20.10.21

“Nova Costa d’ Oiro” de Outubro de 2021

 


QUANDO, muitos anos volvidos, tornei a ler «O Cônsul Honorário», de Graham Greene, apercebi-me, sem surpresa, de que já não me lembrava de quase nada, excepto que o “herói” não conseguia atinar com a posição correcta da bandeira da Grã Bretanha (que achava muito complicada!), o que me trouxe à memória, além da rábula que a foto da esquerda documenta, uma ingénua adivinha em que se perguntava de quantas formas é que é possível hastear a bandeira portuguesa. A resposta pretendida é “oito, sendo que apenas uma é a correcta” mas, pensando bem, ainda há, pelo menos, mais quatro, pois já a vi, num hotel da nossa cidade, pendurada por um dos seus vértices (como se fosse um pano do pó), tendo até estado assim durante meses.

Quanto ao respectivo estado de conservação (que a legislação também contempla), lembro-me de que, durante anos, no início da época turística, o “Correio de Lagos” costumava mostrar, na sua página “Buracos & Companhia”, a bandeira nacional que se podia ver à entrada do Parque de Campismo da Trindade que, de tão esfarrapada que estava (até mesmo no 10 de Junho!), certamente tornava muito difícil a escolha dos adjectivos com que o facto era referido. 

Ora, e como não podia deixar de ser para algo tão importante (que, a par da língua e do hino, é um símbolo maior da identidade nacional), todos os países têm legislação que se lhe aplica. Entre nós, destaca-se o DL 150/87, de 30 de Março (*), que, apesar de ser bastante completo, não prevê nada tão radical como o que sucede no Brasil, onde até existe Dia da Bandeira como homenagem à que foi criada logo após a Proclamação da República, em 15 de Novembro de 1889: anualmente, por essa altura, há uma cerimónia pública onde são INCINERADAS (!) as bandeiras em mau estado, confiscadas durante o ano anterior um pouco por todo o país.

ORA, e como certamente já se percebeu, vem tudo isto a propósito da inenarrável situação ocorrida na nossa cidade aquando do luto nacional de três dias, decretado pelo governo em 10 de Setembro passado por ocasião da morte de Jorge Sampaio: 
Na manhã do dia 12 (SEGUNDO DIA de luto, portanto), foram divulgadas, nas nossas redes sociais, fotos mostrando o que se passava no edifício dos Antigos Passos do Concelho — e é uma delas que aqui fica para a posteridade, já agora acompanhada de uma outra, relativa à nossa Repartição de Finanças, onde, como se podia ver, o problema da “bandeira a meia haste” teve uma abordagem muito mais expedita.

A TERMINAR, informo os mais ingénuos que não vale a pena perderem tempo a fazer como eu fiz, procurando (nomeadamente na página do FB do Município) qualquer coisa semelhante a uma autocrítica ou um pedido de desculpas, nem sequer uma justificação mais ou menos esfarrapada para o sucedido. No entanto, ela até se encontra numa expressão usada pelo próprio Jorge Sampaio, quando ele, farto das cenas recorrentes por causa das touradas de morte em Barrancos (onde, todos os anos e em meados de Agosto, a autoridade do Estado era achincalhada), decretou salomonicamente que essa prática passava de PROIBIDA a PERMITIDA, graças àquilo que baptizou de “EXCEPÇÃO CULTURAL”, curiosa expressão que eu ainda pensei que lhe tivesse ocorrido nalguma das suas muitas vindas a Lagos — mas não, porque, à época, a cidade ainda estava longe do grau de incúria que actualmente a caracteriza, e de que o triste episódio da bandeira não é mais do que um exemplo entre muitos.

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(*) - Art.º 4.º: A Bandeira Nacional será hasteada em edifícios de carácter civil ou militar, qualificados como monumentos nacionais, e nos demais edifícios públicos ou instalações onde funcionem serviços da administração central, regional e local e da administração das regiões autónomas, bem como nas sedes dos institutos públicos e das empresas públicas.

Art.º 7.º: Quando for determinada a observância de luto nacional, a Bandeira Nacional será colocada a meia haste durante o número de dias que tiver sido fixado».

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Revista “Nova Costa d’ Oiro” de Outubro de 2021

 

 

 

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23.9.21

“Nova Costa d’ Oiro” de Setembro de 2021

 

ULTIMAMENTE, tenho pensado muito em António Guterres — e vou explicar porquê:

Por estranho que pareça, só muito tarde vim a saber que tínhamos andado juntos no Liceu Camões, em Lisboa, o mesmo sucedendo com Mariano Gago, vindo ambos a ingressar no Técnico em 1965, que eu já frequentava desde o ano anterior. Curiosamente, enquanto eu estabeleci, com o segundo, uma amizade que se prolongou até ao seu falecimento (em 2015), o mesmo não se passou com Guterres, que não frequentava o mundo do associativismo estudantil. No entanto, recordo que ele aparecia de vez em quando na A.E., pedindo-me para fazer uns cartazes — era muito simpático e falador, estava sempre sorridente... mas dele não recordo mais nada, e até nisso posso estar enganado. No entanto, mais tarde, os nossos caminhos ainda se cruzaram: com o Mariano Gago, devido a trabalhos relacionados com a Sociedade da Informação; com Guterres, por causa dos famigerados submarinos, um processo bizarro em que eu estava envolvido, pois trabalhava na Efacec, uma das empresas interessadas nas “contrapartidas”.


