27.7.19

PASSÁMOS À FRENTE OU PASSÁMOS AO LADO?

«Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante»
G. Orwell

1 - Elogiei a intervenção no 10 de Junho do jornalista e cronista João Miguel Tavares, cujo estilo irreverente e frontal acho útil e aprecio. Critico hoje um seu artigo recente no Público em que defende uma tese que redutora, universal e intemporal como se apresenta é insustentável, exemplo incluído: A da SUPERIORIDADE DE UMAS CULTURAS” (*) SOBRE AS OUTRAS, concretamente a superioridade global do que designa “cultura ocidental” sobre as outras (sem precisões de época, de aspectos, de duração...). É uma visão pouco informada, simplista. Nessa sua crónica JMT confirma a asserção popular de que o sapateiro não deve ir além da chinela. Como de facto foi. Cronista arguto e corajoso, controverso também, o que é bom, JMT não revela na especialidade a formação necessária e suficiente para se aventurar, com rigor, a tais domínios, e sobretudo para se atrever à generalização ingénua que fez. É natural, aliás, pois não se pode saber tudo de tudo. Não se devia ter atrevido a tanto, portanto. Por hoje, apenas duas ou três interrogações... se JMT se dignar pensar nelas. Culturas superiores... globalmente? Sempre? À luz de que critérios? Haverá um critério único que permita uma avaliação global, intemporal, extensiva... definitiva? Que critérios, repito? Por exemplo: uma cultura em que os homens e as religiões se matem umas às outras é superior a outra em que as religiões convivam pacificamente? Uma cultura cheia de artefactos tecnológicos em que uma grande parte da população se consuma numa velocidade existencialmente incompreensível, logo, porventura, injustificada? Se gaste no stress, na angústia, no medo do futuro, na dependência de antidepressivos e drogas? Será superior a outra em que a vida é vivida dominantemente de modo oposto, os conflitos e as depressões resolvidas sem perda? Uma cultura que quis converter e dominar as outras culturas, que permitiu que se afirmassem e dominassem os maiores monstros da História, que gerou e permitiu a emergência das ideologias mais assassinas da História, que teve meios para atear e ateou as chamas que incendiaram o mundo todo como nunca tinha acontecido, é superior a uma cultura não invasiva, não dominadora, não escravizadora das outras culturas? Uma cultura que perdure durante milhares de anos é inferior a outra que inundada de realizações tecnológicas se auto-destrua e conduza o mundo á auto destruição? Uma cultura regulada pela ética é inferior a uma cultura regulada pela polícia? 
Reparem que não estou a concluir nada, não estou a concluir sobre generalizações não fundamentadas, a dar como absoluto nada que evidentemente o não é, sem referência de critérios de apreciação e juízo. Se o fizesse isso seria uma manifestação ignorante elementar igual à de JMT. As interrogações que coloco pretendem apenas sugerir que a tese de JMT, tal como é apresentada e com a radicalidade como é aplicada, não faz qualquer sentido. Para não falar, claro, no facto de JMT demonstrar ignorar a inter-acção entre culturas, a permanente reelaboração de todas elas (mesmo as mais fechadas) e, fait divers en passage, o facto da cultura a que chama europeia ser na verdade, nas suas origens e desenvolvimentos, eurasiática. O que ela bebeu na civilização do Extremo-Oriente, particularmente! Tal como o Extremo-Oriente veio “cá” importar agora. Selectivamente... Leia, pelo menos, o livro de Ernest Jones, O MILAGRE EUROPEU, a obra de referência-base citada por todos os que depois dele escreveram sobre estes temas. (Da Gradiva, claro... uma obra que me foi ainda sugerida pelo melhor leitor, A. Sedas Nunes). Coimo é natural, João Miguel Tavares experimenta dificuldades quando o tema e a análise são mais finos. Impõe-se-lhe, por isso, self control. 
2. “Onde surge o perigo nasce salvação” (**). A Europa terá chegado ao liberalismo, aos valores liberais, adoptado a democracia liberal, para se defender... de si própria! E durante muito tempo esses valores foram só para consumo interno, pois continuou a matar, a roubar, a condicionar os outros como fizera antes. É por isso que os dirigentes chineses ficam sempre muito irritados quando os Ingleses lhes falam em direitos humanos. É bem revelador de uma visão diferente, essa sim superior, do mundo e da História o facto de terem superado (sem esquecer como não deve ser esquecido), por exemplo, o horror da imposição cruel do consumo do ópio pela Inglaterra. É sempre oportuno lembrar que a formalização dos Direitos Humanos na liberal Declaração Universal do Direitos Humanos é para todos! (***) 
3. A ciência e a tecnologia mudaram o mundo e elevaram a qualidade da vida humana até níveis inimagináveis, sobretudo nos prodigiosos últimos 100 anos. E convém notar que as dificuldades e ameaças criadas pela tecnologia só podem ser resolvidas, serão resolvidas, com mais ciência e melhor tecnologia. Mas sem a reflexão ética e moral a ciência e a tecnologia conduzirão o homem e o mundo à autodestruição. Por isso Carl Sagan insistiu tanto no imperativo dessa reflexão ética e moral. E ainda não se estava no ponto a que agora se chegou... Receio o futuro que se prefigura se não forem vencidos os demónios que voltam a infestar o mundo. 
-
 * Uso a expressão “cultura”, mas deveria ser usado com mais precisão termo “civilização”, “civilizações”, estas com um mosaico inumerável de culturas. 
 ** A pensar sobretudo nas escolas e nos pais, a Gradiva editou recentemente um livrinho com a história da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Venderam-se 85 exemplares! Culturas superiores, JMT, maldita hubris, que cega o homem. 
 *** Tradução livre de um verso de um poema de Holderlin.

