31.3.19

Grande Angular - Questões de família

Por António Barreto
democracia portuguesa vive mal com as famílias. Herdou as cunhas do antigamente, os empenhos, o favor, uma mãozinha, o jeito e o empurrãozinho… Com a democracia, estes hábitos foram modernizados e, por acréscimo, reorganizados, isto é, passaram a ter uma componente partidária essencial. Com a crença, por muitos cultivada, de que “quem ganha as eleições, tem direito a nomeações”! Há mesmo quem chame a isso “ética republicana”!
Na história moderna portuguesa, do fim da Monarquia à democracia, passando pela primeira República e pelo Estado Novo, vivemos agora certamente o ponto mais alto de promiscuidade familiar e partidária, de envolvimento de laços familiares na política, de entrosamento de parentesco com os órgãos de soberania e a alta Administração Pública.
O governo de António Costa representa talvez o mais denso caso de cruzamentos familiares no governo e nos órgãos de soberania. Que se saiba, o Primeiro-ministro não cometeu, para realizar tal façanha, nenhuma ilegalidade. Mas tem de ouvir o que se pensa dele e desse facto. Não pode por isso considerar que lhe querem mal. Como não pode simplesmente dizer que os outros fizeram pior!
Há, aliás, precedentes extraordinários. Na China, Mao Tse tung e sua mulher. Os irmãos Castro em Cuba. Os irmãos Kennedy nos Estados Unidos. Donaldd Trump com mulher, filha e genro na Casa Branca. Juan Perón e suas mulheres na Argentina. Kadhafi e filhos na Líbia. Em França, François Hollande e mulheres. António Costa tem esse direito, nada impede nas leis portuguesas de nomear familiares, casais e parentes. Tem é de ouvir o que dele se diz e dele se pensa. 
E não se pensa muito bem. O mal-estar é enorme. Toda a gente se sente incomodada. Mesmo os que beneficiam. Entre estes, uns tantos reagem à bruta, isto é, defendem-se, atacam os outros, agridem e ameaçam, o que apenas revela não estarem de consciência tranquila, nem terem argumentos. Outros ficam envergonhados, julgavam que não se daria conta e esperavam que não se visse ou não soubesse.
Costa e os dirigentes do PS já cometeram dois erros gravíssimos! Primeiro, disseram que “os outros também”, isto é, reconheceram que era mal feito, mas que o mal dos outros justificava o seu. Segundo, tentaram compensar as suas nomeações de parentesco com a passagem, promovida por outros governos, de ministros para as empresas privadas. Que dizer, mais uma vez, tentaram desculpar o seu mal com o mal dos outros, isto é, simplesmente, reconheceram o seu mal!
Verdade é que se confirmou que quase todos os anteriores governos e quase todos os partidos, na oportunidade, fizeram algo de parecido. Sem a mesma densidade e de grau diferente. Mas fizeram-no. Vários contributos para este debate recordaram casos idênticos em quase todos os governos. O problema é que de facto nunca se tinha assistido a esta quantidade. Nem a este grau de importância. Houve um tempo em que era hábito as mulheres dos ministros e dos deputados serem chefes de gabinete e adjuntas de outros ministros e deputados. Desde sempre, é também um hábito de alguns eurodeputados contratarem para seus assessores, consultores e assistentes os filhos, as mulheres, os maridos e outros parentes. Agora, no coração da política, no Conselho de Ministros e nos Grupos Parlamentares, é prática corrente. É moda e é tendência.
Quase todos os partidos, portanto. Uns mais do que outros, pois claro, até porque há razões sociais para este fenómeno. Talvez o PS mais do que os outros, com certeza. E talvez o PCP menos do que os outros. Mas, com o PCP, as coisas são diferentes. Na verdade, este partido condena o enriquecimento individual, o que quer dizer que não tolera quem ganhe com a política. Por outro lado, não admite a ideia de que há outras formas de exercício do poder e de avanço na carreira política que não sejam as decisões do comité central e da comissão de quadros. Verdade é que, pelas más razões, o PCP escreve direito. Ainda bem.
Voltemos aos partidos burgueses e aparentados. Todos aceitam os laços familiares, desde que sejam os seus. Todos condenam os vínculos de parentesco, desde que sejam os dos outros. É um pouco como futebol. O principal critério da legalidade e da moralidade é a cor da camisola. Na política, é o nome do partido.
Não se pense que se trata sobretudo de enriquecimento e de dinheiro, de nepotismo e de corrupção. Tudo isso é verdade, em doses e proporções variáveis. Mas o verdadeiro problema é o da confiança política. Um ministro, um Primeiro-ministro e um secretário de Estado têm evidentemente muito mais confiança na mulher, no marido, nos filhos, nos cunhados e nas primas do que em gente estranha. Esse é o ponto. As questões essenciais são as da confiança e da dependência. Não bastam o cartão do partido e os empregos comuns. Não é suficiente a passagem em conjunto pelos governos, pelos parlamentos, pelas empresas públicas, pelas administrações e pelas câmaras: é necessário acrescentar mais uma condição de confiança e uma garantia de dependência. As certidões de casamento e de nascimento, os projectos de vida e os testamentos ajudam muito. São problemas de confiança e de poder, não de mera máfia ou corrupção.
Entre os argumentos que mais surpreendem alguns são particularmente viciosos: “Não somos só nós, eles também”! Ou ainda, por parte de comentadores e jornalistas complacentes, “não são só estes, há dez anos também era assim!”. A ideia de que o nepotismo e a corrupção de uns justificam e desculpam os de outros é sinistra a todos os títulos. Mas tem um efeito salvador: trata-se da maior admissão de culpa que se possa imaginar! Quando um socialista ou um bloquista vem dizer, e tantos foram, que o PSD e o CDS “também fizeram”, estão a prestar um serviço à democracia. Porque se denunciam e admitem a sua própria culpa. Assim revelam mais casos e ajudam à transparência.
Não há soluções fáceis para estes problemas. A opinião pública e a liberdade podem ajudar. A instrução e a cultura também. E as eleições, talvez. Mas as leis não servem para nada. Proibir a parentela na política e no governo? Proibir o quê? De nomear parentes? Para que funções? Até que grau? Não há proibições imagináveis. Mas mete dó. Ver a política dos rebanhos e dos bandos, das tribos e dos gangues, das castas e das claques, imiscuir-se na política democrática faz quase desesperar da condição de português do século XXI. Era bem melhor quando as questões de família eram um ingrediente da grande Ópera!
Público, 31.3.2019

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CALCITRIN & MANGUSTÃO

Por Joaquim Letria
Já devem ter reparado que a maior parte da Rádio e da TV chega-nos paga pelo patrocínio de produtos e medicamentos que se podem comprar sem receita médica.
Reparem, por exemplo, no domínio exercido sobre as emissões de televisão de praticamente todos os canais existentes, os quais promovem, anunciam e vendem através de números de valor acrescentado e de supostos directores de “new projects”. Os jornalistas e os apresentadores limitam-se a ser compères, abanando o chocalho e fingindo fazer perguntas inteligentes como se os programas fossem deles. 
É por isso que hoje a gente já não sabe se está a ver o programa de Beltrana ou de Fulano. Sabemos só que aquilo é pago pelo Calcitrin ou pelo Mangustão, com ou sem “Alloah Vera” e engolimos tudo sem que o Infarmed e a CERC  fiscalizem os produtos e estações, canais, produtores, autores, editores e apresentadores. 
Só para se ter uma ideia de como produtos  alternativos pagam as nossas  Rádios e TVs vejam só a lista que anotei, virado para um televisor pendurado duma  parede dum modesto “snack bar” onde sozinho comi qualquer coisa numa tarde destas: Medicare, Cogumelo do Tempo, Memofante, Aspirina,BackHero, Acústica Médica, Sonotone, Amplifom, Minisom, MagniHear,Widex, LifeHack, Therma Care, Imodium, Depuralina, CalciumMais. E isto foi no tempo duma sandes de fiambre com um leite com chocolate…
Acima dos 30 anos já ninguém vê televisão. Aqueles anúncios são para muito velhos e aqueles programas são  para ainda muito mais velhos. Assim, se aqueles produtos  não matarem  alguém, temos o audiovisual  mais saudável do mundo…
Publicado no Pasquim da Vila