Pois bem, nas eleições AUTÁRQUICAS de 2001, os resultados do PS foram maus, e Guterres, a pretexto disso, fugiu do “pântano”, abrindo o caminho a Durão Barroso — e, por aí, a Paulo Portas, que “trespassou” os submarinos ao fornecedor alemão com o apoio do BES... e mais não digo, até porque não é disso que quero falar. O que quero referir é o facto de Barroso ter feito o mesmo que o antecessor (dessa vez com o pretexto de ter perdido as eleições EUROPEIAS de 2004), também ele defraudando os eleitores que, julgando ter votado para escolher quem melhor tratasse da sua terra ou dos interesses do seu país, afinal tinham, nos dois casos, votado para o GOVERNO, como se essas eleições fossem LEGISLATIVAS! Ora, se a ideia é essa, então para quê gastar tempo e dinheiro em três eleições, quando uma daria para tudo? 

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A UM OUTRO nível, Jorge Sampaio e António Costa também não se ensaiaram em abandonar os eleitores de Lisboa que neles haviam confiado para dirigir a respectiva Câmara Municipal, interrompendo os respectivos mandatos para irem fazer pela vida noutro lado, levados pela “atracção de Peter”, pois todo o indivíduo tende a sair de onde está, numa viagem sem retorno até ao seu Nível de Incompetência. Claro que há excepções: o próprio autor do Princípio de Peter explicou que não tinha enunciado uma “lei”, mas sim um “princípio”, pois uma pessoa inteligente consegue resistir à tentação — e talvez estivesse a pensar nos que preferem DESCER em vez de SUBIR, como Calisto Elói, a personagem camiliana de A Queda de um Anjo que abandonou a presidência da sua Câmara Municipal para ir para deputado, abdicando do papel relevante que tinha (sendo a pessoa mais importante da sua terra), preferindo o aconchego de um grupo parlamentar onde, tal como hoje sucede, a vontade própria de um deputado, quando se manifesta, até é notícia na Comunicação Social.

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AQUI chegados, é possível que haja leitores que perguntem o que é que tudo isso tudo tem a ver com Lagos. Se assim for, haja quem lhes explique, pois o espaço de que esta crónica dispõe chegou ao fim.

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(*) –M. C. Escher (1898-1972), holandês famoso pelos seus desenhos ricos em paradoxos, de que se destacam as escadas em que umas tristes personagens não sabem se estão a subir ou a descer.


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11.9.21

No “Nova Costa d’ Oiro” de Agosto de 2021

Ó meu, gastas tu e pago eu?!

FOI JÁ demasiado tarde que eu vim a saber que o nosso Ministro do Ambiente tinha vindo a Lagos para a abertura oficial da época balnear — e tenho pena de não o ter sabido a tempo, pois estou certo de que, sendo nós conterrâneos e velhos colegas de profissão, poderíamos ter conversado um pouco, e com grande proveito, acerca do tema que dá o nome à sua pasta. Porém, e como “há mais marés que marinheiros”, acredito que isso possa vir a suceder numa próxima visita, na qual lhe proporei uma volta por estes lados — mas à moda d’ “As 1001 Noites”, seguindo o exemplo do Harun al-Rashid que percorria as ruas de Bagdade disfarçado de mercador para, incógnito, conhecer a REALIDADE da sua terra. 

No entanto, e como certamente será impossível falarmos de tudo, sugerir-lhe-ei que abordemos, ao menos, o PROBLEMA DA ÁGUA, começando por uma questão muito simples:

Quando, recentemente, nos informou que o respectivo preço, aqui no Algarve, terá de subir, qual era a ideia por detrás disso?

Estaria a pensar nos custos do transvase a partir do Pomarão? Se sim, não é para coisas como essa que há o tão falado PRR, com a sua “bazuca”? 

Ou estaria a pensar na dessalinização, um tema acerca do qual eu gostaria muito de falar, especialmente se ainda for válido tudo o que aprendi quando trabalhei para a Central de Porto Santo?

Ou, simplesmente, estava a pensar no adágio que diz que “O que pouco custa pouco se estima”, esperando que os algarvios reduzam o seu consumo doméstico, contribuindo, dessa forma, para a resolução do problema? Se é isso, está a incorrer numa ideia INGÉNUA e INJUSTA:

Antes de mais, é INGÉNUA, porque nenhum munícipe vai passar a gastar menos água na sua higiene pessoal, nas lavagens de roupa ou loiça (e muito menos na culinária) pelo facto de a sua conta subir um pouco; e ainda é menos provável que os grandes consumidores se retraiam — ou porque têm suficiente capacidade económica, ou porque podem repercutir esse aumento nos seus clientes.