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15.7.19

UM DESAFIO EXALTANTE

Por Guilherme Valente
Sejamos família dos que não têm família, pátria dos que não têm pátria.
João Paulo II
Que fazer com os migrantes? A interrogação mais dramática do nosso tempo 
Kamel Daoud, é um intelectual argelino combatente por um islão iluminista que continua a viver entre Ouran e Paris, apesar de condenado à morte por um imã. Ensaísta e romancista (Meursault,Contra Investigação,Editora Teodolito) assina no semanário Le Point uma crónica. escrita quase sempre “no fio da navalha”, que respigo e divulgo neste meu artigo.
Perante o afluxo de refugiados, de migrantes, o que fazer? É a interrogação de consciência que Daoud coloca (28/6/18), dizendo ser a pergunta que mais teme lhe façam. É de facto o grande desafio para o mundo, a grande interrogação nos dias que vivemos.
A vaga de migrantes, determinada por circunstâncias muito concretas que se conhecem, marca o fim de uma época em que o emigrante “era viajante, nómada, descolonizado, inconformado com o destino sem saída na sua terra, aventureiro, para passar a ser hoje vitima, desespero, grito, cativeiro, trunfo eleitoral”. 
A pergunta pressupõe uma outra, mais dramática para as consciências: o que devemos fazer perante os migrantes que “nos entram em casa”? Prendê-los, separá-los e tratá-los como criminosos, à maneira de Trump? Deixá-los morrer, no Mediterrâneo, mar de coragem e aventura, que nos trouxe Europa e é agora um mar de cadáveres? O que devemos responder... eu, nós, tu?
Não é um problema apenas do Ocidente, coloca-se por toda a parte, no Magreb, “junto da minha casa, em Oran”, denuncia Daoud, e no resto do mundo: os migrantes não estão a chegar apenas à Europa ou aos EU, enchem as ruas da Argélia, de Marrocos, da Tunisia, da Jordânia. “E reage-se ali como em todo o lado: com rejeição, ou medo, desconfiança, indignação, protesto, racismo ou compaixão, caridade desorganizada”
“A tradição na África é a de acusar o Ocidente pelos males que a atormentam, julgar a Europa em nome do politicamente correcto, porque foi colonizadora pregando a moral universal. Mas essa acusação deve ser alargada ao mundo árabe”. assume o intelectual argelino.
“Reduzir a questão migratória a Trump, Salvini ou Orban é esquecer os camiões de reconduções desumanas em massa dos migrantes sub-sarianos pela Argélia. É ignorar o racismo nos outros Estados do Médio Oriente”, escreve. 
E porque é, ou deve ser, para cada um de nós tão difícil responder à pergunta? 
Porque é fácil dizer que acolher é um dever moral, mas não será legítimo ter medo de receber um migrante maliniano na minha cidade, no meu país? Pensar em invasão, insegurança, ameaça, crime? 
É fácil dizer frases bonitas, manifestar intenções nobres, mas difícil passar aos actos que possam implicar a segurança dos meus bens, dos meus filhos, o meu conforto.
“Há páginas inteiras na imprensa do Médio Oriente e da África e também da Europa sobre o racismo, a rejeição e a discriminação na Europa. Mas que dizer das expulsões em massa de “africanos”, como os designa a imprensa islamista da Argélia, que são reduzidas no Médio Oriente a faits divers,a um combate contra ´doenças estrangeiras´, “meras” manifestações dedelinquência e criminalidade”.
"Se apelo para que os outros abram os braços, então tenho de abrir os meus. Se peço contas ao Ocidente por se fechar, então tenho de pedir contas à Arábia Saudita e à Argélia por fazerem o mesmo”. “Não existe solução para mim: ter medo é legitimo, mas recusar que este medo seja paralisante é um dever, acolher é uma responsabilidade de todos”. “Como posso exigir ao Ocidente aquilo que não quero exigir a mim mesmo, o acolhimento e a solidariedade?” Interroga frontalmente Daoud.
E quando esse medo não condiciona e paralisa os governos, reverte em benefício dos populismos, isto é, de novos fascismos que usam os migrantes para agitar os fantasmas da raça ou da segurança. A questão dos migrantes, explorada pelo radicalismo político à esquerda e à direita, unido no anti-europeísmo, está a alimentar o sentimento anti-europeu e a fomentar o regresso “às nações”. Um medo que poderá precipitar a Europa para cenários imprevisíveis. “Os medos de hoje fabricam os crimes de amanhã”.
A pergunta transforma-se então noutra, mais concreta: que fazer com o migrante? Deixá-lo morrer? Mas a morte do outro... é a morte de nós.
Os Europeus devem ter presente a matriz da nossa Europa, uma região do mundo cujo mito fundador é um mito da emigração.
É esse o tema da Eneida,um herói que não tendo conseguido salvar a sua Tróia, no Médio Oriente, parte cumprindo a vontade dos deuses em busca de uma outra pátria. Viaja, atravessa o mar, não no regresso ao conforto da sua Ithaca como Ulisses, mas para fundar uma pátria nova. E é assim que nasce... Roma. Um mito fundador que o governo italiano devia ser o primeiro a não esquecer. Todos nós europeus, portugueses, somos herdeiros de recém-chegados. O grande desafio do nosso tempo é organizar uma uma política da emigração justa, viável, bem recebida, aceitável pelos europeus.
Para nos reencontrarmos com o espírito europeu, devemos encontrar também neste caso, in extremis,“um equilíbrio dinâmico entre a insensibilidade, que nalguns casos será mesmo crueldade, a compaixão, a generosidade, a inteligência. Por agora os insensíveis parece terem a iniciativa. Chega-se mesmo a afirmar querer expulsar 500.000 migrantes.
Ora não é assim que se defende a Europa, não é com uma política de expulsões e de deportação em massa absolutamente revoltante e incompatível com a sensibilidade europeia.
A solução revela-se, então, num registo diferente, mas óbvio: evitar que haja migrantes.
O que é imperativo é adoptar uma nova política externa europeia de intervenção nos países de partida, para dissuadir a migração, estancar a hemorragia do capital humano, vital, afinal, para o desenvolvimento próprio, para o futuro dessas regiões agora devastadas. E, antes de mais, acabar com as intervenções de lesa-humanidade, como a que governos dos Estados Unidos e da França fizeram designadamente na Síria e na Líbia. Obama já o terá reconhecido.
Um único refugiado na Alemanha custa aos contribuintes alemães 20.000 euros por ano; com um quinto dessa importância poderiam ser criados postos de trabalho no local de origem que permitiriam viver a uma dezena de pessoas, refere o filósofo alemão Peter Sloterdijk num seu livro sobre a crise europeia, (Après le dilugePayot). Mas para isso é preciso que a Europa tenha uma posição comum, espírito e determinação de solidariedade – que é também revitalizadora do projecto empolgante de uma pátria comum europeia. É preciso, também para este objectivo incontornável e edificante, mais Europa.
Para isso a esquerda, a esquerda liberal e democrática, tem de regressar aos seus valores universalistas fundadores, libertar-se do contágio identitarista e obscurantista que agora a debilita e também ameaça correntes da direita liberal, também seduzida pela moda.
A questão dos migrantes não pode ser resolvida com o fechamento das nações, que também entre nós a extrema esquerda militantemente anti-europeísta deseja.
O fechamento não permite resolver, aliás, nenhum dos outros grandes problemas do nosso tempo, todos globais, só resolúveis no quadro do entendimento e da acção concertados de todos os Estados  do Planeta.
A questão dos migrantes prova aos europeus (aos que não estão cegos pelo ressentimento e a ideologia) a necessidade de fronteiras exteriores comuns. Melhor e mais Europa, é o que os Europeus e o Mundo precisam. Não há felicidade sem bondade, dizia Lacan. Uma Europa fiel ao espírito universalista e humanista europeu. Uma Europa em que nos orgulhemos de viver.
Publicado no “Observador”

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14.7.19

Uma ofensa ao espírito europeu

Por Guilherme Valente
O artigo de Fátima Bonifácio publicado no passado fim-de-semana no Público, e que deu origem a enorme polémica, assenta em ideias e pressupostos errados. Diz da Europa e de Portugal o que não são. Vê as culturas, a História, os africanos e as suas aspirações, a sua presença secular em Portugal, a realidade cultural e demográfica do país, o espírito e o modo da nossa terra, como não são. Encerra perversamente os seres humanos num destino fatídico, como a História inquestionavelmente não permite. O resto são banalidades óbvias e estados de espírito. 

O ‘nós’de Fátima Bonifácio não é o ‘nós’ europeu, da herança grega e cristã. É o seu oposto. Não é o ‘nós’ de Erasmo, Voltaire, Condorcet, Goethe ou Churchill, de S.Tomás e Francisco, nomes que  agora me ocorrem. Das grandes figuras do Renascimento, do Iluminismo e da Modernidade, da solidariedade humana,  de Beethoven e Bach, da grande literatura e arte europeias, que espelham o cosmopolitismo, universalismo e humanismo que fizeram a Europa – e que a Europa levou ao mundo, até à Índia.  

O artigo de Fátima Bonifácio é o oposto. Lembra o pior da Europa. O pior que no passado venceu com o sacrifício de milhões de europeus. E assim se foi fazendo mais Europa. O artigo de Fátima Bonifácio sugere (ou remete para) o que a essência da Europa não é. Pelo que pressupõe, ofende o espírito e o sonho europeus - hoje, de facto, confrontado com o desafio singular da torrente de migrantes. Que sobretudo ao Ocidente se deve. 

O artigo de Fátima Bonifácio ignora o que é a Europa, o que fez a Europa, de onde veio a  Europa, de onde chegaram os europeus, de onde viemos todos nós. Leia-se  a Eneida!

O que informa o artigo da doutora Fátima Bonifácio não é a História, não é conhecimento sociológico, não é exercício de razão, não é sequer um mero olhar sem preconceito da realidade do país e da cidade, das ruas por onde circula, das pessoas com quem se cruza, da vida à sua volta. 

Ao contrário do que sugere, milhares de cidadãos portugueses africanos, com filhos e netos tão portugueses como os filhos e netos da autora do artigo, trabalham honestamente em todas as áreas profissionais. Dos mais qualificados, alguns, a uma maioria menos qualificada, porque a maior parte deles terá nascido na pobreza, nos guetos de exclusão e violência, onde os pobres e os negros se confundem. Vieram, todos eles, para se integrar. Desejam todos eles, consciente ou inconscientemente, ter acesso às mesmas oportunidades oferecidas aos que nascem noutros ambientes. Igualdade de oportunidades - as mesmas, pelo menos, que a autora do artigo teve.

Porque as quotas – que considero, aliás, inúteis e perversas – não são apenas as que agora se pretendem atribuir, errada e americanamente, a negros e ciganos. São também ‘quotas’ porventura social e nacionalmente mais devastadoras: as vantagens iníquas de que outras minorias beneficiam – nascimento, estatuto, relações políticas e académicas, dinheiro, amiguismo, nepotismo, etc. Não é preciso ser doutor, historiador, sociólogo, para o saber e ter visto. E o tal facilitismo, como o artigo o descreve, tem obviamente ‘beneficiado’  esmagadoramente os ‘brancos’. 

