Autópsia de um vivo (*)

Por isso, o improviso do ministro da Economia em Aveiro é uma lamentável dissonância. Proclamar, em pose televisiva - e quinze horas depois de oitenta mil almas enxamearem Lisboa a gritar os seus medos e aflições - que "a crise acabou totalmente" é um erro de nota zero. É autopsiar um corpo que mexe. Manuel Pinho até pode achar que os manifestantes são gente iludida. Mas há infelizmente quem viva iludido e há felizmente o direito de votar iludido. Pode também alegar que a sua frase é tecnicamente defensável. Isso importará talvez aos técnicos com cujos indicadores trabalhou. Mas é politicamente indefensável e o juízo que se faz sobre o que diz um ministro é político. E é um erro ainda porque fere a legitimidade de dois grandes constrangimentos cuja tinta nem secou: o acordo na Concertação Social e a decisão de apresentar um Orçamento de contenção.
Há quem defenda que a política não se faz com o subtil e o simbólico, como há quem pense que um jantar agradável não requer um mínimo de boas maneiras. Mas, mesmo filiando nesta escola homens de sucesso como George W. Bush ou Kim Jong-il, o entendimento que ainda vai prevalecendo é o contrário. Felizmente.
(*) Crónica de Nuno Brederode Santos no «DN» de hoje, aqui transcrita com sua autorizaçãoEtiquetas: NBS
2 Comments:
Na parte que toca a Manuel Pinho, esta crónica bem podia chamar-se «Autópsia de um "vivaço"».
Compare-se a sobriedade de Vieira da Silva, Luis Amado, Mariano Gago e Teixeira dos Santos com a imaturidade de que dão mostras Correia de Campos, Jaime Silva e Manuel Pinho no contacto com o povo!
A própria Ministra da Educação pode, às vezes, estar cheia de razão, mas também é um desastre comunicacional e de relações humanas.
Ed
Enviar um comentário
<< Home