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30.3.19

Apontamentos de Lagos

Se há coisa de que qualquer criança precisa (especialmente no decorrer de actividades que envolvem exercício físico) é beber água, e, por isso, quem colocou aqui este bebedouro sabia o que fazia. Quanto ao resto, nada de novo, pois FAZER é fácil e pode dar votos, enquanto MANTER é difícil e não os dá. Por isso, e como já se percebeu, este é apenas mais um dos muitos bebedouros que não funcionam. 
 NOTA: O poste que, em 2.º plano, se vê na foto da esquerda suportava a placa que se mostra na da direita. E é pena ter sumido, pois, mesmo quebrada, dava as necessárias informações acerca de quem são as entidades a quem incumbe manter e fiscalizar o espaço. 
(Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Mar 19)

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29.3.19

Quem quer e merece o meu menino?

Por Joaquim Letria
Os canais comerciais de televisão andam desenfreados com “reality shows”. Desde o “Big Brother”, já faz anos, que assim é. Agora, um canal selecciona candidatas a casarem com escolhidos agricultores, enquanto o outro apresenta umas matronas que oferecem os seus filhos a um rosário de pobres mas vistosas candidatas,  na maioria dos casos desempregadas.
Depois, dia a dia, sucedem-se as diferentes explorações das diversas situações criadas num caso e no outro, para manter audiências que estão em queda nos outros programas dedicados à desgraça humana, tipo “os cancros das nossas entrevistadas são melhores do que a leucemia das deles”.
Uma noite destas, respondendo às críticas surgidas em órgãos de Comunicação Social e em canais das redes sociais, uma das estações resolveu enfrentar uma psicóloga que havia escrito num periódico “Quem quer casar com a minha vaca?”, o que terá sido tomado como ofensivo por parte do director de programas e pela apresentadora. A psicóloga, que chegara ofegante ao estúdio sobre a hora do programa e, possivelmente, convidada tarde e a más horas, portou-se muito bem, com serenidade, elevação e a propósito, defendendo a dignidade das mulheres.
Só lhe faltou ter rebatido a acusação que lhe lançavam, de estar a chamar vacas às mulheres do programa, negando-o e lembrando a semelhança do procedimento do programa com as feiras de gado, onde os interessados escolhem as vacas pelas qualidades que os animais expostos apresentam e lhes podem interessar.
Curioso ainda não ter vindo alguém falar da semelhança desta apresentação das meninas com os prostíbulos que havia em Portugal, quando os bordéis eram legalmente autorizados. Se calhar, as meninas desempregadas daqueles tempos prostituíam-se porque não havia “reality shows”
Nas casas de meninas, uma “tia” apresentava o elenco para no final receber o pagamento e encaminhar a escolhida e o feliz cliente para o quarto indicado. A maior diferença de todas é que não se ia às meninas com as mamãs…
Publicado no Minho Digital

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28.3.19

DOUTOR HONORIS CAUSA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Doctor honoris causa (“Doutor por causa de honra", em português) é uma expressão latina usada como título honorífico concedido pelas universidades a mulheres e homens, não necessariamente detentores de uma graduação académica, mas que se destacaram em áreas do conhecimento, da paz, da filantropia, ou outras, a ponto de lhes ser concedido esse grau, o que lhes confere posição e tratamento idêntico aos que obtiveram o doutoramento pela forma convencional.
No caso dos distinguidos serem elementos da comunidade científica, podemos distinguir as duas situações mais comuns. Ou o título se reporta a uma ou mais contribuições da pessoa visada, tidas por suficientemente relevantes, conseguidas durante a sua vida activa, tenha ela a idade que tiver, e aí temos os grandes nomes da física, da química ou da medicina, ou distingue alguém que, no decurso de uma longa vida de dedicado e intenso trabalho, sério e honrado, é tido por merecedor dessa honraria, como foi, que eu me lembre, o caso do historiador Túlio Espanca, que recebeu este título na Universidade de Évora, em 1990. É uma situação que, com o devido respeito, comparo aqueles galardões de final de carreira no teatro, no cinema, na canção ou outros.
Para quem não sabe, a Universidade de Évora foi criada em 1559, por ordem do Cardeal-Rei, D. Henrique, a partir do Colégio de Espírito Santo, sob tutela da Companhia de Jesus. Dois séculos depois, aquando da expulsão dos jesuítas, em 1759, o Marquês de Pombal ordenou o seu encerramento. Oito décadas mais tarde, mais precisamente, em 1841, na sequência dos valores culturais emergentes da Revolução Liberal, foi criado o Liceu Nacional de Évora, tendo mudado de nome para Liceu Nacional André de Gouveiaem homenagem ao insigne humanistado século XVI,e assim se manteve até 1973, data em que voltou a ser Universidade, era então Ministro da tutela o Prof. Veiga Simão, quanto a mim, o mais sábio e melhor ministro da educação de todos os que conheci.

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Apontamentos de Lagos

Desde Setembro de 2017 que, devido às obras no museu Dr. José Formosinho, a entrada para a Igreja de Sto. António se faz pela porta lateral, subindo dois lances de degraus, intercalados por um patamar onde se situa a bilheteira. Sucede que, como aqui já foi dito e redito, o DL 163/06 obriga a que sejam tidas em conta as necessidades das pessoas com mobilidade reduzida pelo que, além da referência que Joaquim Letria fez ao assunto no programa “A Tarde é Sua”, da TVI, ele tem sido acompanhado, com interesse e preocupação, pela Associação Portuguesa de Deficientes. No entanto, e como a última informação disponível é que o assunto estava a ser “estudado/tratado”, tomamos a liberdade — se ainda formos a tempo... — de informar os “estudantes e tratadores” de não é preciso “inventar a roda”, pois existem no mercado rampas já feitas, com as mais diversas formas e medidas, inclusivamente em versões leves e (des)dobráveis. 
 NOTA: As fotos são já deste mês. Repare-se que, enquanto na Igreja ainda é possível alombar com carrinhos de bebé pelas escadas acima e abaixo, o mesmo já não sucede com as cadeiras de rodas, cujos utilizadores têm sido privados do seu direito básico de aceder àquilo que é um Monumento Nacional que, portanto, também é seu. 
Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Março 2019

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O bispo de Córdova e Erdogan


