9.5.17
O falecimento de Baptista-Bastos levanta-me um problema:
O que escrever acerca de alguém que fez parte deste blogue, mas com quem nunca falei pessoalmente?
Mesmo por e-mail, apenas contactámos duas vezes:
Uma para recordarmos — a propósito de uma capa de um livro que encontrei — o ilustrador José de Lemos (que ambos muito estimávamos - embora eu só o conhecesse do suplemento infantil do "Diário Popular");
e outra para lhe pedir autorização para aqui transcrever as suas crónicas do "Diário de Notícias", que eu copiava do online.
Dou então a palavra a outro "Sorumbático", o nosso Pedro Barroso:
..oOo..
"civicamente alinham-se os velhos moldados em gesso contra a curva do teu seio jovem" - Baptista Bastos.
Polémico, cripto convicto, talvez discutível nos gostos, truculento, diferente, criador de um estilo próprio e de uma violência de escrita espantosa, viva e sempre atenta sempre critica e contundente, foi, a espaços, genial.
Morreu um enorme jornalista e escritor português, perante quem tiro o meu chapéu. Enorme BB. Uma vida que valeu a pena.
Obrigado.
-
NOTA: Neste blogue há nada menos do que 357 entradas referentes a Baptista-Bastos! Para as ver, basta clicar, aqui mesmo, na "Etiqueta" BB.
8.10.14
Ponto final
Por Baptista-Bastos
Durante
sete anos, às quartas-feiras, publiquei no Diário de Notícias, a
convite expresso de João Marcelino, uma crítica de costumes e hábitos.
Foram sete anos excelentes, de trabalho entendido como tal, e de uma
estima comum que se converteu em amizade. Marcelino é um jornalista com
os princípios marcantes de outro tempo, de integridade a toda a prova e
de uma cortesia e camaradagem que se perdeu quando as palavras foram
substituídas por números, e quem dirigia foi trocado por porta-vozes
estipendiados. Como a personagem de Sartre, "je suis irrécuperable" na
certeza das minhas convicções sem certezas absolutas. Vivo, ainda hoje,
sob o fascínio das palavras e do seu poder subversivo. João Marcelino
pertencia, e pertence, a essa estirpe de jornalistas conhecedora de que
só as palavras aproximam os homens e nos ensinam da sua imperfeita
grandeza. Ele e a sua equipa fizeram de um jornal cinzento, pusilânime e
obediente um empreendimento cultural honrado e limpo. Honro-me de ter
participado no projecto a que já não pertenço por motivos a que sou
alheio.
Fui posto fora, mas não das palavras. Vou com elas,
velhas amantes, para aonde haja um jornal que as queira e admita a
indignação e a cólera como elementos de afecto, e sinais de esperança,
de coragem e de tenacidade. Nunca João Marcelino admitiu recados nem
aceitou encomendas enviesadas tendentes a amenizar o texto, portanto as
ideias, do seu colaborador. Nos tempos que correm, o que em outros
anteriores seria normal é, agora, virtude e coragem. Estou-lhe grato
pela rectidão de carácter, tantas vezes demonstrada.
Claro que
também tive o suporte de milhares de leitores. O número foi crescendo na
medida em que eles percebiam que o autor não envilecera com a idade nem
amolecera as indignações com o peso e as ameaças da época sombria. Na
edição digital do DN, as minhas crónicas chegaram a obter 15 mil
visualizações, dezenas de impressões e de envios. Admiti, tola soberba!,
que havia quem encontrasse nas palavras semanais uma ração de
esperança, um apelo à não desistência e um aceno de confiança na força
interior de cada um. Apenas relato, não lamurio. Mas não posso calar o
que me parece um acto absurdo, somente justificado pelas ascensões de
novos poderes. Porém, esses novos poderes são, eles próprios,
transitórios pela natureza das suas mediocridades e pelo oportunismo das
suas evidências.
As palavras, meus dilectos, nunca são uma
memória a fundo perdido. A pátria está um pouco exausta de tanta
vilania, mas não soçobra porque há quem não queira. Se me aceitarem,
estou entre esses. Não quero nem posso pôr um derradeiro ponto final no
texto sem o dedicar a todos os que fizeram do Diário de Notícias o
jornal que tem sido. E aos leitores que o ajudaram a ser.
«DN» de 8 Out 14 Etiquetas: BB
24.9.14
A minha pátria é uma cegada
Por Baptista-Bastos
Dois
ministros, Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato, pediram publicamente
desculpas pelas aleivosias que têm cometido. Milhões de portugueses
sofreram o que numa sociedade organizada seria entendido como crime.
Nada lhes vai acontecer além da punição "democrática" de ser votados
fora. Mas há, em toda esta farsa preparada no Conselho de Ministros,
algo de repugnante por muito pouco genuíno. As experiências que estes e
outros consideráveis têm feito, na estrutura orgânica portuguesa,
liquidando tudo o que vêem pela frente, em nome de uma "renovação" que
mais não é senão a obediência a regras obsoletas e abstrusas de
alteração política, económica, social e cultural, conduziram Portugal a
um deserto de tudo, e os portugueses à mais atroz das misérias.
Há
anos, numa declaração que deixou perplexos aqueles que ainda pensam por
si, o dr. Passos Coelho, acabado de tomar posse como primeiro-ministro,
pediu-nos desculpa em nome de quem? De José Sócrates, vejam a bizarria,
pelas malfeitorias por este praticadas! Iniciava-se, daquela forma, o
modo neossurrealista de governar, tão do gosto de Juncker e de Merkel.. O
pessoal ficou muito comovido, sem relacionar os elos ideológicos que o
texto de Passos possuía com o violento discurso de Cavaco contra
Sócrates.
O que ocorre no nosso país é de tal gravidade que
sobressalta, por exemplo, Adriano Moreira, cujas advertências constantes
deveriam merecer toda a atenção do Governo; e Mário Soares, em textos
que lembram o finis patriae e o dobre a finados a uma glória moribunda.
Enquanto
os membros do Governo se divertem com estas tropelias de garotos, no PS
o insulto fervilha, sem que da penosa balbúrdia surja uma ideia, uma,
sequer!, de redenção e de grandeza. Os "debates" havidos entre Seguro e
Costa estão pautados por uma notória procura de poder pessoal. Claro que
ninguém acredita, nem eu, que sou crédulo por vacina, que o PS vai sair
desta triste e fétida contenda um partido novo, pleno de genica, e
revolucionário de punho cerrado e erguido. O que está em causa é a
natureza de um sistema, manifestamente a desfazer-se, e que determinará,
certamente, um conflito generalizado, como, aliás, o Papa Francisco
assinalou. Tudo se encaminha para a catástrofe, e as semelhanças entre
os antecedentes da tragédia de 1939 e os acontecimentos actuais são de
molde a percebermos a magnitude do que está em jogo.
O Governo
brinca connosco, o PS e os seus paladinos parece que nos não tomam a
sério, o conceito de democracia foi substituído por aventuras
momentâneas e pérfidas, as televisões enchem-se de chalaceiros ignaros,
convertendo Portugal numa cegada brejeira mas cabisbaixa. E nós? Nós
assistimos a tudo isto de braços cruzados.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico«DN» de 24 Set 14
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17.9.14
O pântano
Por Baptista-Bastos
Circula o rumor, astutamente organizado, de que António Guterres é um bom candidato à Presidência da República. Não o é. À menor contrariedade foge espavorido, como se viu quando perdeu as eleições municipais, e refugiou-se num chamado Alto Comissariado para os... Refugiados. É sempre assim: começa com um rumor, prossegue com um grupo de "notáveis" a apoiar, segue-se um abaixo-assinado, e as coisas vão rolando, a bel-prazer do contemplado.
