5.2.14

A Formação de Professores e a Capital do Camboja

Por Guilherme Valente
SOU ESPECTADOR regular do concurso «Quem quer ser milionário». Conhece-se o modelo: uma pergunta, quatro respostas à escolha, é só colocar a cruzinha. No amontoado de respostas ignorantes do costume verifica-se a recorrência de algo novo e estranho, que uma observação atenta obriga a considerar ser de outra natureza. Dois exemplos. Um que testemunhei, outro registado por Joel Neto (DN, 16/01/2014).
A pergunta era: «Das quatro cidades indicadas, qual é a capital do Camboja?». O concorrente, mestre num qualquer curso, não sabia. «Mas pense», encorajava Manuela Moura Guedes. «Resposta: «Não sei porque... nunca estive no Camboja».
No caso referido por Neto, foi pedido à concorrente que escolhesse entre quatro cidades a que ficou ligada a uma batalha marcante da I Guerra Mundial. Pensou e... nada. «Então não se lembra, a I Guerra Mundial...». «Não sei, porque não vivi nesse tempo». Como observou Joel Neto, o que tornou a participação da estudante especialmente constrangedora não foi não saber a resposta a uma pergunta fácil, mas não saber por não ter vivido nesse tempo. Pinguins na Antárctida? Nunca lá fui! Pinguins?! Não escreveu um ícone pós-moderno que Ramsés não poderia ter morrido de tuberculose por a doença ainda não ter sido «construída» nesse tempo? 
Não se trata apenas, portanto, de manifestações de uma ignorância, que, sempre ultrapassada, já não surpreenderia. Trata-se agora de algo específico, cuja recorrência indicia um fenómeno novo, uma qualquer espécie de perturbação «sináptica», cognitiva, «memética», que perdurará para além da memória dos gurus que a inspiraram e do poder da cegueira que a impõe. Passou a conhecer-se apenas aquilo em que se mexe, o que se viu, que se fez, o lugar onde se esteve, é o tal conhecimento construído pelo aluno. Isto é, o princípio de Arquimedes, a teoria da relatividade ou Madame Bovary, não existem. E se existem, por que não hão-de existir também tapetes voadores? Fenómeno intelectual, cultural e socialmente apocalíptico que com lógica e forte probabilidade devemos considerar ser induzido pelas concepções educativas construtivistas impostas na escola durante mais de trinta anos. Tal escola só poderia secar a memória, tolher a imaginação, fechar o horizonte. 
Sabe-se o que a experiência de facilitismo e permissividade de Summer Hill, restrita a uma escola, produziu: adultos sem autonomia, irresponsáveis, infelizes. Começa a revelar-se agora o que estas concepções educativas podem produzir quando impostas durante tanto tempo à totalidade das escolas de um país inteiro. Quarenta anos de ditadura com outros tantos de eduquês em cima. +++Mas mais: não se informou nem se ensinou a pensar e, por isso, também não se aprendeu a sentir, porque é a inteligência, informada e critica, que pode refrear os impulsos egoístas e induzir a necessidade da solidariedade. São estas concepções educativas, cultivadas nos cursos de formação de docentes, que esses novos professores transportam para o básico e secundário, cujos alunos, por sua vez assim formatados, se profissionalizam depois naqueles mesmos cursos.
Não devia o ministro ter já rompido esse círculo vicioso, promovido a reformulação desses cursos? E não é imperiosa a selecção dos candidatos à docência saídos dessas escolas? 
Por causa da crítica a essas instituições, que, afinal, parece nem ter chegado a fazer, não é o ministro que deve pedir desculpa a presidentes e directores, são eles (e os governos todos) que devem pedir desculpa ao País.
«Expresso» de 1 Fev 14 

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2 Comments:

Blogger José Batista said...

Este comentário foi removido pelo autor.

5 de fevereiro de 2014 às 18:01  
Blogger José Batista said...

E há quem diga que, entre nós, esta é a geração mais bem preparada de sempre. Imagine-se, se não fosse!

A não ser que se considere a especial capacidade para arremedar e executar praxes ou agitar claques ou exibir conhecimentos e performances nas pantalhas da tv.

Ainda hoje li uma longa entrevista a uma publicação de um sindicato de professores, onde Ana Maria Bettencourt faz a apologia da coisa...

Como se, ao fim de 40 anos de democracia, a sociedade portuguesa tivesse conseguido atingir níveis satisfatórios em matéria de cidadania, de bem estar sócio-económico e de cultura.

E a culpa não é, nem podia ser, de quem mandou na escola , não senhor!
Nem da política. Nem das pessoas.
Veio de fora e apanhou-nos.
Por isso, a situação é (deveras) esperançosa.

5 de fevereiro de 2014 às 18:06  

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