18.9.26

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO


 

Por A. M. Galopim de Carvalho


O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a humildade e todo o rigor científico”, mas nos níveis de apresentação compatíveis com a generalidade média dos que me seguem, ou seja, “em trajes populares”. Aos mais sabedores, peço que nos ensinem através dos seus comentários.

 

Falemos agora de religiões como importantes sistemas socioculturais, através das quais e de um modo geral, o ser humano tem procurado compreender: a origem e o destino da vida, o sentido da existência, o significado da morte e o que está para além dela; distinguir o bem e o mal e meditar sobre aquilo que considera sagrado ou transcendente. 

As religiões apresentam uma grande diversidade de crenças e práticas. Algumas, como as antigas grega e latina, nas respectivas mitologias, reconhecem várias divindades, outras afirmam a existência de um único Deus e outras, ainda, não colocam um Deus criador no centro da sua tradição.

Entre as principais religiões destacam-se o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, ditas abraâmicas, que partilham uma origem comum baseada na figura bíblica do patriarca Abraão, reconhecido por todas elas como um patriarca, profeta ou mensageiro de Deus, servindo como o elo espiritual e histórico fundador destas crenças. Destacam-se, ainda, como religiões importantes, o Hinduísmo e o Budismo, sobre as quais poderemos, eventualmente, abordar, mais tarde. Apesar das diferenças profundas entre elas, todas procuram responder a algumas das questões mais profundas do pensamento humano, havendo, em todas, comunidades religiosas, princípios e práticas destinados a orientar a conduta dos respectivos seguidores.

De momento, como anunciei, o meu propósito é debruçar-me sobre o Cristianismo e, em especial, na figura de Jesus Cristo, com particular atenção à tida por verdade histórica, sem, contudo, menosprezar o relato dos textos ditos sagrados, nos seus aspectos culturais. No Cristianismo, o essencial encontra-se na narrativa oficial sobre a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo, na relação com Deus e no apelo ao amor a Deus e ao próximo, tendo a morte e a ressurreição de Jesus como acontecimentos centrais da fé cristã.

São livros sagrados do Cristianismo, o conjunto de todos conhecido como a Bíblia, dividido em Antigo Testamento, profundamente ligado à tradição judaica, contendo textos anteriores ao Cristianismo, e Novo Testamento, que inclui os quatro Evangelhos, os de Mateus, Marcos, Lucas e João, outros escritos sobre as primeiras comunidades cristãs e textos como as cartas atribuídas a Paulo e a outros autores cristãos. Recordemos que o Cristianismo surgiu no século I e tem como figura central Jesus de Nazaré, um precursor do Humanismo. Jesus nasceu em Belém, por volta do ano 3 d.C., no contexto do Judaísmo. Em adulto, com cerca de 30 anos era pregador em Nazaré e, a partir dos primeiros discípulos, depois apóstolos, difundiu a sua doutrina, progressivamente pelo Império Romano, onde se afirmou a partir do século IV, durante o reinado do imperador Constantino, que concedeu liberdade de culto aos cristãos através do Édito de Milão, em 313, tendo-se consolidado como religião oficial do Império durante o reinado do imperador Teodósio I, em 380.

O núcleo da fé cristã é a crença em Deus e em Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador. Segundo a fé cristã, Jesus anunciou o Reino de Deus, ensinou o amor a Deus e ao próximo, o perdão, a misericórdia e a justiça. A sua morte por crucificação e, sobretudo, a crença na sua ressurreição constituem o centro da mensagem cristã. 

Há pontos de aproximação e de afastamento entre o Cristianismo e três outras importantes doutrinas sociais: o Humanismo, o Positivismo e o Marxismo, um tema a desenvolver.

 

Cristianismo versus Humanismo

Começando pela relação do Cristianismo com o Humanismo, ambos defendem a dignidade humana, princípios como a igualdade, o respeito pela vida e a preocupação com os mais vulneráveis. O Humanismo valoriza a autonomia e a liberdade humanas, o Cristianismo também reconhece o livre-arbítrio e a responsabilidade de cada um pelas escolhas que faz. ambos defendem solidariedade e ajuda ao próximo, justiça e preocupação com os outros. Um e outro valorizam o desenvolvimento integral da pessoa humana, procurando, embora por vias e propósitos diferentes, contribuir para o respectivo aperfeiçoamento moral e pessoal. Uma ideia particularmente importante no Cristianismo é o amor. Nos Evangelhos, Jesus associa o amor a Deus ao amor ao próximo. Daí decorrem valores como a dignidade da pessoa, a compaixão, o perdão, a solidariedade e o cuidado pelos mais vulneráveis. O Cristianismo ensina que a relação entre Deus e o ser humano envolve  esperança numa vida que ultrapassa a morte. 

