30.12.06

Um ano mais dentro dentro de nós

SOMOS PEQUENOS DEMAIS. À mínima avaria ficamos dependentes de quem sabe. E, ainda incipientes e infantes, tacteamos nas tecnologias o arranhar do futuro.
Algumas coisas fomos conseguindo. Os elevadores já possuem memória selectiva; os esquentadores passaram a ser inteligentes; os comboios mais cómodos; os aviões mais seguros. A Medicina prolongou-nos a idade; as auto-estradas rasgaram-nos alcances; o ar condicionado torna-nos mais suportáveis o frio e o calor. Já não concebemos a nossa correspondência com o Mundo sem ser por Internet, rápida, directa e pessoal; sabemos da Guerra e da Paz – infelizmente mais da Guerra que da Paz – no minuto do ataque ou do tratado. Colocamos robótica nas casas, sonares no mar, inovações espantosas na Cirurgia, na Engenharia, na Arquitectura, na Comunicação.
Podemos nascer na China, crescer no Zimbabué, casar no Uruguai, emigrar para o Alasca, trabalhar na Austrália e vir a morrer em São Tomé.
Os horizontes, de facto, alargaram-se. Aprendemos as línguas distantes e difíceis. Vamos de férias ao Vietname, só para conhecer as gentes e a paisagem.
E os anos vão passando, amigos.
A questão é esta – vivemos melhor? Melhorou o Mundo?
Conhecer mais ter-nos-á tornado mais felizes?
Pessoalmente digo-vos que quanto mais conheci, estudei e viajei, mais me convenci que uma tão vasta riqueza e variedade de sítios, culturas e raças não oculta a pequenez acabrunhante da pessoa humana. A nossa colectiva e existencial limitação e finitude. Por isso regresso sempre satisfeito por saber mais. Mas triste por nunca poder abraçar o infinito do saber de que tomo então, se possível for dizê-lo, mais conferida consciência.
Bom ano?!
Confesso-vos uma coisa ao ouvido: não acredito muito em nada. Sou uma ímpia criatura. Embora cheia de grandezas interiores, bons sentimentos e excelentes intenções.
Mas creio, por isso mesmo, numa profunda e imensa religiosidade interior. É o sítio onde se luta por justiça e paz; e sentimentos belos, superiores. E paisagens, e volúpias, e sabores. Numa força gigantesca que a cada dia levanta o Mundo e faz acordar o Homem e a sua peregrina vontade de alcançar e melhorar-se.
É nesse ponto que acho alma e significado neste xadrez de viver. O resto deixou há muito de me interessar. Por isso busco em mim, todos os dias, o mesmo alento.
O tal que já me vai faltando e tanto me cansa, por vezes, convocar. Mas que doeria ainda mais, se uma manhã cinzenta deixasse de me visitar e não chegasse.
Não saberia viver sem essa luta, essa procura.
É nela que reside a força, a vontade, a beleza, a busca, o prazer, o orgulho, afinal, de sermos gente. Porque, para lá do pacote tecnológico de facilidades, há pessoas de carne, desejo e pensamento.
Gente ansiosa – ao nosso lado ou do outro lado do mundo – a gritar dramaticamente que não é mais feliz por lhe injectarem diariamente tais facilidades.
Viver melhor passa instantemente por um mundo de felicidades adquiridas.
Mas a aquisição da felicidade possível passa bem mais profundamente por dentro de nós a cada dia. Nunca a compraremos adquirindo, mas sim sentindo.
Rodeados de tudo podemos ser, ainda assim, a mais infeliz das criaturas.
No recanto secreto de cada um de nós, acalentamos sempre um sonho de ternura por cumprir. É nele que acharemos um viver melhor, segundo creio. Talvez até a Paz.
Tão cheia de difíceis equilíbrios.
Tão necessária. Tão íntima.
Tão merecida.
E talvez aí os anos, tal como nós, fossem realmente melhores.

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3 Comments:

Anonymous Elsa said...

É um privilégio ler (e ouvir) este Pedro Barroso. Bom Ano para ele!

30 de dezembro de 2006 às 11:39  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Se tudo correr como previsto, Pedro Barroso publicará aqui crónicas sábado sim/sábado não, alternando com outras de Joaquim Letria.
Estas últimas serão escolhidas do seu livro «Histórias para Ler e Deitar Fora» (edições do «Círculo de Leitores» e d' «O Jornal», 1987).

30 de dezembro de 2006 às 11:42  
Anonymous Anónimo said...

Muito bonito este texto.
É bom sabermos que não estamos sós. Que alguém, que muitos, pensam como nós.
E graças às novas tecnologias podemos partilhar ideias e sentimentos.
Falta fazer o resto. Falta pôr estas ideias e sentimentos em prática. Como sou uma optimista, sinto que chegaremos lá, um dia.

30 de dezembro de 2006 às 15:57  

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