O artigo da doutora, historiadora, socióloga Fátima Bonifácio parece ignorar muito sobre a História e tudo sobre as culturas – que considera petrificações imutáveis, que não são.

Ignora as relações interculturais, e a imensa literatura sobre a permanente reelaboração das culturas e a integração dos que as transportam; e as dramáticas excepções disso (caso dos ciganos) não permitem a generalização radical que o artigo faz. 
Ignora a história e a demografia de Portugal, onde, entre migrantes de todo o planeta,  desde o século XIII, milhões de africanos se integraram e cruzaram, sendo hoje  parte constituinte da população do Portugal que somos.  

Bastaria a  doutora Fátima Bonifácio ter lido a História da Cultura em Portugal, de António José Saraiva - incontornável para uma doutora em História –, para não veicular a ignorância e a arrogância  doutorada que caracteriza o artigo. 

O artigo de Fátima Bonifácio é, nalgum grau, o reverso equivalente, esperado, dos artigos do activismo negro, melhor, negro-muçulmano islamista - dito anti-racista, mas racista, de facto - a que as direcções do Público vêm dando espaço e voz.
Dou apenas dois exemplos. Os artigos e a divulgação enfática de afirmações do senhor Mamadou Ba - um ‘Fátima Bonifácio negro’, equivalente, no seu grau e  forma próprio, diferente no objectivo concertado que é o dele. E uma Carta ‘racista’, subscrita por dezenas de nomes, aparentemente de negro-muçulmanos estrangeiros, intitulada ‘Não queremos um museu contra nós’. É uma peça da campanha contra um Museu dos Descobrimentos, momento da tentativa de chantagem que tentaram fazer com o passado histórico de Portugal - realização admirável, com as sombras da época e da obra humana, mas glorioso motivo de orgulho para toda a humanidade. Tanto quanto me lembro, nenhum dos subscritores dessa Carta era identificado pelo jornal. Uma carta anónima, portanto, grau zero do jornalismo. Para além de mim, não me lembro de ter ouvido ou lido qualquer outro protesto. 

O objectivo desse activismo ‘anti’- racista – numa aliança que, com nuances, é em França designada islamo-esquerdista – é gerar conflitos étnicos na sociedade portuguesa. Usando como carne para canhão a gente frágil que procurou paz e futuro em Portugal, querendo mantê-la no gueto de miséria, inferioridade e violência em que vive. Gueto de que o Estado e todos nós temos de fazer mais para que eles possam sair. 

Não tendo - penso - a intenção organizada desse activismo negro muçulmano esquerdista, as generalizações e a ignorância patente no artigo da doutora Fátima Bonifácio são cúmplices objectivos dela, alimentam-na, dão-lhe pretexto e força. 

Duas palavras sobre o patético editorial da Direcção do Público. Intrigante é parecer ignorar que não é publicando ‘lixo’ negro e branco, dos vários quadrantes políticos, que o jornal passa a ser (volta a ser...) como diz que é. Lixo é lixo. Venha ou não envolto em todos os diplomas imagináveis de suposta excelência e na arrogância triste mais do que suspeita. 

Mas ainda bem que esse artigo e os reversos  idênticos dele foram publicados. Se não forem contagiantes e podendo ser contestados, é útil que os medos, os ódios, as frustrações e as pulsões se revelem. Que purguem... se a purga for com palavras.
Publicado no "Sol" de 13 Jul 19

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7.7.19

CENSO E RACISMO

Por Guilherme Valente
As   discriminações não se combatem levando as pessoas a auto-discriminarem-se.  Não quero reservas ‘índias’ na minha terra!
NUM TEXTO recente no Observador, critiquei a defesa feita por Alexandre  Homem Cristo da inserção no Censo de 2021 de perguntas sobre as origens étnicas ou ‘raciais’ da população portuguesa.  
Segundo ele, no próximo Censo, o INE deveria incluir no questionário perguntas aos inquiridos sobre as suas origens étnicas ou ‘raciais’.
Seguramente bem-intencionado, AHC terá caído em logro idêntico àquele em que terão incorrido alguns  dos académicos subscritores de uma ‘Carta Aberta’ de oposição  a um Museu dos Descobrimentos, há uns meses divulgada. Na verdade, está tudo ligado.
Na minha crítica à posição de AHC,  procurei mostrar não apenas a impraticabilidade científica de tal inquérito mas a sua perversidade. O argumento de que as respostas a essas perguntas permitiriam ao Estado enfrentar as discriminações ronda o inimaginável.

A INTENÇÃO da  iniciativa de tal Censo – fingindo ser, digamos, técnica e politicamente neutra –  é flagrantemente política e ideológica.

Intenção em que convergem, como se vem manifestando  noutros registos pela Europa, os extremos do espectro político.  Numa crónica recente no Público (1 de Julho), António Barreto sugere  esta mesma possibilidade, ilustrando cabalmente o absurdo científico de tal inquérito (1) e referindo expressivamente o efeito potenciador de racismo e de discriminação que teria.
Num comentário urbano a esse meu artigo no Observador, um leitor lembrou-me que as respostas ao questionário seriam anónimas. Tentei explicar-lhe que esse facto não impediria o efeito perverso das perguntas,  mas antes o potenciaria, pois  as interrogações que se nos colocam na solidão  da nossa consciência  tocam-nos mais profunda e estigmatizadoramente  do que as interpelações públicas.

CONSIDERO MESMO que, num acme de perversidade, o objectivo de tal Censo seria  gerar a auto discriminação. Manter num  gueto também interiorizado de miséria e inferioridade a gente   étnica, cultural, económica e socialmente fragilizada -- da qual o activismo  dito anti-racista e os grupos políticos que o apoiam se servem como carne para canhão para desígnios sinistros.
A discriminação não se combate levando as pessoas a discriminarem-se a elas próprias, a interiorizarem  uma sua suposta inferioridade. Abominável, tal  Censo seria mais uma etapa num processo que   conduziria em última  instância a uma regressão civilizacional. O mesmo objectivo, afinal, da tentativa de chantagem com o passado histórico de Portugal – obra humana, por isso imperfeita, admirável e gloriosa. 

E TAL COMO A. Barreto sugeriu, também eu penso que o  ‘problema’ não são os indianos, nem os judeus – estes até (inconfessadamente)  achados superiores, e por isso invejados e perseguidos  entre nós no passado –, nem os chineses. 
Chineses cuja civilização deslumbrou a Europa e cuja riqueza voltamos a invejar – como a minha geração invejou a da América. Chineses  que, pelo que sempre foram milenarmente, são indiferentes  ao que pensamos deles (‘viver e deixar viver’).
O problema nem são mesmo os ciganos – afinal, em muito,  um ‘problema’ civil, administrativo, do sistema educativo e de acção social, de coragem política firme na vontade de os integrar. 
O ‘problema’ são... os negros. Esses  ‘eternos’ deserdados do planeta, ‘eternos’ estigmatizados e inferiorizados do mundo.  Bodes expiatórios, alvo  perfeito para a projecção das pulsões mais odiosas  recalcadas nos recônditos reptilianos do ser humano. 
O problema é  o racismo branco e o racismo negro, os extremos políticos ressentidos,   aliados  oportunistas do racismo negro muçulmano,   do radicalismo islâmico, como  é mais visível na França. Pensando que por aí virá a concretização da profecia, afinal abominável, de Marx.  
O QUE QUEREM impor é um mundo de apartheid, de guetos, tribal, de todos contra todos. O que os afronta e detém  são os valores iluministas e solidários, o humanismo e o universalismo, o melhor do espírito europeu. O seu alvo mais do que  evidente  é o  Estado meritocrático. 
Não é numa sociedade assim que quero viver!  Há pessoas com  quem gosto de conviver, outras que não me dizem nada e algumas  que evito mesmo.  Pessoas de todas as cores, que nem vejo a cor delas. Não abdicarei do convívio fraternal de muitos amigos negros, ‘brancos’, deste ou daquele partido (que não me queira  impor a sua ideologia). Sou cristão e europeu. Não quero ver reservas na minha terra.
       
