12.7.07

DIAS CONTADOS

Vale que as camisolas não são cor-de-rosa
Por Alberto Gonçalves
SINCERAMENTE, não me aflige que uns brasileiros e argentinos do Futebol Clube do Porto tenham obtido o visto de trabalho mediante fraude. Aliás, nem percebo o recurso a ilicitudes se os jogadores em causa vieram para Portugal exercer a profissão, com contrato assinado e etc. O único escândalo da história é o facto de os funcionários do SEF alegadamente envolvidos na tramóia se venderem por, e cito, camisolas dos futebolistas e bilhetes para os jogos.
E um par de peúgas, ninguém lhes ofereceu? Não conheço o salário dos assalariados do SEF, mas julgo que será o bastante para poderem abdicar de uma T-shirt pindérica a título de suborno. É verdade que certa ocasião, na fronteira marroquina, "comprei" um guarda implicativo com uma caneta de plástico, e talvez uma Parker de dez euros me rendesse a eterna reverência de toda a polícia local. Sucede que, até prova em contrário, Portugal não é Marrocos. O país que ocupa a presidência da UE podia, no mínimo, dar uma espécie de exemplo.
Em vez de anunciar planos grandiosos e impraticáveis para eliminar a corrupção na administração pública, o Governo faria melhor em nivelá-la por padrões civilizados. Em países desenvolvidos, os "favores" pagam-se com automóveis de gama média, férias nos trópicos ou, se os corrompidos andam realmente precisados de roupa, dois fatos de bom corte. Cometer ilegalidades por menos que isto é afirmar, mesmo que indirectamente, a nossa miséria. Em última instância, constitui um enxovalho ao Estado e, consequentemente, uma ofensa ao Governo, pelo que os seus perpetradores deveriam ser alvo imediato da já clássica série: denúncia, suspensão, inquérito e exoneração. Aceitar camisolas de licra em troca de falcatruas é uma anedota tão intolerável quanto as que correm sobre o primeiro-ministro. E quase tão engraçada.
«DN» de 8 de Julho de 2007 - [PH]

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