2.7.14

Um amigo para a vida

Por Baptista-Bastos
Tínhamos falado, há duas semanas, do estado de saúde um do outro. Ele ironizou, como lhe era hábito, daquilo que os médicos lhe faziam no corpo. Dizia-o com a distanciação e o pudor próprios de um cavalheiro. E combinámos almoçar, "para quando o tempo estivesse mesmo quente", no nosso restaurante predilecto, o Solar dos Presuntos. Depois, a uma pergunta sobre o que eu estava a ler, Figuras de Destaque, de Fialho d' Almeida, meu autor frequente, ele confessou que terminara, havia dias, de reler as páginas imortais da morte e do enterro de D. Luís, do grande escritor. "Já ninguém o lê, a não ser os caturras como nós", riu-se, largo, e assim ficámos, entre um prosador admirado e um almoço suspenso. Então, domingo último, o Marcelo Rebelo de Sousa, no programa da TVI, deu a notícia de que o meu amigo de quarenta e tantos anos fora embora com a reserva e a discrição com as quais norteara a vida.
Este homem robusto, inteligente e culto, cujos sarcasmos derretiam a estupidez, a pesporrência e a soberba, militava no PSD sem o menor resquício de fanatismo, e procurava sempre equivalências morais no comportamento dos Governos. Desempenhara cargos de relevo em sucessivos Executivos e não se escondia ao dizer que ele e o Dr. Cavaco estavam separados por "trinta quilómetros de livros". Pagava caro as zombarias sulfúricas e as predilecções políticas e de amizade. Mas era fiel às afeições, aos gostos e, sobretudo, às exigências do seu carácter, que se não constrangia em dizer o que tinha a dizer na cara de quem o obrigasse. Mas era um senhor afável e extremamente generoso.
Conheci-o no Diário Popular, para onde Francisco Balsemão o contratara, como secretário de redacção. Um badameco tentou fazer-lhe a vida negra, mas ele, se se importava, não o dava a entender. Certo dia, porém, quando a afronta ultrapassava as marcas, gritou ao prevaricador: "Você é um biltre e é bom que o saiba." Esperou pelo outro na rua, acaso para juntar à força da razão a consistência da ira. O outro, claro, fugiu pela chamada porta do cavalo. Nessa tarde fomos beber uns e outros num bar, o Rex, frequentado por gente de vida airada.
O Luís Fontoura não era para graças e não levava desaforo para casa. Social-democrata de uma estirpe que desapareceu, ou nunca existiu, ele perturbava-se com as iniquidades e as injustiças e, nos últimos tempos, com o destino da pátria, que considerava seriamente ameaçado. "Há qualquer coisa de finitude neste ambiente que nos rodeia, e me assusta." Aí, comungávamos de idênticos receios, das mesmas aflições e perplexidades. Então, regressávamos ao convívio daqueles que tinham conferido à nossa terra a fisionomia da grandeza e da decência. "Olhe, estou a reler o..."
Luís Fontoura, um raro homem de bem, meu amigo.
«DN» de 2 Jul 14

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