Por C. Barroco Esperança
A laicidade é uma exigência democrática

À semelhança do bispo de Córdova que, em 2006, registou a imponente mesquita do séc. 8.º, património da Humanidade, como Catedral de Córdova, em nome da Santa Sé, pela módica quantia de 30 euros, isentos de impostos, também o muçulmano Erdogan se prepara para transformar a igreja de Santa Sofia, em Istambul, séc. 6.º, agora museu e igualmente património da Humanidade, em… Mesquita de Santa Sofia.
Mustafa Kemal Atatürk, dessacralizou a igreja e transformou-a em museu para, segundo a lei ainda vigente na Turquia, “a oferecer à humanidade”, mas o que o laico fundador da Turquia moderna quis é o que o devoto e perigoso candidato a califa repudia.
O bispo de Córdova e o PR turco são primatas belicistas e prosélitos, movidos a rezas e genuflexões, desejosos de confiscarem o património da Humanidade. O bispo apropria-se de 10 euros a cada turista que visite a mesquita onde a sua Igreja meteu a catedral, e o segundo pensa tornar gratuita a entrada na basílica, designada mesquita, se for possível lá entrar com hordas de devotos em sessões de leitura de versículos do Corão e orações coletivas, no adro do monumento, e com as atividades ligadas ao Islão dentro de Santa Sofia, que se multiplicaram, desde a chegada de Erdogan ao poder, em 2003.
São almas simétricas de madraças rivais, primatas belicosos que acirram as suas crenças e promovem confrontos entre devotos de profetas concorrentes.
Há no desvario místico, na tragicomédia demencial de autocratas da fé, o enorme perigo do segundo. O bispo de Córdova tem um exército de beatos a disparar ave-marias sem entusiasmo nem regularidade; Erdogan tem legiões de fanáticos a genufletirem-se cinco vezes ao dia e as Forças Armadas mais numerosas da Nato, fora dos EUA.
O bispo é movido pela avidez que a herança de Franco, alargada por Aznar, lhe permite saciar, enquanto a incúria beata do Governo espanhol o não travar. O muçulmano turco é impelido pelo apetite de 72 virgens e rios de mel doce, depois de tentar exterminar os curdos e estimular a unificação do Islão num califado sob a sua égide.
Um, por ter maior poder, é mais perigoso do que o outro, mas ambos são santas bestas que só não são perfeitas porque ninguém é perfeito.
E, talvez, não sejam santos!

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26.3.19

Apontamentos de Lagos

Da mesma forma que os banhistas atrás referidos têm inúmeros lugares à sua disposição mas escolhem os menos indicados, também aqui, havendo inúmeros lugares disponíveis, se escolheram os únicos dois... destinados a deficientes! Supõe-se que quem guia camionetas (nomeadamente se elas forem da CML) tem carta de condução — havendo, pois, passado no exame de Código. Mas o problema é que este está sempre a mudar, e muita gente desconhece que, desde 8 de Julho de 2017, basta PARAR (!) num lugar destinado a deficientes para se incorrer numa multa de 60 a 300 € e perder 2 pontos na carta de condução. E mais não se diz, pois não é preciso nem adiantaria. (Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Março 2019)

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25.3.19

Apontamentos de Lagos

Quem vá com frequência a praias como esta, e observe com repetida atenção as arribas e a sua base, notará que, de um dia para o outro, há grandes modificações — não só de areias (que o mar traz e leva), como também de rochas que vão caindo — umas vezes devido a fenómenos de sismicidade imperceptível, outras porque estão em solo argiloso que se torna instável devido à humidade. Perguntar-se-á, pois, como é possível ver-se o que as imagens mostram, e que são apenas duas de um gigantesco ficheiro que guardamos com o nome de “Clube dos Suicidas”, em homenagem à obra homónima de Robert Louis Stevenson. A diferença é que o livro é divertido, enquanto que o que aqui se vê pode não ser. 
(Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Março 2019)

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24.3.19

Grande Angular - Pela nossa saúde!

Por António Barreto
Por razões conhecidas, mas nem sempre claras, a saúde está em questão. As greves dos enfermeiros, com especial virulência por parte deles e uma áspera acidez na reacção do governo, agitam a opinião. Os protestos dos médicos também. A situação laboral na saúde pública está muito nervosa e perturbada. As crises da ADSE e dos hospitais privados sacudiram o recato e atemorizaram muita gente, sobretudo os funcionários públicos. Os ministérios da Saúde e das Finanças perderam a capacidade de administrar os custos e a despesa dos sistemas de saúde e são cúmplices do desperdício e da especulação. As dívidas da saúde continuam descontroladas. As sempre actuais parcerias público privadas continuam a dar que falar. As dificuldades de recrutamento de pessoal médico na “periferia” ou no “interior” continuam vigorosas. A falta de pessoal de enfermagem é endémica, especialmente depois da redução de horas de trabalho para os funcionários públicos, sem compensação de recrutamento. A emigração de enfermeiros para o estrangeiro é assunto inquietante. A transferência de médicos do sector público para o privado é tema de actualidade e de preocupação. Alguns sectores de cuidados, especialmente dos paliativos e dos continuados, dão claros sinais de insuficiência e de falta de capacidade. Uma hipotética nova lei de bases do Sistema Nacional de Saúde está em preparação e já provoca dissensões dentro dos partidos, designadamente no PS, que deveria estar politicamente mais bem preparado neste tema. As filas de espera para consulta, exame e cirurgia no Serviço Nacional de Saúde persistem ou aumentam em certos sectores. Aumenta o número de doentes deitados em macas nos corredores dos hospitais. Os pobres e os desfavorecidos continuam a ser tratados com desconforto e indiferença em muitos hospitais e centros de saúde.
Olhando para as tendências de médio prazo, deparamos facilmente com números e indicadores que não traduzem esta aparente colecção de crises. Os médicos por habitante aumentam de modo persistente. Os habitantes por médico são cada vez menos. Nas comparações europeias, essenciais para se perceber melhor um país, Portugal não se sai nada mal. Está entre os cinco primeiros em médicos por habitante. Entre os quatro melhores em habitantes por médico. Quanto aos gastos com a saúde, em percentagem do PIB, Portugal situa-se a meio da tabela europeia. E nos gastos por habitante, quase a meio. Nos últimos dois a três anos, segundo os dados do governo, foram contratados mais 1.363 médicos de família e especialistas e mais 3.413 enfermeiros. O sinal mais preocupante é o que diz respeito aos enfermeiros. O aumento, desde há dez ou vinte anos, é evidente, mas muito lento, quando relacionado com o número de doentes e de médicos. Na Europa, Portugal figura entre os quatro piores. 
Portugal tem menos camas hospitalares por habitante do que a maioria dos países europeus, o que não é necessariamente um mal. Também tem um tempo médio de internamento abaixo da média da OCDE, o que não é um mal absoluto, depende das circunstâncias. No SNS, desde 2000, as urgências estão em diminuição acentuada, o que é bom. As consultas continuam elevadas e em acréscimo. Os médicos estão sempre em aumento e quase todos os anos. Os enfermeiros também, embora com menos regularidade. As consultas por 1000 habitantes têm aumentado sempre. As urgências e os internamentos têm diminuído, o que pode ser um bom sinal. A despesa do SNS por habitante aumentou bastante até 2005, ficou instável e irregular desde então, baixou significativamente em 2011 a 2013, recuperou ligeiramente desde então.
Entre as causas da crise actual, situa-se evidentemente o reduzido financiamento desde 2011 e a muito insuficiente recuperação desde 2015. Mas não chega. Há fenómenos políticos, humanos, organizativos e outros.
saúde foi o sector que mais brilhou durante décadas. Superou todos os outros em eficiência e qualidade. Portou-se melhor do que a educação, a justiça, a segurança social, a cultura, os transportes e a habitação. A razão essencial deve-se à natureza do sector. A ciência e a técnica comandam. A ideologia está pouco presente. A informação circula e podem fazer-se comparações com o mundo inteiro. Há menos opiniões e menos intrigas. Na saúde, reina a ciência. Em todos os outros sectores, reinam a política e a ideologia. Uma aspirina é uma aspirina em qualquer parte do mundo. Uma apendicite é uma apendicite, sem que a política, a religião ou a cultura tenham uma ideia diferente. As modas pedagógicas, a qualidade do urbanismo, a idade da reforma ou o segredo de justiça prestam-se à polémica partidária e à opinião avulsa.
Além disso, que já não é pouco, os mais de vinte governos constitucionais respeitaram quase todos um princípio essencial: aos médicos, aos enfermeiros, aos técnicos e aos cientistas compete um papel crucial na definição das políticas, na orientação das actividades e na gestão dos recursos. Assim se conseguiu, sem intrusão ideológica, aumentar a vacinação, diminuir a mortalidade infantil e reduzir as doenças contagiosas além de muitos outros êxitos.
que temos agora é miserável e contraria esta tradição do primado da ciência e da subalternidade da política. O anterior governo entendeu que era mais fácil cortar na saúde, dado que é o sector que mais gasta (eventualmente que mais desperdiça…). Para esse governo, os cortes foram o substituto de reformas e de eficiência. O actual não sentiu necessidade de aumentar consideravelmente os recursos, nem promover as reformas necessárias. A política intervém agora fortemente. O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista entendem que é chegado o momento de liquidar a medicina privada e os hospitais particulares, velho sonho desses partidos. Ambos e parte do PS pensam que é a boa altura para acabar com a ADSE e nivelar tudo por baixo, em nome da igualdade. O PSD e o CDS pugnam pela medicina privada e não se importam com a promiscuidade funcional. O PS, o PSD e o CDS não têm coragem de pôr termo à acumulação de funções no sector público com o sector privado. Os três continuam a apreciar excessivamente as parcerias público privadas, fonte de amigos, de negócios e de adiamento de despesa. Os enfermeiros e os médicos não se sentem considerados com justiça diante dos benefícios atribuídos a outros grupos profissionais, os professores em particular.
Era bom não esquecer que as dificuldades actuais na saúde se devem sobretudo à ingerência política e ideológica.
Público, 24.3.2019