Mesmo assim, ainda nos poderá dizer que o que está em causa é o princípio do utilizador-pagador, mas isso falha quando QUEM PAGA NÃO É QUEM GASTA. Sim, e para ver como isso também é verdade por estes lados, eu mostrar-lhe-ei um relvado de vários hectares — o do Parque da Cidade — que já vi a ser regado na hora de mais calor de um dia de Verão, com água a ser atirada para os caminhos... e daí para as sarjetas — um absurdo revoltante e recorrente, numa cidade que também não se inibe de exibir fontes e repuxos onde a água jorra “à fartazana”, sem ter em conta (embora possa ser sempre a mesma) o efeito psicológico que essa exibição de fartura propicia.

Aliás, e nesse mesmo simpático parque, eu poderei mostrar-lhe como têm razão os técnicos que desaconselham vivamente a própria existência de grandes relvados numa região, como a nossa, de clima mediterrânico — e eu até conheço quem ganhe a vida a projectar e a construir jardins “water-friendly” para clientes cuja conta da água é, em consequência disso, consideravelmente reduzida.

Mas ainda o pior é quando essa relva, já de si desnecessária, convive de perto com arvoredo, pois, impedindo que a água se infiltre, desincentiva o crescimento das raízes, pondo em causa a saúde e a estabilidade das árvores. E eu não precisarei, sequer, de o levar a sair desse mesmo parque para lhe mostrar como, em amplas áreas, aquilo mais parece um bizarro campo de golfe de 100 buracos, tantas são as crateras onde JÁ HOUVE ÁRVORES, mas que caíram ao primeiro golpe de vento um pouco mais forte. 

A terminar, e como “nota de esperança”, mostrar-lhe-ei um renque de belíssimos plátanos, existentes no mesmo parque, e que, ao que tudo indica, foram plantados e tratados por quem sabe, devendo a sua robustez ao facto de terem sido regados em profundidade, pelo processo que a última imagem mostra. Enfim, é “a excepção que confirma a regra” — mas, felizmente, a vida também é feita delas.

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Revista “Nova Costa d’ Oiro” de Agosto de 2021

 

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27.7.21

Na Revista "Nova Costa de Oiro" de Julho de 2021


«
Aqueles que não conseguem lembrar-se do passado estão condenados a repeti-lo» - George Santayana (1863-1952)

 

TUDO começou quando, no dia 7 de Junho do ano passado (já a pandemia estava, havia três meses, a fazer estragos entre nós), umas quantas pessoas se lembraram de organizar, em Odiáxere, uma daquelas festas que toda a gente já sabia serem perigosas para a saúde pública.

Chamada ao local, na sequência de queixas da vizinhança, a GNR interveio, pôs fim àquilo... e ficámos todos à espera das consequências legais e sanitárias.

Quanto a estas (que, como se sabe, não se fizeram esperar), dei-me ao trabalho de, ao longo de algum tempo, anotar os números de infectados divulgados pela Comunicação Social — e havia-os para todos os gostos, pois umas vezes eram contados em função do local onde se faziam os testes, e outras de acordo com as moradas oficiais.

E foi assim que, de 19 para 20 desse mês, tivemos direito a, pelo menos, três números (52, 90 e 119), qualquer deles bem preocupante, tendo em conta que o Verão começava nesse mesmo dia 20, prenunciando consequências graves para quem depende do turismo como nós — problema acrescido pelo facto de a ocorrência já ser notícia por esse mundo fora, com destaque para o “The Times”, jornal de referência na Grã-Bretanha, o maior emissor de turistas para a nossa região.

Talvez por isso Lagos recebeu um dispensável tratamento VIP: sim, foi nada menos do que a Senhora Ministra da Justiça que veio a terreiro anunciar, com o estrondo que a sua função lhe permite, o que em cima se pode ler: queixa formal ao Ministério Público e exigência de indemnizações para o Estado, por ter sido lesado em tudo o que implicava despesas com o SNS — e ainda nessa coisa intangível, mas não menos importante, chamada IMAGEM, do país e da região.
No seguimento disso, e como na canção “Pedro Pedreiro” do Chico Buarque, ficámos “esperando, esperando, esperando”... até hoje. No entanto, e salvo melhor opinião, os lacobrigenses têm o direito de saber em que pé estão (ou em que ficaram) as coisas: ainda está tudo “em estudo”? Ou houve, de facto, consequências, só que não foram divulgadas? Ou ficou tudo em “águas-de-fiel-amigo”, que é o habitual neste país, cuja Justiça raramente merece ser referida com letra maiúscula?

 

À DATA em que escrevo — passado que foi exactamente um ano —, e olhando para os dados que vejo no gráfico, parece que não aprendemos nada. Já sei que os optimistas dirão que “Hoje estamos mal, mas amanhã podemos estar bem”, que “Fazer previsões baseadas no passado é como conduzir um carro olhando pelo retrovisor”, que sou um “Profeta da desgraça”... e por aí fora, como é típico de quem despreza tudo quanto seja previsão ou autocrítica; mas não fui eu o autor da frase que se lê em epígrafe, e, pelo menos à data, tudo indica que estamos (aqui e no país todo) a entrar numa 4ª vaga, de dimensões e consequências ainda imprevisíveis.


