27.5.07

A ESTRANHA MALDIÇÃO

Por Nuno Brederode Santos
VERGADO A UMA ESTRANHA MALDIÇÃO, Marques Mendes lançou uma candidatura que recria, ponto por ponto, aquela que levou à actual situação de Lisboa. "Ingovernável", definiu-a ele.
Revelando ter aprendido a lição do candidato Carmona Rodrigues - um independente sem qualquer peso no partido e, por isso, dele dependente a cem por cento - MM virou-se para os militantes. Paula Teixeira da Cruz, presidente da distrital de Lisboa e da assembleia municipal, teve de explicar publicamente por que razão não era candidata e, ao fazê-lo, colocou o PSD na difícil posição de impedir que as próximas intercalares abrangessem esse órgão. Manuela Ferreira Leite usou do seu especial estatuto partidário para não ter de se explicar. E Fernando Seara, presidente da Câmara de Sintra, escusou-se por razões pessoais. Na falta de um militante de nome sonoro para travar o seu combate, MM acabou por convidar Fernando Negrão, um independente sem qualquer peso no partido e, por isso, dele dependente a cem por cento. Não saliento aqui a "quarta escolha", que é um critério demasiado linear para ser usado sem análise fina das circunstâncias. Saliento apenas que, para quem procura fugir com o rabo partidário à seringa das responsabilidades políticas e usa uma linha de argumentação muito baseada na "independência" de Carmona Rodrigues, não vai ser fácil convencer o eleitorado da bondade da escolha de outro independente. Mesmo que MM saiba que, em regra, só um cabeça de lista independente é que, depois de eleito, se presta a ir à sede do PSD para receber orientações para a câmara a que preside.
O princípio do fim de Carmona foi a ruptura da aliança com o CDS, publicamente ilustrado por uma tensa guerra verbal entre Paula Teixeira da Cruz e Maria José Nogueira Pinto. Essa guerra, fomentada pela primeira e pelo aparelho da distrital, mais se impôs a MM do que foi por ele desejada. Contudo, aparentando não se aperceber do peso de mais essa responsabilidade, ele deixou transparecer a ideia de que a decisão fora sua. Com isso pretendeu esconder a sua incapacidade para se impor à distrital, preservar a sua autoridade e adiar esse duelo para melhor ocasião.
Mas a ocasião era agora, na formação da lista com que Negrão se apresenta. Por isso mesmo (e conforme revela a imprensa), muitas terão sido as vozes do partido que defenderam uma renovação integral da lista. Não que fosse politicamente necessário substituir Marina Ferreira ou Amaral Lopes, mas para mais discretamente diluir as necessárias saídas dos "controleiros" da distrital: Sérgio Lipari e António Proa. Não tendo o candidato força política para se impor na constituição da equipa, MM tinha de travar pessoalmente essa batalha. A fazer fé nos jornais de sábado, 26, o eleitor entra em melancólica letargia: ou MM capitulou sem luta ou travou-a e perdeu. Porque os nomes que podiam não sair são os que saem e os nomes de que importava libertar o candidato são os que ficam.
O que resta a Negrão para tornar convincentes os ataques, de dia para dia mais duros, que vem dirigindo a Carmona? Quem acreditará na viabilidade do combate à corrupção que um independente, politicamente anémico, quer travar, quando o vir rodeado da gente que, no mínimo, o não travou durante a presidência do anterior independente politicamente anémico? Quem poderá repousar na convicção de que, desta vez, seriam os interesses da cidade a nortear a acção da autarquia, se a única mudança visível é a troca de um compagnon de route por outro? Quem assegura que, daqui a dois anos, não teremos um Negrão escorraçado e culpabilizado por outro independente, sem peso algum no aparelho do partido e, por isso, dele dependente a cem por cento?
Não sei se, num Congresso em Outubro, MM poderá manter-se. Sei que, com esta candidatura autárquica, ele ilustrou da pior maneira a falta de autoridade que o tolhe. E sei que, com um mau resultado nas urnas, ele demonstrará o paradoxo que há muito revelou: é ser ele próprio o ventre mole do núcleo duro da sua liderança.
«DN» - 27 de Maio de 2007

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9 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Eu lamento dizer (e lamento porque se trata do blog animado pelo meu amigo e colega, engenheiro, Medina Ribeiro) que este artigo de Brederode Santos parece conversa de "senhora vizinha".

Isto não é opinião, nem coisa nehuma. Não passa de um frete a Sócrates, António Costa e ao PS em geral. É nestas ocasiões que os colunistas perdem a credibilidade. Porque se não são parecem meros papagaios da seita a que pertencem.