Circula o rumor, astutamente organizado, de que António Guterres é um bom candidato à Presidência da República. Não o é. À menor contrariedade foge espavorido, como se viu quando perdeu as eleições municipais, e refugiou-se num chamado Alto Comissariado para os... Refugiados. É sempre assim: começa com um rumor, prossegue com um grupo de "notáveis" a apoiar, segue-se um abaixo-assinado, e as coisas vão rolando, a bel-prazer do contemplado.
Contrario, abertamente, esta
estratégia, por muito ardilosa que os seus mentores a hajam congeminado.
Guterres está longe de ser o homem que o momento exige. Carece de
carácter, é um espírito flébil, pouco consistente e indeciso. Estou à
vontade: votei nele, burlado pela paixão que, então, dizia "devorá-lo": a
educação. Revelou-se habilidoso no uso do idioma, mas inútil,
manietado e medroso como primeiro-ministro. Designou o País de
"pântano", por não estar à altura das circunstâncias imprevistas. E
demonstrou ser ressentido, rancoroso e vingativo, quando saneou Vasco
Graça Moura das funções de comissário para as Comemorações dos
Descobrimentos, porque o escritor criticava, publicamente, a política do
Governo. Acontece que Graça Moura realizava um trabalho magnífico, a
justificar o prémio e o elogio e não o olho da rua e a execração. Na
altura, verberei a condenação absurda, injusta e muito pouco
democrática, e deixei de apertar a mão ao saneador, que teve o descoco
de afirmar que perdera a "confiança política" no saneado.
Conheci
António Guterres no escritório de João Soares Louro, na Cinevoz, onde
trabalhei uns meses. Ali se reuniam, periodicamente, alguns socialistas
conspirativos, enquanto eu me divertia um pouco e devagar. Guterres
usava um bigode hirsuto, pouco convincente e perlado de gotas de suor,
que limpava com pressurosa persistência. Possuía aquela forma patusca de
falar que ainda mantém, que me suscitava alguma ironia. "Ria, ria; mas
ele ainda vai ser primeiro-ministro", comentava Soares Louro. Como
revelei, acabei por votar nele, fui enganado, fiz o que tinha a fazer,
não oculto um certo desdém que por ele embalo, e não encontro nenhuma
virtude que o recomende à Presidência.
O rumor organizado que
pretende propô-lo constitui uma manobra de interesses marcada por tudo
menos pela vocação de servir o País. E o apagamento ao nome de Manuel
Carvalho da Silva, um nome que surgiu com a evidência oposta à rotina e
aos jogos tenebrosos de poder, é mais um sintoma das características
sombrias dessa moscambilha.
A questão não reside no ardil: pior do
que Cavaco é impossível. A questão é de honra, de decência - ou, se
quiserem, de patriotismo. Portugal não é um pântano, e os portugueses
não são degraus para ambições, essas, sim, pantanosas.
«DN» de 17 Set 14
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10.9.14
Portugal nebuloso
Por Baptista-Bastos
Os
equívocos e as omissões parecem ter carta-de-alforria na sociedade
portuguesa. Vive-se do aspecto, tudo aparentemente "natural", porque as
nebulosas não são esclarecidas, e os comentadores que tinham obrigação
de as clarificar não o fazem por incompetência, porque são estipendiados
ou por medo. Se é preciso coragem para ser velho, como diz a Isaura,
para ser velho em Portugal a coragem terá de ser dupla ou tripla.
Há
pouco tempo, o Dr. Cavaco afirmou que não havia motivos para os
clientes do BES terem sobressaltos. O vulcão já estava activo e, de
certeza, muita gente sabia o que se passava no subsolo. O desmoronar do
império financeiro foi, pelos vistos e ouvidos, um espanto para o Dr.
Cavaco, cuja tranquila persuasão encaminhara milhares de portugueses
para os abismos da desgraça.
Veio agora o pobre homem dizer à
puridade que ninguém, nem Governo, nem os sábios com que se rodeia, nem o
governador do Banco de Portugal, lhe chamara a atenção para o ruído
vulcânico já pressentido. A inépcia do Dr. Cavaco, que, em certa
ocasião, declarou não perder tempo a ler jornais, e raramente se
enganava, tem, como testemunho histórico, a farsa em que vive e nos
obriga a viver.
A sua ignorância, neste gravíssimo caso, e o
silêncio ou as frases dúbias com que a ele se refere é mais um triste e
nefasto episódio da tragédia portuguesa. Um Presidente deste género, um
Governo tal assim, uma comunicação social que se perdeu em devaneios
líricos, e que converteu em fazedores de opinião umas criaturas que não
estão ali para explicar (como dizia o Chacrinha no Brasil) mas para
complicar, deviam ser apontados à execração e alvitrados como
delinquentes de lesa-pátria.
O País está de pantanas, já se fala
abertamente no abandono do euro, e que o euro (com provas provadas) só
beneficiou a Alemanha, e há por aí um ou dois grupos de lúgubres
humoristas que gozam connosco tocados de leviana impunidade. Ridendo castigat mores
(A rir castigamos os costumes) transformou-se numa cegada improvável e
numa galhofa desprovida de sentido. Não é dilucidada a raiz oculta dos
acontecimentos que nos afectam; as privatizações obedecem a critérios
brumosos; surgem rios de dinheiro, de procedência calada para aquisição
de empresas; poderosos escritórios de advogados envolvem-se nestes e em
outros negócios - e nós somos colocados perante factos consumados, como
rebanhos resignados e sem voto na matéria. A democracia de troca de
favores funciona, e um pequeno grupo enche os bolsos de dinheiro, com a
aquiescência de quem, na imprensa e nas televisões, capitula na missão
de informar, explicar e combater. O País precisa, urgentemente, de uma
barrela que expurgue as nódoas que o tornaram este amontoado de negócios
sórdidos.
«DN» de 10 Set 14 Etiquetas: BB
3.9.14
A mistificação democrática
Por Baptista-Bastos
Um
dos grandes projectos da República foi a instrução. Uma das prioridades
deste Governo é a destruição da escola e a liquidação do ensino,
através de todos os meios. Os professores são enxovalhados, e seis mil
dentre eles não encontram ocupação. Fecham escolas sob a inacreditável
afirmação de que os alunos são escassos, e há miúdos que são obrigados a
percorrer dezenas e dezenas de quilómetros a fim de receber as
primeiras letras. Tribunais fecham, e os técnicos afirmam que o facto
acentua a desertificação do País e a sua decadência social e moral.
Estas, as terríveis notícias das últimas horas, aplicadas a um povo que
parece ter-se despojado das mais elementares noções de integridade.
João
de Barros (1496-1570), o das Décadas, o linguista que escreveu a
primeira Gramática da Língua Portuguesa, o sábio que morreu na miséria,
como o seu contemporâneo Luís de Camões [1524(?)-1580], perseguido pela
inveja e pela ignorância, escreveu um desabafo que define Portugal e as
suas misérias: «País padrasto, Pátria madrasta.» A nossa história está
repleta destas misérias sociais, políticas e éticas. Sophia, sobre
Camões: «Vais ao Paço/pedir a tença/ e pedem-te paciência.» Quem manda
odeia quem pensa, desdenha de quem cria, acossa o talento e rechina do
génio.
O que está a acontecer, na nossa pobre terra, é a
repetição das deformidades que nos têm marcado, desde a nascença. Agora,
porém, o travo é muito mais amargo porque perpetrado com estudada
ciência, e outrora apenas aplicado pela intuição, embora malevolamente.
Os do mando financeiro desmoronam-se, na aparência, porém continuam a
dar instruções, através de porta-vozes dissimulados. Só não vê quem não
quer saber, só não escreve (nos jornais) quem tem a palavra sequestrada
pelo estipêndio. O "sistema" garante a liberdade ao prevaricador, desde
que este possua três milhões de euros.