E QUANTO a prevenção individual? Nesse aspecto, a maioria da população do nosso concelho dá mostras de respeitar as normas básicas de segurança sanitária. Mas, infelizmente, vai alguma diferença entre essa MAIORIA e a TOTALIDADE, vendo-se muitas pessoas que, na via-pública (e até à porta de escolas!), parecem apostadas em disseminar a doença, numa atitude antissocial que, pelos danos que nos pode causar a todos, já não se combate com a treta da “pedagogia” — até para que nunca se nos aplique o diálogo da rábula de uma antiga “revista à portuguesa”, e que cito de memória:

 

— Ó Zé, e o que faz a polícia?!

— Olha, filha, como isto é uma terra balnear... nada! 

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4.7.21

Revista “Nova Costa de Oiro” de Junho de 2021


HÁ MUITOS
anos, estava eu, com o meu saudoso tio Augusto, na sala de jantar da sua casa, quando sucedeu uma coisa que nunca esquecerei, motivada por uma brochura que estava ali em cima da mesa.

— Sabes o que é isto? — perguntou-me ele, apontando para a fotografia que se via na capa.

— Claro, tio. É a Praça do Comércio, em Lisboa, e o que se vê ao centro é D. José montado num cavalo — Respondi, admirado com tão insólita pergunta.

— Nada disso — retorquiu ele, para meu espanto —, o que está lá na praça é apenas uma REPRESENTAÇÃO, em bronze, dessas personagens. Por sua vez, o que aqui vemos é uma REPRESENTAÇÃO gráfica dessa REPRESENTAÇÃO — E, dito isso, recostou-se na cadeira, abrindo um novo maço do seu inseparável “Português Suave”, não escondendo alguma decepção por eu não lhe ter dado a “luta” que tanto apreciava.

Como se percebe, esse meu tio era obcecado pelo rigor — o que, sendo homem de Ciência, só era de louvar. Mas não era apenas com isso que ele enervava os adversários nas polémicas que tanto apreciava; era também com a sua inesgotável panóplia de argumentos e factos que desenterrava da sua prodigiosa memória. Por isso, quem se metesse a polemizar com ele tinha de estar bem preparado — não só quanto ao tema a debater, como quanto à arte de discutir, em que era mestre insuperável.

Aliás, também nunca esquecerei o que sucedeu quando, numa outra ocasião, estávamos envolvidos numa polémica interminável cujo tema já não me recordo; de facto, já não sei qual era o assunto da discussão, mas sei que ela se emaranhou de tal forma que, a certa altura, já nem sabíamos quem defendia o quê — até que eu, com um sorriso que era também uma sugestão de intervalo para almoçar, me lembrei de dizer:

— Então, tio? Afinal estamos de acordo!

Ao que ele respondeu, quase saltando da cadeira:

— De acordo, NUNCA!

 

ORA EU recordo esses e outros episódios semelhantes sempre que vejo as azedas discussões nas nossas redes sociais, pois penso como seria interessante ver por lá muita gente como o meu tio Augusto. Mas é claro que isso nunca seria possível porque, para que uma discussão seja séria, é preciso que os participantes tenham, além de um mínimo de conhecimentos acerca dos assuntos em causa, abertura de espírito, honestidade e humildade — única forma de poderem, se for caso disso, reconhecer que estavam errados. Ora, como se sabe, nada disso abunda nesse ambiente de “Facebooks” porque, mesmo no caso de pessoas com igual nível de cultura e inteligência, a maioria das discussões são impossíveis, porque hoje em dia o que predomina é o FANATISMO, e “Um fanático é impermeável à lógica e até mesmo aos factos” — como preveniu Carl Sagan —, sendo absolutamente estéreis discussões com pessoas que, devido à sua cegueira sectária, conseguem defender o indefensável e desculpar o indesculpável.

 

AQUI chegados, espero que não me perguntem o que é que tudo isto tem a ver com Lagos, pois basta dar uma volta pela cidade e pelas respectivas redes sociais para se perceber como não falta quem defenda, p. ex., o corte indiscriminado de árvores ou o desprezo pelo património. Mas isso já é assim há muitos anos, pelo que não é novidade.

O que já é novidade é ver como a nossa Polícia Municipal, tendo iniciado as suas funções no passado dia 3 de Maio, apareceu, apenas 10 dias depois, a ocupar alegremente os primeiros lugares de estacionamento reservados para deficientes no Parque da Frente Ribeirinha. Felizmente, há sempre várias formas de encarar as coisas: neste caso, como era 13 DE MAIO, não é de descartar a hipótese de Nossa Senhora ter feito o milagre dessa conversão dos lugares — com a mesma facilidade com que o Seu Filho transformava água em vinho. Longe de mim, pois, invectivar tão inofensivo milagre; aliás, deve estar tudo bem, como sempre sucede nesta nossa terra, cujo “povo é sereno”, só se insurgindo quando alguém destrata um cão, um gato ou um casal de cegonhas.