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MOURINHO NA TV RUSSA

Por Joaquim Letria
Eu peço muitas desculpas aos que discordam de mim mas eu gosto muito da Rússia e dos russos, povo admirável a quem muito devemos. Vou a Moscovo, com o mesmo prazer com que vou a Berlim, Nova York, Londres ou Paris. E divirto-me, com o teatro, o ballet, o futebol, as mulheres de olhos azuis escuros profundos e lindos e as igrejas ortodoxas, com os seus cânticos de fazerem chorar os corações mais empedernidos.
Aliás, aí no Minho, perto de vós, em Seixas, freguesia de Caminha, podem encontrar um cavalheiro russo que marca com nível e muita qualidade o seu irrepreensível Rino Hotel, onde passei alguns dias encantadores e onde voltarei assim que possível.
Não é, no entanto, para vos falar de Seixas que vos escrevo estas linhas. É apenas para explicar aos menos esclarecidos que José Mourinho, um  dos três melhores treinadores de futebol do Mundo, fez muito bem em aceitar ser comentador da televisão Russian Times (há quem lhe chame Russian Today).
Se eu já admirava Mourinho, junto-o assim a duas outras grandes figuras que muito aprecio: Larry King, o velho entrevistador  da CNN que hoje está igual naquela televisão russa (com suspensórios e tudo) e Gerard Depardieu, fabuloso actor francês, hoje com passaporte e residência na Rússia.
O Mourinho faz muito bem. Começará em Março, ainda não sei se nas emissões em castelhano ou em inglês. Para ele a língua não fará diferença. E para mim também não.
Não o vou perder!
Publicado no Pasquim da Vila

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23.3.19

BIO-REXISTASIA

Por A. M. Galopim de Carvalho
Deixei passar o Dia Mundial da Floresta que se celebrou no passado dia 21. Peço, pois, perdão a Silvano, o deus romano das florestas, a Pã, o seu equivalente na mitologia grega, e aos meus habituais leitores. Em remissão desta falta, deixo-vos aqui uma teoria particularmente simples, bela e certeira que não vejo ter o lugar que devia no ensino das ciências da Terra.
Esta teoria tem, ainda, particular importância na visão geo-biológica das alterações climáticas, de que muito se fala actualmente.

É sabido que os nazis se apropriavam de tudo o que pudessem de bens culturais (obras de arte de museus e de colecções particulares) e científicos. Contava André Cailleux, meu professor e orientador de tese na Universidade de Paris, que Henri Herhart (1898-1982), da Universidade de Estrasburgo, o feliz autor desta teoria, trabalhava nela aquando as tropas de Hitler invadiram a França, em Maio de 1940. Receoso de ser espoliado do muito material de investigação que que tinha em mãos, escondeu-o entre as pedras de uma parede de uma velha casa, indo busca-lo após a libertação, em 1944.
Eu frequentava, por essa altura (1962-1964), o 3ème Cycle de Sédimentologie, (o equivalente ao nosso Mestrado), na Universidade de Paris e lembro-me que a teoria de Herhart estava, como se costuma dizer, na ordem do dia.

Ei-la, em traços muito gerais.
Numa concepção do solo como um fenómeno geológico, introduzida pelo geólogo americano Cutis Fletcher Marbut (1863-1935), o geógrafo francês Henri Herhart publicou, em 1956, uma interessante e original teoria “La genèse des sols en tant que phénomène géologique: Esquisse d'une théorie géologique et géochimique, biostasie et rhexistasie”, com uma segunda edição na Masson, Paris, em 1967.
Segundo o autor francês, certas regiões do globo estiveram ou estão numa situação que referiu por BIOSTASIA, (do grego bios, vida, e státis, estabilidade) isto é, uma situação de equilíbrio biomorfológico, expresso principalmente por uma muito vasta e densa cobertura vegetal, de longa duração e estável. Tal acontece porque, durante milhões de anos, não se verificaram variações sensíveis das condições ambientais sob as quais essa cobertura se desenvolveu, situação exemplificada pela actual floresta quente-húmida amazónica. O equilíbrio biológico próprio deste tipo de cobertura vegetal protege o solo da erosão mecânica, mas é favorável à alteração química em profundidade e subsequente evacuação dos materiais solubilizáveis. O período biostásico é sempre um intervalo de tempo longo, à escala geológica, e de pedogénese intensa.
Por outro lado, REXISTASIA (do grego rhexis, rotura, e státis, estabilidade) refere, ao contrário, um tempo muito mais curto, caracterizado pela rotura daquele equilíbrio e consequente destruição da cobertura vegetal, com exposição do solo à erosão mecânica. As causas desta interrupção são geralmente devidas a mudanças climáticas, mais ou menos acentuadas e bruscas, quer no sentido do arrefecimento, quer no da elevação da temperatura, acompanhada de secura, conduzindo à desertificação.