Continuamos sem perceber o
que é um banco "bom" e um banco "mau", como permanecemos sem
conhecimento de onde provêm os milhões de milhões que vão colmatar os
buracos do BES.
Sei muito bem que a democracia é um negócio entre
poderes que fingem digladiar-se, e os enganos em que vivemos fazem parte
destes jogos indecentes admitidos por todos aqueles que se sentam à
mesa do Orçamento, ou por quem os admite com negligência culposa. A
democracia é, acaso, o melhor dos regimes porque assim têm querido que
pensemos. Um livro que, ocasionalmente, tenho citado, Pourquoi nous
n"aimons pas la démocracia, de Myriam Révault d"Allonnes, é capaz de
explicar a natureza do regime e as constantes das nossas decepções.
Afinal, estamos a atribuir responsabilidades do caos - a quem?, e a
quê? A Europa "democrática" é-o, de facto, ou trata-se de outro embuste e
de outra mistificação?
«DN» de 3 Set 14 Etiquetas: BB
27.8.14
Os homens de palha
Por Baptista-Bastos
O
primeiro-ministro disse não haver aumento de impostos. O coro de vozes
foi unânime: nenhuma nele acredita. Passos Coelho chegou, de facto, ao
grau zero da credibilidade, e já não se trata de fé: o homem, sobre ser o
primeiro-ministro mais detestado da II República (esta, porque no
período de Salazar o conceito republicano e os seus valores foram
brutalmente espezinhados), é, de certeza, o que tem com a verdade uma
relação totalmente conflituosa.
Os subterfúgios de linguagem, a
que Passos nos habituou, com desenvolto desaforo, fê-lo acrescentar, ao
discurso do apaziguamento, este acrescento decisivo: não haverá aumentos
durante este ano; ora, o ano está a findar, e significa que, durante
três meses, os portugueses podem estar descansados. Estávamos neste
interregno de placidez eis senão quando a notícia do sobressalto agitou
as nossas almas: o buraco orçamental aumentou perturbador e trágico.
Às
doenças económicas, que apoquentam quem mora no purgatório português,
adicione-se as da alma e do recto viver, que transformaram padrões de
comportamento e as éticas das relações numa cultura do inumano. Vivemos,
a maioria da população, num sobressalto ininterrupto, sempre à espera
do pior, e todos os dias a comunicação social polvilha-nos com o medo de
existir. A política desapareceu do vocabulário desta gente que nos
governa há três anos. Passos Coelho e os seus administram Portugal como
se Portugal fosse uma loja de secos e molhados. O desrespeito pelo outro
tornou-se prática comum. O número de assessores, adjuntos, motoristas,
guarda-costas, secretários e secretárias acumulado nos vários gabinetes
custa uma fortuna inútil ao erário, por desnecessários. Possuo a lista,
que alguém me enviou pela internet. É um caso de polícia.
Vivemos
no preconceito do número, e o «economês» substituiu-se à análise
política dos factos. O idioma críptico utilizado pelos preopinantes que
infestam jornais, rádios e televisões chega a atingir as fronteiras do
absurdo. Jornalismo, propriamente dito, a reportagem, a crónica, a
notícia, o artigo que esclarece, desenvolve o raciocínio e explica a
natureza dos acontecimentos, foram engolidos por uma massa caótica de
palavras, as mais das vezes sem direcção nem sentido.
Os homens de
palha invadiram a nossa sociedade. O exemplo dos «políticos»
frutificou. O Financial Times tornou-se um episódio tão caricato que até
serve como símbolo de um indivíduo que surge num comboio a ler o jornal
colorido, ao lado de quem um curioso estica o pescoço para saber das
últimas notícias... de economia! O pior é que ninguém, ou poucos, nada
diz da calamidade cultural e ética que nos envolve.
Os homens de palha. Não esqueçam de que existem, e andam por aí.
«DN» de 27 Ago 14 Etiquetas: BB
20.8.14
Emídio Rangel
Por Baptista-Bastos
Nenhuma morte é natural, escreveu Jorge de Sena. E a menos natural de todas as mortes é a morte de Emídio Rangel, acrescento eu. Esta força incomum de renovar constantemente a criatividade; esta capacidade de impulsionar os estímulos e de ultrapassar dificuldades imprevistas possuía-as o Rangel em dimensões desconhecidas noutros homens. O Marcelo fez uma comparação absurda entre o extraordinário jornalista e o primeiro director do Público. Rangel partiu praticamente do nada para criar a TSF e a SIC. O outro refez, apoiado em muito dinheiro, uma ideia de diário com argumentos de semanário, já aplicada, há muitíssimos anos, por Miguel Urbano Rodrigues no Diário Ilustrado. Um criou e multiplicou a criação; o outro repetiu, dificultosa e confusamente, um projecto ainda hoje tropeçante.
Havia, no Emídio Rangel, o sopro dos grandes espaços e das grandes urgências. Os seus únicos preconceitos eram contra a estupidez, a soberba e a traição. Provinha, também, de uma convicção ideológica profunda, que o levara a apoiar, com intensidade militante, a candidatura de Maria de Lourdes Pintasilgo à Presidência da República. «Mostra-me o teu talento; não me mostres o cartão do partido.» A frase de Brecht é-lhe facilmente aplicável. E podem crer que sei muito bem do que falo.
Mas a sua grandeza não se limitava a esta marca de carácter. Somos módicos, por invejas, despeitos e rancores, a elogiar o engenho, a arte e a vocação. O homem de quem falo possuía essas e outras virtudes em alto calibre. E conheci, nos jornais e noutros ramos da comunicação, muita gente que rechinava os dentes ao saber das grandes inovações, do poder incalculável do seu génio.
O meu débito de admiração segue a par da estima e do reconhecimento. Convidou-me a participar num programa da TSF, Crónicas de Escárnio e Maldizer; e, para a SIC, a protagonizar um programa, Conversas Secretas, previsto para três meses, e que se prolongou por quase três anos. Qualquer dos convites foi feito em épocas de aperto para mim. Digamos tudo. Os senhores da imprensa não me davam trabalho em razão das minhas escolhas políticas. Um deles, então, afirmou ter suspeitas de que eu era simpatizante da Revolução Cubana, para ele insuportável. Era e continuo a sê-lo. Esse que tal quase rastejou, posteriormente, para ser deputado do PS, a fim de dar um jeito à vidinha.
O meu débito de admiração segue a par da estima e do reconhecimento. Convidou-me a participar num programa da TSF, Crónicas de Escárnio e Maldizer; e, para a SIC, a protagonizar um programa, Conversas Secretas, previsto para três meses, e que se prolongou por quase três anos. Qualquer dos convites foi feito em épocas de aperto para mim. Digamos tudo. Os senhores da imprensa não me davam trabalho em razão das minhas escolhas políticas. Um deles, então, afirmou ter suspeitas de que eu era simpatizante da Revolução Cubana, para ele insuportável. Era e continuo a sê-lo. Esse que tal quase rastejou, posteriormente, para ser deputado do PS, a fim de dar um jeito à vidinha.
Da minha época na SIC recordo, com emoção, a fraterna ternura demonstrada por Manuel Tomás, Fátima Silva, muitos mais outros e outras, que ajudaram o jornalista inexperiente em televisão a fazer do programa o êxito que o programa obteve. Quando o Rangel foi para a RTP voltou a falar-me, a fim de o acompanhar num outro propósito. Depois, foi o que foi. Ultimamente tenho perdido muitos amigos. Emídio Rangel. Adeus.