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31.5.21

Na “Nova Costa de Oiro” de Maio de 2021

  

I — TODOS tivemos, ao longo da nossa vida escolar, professores de que nunca nos esquecemos e, no meu caso, um deles foi o Eng.º Daniel Barbosa, meu conterrâneo, de quem fui aluno na cadeira de Economia no ano lectivo de 1969/70. Sucede que esse foi o último em que os cursos do IST tiveram a duração de seis anos, pelo que é possível que a cadeira tenha desaparecido, com a consequente dispensa de quem a ministrava. Isso não sei; mas o que sei é que já lá vai mais de meio século e parece que ainda o estou a ver: magro, descontraído, sorridente e sempre de boquilha (nessa época podia-se fumar em quase todo o lado!), dando-nos a entender, embora nunca o dissesse, que não reprovaria ninguém. Além disso, era impossível estar nas suas aulas sem ter presente a alcunha que se lhe colara duas décadas atrás: “o Daniel das Farturas” — talvez porque, quando ministro (em 1947/48), tenha prometido “mundos e fundos”, quiçá o famigerado “bacalhau a pataco” de que hoje ainda se fala.

À parte isso, e em termos de ensinamentos concretos, ficaram-me especialmente na memória as leis da oferta e da procura, com destaque para o que nós chamávamos jocosamente “a lógica da batata”, e que se explicava assim:
Se, num determinado ano agrícola, há escassez de batatas, a consequência inevitável será a subida do seu preço; a isso seguir-se-á uma corrida à produção... que por sua vez levará a um excesso de oferta e a uma queda do preço; e por aí fora, numa sequência de “ondas”, como sucede em inúmeros outros casos, como as malfadadas “vagas” de Covid-19: 

Quando a pandemia chegava a uma terra, decretavam-se restrições e confinamentos. Seguia-se a melhoria da situação e o consequente facilitismo, o que por sua vez originava novos casos... e novas restrições... 

E é assim que já contamos com três “vagas” em menos de um ano (e receamos a chegada de uma quarta), em boa parte a crédito dos que desprezam as mais elementares regras de segurança sanitária, mas também das autoridades que, numas terras, “assobiam para o ar”, enquanto noutras até multam quem esteja a almoçar dentro do carro (!) — contribuindo (estes pelo ridículo do “zelo a mais” e aqueles pelo inaceitável “zelo a menos”) para o arrastar do inferno com que nos debatemos.

 

II — HÁ POUCO tempo, o nosso Ministro do Ambiente, falando da escassez de água no Algarve, declarou que o seu preço vai ter de subir. Mas se a sua ideia é que, por essa via, se obterá a redução do consumo, parece não ter tido em conta que, como poderia ter-lhe explicado o referido professor, há bens e serviços cuja procura não é influenciada pelo preço (como é o caso da água nos consumos domésticos), havendo alguns que até se vendem tanto melhor quanto mais caros forem, como sucede com os artigos de luxo e de ostentação.

Mas o pior é que o Eng.º Matos Fernandes mostra não estar a par de certas realidades do país, pois todos conhecemos quem mantenha relvados onde eles são de todo desaconselháveis (em regiões de clima mediterrânico, como o nosso — e, pior ainda, quando há árvores no meio deles), e depois os regue com parte dos aspersores apontados para os passeios (onde os munícipes-pagantes podem contemplar o seu “dinheiro-líquido” a escorrer para as sarjetas!) — para já não falar do caso delirante, a que há meses assisti, da rega em DIAS DE CHUVA! 

De facto, enquanto não se atalharem absurdos como esses, que sentido faz ameaçarem-nos com aumentos do preço da água, ou fantasias de ricos como a dessalinização? Não acham que isso se assemelha a uma outra versão “lógica-da-batata”?!

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NOTA - Na foto da esquerda, vê-se a NOTIFICAÇÃO da PSP de Santarém, referida no texto. Na da direita, o presidente bielorrusso A. Lukashenko quando, em Maio de 2016, recebeu G. Berdimuhammedow, seu homólogo do Turcomenistão.

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23.5.21

Na Revista “Nova Costa de Oiro” de Abril de 2021

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NÃO deve haver muitos portugueses que não conheçam a Ponte da Arrábida, pelo menos de fotografias, na maioria das quais ela aparece vista de lado; no entanto, a parte inferior, com o seu conjunto de vigas em X que só se vêem bem estando junto ao rio, sempre me fascinou — e o que vos vou contar passou-se precisamente aí, pouco depois da sua inauguração.

 

NUMA bela manhã de sol, estava eu admirando a obra dessa perspectiva — e fazendo desenhos no bloco de apontamentos que sempre me acompanhava —, quando parou junto a mim um senhor de chapéu de feltro, bigodes farfalhudos e grisalhos, de cigarro ao canto da boca e mãos nos bolsos, que, intrigado com o que eu estava a fazer, resolveu meter conversa; e, depois de hesitar um pouco, atirou a beata para o chão e desfechou, com inconfundível pronúncia local:
— Ora então muito bom dia! Linda ponte, não é verdade? — E prosseguiu, indiferente à minha surpresa: — Sabe qual é o outro nome que ela tem, além de “Ponte da Arrábida”? — E vendo que tinha despertado a minha curiosidade, continuou: — Nós, os do Porto, chamamos-lhe “A ponte que dá ‘rábida´ aos de Lisboa” — Esclarecimento que rematou com uma gargalhada e um acesso de tosse.

