12.7.13

O carrasco da senhora

Por Antunes Ferreira
NO MEIO do tsunami provocado por Aníbal Cavaco Silva com a sua “declaração ao País” inqualificável, uma outra figura grada do Estado empregou o termo “carrascos”, que depois veio explicar apressadamente. Foi ela a jurista Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República. Quer o contexto em que se verificou a infeliz afirmação da segunda figura do Estado, quer a sua habitual posição em relação à novela esotérica e anedótica a que Portugal assiste de olhos mais ou menos esbugalhados, levam a que se coloquem mais umas quantas interrogações acerca do perigosíssimo momento que Portugal está a atravessar. 
Para que se possa compreender (???) este desgraçado episódio, há que recordar que Cavaco fez o pior que podia fazer ao sair do seu habitual e mumificado estado com declarações no mínimo incoerentes sobre as idas e vindas da política à portuguesa. O homem que “ocupa” o palácio de Belém – e aqui o termo é, creio e por isso o utilizei, perfeitamente correspondente ao que era utilizado aquando do chamado PREC – parece ter acordado de um sono incongruente e inconcebível que levava a que ele fosse considerado apenas um verbo-de-encher. Abriu, finalmente, a boca – e saiu mais uma asneira. Das grossas e gordas. 
Ao fazer um patético apelo aos partidos parlamentares que tinham assinado o “acordo” com a famigerada trindade diabolicíssima, o senhor Silva (recorde-se que a expressão era habitualmente utilizada pelo senhor Jardim da Madeira in illo tempore) reconheceu que quem realmente mais ordena – que me perdoe o Zeca Afonso – nesta terra lusíada é a troika. Ou seja, ela também manda nele próprio. Isto quer significar, usando terminologia legível, que se já antes estávamos copulados, muito mais estaremos agora. O que se afigurava impossível, agora já é não apenas possível, mas obrigatório. Foi um verdadeiro haraquíri cavaquista. Não faltaram, pressurosamente, comentadores políticos que vieram dar conta da “bondade política” do suposto dono do Cavaquistão. Excepções mais ou menos esparsas entre a esmagadora maioria deles que verberou o espantoso procedimento presidencial (???). Veja-se a normal habilidade, por exemplo, do sinistro e sinuoso Marcelo Rebelo de Sousa ao afirmar que Cavaco "quis, intencionalmente, ser vago naquilo que propôs porque é uma proposta destinada a seduzir os três destinatários" 
O excelso professor de Direito alinhavou ainda que a declaração ao País teve de ter “contradições porque é a mesma coisa que seduzir senhorios e inquilinos", e mais ainda adiantou que, se fosse ainda líder partidário, "reagiria com um 'nim' e negociava". Para concluir a sua análise, Sousa brindou-nos com este mimo: "se nenhum (dos partidos) comprar (a proposta)", Cavaco Silva poderá sempre dirigir-se aos Portugueses e dizer que "a culpa" não é sua e que tentou o melhor, apesar do "custo de não ter fechado a crise". 
Rios de tinta, afirmações através das ondas hertzianas ou das televisivas, vão continuar a correr sobre este imbróglio da autoria do soez sujeito e quiçá o principal culpado do pântano em nos vamos afundando cada vez mais. E, fatalmente, constituído por areias movediças. É, na verdade o “é fartar vilanagem” levado até às últimas consequências. 
Mas volto agora ao assunto que coloquei no início desta croniqueta: a afirmação de Assunção Esteves. É do conhecimento público a manifestação (transmitida em directo ou diferido pelas televisões) que decorreu nas galerias da Assembleia da República durante a qual a ordem normal (???) dos trabalhos parlamentares foi interrompida pelos gritos dos assistentes exigindo a demissão do (des)Governo, ao mesmo tempo qua às vaias se somaram balões e papéis que, quais confettis, foram lançados sobre o hemiciclo.
A Presidente Esteves, recordo, a segunda figura do Estado, que se tinha mantido, tal como a primeira, Cavaco Silva, silenciosa ao longo de todo este calvário, mandou “por favor” aos cidadãos que se encontravam nas galerias que as abandonassem, o que aconteceu com a colaboração prestimosa da PSP, deu-se ao luxo de afirmar depois da cena que havia que “reconsiderar as regras de acesso às galerias, o que foi, obviamente, motivo de aplauso dos deputados da (ainda) maioria.
Mas também se deu ao luxo cultural de citar a escritora e ensaísta Simone de Beauvoir: “não podemos permitir que os nossos carrascos nos criem maus costumes”. Isto acompanhado de um apelo aos deputados que, no entender dela, não tinham sido “eleitos para ter medo” ou serem “coagidos e não respeitados”. 
Do que se havia de lembrar a senhora?... O borburinho saiu à estacada e ela teve de vir explicar, com a devida celeridade, que quando utilizara o termo “carrascos” não ofendera ninguém, pois o fizera apenas como uma “metáfora”. E acrescentou ainda que “Carrasco significa qualquer elemento de perturbação. Sem querer ofender nada nem ninguém. Significa que quando as pessoas nos perturbam, não devemos dar atenção”. Magnífico. Se tivesse ficado muda e queda, o que habitualmente também faz, por certo que nenhuma mosca lhe teria entrado na mimosa boca.

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3 Comments:

Blogger José Batista said...

Bom, não subscrevo o apelido de "sinistro" a Marcelo Rebelo de Sousa. Sinuoso sim, às curvinhas e habilidades, pensando que vai a presidente da (leia-se desta) república (tudo com minúsculas).
E tenho reservas sobre o qualificativo de "soez" a Cavaco Silva, mesmo considerando-o uma pessoa calculista, egocêntrica, interesseira, incompetente e nada corajosa.

Mas estou de acordo com a apreciação sobre a mega-multi e precocemente reformada presidente da assembleia dos deputados dos partidos (que não dos cidadãos), mais que muitos e (grande parte deles) ao serviço de si próprios. Quando é que aqueles senhores passam a ser cidadãos comuns e a auferir em conformidade? A austeridade não chega a eles, não?
Nem à sua (deles) presidente? Digo deles, porque, pela minha parte, dispensava-a já.

O que muito lamento.

12 de julho de 2013 às 15:44  
Blogger Agostinho said...

Qualquer bom malabarista, como se tem visto, consegue trabalhar com dois: uma laranja e um limão. Se lhes for acrescentada uma rosa ficam três, número que parecendo esquinudo não é: foi a conta que Deus fez e o número do memorando - não é verdade?
Agora, o três recomenda o quatro e o cinco e a apoloni (nome que vem mesmo a calhar na arte circense e porque também conta).
Para deslumbramento da troika, Belém vai revelar-se ao jogar com seis ser um sério candidato aos óscares do circo. A oitava e a nona avaliações ficam garantidas após a demonstração pública, no Mónaco, perante princesa Stephanie que (ar)regalará as pestanas pela habilidade e charme do artista.
Como diz CARLOS MEDINA RIBEIRO "se já antes estávamos copulados, muito mais estaremos agora." E mal pagos, digo eu, apesar da música que nos têm andado a dar há um ror de tempo de ganharmos muito.

13 de julho de 2013 às 21:45  
Blogger Antonio Cristovao said...

a burocrata mor do reino, aqui tratada com pinças devia era ter vergonha e entender que nem a AR existe para lhe dar poiso e mostrar tanta impreparação deixa os eleitores pouco confiantes se for preciso fazer alguma coisa de nota.Vergonha espero que seja o seu sentimento agora ao ver a triste actuação!!

13 de julho de 2013 às 22:03  

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