(1) Acrescento ainda: na sucessão das gerações, no ‘jogo dos possíveis genético’ (F. Jacob), em que momento alguém passará  a ser, a responder, ‘branco’ ou ‘negro’? No meu caso, por exemplo, em que momentos ‘eu’ deixei  de ser viking para passar a ser celta-ibero, lusitano, semita, berbere (umas pitadas, que nasci a  Norte do Tejo), ‘branco’, enfim?  Tão estúpido quanto sinistro tal Censo!

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18.3.19

OLHAR A CHINA, A PERSISTÊNCIA DA IGNORÂNCIA (I)

Por Guilherme Valente
«Sempre acreditei que a China só poderia mudar pouco a pouco. Hoje dou-me conta de como foi rápida e  brutal [abrupta] a transformação (...) Não estou a falar dos penteados das raparigas,   mas das mentalidades e comportamentos». 
Jia Zhang-Ke 
.
NUNCA NA HISTÓRIA um país  mudou tanto, experimentou tantos modelos políticos, tão rapidamente. “Não interessa a cor do gato, é preciso é que apanhe ratos”, disse Deng. Mas persiste na generalidade dos comentários  uma visão da China como ‘a China de Mao’. Estaríamos  mesmo hoje perante a instalação de um novo déspota e, quiçá, na iminência de uma nova Revolução Cultural. 
Xi Jiping um novo Mao? Bastaria  uma informação mínima,  inteligência comum, um olhar mundano, para se concluir da evidência do  disparate.
Vejamos o básico. 
Desde 1956, da ‘Revolução das Cem Flores’ (peripécia sangrenta a  propósito da qual Mao, evocando Qin, o seu modelo, que  enterrara vivos 460 letrados, se gabou de ter mandado matar 100 vezes mais intelectuais), que os líderes e os intelectuais chineses mais esclarecidos  tentaram neutralizar  o que começava a tornar-se ‘o Grande Timoneiro’.
Um ‘timoneiro’ que, num crescente delírio  de poder pessoal  que nunca foi possível conter,  conduziria à morte milhões de seres humanos, deixando o país em cinzas. Delírio, convém não esquecer,  que a imensa generalidade  da inteligência europeia  e caseira celebrou como anúncio redentor de um radiante e definitivo ‘mundo novo’.
O EPISÓDIO Liu Shao Chi foi a tentativa que esteve mais perto do sucesso nessa determinação de afastar Mao.
Mas a genialidade táctica deste, a sua total ausência de lealdade e de escrúpulos no uso dos meios mais cruéis, a adoração do povo que o identificava como o imperador que libertara  a China dos monstros estrangeiros devoradores (ver o filme recente A Grande Muralha), garantiu-lhe o regresso e catalisou-lhe a loucura – já então, repito,  absolutamente clara para a elite política e intelectual chinesa. As manifestações dessa loucura foram inúmeras, tantas quantas as exaltações de louvor  no Ocidente.  Só o seu fim natural o neutralizou,  em Setembro de 1976, entre um eclipse do Sol e um grande sismo, como era milenarmente assinalada cosmicamente a morte dos grandes imperadores...
Uma manifestação reveladora da índole de Mao e do então louvor dionisíaco no Ocidente (e caseiro) é uma confissão despudorada do déspota feita numa entrevista a Edgar Snow.  Confissão que, no seu limitadíssimo conhecimento da língua e da cultura chinesas, este traduziu assim: «Sinto-me como um bonzo careca a passear à chuva com um guarda-chuva cheio de buracos». O leitor está a imaginar o orgasmo que tal metáfora induziu nos crentes caseiros e europeus!
Pois, mas a questão é que se tratava de uma expressão idiomática chinesa, ignorada por Snow, que significa: «Sou um homem sem fé nem lei»!*
Mas essa e muitas outras lições  não impediram que se continuem hoje a debitar  asneiras  de igual calibre sobre a China.
A PARTIR DA CONSOLIDAÇÃO da liderança de Deng Xiaoping,  o objectivo maior foi precaver a emergência de um novo Mao e a possibilidade de algo que sequer lembrasse a Revolução Cultural. Probabilidade então fortíssima.
Todos os actuais líderes chineses ou seus familiares sofreram o inaudito  na Revolução Cultural. Sabe-se o que  Deng várias vezes teve de suportar, o filho atirado de uma janela da universidade por um bando de libertadores guardas vermelhos. Guardas vermelhos então cantados entre nós por muitos dos especialistas que hoje anunciam temer um novo Mao.  Inúmeros quadros  nos diversos níveis da Administração chinesa de hoje sofreram na pele a Revolução Cultural. Conheci alguns deles.
E foi para afastar  naquele período crítico a possibilidade de algum propósito ou ilusão de regresso à tirania  que surgiu, entre outras, a medida – singular na História – do impedimento de os ex-Presidentes da República e dos ex-primeiros-ministros voltarem a poder exercer,  depois de dois mandatos,  qualquer cargo oficial no governo da China.  
No espírito da concepção chinesa da História, informada pela visão ética-cosmológica que distingue radicalmente o pensamento chinês, identificado o ‘momento’ (shi 2) – que na concepção chinesa não é o instante ocidental mas ‘duração’** – e decidida a ‘propensão’ (shi 4), isto é, a ocasião adequada para a intervenção humana (que não perturbe a ordem cósmica das coisas), essa solução foi então pragmaticamente considerada como a que devia ser adoptada.
E por que foi ela agora alterada, no último Congresso do (também explicavelmente) chamado PCC?
XI JIPING É O ACTOR necessário escolhido  para interpretar, externa  e internamente, o novo acto, a nova etapa no processo de ‘rejuvenescimento’ da China***. Objectivo traçado desde antes de 1911, de cuja concretização  os  grandes intelectuais e líderes políticos chineses nunca duvidaram. Acto escrito e a ser  representado,  com rigor e cuidado, com o  pragmatismo milenar. Etapa já anunciada por Deng para quando... a ‘propensão’ permitisse o seu êxito.
Quando leio ou ouço os nossos maoístas arrependidos e sucedâneos a falarem sobre a China,  sinto-me frequentemente como o Asterix se sentiria a ouvir a Sinfonia nº1 para Violino e Orquestra de Tchaikovsky executada pelo bardo da aldeia.
 .
 (1) Contado por Simon Leys.
 (2) ‘Estruturação’, ‘estação’, no ciclo do devir  das ‘coisas inumeráveis’, determinada pelo jogo dos cinco agentes cósmicos nucleares e das virtudes a cada um deles associadas.
 (3) Expressão usada desde 1911 por todos os PR  chineses na sua tomada de posse.