 

AQUI chegados, é preciso explicar que a Invicta é completamente diferente da capital — e em TUDO, especialmente nas “gentes”. E não só “a gente do Porto” não podia ser mais diferente da de Lisboa, como adesse tempo não usava a palavra “lisboeta” como substantivo, mas sim como adjectivo... pejorativo! Portanto, como já se percebeu, o que ele queria dizer, com esse trocadilho mal-amanhado, era que a ponte da Arrábida, por ser tão bonita, “dava raiva aos de Lisboa” — sendo óbvio que me considerava um desses “mouros” que os portuenses identificam pela “pinta”, como nós fazemos em relação aos estrangeiros. 

 

NESSA altura, e como eu já tinha desistido do que estava a fazer, tive a infeliz ideia de comentar que também gostava muito das outras duas pontes. E ele, encantado por poder mostrar sabedoria a um “lisboeta”, pôs-se a dissertar acerca das “de D. Luís” e “de D. Maria I”, do trabalho de Eiffel... até se interromper, intrigado por me ver sorrir.

Na realidade, até foi penoso dizer-lhe que não era bem assim, pois só a ponte ferroviária é que era de Eiffel, não a rodoviária; que o nome correcto desta era “Ponte Luiz I”, e não “de D. Luís”; que a outra não era “de D. Maria I” nem “de D. Maria II”, mas sim “de D. Maria Pia” (por sinal mulher desse rei D. Luís); e, finalmente, que mesmo uma tal “Ponte de D. Maria II” (que, de facto, existiu) era outra, pênsil (no lugar da tristemente célebre das Barcas, de que apenas restavam os dois grandes pilares de pedra e o lugar da portagem).

Aí chegado, não resisti a atirar-lhe uma última pedra:

— Já agora: “Maria Pia” foi também o nome dado ao hospital pediátrico que tem traseiras para a Praça Pedro Nunes, onde eu nasci em 1947. Sim, meu caro, eu sou natural da freguesia de Cedofeita, a mais antiga do Porto, o que quer dizer que, além de não ser lisboeta, se calhar até sou mais tripeiro do que o senhor.

Em seguida, com um aceno e um sorriso que me esforcei para que parecesse amistoso, despedi-me, e dei uma corrida para a paragem do eléctrico que, para meu alívio, já assomava ao longe.

 

E CONFESSO que já não me lembraria de nada disso se não me deparasse, um dia destes, com as placas toponímicas que, aqui em Lagos, estão de ambos os lados da ponte a que todos chamamos “de D. Maria” — mas que, mais propriamente, se chama “Ponte D. Maria II”, onde o ordinal romano dissipa possíveis confusões entre as Marias possíveis. Aliás, também era como “D. Maria II” que as minhas saudosas tias do Porto se referiam à costureira que ia lá a casa, quando, nas suas conversas de croché, era preciso distingui-la da que a precedera, no tempo da minha avó — e que era, obviamente, a D. Maria I...

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11.4.21

Na “Nova Costa de Oiro” de Mar 21


LEMBRO-ME
bem de quando o meu velho amigo Filipe colocou à venda no OLX um vistoso jarrão de porcelana, simultaneamente com os 15 volumes da obra completa de Eça de Queirós, numa luxuosa Edição do Centenário; e também de quando, num dia em que eu estava em sua casa, bateu à porta o comprador, cavalheiro dos seus 45 anos, barrigudo, impecavelmente vestido, barbeado e penteado, acabado de chegar num magnífico carro topo-de-gama que estacionara em cima do passeio.

Quando ele entrou, deixei que o Filipe fizesse as honras da casa e depois, para não interferir na previsível discussão do preço, despedi-me delicadamente e fui apanhar sol para a varanda; mas nem por isso deixei de acompanhar a conversa, porque o homem falava alto, distribuindo generosamente a sua voz por todo o espaço em redor.
Por fim, e depois de muita e animada conversa, a transacção, que já estava apalavrada anteriormente, lá se concluiu; e enquanto o Filipe acondicionava o jarrão e os livros em caixas que já preparara para o efeito, apercebi-me de que o outro, cirandando pela sala, se detivera em frente à estante dos livros, pelo que tive de reprimir uma gargalhada quando ele proferiu a inevitável pergunta:
— Você já os leu todos? — não esperando pela resposta para completar... — Pois olhe, eu nunca li um único, na minha vida!
Como é típico dos semi-analfabetos, ele não se referia à sua incultura com vergonha nem tristeza, mas sim gabando-se dela, adivinhando-se que gostaria de acrescentar «... e não precisei de livros para chegar onde cheguei!», pelo que fiquei com curiosidade de saber "até onde é que tinha chegado"; e vim a ter a resposta quando ele saiu:
— Sabes quem é este figurão? — perguntou-me o Filipe, rindo — É o Presidente da Junta de Freguesia de (...), e o que lhe vendi, a começar pelos livros que nunca irá abrir, é para enfeitar o novo gabinete. Mudou recentemente para o partido certo, e já está na calha para concorrer a Presidente da Câmara. E depois é só dar tempo ao tempo, para tentar fazer como tantos outros, que usaram o cargo como trampolim para ministros, ou mesmo PM ou PR, e não seria o primeiro a sair-se bem da acrobacia.
Dei-lhe razão, e fiz até um pequeno acrescento acerca da possibilidade de ele vir a ser eleito deputado; mas o meu anfitrião afastou essa ideia com o seco comentário de que “isso seria tudo menos subir”.