«DN» de 20 Ago 14Etiquetas: BB
13.8.14
O fim da ética social
Por Baptista-Bastos
Todos os indícios no-lo dizem que vamos pagar, de viés ou a direito, o buraco de 5 mil milhões legado pelo BES. O dr. Salgado pagou, de presto, os 3 milhões de euros, caução para não ser engavetado; goza as delícias do verão na sumptuosa villa de Cascais; dizem as notícias que possui 200 milhões de dólares criteriosamente divididos em bancos do Oriente; e que vai envelhecer embalando doces memórias, enquanto os seus advogados delegam para as calendas o que a justiça tardará em dizer.
O parágrafo vai longo, mas como estas minudências dos tribunais, em Portugal, são tardas e longas, a justificação está feita. O primeiro--ministro, entretanto, com voz de tenor fanado, insiste em dizer-nos que não esportularemos um cêntimo pelos desmandos dos "privados". Bom: a impostura não tem pernas para correr. Os cerca de dois mil funcionários ameaçados de despedimento certo; as centenas ou milhares de investidores que vão ficar sem o dinheiro aplicado; a mistificação ultrajante entre o "banco mau" e o "banco bom", que ninguém sabe rigorosamente o que é, nem, sequer, o inteligentíssimo especialista da SIC, sr. Gomes Ferreira - tudo isto, e o mais que se desconhece, terá de ser pago por alguém, e todos sabemos por quem.
As "análises" consagradas à questão são puros exercícios de balbúrdia, que baralham as pessoas. Apenas Nicolau Santos e Pedro Santos Guerreiro não fazem do parlapié uma conduta de espalha-brasas sobre a natureza do problema. O resto é a triste decepção permanente. Onde está o dinheiro, a "pipa de massa", para usar a expressão chula do pacóvio Barroso?
Apesar dos avisos cautelares dos responsáveis pelo descalabro, muitos milhares de portugueses apressaram-se a transferir as suas parcas economias para a CGD. O que fornece a dimensão de credibilidade e de respeito que nutrimos pela casta que trepou aos vários poderes.
Estamos num momento crucial: é preciso ir mais além do que se ouve dos políticos e do que secos e do que se lê nos jornais: insanidades e mistificações. O sentido e a prática da democracia não se esgotam nas formas jurídico-políticas, criadas e estruturadas por um "sistema", o capitalista, bem entendido, cujo significado está cada vez mais vazio, e mais perigoso pela sua vacuidade e objectivos. Já aqui o disse: o Ricardo Salgado não é a causa, é o efeito - deletério e inquietante. Nem por isso deixam de merecer punição adequada, ele e os comparsas desta monstruosa delinquência. Comprou, por três milhões, a prestação para não ser preso. É uma imoralidade absoluta, permitida, aliás, por uma "justiça" criada pelo "sistema" que liquida os seres éticos e as regras de decência previstas pela democracia. Se estes são destruídos - que nos resta?
"DN" de 13 Ago 14Etiquetas: BB
6.8.14
A hidra
Por Baptista-Bastos
Um espectro percorre Portugal: é o espectro da pobreza, da miséria moral, da fraude, da mentira, do embuste, da indecência, da ladroagem, da velhacaria. Este indecoro do BES foi o destapar do fétido tacho da pouca-vergonha. Os valores mais rudimentares das relações humanas pulverizaram-se. Já antes haviam sido atingidos por decepções constantes daqueles que ainda acreditavam na integridade de quem dirige, decide, organiza. Agora, o surto alcançou a fase mais sórdida. Creio que, depois de se conhecer toda a extensão desta burla, algo terá de acontecer. Com outra gente, com outros padrões, não com estes que se substituem, num jogo de paciências cujo resultado é sempre o mesmo. Mas esta afirmação pertence aos domínios da fé, não aos territórios das certezas.
O Dr. Carlos Costa revelou ter avisado a família Espírito Santo de que ia ser removida. Na TVI, Marques Mendes, vinte e quatro horas antes, anunciara o cambalacho. Já destituído, Ricardo Salgado e os seus estabeleceram três negócios ruinosos para o banco, abrindo o buraco da vigarice para quase cinco mil milhões de euros. Quem são os outros cúmplices, e quais as razões explicativas de não estarem na cadeia?
Enquanto o País mergulha num atoleiro, o Dr. Passos nada o crawl, com esfuziante aprazimento, nas doces águas algarvias. Há dias, afirmou que os contribuintes não serão onerados com as aldrabices dos outros. Mas já foi criado um chamado Fundo de Resolução, com dinheiro procedente, de viés, do nosso próprio dinheiro, embuçado na prestação de um grupo de bancos. Quanto ao extraordinário Dr. Cavaco, o reconhecimento generalizado da sua inutilidade como medianeiro de conflitos, e conivente com o que de mais detestável existe na sociedade portuguesa, converteu-se num lugar-comum.
Foi o "sistema" que criou esta ordem de valores espúrios. Este poder dissolvente fez nascer, por todo o lado, a ideia do facilitismo, oposta às regras da convivência que estruturaram os princípios da nossa civilização, dando-lhe um sentido humano. Tudo é permitido, e esta noção brutal, inculcada por "ideólogos" estipendiados ou fanatizados concebeu as suas próprias regras. A impunidade nasce do "sistema", e Salgado é o resultado, não a causa, o resultado de um aproveitamento imoral estimulado pelas fórmulas dessa ordem de valores. Surpreendemo-nos com o comportamento de quem assim foi educado, porém temos de estudar e de analisar aquilo que os explica.
O "sistema", em cuja origem está a raiz do mal, não carece de "regulação", exactamente porque a "regulação" nada resolve e apenas prolonga a crise sobre a crise. O capitalismo sabe e consegue simular a sua própria regeneração. Mas é uma hidra que se apoia em referências na aparência inexpugnáveis, realmente falaciosas. Enfim: o nosso dinheiro está à guarda de ladrões.
«DN» de 6 Ago 14Etiquetas: BB
30.7.14
O miúdo sem pernas
Por Baptista-Bastos
O
miúdo está a olhar para mim, sem espanto, sem medo, como se o facto de
não ter pernas lhe fosse indiferente. A dor e o sofrimento
desapareceram-lhe da expressão. Mas os olhos, esses, mantêm uma
profundidade atenta, que não recrimina. Olha-me, simplesmente, sem nada
esperar de mim: olha-me. Só se lhe vê os olhos e parte do rosto. O que
sobra são ligaduras e tubos. Olha-me, e no olhar fixo, mas cheio de
entendimento, não há susto, nem assombro, nem mesmo espera. Não tenho a
certeza (já não tenho certezas de coisa alguma) mas parece-me que
sorriu. Está no corredor do hospital, o hospital e o corredor estão
repletos de macas e de estranhos objectos rolantes, os gritos e a
gritaria ouvem-se à distância. Menos o miúdo que me olha, sereno, nem um
gesto, nem o mais módico movimento. Olha-me. Apenas me olha.
Passam
mulheres embiocadas, passam homens derreados, passam velhos e velhas.
Todos com as fisionomias desfiguradas de amargura, se assim posso
designar a maior dor do mundo. Não gritam, mas quando gritam desejam que
os seus gritos cheguem ao céu da revolta.
O miúdo dobrou
ligeiramente os olhos para me observar, para que eu o não esqueça. O
miúdo sem pernas. Passa, agora, um rapaz acelerado, empurrando um
estirador, feito maca, com duas raparigas, os trapos que as cobrem
cheios de sangue. Uma delas não dá sinais de vida, e um braço
descaiu-lhe da superfície onde vai. «Médico! Médico!», não grita:
implora, e alguém lhe acode. «Já não temos antibióticos. Não temos quase
nada», diz, e ajuda o rapaz a empurrar o estirador.