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6.1.18

ESCRAVATURA, O GENOCÍDIO OCULTADO

Por Guilherme Valente
A mão treme quando evocamos os crimes cometidos pelos Árabes, enquanto o inventário dos crimes cometidos pelos Europeus, igualmente condenáveis, ocupa páginas inteiras.
Marc Ferro, 1942
A captura pelo Daesch de milhares de yezidis e cristãos deu visibilidade à escravatura e ao tráfico que prosseguiram larvares p.ex. na Arábia Saudita, no Quatar e Emiratos. Como revelou a CNN na Líbia, o fenómeno migratório actual segue as rotas do comércio histórico de escravos. 
Iniciado em 652, esse tráfico árabe-muçulmano atingiu 17 milhões de vitimas, mortas ou castradas, durante treze séculos sem interrupção, ultrapassando em quantidade e crueldade o tráfico depois alargado ao Atlântico pelos Europeus .
Nem mesmo a conversão ao islão que interditava a escravidão dos convertidos - o islão tem o melhor e o seu contrário... - impediu o horror. Na peregrinação a Meca muitos fiéis eram raptados e revendidos por mercadores ricos.
A ocultação dessa página dolorosa ainda não totalmente virada da história dos povos africanos põe em foco um livro de 2008 então significativamente ignorado: Le génocide voilé, do historiador franco-senegalês T. N'Diayde [*]. 
Escreve o Autor: "Civilizações com milhares de anos foram devastadas por razias sanguinárias. Impérios inteiros destruídos, como os do Gana no século XI pelos Almorávidas vindos do Marrocos e da Andaluzia. Apoiados por aventureiros europeus, chegaram ao coração do continente, até à actual Tanzânia e ao Congo, comprando a cumplicidade de soberanos locais". Tráfico que começou quando o abastecimento na Europa Oriental e Central escasseou ("escravo" vem de "eslavo").
Quando Portugal chegou posteriormente a esse tráfico africano, dadas as suas limitações de penetração no interior do Continente, foi mais comprador que captor.
E porquê a ocultação e minimização desse tráfico árabe-muçulmano? Porque esqueceram os descendentes das vitimas esse horror e se unem agora aos descendentes dos carrascos?
É que hoje a maior parte da África sahariana tornou-se de religião muçulmana e a fraternidade religiosa uniu-se no interesse comum de ocultar aquele verdadeiro genocídio. Interesse com que converge num logro mutuo a esquerda radical (e mesmo uma esquerda ignorante sem rumo nem memória). 
Num lado, o ressentimento face ao sucesso das sociedades ocidentais, o alibi da vitimização que faz dos "brancos" bode expiatório para o bloqueamento contrastante das sociedades africanas e islâmicas, para a ocultação da responsabilidade própria na tragédia Africana e do Médio Oriente.
No outro lado, o ressentimento face ao triunfo do pensamento liberal e das sociedades abertas de uma esquerda radical órfã das grandes narrativas e causas históricas e incapaz de identificar novas causas sociais que emergem. Resultante de sucessivos abalos sísmicos: a recorrentemente falhada profecia de Marx, Lenine, Estaline, a URSS, a China e o seu sucesso capitalista.
Continuando a cultivar a pulsão da intolerância totalitária que lhe está na natureza, o que hoje pode fazer é provocar a maior obstrução e barragem políticas possíveis [**]. E vê no Islão a única força capaz de abalar o mundo ocidental. A chantagem da "islamofobia" [***], o encorajamento da vitimização dos Africanos, o paternalismo perverso, são instrumentos para combater os adversários de sempre: o capitalismo, a sociedade aberta, a liberdade.
Não retirando a responsabilidade histórica que cabe aos Europeus, o livro O Genocídio Ocultado repõe a verdade histórica e mostra que a escravatura não é um crime por qualquer estranha razão inerente ao homem "branco".
A escravatura é um crime que fere a humanidade. A Europa não a inventou, mas inventou a sua abolição. Aguarda-se que todo o mundo islâmico-muçulmano e africano siga o exemplo. E peça desculpas!? Não, desculpas só os "brancos"... por serem superiores na consciência, na moral, na humanidade? NÃO! 
Quanto à mundivisão totalitária da esquerda (ou da direita) radical, é, como a psicanálise, interminável.
---
[*] - Ver Pascal Bruckner (Le Point, Nov) numa nota de leitura que divulgo prescindindo de aspas. (Para os amantes da BD, recordo Tintim, Carvão no Porão.)
[**] - Entre nós com particularidades próprias da realidade política que só há cá.
[***] - É imperativo distinguir o islão radical assassino, do islão pacífico vitima do islão iluminista perseguido implacavelmente.

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22.10.17

Por favor, limpem as cabeças e as almas

Por Guilherme Valente
Por favor, limpem as cabeças e as almas, ponham de lado por uma vez a esquizofrenia de pensamento que continua a ser o mal que corrói a política, a sociedade, o mal que impede a democracia verdadeira que já podíamos ter. Porra, morreram já nem sei quantas pessoas, são demais as evidências do desleixo, da irresponsabilidade da inconsciência, incompetência de quem devia governar e não governa, são demais e apesar disso continua-se, continuam a encher-me o facebook com merdas de fanatismo insuportável! Não governam em nenhum registo, afinal, porque de facto nenhum deles, destes primeiros-ministros todos e dos amigos que escolhem, mesmo que algum o gostasse de fazer, não governam. Não governam porque não podem, nem sabem, nem têm a mínima experiência para o poderem fazer. Já nem refiro a intenção porque muitos deles até pensam que a política e governar são isto. Até conheço muitos deles e com o que digo não quero ferir pessoalmente ninguém. Os responsáveis somos de facto todos nós, eles também, claro, porque estão no "nós", todos nós os que falamos, escrevemos, votamos, de algum modo nos servimos e julgamos poder servir-nos desta vergonha que se eterniza. Nós que nos alimentamos e que alimentamos este horror de vida política social e, afinal, humana. Depois há os outros, os que são só vítimas e são cenário, que usamos. 
E o fanatismo vai agora ao ponto de se sujar a atitude certa de um PR, eleito, aliás, pela maioria dos Portugueses. Quero lá saber da hipertrofia para as câmaras ou não, quero lá saber das intenções escondidas dele, tal como não quereria saber das intenções de um primeiro-ministro ou ministro ou comandante não sei de quê que tivesse feito, fizesse, neste e em todos os campos da governação, o que o país precisa que se faca! 
E todos os outros fizeram o que fizeram ou não fizeram com que intenções escondidas? Quanto a mim sentir-me-ia um nojo humano se partisse do princípio, se desse abrigo à ideia repugnante de pensar que perante o desespero de uma Mãe que perdeu o único Filho, a abraçar-me e a pedir-me o que não lhe podia dar, alguém pudesse pensar na política, nas câmaras, nessa merda toda. Ah, mas o PR foi lá para isso... não me lixem! Queriam que ficasse em casa? Queriam que tivesse governado antes, em vez do Governo? E os outros foram ou não foram lá porquê e para quê, esses que hoje são do PS e ontem seriam os do PSD ou, infelizmente, de outros partidos quaisquer? Eu acho que foram para tentarem fazer alguma coisa, como pode um ser humano no lugar deles ter ido lá por outra razão? Fazer o que, infelizmente não sabem fazer, nem sabem o que fazer, nem teriam força, capacidade pessoal, alma para fazerem (eu infelizmente conheço e até vi trabalhar alguns deles). 

Por favor não ponham mais lixo que vá ter à minha página do facebook, lixo que me apareça em casa, já chega o que levo na sola dos sapatos. Ponham liberdade de pensamento e consciência, análise crítica, vontade de não se enganarem a vós próprios. Estou farto de sectarismo e de estupidez e agora de clara cega desumanidade. Sejam, como queriam Confúcio, Sócrates e os grandes clássicos Gregos (para referir os mais antigos) iguais a vós próprios em cada momento, isto é, APENAS FIÉIS À VOSSA CONSCIÊNCIA, "iluminada por uma permanente abertura a todas as ideias novas ou velhas e a mais rigorosa análise crítica de todas elas", como escreveu inspiradamente Carl Sagan. 
Estou indignado. E não é para as câmaras.

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24.6.15

EDUCAÇÃO, O "REGRESSO" DO QUE NUNCA SAIU DE LÁ


Por Guilherme Valente

"Sou um homem com sorte. Quando cometo algum erro, há sempre alguém que mo aponta", Confúcio
«É de pequenino que se torce o destino», Carlos Fiolhais