Compare-se este artigo com o de Alberto Gonçalves, na mesma edição do Diário de Notícias. Esta sim, é uma opinião, aliás, várias.

http://dn.sapo.pt/2007/05/27/opiniao/dias_contados.html

Jorge Oliveira

27 de maio de 2007 às 12:22  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Para mim, há duas coisas relacionadas com Negrão que me fazem confusão:

1ª-Já está esclarecida aquela história do suposto telefonema para o «DN»?
Supostamente ele, Director da PJ, telefonou para o jornal a informar que ia haver uma rusga na Moderna.
E, supostamente, quem se "tramou" foi quem gravou o telefonema...
Supostamente, o assunto anda em investigação há anos.

2ª-Então há milhares de pessoas em Setúbal que votam nele e, "na volta", o eleito vira-lhes as costas e concorre a Lisboa?

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Pensei o mesmo quando convidaram o Fernando Seara.
Se ele recusou por respeito para com os eleitores, subiu tanto na minha consideração quanto desceu quem o quis tirar de Sintra.

O mesmo, também, se passa com João Soares, que foi eleito representante do povo em Sintra e estava disposto a deixar o trabalho a meio!

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Então como é?! A gente vota neles (e paga-lhes o ordenado) para quê?! É como contratar um pintor para nos pintar a sala e, a meio do trabalho, ele pegar no pincel e nas tintas e ir pintar o quarto!

27 de maio de 2007 às 13:02  
Anonymous Duarte R. said...

Estamos cheios de autarcas que andam a praticar pára-quedismo.

Ora aqui, ora ali... Concorrem onde os chefes os mandam concorrer, ou onde lhes parece que podem ganhar. Claro que há situações em que isso pode ser aceitável, mas nunca a meio de um mandato!

O caso de F. Seara, ainda por cima PRESIDENTE DA CÂMARA seria escandaloso. E a naturalidade com que isso é feito (ou sequer pensado!) é que é de pasmar.
Tiro-lhe, pois, o chapéu por ter recusado (se o motivo foi o respeito por quem o elegeu).

Se os eleitores de Sintra tiverem novamente de escolher entre ele e João Soares... terão isso em conta.
A menos que sejam, de facto, tão tontinhos quanto certos políticos os fazem.

27 de maio de 2007 às 13:37  
Anonymous Anónimo said...

Como não tenho especial simpatia por A. Costa, estou à vontade para dizer que N. B. Santos (que é um seu apoiante) tem razão quando diz que Negrão é uma péssima escolha de Marques Mendes, que andou a rapar o fundo do tacho até esbarrar nele. E até o facto de ser um "independente", como Carmona, lhe augura um destino semelhante.
Semelhante... ou pior, pois enquanto Carmona ganhou eleições e só depois é que caiu em desgraça, Negrão nem sequer deve passar pelo estado intermédio: basta olhar para ele, basta ouvi-lo falar dois minutos... para ver que tudo aquilo é chocho, artificial, vazio. Alguém vislumbra nele (tal como em Costa ou Telmo Correia ou Ruben de Carvalho, ou...) algum "amor a Lisboa"?

Mas isso é a minha opinião, é claro.
No fundo, só tenho pena é da cidade, que merecia melhor sorte. Quanto aos munícipes, esses têm tido (e terão) o que merecem.

27 de maio de 2007 às 15:08  
Anonymous Carlos Esperança said...

Jorge Oliveira:

Se percebi bem, ser independente é estar de acordo com as nossas posições. O contrário é um frete ao partido de que não gostamos ou de que o outro gosta.

É fraco como argumentação mas rico para se saber de que lado se situa a crítica.

27 de maio de 2007 às 16:40  
Anonymous Anónimo said...

Estou longe de partilhar as simpatias partidárias de NBSantos, mas confesso q não percebo o q é q o texto dele tem de "frete ao PS".
Se alguma crítica se lhe pode fazer é q não diz novidade nenhuma: as fragilidades de F. Negrão e de M. Mendes são realidades q qualquer pessoa minimamente informada vê e sabe.
Mas o estado lastimoso (e lastimável) em q a oposição está tb não é bom p/ o país nem sequer p/ o governo.

27 de maio de 2007 às 18:06  
Anonymous Anónimo said...

Perfeita foi a entrevista de Helena Roseta ao PÚBLICO-RR e que vimos há pouco na "2:".
É bom ouvir alguém que sabe do que está a falar.

27 de maio de 2007 às 20:54  
Anonymous Anónimo said...

Acrescento, então :

Já toda a gente percebeu que Marques Mendes é um líder partidário muito fraquinho e que Negrão é um mau candidato à Câmara de Lisboa.

Que um "intelectual" gaste uns milhares de caracteres para nos dizer isto, em artigo de opinião, num jornal de "referência", se não é frete aos correligionários, parece...

Jorge Oliveira

28 de maio de 2007 às 06:36  
Anonymous Anónimo said...

E acrescento mais, fazendo minhas as palavras contidas neste excelente post, assinado por António Viriato no blog "Alma Lusíada" :

http://alma_lusiada.blogspot.com/2007/05/confirmao-do-agravo.html

Jorge Oliveira

28 de maio de 2007 às 06:45  

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