveis, tudo depende das escolhas, da força dos países, da convergência ou divergência de vontades maioritárias.
É verdade que a União está sob ameaças. Dos seus rivais, Rússia, China e Estados Unidos. Dos seus inimigos, nacionalistas de extrema-esquerda e de extrema-direita. Sobretudo de si própria, dos que insistem em dizer que a União se deve construir contra os Estados, contra as identidades nacionais e as pátrias.
Como já toda a gente percebeu, nas próximas eleições europeias, apesar de tantos candidatos dizerem com ar seráfico que querem “discutir a Europa”, a verdade é que se vai votar nacional, Lisboa, Paris, Londres, Madrid, Barcelona, Roma e Milão. Mas, como o voto não tem efeitos, a maior parte dos eleitores não vai votar. Os que, nesse dia, o fizerem, votarão por causa dos imigrantes, da corrupção, dos bancos, do salário mínimo, da saúde, das filas de espera, dos atrasos na justiça, da criminalidade, dos incêndios, do racismo, da violência doméstica e da pobreza. Quem votará por causa das directivas europeias e das estruturas de decisão?
Quem realmente pode destruir a Europa e a sua União é quem se revela intolerante e autoritário, quem utiliza a Europa contra a identidade nacional. Quem se limita a acreditar. Quem sonha com sociedades sem geografia e sem identidade. E quem fantasia com países sem cultura e sem autonomia. Quem cultiva a pior das armas: as ilusões. 
Público, 12.5.2019 

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11.5.19

O FALHANÇO DO NOSSO SISTEMA EDUCATIVO

Por A. M. Galopim de Carvalho
“Promover a reflexão sobre os acontecimentos actuais, fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz”. São palavras de UNESCO, atiradas ao vento que, infelizmente, muitíssimo pouco ou nada no têm tocado.
Tudo o que nelas se pretende promover está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos programáticos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. Mas a verdade é que continuamos a ser um povo maioritariamente desinteressado pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e em que a maioria dos simpatizantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias.
O Primeiro Ministro António Costa tem perfeita consciência desta  “vergonha nacional” (palavras minhas) quando diz: “De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
A Revolução de Abril, escancarou não só as portas, como os portões e as janelas, ao conhecimento nos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas vivemos 45 anos, praticamente, de costas voltadas para estes valores, entretidos com futebol, lutas entre os aparelhos partidários, e três televisões, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós, que “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da incultura em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo, sem ter aproveitado o prazer de saber e com isso ter participado numa sociedade melhor.
Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja “munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”, a verdade é que (só falo da experiência que tive) são muitos os rapazes e as raparigas, que pouco ou nada leram, que chegam à universidade falhos de todas as culturas, sem saberem escrever português.
Os teóricos que aconselham os governos pretendem (ilusoriamente e estou em crer que sem convicção) que o jovem, cumprida a escolaridade obrigatória, “seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”, mas basta ver a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para constatar a falência deste nobre propósito.
Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a “colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”. Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante e se manifesta como se vê nas lamentáveis e degradantes “Queima das Fitas”, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem.
É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino.
Os professores devem saber muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que devem ter por missão ensinar, não se podendo limitar a meros transmissores dos tantas vezes estereotipados, deficientes e acríticos manuais de ensino. Para tal, necessitam de tempo, e tempo é coisa que, no presente, não têm. Há, pois, que libertá-los das tarefas que não sejam as de ensinar e rever toda a política dos ditos manuais, em especial no que diz respeito à creditação científica e pedagógica dos autores e à correspondente supervisão;
É necessário e urgente fomentar, como inerência de cargo, a dignificação e o respeito pelo professor, duas condições que lhes foram retiradas com o advento da liberdade que os militares de Abril nos ofereceram e que a democracia não soube aproveitar, e que a Escola recupere todas as competências fundamentais à disciplina, aqui entendida como observância às regras democraticamente estabelecidas. 
A remuneração dos professores tem de ser compatível com a sua real importância na sociedade. Um professor universitário (que é avaliado, pelo menos três vezes ao longo da carreira) não é nem mais nem menos importante do que uma educadora de infância ou de um professor ou professora do ensino básico ou do secundário. Por outro lado há que resolver o grave problema da colocação de professores, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias
É, pois, preciso e urgente que a pasta da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos respectivos titulares, como nas dotações orçamentais que permitam dar às escolas as necessárias condições de trabalho.
Em suma, é preciso e urgente olhar para a realidade do nosso ensino e haver vontade política (despida de constrangimentos partidários) para promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta nossa “máquina ministerial” poderosa e nebulosa, de há muito, instalada.

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10.5.19

Os Chibos são uns heróis

Por Joaquim Letria
Guardo a imagem da Dra. Ana Gomes em pose com o rapazinho Rui Pinto a quem foi entregar o prémio europeu de melhor bufo.
Estes bufos, agora, são chamados “whistlle blowers”, literalmente “os sopradores de apitos”, ou utilizando o nosso calão tradicional, aqueles que “põem a boca no trombone” denunciando pessoas e situações com contrapartidas por parte de quem os quer ouvir, negociando com as autoridades, no caso de terem sido apanhados a praticarem crimes Se falarem não serão condenados ou dão-lhes uma pena levezinha.
Rui Pinto tentou abotoar-se com uma pipa de massa e húngaros, alemães e franceses já o tinham abarbatado, mas ele trocava tudo por bufar estes e aqueles com o que diz que sabe, e diz que sabe muito.    
Quando havia actividades políticas contra a ditadura, na clandestinidade, falar na polícia, mesmo sob tortura, era bufar. Alguns não aguentaram a brutalidade da tortura física, ou iam-se abaixo com golpes psicológicos, ou sucumbiam às alucinações provocadas pela tortura do sono e os seus camaradas puniam-nos com o desprezo e o ostracismo de que não se recuperava.
” Fulano falou!” A gravidade de falarem é que metiam outros camaradas na cadeia e destruíam as estruturas da luta, montadas com grande sacrifício e trabalho, além da moralmente imperdoável colaboração com o inimigo contra os seus.
Hoje, que não há presos políticos em Portugal, o bufo perdeu a antiga identidade que tivera na ditadura. Bufos também eram todos os que iam denunciar colegas de trabalho, homens e mulheres que interessassem às polícias, conversas de café, suspeitas infundadas, etc. Mas no mundo daqueles que fogem à justiça, mas mantêm códigos de honra (ainda há quem os tenha), bufar é chibar e um bufo passou a ser um chibo, merecedor do mesmo desprezo devido aos bufos de antigamente.
Mas hoje, polícias, magistrados e políticos, mesmo os que se dizem democratas, estão de acordo que é mais fácil prender para investigar do que investigar para prender. E desse esquema faz parte aquilo que todos eles chamam de “delação premiada”. Ou seja, aquilo que a Ana Gomes anda alegremente a premiar.
Uma coisa são os casos de Assange e Snowden, que tiveram a coragem de revelar ao Mundo grandes crimes contra povos e contra a humanidade, correndo o risco de serem presos ou mortos. O resto são estes rapazinhos que puserem a boca no trombone, mesmo com inverdades, contra quem queremos ou nos convém.  A esses, a gente dá-lhes um prémio e chama-os de heróis.
Publicado no Minho Digital

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