21.6.06

EUROMUNDIAL (*)

O QUE ESTE Mundial mais uma vez confirma é o domínio avassalador do futebol europeu ou, mais precisamente, dos futebolistas que jogam em clubes europeus. Mesmo duas grandes potências futebolísticas como a Argentina e o Brasil não escapam à regra. Entre os 23 jogadores argentinos seleccionados, apenas três jogam na Argentina e dois no Brasil. Os outros 18 alinham em clubes europeus. A percentagem de ‘estrangeirados’ é ainda mais esmagadora na selecção do Brasil: apenas um dos guarda-redes suplentes joga num clube brasileiro. Todos os outros 22 jogam em grandes clubes europeus.

O mesmo se passa com as melhores selecções africanas. A excelente selecção do Gana tem 17 futebolistas oriundos de clubes europeus, a da Costa do Marfim tem 22 e a do estreante Togo tem 16. É certo que a selecção do Gana, que tem a idade média mais baixa deste Mundial (25 anos e 42 dias) ainda liberta um certo perfume futebolístico de meninos que começaram a jogar à bola nas ruas, nos campos e nos pastos, mas a matriz e a formatação europeias são já evidentes, nomeadamente do ponto de vista táctico.

É um facto que a grande maioria das 32 selecções que participam neste Mundial não representa o futebol que se pratica nos respectivos países - ou Estados-Nação - mas sim o futebol europeu, sobretudo o dos chamados big five (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália). E essa é uma das mais curiosas contradições do futebol actual já que, por um lado, a mediatização e popularidade do futebol são um dos mais impressionantes fenómenos da globalização e, por outro lado, as selecções nacionais são uma espécie de últimos redutos do patriotismo e da identidade dos velhos (e novos) Estados-Nação.

Selecções genuinamente nacionais (mais poderosas ou já em destaque pelas suas boas exibições), talvez só as da Itália, da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha e a de um surpreendente Equador (apenas três dos 23 futebolistas alinham em clubes europeus). E mesmo na de Portugal, país futebolisticamente periférico no velho continente, 15 dos 23 eleitos jogam em clubes de outros países europeus (e, se nos restringirmos aos habituais titulares, a percentagem de ‘estrangeirados’ é ainda maior). Por isso, é inadequado falar hoje de um estilo tipicamente português. Tal como é gratuito evocar o mito reaccionário da velha ‘fúria espanhola’ depois de termos assistido à excelente, tranquila, esclarecida e eficaz exibição da Espanha frente à Ucrânia. Mas os mitos têm as costas largas.

É no contexto deste campeonato que mais parece euromundial, que me regozijo com o aumento da consistência e do rendimento da selecção portuguesa frente à do Irão, graças ao regresso de mestre Deco (que jogo, que golo!) e à persistência de mestre Figo em brindar-nos com o seu melhor futebol (esteve nos três golos já obtidos pela equipa). Resta esperar que ainda melhore frente ao México e, sobretudo, nos oitavos de final.
(*) Crónica de Alfredo Barroso no «DN» de hoje (não está online), aqui transcrita com sua autorização.

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1 Comments:

Anonymous ratome said...

Neste bom artigo o cronista esqueceu de mencionar a boa selecção do México que é uma excepção à regra pois é quase toda ela constituida por jogadores que actuam na liga Mexicana. Apesar de ter perdido por Portugal, num jogo que vi ao vivo, muitas surpresas ainda nos reservam esta selecção do México. Argentina ..watch out!

21 de junho de 2006 às 22:35  

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