23.7.13

O tempo do futuro?

Por Guilherme Valente 
TENHO, evidentemente consciência da gravidade da situação que estamos a viver. E no entanto... aconteceu-me aquilo que a minha formação e tudo que o que estamos a viver deveria tornar inimaginável que me acontecesse: passei a tarde de domingo com uns amigos, num convívio que se prolongou até cerca das 23H00, e… esqueci-me da comunicação do Presidente da República. Esquecimento que tem um óbvio, brutal significado. 
Nos países que não têm regimes democráticos, ou nos quais o mecanismo das eleições não permite realmente que o povo escolha, que mande os maus governantes para casa, mas em que foi emergindo uma classe média e uma juventude instruída, que domina os novos meios de comunicação, rebentou a contestação política e social. É o caso da Tunísia e do Egipto. 
No Brasil, com um regime democrático eleitoral, o protesto centra-se na corrupção das élites e no gasto sumptuário, desviado da prioridade de investimento na educação e na saúde. 
E em Portugal? 
Em Portugal alastrou e instala-se o sentimento, a evidência, quiçá, de que a democracia que temos funciona numa realidade cultural e petrificou numa realidade partidária que parecem tornar impossível a resolução dos problemas económicos e financeiros do País, garantir e aprofundar a liberdade.
Isto é, petrificou na existência e na instalação e domínio blindado do Estado por partidos autistas aos interesses do País, logo, por Governos que, em vez de servirem o interesse do povo que determinou a sua designação, reproduzem o que não pode deixar de ser visto como uma manifesta recorrente incompetência, irresponsabilidade, mentira, frequentemente ligadas à grande ou pequena corrupção, à incapacidade ou falta de vontade para as enfrentar. 
Tudo isto e o medo, o medo que a referência lamecha, muito «estado novo», ao «respeito devido às instituições», parece visar induzir. 
Uma situação cujas dramáticas manifestações tornam cada vez mais cívica e moralmente intolerável o alheamento ou a indiferença daqueles que materialmente não são, ou sentem não vir a ser, afectados por ela. 
Que fazer quando os que ocupam as instituições às quais caberia liderar o desenvolvimento do País e promover a liberdade as tornam em sede de obstáculo a esse desenvolvimento, de ameaça ao florescimento da liberdade?
Há excepções, claro, excepções de boas intenções, mas que rapidamente são vencidas ou desistem, são honrosas, mas quase não contam. 
Que mecanismos, de equilíbrio e controlo, será necessário conceber e lutar para impor? Mecanismos que enfrentem esta cultura e esta realidade partidária, que continuam a impedir a construção de um futuro finalmente autónomo e continuada e sustentadamente livre para os Portugueses? 
Será preciso inventar? Importar, sim, será preciso importar, mecanismos e atitudes. Mas também inventar, criar em função de uma realidade cultural nossa, para responder a mecanismos de identidade, a atitudes (ou vícios) muito próprios e persistentes.
Projecto que o circulo vicioso, a blindagem do sistema, imposta pela cumplicidade de todos os senhores de todos os partidos, parece tornar impossível realizar sem rupturas.
Realização que parece cada vez mais inatingível, nestes dias dramáticos que temos vivido e tudo indica se perpetuarão, dias que por isso mesmo se poderão tornar em dias da ira. 
Está a circular na net uma cópia do Diário da República referindo algo que sendo aparentemente irrelevante é evidência expressiva do despudor político habitual. Apesar do apregoadíssimo excesso de funcionários públicos, o Governo (quem no Governo?) acaba de contratar, de colocar na função pública, na carreira técnica, dois recém-licenciados, com currículo vulgaríssimo, aliás. Para quê? Para - imagine-se! - acompanhar as negociações com a troika. O que podemos fazer? 
Tudo a traduzir a indiferença chocante de quem sentirá ter absoluta impunidade, política e civil. A lembrar, não fora a formalidade, recorrentemente inútil, aliás, das eleições, a realidade de algumas sociedades latino-americanas.
Mas então, se é assim, porque não assistimos ainda em Portugal ao levantamento de protesto que se verifica no Brasil ou na Turquia, apesar de serem países com um crescimento económico significativo? 
Porque em Portugal a confortável situação económica das élites e um estado social - artificialmente sustentado com parte da dívida astronómica contraída (a outra levou-a a corrupção), têm «pago» a cumplicidade, o alheamento, o conformismo, a aceitação dos que poderiam revoltar-se. E enquanto o pau vai… 
Por outro lado, a crescente degradação da educação promovida irresponsavelmente pelos sucessivos governos nos últimos trinta anos, dando diplomas, mas semeando a ignorância, a indiferença cívica, o desinteresse político, o consumismo e a frivolidade (que a situação nas universidades, a resistência acéfala a uma exigência escolar mínima, as revindicações egoístas, documentam), privaram o país, na dimensão necessária, da juventude informada, crítica, generosa, inconformada e exigente que naqueles outros países esteve na origem e é uma componente liderante da mobilização social e da mudança política. 
Mas também em Portugal, num quadro de determinações que, curiosamente, se aproximam das do brasileiro e do turco, mas, porventura, também do egípcio (apesar das enormes diferenças, claro), também em Portugal parece inevitável que a degradação crescente da situação económica, o desemprego dos jovens (o fim da ilusão facilitista em que viveram durante todos estes anos de devastação educativa), a impossibilidade do sistema pôr fim à sua própria reprodução, isto é, por razões materiais, mas também por razões intelectuais e morais, parecem inevitáveis a explosão social e a contestação política que determinarão, enfim, a mudança da nossa endémica cultura, atitudes, realidade partidária e política.
Depois de tantas outras crises, resolvidas pela humilhação ou por soluções providênciais temporárias (comércio dos escravos, especiarias da Índia, oiro do Brasil, remessas dos emigrantes, dinheiro da Europa), crises que, por isso, não mudaram a cultura de dependência do Estado e de subserviência aos políticos, por ele e eles sempre enconrajada..., parece, parece, anunciar-se agora, induzida pela crise material e a humilhação nacional, a crise de consciência que, finalmente, fará dos súbditos cidadãos.

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1 Comments:

Blogger José Batista said...

A mim aconteceu-me pior: sabia que o presidente da república ia falar e, no carro, no momento em que chegava a casa, desliguei apressadamente a rádio. Arrumado o carro e fechada a garagem, subi e demorei algum tempo até ligar o televisor para ouvir as evoluções analíticas de Marcelo Rebelo de Sousa.

Nada de novo, nem no dito nem no analisado.

Triste triste o nosso país. E o nosso destino. Parece-me.

Vou agora passar a tentar acalentar a ideia de que há-de haver modo de demonstrar a mim mesmo que estou enganado.

23 de julho de 2013 às 09:22  

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