Durante os longos períodos biostásicos, a manutenção de condições de humidade e de temperatura relativamente elevadas e estáveis, associadas à exuberância da cobertura vegetal dela dependente, conduzem a intensa alteração das rochas e a profunda evolução dos solos, proporcionando, contudo, acentuada protecção destes materiais, face aos agentes de erosão mecânica. Praticamente, só os produtos solúveis resultantes da decomposição são mobilizados e arrastados pelas águas de infiltração, no trabalho de lavagem que exercem ao atravessá-las antes de atingirem os cursos de água. Neste contexto, poderá falar-se de erosão química.
Com efeito, ricos de substâncias químicas em solução (iões como Ca2+, Mg2+, K+, Na+, CO3H-, CO2-, PO4H2-, SO42-, etc., e moléculas como SiO2) os rios promovem o seu transporte até aos locais de sedimentação, onde esta se processa por mera precipitação química destas substâncias ou através da acção de seres vivos que, previamente, as incorporam na construção dos seus esqueletos, isto é, por via bioquimiogénica. Tal é o caso de bivalves, gastrópodes, foraminíferos, algas coralinas e outros construtores de esqueletos carbonatados, ou de radiolários, diatomáceas e outros construtores de esqueletos siliciosos.
Em síntese e por outras palavras, diremos que, no que se refere à sedimentogénese em períodos de biostasia, a sedimentação terrígena é reduzida, ao contrário da sedimentação química e/ou bioquímica. O material terrígeno resultante da alteração neste tipo de ambiente e que tinge a água dos rios é, predominantemente argiloso, impregnado de óxidos de ferro.
Nos períodos de desnudação da cobertura vegetal, resultante das crises rexistásicas, a floresta deixa de proteger a superfície do solo que, em consequência do período anterior, está profundamente alterado e, portanto, facilmente atacável pela erosão. Os materiais postos em jogo no transporte e sedimentação subsequentes são essencialmente detríticos e reflectem, na parte inferior das séries sedimentares que alimentam, os produtos da capa de alteração (a primeira a ser erodida) e, na parte superior, os materiais não alterados do substrato desnudado, sujeito, sobretudo, a desagregação e erosão mecânicas. O período rexistásico é um período de morfogénese intensa, não necessariamente longo, e a ele se associam escassez de sedimentação química e/ou bioquímica, em contraste com a grande importância de sedimentação detrítica, muitas vezes de carácter torrencial bem marcado e sempre revelador de maior ou menor imaturidade.
A dialéctica biostasia “versus” rexistasia, tal como a concebeu Ehrart, reforçou a dimensão geológica dos solos, na medida em que estes são também testemunhos das paisagens continentais suas contemporâneas, quer nos aspectos físicos (relevo, clima) quer biológicos, em particular, a vegetação. Os constituintes minerais do solo (areia, argila) ficam, muitas vezes, com marcas características dos ambientes a que estão submetidos. O mesmo acontece com os solos do passado que, na sequência da erosão, acabaram por transitar essas marcas para as rochas sedimentares detríticas, hoje patentes em sequências estratigráficas nas quais, como nas páginas de um livro, as procuramos ler e interpretar

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22.3.19

Não lhes roubam a ADSE

Por Joaquim Letria
Os nossos queridos funcionários públicos andam nervosíssimos por causa da ADSE. É compreensível. Sempre e só preocupados com a progressão na carreira, têm agora que apoquentar-se em saber quem lhes vai pagar as despesas com a Saúde.
Em 2006, os jornalistas portugueses foram espoliados da sua Caixa de Previdência e Abono que no Estado Novo havia sido uma conquista da classe e uma vitória dos anarco-sindicalistas. Pagávamos as despesas com a saúde e a Caixa reembolsava-nos cerca de 80 por cento. Além do mais, a Caixa pagava sem retorno abonos a jornalistas desempregados e ajudava outros em dificuldade, para além de emprestar dinheiro para a compra de habitação sem pagamento de juros.
O dinheiro para tudo isto era nosso: para além das contribuições que a Caixa nos cobrava, geria ainda um fundo de valor apreciável, gerado pelo pagamento de um por cento das receitas publicitárias que as empresas proprietárias dos jornais, das rádios e mais tarde da televisão tinham concordado em pagar.
Em 2006, o Governo do Sócrates disse que isso era um privilégio inaceitável e que dispúnhamos do Serviço Nacional de Saúde para nos tratarmos. Roubaram-nos 20 milhões de euros que nos pertenciam e fecharam a Caixa quando esta era presidida pela Jornalista Maria Antónia Palla, por acaso mãe do actual Primeiro-Ministro António Costa.
Dizem que o dinheiro foi absorvido pelo instituto da Segurança Social, e nós fomos para seguros ou para o Serviço Nacional de Saúde. E pronto, não se falou mais nisto. Como não éramos amigos daquele Santos Silva que ainda hoje sustenta o Sócrates, deixámos de ter privilégios…
Ouvi a muitos estimáveis funcionários públicos dizerem que assim é que era. Aquele Governo cortava a direito. Ai meus queridos, não tenham dúvidas! E estão todos aí outra vez! E só não vos tiram a ADSE porque querem os vossos votos. Tenham cuidado com o Centeno, que esse só pensa no vosso dinheiro.
Publicado no Minho Digital

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21.3.19

CDS – A renúncia de Adolfo Mesquita Nunes

Por C. Barroco Esperança
Adolfo Mesquita Nunes, depois da notícia da aceitação do lugar de Administrador não executivo na Galp, anunciou a sua demissão de vice-presidente do CDS. Correu mal a notícia da nomeação, anterior a renúncia, quando, politicamente, convinha o contrário.
O dirigente do CDS pode ter feito uma carreira beneficiado pela visibilidade política, mas tinha a formação que lhe permitiu trocar a política por cargos mais rendosos, que aguardam pessoas de direita, de preferência qualificadas. Mesquita Nunes não é a Celeste Cardona ou o Armando Vara da CGD, é um quadro político preparado para a advocacia e a gestão empresarial.
Era a face moderada do CDS, o conservador prudente, sem a estridência da Dr.ª Cristas, um homem delicado, e a exceção no conservadorismo beato do partido, que defendeu o “Sim” no referendo à despenalização do aborto, de 11 de fevereiro de 2007, e assumiu a sua homossexualidade sem complexos.
Era o único liberal nos costumes no partido de que era simultaneamente um ornamento liberal e a cabeça pensante que não insultava adversários. Agora ficam os neoliberais da economia e reacionários nos costumes sem a cobertura que este conservador lhes dava.
O CDS da D. Cristas e Nuno Melo fica mais perigoso e disponível para se coligar com o fascista André Ventura, escolha de Passos Coelho para liderar a lista autárquica do PSD à Câmara de Loures, que não conseguindo legalizar o seu partido – Chega –, por falta de assinaturas válidas, conseguiu que o PPM e outra excrescência legalizada o aceitassem como cabeça da “coligação Chega” às eleições europeias.
O neofascismo, puro e duro, começa a ter rostos em Portugal e, à semelhança de outros países, a contar com o patrocínio dos enviados de Trump e financiamentos necessários.
Ao CDS não faltará outro Adolfo, menos recomendável, mais adequado à dupla Cristas e Nuno Melo. O regresso de Manuel Monteiro pode ser o Adolfo do partido que o PPE já expulsou uma vez e que só as necessidades da direita, a pedido de Durão Barroso, devolveram ao convívio dos partidos conservadores e democrata-cristãos europeus que ontem, na Hungria, suspenderam o partido Fidesz, de Viktor Orbán, no poder desde 2010, por tempo indefinido.
Enquanto não respeitar os valores e princípios democráticos.