A principal diferença está nos fundamentos. Enquanto para o Cristianismo Deus ocupa o centro de, praticamente tudo (Teocentrismo), o Humanismo, sobretudo nas suas formas seculares (não religiosas), dá maior importância ao ser humano, colocando-o no citado centro (Antropocentrismo), investindo na sua capacidade de construir valores e de dar sentido à vida, deixando Deus e as transcendências para um plano secundário. O Cristianismo baseia-se, principalmente, na fé e nos ensinamentos religiosos, tendo como referência central a Bíblia e a tradição cristã, ao passo que o Humanismo valoriza mais a razão, o pensamento crítico e o conhecimento. O Cristianismo dá grande importância à relação com Deus e à salvação da alma, o Humanismo destaca as capacidades, realizações e desenvolvimento do ser humano na vida terrena. Nesta doutrina ou filosofia pode existir um Humanismo cristão, no qual a dignidade humana é fundamentada em Deus, mas também um Humanismo secular, que prescinde de Deus.

 

Cristianismo versus Marxismo

Entre o Cristianismo e o Marxismo, ambos dão importância às condições de vida dos mais desfavorecidas, embora partam de fundamentos diferentes. Um e outro destacam a solidariedade e a preocupação com o bem comum, criticando e denunciando injustiças sociais, desigualdades, exploração e situações de pobreza. Um e outro podem desenvolver acções destinadas a melhorar as condições de vida das pessoas. No que se refere às diferenças, o Cristianismo baseia-se na fé em Deus e nos ensinamentos de Jesus Cristo, o Marxismo critica, frontalmente a religião. Um pode abordar os problemas sociais, mas relaciona-os com questões morais e espirituais, o outro concentra-se sobretudo nas relações económicas, nas classes sociais e na exploração. O Cristianismo dá relevo a princípios como amor ao próximo, caridade e justiça, o Marxismo defende a luta de classes e a transformação das estruturas económicas e sociais. Em poucas palavras, a principal aproximação encontra-se no plano social, nomeadamente, a preocupação com os pobres, a justiça e a partilha, enquanto o principal afastamento está no plano religioso e filosófico, em que a transcendência e espiritualidade cristãs se opõem ao materialismo do Marxismo.

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Cristianismo versus Positivismo

Entre o Cristianismo e o Positivismo há, igualmente, semelhanças e diferenças. Ambos procuram contribuir para uma sociedade mais organizada e harmoniosa. Uma e outra dão importância à união e à cooperação entre as pessoas e consideram importantes certos princípios morais para orientar o comportamento humano. Relativamente às diferenças, o Cristianismo fundamenta-se na fé em Deus e em Jesus Cristo, o Positivismo rejeita explicações sobrenaturais como fundamento do conhecimento científico. O Cristianismo aceita a fé e a revelação religiosa, o Positivismo considera que o conhecimento válido sobre o mundo deve basear-se na observação, nos factos e no método científico. Um admite uma realidade espiritual e divina, o outro procura explicar os fenómenos através de leis científicas. Finalmente, o Cristianismo procura orientar a relação do ser humano com Deus e a salvação da alma, o Positivismo procura, sobretudo, compreender e organizar a sociedade em termos racionais.

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NOTAS:

Humanismo foi um movimento intelectual e cultural que marcou a transição da Idade Média para a Idade Moderna, com início formal em meados do século XIV, tendo o seu auge durante o Renascimento. Nasceu em Itália, na região da Toscana, no pensamento do poeta e filólogo italiano Francesco Petrarca. (1304-1374), considerado o "Pai do Humanismo". A sua principal característica foi colocar o ser humano e a razão no centro das decisões (Antropocentrismo), rompendo com o Teocentrismo medieval. Inspirados pela Antiguidade Clássica, os humanistas valorizavam o estudo da filosofia, das artes e das ciências gregas e romanas. O Humanismo promoveu o pensamento crítico e o livre-arbítrio, defendendo que o homem é capaz de moldar o seu próprio destino. Além disso, impulsionou uma grande renovação literária e educacional, espalhada rapidamente pela Europa graças à invenção da imprensa.

 

Marxismo é uma doutrina filosófica, económica e política desenvolvida no século XIX, tendo por principais protagonistas os alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), principalmente, entre 1845 e 1846, na obra A Ideologia Alemã. Defende que a história das sociedades é marcada pela luta entre classes sociais, com interesses económicos diferentes. Marx criticava o capitalismo por considerar que os trabalhadores produzem riqueza, mas recebem apenas parte do valor que criam. O marxismo propõe a superação da propriedade privada, dos meios de produção e das divisões de classe. Teve grande influência em movimentos operários, partidos políticos e revoluções ao longo dos séculos XIX e XX.

 

Materialismo - é uma corrente filosófica que afirma que a matéria é a realidade primeira e o fundamento de tudo o que existe no Universo, rejeitando princípios espirituais ou imateriais. Tem raízes na Grécia Antiga no século V a.C. com os filósofos Demócrito e Leucipo (teoria do atomismo). O termo "materialismo" foi introduzido, em 1702, filósofo matemático alemão Gottfried Leibniz (1646-1716).

 

Positivismo - é uma corrente filosófica surgida no século XIX, no pensamento do francês Auguste Comte (1798-1867). Defende que o conhecimento verdadeiro deve basear-se na observação e experimentação científicas. Rejeita as narrativas religiosas e metafísicas. Para os seus seguidores, a sociedade pode ser estudada através de métodos científicos. O positivismo contribuiu para o desenvolvimento da Sociologia como ciência. Teve grande influência no pensamento científico, político e social dos séculos XIX e XX.

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