O miúdo sem
pernas move os olhos e tenta reter tudo. De súbito, cai-me em cima a
responsabilidade criminosa de só poder fazer o que sei fazer, isto, e é
tão pouco ante a imensidão desta miséria afrontosa. Sinto-me humilhado
por ser sobrevivente, é isso, e por ausência de um protesto
generalizado. Não pode haver «contraditório», nem a procura do
equilíbrio mentiroso da «distanciação» não aqui, neste crisol do
inferno, nem em qualquer outro lugar onde a natureza da barbárie escapou
a todo o respeito humano e a todo o padrão moral.
Porque será que
este miúdo sem pernas e, aparentemente, sem censuras nem acusações, me
olha, ou me procura com o olhar; porque será? Vejo os escombros, prédios
e ruas em ruínas, gente esgaravatando nos destroços à procura sem muito
bem saber de quê; à procura de restos, de sobras, do mais exíguo sinal
de esperança, num trapo, numa boneca, numa cadeira desventrada; talvez
num pedaço de carta: talvez.
Agora, outro homem. Joga as mãos à
cabeça e olha em redor, no que foi a sua casa. «Venho do trabalho e
vinha para aqui todos os dias. Que fiz para merecer isto?» E o miúdo sem
pernas, crucificado em tantas lágrimas, olha-me apenas. Aqui não há
misericórdia nem compaixão nem remorso.
«DN» de 30 Jul 14 Etiquetas: BB
23.7.14
A sinistra relação das coisas
Por Baptista-Bastos
As coisas parecem indicar que, no próximo dia 23, a CPLP (Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa), na cimeira de Timor, vai ter o seu
requiem. Cabisbaixos e servis, os governos dos países que constituíam
aquela vasta sociedade abandonaram os princípios, as normas e os valores
morais dos fundadores e cederam aos grandes interesses dos negócios. As
manobras de bastidores estavam, há anos, em movimento, e o que era uma
ideia límpida e um conceito nítido de colaboração entre países de fala
igual foi tripudiada friamente. A entrada da Guiné Equatorial, antiga
colónia espanhola, cujos costumes, cultura, ideologia, política e
comportamento são contrários, e até opostos, aos da comunidade, não é só
absurda: possui as características de uma usurpação. Nem o facto de
quem manda no país ser antidemocrático, ou ademocrático, como queiram,
impediu o resto da comunidade de se opor ou sequer recalcitrar.
O
capitalismo desconhece a história, as características, os padrões
específicos das nações, nem isso está nos seus objectivos, mas tem de
existir um contrapoder que permita a existência, simultânea, da
soberania e do desenvolvimento económico, cultural e social. O que está
em causa, com a inserção da Guiné Equatorial na CPLP é a imposição do
axioma neoliberal, e dos abusos mais sintomáticos de uma violência sem
paralelo nos nossos dias.
É lamentável que os países instituidores
da comunidade não se tenham oposto a este enredo, que nada tem que ver
com princípios de solidariedade e muito menos com relações de língua. De
um modo mais simples, digamos que o capitalismo também neste caso sai
vencedor, pela rendição, pela subserviência e pela nova categoria de
negligência dos governos. Tem-se visto, um pouco por todo o mundo, a que
conduz esta indiferença gelada, e às ameaças reais que pesam em todos.
Parafraseando Sophia, nós sabemos, temos informações, assistimos ao
caos, e não queremos assumir as responsabilidades de uma decisão.
Os
tentáculos da ganância, a ausência de um ideal progressista que se lhe
obste, continuam a desembocar em múltiplas incertezas. O espectro da
guerra paira como endemia. A selvajaria dos conflitos locais só o é
porque descuidamos da natureza do que oculta. O abatimento do avião da
Malaysia Airlines não é, somente, uma ignomínia pavorosa: indica que o
mundo actual não conhece limites, e está associado à assunção de um novo
paradigma, que temos de combater com energia, porque a nossa
sobrevivência ética está em questão. Como se lê n' Os Irmãos Karamazov,
de Dostoievki, "se Deus não existe, tudo é permitido". Deus como acto
moral, Deus como espessura e dignidade humanas. Não é abusivo
estabelecer relações entre as coisas: todas elas estão ligadas e
obedecem a leis muito próprias.
«DN» de 23 Jul14 Etiquetas: BB
16.7.14
Que fazer com Portugal?
Por Baptista-Bastos
A
experiência e os indicadores demonstram que o conceito de democracia,
tal como o sonhámos ou concebemos, foi substituído por outro paradigma. O
"cansaço democrático" tem muito que ver com uma ideia de passadismo,
com a perda do "objecto estimado" trocado pela pressa da ganância e pela
ascensão precipitada e com escassos princípios de uma geração "da
insignificância." A crise europeia dos partidos teria, inevitavelmente,
de se reflectir, pelos motivos apontados, em Portugal e nas organizações
políticas tradicionais.
O PS está cindido porque a própria
natureza das suas estruturas, a ausência de uma ideologia "de esquerda",
e o abandono das velhas bandeiras por dirigentes pouco ou nada
interessados em combater o "sistema", conduziram a um estado
cataléptico. O pobre António José Seguro tem dado uma ajuda a esta
insalubridade, mas ele não é causa, é resultado, e manifesta módica
fibra em alterar o que está. António Costa provém de outra leva, e a
apreensão que provoca, na direita e adjacências, surge como uma espécie
de pecado capital. O susto que tem causado é semelhante àquele que o
PREC ateou nos esquemas tradicionais de poder. O que não é despiciendo,
tendo em conta o amorfismo em que vivemos. Mas, tenham calma, as águas
voltarão a estar quedas. Os sinais são esses.
O PSD,
historicamente um aterrador saco de lacraus, está mais dividido do que
aparenta. E a Dr.ª Manuela Ferreira Leite faz-nos, pontualmente, o
diagnóstico da situação, e esclarece-nos, sem rebuço nem dubiedade,
estarmos a ser governados por um bando de mentirosos e de ineptos sem
perdão. Haja Deus e haja Freud!
O Bloco de Esquerda, agrupamento
simpático mas fervorosamente desorientado, vai-se desfazendo aos
poucochinhos. A "linha" Miguel Portas, que ninguém em seu perfeito juízo
sabe rigorosamente o que seja, ganhou outra aliada, com a dissidência
de Ana Drago do interessante agrupamento. Sequer se vislumbra ou se
adivinha o que virá a seguir, mas a prever pelas declarações de Drago,
veemente e severa, ou o Bloco se coliga com o PS, ou não será. Induz-se
que a direcção bicéfala pretende aliar-se, isso sim, ao PCP, e as
reuniões havidas entre dirigentes de ambos os partidos caucionam as
apreensões dos representantes da "linha" Portas.
Está tudo a
desconchavar-se, e as referências que tinham alimentado os sonhos, os
combates e as esperanças de gerações e gerações foram varridas pela
ausência de responsabilização dos "tempos novos". Estes, propagandeados
como bonançosos, depois dos "ajustamentos", oferecem o vazio e a
indiferença como sinónimos de tranquilidade. E não assinalam a razão
fundamental do arquétipo: a perda das lógicas democráticas. É a uma nova
tragédia o que estamos a assistir.
«DN» de 16 Jul 14 Etiquetas: BB
2.7.14
Um amigo para a vida
Por Baptista-Bastos
Tínhamos
falado, há duas semanas, do estado de saúde um do outro. Ele ironizou,
como lhe era hábito, daquilo que os médicos lhe faziam no corpo. Dizia-o
com a distanciação e o pudor próprios de um cavalheiro. E combinámos
almoçar, "para quando o tempo estivesse mesmo quente", no nosso
restaurante predilecto, o Solar dos Presuntos. Depois, a uma pergunta
sobre o que eu estava a ler, Figuras de Destaque, de Fialho d' Almeida,
meu autor frequente, ele confessou que terminara, havia dias, de reler
as páginas imortais da morte e do enterro de D. Luís, do grande
escritor. "Já ninguém o lê, a não ser os caturras como nós", riu-se,
largo, e assim ficámos, entre um prosador admirado e um almoço suspenso.