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20.3.19

Grande Angular - A construção do nada

Por António Barreto
Nos tempos modernos, a construção do Estado é a primeira realidade deste tipo: organização deliberada de um aparelho institucional capaz de enquadrar populações e culturas, dinastias ou comunidades.
Sítios houve em que se construiu o império. Os condimentos e os métodos eram simples. Uma ideia, uma doutrina, objectivos e valores. O monarca ou o Estado central e os seus exércitos eram os obreiros da construção. O método era sobretudo o da força. Os valores eram os da grandeza dos que mandavam.
Já houve tempos em que se construía a democracia. Ou a República. Foram processos morosos, duraram séculos, com dificuldades, avanços e recuos. Havia princípios, valores, doutrinas e objectivos. Nem sempre claros, raras vezes bem definidos, muitas vezes difusos e geralmente próprios de elites políticas. Mas a construção avançava. E os povos, identificando-se com os ideais, iam aderindo. E sabia-se ao que se vinha. Os protagonistas eram os povos. Os métodos incluíam a democracia, os parlamentos e o voto. Os exemplos, bem diferentes uns dos outros, podem ser os da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos da América e da França.
Depois, começou a construir-se o socialismo. A sociedade sem classes. O comunismo. A força dos valores era enorme, a ponto de permitir que se recrutassem, para a luta, milhares e milhões de pessoas. Fizeram-se revoluções. Na mente dos povos, estava mais o melhoramento das condições de vida, mas nos espíritos dos militantes, as ideias, os sonhos e os objectivos estavam bem presentes. Da democracia avançada passar-se-ia à construção do socialismo, terminada esta seguir-se-ia a construção do comunismo, este sim objectivo último e definitivo, a sociedade sem classes. O agente desta construção era o partido da vanguarda, em nome da classe proletária. O método era o da ditadura do proletariado. Os melhores exemplos são os da União Soviética e da China.
Hoje, constrói-se nada! Isto é, a Europa! A Europa é uma abstracção. Depois de umas décadas em que teve sentido e significado, desde a paz à defesa da liberdade e da democracia ao desenvolvimento, tem cada vez menos doutrina e ideia. E muito menos identificação popular. Hoje, a Europa faz-se porque se faz. Continua porque é. Para seu êxito, a Europa necessita de varrer a história e a geografia. Hoje tenta-se apagar a ideia de que a democracia tem uma geografia, as liberdades individuais têm uma história. Os meus direitos, o meu voto, a minha liberdade e a minha parte na decisão colectiva exercem-se numa comunidade, num local, numa área com limites e história. Podem ser fronteiras físicas, culturais ou lendárias. Mas só há direitos se houver geografia. Até porque quero saber onde vou protestar, onde vou exigir que respeitem os meus direitos, onde vou reclamar que a minha liberdade seja protegida. Se não há identidade nem geografia, a quem me dirijo? Ao mundo? Às Nações Unidas? Às Igrejas universais?
Construir a Europa, tal como se está fazendo, significa construir nada, construir uma abstracção de gestão e regulamentos, uma terra de ninguém, um não país e uma não sociedade. Sem geografia e sem identidade, as sociedades e os regimes políticos caminham para o totalitarismo burocrático e despótico, onde todos poderão ser iguais, mas ninguém tem personalidade. Onde ninguém é responsável, porque a responsabilidade exige nome.
ideia Europa (isto é, uma das ideias Europa) é ainda uma das hipóteses mais interessantes do planeta. Mas, como todas as grandes ideias, é susceptível de degradação e perversão. A actual União, na sua forma presente, desde Maastricht e de Nice, com o acrescento do Tratado Constitucional e da Estratégia de Lisboa, corresponde a esse aviltamento.
A criação de uma entidade não democrática faz parte dessa corrupção política. A União não é democrática por impossibilidade. Não é. Não pode ser. Nem deve ser. Democráticos são os Estados, as sociedades e os Parlamentos. Assim como as instituições nacionais, regionais e locais. Fingir que a União é democrática, com aquele patético Parlamento e estas eleições, ou é inútil, ou é prejudicial, pois corrói as instituições nacionais democráticas e cria uma ideia falsa, um biombo de ilusões.
Da União sem comunidade nem cidadãos poderá resultar uma Europa despótica, feita de andróides maravilhosamente iguais. Ou então, terá como consequência a reacção de populismos irracionais e nacionalistas. Ambos serão capazes de demolir a União e destruir a liberdade.
Democráticos, na Europa, podem ser os Estados e os Parlamentos nacionais. O Parlamento Europeu serviu sobretudo para extinguir os Parlamentos nacionais e outras instituições. Ora, a democracia exige identidade e reconhecimento. Exige geografia e comunidade. De modo a que eu seja capaz de fazer valer os meus direitos como homem concreto, não apenas como ser humano abstracto.
Se a União continua o seu caminho, com o que sabemos hoje, os destinos poderão ser dois ou três. Primeiro: avivar a pulsão nacional, excitar todos os populismos identitários e despertar os reflexos condicionados nacionalistas. Poderá ser um fim com ruptura e desordem. Segundo: chegar a um beco sem saída, provocar a sua lenta destruição e estimular os sucessivos abandonos, o que significa o definhamento. Um término tristonho, o fim do prazo de validade. Terceiro: obrigar a repensar e exigir a refundação. Esta terceira hipótese poderá salvar a Europa, estimular a economia e dar novo sentido à democracia. Mas é sabido que são enormes as dificuldades em repensar, reformar e reorganizar o que quer que seja. Em geral, os dilemas fatais têm mais sorte: ou tudo ou nada, ou continuar ou morrer! Ora, morte é mesmo o grande perigo diante da União. 
Repensar significaria dar nova vida às instituições nacionais, a começar pelos parlamentos. Implicaria retirar à União grande número das suas competências furtivamente transferidas nos últimos anos para entidades longínquas, a fazer pensar nos conselhos e nas comissões das utopias de ficção científica, a começar pelo Senado Galáctico do “Star Wars”. Exigiria afastar do horizonte constitucional europeu qualquer ideia de federação, de super Estado, de super governo ou de Estados Unidos da Europa. Obrigaria a trazer para os Estados nacionais as suas competências sociais, económicas, políticas, judiciais e culturais, privilegiando todos os caminhos da coordenação voluntária e da articulação de políticas entre Estados. Forçaria a Europa a adoptar regras de comportamento que consagrassem a flexibilidade, a diversidade cultural e a subsidiariedade, isto é, o princípio de que tudo deve ser decidido ao mais baixo nível possível, ou seja, mais próximo das instituições locais. 
Público, 17.3.2019

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18.3.19

«Atenção aos Sinais!»

Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Fev 19
Um dia, numa Feira das Indústrias que eu visitava por dever profissional, deparei-me com um ‘stand’ onde se exibia um vídeo publicitário que recorria a um filme de Charlot, projectado na típica velocidade exagerada e com a inevitável música de piano.
A sequência era curta: o herói encostava uma escada a uma árvore, subia por ela acima e sentava-se para comer o parco almoço encavalitado num ramo. Mas este partia-se, e ele não tardava a vir parar cá abaixo — com a bengala para um lado, o almoço para outro.... mas mantendo sempre o chapéu-de-coco no seu lugar.
Em seguida, e uma vez obtido o interesse da audiência, era-nos explicado que, embora tudo se tivesse passado muito depressa, nada fora instantâneo: as fibras do ramo tinham começado por ser forçadas, depois haviam rompido uma a uma, e só mais tarde é que a ruptura sucedera. O objectivo era, então, vender uns dispositivoscapazesde detectar sinais precursores de colapsos, com a filosofia de que, regra geral, os desastres são precedidos por SINAIS detectáveis, podendo ser evitados ou, pelo menos, minoradas as suas consequências.
*
Muitos se lembrarão das cheias que assolaram os arredores de Lisboa em 1967 (mais de 700 mortos!), do desastre de Entre-os-Rios em 2001, dos incêndios de 2017, e do recente drama de Borba. Em todos esses casos, e poderia citar muitos outros, os SINAIS não faltavam, assim tivesse havido quem os soubesse ler.
É, pois, inevitável observar pela mesma óptica outras realidades — e destaco a revolta dos coletes amarelos, em França, pois julgoque se o “poder” estivesse mais a par das realidades do país teria visto os SINAIS, e percebido que algo de muito grave estava prestes a suceder. 

