14.6.13

Um país sem remédios

Por Maria Filomena Mónica
DE ACORDO com a definição oficial, sou uma idosa polimedicada. Desde que, vai para dez anos, uma médica descobriu ser a minha tensão arterial 18/20 que sou forçada a ingerir vários comprimidos por dia. A mistura variou, até que um médico optou por um cocktail que incluía o «Fludex». Há seis anos, ao chegar a Inglaterra, julguei tê-lo deixado em Lisboa, pelo que fui ao centro de saúde de Jericho. Antes de me passar a receita, o médico indagou quanto tempo iria ali ficar. Quando lhe disse que seria um mês e meio, escreveu no papelucho carecer eu de 45 pílulas. Ao pegar no frasquinho castanho, contendo os comprimidos vendidos à unidade na farmácia, notei que pagara menos de um décimo do que o teria feito em Lisboa. Como era possível que um medicamento com o mesmo princípio activo - Indapamida – tivesse, em dois países, um preço tão diverso? Mistério.
Entretanto, o eng. Sócrates anunciava que iria introduzir em Portugal a unidose, uma política que pouparia ao Serviço Nacional de Saúde milhões de contos. Por o governo ser mais fraco do que os lobbies farmacêuticos, nada se passou. Outras mudanças, e estas mais graves, estavam a afectar o sector. A certa altura, o Valium 5, que a neurologista do Hospital de Sta Maria me indicara, sumiu-se. Corri dezenas de farmácias. A resposta foi sempre a mesma: esgotara-se. Como uma das minhas irmãs vive em Madrid, pedi-lhe que me enviasse três caixas. Lá, como cá, ninguém liga a receitas médicas, pelo que ainda não passara uma semana e já cá o tinha. 
Há uns dias, deixei acabar a caixa de Tryptizol, o anti-depressivo que entretanto me foi receitado. Sim, além hiper-tensa, sou hiper-ansiosa. Corri as farmácias do bairro e nenhuma delas o tinha. No dia a seguir, li, em O Correio da Manhã, que um homem de 33 anos morrera no Hospital de Faro, devido à falta de um medicamento. Após o que o Ministério da Saúde anunciou tencionar proibir a exportação de medicamentos em falta. 
Esta trapalhada deve ter sido causada pela súbita descida de preços. De facto, uma caixa com 30 doses de Indapamida custa hoje 3,12, uma com 60 doses de Tryptizol 2,15 e uma com 25 doses de Valium 1,54 Euros. Acabo de comprar uma embalagem de Pantoprazol (com tanta droga a cair-lhe em cima, o meu estômago carece de protecção), tendo verificado que o preço descera de 15,12 para 8,72 euros. Este milagre, que levou a que, nos dois primeiros meses deste ano, os portugueses tivessem pago, em medicamentos, menos 21 milhões de euros do que em idêntico período do ano passado, foi conseguido pela troika, mais assustadora, pelos vistos, do que os governantes nacionais. 
Acontece que as boas acções podem ter consequências nefastas. Dizem-me que as margens de lucro das farmácias e dos armazenistas são tão baixas que as falências se tornaram inevitáveis. Pela minha parte, optei por outra teoria: a fim de diminuir o défice, o governo deseja que os idosos polimedicados morram o mais depressa possível. Previno-o: comigo, não conte. Tendo sobrevivido a outras tempestades, não é desta que conseguirá abater-me. 
«Expresso» de 25 Mai 13

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6 Comments:

Blogger Laura Cachupa Ferreira said...

Caríssima Mónica
Sem querer de forma nenhuma brincar com a sua saúde, não se brinca com a saúde de ninguém, aqui vão alguns conselhos.
A tensão alta só pode derivar da enfatuação dos doutoramentos na Inglaterra.
Faça por esquecer esses episódios da sua vida, nunca se lhes refira, evite mesmo pensar neles.
Quando se tem uma reforma superior a 4500 euros é natural que se tenha de tomar Valium 5 e Tryptizol.
Por vária razões.
Pelo receio de perder a reforma e pelos sucessivos descontos.
Pelo desconforto permanente causado pela sensação de incongruência entre aquilo que se fez ao longo da vida e a enorme reforma.
Pelo espetáculo da miséria alheia, sobretudo dos infelizes que trabalhando a vida inteira, têm reformas de 200 e 300 euros, para que possa haver reformas chorudas.
Reparta a sua reforma com os mais necessitados e vai ver que em breve volta a ser a rapariga saudável dos tempos em os papás carregavam o popó com a família os animais e as criadas (sic), a caminho da Praia das Maças.

14 de junho de 2013 às 14:54  
Blogger Manuel Queiroga said...

Um dos grandes defeitos do ser humano é a inveja e a preguiça mental.
Estou de acordo com o artigo de MFM, que acho actual e que deverá ser um alerta ao nossos governantes.
A bloguer Laura Ferreira esquece que há pessoas com pensões de 200 euros que nunca descontaram um centímo.

14 de junho de 2013 às 21:00  
Blogger Laura Cachupa Ferreira said...

Caro Catroga, perdão, Queiroga
Pela conversa também lhe deve tocar uma reforma choruda...
Alguns, podem não ter descontado, mas são pessoas como você, que sim, tem inveja desses duzentos euros por eles não terem descontado.
Preguiça mental é não ser capaz de pensar nos mais desfavorecidos.
Peça ao médico para lhe aumentar as doses do Valium e do Tryptizol

14 de junho de 2013 às 21:55  
Blogger José Batista said...

Eu diria que é um país sem remédio.

Mas com muitos senhores lauras, e por essa razão.

Não esmoreça, Maria Filomena Mónica, que muitos lhe agradecem a lucidez, a coragem e a franqueza. E a sensibilidade para com os que menos podem, sem lamechices.

Diz o povo: só se atiram pedras às árvores que dão frutos. O problema é haver tantos inúteis apedrejadores. Ainda por cima disfarçados de mulher...

15 de junho de 2013 às 10:22  
Blogger Carlos Medina Ribeiro said...

Caro José Batista,

Como já aqui tenho dito, os comentários de anónimos não são reencaminhados para os autores dos 'posts'.

15 de junho de 2013 às 11:54  
Blogger Manuel Tiago said...

Bem haja Carlos Medina Ribeiro, por essa atitude tão nobre.
Eu tinha a certeza de que o chamar analfabeto a um operário tinha sido um lapsus linguae.
Et pour cause...

15 de junho de 2013 às 12:11  

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