E foi dessa patusca personagem que me lembrei quando o Governo achou por bem proibir a venda de livros — embora, curiosamente, eu tenha encomendado um no ‘site’ da FNAC, que mais tarde levantei na loja — sim, na MESMA onde, ao alcance da mão, estavam os livros vedados com fitas!
Mas, já depois disso, Marcelo Rebelo de Sousa — que deve ler, num mês, mais livros do que os nossos governantes na vida toda — obteve uma meia-vitória para a cultura, conseguindo que os filhos de Gutenberg fossem brindados com uma espécie de “liberdade condicional”; triste vitória, porém, pois os livros apenas podem ver a luz do dia em lojas que vendam outras coisas!
E é assim que, à data em que escrevo, somos confrontados com o absurdo de ver os CTT, as bombas de gasolina e as grandes superfícies a venderem livros, enquanto as livrarias estão proibidas de o fazer... a menos que arranjem um cantinho para vender outras coisas — quiçá cuecas ou galos de Barcelos Made in China!
Por sinal, e nesse mesmo dia, Marcelo também se dirigiu à AR para que se alterasse a lei do ruído, no intuito de proporcionar sossego a quem está em teletrabalho ou envolvido em aulas à distância. Mas ainda bem que não foi atendido, pois, assim, eu e os meus vizinhos pudemos ser brindados (e em três dias seguidos!) com concertos matinais de motosserras da CML, que achou que o período de confinamento era o mais apropriado para “podar” (?) árvores e dar alguma animação ao bairro — uma gentileza que os moradores, se forem gratos, saberão retribuir lá para o final do ano.

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2.3.21

Na "Nova Costa de Oiro" de Fev 21

 

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1.2.21

Na "Nova Costa de Oiro" de Jan 21

 

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19.1.21

“Nova Costa d’ Oiro” de Janeiro 2021

SE PERGUNTAMOS a um investidor estrangeiro porque é que hesita em meter o seu dinheiro em Portugal, ele certamente referirá a burocracia, a lentidão da Justiça, a corrupção... e por aí fora, numa enumeração de obstáculos que o Estado se esmera em criar. Claro que a gravidade dessas limitações depende do que estiver em causa, mas eu estou a pensar, agora, na campanha de vacinação contra a Covid-19, que obrigará a um esforço inaudito para gerir quantidades gigantescas de informação e de meios, envolvendo MILHÕES de pessoas: e não fico nada tranquilo ao pensar que, durante todo esse processo, as nossas vidas estarão dependentes da eficácia de um Estado que é tão bom a inventar problemas quanto é péssimo a oferecer soluções — para exemplificar os que eu escolhi três pequenas rábulas “caseiras”.

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I — QUANDO, em tempos, me mudei para Lagos e requeri a isenção de IMI a que tinha direito, vim a saber que fora recusada porque a casa constava, nas Finanças, como sendo numa determinada urbanização, enquanto eu indicara o nome da rua que se via nas placas toponímicas — uma descoordenação que eu até poderia relevar se, em seguida, não tivesse de ser eu a deslocar-me à CML para pedir uma certidão dessa equivalência! E o pior foi quando se aproximou a data-limite para pagar o imposto, o que me obrigou a voltar lá para PEDIR que apressassem “o processo” — e a resposta foi que não se podia fazer nada, e até poderia demorar 90 dias! Sucedeu que, nutrindo eu uma profunda aversão à burocracia, já antes tinha encomendado a uma solicitadora que tratasse de tudo o que pudesse — e foi ela que, si lá como!, conseguiu obter o certificado em tempo útil.

 

II — EM JUNHO de 2019, ao passar à porta da nossa Conservatória, enchi-me de coragem e decidi renovar o Cartão de Cidadão. Pois, apesar de não haver qualquer alteração em relação ao anterior, fui brindado com uma espera de seis horas até ser atendido, acrescidas de três quando o fui levantar — porque, entre outros absurdos cujos detalhes aqui omito, o envio para casa não era possível. Quando, por fim, me apanhei com o cartãozinho na mão, fiz questão de perguntar se “eles” também passavam por esse inferno, o que me valeu uma resposta bem esclarecedora: «Claro que não!».