O Secretário-Geral do PS admite acabar com os exames nacionais para os alunos mais novos. Embora o programa eleitoral não seja claro sobre isso – haja alguma esperança, portanto -, afirmou na TSF que «não é uma boa solução a antecipação de exames para idades tão precoces» e que as retenções «têm um custo enorme». «Tal como um raio x não cura um doente, também um exame não faz a aprendizagem dos alunos», disse.
António Costa não tem razão. Os exames fazem aprender. E fazem ensinar, que é, aliás, o que aqueles que mandaram na educação durante 40 anos não querem que aconteça na escola. Como bem viu uma grande figura do PS, Sottomayor Cardia.
E a metáfora que AC usou não faz sentido, porque os raios X salvam mesmo muitas vidas, são decisivos para a descoberta da doença, cada vez mais determinantes para a cura, portanto.
Quanto ao "custo enorme dos exames", não é custo nenhum. É um investimento. Custo enorme é o que o País anda a pagar desde há anos por não ter havido exames a sério. Muito particularmente logo no final do primeiro ciclo. Abandono escolar subsequente, alunos que se arrastam sem completar o Secundário, percentagem dramática dos que não entram e desistem no Superior. Apesar do facilitismo que também aí tem crescido. Ou seja, ignorância, iletrismo, alheamento cívico, desqualificação profissional. Que AC, seguramente, não quer que continuem a verificar-se.
O exame no final do primeiro ciclo não é nada precoce. É pedagógica e cognitivamente essencial. Um sinal a dizer aos miúdos ao que vêm. AC também o realizou e parece não lhe ter feito mal. E sem tomar calmantes, porque teve os pais que teve.
Os exames são um treino de empenho e responsabilidade. Que entre nós até deve ser realizado com maior frequência. Um desafio motivador, aceite pelas crianças com naturalidade e gosto. Desde que os "cientistas" da educação, o ministério, a escola e os paisinhos não lhes cultivem a preguiça, a irresponsabilidade e a insegurança.
Os avanços mais recentes das ciências cognitivas mostram que uma exigência suficientemente forte no início do percurso escolar é benéfica para a criança. A aquisição precoce de certos automatismos, no português como na matemática, permite libertar o cérebro para outras aprendizagens, sublinha um reputado especialista de ciências cognitivas, Stanislas Dehaene. E é antes dos dois primeiros anos do Básico que podem e devem ser adquiridos.
São idades em que se manifesta um grande gosto e uma surpreendente facilidade em aprender.
Pois se até o nosso border collie pede que lhe ensinemos coisas e manifesta satisfação quando aprende...
AC deve, pois, ouvir os investigadores das ciências cognitivas. Não deve seguir a indigente ignorância e a pura insensatez que lhe servem os "cientistas" da educação.
Mas ainda este ministro não foi para casa - triste por não ter aproveitado tão bem como devia a oportunidade que lhe caiu do céu - e já parece vislumbrar-se a anulação das medidas que na direcção certa conseguiu concretizar. Nalguns casos tímidas e tardias, dói-me ter de o reconhecer, mas, mesmo assim, persistentes, e no caso dos exames logo com resultados à vista.
Parece, pois, configurar-se o regresso do pedagogismo, com um poder de novo sem freio. Em detrimento da prioridade do saber e da transmissão, que Nuno Crato teve o mérito de ser o primeiro governante a querer assumidamente praticar. Regresso das ideias velhas que durante mais de trinta anos promoveram a ignorância e a indisciplina, inviabilizando a escola, infantilizando os alunos e desvalorizando os professores, anulando a sua tarefa inestimável.
Regresso? Os ministros vão passando, mas os oráculos obscurantistas da "educação" continuam a ser os mesmos, o seu domínio manteve-se. Um jugo que o País irá pagar sempre mais caro. 
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Expresso de 20 Jun 15

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20.3.15

CONSELHO NACIONAL DE DES EDUCAÇÃO

Por Guilherme Valente
Entre as várias coisas boas que este Ministro da Educação foi capaz de fazer, a melhor foram os exames. E a prova, como se previa, viu-se logo: passados um ou dois anos sobre a medida, as médias subiram em todas as escolas. Em todas, mas mais… nas públicas! Nas "más", e isso é que é importante, para dar oportunidade e esperança a todas as crianças, criando as condições para diminuir o fosso da desigualdade social. (E subiram menos nas privadas por nelas haver já mecanismos de exigência de trabalho e de ser outro, regra geral, o empenho dos pais.)
Saudada com júbilo pelos que realmente se preocupam com a qualidade do ensino e o destino dos alunos, essa subida nos resultados enervou e abalou, como se viu, os defensores do facilismo, da ideologia que serviu magnificamente aqueles que quiseram e querem inviabilizar a educação em Portugal.
E a reacção não tardou. O CNE, agora com a cobertura útil do presidente que passou a ter - as escolhas e delegações deste Ministro são, regra geral, um desastre - vem agora propor, criminosamente, o fim das reprovações, isto é, o fim dos exames a sério. Para isso invocou três "razões", todas agoniantes: 
Uma, a de que as reprovações não resolvem o problema dos alunos que reprovam - e a transição sem se saber resolve? E foi por isso mesmo que desde sempre defendemos... a necessidade de apoio reforçado aos alunos reprovados. Solução que vêm apresentar agora como se fosse uma descoberta sua.
Outra razão, a de que reprovação suscita nas crianças perturbações emocionais, é hilariante, na linha de concepções e de práticas idiotas que têm conduzido à infantilização dos alunos, gerando jovens e adultos sem autonomia, personalidades frágeis incapazes de enfrentar as mínimas contrariedades que a vida a toda a gente inevitavelmente coloca.
E, última razão evocada, a de que as reprovações custam caro ao Estado. Razão hipócrita esta, por ser apresentada pelos que sempre tão assanhadamente atacaram o Ministro por "sacrificar a qualidade do ensino à poupança de dinheiro". Poupar-se-ia 900 milhões, dizem-me que terá dito o meu Amigo Eduardo Marçal Grilo – então porque não poupam tudo? Fechem-se as escolas, acabe-se com a Educação! 
A proposta do CNE junta cegueira ideológica e ressentimento a uma aparente...burrice. E porquê? Por que os exames, a reprovação (a que chamam beatamente retenção), não se destinam apenas, nem sobretudo, a proporcionar aos alunos sem qualificações para transitar de ano a possibilidade de recuperarem. O objectivo e benefício dos exames a sério são sistémicos. 
Isto é, promover o estudo pelos alunos todos, a qualidade do ensino (e o estudo...) pelos professores, a preocupação dos pais relativamente ao trabalho escolar dos filhos, e também o empenho e competência do aparelho do Ministério. O objectivo dos exames é, em suma, pôr toda a gente a trabalhar, a estudar, a ensinar e a educar realmente, informando e responsabilizando todos, professores, directores, escolas, ministério e pais.
Percebe-se, assim, porque precisamos em Portugal de um regime de exames bem diferente daquele de que necessitam sociedades como a finlandesa ou a japonesa, por exemplo.
Acabar com os exames, como agora vem defender o CNE determinará, rápida e inelutavelmente, que se passe a estudar menos e a ensinar pior. Voltará a descer, portanto, o nível de formação dos alunos, a crescer o abandono escolar e a indisciplina, a irresponsabilidade de estudantes e professores (e a frustração dos melhores deles), a indiferença dos pais. E os mais prejudicados seriam, serão…, como sempre foram, os mais desfavorecidos, assim se contribuindo para agravar ainda mais as desigualdades sociais. E entrariam ainda menos alunos no ensino superior, a não ser que também nesse grau de ensino viesse a verificar-se uma descida ainda mais escandalosa de exigência. Facto, infelizmente, bem provável, aliás, pois não começaram já alguns Politécnicos a decidir o fim de alguns exames – com excepção do exemplo que se esperava dos de Lisboa, Porto e Coimbra? Tudo para agravar a miséria da realidade política, cultural, económica, financeira, o pântano em que o País tem vivido. 
«Expresso» de 14 Mar 15

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21.6.14

O PAÍS QUE AÍ VEM

Por Guilherme Valente
1. O flagelo do «partido» único das «ciências» da educação que domina o ensino praticamente desde o 25 de Abril, não vitimou apenas os alunos, enganando-os sobre a função da escola e a vida, embotando inteligências e vontades. Atingiu também os professores, instrumentos e vítimas, bode expiatório dos resultados escolares anos e anos a piorar. E contagiou os pais, frequentemente barreira à mudança na educação. Uma manifestação expressiva da situação a que esse flagelo, facilitista e infantilizador, conduziu é a choradeira de muitas mães por causa do suposto stress dos meninos com os exames. Exames de caca, registe-se. 
Muito pelo contrário, o que tem faltado é um mínimo de exigência, de exames a valer. Exames que no estado a que o ensino chegou são instrumento incontornável de regulação e construção da escola, que é natural e desejável induzirem nos alunos e nos professores empenho e preocupação, e mesmo um saudável stress. Professores que é urgente libertar, isso sim, de um outro stress, esse bem nocivo, o da burocracia cretina com que foram sendo asfixiados. Burocracia que este Ministro ainda não... implodiu. E o regime de exames imperativo na nossa escola é, evidentemente, diferente do praticado nas escolas responsabilizadoras de sociedades como o Japão, Finlândia ou Macau, com professores formados a sério e motivados e famílias com outras características culturais. É esta evidência que o especialista da OCDE que recentemente se referiu aos exames em Portugal devia perceber, não esquecendo a sábia asserção de Marx quanto à necessidade da análise concreta da situação concreta. São generalizações dessas que contribuem para perpetuar as desigualdades entre os países, impondo aos mais atrasados um queimar de etapas que só agrava a situação de partida. O que se passou na educação em Portugal é prova disso. Só depois das mudanças introduzidas por Justino e reforçadas por Sócrates se terá manifestado progresso nos resultados dos alunos portugueses nas provas comparativas internacionais. Progressos verificados só depois dessas mudanças, num dos testes com alunos apenas com quatro anos de escolaridade. Depois de em todos os anos anteriores os resultados terem sempre piorado. Bastaram, aliás, uns examezinhos para se perceber que os resultados estão a melhorar. Por isso a agitação da FENPROF, das associações de professores de Matemática e de Português, de associações de pais, que pais? 
2. Mas há outra manifestação assustadora dessa mundivisão posmoderna (com que a nossa velha cultura tão bem se dá) de que a educação que temos tido foi ponta de lança e modelo. Manifestação que os mídia tem reportado com silêncio crítico, como se não se tratasse da obscenidade que na verdade é. Situação de que a exigência e os exames, se persistissem, seriam factor de cura. 
Alguns títulos do Expresso: 
"Em 2013, pelo menos 5 mil crianças e jovens tiveram pela primeira vez acompanhamento por depressão. Consultas subiram 30%"; "Mil embalagens de antidepressivos e ansiolíticos receitados no ano passado a adolescentes entre os 12 e os 19 anos"; "Bebés também ficam deprimidos. Na Estefânia foram atendidos 20 em 2013"; "É urgente aumentar camas de internamento". 
Para quê as campanhas do Dr. Francisco George? Prevenção da toxicodependência, para qûê? Não está, afinal, em curso uma sementeira para o consumo de todas as drogas?  
Nos anos que aí vêm que País irá ser o nosso? 
"Expresso" de 21 Jun 14