Então, domingo último, o Marcelo Rebelo de Sousa, no programa da TVI,
deu a notícia de que o meu amigo de quarenta e tantos anos fora embora
com a reserva e a discrição com as quais norteara a vida.
Este
homem robusto, inteligente e culto, cujos sarcasmos derretiam a
estupidez, a pesporrência e a soberba, militava no PSD sem o menor
resquício de fanatismo, e procurava sempre equivalências morais no
comportamento dos Governos. Desempenhara cargos de relevo em sucessivos
Executivos e não se escondia ao dizer que ele e o Dr. Cavaco estavam
separados por "trinta quilómetros de livros". Pagava caro as zombarias
sulfúricas e as predilecções políticas e de amizade. Mas era fiel às
afeições, aos gostos e, sobretudo, às exigências do seu carácter, que se
não constrangia em dizer o que tinha a dizer na cara de quem o
obrigasse. Mas era um senhor afável e extremamente generoso.
Conheci-o
no Diário Popular, para onde Francisco Balsemão o contratara, como
secretário de redacção. Um badameco tentou fazer-lhe a vida negra, mas
ele, se se importava, não o dava a entender. Certo dia, porém, quando a
afronta ultrapassava as marcas, gritou ao prevaricador: "Você é um
biltre e é bom que o saiba." Esperou pelo outro na rua, acaso para
juntar à força da razão a consistência da ira. O outro, claro, fugiu
pela chamada porta do cavalo. Nessa tarde fomos beber uns e outros num
bar, o Rex, frequentado por gente de vida airada.
O Luís Fontoura
não era para graças e não levava desaforo para casa. Social-democrata
de uma estirpe que desapareceu, ou nunca existiu, ele perturbava-se com
as iniquidades e as injustiças e, nos últimos tempos, com o destino da
pátria, que considerava seriamente ameaçado. "Há qualquer coisa de
finitude neste ambiente que nos rodeia, e me assusta." Aí, comungávamos
de idênticos receios, das mesmas aflições e perplexidades. Então,
regressávamos ao convívio daqueles que tinham conferido à nossa terra a
fisionomia da grandeza e da decência. "Olhe, estou a reler o..."
Luís Fontoura, um raro homem de bem, meu amigo.
«DN» de 2 Jul 14 Etiquetas: BB
25.6.14
A contenda no PS
Por Baptista-Bastos
A
briga no PS pode ser críptica se confundirmos o seu significado. Que
querem, um e outro, António Costa e António José Seguro? A briga é,
apenas, mera e indecorosa questão do poder pelo poder ou, antes, um
problema ideológico? Seguro fez um trajecto cauteloso e astuto no PS.
Calou-se e colocou-se de atalaia, sem nunca manifestar opinião sobre os
desenvolvimentos da política de José Sócrates. E saltou para a arena
quando Sócrates foi cercado. Como têm dito dirigentes do PSD e
comentadores de direita, como o Marcelo ou o Marques Mendes, ele é
proveitoso às políticas de Passos Coelho. Os próprios resultados das
eleições para a Europa provaram que o português médio fora prudente na
decisão. A verdade é que António Costa, goste-se ou não do estilo e da
oportunidade, provém de outro forno e traz consigo outra marca. As
afirmações que tem produzido induzem-nos a pensar, acaso
precipitadamente, estar disposto a reformular a estratégia "socialista"
firmada por Seguro, e a estabelecer acordos e compromissos à esquerda.
Não
acompanho a comoção dos que viram na simbologia do punho esquerdo
cerrado e da reintrodução dos vocábulos "socialismo" e "classe operária"
o regresso à pureza inicial do léxico "revolucionário". O PS é o que é e
o que sempre foi. Precisa é de mais vergonha na cara e de escrúpulo e
pudor no comportamento, ele, que se associou, durante anos seguidos, à
direita no seu pior e mais execrável. Acontece um porém: na aparência,
António Costa demonstra uma conduta ideológica que define um estilo e
assinala uma diferença. Mas a política é uma comédia de enganos e já vi
muito para ir atrás do banjo de qualquer suserano. Aguardo para conhecer
as cartas.
Convenhamos, porém, que Seguro, cuja trajectória tenho
seguido, por vezes com caretas de apreensão, não dispõe do estofo de
estadista e carece daquela ética republicana que faz de um homem vulgar
um cidadão inabalável. É um almofadinha, como já alguém disse e
escreveu. Há anos, desenvolto moço, azougado, mas já grave, declarou,
numa entrevista ao Expresso, que estava muito cansado da política
autóctone mas amplamente disponível para se deslocar para o Parlamento
Europeu. E foi (1999-2001).
O que tem dito e feito parece-me
seguir essa linha prudente que embala um destino sem grandeza e sem
brilho, mas acautela um futuro tranquilo. Nunca poderia transformar o PS
noutra coisa senão aquilo que o PS é e tem sido. A incógnita consiste
em saber-se o que quer António Costa. Claro que a manifestação
"espontânea" de Ermesinde, onde o insulto e o ultraje fizeram morada,
não apazigua o conflito no PS. Pelo contrário. As feridas que se abriram
ou reabriram são infectocontagiosas. Como afirmou o Marcelo, esta
disputa é "música celestial" para o PSD.
«DN» de 25 Jun 14 Etiquetas: BB
19.6.14
As três sílabas do nosso remorso
Por Baptista-Bastos
Vivemos de felicidades pequeninas, e inventamos esses instantes com a intuição secreta de que são precários e fugazes. Pouco temos a que nos pegar. Os amigos ou aqueles que estimamos vão-se embora, para outros sítios ou para sempre, encerrando o anel que parecia ligar-nos. Agarramo-nos, com o desespero de quem nada tem a perder e nada tem a ganhar, ao gosto de uma palavra, a um sonho ou, até, a um jogo de futebol, criando a ilusão de que somos felizes. Mas é sempre uma felicidade pequenina, e nós sabemo-lo com a noção dessa fatalidade irrevogável. Fomos alguma vez grandes? Inculcam-nos a ideia de que sim. Mas grandes para quem? Fomos nas caravelas, criámos um leito de nações deitando-nos com tudo o que era mulher. Talvez a nossa grandeza resida aí: no gosto e no apreço pela mulher.
Tudo o que trouxemos e roubámos foi para os outros. É sempre assim. Jorge Brum do Canto, aquele realizador de cinema de que já ninguém fala, sequer levemente, disse-me, um dia, no Botequim da Natália, que somos o mesquinho na mesquinhez: pequeninos e queremos e gostamos de o ser. Precisamos de ídolos, ídolos?, que completem a nossa incompletude. Agora, neste mesmo instante, é o Cristiano Ronaldo, que se passeia num Lamborghini para satisfazer a nossa inveja. Ele é a nossa vingança momentânea, também ela momentânea e precária, enchemos as praças públicas, transferindo para ele as nossas frustrações e as nossas derrotas. Perdemos. Levámos uma cabazada, e o inchaço da pequenina esperança, tudo pequeno sempre muito pequeno, esvaziou-se como um balão. Lá vamos, cantando e rindo, diz o hino mentiroso. Lá vamos.