III — TODA a gente sabe que a factura electrónica é algo que só tem vantagens, quer para quem a emite, quer para quem a recebe e, obviamente, é nesse formato que eu recebo as facturas do gás, da electricidade e das telecomunicações, bem assim como as comunicações de bancos, companhias de seguros e tudo o mais... com uma gloriosa excepção: a factura do SMAS de Lagos, que continua a chegar-me em papel! Sim, trata-se de um absurdo que remonta a Outubro de 2019, quando recebi em casa um folheto anunciando que essa possibilidade já estava disponível, para o que me eram oferecidas nada menos do que quatro formas para a passar à prática. Optei pela segunda, e esperei... Até hoje! Claro que o ‘e-mail’ foi recebido, mas ainda ninguém aprendeu, lá nos serviços, que é da mais elementar ‘netiqueta’ acusar a recepção das mensagens — e que, caso alguma coisa não esteja bem, o remetente deverá ser informado disso.

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NESTES, como em muitos outros casos semelhantes, houve sempre quem me aconselhasse a reclamar — sugestão muito louvável, mas vinda de quem nunca o fez contra serviços públicos pois, quanto a mim, conto pelos dedos de uma mão os casos em que as minhas reclamações foram atendidas. Aliás, e quando o que está em causa é a burocracia de um Estado arrogante, o melhor a fazer é recordar Jô Soares que, encolhendo os ombros, nos lembrava que «Burocrata tem de viver...».

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17.1.21

“Nova Costa d’ Oiro” de Dezembro 2020




O ARANHIÇO CHINÊS
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HÁ UNS anos, depois de ter comprado, numa “loja de chineses”, um “aranhiço” para fixar um prato na parede, entrei numa outra — de ferragens —, onde o patrão, com a confiança que lhe davam os muitos anos de convivência comigo, olhou para o que eu levava na mão e quis saber onde é que o tinha adquirido. Depois, no seguimento da minha resposta, subiu a um pequeno escadote, puxou para si uma velha caixa de cartão, e, dando-se ares de prestidigitador, tirou de dentro dela um outro “aranhiço”, que em seguida colocou sobre o balcão, a par do meu, mostrando como eram quase irmãos gémeos, sendo o meu feito na China, e o dele em Portugal.

E estava a sair-se muito bem desse pequeno espectáculo até que eu coloquei a factura da compra do meu “aranhiço” ao lado da etiqueta com o preço (bem superior...) do seu. Portanto, se a ideia dele era condenar “quem dá dinheiro àqueles gajos”, o exemplo foi infeliz, pois não se pode exigir que os consumidores (de uma forma geral, entenda-se) comprem produtos mais caros sem nada que o justifique, nomeadamente em termos de qualidade.

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CLARO que o problema era — e é... — sério, pois está relacionado com a sobrevivência, e o que esse amigo simbolizava era a luta desigual do pequeno comércio e da indústria nacionais ameaçados pelas grandes empresas. Mas a sua limitada visão do mundo nunca lhe permitiria perceber que não é vendendo as mesmas coisas que os outros vendem (e ainda por cima mais caro) que o problema se resolve, por muita “proximidade & simpatia” que se ofereça aos clientes. 

E fica aqui bem um parêntesis, para lembrar aos mais distraídos que o problema das compras ao estrangeiro vai muito para além dos chineses, pois todos conhecemos casos de organismos do Estado que importam produtos e equipamentos que bem podiam ser comprados em Portugal, dado que também por cá se fabricam — até de melhor qualidade, e por preços mais baixos —, procedimento lamentável, mas de que me dispenso de dar exemplos, não só porque só não os vê quem não quer, como também porque o espaço de que disponho é limitado.

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A UMA escala maior, o que países como o nosso têm de fazer é produzir DIFERENTE e com QUALIDADE internacional, criando postos de trabalho e valor-acrescentado em níveis significativos — e, nos últimos anos, é o Turismo que aparece com destaque nessa frente de luta, valendo, num ano normal, 14% do nosso PIB, um valor que é bem superior, se apenas considerarmos o Algarve. 

Mas o pior é quando não se vislumbra, nos responsáveis políticos, um visão de longo-prazo, como sucede (e dificilmente se arranjaria hoje melhor  exemplo!) com o problema da ESCASSEZ DE ÁGUA no Algarve: no ano passado, não se falava de outra coisa, e muito bem; mas este ano, pelo menos até à data em que escrevo, tudo se passa como se o problema já estivesse resolvido ou em vias disso!

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ORA, e como, hoje em dia, a PANDEMIA é assunto incontornável, não resisto a associar esse tema ao da INCAPACIDADE DE PREVISÃO dos governos, tendo escolhido, para documentar — por contraste — uma imagem que mostra um gigantesco armazém secreto (de entre os muitos que os “frugais” finlandeses mantém desde os tempos da Guerra-Fria), com tudo o que é básico para enfrentar uma emergência. 

Sim, àqueles “forretas” não falta nada, talvez porque, em vez de atirarem milhares de milhões para cima de empresas e bancos duvidosos, os gastam em máscaras, luvas, batas, material médico, medicamentos, geradores eléctricos, combustível, alimentos, etc. — uma atitude bem simétrica dos que apenas alternam lamentos de Calimero com palavreado ao nível da chinela — como “sovina” e “repugnante” —, protagonizando uma bizarra variante da fábula da cigarra e da formiga, pois tem a originalidade de pôr esta a invectivar aquela.

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Carlos Medina Ribeiro

Revista “Nova Costa d’ Oiro” de Dezembro 2020

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