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10.2.14

OS ANOS DEVASTADORES DO EDUQUÊS - OUTRA PROVA

Por Guilherme Valente
«Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos. Esta é apenas uma das conclusões do estudo da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilirio para o Desenvolvimento Humano» (notícia no Público de 15/01/14). E, diz ainda o estudo, também menos felizes. 
Foi, como se sabe, o que, infelizmente, previmos, que andámos a dizer há mais de 20 anos. Está escrito nos inúmeros artigos que publiquei, registado no meu livro com um título, Os Anos Devastadores do Eduquês, expressivamente convergente com os resultados do estudo agora divulgado. Quanto mais tempo na escola que temos tido, pior. 
As consequências destes anos de domínio da ideologia e das práticas educativas que tenho designado com a palavra «eduquês» eram já bem visíveis para quem pudesse olhar com espírito livre. Desde logo, em várias manifestações na escola, e, depois, na sociedade, da política à economia, manifestações que cada vez são mais impressionantes. 
A solidariedade, o seu sentimento e necessidade, a felicidade, seguramente, só podem assentar nos grandes valores e nas manifestações mais elevadas da cultura, do conhecimento, da religião, do altruísmo, da generosidade humanos. Valores, conhecimento e cultura que, pelo contrário, foram desvalorizados, durante todos estes anos, por esta escola, dita moderna, mas posmoderna, das «ciências» da educação. 
Escola dos «chavões» da «aula como continuação do recreio», do «aprender a aprender», do «aprender sem esforço», das avaliações a fingir, cujos resultados, mesmo assim, esconderam ao País enquanto os deixámos; do «ensino centrado no aluno», que, como demonstrámos, não queria dizer «ao serviço do aluno», como devia querer ser, mas sim «o ensino definido pelo aluno», imagine-se». Escola marcada (até David Justino e José Sócrates, registe-se) pela estigmatização do ensino técnico, escola da grande mentira da «inclusão» - como pode ser isso apregoado, quando se foi vendo logo que as crianças mais desfavorecidas fugiam cada vez mais dela? 
Aqueles que, durante todos estes anos, ignorando a prova da realidade, teorizaram e impuseram o ensino que temos tido - um ensino que expulsou ou foi desvalorizando a memória, a história, a grande literatura e com ela o ensino da língua e a expressão do pensamento, a filosofia, o conhecimento que conta; um ensino sem exames, sem exigência, sem emulação, sem a valorização do mérito, sem regras; um ensino permissivo, com os jovens abandonados ao «instinto reptiliano», e mesmo, nalgumas situações, encorajados a manifestá-lo - um ensino que, diziam, e continuam a dizer, tornaria os portugueses mais tolerantes, solidários, participativos e cooperantes, criativos e empreendedores, mentiram ou falharam. Aconteceu o contrário. Não tornou os Portugueses mais informados, nem mais cultos, como imediatamente se podia ter percebido, mas também não os tornou mais generosos e solidários. O verdadeiro, interiorizado, reflectido conhecimento é gerador de solidariedade, a ignorância é sua inimiga. E quanto mais anos neste ensino, pior. Mais instruídos? Mais solidários e empenhados no bem social? Não. Apenas com mais anos na escola errada. Como este estudo da Universidade Católica parece ter já podido verificar. Essa ideologia e essa prática "educativa" roubaram as crianças, deixaram que perdessem os valores tradicionais que transportavam, e que fossem substituídos por uma espécie de lei da selva, que chegou até, de algum modo, a ser valorizada. Violência que tem a expressão mais imediata e vísivel nas agressões aos professores e entre os alunos, e o seu espaço natural na anomia anti-educativa dos hiperestabelecimentos escolares. Violência que cresceu sempre, em número e em grau. 
E mesmo que se actuasse já no ensino, num grande movimento nacional que tudo, infelizmente, indica parecer impossível - e ainda que resultados dessa boa mudança logo se manifestassem no ambiente das escolas e no aproveitamento dos alunos, como tenho dito - a alteração do perfil médio dominante dos portugueses que o tal estudo da Universidade Católica revela só no longo prazo, como se compreende, se verificaria. E Portugal, entretanto, como se tem visto, irá pagando a factura. 
Há de resto muitos outros indicadores desta realidade. Por exemplo, no domínio, determinante, da leitura. A escritora Alice Vieira referiu que há dez anos ia às escolas apresentar e discutir os seus livros com miúdos de 12 anos. Hoje vai à escola apresentar e discutir os mesmos livros... com jovens do 12.º ano! 
E é urgente divulgar e pensar uma situação terrível que terá consequências dramáticas para o País: os grandes livros que veiculam o conhecimento universal estão já a deixar de ser publicados em português. Por falta de leitores. De um número mínimo de leitores que viabilize os custos da sua edição. 
O que o estudo da Universidade Católica - que é também, curiosamente, uma tese de doutoramento em «ciências» da educação - parece provar é, pois, infelizmente, o que eu sempre disse, e que não era, aliás, difícil de prever. 
"Tudo é igual a tudo" é, afinal, a expressão pós moderna que melhor traduz a ideologia e a pedagogia que também à nossa escola foram impostas durante todos estes anos de devastação. O resultado aí está, documentado agora por um estudo que parece ser insuspeito e merecer, por esta primeira notícia, credibilidade. Mas não era preciso estudo nenhum para o provar, bastaria pensar e, depois, olhar. 
Claro que [há] certamente gente boa e muito boa, como sempre houve e haverá. Tendo havido também bons professores que conseguiram resistir, como sempre aconteceu no passado, há também bons alunos que sobreviveram ao sistema. Instruídos e bem formados… fora da "escola". Como pode falar-se nas «gerações mais qualificadas que Portugal teve»… 
Mas mudar está ao nosso alcance, depende apenas da nossa vontade. O que é preciso primeiro [é] quer[er] ver e assumir a verdade. 
"DN" Fev 14