Depois, esquecemos tudo. Até a miséria esfarrapada do nosso esfarrapado viver. Protestamos sem ira nem cólera. Protestamos com estribilhos e dizeres em cartazes, e vamos à vida que se faz tarde. Somos o Mundial! Gritam as televisões, todas as televisões, durante todo o dia, e enviados especiais embevecidos, comentadores severos, especialistas engravatados e graves ensinam-nos as razões por que perdemos. Lá vamos, cantando e rindo. Dizia o O' Neill: "Às duas por três nascemos/ às duas por três morremos/ e a vida?, não a vivemos." O O' Neill é como o Pessoa: serve para explicar o aparentemente inexplicável. Lemos os jornais, os que lêem, claro!, e o fastio é tanto que só sabemos de futebol: decoramos os nomes, os lances e as jogadas, nada de mais nada. Somos assustadoramente ignorantes, iletrados contundentes, fecham-se escolas, reduz-se o dinheiro para o ensino, os miúdos vão para as aulas em jejum, e temos, temos é como quem diz..., três jornais diários consagrados ao futebol, fora o que escorre, uma multidão de programas de, sobre e com futebol e adjacências; o mesquinho na mesquinhez elevado ao quadrado.
"Se fosses só três sílabas, Portugal..."
"DN" de 18 Jun 14
Etiquetas: BB
11.6.14
A quem estamos entregues
Por Baptista-Bastos
Tudo
parece indicar que António Costa caminha para dirigir o PS. E Seguro?,
perguntei, arfante de curiosidade, a um dirigente daquele partido, que
apoiara, com entusiasmo, o actual secretário-geral. Não tem carisma,
respondeu. Só agora é que não tem? Acentuou-se essa falta. Este diálogo,
pouco razoável, tome-se como reflexo daquela agremiação. As coisas,
ali, sempre funcionaram como num jogo de intrigas, porque o poder atrai
sempre as moscas. Lembremo-nos do sótão de Guterres, só para não
esquecer a guerrilha contra Mário Soares. Quanto a Seguro, o equilíbrio
manso durante o consulado de Sócrates define um carácter e desenha a
exiguidade do homem. Em política, a lealdade e a gratidão não possuem
lugar cativo. Porém, estas deformidades não são apanágio único do PS:
veja-se o que ocorre no PSD. Desde os conflitos no tempo de Sá Carneiro,
até às convulsões de Passos, com expulsões e marginalizações
despudoradas, a rectidão de processos não tem sido, no sítio, muito
recomendável.
Mas estas turbulências podem, acaso, ajudar a
definições mais claras. Passos, já toda a gente sabe quem é e ao que
veio. Meteu-se numa embrulhada, para a qual não estava minimamente
preparado, nem cultural nem ideologicamente, presumindo, com leviandade
de menino, que bastava mexer nas estruturas sociais e conflituar com as
instituições (caso dos sindicados e do Tribunal Constitucional, por
exemplo) para alisar os obstáculos. É o que se viu. Colocou a sociedade
portuguesa num paiol de desespero, e enriqueceu ainda mais os ricos,
desprezando os pobres e o mundo do trabalho.
Seguro, quanto a ele,
suprimiu as palavras "trabalhadores" e "operários" do léxico comum a um
partido daquela natureza, enfiou no bolso o punho esquerdo e fertilizou
com amena satisfação o apego ao "mundo empresarial", sem rebuço e num
compromisso abjecto. Teve como parceiro o Eng.º Proença, sempre pronto a
pactos unilaterais. A redução do PS a uma espécie de estado cataléptico
provocou o entusiasmo claro e jubiloso dos dirigentes do PSD, que nunca
viram em Seguro um estorvo de maior, nem na baixa retórica ou na
gramática débil e repetitiva. É um sujeito menor, sem visão do mundo e
sem capacidade de estudo para o compreender.
António Costa
deixou-se fotografar com o punho cerrado, é certo, mas pouco ou nada se
sabe do seu projecto político. E, se calhar, ainda é cedo para dele
tomarmos conhecimento. Todavia, a ter em conta as intenções gerais, é
ele o favorito dos portugueses para liderar o PS. E é ele o que se
entende como capaz de escorraçar Passos Coelho da incompetência e do
crime de empobrecimento com que tem causticado a pátria dos mais pobres.
No meio de isto tudo, emerge, como caixeiro-viajante de uma loja de caixões, o fúnebre Dr. Cavaco. Quem nos acode?
«DN» de 11 Jun 14 Etiquetas: BB
4.6.14
As derivas
Por Baptista-Bastos
A crise no PS talvez servisse para aclarar a natureza daquele partido e
definir, ideologicamente, o que ele representa, ou quer representar. Não
creio que isso vá acontecer. O PS, desde a fundação, anda numa deriva,
não apenas doutrinária como de carácter político. Aliou-se ao CDS, ao
PSD, criou um "centrão" indefinido e uma rede inextrincável de
interesses que invoca, constantemente, para justificar os seus processos
e a racionalização das escolhas orçamentais.
Teve, por escasso
tempo, um estribilho: "Partido Socialista / Partido Marxista", o punho
esquerdo cerrado, e a afirmação de que se destinava a construir uma
sociedade fraterna e, naturalmente, sem classes. A referência a um
qualquer bem comum e o desiderato de modificar o mundo para alterar a
vida "correspondiam ao ar do tempo", como futilmente "esclareceu" um dos
fundadores, para justificar as flutuações do partido. Enfim: as coisas
são como são, e até o PPD, actual PSD, afinou pelo mesmo diapasão,
chegando, mesmo, os seus militantes a tratar-se, amorosamente, por
"camaradas."
Esta crise no PS, outra das muitas, resulta dessa
ambiguidade ideológica, a que os prosélitos mais conhecidos dissimulam
com a retórica da "pluralidade". Afinal, que é ser "socialista"?, num
universo dominado pelas leis do "mercado" e por um capitalismo
desregularizado (como se o capitalismo alguma vez se deixou ou deixasse
"regularizar"). A resposta só pode ser dúbia, porque a própria
característica das sociedades se tornou confusa. Mas chegar-se ao ponto
em que o étimo "socialismo" foi deliberadamente confrontado com as
incertezas trabalhadas pelo adversário, aí, tudo muda de figura. É
verdade que não foi o pobre Seguro o único responsável por tal
mixurafada. Mas foi ele, acaso por ignorância, acaso por tola ambição,
quem transformou o PS num decalque do PSD, sem ninguém saber, realmente,
o que é, hoje, o PSD, se alguma vez se soube. A balbúrdia é geral.
É
este imbróglio doutrinário, político e ideológico que tem determinado a
fadiga dos eleitores e a desconfiança ampliada do povo nos políticos.
Seguro foi vítima deste enredo, que ele próprio animou. E Costa,
emergindo dos prudentes silêncios, põe em causa a circulação do poder,
assumindo o papel de salvador em uma situação que me parece não ter
salvação possível. A grande questão reside no sistema (capitalista, bem
entendido), e na inversão de uma política predadora que se tornou
endémica, previsão de Marx e, calcule-se!, de Aron no ensaio Marxismes
Imaginaires, Idées / Galimard (possuo a edição de Fevereiro de 1970).
Há
uma remodelação a fazer-se como um todo. É uma tarefa aparentemente
impossível, por abalar as estruturas centenárias e cristalizadas, até
agora inabaláveis. Até agora não quer dizer para sempre. E pure si
muove.
«DN» de 4 Jun 14
Etiquetas: BB
28.5.14
E agora?
Por Baptista-Bastos
Era
presumível, depois da baixa notação das eleições, que António José
Seguro tivesse o destino marcado. Mas não era previsível que o
bota-abaixo ocorresse a escassas horas da minguada vitória. A verdade é
que Seguro não era o homem indicado para as circunstâncias. António
Costa sê-lo-á? É uma escolha evidente, e ele próprio manifestou reservas
quanto ao resultado da votação e não entrou na pública ufania de
Seguro. A estocada final foi desferida por Mário Soares (ontem, em
artigo publicado no DN), que não leva desaforo para casa, e fora
deliberadamente ignorado pelo pobre secretário-geral, cuja
imprevidência, neste e em outros casos, roça a infantilidade.
