23.2.07

A ÚLTIMA CAUSA DA ESQUERDA

COM AS DÉCADAS HABITUAIS DE ATRASO, Portugal passou a ter um regime mais ou menos europeu de interrupção voluntária da gravidez. Uma mudança que, ainda que contasse com o apoio de algumas cabeças menos teológicas da direita, foi pelo que contém de desejo de inovação, de oposição ao conservadorismo como princípio e por estar preocupado com os interesses da maioria – em especial dos mais desfavorecidos - uma genuína causa da esquerda.
Só é pena que não haja mais.
Não há mais porque a ideia de um projecto de mudança sempre foi a marca distintiva da esquerda e o que marca hoje a esquerda portuguesa é o mais exacerbado dos conservadorismos: aquilo que resta da esquerda do Bloco de hoje ao PCP está inteiramente hipotecado aos sindicatos do sector público e o seu único projecto é conseguir manter ou aumentar as transferências do sector privado para o sector público. O défice do orçamento é um falso problema e o IVA podia estar a 25%.
As greves a que assistimos hoje são dos transportes públicos (atingindo aquela parte da população que os utiliza) para conseguir a subsidiação pública que garante que os salários e as condições gerais de trabalho se mantenham bem acima de trabalho igual no sector privado.
As manifestações são dos sindicatos de professores empenhados em que tudo continue como está e garanta a manutenção de um dos piores sistemas de ensino da Europa. Poderíamos continuar mas não vale a pena. A esquerda apoia mesmo os militares quando estes exigem que uma parte maior do PNB seja atribuída a despesas com a defesa.
O facto de ser hoje no sector privado que se verificam os mais baixos salários e as piores condições de trabalho não pesa nos seus projectos porque nesses sectores não há sindicatos.
Por isso, a questão central de um projecto unificador que correspondesse ao interesses legítimos do maior número desapareceu quando actividade e projecto da esquerda começa a querer dizer reivindicações dos sindicatos do sector público ou – o que é ainda pior – apoio a estruturas tão sinceramente dedicadas ao bem público (de uma forma muito peculiar) como a Associação Nacional dos Municípios.
O Bloco de Esquerda ou o PCP nada têm a dizer sobre as causas estruturais que levaram ao apodrecimento generalizado do poder local. Votaram mesmo contra a nova Lei das Finanças Locais com as suas tímidas tentativas de responsabilizar politicamente os autarcas pelas despesas que fazem. Continuam a defender o processo dos fundos de redistribuição Orçamento do Estado/Município que separa a decisão de gastar da decisão de cobrar e que legitima o desperdício e a corrupção.
Tudo isto torna a vitória do sim no referendo do aborto um período de viragem na sociedade portuguesa. A direita rural e conservadora deixou de reinar na zona dos costumes (que ainda dominava) mas ao mesmo tempo a esquerda mostra-se cada vez mais sem projecto e sem programa: como se a teimosia factual do imperativo financeiro de equilíbrio das contas públicas matasse às nascença qualquer outro projecto de mudança.
«Expresso» de 17 Fev 07

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6 Comments:

Blogger Manolo Heredia said...

Apoiado!
Alguma sugestão para alterar este estado das coisas?

23 de fevereiro de 2007 às 13:56  
Blogger Carlos Esperança said...

Mais um tiro certeiro. Parabéns.

24 de fevereiro de 2007 às 01:50  
Anonymous Anónimo said...

Quem te viu e quem te vê oh Saldanha. Vendeste-te completamente a este PS de direita, autoritário, autista. Onde estavas quando os sindicatos e os trabalhadores se batiam contra o Código do Trabalho? E quando saem à rua em manifestações gigantescas? Não fales da esquerda, não fales do que não conheces

24 de fevereiro de 2007 às 11:47  
Anonymous Anónimo said...

Todos estes argumentos são respeitáveis, quando a justiça funcionar e a luta contra corrupção, também. Se não, parece-me a conversa de frei Tomás...

24 de fevereiro de 2007 às 15:38  
Anonymous Anónimo said...

Desde que não haja oportunismo nem desonestidade, compreendo perfeitamente (e aceito) que, passados 20 ou 30 anos uma pessoa pense de forma diferente. E respeito-a quando defende as suas opiniões, muito especialmente se dá a cara, não se escondendo atrás de anonimatos...

24 de fevereiro de 2007 às 17:27  
Anonymous Anónimo said...

É uma evidência que o que S. Sanches defende hoje não tem nada a ver com o que defendia nos tempos do PREC. Mas não consta que essa mudança de ideias tenha ocorrido ao sabor dos vários governos.

Por isso, julgo que o que mais importa é analisar o que defende hoje. E, se se quiser ter esse trabalho, apreciar se ele o faz com inteligência, lucidez e convicção, 3 qualidades que, quanto a mim, estão patentes no texto que aqui afixou.

Quanto a achar se ele tem razão ou não, isso já depende das opiniões de quem lê.

24 de fevereiro de 2007 às 17:52  

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