22.11.19

A OVIBEJA dos Computadores

Por Joaquim Letria
A melhor explicação que ouvi sobre o que era a websummit foi a de um jovem que explicava ao seu progenitor: “Oh pai, aquilo é uma Ovibeja mas com computadores em vez de ovelhas.”
A explicação, além de simples, é fácil de entender e muito divertida. Neste caso, pode ainda levar-nos àquele velho provérbio sobre quem vai buscar lã e sai tosquiado. É que, ao que parece, os custos dispararam, o Estado e a Câmara de Lisboa gastaram mais 20 milhões de euros em cima dos 11 milhões com que entram todos os anos. Só em alugueres (FIL e Altice Arena) gastou-se 4,7 milhões.
Esperava-se mais de 100 mil visitantes mas o número destes não ultrapassou os 76 mil. O retorno de 180 milhões de euros não passou de projecções. O impacto no estrangeiro foi praticamente nulo, maioritariamente a comunicação social  internacional  ignorou o evento e, além do mais, os custos dispararam.
O professor João Duque, director da nossa melhor business school, diz sabiamente: sobre a websummit “o que se deve perguntar é se se perdeu alguma coisa pelo facto dos participantes da websummit virem até Lisboa, porque para virem aquelas pessoas deixaram de vir outras.”
O economista Eugénio Rosa vai ainda mais longe: “As projecções do Governo não têm qualquer base real”. E lembra um caso que deveríamos ter mais presente nos nossos espíritos, a organização do Euro 2004, o campeonato de futebol que  nos custou os olhos da cara.
Realmente, a UEFA dizia que Portugal seria compensado com 260 milhões de turismo, mais 290 milhões de publicidade. Mas a realidade é que nem metade destes valores foram alcançados e o Tribunal de Contas explica preto no branco que o Estado e as autarquias ainda tiveram de suportar 1.035 milhões de euros com a construção de estádios cuja maioria não é utilizada, à excepção dos que pertencem aos três grandes clubes.
Esses estádios (três construídos a 60 km uns dos outros – Coimbra, Aveiro e Leiria) continuam a ser um pesado encargo para as autarquias que os querem vender sem que haja quem compre.
Deixem-me que esclareça que sou a favor da websummit, mas  sem subserviências nem parolices e com contas certas e a saber-se  explorar o acontecimento a bem de Portugal. Mas com esta websummit, garantido, garantido foi aquilo que receberam os palestrantes (à média de 50 mil euros por palestra, mais despesas de viagens para o próprio e um acompanhante, em primeira classe, e estadia em hotéis de 5 estrelas). 
Claro que  Paddy Cosgrave recebe tanto ou tão pouco que lhe dá para afirmar com aquele ar displicente dos chicos-espertos que não sabe quanto ganhou ou perdeu.  De facto, ele nem faz as contas às receitas das camisolas de malha da mulher, vendidas aos participantes a 780 euros, umas, e a 850, outras.
Gosto mais das camisolas da Nazaré que vendem na rua, no parque Eduardo VII ou no Padrão dos Descobrimentos. Ou então vou a Bergen, na Noruega, ou a Shetland, e  compro outras  camisolas de lã de que também gosto muito. Pelo preço duma camisola  do Cosgrave juro que vou numa low cost ida e volta, fico num bom B&B e ainda me sobra dinheiro para umas cervejinhas.
Publicado no Minho Digital

Etiquetas:

1 Comments:

Blogger José Batista said...

Bom, talvez se pudesse alterar o nome para «Web-a-sumir-se». Ou, mais realisticamente «Web-a-sumir-o-nosso-dinheiro».
Quanto à loucura dos estádios para o euro 2004 e suas consequências, no que respeita especificamente ao de Braga, pelos dados referidos ultimamente pelo presidente da câmara (e contas de merceeiro feitas por mim), por cada hora que passa são 2700 euros que a autarquia paga aos bancos. E ninguém se escandaliza com isso, excepto eu. Por isso é preciso convencer os adeptos do clube de que podem ganhar o campeonato e outras fantasias assim. Até o presidente da república se diz adepto do Braga. Não se sabe é o que ele pensa sobre tamanhas despesas...

26 de novembro de 2019 às 00:00  

Publicar um comentário

<< Home