Não terá havido, acima de tudo, um claro e perigoso “descolar” dos eleitos face aos eleitores? Sim; por esse mundo fora, quantos deputados, ministros, autarcas, dirigentes partidários e sindicais — que mal saem dos seus gabinetes e sedes — conhecem o dia-a-dia e as dificuldades do cidadão comum que, por sinal, lhes paga ordenado, quando não as mordomias? Quantos deles sabem o que é estar um dia inteiro na Segurança Social, 6 horas nas urgências hospitalares, outras tantas nas Finanças... para já não falar nos CTT ou num Centro de Saúde? 
Quantos deles alguma vez trabalharam numa empresa da “economia real”, gastando horas em transportes, com a obrigação de picar o ponto, aturar colegas invejosos e chefes incompetentes, ter de justificar até um pedido de uma esferográfica, lutar por um aumento de ordenado ou mesmo pelo posto de trabalho... enfim, tudo aquilo que faz a vida real de uma pessoa normal? Alguns, certamente; mas não muitos, aposto.
*
Todos os pesadelos que atrás referi senti-os eu na pele, quando morava e trabalhava em Lisboa. Felizmente, em Lagos, a vida é mais pacata, mas também aqui sinto que os governantes da cidade se afastaram dos munícipes, com quem se relacionam de uma forma distante e sobranceira, exibindo uma auto-satisfação que apenas se pode tolerar aos génios e aos super-competentes — o que, pelo menos a meu ver, não é o que temos, por estes lados...

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OLHAR A CHINA, A PERSISTÊNCIA DA IGNORÂNCIA (I)

Por Guilherme Valente
«Sempre acreditei que a China só poderia mudar pouco a pouco. Hoje dou-me conta de como foi rápida e  brutal [abrupta] a transformação (...) Não estou a falar dos penteados das raparigas,   mas das mentalidades e comportamentos». 
Jia Zhang-Ke 
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NUNCA NA HISTÓRIA um país  mudou tanto, experimentou tantos modelos políticos, tão rapidamente. “Não interessa a cor do gato, é preciso é que apanhe ratos”, disse Deng. Mas persiste na generalidade dos comentários  uma visão da China como ‘a China de Mao’. Estaríamos  mesmo hoje perante a instalação de um novo déspota e, quiçá, na iminência de uma nova Revolução Cultural. 
Xi Jiping um novo Mao? Bastaria  uma informação mínima,  inteligência comum, um olhar mundano, para se concluir da evidência do  disparate.
Vejamos o básico. 
Desde 1956, da ‘Revolução das Cem Flores’ (peripécia sangrenta a  propósito da qual Mao, evocando Qin, o seu modelo, que  enterrara vivos 460 letrados, se gabou de ter mandado matar 100 vezes mais intelectuais), que os líderes e os intelectuais chineses mais esclarecidos  tentaram neutralizar  o que começava a tornar-se ‘o Grande Timoneiro’.
Um ‘timoneiro’ que, num crescente delírio  de poder pessoal  que nunca foi possível conter,  conduziria à morte milhões de seres humanos, deixando o país em cinzas. Delírio, convém não esquecer,  que a imensa generalidade  da inteligência europeia  e caseira celebrou como anúncio redentor de um radiante e definitivo ‘mundo novo’.
O EPISÓDIO Liu Shao Chi foi a tentativa que esteve mais perto do sucesso nessa determinação de afastar Mao.
Mas a genialidade táctica deste, a sua total ausência de lealdade e de escrúpulos no uso dos meios mais cruéis, a adoração do povo que o identificava como o imperador que libertara  a China dos monstros estrangeiros devoradores (ver o filme recente A Grande Muralha), garantiu-lhe o regresso e catalisou-lhe a loucura – já então, repito,  absolutamente clara para a elite política e intelectual chinesa. As manifestações dessa loucura foram inúmeras, tantas quantas as exaltações de louvor  no Ocidente.  Só o seu fim natural o neutralizou,  em Setembro de 1976, entre um eclipse do Sol e um grande sismo, como era milenarmente assinalada cosmicamente a morte dos grandes imperadores...
Uma manifestação reveladora da índole de Mao e do então louvor dionisíaco no Ocidente (e caseiro) é uma confissão despudorada do déspota feita numa entrevista a Edgar Snow.  Confissão que, no seu limitadíssimo conhecimento da língua e da cultura chinesas, este traduziu assim: «Sinto-me como um bonzo careca a passear à chuva com um guarda-chuva cheio de buracos». O leitor está a imaginar o orgasmo que tal metáfora induziu nos crentes caseiros e europeus!
Pois, mas a questão é que se tratava de uma expressão idiomática chinesa, ignorada por Snow, que significa: «Sou um homem sem fé nem lei»!*
Mas essa e muitas outras lições  não impediram que se continuem hoje a debitar  asneiras  de igual calibre sobre a China.
A PARTIR DA CONSOLIDAÇÃO da liderança de Deng Xiaoping,  o objectivo maior foi precaver a emergência de um novo Mao e a possibilidade de algo que sequer lembrasse a Revolução Cultural. Probabilidade então fortíssima.
Todos os actuais líderes chineses ou seus familiares sofreram o inaudito  na Revolução Cultural. Sabe-se o que  Deng várias vezes teve de suportar, o filho atirado de uma janela da universidade por um bando de libertadores guardas vermelhos. Guardas vermelhos então cantados entre nós por muitos dos especialistas que hoje anunciam temer um novo Mao.  Inúmeros quadros  nos diversos níveis da Administração chinesa de hoje sofreram na pele a Revolução Cultural. Conheci alguns deles.
E foi para afastar  naquele período crítico a possibilidade de algum propósito ou ilusão de regresso à tirania  que surgiu, entre outras, a medida – singular na História – do impedimento de os ex-Presidentes da República e dos ex-primeiros-ministros voltarem a poder exercer,  depois de dois mandatos,  qualquer cargo oficial no governo da China.  
No espírito da concepção chinesa da História, informada pela visão ética-cosmológica que distingue radicalmente o pensamento chinês, identificado o ‘momento’ (shi 2) – que na concepção chinesa não é o instante ocidental mas ‘duração’** – e decidida a ‘propensão’ (shi 4), isto é, a ocasião adequada para a intervenção humana (que não perturbe a ordem cósmica das coisas), essa solução foi então pragmaticamente considerada como a que devia ser adoptada.
E por que foi ela agora alterada, no último Congresso do (também explicavelmente) chamado PCC?
XI JIPING É O ACTOR necessário escolhido  para interpretar, externa  e internamente, o novo acto, a nova etapa no processo de ‘rejuvenescimento’ da China***. Objectivo traçado desde antes de 1911, de cuja concretização  os  grandes intelectuais e líderes políticos chineses nunca duvidaram. Acto escrito e a ser  representado,  com rigor e cuidado, com o  pragmatismo milenar. Etapa já anunciada por Deng para quando... a ‘propensão’ permitisse o seu êxito.
Quando leio ou ouço os nossos maoístas arrependidos e sucedâneos a falarem sobre a China,  sinto-me frequentemente como o Asterix se sentiria a ouvir a Sinfonia nº1 para Violino e Orquestra de Tchaikovsky executada pelo bardo da aldeia.
 .
 (1) Contado por Simon Leys.
 (2) ‘Estruturação’, ‘estação’, no ciclo do devir  das ‘coisas inumeráveis’, determinada pelo jogo dos cinco agentes cósmicos nucleares e das virtudes a cada um deles associadas.
 (3) Expressão usada desde 1911 por todos os PR  chineses na sua tomada de posse.