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5.2.14

A Formação de Professores e a Capital do Camboja

Por Guilherme Valente
SOU ESPECTADOR regular do concurso «Quem quer ser milionário». Conhece-se o modelo: uma pergunta, quatro respostas à escolha, é só colocar a cruzinha. No amontoado de respostas ignorantes do costume verifica-se a recorrência de algo novo e estranho, que uma observação atenta obriga a considerar ser de outra natureza. Dois exemplos. Um que testemunhei, outro registado por Joel Neto (DN, 16/01/2014).
A pergunta era: «Das quatro cidades indicadas, qual é a capital do Camboja?». O concorrente, mestre num qualquer curso, não sabia. «Mas pense», encorajava Manuela Moura Guedes. «Resposta: «Não sei porque... nunca estive no Camboja».
No caso referido por Neto, foi pedido à concorrente que escolhesse entre quatro cidades a que ficou ligada a uma batalha marcante da I Guerra Mundial. Pensou e... nada. «Então não se lembra, a I Guerra Mundial...». «Não sei, porque não vivi nesse tempo». Como observou Joel Neto, o que tornou a participação da estudante especialmente constrangedora não foi não saber a resposta a uma pergunta fácil, mas não saber por não ter vivido nesse tempo. Pinguins na Antárctida? Nunca lá fui! Pinguins?! Não escreveu um ícone pós-moderno que Ramsés não poderia ter morrido de tuberculose por a doença ainda não ter sido «construída» nesse tempo? 
Não se trata apenas, portanto, de manifestações de uma ignorância, que, sempre ultrapassada, já não surpreenderia. Trata-se agora de algo específico, cuja recorrência indicia um fenómeno novo, uma qualquer espécie de perturbação «sináptica», cognitiva, «memética», que perdurará para além da memória dos gurus que a inspiraram e do poder da cegueira que a impõe. Passou a conhecer-se apenas aquilo em que se mexe, o que se viu, que se fez, o lugar onde se esteve, é o tal conhecimento construído pelo aluno. Isto é, o princípio de Arquimedes, a teoria da relatividade ou Madame Bovary, não existem. E se existem, por que não hão-de existir também tapetes voadores? Fenómeno intelectual, cultural e socialmente apocalíptico que com lógica e forte probabilidade devemos considerar ser induzido pelas concepções educativas construtivistas impostas na escola durante mais de trinta anos. Tal escola só poderia secar a memória, tolher a imaginação, fechar o horizonte. 
Sabe-se o que a experiência de facilitismo e permissividade de Summer Hill, restrita a uma escola, produziu: adultos sem autonomia, irresponsáveis, infelizes. Começa a revelar-se agora o que estas concepções educativas podem produzir quando impostas durante tanto tempo à totalidade das escolas de um país inteiro. Quarenta anos de ditadura com outros tantos de eduquês em cima. +++Mas mais: não se informou nem se ensinou a pensar e, por isso, também não se aprendeu a sentir, porque é a inteligência, informada e critica, que pode refrear os impulsos egoístas e induzir a necessidade da solidariedade. São estas concepções educativas, cultivadas nos cursos de formação de docentes, que esses novos professores transportam para o básico e secundário, cujos alunos, por sua vez assim formatados, se profissionalizam depois naqueles mesmos cursos.
Não devia o ministro ter já rompido esse círculo vicioso, promovido a reformulação desses cursos? E não é imperiosa a selecção dos candidatos à docência saídos dessas escolas? 
Por causa da crítica a essas instituições, que, afinal, parece nem ter chegado a fazer, não é o ministro que deve pedir desculpa a presidentes e directores, são eles (e os governos todos) que devem pedir desculpa ao País.
«Expresso» de 1 Fev 14 

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23.7.13

O tempo do futuro?

Por Guilherme Valente 
TENHO, evidentemente consciência da gravidade da situação que estamos a viver. E no entanto... aconteceu-me aquilo que a minha formação e tudo que o que estamos a viver deveria tornar inimaginável que me acontecesse: passei a tarde de domingo com uns amigos, num convívio que se prolongou até cerca das 23H00, e… esqueci-me da comunicação do Presidente da República. Esquecimento que tem um óbvio, brutal significado. 
Nos países que não têm regimes democráticos, ou nos quais o mecanismo das eleições não permite realmente que o povo escolha, que mande os maus governantes para casa, mas em que foi emergindo uma classe média e uma juventude instruída, que domina os novos meios de comunicação, rebentou a contestação política e social. É o caso da Tunísia e do Egipto. 
No Brasil, com um regime democrático eleitoral, o protesto centra-se na corrupção das élites e no gasto sumptuário, desviado da prioridade de investimento na educação e na saúde. 
E em Portugal? 
Em Portugal alastrou e instala-se o sentimento, a evidência, quiçá, de que a democracia que temos funciona numa realidade cultural e petrificou numa realidade partidária que parecem tornar impossível a resolução dos problemas económicos e financeiros do País, garantir e aprofundar a liberdade.
Isto é, petrificou na existência e na instalação e domínio blindado do Estado por partidos autistas aos interesses do País, logo, por Governos que, em vez de servirem o interesse do povo que determinou a sua designação, reproduzem o que não pode deixar de ser visto como uma manifesta recorrente incompetência, irresponsabilidade, mentira, frequentemente ligadas à grande ou pequena corrupção, à incapacidade ou falta de vontade para as enfrentar. 
Tudo isto e o medo, o medo que a referência lamecha, muito «estado novo», ao «respeito devido às instituições», parece visar induzir. 
Uma situação cujas dramáticas manifestações tornam cada vez mais cívica e moralmente intolerável o alheamento ou a indiferença daqueles que materialmente não são, ou sentem não vir a ser, afectados por ela. 
Que fazer quando os que ocupam as instituições às quais caberia liderar o desenvolvimento do País e promover a liberdade as tornam em sede de obstáculo a esse desenvolvimento, de ameaça ao florescimento da liberdade?
Há excepções, claro, excepções de boas intenções, mas que rapidamente são vencidas ou desistem, são honrosas, mas quase não contam. 
Que mecanismos, de equilíbrio e controlo, será necessário conceber e lutar para impor? Mecanismos que enfrentem esta cultura e esta realidade partidária, que continuam a impedir a construção de um futuro finalmente autónomo e continuada e sustentadamente livre para os Portugueses? 
Será preciso inventar? Importar, sim, será preciso importar, mecanismos e atitudes. Mas também inventar, criar em função de uma realidade cultural nossa, para responder a mecanismos de identidade, a atitudes (ou vícios) muito próprios e persistentes.
Projecto que o circulo vicioso, a blindagem do sistema, imposta pela cumplicidade de todos os senhores de todos os partidos, parece tornar impossível realizar sem rupturas.
Realização que parece cada vez mais inatingível, nestes dias dramáticos que temos vivido e tudo indica se perpetuarão, dias que por isso mesmo se poderão tornar em dias da ira. 
Está a circular na net uma cópia do Diário da República referindo algo que sendo aparentemente irrelevante é evidência expressiva do despudor político habitual. Apesar do apregoadíssimo excesso de funcionários públicos, o Governo (quem no Governo?) acaba de contratar, de colocar na função pública, na carreira técnica, dois recém-licenciados, com currículo vulgaríssimo, aliás. Para quê? Para - imagine-se! - acompanhar as negociações com a troika. O que podemos fazer? 
Tudo a traduzir a indiferença chocante de quem sentirá ter absoluta impunidade, política e civil. A lembrar, não fora a formalidade, recorrentemente inútil, aliás, das eleições, a realidade de algumas sociedades latino-americanas.
Mas então, se é assim, porque não assistimos ainda em Portugal ao levantamento de protesto que se verifica no Brasil ou na Turquia, apesar de serem países com um crescimento económico significativo? 
Porque em Portugal a confortável situação económica das élites e um estado social - artificialmente sustentado com parte da dívida astronómica contraída (a outra levou-a a corrupção), têm «pago» a cumplicidade, o alheamento, o conformismo, a aceitação dos que poderiam revoltar-se. E enquanto o pau vai… 
Por outro lado, a crescente degradação da educação promovida irresponsavelmente pelos sucessivos governos nos últimos trinta anos, dando diplomas, mas semeando a ignorância, a indiferença cívica, o desinteresse político, o consumismo e a frivolidade (que a situação nas universidades, a resistência acéfala a uma exigência escolar mínima, as revindicações egoístas, documentam), privaram o país, na dimensão necessária, da juventude informada, crítica, generosa, inconformada e exigente que naqueles outros países esteve na origem e é uma componente liderante da mobilização social e da mudança política. 
Mas também em Portugal, num quadro de determinações que, curiosamente, se aproximam das do brasileiro e do turco, mas, porventura, também do egípcio (apesar das enormes diferenças, claro), também em Portugal parece inevitável que a degradação crescente da situação económica, o desemprego dos jovens (o fim da ilusão facilitista em que viveram durante todos estes anos de devastação educativa), a impossibilidade do sistema pôr fim à sua própria reprodução, isto é, por razões materiais, mas também por razões intelectuais e morais, parecem inevitáveis a explosão social e a contestação política que determinarão, enfim, a mudança da nossa endémica cultura, atitudes, realidade partidária e política.
Depois de tantas outras crises, resolvidas pela humilhação ou por soluções providênciais temporárias (comércio dos escravos, especiarias da Índia, oiro do Brasil, remessas dos emigrantes, dinheiro da Europa), crises que, por isso, não mudaram a cultura de dependência do Estado e de subserviência aos políticos, por ele e eles sempre enconrajada..., parece, parece, anunciar-se agora, induzida pela crise material e a humilhação nacional, a crise de consciência que, finalmente, fará dos súbditos cidadãos.

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