As eleições para as europeias constituem uma espécie de "primárias" das legislativas, destinadas, historicamente, a tomar o pulso à situação. A direita cá do sítio sofreu um abanão e os semblantes dos seus mais distintos expressavam a dor dos sentidos afectados. Porém, os quatro pontos que separam o PS da Aliança Portugal não podiam deixar de desassossegar quem se interessa pelas regras da arte. No interior do próprio partido ganhador, a bonança não criou morada. E tornou-se cada vez mais evidente que Seguro não era o homem adequado à situação, tanto mais sabendo-se que a coligação já começou a preparar a contra-ofensiva.
Ante esta conjuntura problemática e a ambiguidade sem expectativa, a vitória de Marinho e Pinto e a queda do Bloco não são de estranhar. Ambos representam epifenómenos comuns a um desespero institucional que procura salvação. O Bloco perdeu porque talvez houvesse claudicado na sua genuinidade inicial, e Marinho e Pinto ganhou ao encarnar essa genuinidade perdida. A CDU sobe, embora cercada por uma imprensa desfavorável e por uma televisão que quase a ignora, minimizando deliberadamente uma voz que possui a força de uma filosofia, uma doutrina e uma convicção imprescindíveis pela sua própria história. Além de caracterizar quase dois milhões de militantes, adeptos e simpatizantes.
Ante tudo isto, os "barões" do PS ergueram sombras ao que Seguro queria fazer no partido. A escolha de Assis não foi muito bem aceite entre os socialistas mais "à esquerda", porque ele designa a continuidade de uma política de subserviência aos "mercados", e pouco ou nada difere das orientações proclamadas pela direita europeia.
A experiência democrática, trabalhada pela incerteza dos seus actuais dirigentes e pela inextrincável ignorância dos que dizem representá-la nos diversos parlamentos, está a conduzir o mundo a uma irrefragável desgraça. O ovo da serpente foi reanimado e a deputada Ana Gomes não escondeu, no programa Prós e Contras, o horror que eventualmente nos espera. A queda de Seguro pode ser um sinal moderador. Mas a Europa? Tudo nos conduz ao desespero.
«DN» de 28 Mai 14
As eleições para as europeias constituem uma espécie de "primárias" das legislativas, destinadas, historicamente, a tomar o pulso à situação. A direita cá do sítio sofreu um abanão e os semblantes dos seus mais distintos expressavam a dor dos sentidos afectados. Porém, os quatro pontos que separam o PS da Aliança Portugal não podiam deixar de desassossegar quem se interessa pelas regras da arte. No interior do próprio partido ganhador, a bonança não criou morada. E tornou-se cada vez mais evidente que Seguro não era o homem adequado à situação, tanto mais sabendo-se que a coligação já começou a preparar a contra-ofensiva.
Ante esta conjuntura problemática e a ambiguidade sem expectativa, a vitória de Marinho e Pinto e a queda do Bloco não são de estranhar. Ambos representam epifenómenos comuns a um desespero institucional que procura salvação. O Bloco perdeu porque talvez houvesse claudicado na sua genuinidade inicial, e Marinho e Pinto ganhou ao encarnar essa genuinidade perdida. A CDU sobe, embora cercada por uma imprensa desfavorável e por uma televisão que quase a ignora, minimizando deliberadamente uma voz que possui a força de uma filosofia, uma doutrina e uma convicção imprescindíveis pela sua própria história. Além de caracterizar quase dois milhões de militantes, adeptos e simpatizantes.
Ante tudo isto, os "barões" do PS ergueram sombras ao que Seguro queria fazer no partido. A escolha de Assis não foi muito bem aceite entre os socialistas mais "à esquerda", porque ele designa a continuidade de uma política de subserviência aos "mercados", e pouco ou nada difere das orientações proclamadas pela direita europeia.
A experiência democrática, trabalhada pela incerteza dos seus actuais dirigentes e pela inextrincável ignorância dos que dizem representá-la nos diversos parlamentos, está a conduzir o mundo a uma irrefragável desgraça. O ovo da serpente foi reanimado e a deputada Ana Gomes não escondeu, no programa Prós e Contras, o horror que eventualmente nos espera. A queda de Seguro pode ser um sinal moderador. Mas a Europa? Tudo nos conduz ao desespero.
«DN» de 28 Mai 14
Etiquetas: BB
21.5.14
O Gageiro da nossa História
Por Baptista-Bastos
Um
programador insensível e néscio fez projectar, para domingo último, às
22 e 20, no segundo canal da RTP, um admirável documentário de
António-Pedro Vasconcelos sobre Eduardo Gageiro. Nesse mesmo tempo, a
SIC exibia os Globos de Ouro, e comentadores preocupados discreteavam,
filosoficamente, sobre a Taça de Portugal. Para quem ignora, para quem
não quer saber, para os ressentidos e despeitados, Eduardo Gageiro é um
dos maiores repórteres-fotográficos do mundo, cuja sensibilidade vive a
par de um carácter amiúde combativo porque decente e asseado.
António-Pedro viu muito bem a natureza rara deste grande artista, e
conseguiu pô-lo a falar com límpida transparência, fornecendo-nos, e
outros deponentes, a grandeza de um homem que, através da fotografia,
tem revelado, como nenhum outro, a História de Portugal das seis últimas
décadas. E que História! Eis a dor, o sofrimento, a fome e a miséria, a
morte sem remorso nem remissa de um povo amado, comovidamente amado,
por uma câmara que escolhe, selecciona, toma partido nítido e sem
reserva pelos pés-descalços. É o Portugal que há, a pátria que temos e
que Gageiro, com muitos mais, quis transformar. Tristemente, no final do
documentário, diz: e chegámos a isto! O encontro de Vasconcelos com
Gageiro é um momento extraordinário da nossa vida moral e cultural. O
cineasta, não o esqueçamos!, é um intelectual extremamente culto
(stendhaliano de mão diurna e mão nocturna), e as relações que
estabelece entre a obra de Gageiro e a literatura e o cinema não são
inócuas. Por exemplo: na parte final, quando o fotógrafo fala da doença
que o assaltou e das imagens palustres que fixou, como se dissesse adeus
à vida, as semelhanças entre o Tarkovsi de "Nostalghia" não são
referências fortuitas. Essa correspondência faz parte de toda a obra de
António-Pedro, e recordou-me o belíssimo documento que filmou, há muitos
anos, sobre Lopes-Graça, ou o "Jaime", o melhor filme português de
infância já realizado em Portugal; ou o "Aqui d"El Rei!", cuja discreta
ironia passou, lamentavelmente, despercebida.
"Eduardo Gageiro: Um
Século Ilustrado" era para ser exibido em 25 de Abril, e condizia com
um projecto de documentários sobre portugueses ilustres, que
António-Pedro se propusera realizar. Ficou no cesto. Os donos dos nossos
destinos preferem a aldeia endomingada, com Nossa Senhora a protegê-la
da insídia dos que pensam, do que os sobressaltos da imaginação dos que
opõem a razão e o talento à treva.
Mas o que importa é que
continua a haver pessoas como o Gageiro e o António-Pedro, mais alguns
outros, que enfrentam os adamastores de todos os medos. A memória faz
parte desse combate. E este documentário faz parte dessa memória. Ao
falar de Gageiro, António-Pedro fala de Portugal.
«DN» de 21 Mai 14 Etiquetas: BB