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17.3.19

A propósito da crónica anterior...


São dezenas e dezenas os políticos (muitos deles no activo!) que fazem comentário político nos órgãos de informação, que usam como trampolim para mais altos voos — ou são meros papagaios dos respectivos partidos. 
É a simbiose perfeita, pois eles usam a CS, e esta usa-os a eles para estarem perto dos Poder e dos seus segredos.

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UMA NOTÍCIA E UMA LIÇÃO

Por Joaquim Letria
O jornalismo português cada vez mais se desinteressa da informação para previlegiar a opinião. Não é que esta não deva existir, nas crónicas regulares, nos artigos e nas colunas fixas, em espaços  de honra, mas subordinados à informação que deve dominar um órgão de comunicação social, seja ele um jornal, uma revista, um noticiário de Rádio ou de TV.
Aquilo que nos devia ser dito já não o é, ou então é pelo meio de interpretações subjectivas que não nos devem interessar minimamente, que hoje ficamos a saber qualquer coisa relativamente a um facto ou um assunto que nos interesse. Ninguém se importa em nos comunicar o “quem”, o “quê”, o “quando”, o “como” e o “porquê”. Ficamos só a saber, mal e porcamente, aquilo que querem que a gente saiba.
Por isto, chamo a vossa atenção para a qualidade da reportagem, no “Minho Digital” nº 189, de 11 de Janeiro, sobre a polémica institucional na Santa Casa da Misericórdia em Ponte da Barca. Além de informação séria e completa é uma verdadeira lição de jornalismo.
Publicado no Pasquim da Vila

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16.3.19

Apontamentos de Lagos

Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Fev 19

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15.3.19

Black Friday, Hospitais em Saldo

Por Joaquim Letria
Em Fevereiro, esperei 50 minutos só para pagar uma consulta dum quarto de hora num hospital privado de Lisboa, a qual conseguira que me fizessem o favor de agendar mês e meio antes,  e na qual me mandaram fazer uns exames que me marcaram para a última semana de Março, devendo ser-me fornecido o resultado em meados de Abril, o qual deverei mostrar em nova consulta que  ficará para 21 de Maio. Depois logo se verá, com o Verão à porta, se aguento até ao outono ou se bato a bota e o médico vai de férias.
Perguntei à minha médica de família, quando a apanhei entre um cruzeiro pelas Caraíbas e um congresso no Sul de Itália, pagos por uns novos comprimidos e uma pomada milagrosa, se valia a pena fazer aqueles exames no SNS. Respondeu-me que nem pensar, pois ali podia esperar dois anos.
Explicou-me uma funcionária do caro e luxuoso hospital privado onde me cuidam do cadáver que a culpa desta situação e o caos que se verifica nos balcões e nas máquinas de senhas se devem aos estimáveis funcionários públicos que com medo do fim da ADSE se atiram ao melhor que por aí há de hospitais como as madamas correm para os saldos e as meninas para a “Black Friday”, entupindo os serviços privados como acontece com os comensais de rodízios, brunches e almoços buffet .
No meio disto tudo, fiquei muito contente quando me disseram que a Galiza está a oferecer quase 5 mil euros de salário aos médicos portugueses em início de carreira que ali queiram trabalhar, o que representa quase o dobro do salário a que aqui podem aspirar e a Irlanda oferece a médicos de família 11 mil euros por mês.
Fico contente porque, antes de tudo, gosto muito dos galegos e dos Irlandeses. Depois, porque aprecio muito os médicos sérios e competentes, sejam de que nacionalidade possam ser, alguns dos quais já me salvaram o coiro e fazem com que eu esteja bem e cada vez mais velho. E depois, porque no meio da pouca vergonha que por aí vai, alguém há-de explicar ao fulano do défice e à serigaita do ministério que não há nada mais importante do que a saúde dos portugueses e o bem–estar, a confiança e a felicidade de todos eles, entre os quais se contam os médicos e os enfermeiros. 
Publicado no Minho Digital

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14.3.19

Apontamentos de Lagos

Colaboração no CORREIO DE LAGOS de Fev 19

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Brexit – masoquismo e sadomasoquismo

Por C. Barroco Esperança

É difícil a um convicto europeísta entender a obstinação do Parlamento inglês que, após a vitória do Brexit, perante claros indícios de que o resultado de um novo referendo não se repetiria, persiste na cega determinação de reduzir o Reino Unido a uma pequena Inglaterra e País de Gales, sem viabilizar uma nova consulta eleitoral.
Que interesses ou ambições pessoais oculta a renúncia a outro referendo?
Cameron, oportunista e cobarde, foi responsável pelo isolamento britânico que está em vias de consumar-se, arrastando a UE na irrelevância para que caminha o RU. Nem a senhora May nem Jeremy Corbyn desejam consultar de novo o eleitorado, numa matéria que condiciona o futuro das novas gerações de um e de outro lado do Canal da Mancha.
O Reino Unido perde grandes empresas, diminui o poder de compra dos seus cidadãos e isola-se, convencido de que é o mundo que fica separado do Império Britânico, e arrisca tornar-se mais dependente dos EUA onde a política de Trump não lhe augura segurança.
A União Europeia, por maiores que sejam as críticas que mereça, poderia sempre vir a ser o que os seus Estados quisessem, construir o modelo que desejassem e tornar-se a potência que o PIB e a população, superiores aos EUA, permitia.
A União Europeia deixa de contar com a segunda economia e as mais poderosas Forças Armadas. Numa vitória de Pirro, Boris Johnson derrotou Cameron, pois a promessa do referendo, para ganhar eleições, resultou na humilhação do último e na falta de soluções do primeiro, incapaz de medir as consequências.
O Reino Unido prefere o isolamento, e a UE perde a sua maior potência militar, a única nuclear, além da França, e a mais sólida e antiga democracia. O RU era a vacina contra a tentação autoritária do eixo franco-alemão e a deriva fascizante que regressa à Europa.
 A desilusão dos ingleses acompanhou a onda populista e radical da UE, enquanto o PPE combatia os partidos progressistas de todos os países, incluindo o Partido Trabalhista britânico, que se bateu pela permanência, com o sacrifício da sua deputada Jo Cox, símbolo da união do projeto europeu, adversária da xenofobia e da visão conservadora e monetarista da UE.
O Reino Unido arrisca a secessão da Escócia e do País de Gales e convulsões na Irlanda do Norte, enquanto a UE, com o estímulo de Trump e Putin, se expõe à desintegração de Espanha, Itália e Bélgica, com a Córsega a chantagear a França e todo o seu espaço em risco de exacerbar velhos nacionalismos e redefinir novas fronteiras.
A geografia política da Europa não é imutável nem pacífica; não é perpétua a liberdade nem vitalícia a democracia; os países também não são eternos.
A uma União Europeia fragmentada não insistirá no pedido de adesão a Turquia, é esta que há de vê-la como mais um Curdistão.
Não sei se a rejeição, ontem, do cenário de Brexit sem acordo – em qualquer momento e em qualquer circunstância –, abrirá uma janela de oportunidade para reparar o erro. Só quatro votos salvaram a votação.
Ponte Europa / Sorumbático

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